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	<title>Arquivos Drops - Revista Trama</title>
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	<description>Arte, Cultura e Criatividade</description>
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		<title>Território Natural e Descaso Social</title>
		<link>https://revistatrama.artebodoque.com/2020/01/30/o-desmonte-anunciado-para-os-anos-2020-2/</link>
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		<pubDate>Fri, 31 Jan 2020 00:00:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Drops]]></category>
		<category><![CDATA[Brasil]]></category>
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		<category><![CDATA[Hélio Rocha]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: Hélio Rocha</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="has-drop-cap">A questão da vulnerabilidade da moradia entra em pauta sempre que vêm as estações chuvosas, no Brasil, assim como sempre que a mineração deixa seu rastro de destruição por sobre comunidades vizinhas que não têm nenhuma relação ou ganho com o que realiza a atividade extrativista. Há poucos dias, inclusive, cumpriu-se um ano do desastre de Brumadinho, que levou à morte de quase 300 pessoas e atingiu uma imensa área de comunidades rurais. Em ambos os casos, trata-se de uma questão que associa o social ao territorial, amplamente debatida por geógrafos e uma das questões fundamentais para a sociedade e o meio ambiente na contemporaneidade.</p>



<p class="has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background">O território, o espaço, é uma das instâncias em que se reproduzem as injustiças sociais. Por isso o atrelamento tão forte entre o social e o ambiental, embora os segmentos conservadores não queiram enxergar os dois e, inclusive, parte dos setores progressistas de nosssa sociedade não queiram compreender a importância deste último, visto ainda acreditarem em conceitos desenvolvimentistas do século XX que contemplam o viés econômico da busca por qualidade de vida, premente aos pontos de vista indentitário e ambiental. Portanto, se se quer identificar onde estão os territórios ambientalmente mais vulneráveis de nossa sociedade, simplesmente busquem por onde vivem os mais pobres.</p>



<p>A questão espaço-exploração, que ao mesmo tempo tem um pé no social e outro no ambiental, já foi debatida amplamente por um dos principais pensadores brasileiros, o geógrafo Milton Santos, que define a ocupação espacial e, principalmente, a ocupação urbana no Brasil como um produto da exclusão, isto é, do progressivo deslocamento de comunidades baseado no interesse dos grupo econômicos, tanto em alijar certos cidadãos de determinado território a fim de ocupá-lo ou explorá-lo (a chamada gentrificação), quanto em agregar massa trabalhadora a determinada região extrativista, industrial ou comercial (vide Serra Pelada, Eldorado dos Carajás etc).&nbsp;</p>



<p>A questão está presente desde a revolução industrial e o chamado “cercamento dos campos”, quando medidas econômicas, tributárias e, por fim, policiais, forçaram gerações de camponeses a abandonar suas terras para aninharem-se nas grandes cidades como trabalhadores das indústrias, o que lhes restava após perderam a subsistência da pequena propriedade rural. Dava-se fim aos últimos traços de feudalismo ainda existentes na Europa Ocidental, a população campesina, para dar o passo definitivo no caminho da contemporaneidade, a sociedade urbana, da produção por uma imensa massa trabalhadora para o consumo de todos, sendo mais restrito o poder de consumo na medida em que se caminha para a base da pirâmide social.</p>



<p>Houve, no entanto, uma inversão da ocupação territorial desde então. Da massa trabalhadora concentrada nos grandes centros industriais e da burguesia afastada nas mansões nos subúrbios de Londres, Manchester, Hamburgo e Paris, chegou-se ao metro quadrado mais caro do Brasil nas avenidas Paulista e Faria Lima, esta última a meca dos novos milionários brasileiros, ambas em São Paulo, ao passo que o trabalhador, não mais necessário no centro da logística do capital, é alijado às frágeis periferias.&nbsp;</p>



<p>Esse movimento micro-migratório decorrente dos interesses capitalistas se dá por um processo de avanços nas comunicações, que reduz a distância com que viaja a informação entre a fábrica e o proprietário, não necessitando este estar presente na consecução do produto ou atividade-fim (o que inclui produtos físicos ou abstratos, desde um celular até uma transação bancária). Além da automação da produção, sendo o corpo humano aí já desnecessário (o robô na linha de montagem, a informatização do caixa do supermercado, do frentista do posto de gasolina, do ascensorista e do porteiro nos arranha-céus), dispensando o imediatismo na relação entre o trabalhador e a eficácia da produção. Sendo assim, os espaços centrais se tornaram o local onde estão os escritórios, os centros de comando. E, claro, onde vivem tais coordenadores e aqueles que ainda lhes prestam serviços diretos (médicos, advogados, alguns professores, jornalistas, prestadores de serviços em geral), pagando caro para aí morar.</p>



<p>Num sentido inverso, a produção agora se encontra nas periferias, e para lá foi deslocada, com o passar do tempo, a classe operária. Fábricas, usinas de extração de quaisquer bens minerais, entrepostos de alimentos e combustíveis, concentram-se às beiras de estradas das grandes cidades, assim agregando as camadas mais pobres da sociedade. Pior para aqueles que ainda têm de servir ao centro, como funcionários do comércio, dos transportes urbanos, de terceirizadas de empresas, além dos agora trabalhadores por aplicativo, que têm agregada à sua jornada de trabalho o trânsito entre ambos os territórios.</p>



<p>Tudo isso para tecer o argumento de que, ante a dicotomia territorial que replica a divisão entre ricos e pobres nesta sociedade, vê-se a valoração dos espaços que estas habitam e onde convivem e produzem, sendo menos importantes as áreas periféricas urbanas e as pequenas propriedades rurais. Da relação entre sociedade e espaço natural nasce o descaso social quanto ao saneamento e a segurança territorial nas periferias, que caminha lado a lado com o abuso exploratório e a negligência quanto à conservação de áreas rurais ocupadas pela população campesina. O descaso para com o espaço social também é descaso quanto ao espaço natural, argumenta Santos, amalgamando-se ambos na tragédia que é a conservação da qualidade de vida e do meio ambiente no Brasil.</p>



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<p><strong><strong><strong><strong><strong><strong>Hélio de Mendonça Rocha</strong> </strong></strong></strong></strong></strong>é jornalista. Atua como repórter de meio ambiente e direitos sociais para a revista Plurale e como analista político para os jornais Brasil 247 e El Siglo de Chile. Foi correspondente internacional na China em 2019.</p>



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<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/9acee-publi-ediccca7acc83o-impressa-1.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-5668" data-recalc-dims="1" /></figure>





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<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.artebodoque.com/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/a89c8-publi-bodoque2.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-4736" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



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<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-large-font-size">Galeria</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/b537e-fotos-carol-copy.jpg11-1021x1024.jpg?resize=950%2C953&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-6946" data-recalc-dims="1" /></figure>



<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-medium-font-size"><em>Apoie causas humanitárias. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>
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		<title>O desmonte anunciado para os anos 2020</title>
		<link>https://revistatrama.artebodoque.com/2020/01/23/o-desmonte-anunciado-para-os-anos-2020/</link>
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		<pubDate>Thu, 23 Jan 2020 18:42:54 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 029]]></category>
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		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Hélio Rocha]]></category>
		<category><![CDATA[política]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: Hélio Rocha</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="has-drop-cap">A metade final da década de 2010 indicou o esgotamento da relação capital-trabalho estabelecida na Europa desde o final dos anos 1980, quando aprofundaram-se os princípios de bem-estar social, atingindo-se pináculos como a renda mínima universal, a legalização do consumo de drogas com fornecimento pelo Estado no sistema público de saúde com vistas à redução dos danos, a moderada abertura das fronteiras para trabalhadores vindos das ex-colônias e dos países árabes próximos. Tal processo mudou a cara dos países europeus, e ganhou réplicas em todas as partes do mundo.</p>



<p>Especialmente na América Latina, onde os anos 2000 foram marcados pelo avanço do modelo de bem-estar gestado na Europa, com iniciativas adaptadas ao contexto social e político local, tais como a inclusão de minorias para o acesso à universidade e aos serviços públicos pelo sistema de cotas, as tardias iniciativas de acolhimento às demandas das minorias, como lei contra a agressão à mulher, em favor do aborto (em certos casos, variando de país para país), em favor do uso do nome social por individuos transexuais etc, e também na parte social, com eficazes programas de redistribuição de renda. A esse último, acompanha o forte papel do Estado e a manutenção de sua atuação como regulador da economia, em grande parte por meio de suas estatais do setor bancário, para facilitar o acesso ao consumo.</p>



<p>O esgotamento desse modelo se deu após a crise de 2008. O diagnóstico inicial, de que se tratava do produto do fechamento das grandes instituições financeiras à massa de três quartos da população mundial (sua esmagadora maioria nos países pobres e emergentes), levou à equivocada previsão de que o decênio seguinte mostraria ao mundo um cenário multipolar, com novos protagonistas mundiais como China, Índia, África do Sul, Turquia, Brasil, Irã, Indonésia.&nbsp; Mesmo nos Estados Unidos, o país mais liberal do mundo, o governo recém-eleito de Barack Obama rendeu-se às políticas sociais do presidente brasileiro “Lula da Silva” e buscou iniciar, em vão, uma reforma social a partir de um sistema público de saúde. Desses prognósticos, apenas a China conseguiu confirmar seu novo papel político e econômico na cena internacional.</p>



<p class="has-text-color has-background has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color">Os motivos pelos quais não ocorreu o indicado pelos analistas é conhecido desde a chamada “Primavera Árabe”, que iniciou o uso das redes sociais como ferramenta de “guerra híbrida ou informacional” para a desestabilização política e econômica dos países emergentes e, desde então, degringolou internamente a maior parte desses potenciais novos “players” da economia mundial. Essa primeira onda de ataque aos países emergentes resultou na ascensão ilegítima de regimes com verniz democrático e viés excludente e autoritário, como em Brasil, Turquia, Itália, Ucrânia, Chile, Bolívia, Equador, ou na estabilização de regimes que se tornaram subservientes ao novo status quo mundial, caso de África do Sul, Índia, México, Egito, Indonésia. Entre outros, em ambas as listas.</p>



<p>O que importa é que, ainda mais diante da ascensão da China e a nova bipolarização da geopolítica mundial, com a chamada “guerra comercial” replicando o cenário e tensões da Europa pré-guerra dos anos 1910, o ataque do capital financeiro foi na contramão do mundo mais inclusivo que se imaginou dez anos atrás. Com o caminho aberto pela estratégia de guerra híbrida das grandes potências, a pressão que começa nos anos 2020 é pela completa fragilização das garantias sociais para maximização dos ganhos da seguridade social privada, concentrada em mãos de bancos, seguradoras e planos de saúde.&nbsp;</p>



<p>Da França ao Chile, o confronto social como resposta à precarização completa da relação capital-trabalho, ante completa ausência de proteção pelo Estado, deu início desde 2018 a mobilizações de rua que tendem à radicalização (não tão incentivada quanto na Primavera Árabe, por óbvias razões), visto que a completude da estratégia do capital financeiro resultaria num cenário para os trabalhadores próximo ao do pré-guerras, isto é, de relação direta entre o trabalhador e a figura patronal, com exígua (ou inexistente) margem para negociação de direitos e qualidade de vida.&nbsp;</p>



<p>Os anos 2020 prometem uma luta ferrenha e desigual pela manutenção das conquistas das décadas anteriores, com a expectativa de que, apenas com a dinâmica alteração da tessitura das relações políticas e econômicas internacionais, assim como da situação interna dos países, possa haver real reversão do quadro em andamento. O mundo, hoje, gira muito mais rápido que há 20 anos, e é melhor que gire mesmo. Na atual conjuntura, as mobilizações de rua que tomam, sobretudo, a França e o Chile, não darão contas de, sozinhas, mudar o cenário que se desenha para os trabalhadores.</p>



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<p><strong><strong><strong><strong><strong><strong>Hélio de Mendonça Rocha</strong> </strong></strong></strong></strong></strong>é jornalista. Atua como repórter de meio ambiente e direitos sociais para a revista Plurale e como analista político para os jornais Brasil 247 e El Siglo de Chile. Foi correspondente internacional na China em 2019.</p>



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<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/9acee-publi-ediccca7acc83o-impressa-1.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-5668" data-recalc-dims="1" /></figure>





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<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.artebodoque.com/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/a89c8-publi-bodoque2.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-4736" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



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<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-large-font-size has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color">Galeria</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/4473c-fotos-carol-copy-1.jpg7_-1-1021x1024.jpg?resize=950%2C953&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-4982" data-recalc-dims="1" /></figure>



<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-medium-font-size has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color"><em>Apoie pautas identitárias. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>
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		<title>As Guerras são feitas por água e comida</title>
		<link>https://revistatrama.artebodoque.com/2020/01/16/as-guerras-sao-feitas-por-agua-e-comida/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 16 Jan 2020 11:55:15 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 028]]></category>
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		<category><![CDATA[guerra]]></category>
		<category><![CDATA[Hélio Rocha]]></category>
		<category><![CDATA[política]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Hélio Rocha</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="has-drop-cap">O argumento de hoje começa com duas histórias aparentemente muito distantes, mas próximas em sua moral e sua relação com os dias de hoje. Uma se passa nos campos de arroz da China, em 1830. O outro, nos anos 1990, na Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo (Ceagesp).</p>



<p>No século XIX, um emissário do primeiro-ministro do Reino Unido foi ter com um secretário do Imperador da China. Ao encontrá-lo, o secretário mostrou-lhe todas as plantações de arroz que se perdiam no horizonte chinês, além de pequenas criações de animais, raízes e hortaliças, que eram de posse dos camponeses e rendiam, ao Imperador, tributos em troca de sistemas logísticos (estradas, moinhos, barragens) e proteção. Questionado se havia forças militares em defesa do Imperador, ele disse que sim, mas que as revoltas internas eram pequenas e não exigiam muito. A saber, a China dispunha de poucos arqueiros, escassos navios e sequer a pólvora, criação chinesa, era usada como arma.</p>



<p>Olhando para tudo aquilo, o emissário de Londres questionou: mas por que não permitir que os camponeses troquem entre si, aumentem o preço de seus produtos, enriqueçam, ao invés de permanecerem sob proteção de uma elite mais rica? O secretário respondeu: aqui é o reino da harmonia. Todos são ricos ou todos são pobres, conforme a vontade dos céus. Qual a lógica de uma família trocar seus produtos por mais do que vale, estrangeiro? Respondeu o britânico: se há mais batatas e menos cenouras, estas últimas valem mais que as primeiras. Rebateu o chinês: se há mil batatas e duzentas cenouras para duas famílias, então o Imperador faz com que haja setenta e cinco cenouras com cada família e cinquenta com o Império. Quatrocentas batatas com cada família e duzentas com o Império, de modo que todos estejam iguais, produtivos e seguros. E como é no seu pais: são todos iguais, produtivos e seguros?</p>



<p class="has-text-color has-background has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color">A historinha da dinastia Qing teria dado início à dominação inglesa na China, pois daí os britânicos teriam percebido que teriam ali uma imensa nação econômica e militarmente fraca a dominar. E muito alimento a receber. Por outro lado, permite ver o quanto os chineses já estavam, dois séculos atrás, preparados a assimilar o socialismo real como nenhuma outra.</p>



<p>A segunda ocorreu em São Paulo. Chefes de duas tribos indígenas, um do Alto Xingu e outro da calha do Madeira, receberam, no Dia Internacional do Índio de 1998, uma equipe do Globo Reporter, tradicional programa de reportagens em profundidade das noites de sextas-feiras na TV Globo. Primeiro, ainda na tribo, apresentaram seus alimentos vegetais, divididos em hortas sazonais, de modo que uma tinha o solo descansando da última colheita, outra tinha a terra preparada para futuro uso, outra estava em fase de plantação e uma quarta estava a ponto de ser colhida. Numa palhoça próxima, um reservatório pequeno.</p>



<p>Apresentaram-lhes, então, a ideia de conhecer o maior reservatório de comida do mundo, o Ceagesp, em São Paulo. Aceitando a empreitada, os chefes entraram no avião da emisorra e viajaram milhares de quilômetros para encontrar toneladas e toneladas de grãos, raízes, frutas, carnes, temperos e especiarias, flores, alimentos e plantas infindáveis que se espalhavam por quilômetros quadrados de atacado. Os indígenas assustaram-se, quase se perderam em meio ao labirinto de banquinhas e vendedores, sem perceber que eram usados pela reportagem num tom de humor, usando e abusando do estereótipo do índio ignorante.&nbsp;</p>



<p>No entanto, quando um dos chefes avistou um grupo de crianças que esperava comidas caírem do chão para pegá-las, perguntou: por que esse menino come as comidas do chão? O repórter respondeu: é porque ele tem fome. O outro chefe, então, imediatamente respondeu: que fome? O que não falta aqui é comida. E, com suas próprias mãos, pegou dois sacos de frutas de uma banquinha próxima e deu ao menino. Depois, disse ao repórter que tinha entendido o que era aquilo e não se interessava mais pelo convite.</p>



<p>As duas historias revelam o quanto culturas concebem o alimento de forma diferente da nossa, ocidental. Assim como elucidam a distribuição da comida como riqueza fundamental, de onde derivam todas as outras. De séculos em séculos, sociedades diferentes e incomunicáveis desenvolveram seus métodos de se organizarem e garantirem suas seguranças física (o que começa com a descoberta do fogo e termina com a formação dos grupos armados) e principalmente alimentar. Hoje, acrescenta-se a estas a informacional.&nbsp;</p>



<p>No entanto, no encontro de uma com outra civilização, a busca pela garantia da segurança alimentar, numa ou duas culturas que não admitem a partilha, leva ao conflito. Na necessidade de repelir a ameaça do outro pelo controle do alimento, um grupo se proclama “a civilização” e busca se impor, baseado em valores morais importantes para manter a união e a identidade do povo, igualmente diferente dos outros valores morais do agora inimigo. Na verdade, a moral e os valores são o pretexto, o que vale é a riqueza. O alimento.</p>



<p>Assim, num mundo que em que Ocidente é cristão e moldado pelos valores da Europa e dos Estados Unidos, é latente a necessidade de se negar o modo organizacional do oriente, seja este a China ou o Oriente Médio. Hoje, militarmente débil em relação aos Estados Unidos, o Irã é a bola da vez. Lá existe o alimento mais importante da humanidade, e ele não é o valioso açafrão, e sim o petróleo.</p>



<p>Uma lástima que tudo seja culpa da (in)segurança alimenta em nossa sociedade. No fim das contas, é por comida e água, que chegam à nossa mesa por meio de infindáveis cadeias que têm por motor inicial o petróleo e o gás, que existe todo conflito. Ou alguém duvida de que norte-americanos e europeus comem melhor (à parte a discussão nutricional), que africanos, árabes e latino-americanos?</p>



<p>As guerras, ao fim e ao cabo, são por água e comida.</p>



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<p><strong><strong>Hélio de Mendonça Rocha</strong> </strong>é jornalista. Atua como repórter de meio ambiente e direitos sociais para a revista Plurale e como analista político para os jornais Brasil 247 e El Siglo de Chile. Foi correspondente internacional na China em 2019.</p>



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<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/9acee-publi-ediccca7acc83o-impressa-1.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-5668" data-recalc-dims="1" /></figure>





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<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.artebodoque.com/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/a89c8-publi-bodoque2.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-4736" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



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<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-large-font-size has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color">Galeria</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/4473c-fotos-carol-copy-1.jpg7_-1-1021x1024.jpg?resize=950%2C953&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-4982" data-recalc-dims="1" /></figure>



<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-medium-font-size has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color"><em>Apoie pautas identitárias. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>
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		<title>Das Crueldades e dos Chocolates</title>
		<link>https://revistatrama.artebodoque.com/2019/12/18/das-crueldades-e-dos-chocolates/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 18 Dec 2019 18:52:02 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Drops]]></category>
		<category><![CDATA[Aurora Rodrigues]]></category>
		<category><![CDATA[Criatividade]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[sensibilidade]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: Aurora Rodrigues</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="has-drop-cap">Ninguém tem coragem de falar, mas eu falo. Se você vive amplamente imerso no contexto digital, já leu a nossa frase de início, no geral ela vem acompanhada de uma opinião muito pessoal, impopular ou não, dependendo do que se fala. Eu não vou te abrir um guarda chuvas quanto às minhas opiniões , mas juro que, como sociedade, <strong>deveríamos abrir o inconsciente coletivo e abranger o espaço de discussão sobre aparência</strong>, a sensação de coisa velha e ainda a importância das uvas passas , a capacidade gigante que o halls preto tem de formar novos viciados e o quanto açaí é ruim. Coisas que ninguém tem coragem de falar, mas eu falo.</p>



<p>Outro fato que ninguém tem a coragem de falar, se refere a um dos quadros mais cruéis da vida, <strong>o banho de chocolate.</strong><br>Não. Eu não tô falando de um novo tratamento estético que tem ganhado os salões mais requintados e &#8220;in&#8221; do Brasil. Tô falando do banho de chocolate. Aquele, que faz os bombons, pães de mel. Melhor, tô problematizando o banho de chocolate.</p>



<p><br>Porque? Pra mim, <strong>o banho de chocolate é o típico retrato da falta de responsabilidade humana.</strong> Você tira uma coisa de um estado que aparentemente ela estava bem, a não ser que você tenha a ouvido reclamar, é desavisadamente, da forma mais inesperada possível, você afoga ela num mar de chocolate. Você se torna de um momento pro outro, friamente, um fazedor de tsunami de chocolate. Para o seu próprio deleite.<br>Isso me lembra todo o filme &#8220;A fantástica fábrica de chocolate&#8221;, quando Willy Wonka é chamado pelo Príncipe Pondicherry para construir um palácio de chocolate. E o castelo, Querido Leitor, não era mero delírio fetichista, igual a Anne Hathaway de mulher gato no filme do Batman, era um castelo de cem aposentos, todo construído de chocolate. Também não era o capricho de um chocólatra, o Príncipe planejava morar no castelo. No meio da Índia. É essa cena que eu quero que você imagine, pois é isso que estou problematizando. Você, naquele palácio que derreteu, é o doce no meio do banho de chocolate.</p>



<p class="has-text-color has-background has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color">Eu não tô tentando fazer ninguém ficar com nojo de chocolate, pois nesse momento estou escrevendo acompanhada de um, mas se imagine, no meio daquela água densa, o cheiro do chocolate, aquela açúcar toda grudando no seu corpo. E quando começar a endurecer? É uma experiência perturbadora, tanto pro doce quanto para quem estiver de baixo do Castelo.</p>



<p>Pareço exagerada? Ou você que nunca havia pensado em quão cruel tudo isso pode ser?</p>



<p>E se a gente transportar as situações? Assim como um músico transpõe a partitura pra todos os instrumentos de uma orquestra. Eu quero chegar em algum lugar.</p>



<p>Muitas vezes somos ingredientes separados, bons separados ou um bom e outro não tão bom (para todas aquelas formas de usar bom pra não falar ruim.) As vezes somos um ingrediente e um leite condensado, (menos damasco, damasco fica ruim com leite condensado), que separados são bons, mas juntos, resultam nessas infinidades de brigadeiros surgidos no final dessa década, dados pela geração gourmet. As vezes é só o banho de chocolate.</p>



<p><strong>E se agora você entendeu que por banho de chocolate eu tô falando sentimento, parabéns.</strong> O banho de chocolate real não tem como ser de uma forma diferente. É mergulhar e pronto, esperar que o trabalho esteja feito, <strong>mas pra sentimento a gente precisa de responsabilidade.</strong> Quando envolve outra pessoa, é injusto joga-la numa panela de sentimento líquidos e misturados, que passaram pelo processo de corte e de fogo, que saíram da ebulição e quando você achar que tá bom, tira.</p>



<p>Fazer uma festa no seu palácio de chocolate no meio da Índia, é crueldade quando você sabe que tá calor. Ninguém sai de casa com uma boia ou uma máscara de mergulho</p>



<p>O doce que sai do banho de chocolate, precisa secar, separado e distante. Sofrer a ação do vento, do tempo. Só que o doce que sai do banho de chocolate, não sai mais forte. As vezes, nem do banho de chocolate ele sai direito. Tem doce que desmancha dentro do banho, tem doce que quebra na hora de secar, tem doce forma bolha de ar, tem doce que no primeiro toque, quebra, tem doce que pega chocolate demais e fica impossível de morder.<br>Tudo isso é sair de uma enchente. De chocolate.</p>



<p>É estar perdido, sem entender nada, sem saber como respirar. Sofrer a ação do tempo e endurecer. É quebrar no primeiro toque, desmanchar no meio da vida.</p>



<p>O doce foi feito pra isso.</p>



<p>A gente não.</p>



<hr class="wp-block-separator" />



<p><strong>Aurora Rodrigues</strong> é estudante de literatura e anda escolhendo quem quer ser, mas não encontrou saída para a alergia a amendoim, a paixão por jujuba e o ódio por guaraná Antártica. Quanto ao resto, tem usado o próprio nome para tentar refletir o renascer dentro de si</p>



<hr class="wp-block-separator" />



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i1.wp.com/blog.artebodoque.com/wp-content/uploads/2019/12/PUBLI-EDIÇÃO-IMPRESSA.png?fit=970%2C422&amp;ssl=1" alt="" class="wp-image-5651" /></figure>





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<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.artebodoque.com/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/a89c8-publi-bodoque2.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-4736" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



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<hr class="wp-block-separator" />



<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-large-font-size has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color">Galeria</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/4473c-fotos-carol-copy-1.jpg7_-1-1021x1024.jpg?resize=950%2C953&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-4982" data-recalc-dims="1" /></figure>



<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-medium-font-size has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color"><em>Apoie pautas identitárias. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>
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		<title>12. Matilda</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 15 Dec 2019 21:27:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 001, N 027]]></category>
		<category><![CDATA[Drops]]></category>
		<category><![CDATA[Em Tempos de Estricnina]]></category>
		<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[desenvolvimento Humano]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[ONU Brasil]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: Darlan Lula</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="has-drop-cap">A feira fervilhava naquela manhã. O céu de brigadeiro anunciava um sol abrasador ao meio-dia. Para Felipe, seria um domingo como outro qualquer se não estivessem tão presentes nele os acontecimentos da semana anterior. Seria um dia a mais vivido naquela cidade do interior das Gerais, ele indo à feira acompanhando seu pai na rotina sempre presente dos finais de semana.</p>



<p>O despertar de sua consciência aconteceu quando percorreu a galeria dos açougues no galpão, cena percebida como dantesca por quem não entende a realidade de se ter carne abatida na soleira do desjejum que não necessita de refrigério, uma vez que é toda adquirida antes de o sol abrasar as moleiras lá fora. Carnes à mostra, peças expostas sacolejando nos ganchos, moscas zumbindo ao redor. O tempo se preenchia pela ampulheta ambulante das peças nos ganchos ao atrito das mãos dos vendedores. As vivas gotas do sangue escorrendo pelos corpos mortos daqueles animais formavam pequenas manchas vermelhas e mornas no assoalho do estabelecimento.</p>



<p>Ao sentir aquele cheiro acre que recendia no ambiente, Felipe recordou-se dos desagradáveis instantes da semana anterior, em que seu irmão mais velho o acordara.</p>



<p>O pai complementava o orçamento criando porcos nos fundos do quintal de sua casa. Quando os notava nutridos e bojudos, cheios de futuros bacons, passava-lhes o reverso do machado na testa, antes persignando-se três vezes, tradição de família.</p>



<p>A porcada era a alegria dos filhos do lavrador, menos para o menino mais velho, 14 anos no lombo, que ficava com a parte mais ingrata do serviço: recolher os restos orgânicos da vizinhança para a lavagem da suinaria.</p>



<p>Na véspera do acontecido, podíamos avistar o garoto ao entardecer, com um velho carrinho de mão e um balde improvisado de 50 litros em cima e os irmãos logo atrás, saltitantes e festivos, recolhendo pequenas pedras no chão irregular e terroso do trajeto. Nina era a mais eufórica, completara 7 anos e ainda ganhara um bônus ao achar uma pequena boneca nos entulhos de uma construção. Está certo que estava sem roupa, cabelos ralos e desgrenhados, vitimada por estar maneta, mas, mesmo assim, era uma boneca, e, a partir daquele instante, era sua. Segurava-a com o zelo de uma mãe e a religiosidade de uma beata ao amparar a sua hóstia. Felipe preenchia o seu vazio com as pedrinhas no bolso.</p>



<p>&#8211; Vem logo! Vocês querem vim, né? Não vou ficar esperando ninguém. Gritava impaciente o moço do carrinho de tempos em tempos olhando para trás.</p>



<p>Felipe e Nina, então, aprontaram uma correria de arrastar chinelos e levantar poeira. Mas o momento mais esperado por eles e o motivo daquele cortejo era a entrega da lavagem aos porcos. Enquanto o ranzinza irmão recolhia os despojos nutritivos para preencher as valas, Nina e Felipe, com os queixos apoiados nos vãos da cerca do chiqueiro, olhos fitando o infinito, observavam atentos a agitação dos animais, quatro adultos, sendo duas fêmeas, uma delas com cinco leitõezinhos com os focinhos colados em seu corpo sugando o leite materno. Ao perceberem a chegada da comida, eles se alvoroçaram, inclusive a pachorrenta mamãe, que se levantou bruscamente causando rebuliço nos pequenos e dando uma bela patada em um deles, que guinchou um sonoro reclame. Todos ali tinham nome, menos, ainda os filhotinhos. O maior chamava-se Rabicó, as duas fêmeas, Xuxa e Matilda, e o outro, Lipe, nome dado pelo primogênito para atiçar as ventas do garoto Felipe. Matilda era a preferida, o xodó da família. Corpo rosado, porte airoso, olhar de candura, tinha um jeito com as crianças que chegava às raias da humanidade. Encostava a sua narina achatada nos meninos todas as vezes que eles abeiravam a cerca. Em troca, recebia um afago em sua cabeçorra. Grunhia e afastava-se cheia de si carregando o seu viçoso corpo.</p>



<p>Do umbral da porta de casa, o velho lavrador, rosto sulcado e maltratado pelo tempo e pela lida no campo, mãos enfiadas na cintura, ruminava um resto de maçã e fitava aquela cena doméstica preocupado com o efeito da notícia que daria ao jantar. No pomar, fundos da casa, um sabiá-laranjeira trinava harmoniosamente escondido entre as folhas do cajueiro. A noite começava a despontar no horizonte salpicado de nuvens avermelhadas, um vento fresco soprava e varria o quintal de forma desordenada, arrefecendo um pouco o calor do dia. Nina e Felipe perceberam o agitar das folhas e começaram a correr por entre elas numa ciranda inventada com o conúbio com a natureza. A cena se desfez quando ecoou a voz grave do pai chamando-os para o jantar. Na cozinha, a mãe atiçava o fogo soprando as brasas, pedaços de lenha combustados e ardendo sob uma panela fumegando uma sopa com postas de batatas e miúdos de frango. No centro da mesa, preparada e organizada para um jantar em família, uma cesta com pães fatiados era um convite ao caldo temperado da iguaria.</p>



<p>Quando todos já estavam mais que satisfeitos, farelos de pão espalhados pela mesa, pratos tão limpos como se tivessem sido lambidos, o velho levantou-se arrastando a cadeira, olhou-os piedosamente antecipando o sentimento provocado e desferiu o golpe tão doloroso para todos, principalmente para Felipe e Nina. Não havia alternativa. O momento era de dificuldades. Teriam que abater um porco para gerar renda e aguentar o restante da estiagem daquele período. Matilda era a única com os requisitos necessários. Já se encontrava gorda o suficiente. Seria muito rentável na feira daquele domingo.</p>



<p>Nina olhava para o pai com seus grandes olhos redondos e amendoados, boca entreaberta, cara de assustada; Felipe começou a fungar e se afastou do grupo; um silêncio pairou sobre aquela casa alguns instantes, como se todos já se preparassem para a última homenagem àquela com quem conviveram como mascote da família desde que Nina a recebeu miudinha, um mimo da madrinha que veio visitá-la quando completara 4 anos.</p>



<p>A noite foi convulsa. Uma casa chorosa e uma criança com febre emocional dormiam inquietas. Às quatro horas da manhã, como era de costume, o lavrador acordou, cutucou o filho mais velho, que o ajudaria na missão desconcertante. O menino, a pedido de Felipe, também o acordou. Nina dormia agarrada à mãe, preocupada com os tremores da filha.</p>



<p>Felipe acompanhou o irmão até o chiqueiro. O amanhecer começava a querer despontar, carregando toda a atmosfera de uma coloração cinza chumbo. Matilda já estava de pé, focinhando o horizonte à procura de afagos. O menino, com uma corda entre as mãos, procurava a melhor maneira de amarrar a porca e conduzi-la para o local onde o pai sempre abatia as suas crias, ao lado de uma bananeira cheia de cachos e com folhas frondosas que se erguiam ao céu como num lamento aos sacrificados. Felipe, com um olhar sonolento e melancólico, observava o irmão amarrar Matilda pelo pescoço e em seguida retirá-la do chiqueiro junto dos seus, numa última passagem pela pequena porteira do local. A outra ponta da corda fora amarrada num tronco de árvore próximo à bananeira. Como num ensaio teatral, surge num átimo temporal o velho lavrador com o machado à mão, olhar circunspecto revisando o percurso a seguir. Felipe aproxima-se, ajoelha-se de frente para Matilda e envolve-lhe com os seus braços finos e curtos, fecha os olhos marejados por alguns instantes, a porca grunhe levantando o seu focinho achatado até encostá-lo no queixo do garoto, que a solta abrindo os olhos, deixando escorrer uma gotícula de lágrima amparada pela abóbada do crânio da porca, mesmo local onde, no minuto seguinte, após persignar-se, o lavrador desferiria o golpe com o reverso do machado que a deixaria inconsciente. No momento exato deste acontecimento, Felipe já havia corrido para os fundos do pomar, subido no pé de tamarindo, escondido de todos, soluçando a saudade e chorando a dor de sua primeira perda.</p>



<p>Matilda guinchou tão alto quando foi atingida que provocou uma revoada de pássaros abrigados nas árvores, Nina estremeceu em meio ao seu torpor e suas alucinações e Felipe sentiu uma dor tão lancinante no peito que só a entenderia anos depois. Depois disso, com a ajuda do filho mais velho, o lavrador consumaria o acontecimento pegando uma faca em sua algibeira, ponta afiada incrustada na parte anterior do pescoço da porca, que, deitada ao chão, soltaria uns leves grunhidos remexendo as suas patas traseiras enquanto uma pequena bacia colocada logo embaixo do corte retinha o líquido de avermelhado intenso que consumiria aos poucos os seus lancinantes momentos de vida. A partir daquele instante, com o último fiapo de vida exaurindo-se de Matilda, começariam os preparativos para torná-la uma das mais apetitosas carnes do mercado municipal: primeiro a queima do seu corpo e a consequente raspagem de seus pelos torrados; em seguida o corte longitudinal em sua barriga, com a perícia e experiência de anos do velho lavrador; tudo no porco era utilizável, inclusive as suas vísceras, matéria-prima para linguiças.</p>



<p>Por volta das sete horas da manhã, o carrinho de mão seguia pelas mãos do velho lavrador em direção ao mercado para a feira de domingo cheio de fartura para aquela família pelo menos por um mês inteiro com o resultado da venda.</p>



<p>Felipe, que gostava tanto de acompanhar o pai, não teve ânimo naquele dia. Mastigava um pão dormido na cozinha. Enquanto isso, Nina tomava um banho amparada pela mãe.</p>



<p>No dia seguinte, antes do amanhecer para a escola, Felipe acordou assustado. Tivera um sonho estranho, seu corpo reagia de forma diferente, o volume do short estava alto, sentia umas coceiras esquisitas na região pubiana. Correu para o banheiro, trancou-se, acendeu a luz, retirou o short e o jogou no soalho de cimento. Sua cueca estava suja de um líquido consistente, gosmento, saído pela primeira vez de suas entranhas.</p>



<hr class="wp-block-separator" />



<p><strong>Darlan Lula</strong> é doutor em Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense. Escritor, autor de cinco livros, entre prosa e poesia. <a href="http://www.darlanlula.com.br/">www.darlanlula.com.br</a></p>



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<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i1.wp.com/blog.artebodoque.com/wp-content/uploads/2019/12/PUBLI-EDIÇÃO-IMPRESSA.png?fit=970%2C422&amp;ssl=1" alt="" class="wp-image-5651" /></figure>





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<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.artebodoque.com/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/bc88e-publi-bodoque-natal.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-5708" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



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<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-large-font-size">Galeria</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/4473c-fotos-carol-copy-1.jpg6_-1-1021x1024.jpg?resize=950%2C953&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-4981" data-recalc-dims="1" /></figure>



<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-medium-font-size"><em>Apoie pautas identitárias. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>
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		<title>Igualdade e Fraternidade às favas</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 11 Dec 2019 17:46:05 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 001, N 027]]></category>
		<category><![CDATA[Drops]]></category>
		<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Hélio Rocha]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[Revolução]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: Hélio Rocha</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="has-drop-cap">No Brasil, ou ao menos em seu Governo e nas castas mais abastadas e menos esclarecidas sobre a realidade social de seu povo, a onda agora é comemorar a “retomada” do crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, que mais ou menos sintetiza os índices de variação da economia, determinando o que convencionou-se dizer como “o país cresceu”. Entretanto, a questão (a despeito de toda a desproporção entre os elogios aos meros 0,6% incensados pela mídia e pelo poder financeiro, e os 1,5% e 2,5% chamados de “pibinho” quando a presidente era Dilma Rousseff) é qual o nível de qualidade de vida de sua populacão.</p>



<p>Nos índices que medem o desenvolvimento humano, o principal deles aquele coordenado por várias entidades internacionais que é homônimo ao seu objeto, o Índice de Desenvolvimento Humano, mais conhecido pela sigla IDH, o Brasil ocupa a 79a posição, vindo da 78a. Já no índice de desigualdade calculado pela mesma fonte, o Brasil se mantém na 102a posição. Nesta última, figura melhor apenas que o Paraguai, em toda a América do Sul. No primeiro ranking, está na metade de baixo da lista. No segundo, praticamente abre o terço final.</p>



<p>A boa e livre circulação das riquezas, que permite a mobilidade social e o consumo, em tese, é sim um bom atributo para o país. Se ele cresce economicamente, tanto melhor, pois há mais o que ser distribuído à população em forma de emprego, renda e consumo. Por isso, é justa a celebração de crescimento real da economia, mas não a recessão maquiada de crescimento que é esse 0,6%, em que prevalecem as bicicletas conduzidas por rapazes de mochila verde-limão. Se esse avanço em cifras não resulta em qualidade de vida, ele não passa de dados abstratos, que ao fim e ao cabo só confirmam o país como um porto seguro para ganhos no mercado financeiro, que geram dividendos, inclusive, majoritariamente fora do país. Quando aqui, nas imediações da Avenida Faria Lima, em São Paulo, e nos condomínios fechados onde vivem seus especuladores, que hoje movimentam tesouros e riquezas, do trabalho e do imposto alheio, com um toque em seus aplicativos de consultoras financeiras privadas no celular.</p>



<p class="has-text-color has-background has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color">A questão está na fundação da economia moderna. Se John Locke foi um defensor das liberdades econômicas e Voltaire, das liberdades política e de expressão, Montesquieu atentou para a importância dos limites do Estado e seu papel de regente dos interesses nacionais (aí incluídos os econômicos) e Rousseau apontou a necessidade de convergirem para o ser humano os trabalhos para a geração de riquezas a partir da conquista das liberdades. Ou então, de nada adiantaria o chamado “laissez faire”, visto que ele se transformaria em ferramenta para a sedimentação de novas estruturas excludentes de poder, tais quais a monarquia e o clero que o Iluminismo buscava sobrepor pela idealização do Estado moderno, o qual conquistariam por meio da Independência dos Estados Unidos e da Revolução Francesa.</p>



<p>A síntese de tudo isso está no lema da Revolução Francesa, de 1789. “Liberdade, Igualdade, Fraternidade.” Apenas com iguais condições na busca por uma vida confortável e feliz, bem como o olhar preocupado com o outro, pode-se alcançar a sociedade ideal lastreada nas liberdades econômicas. Mais tarde, Marx perceberia os fracassos da idealização iluminista e chacoalharia o pensamento sobre a sociedade moderna, mas as bases não se alterariam. A busca por uma organização social em que todos tenham uma vida feliz se baseia nos três conceitos que sustentam o lema da Revolução Francesa. Por isso a estudamos até hoje e por isso ela encerra a Idade Moderna, marcada pelo mercantilismo de Estado e pelas monarquias absolutistas, colonialistas e escravistas, e abre a Contemporânea, a qual ainda damos sua história e a lapidamos até hoje.</p>



<p>Entretanto, a julgar por Wall Street e seus comensais/serviçais em solo brasileiro, jogou-se a fraternidade e a igualdade às favas, restando a liberdade como privilégio de quem pode gozá-las. Como nós, que estamos lendo. Não nos enganemos, nós somos parte dos livres privilegiados. Outros bilhões, quizá três quartos da Terra, não.</p>



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<p><strong>Hélio de Mendonça Rocha</strong> é jornalista. Atua como repórter de meio ambiente e direitos sociais para a revista Plurale e como analista político para os jornais Brasil 247 e El Siglo de Chile. Foi correspondente internacional na China em 2019.</p>



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<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i1.wp.com/blog.artebodoque.com/wp-content/uploads/2019/12/PUBLI-EDIÇÃO-IMPRESSA.png?fit=970%2C422&amp;ssl=1" alt="" class="wp-image-5651" /></figure>





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<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-large-font-size has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color">Galeria</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/4473c-fotos-carol-copy-1.jpg6_-1-1021x1024.jpg?resize=950%2C953&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-4981" data-recalc-dims="1" /></figure>



<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-medium-font-size has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color"><em>Apoie pautas identitárias. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>
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		<title>Caos</title>
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		<pubDate>Sun, 08 Dec 2019 21:31:00 +0000</pubDate>
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		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Hélio Rocha]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[negro no Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[Racismo Estrutural]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: Gyovana Machado</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="has-drop-cap">Estabelecendo uma relação de continuidade com o meu último texto, a saber, &#8221; Sob o silêncio: perspectivas de um trajeto estrutural pelo fio da música.”, me dispus a refletir sobre a atuação do caos no ordenamento das ideias que irão desaguar em alguma expressão artística, que, por sua vez, é criativa e cultural.&nbsp;</p>



<p>Ao &#8220;caos&#8221; é atribuído uma série de designações, sejam elas do ramo da filosofia, da física e etc. Filosoficamente, caos significa &#8211; dentro da tradição platônica -, um estado geral desordenado e indiferenciado de elementos que antecede uma intervenção e, segundo Platão (428-348 a.C.) o interventor seria o <em>demiurgo, </em>figura que modela e organiza a matéria caótica pela imitação do que é perfeito e eterno, mas não cria, de fato, a realidade. Pensando no âmbito da física, sobretudo na física quântica, &#8220;caos&#8221; é expresso pela complexidade de um sistema dinâmico que, por equações, pode ter a sua interação e determinismo explicado.&nbsp;</p>



<p>Em ambas as conceituações cabe destacar que o caos se constitui enquanto matéria. Mesmo desorganizado pode ser explicado e, indo mais além, podemos concluir que o que entendemos enquanto &#8220;regular&#8221; pode ser considerado como resultado do caos. A imprevisibilidade desse sistema se dá pela desorganização que gera organização, sendo que essa última, conta com fluxos não só de matéria mas também de energia para que, ao fim e ao cabo, se produza algo derivado dessa matéria pré existente. Pré existente ao mundo, aos sentimentos, as reações e aos desígnios mais pontuais que temos ao longo da vida. Caos, portanto, é o recipiente das peças que irão compor o resultado, seja ele qual for. Longe de tentar aplicar uma função ao caos enquanto ele ainda o é, reflito somente sobre sua potencialidade criativa.&nbsp;</p>



<p>Dizer de um estado caótico, sobretudo quando se produz arte no palco cultural contemporâneo, soa como um bloqueio (assim como o silêncio). Acredito que essa crença e percepção parte do imediatismo &#8211; <em>ready and go</em> &#8211; produtivo que surge mediante os discursos que apontam uma constância que, por sua vez, se manifesta indicando sabedoria, organização, conquista e todos os outros valores ressignificados por uma sociedade onde a experiência individual se institui enquanto meta para o coletivo. Partindo pela ótica do outro, estabelecemos ou até mesmo restabelecemos nossas reações subvertendo o nosso próprio tempo, organismo, a nossa própria matéria, alterando a nossa energia que, respondendo a uma expectativa externa, não nos proporciona uma vida próspera, ao contrário, coopera para a extinção das dimensões internas que nos torna únicos.&nbsp;</p>



<p>Para concluir, saliento que, talvez, a resposta para um bloqueio criativo ou até mesmo para as vozes externas a sua produção, seja não o caos em si, mas a compreensão que, de uma matéria caótica, se estabelece ordem. Somado a isso, essa dimensão instiga maior sensibilidade, contribuindo para uma nova aventura criativa dado o receptáculo de frações&nbsp; &#8211; constituinte do que ainda não se organizou &#8211; dentro de você.&nbsp;</p>



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<p><strong>Gyovana Machado</strong> é graduanda em História pela UFJF, formada no Seminário Teológico Rhema Brasil, líder de música em A Igreja.</p>



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<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i1.wp.com/blog.artebodoque.com/wp-content/uploads/2019/12/PUBLI-EDIÇÃO-IMPRESSA.png?fit=970%2C422&amp;ssl=1" alt="" class="wp-image-5651" /></figure>





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<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.artebodoque.com/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/747d3-publi-bodoque3.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-5017" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



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<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-large-font-size has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color">Galeria</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/4473c-fotos-carol-copy-1.jpg6_-1-1021x1024.jpg?resize=950%2C953&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-4981" data-recalc-dims="1" /></figure>



<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-medium-font-size has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color"><em>Apoie pautas identitárias. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>
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		<title>Brasileiro, Espécime Triste e Angustiado</title>
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		<pubDate>Sun, 08 Dec 2019 21:30:00 +0000</pubDate>
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		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Pedro Carcereri]]></category>
		<category><![CDATA[política]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: Pedro Carcereri</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="has-drop-cap">O brasileiro é um ​<em>tipo </em>​angustiado. Sempre foi. A propaganda do brasileiro feliz te enganou, enganou a mim, enganou a todo o resto do planeta. Nós não somos, nunca fomos e nos próximos anos não seremos o povo alegre que estampa as páginas que tentam vender nosso carnaval como festa da felicidade. [aquilo é um lapso permitido para que não enlouqueçamos em evangelhos proferidos pelos arautos do fim do mundo.]</p>



<p>O negro, que nunca deixou de ser escravizado, tem sua história atravessada pela violência de todos os seus estratos de vida. Sufocado e pisoteado em horas de trabalho e descanso, seu direito é ter a condescendência de ainda estar vivo &#8211; até que esse alguém decida que não. E como não choca negros mortos por banalidades, para esses alguéns sempre é possível que exista algum excludente. Afinal, melhor morto que triste. [pessoas tristes não produzem tanto.]</p>



<p>O indígena, que nunca deixou de ser o que era para ser. [selvagem?] ​<em>Se o índio não quer explorar, porque ele quer celular? </em>​A tristeza com maior tempo dentro de nossa recente narrativa com nome de Brasil. E corajosa em resistir.</p>



<p>A mulher, que nunca deixou de ser ferida, morta, estuprada, humilhada. Continua sofrendo. Os abusos que as entristecem são cotidianos e de tamanhos variados. [a tristeza aqui é sempre culpa dos homens, embora o peso da angústia recaia sobre a mente e o corpo feminino.]</p>



<p>O branco, que nunca deixou de ser o estrago, também sofre com o machismo e o racismo que se entranham pelos seus poros e angustiam os que tentam entender o que vivem. <em>Os canalhas vivem suas vidas sem angústia, mas com muito ódio. Qual veneno é pior? Qual mata mais rápido?</em></p>



<p>O amor então é taxado, categorizado e enclausurado em formas familiares que nunca trouxeram felicidade a todos os seres, nem nunca trarão. E se você não se adequar ao binarismo e ao conceito de pai, mãe e filhos pode &#8211; então &#8211; se adequar ao slogan ​<em>ame-o ou deixe-o </em>e​ se retirar do convívio dos iguais. ​<em>Longe de mim ser homofóbico, mas não precisa beijar em praça pública</em>.​ [para viver aqui o amor não vale se não cumprir o desejo fálico de um homem, hétero, branco e cristão &#8211; a representação da angústia pode ser essa figura.]</p>



<p class="has-text-color has-background has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color">A alma brutalizada em uma espiral de culpa religiosa, ansiedade e modorra do seu próprio tempo tenta se enganar com felicidades momentâneas e lapsos salvadores em meio ao caos &#8211; futebol, música, carnaval, drogas. Nada cresce em solos mal iluminados. Nada cresce em ambientes de culpa e medo.</p>



<p>A democracia aqui inexiste, parte de uma farsa para manter a maior desigualdade do mundo ativa. Cruel é a forma de enganar a quem crê que participa da escolha de sua vida. [as escolhas não podem ser feitas pelos pobres, só querem igualdade, não pensam no crescimento da nação.] ​<em>Fascismo disfarçado de patriotismo é a melhor maneira de manter nossos privilégios. </em>​[foda-se a tristeza de quem não tem como pagar.]</p>



<p>Pelo menos é isso que eles querem. [entorpecer a alma, o corpo e a mente é preciso. eles detestam alegria. ainda mais alegria coletiva.]</p>



<p><em>Mas é importante saber que estamos por nossa conta.</em></p>



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<p><strong>Pedro Carcereri</strong> é escritor, diretor, produtor e curador. Bacharel em Artes e Design e mestre em Artes, Cultura e Linguagens pela UFJF. Autor dos curtas “Modorra”, “Maria Cachoeira” e do romance “Sob o Trópico de Capricórnio”. Curador e crítico de arte, desenvolve exposições e pesquisas em diversas interfaces da arte contemporânea. Faz parte da seleção do Sesc Confluências &#8211; MG e é conselheiro de cultura de Juiz de Fora.</p>



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<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i1.wp.com/blog.artebodoque.com/wp-content/uploads/2019/12/PUBLI-EDIÇÃO-IMPRESSA.png?fit=970%2C422&amp;ssl=1" alt="" class="wp-image-5651" /></figure>





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<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.artebodoque.com/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/1976d-publi-bodoque.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-4491" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



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<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-large-font-size has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color">Galeria</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/4473c-fotos-carol-copy-1.jpg7_-1-1021x1024.jpg?resize=950%2C953&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-4982" data-recalc-dims="1" /></figure>



<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-medium-font-size has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color"><em>Apoie pautas identitárias. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>
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		<title>O “Leviatã” que não existe no Brasil</title>
		<link>https://revistatrama.artebodoque.com/2019/12/08/a-historia-que-a-historia-nao-conta-2/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 08 Dec 2019 21:28:00 +0000</pubDate>
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		<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Hélio Rocha]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[negro no Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[Racismo Estrutural]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: Hélio Rocha</p>
<p>O post <a rel="nofollow" href="https://revistatrama.artebodoque.com/2019/12/08/a-historia-que-a-historia-nao-conta-2/">O “Leviatã” que não existe no Brasil</a> apareceu primeiro em <a rel="nofollow" href="https://revistatrama.artebodoque.com">Revista Trama</a>.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="has-drop-cap">Se o mote de todo o debate que esse espaço de discussões vem tecendo, por meio de publicações semanais aqui na Trama_, é o quanto o Brasil vem se afastando dos conceitos basilares do Estado ocidental moderno, essas semanas mais fatos mostraram o tamanho da disparidade na balança que mede as liberdades individuais das quais o Estado é garantidor, e não ameaça.</p>



<p>Num baile funk em Paraisópolis, comunidade na periferia de São Paulo, uma ação abusiva da Polícia Militar (PM) provocou tumultuo incontrolável que resultou na morte de 18 jovens por pisoteamento, além de outros marcados por tiros com barras de borracha. Até agora não se sabe, ao certo, qual a razão para que tal ação fosse tomada pela PM, e possivelmente jamais o seja. Pouco dias antes, no domingo de comemoração da conquista do título da Copa Libertadores da América pelo Flamengo, outro tumultuo foi causado pela PM, dessa vez, felizmente, sem vítimas.</p>



<p class="has-text-color has-background has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color">Se a figura do Estado foi um dia idealizada e lapidada no curso de 300 anos, e de séculos ou milênios, se for flexibilizado o conceito de sociedade organizada a todas as civilizações regidas por um poder central, fez-se assim para garantia de proteção ao ser humano antes os perigos do isolamento, seja pelas intempéries naturais, seja pelo próprio ser humano. Thomas Hobbes em sua obra magna, “O Leviatã”, faz a analogia entre o monstro bíblico e o poder de coerção do Estado, isto é, a força que ele tem de obrigar o cidadão a fazer o que ele rege, em determinadas circunstâncias que sirvam ao bem coletivo. Desta forma, para Hobbes, o Estado é um “mal necessário”, visto ser o bem a liberdade, que, no entanto, em toda a sua potencialidade gera distorções variadas na ordem social. “Uma pessoa é mais forte que a outra e lhe toma sua casa. Mais tarde, ainda que menos fortes que a primeira, outras duas pessoas associam-se e lhe tomam a casa novamente, e assim sucessivamente até que a lei do mais forte se estabeleça sempre na forma de controle autoritário e necessariamente instável, e nunca na forma de uma sociedade organizada para o bem comum”, é a síntese do argumento hobbesiano.</p>



<p>Portanto, em tudo que tange à ação de indivíduos livres sem dano a outrem, como já foi discutido em texto anterior sobre os princípios do liberalismo de John Stuart Mill aplicados à expressão da arte e da sexualidade, o Estado está alheio. Numa festa coletiva a céu aberto ou num baile funk na periferia, se não há ameaça à ordem social, não deve atuar a PM como braço coercitivo do Estado, e, se ameaça houver, tal ação deve exercer o mínimo de dano sobre indivíduos não envolvidos. Trocando em miúdos: se há homicídios e articulação de crimes em bairros da periferia, a solução não é bombardear o local e ceifar inocentes junto a criminosos, tal como não é solução para o terrorismo a destruição dos países árabes, etc. Se há focos de violência, tráfico e ocorrência assédio, corrupção de menores e estupro (se há) num baile funk, o que ocorre igualmente em festas da classe média branca, sem igual veemência do Estado, não deve a PM atuar de forma ostensiva de modo a, ela sim, ameaçar a ordem social.</p>



<p>Ocorre que no Brasil o tal Leviatã, tal como descrito por Hobbes, jamais existiu. O país nunca deixou, de fato, sua forma pré-moderna de se organizar de acordo com padrões similares aos do regime escravocrata que o fundou política e economicamente, adaptando as ferramentas de total submissão das camadas mais pobres e etnias mais oprimidas de nossa sociedade aos conceitos do tempo em que vivemos. O jovem negro assassinado na favela por usar dos meios que tem para usufruir dos bens de consumo que lhe são negados é o mesmo que, 200 anos atrás, era punido com a chibata ou a morte por tentar escapar do cativeiro. E sua forma de celebração, seja nas ruas por um clube e um esporte popular, seja numa festa privada, perseguida tal como foi o samba no seu nascedouro.</p>



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<p><strong>Hélio de Mendonça Rocha</strong> é jornalista. Atua como repórter de meio ambiente e direitos sociais para a revista Plurale e como analista político para os jornais Brasil 247 e El Siglo de Chile. Foi correspondente internacional na China em 2019.</p>



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<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i1.wp.com/blog.artebodoque.com/wp-content/uploads/2019/12/PUBLI-EDIÇÃO-IMPRESSA.png?fit=970%2C422&amp;ssl=1" alt="" class="wp-image-5651" /></figure>





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<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.artebodoque.com/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/747d3-publi-bodoque3.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-5017" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



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<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-large-font-size has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color">Galeria</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/4473c-fotos-carol-copy-1.jpg7_-1-1021x1024.jpg?resize=950%2C953&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-4982" data-recalc-dims="1" /></figure>



<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-medium-font-size has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color"><em>Apoie pautas identitárias. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>
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		<title>Why not Personal Black Holes?</title>
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		<pubDate>Sun, 08 Dec 2019 21:25:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 001, N 026]]></category>
		<category><![CDATA[Drops]]></category>
		<category><![CDATA[Poésis]]></category>
		<category><![CDATA[Gabriel Garcia]]></category>
		<category><![CDATA[Personal Black Holes]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: Gabriel Garcia</p>
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<pre class="wp-block-verse">Era uma estranha tecnologia<br>Servia ao seu inventor unicamente<br>Apropriada aos fins menos habituais<br>Quem sabe a solução de tantos problemas<br>O anti-fiat<br>O fim<br>O nada<br>O jamais novamente<br>Para onde apontasse<br>Encerrava qualquer informação<br>Lanterna invulgar<br>Emite escuridão<br>Talvez não seja tão eficiente<br>Comparada a tanta gente<br>Seu jato não se vê<br>Engole o que estiver pelo caminho<br>Anti-show<br>O avesso do espetáculo<br>Seu cone obscurece<br>Faixa do mais absoluto sombrio<br>Inspiração psicológica?<br>Para onde vai<br>Aquilo que se deixa de ver?</pre>



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<p><strong>Gabriel Lopes Garcia</strong>&nbsp;&#8211; Eu sou poeta, professor e divulgador científico. Na coluna Póesis, uso da linguagem poética para expressar minha reverência pelo Universo e o sentimento do sagrado que me habita a intimidade. Elaboro sensibilidades estéticas-éticas, sigo o fluxo de ideias prazerosas, reinvento semânticas, faço silêncio e verbo conjugarem harmonicamente. Eu não escrevo poesias. Eu me escrevo nelas.&nbsp;</p>
</div>
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