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	<title>Arquivos A Terceira Morte de Joaquim Bolívar - Revista Trama</title>
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	<description>Arte, Cultura e Criatividade</description>
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		<title>O &#8220;Cine Palace&#8221; das minhas memórias e “A Terceira Morte de Joaquim Bolívar”</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 25 Oct 2020 21:27:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 068]]></category>
		<category><![CDATA[A Terceira Morte de Joaquim Bolívar]]></category>
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		<category><![CDATA[Memória]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Sérgio Augusto Vicente</p>
<p>O post <a rel="nofollow" href="https://revistatrama.artebodoque.com/2020/10/25/ponte-que-caiu-2/">O “Cine Palace” das minhas memórias e “A Terceira Morte de Joaquim Bolívar”</a> apareceu primeiro em <a rel="nofollow" href="https://revistatrama.artebodoque.com">Revista Trama</a>.</p>
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<p>Com o fechamento do Cine Palace, na Rua Halfeld, uma fatia importante da cultura juizforana se esvaiu. Um espaço que habita as memórias de muita gente, dentro e fora de Juiz de Fora. A primeira recordação emblemática que tenho desse cinema data do ano 2000, quando, aos 14 anos, começava a desbravar a vida urbana.</p>



<p>Naquele ano, mais especificamente no mês de abril, um menino da zona rural visitava a cidade para assistir ao &#8220;A Terceira Morte de Joaquim Bolívar&#8221;, do diretor Flávio Cândido. O filme, cuja trama se reportava ao período da ditadura civil-militar brasileira, narra a saga de um jovem idealista de esquerda, Joaquim Bolívar, que, na luta e resistência contra a destruição do vilarejo histórico de &#8220;Burruchaga&#8221;, &#8220;morre&#8221; em três etapas da narrativa: as duas primeiras, físicas, no período do golpe civil-militar de 1964 e no contexto da lei da anistia (1979); e a terceira, simbólica e ideológica, na virada das décadas de 1980-1990, remetendo ao momento em que o personagem se vê corrompido pelo capitalismo neoliberal.</p>



<p>O cenário das filmagens abarcou, predominantemente, as regiões de São José das Três Ilhas (distrito de Belmiro Braga – MG) e Simão Pereira (MG). Acompanhei de perto a rotina das filmagens, a presença dos atores Jonas Bloch, Othon Bastos, Antonio Pitanga e outros, no sítio de minha família, em Simão Pereira (MG), nos idos de 1997 e 1998, quando tinha 11 anos. Lembro-me de visitar a barraca verde-amarela instalada pela equipe das filmagens, na extensa baixada existente lá no sítio; de observar a grande bandeira do Brasil, surrada, desbotada e esgarçada, balançando ao ritmo do vento, na ponta de um bambu bem alto, cortado ali mesmo, em nossa propriedade. Lembro-me também das minhas bisbilhotices curiosas de garoto, que, juntamente com minha irmã, Verinha, mexia nas quinquilharias guardadas dentro daquela barraca. Lembro-me do helicóptero sobrevoando nossa casa! Lembro-me dos moleques dos arraiais da redondeza, sentados no alto do morro, assistindo, curiosos, às filmagens. Lembro-me dos atores enfrentando a água fria do chuveiro lá de casa, que ainda não contava com o conforto da energia elétrica! Lembro-me da minha redação sobre o filme, no colégio! Lembro-me de minha outra irmã, Aninha, escondida na barraca verde-amarela, literalmente chorando a derrota do Brasil para a França, na copa de 1998 (seria um presságio?). Lembro-me dos objetos que minha mãe, Nair, emprestou para compor o cenário das filmagens: a lamparina velha, a cadeira de madeira, a centenária chaleira preta e a chapa de ferro antiga, na fornalha improvisada.</p>



<p>Porém, mais importante do que assistir extasiado aos bastidores das filmagens, à movimentação dos atores, dos figurantes e da equipe de produção, foi receber convite para assistir à pré-estreia do filme no Palace, em Juiz de Fora. Um evento célebre. A excepcionalidade do fato me fez guardá-lo com uma saudade &#8220;docemente provinciana&#8221;, como diria Manuel Bandeira. Depois disso, não o vi mais.</p>



<p>Coincidentemente, nesse estranho e apocalíptico ano de 2020, em que as circunstâncias pandêmicas me fizeram aproximar ainda mais das lembranças pessoais, resolvi reabilitar essas memórias: retirei o cartaz do filme da gaveta, coloquei-o numa linda moldura e o pendurei na parede do meu quarto, na roça. E, agora, depois de muito procurar o filme na internet, tive a emoção de me deparar com ele, novamente, diante dos meus olhos. Dessa vez, em tela pequena, é verdade. Uma tela de um <em>notebook</em> que jamais poderia imaginar um dia ter contato.</p>



<p>Mas a emoção, certamente, não foi menor do que aquela sentida no Palace, na virada do milênio. Não posso negar o quão incrível foi poder confrontar as memórias cristalizadas e ingênuas da adolescência com a visão do historiador, adulto, de hoje. Que emoção rever a charrete laranja de meu pai, Tõezinho, que, carinhosamente, conserva e usa até hoje! Que emoção rever nosso cachorro &#8220;Bob&#8221;, o fiel escudeiro do nosso cavalo, &#8220;Sereno”, ambos já em outro plano! Que emoção rever a igreja e os casarões históricos de São José das Três Ilhas! Que emoção rever as paisagens de meu lugar de origem e os objetos carregados de memórias (alguns deles ainda com a minha família)!</p>



<p>Romantismo e saudosismo a parte, é salutar constatar que, vinte anos depois, minhas percepções das críticas políticas, da realidade brasileira, do contexto histórico, das nuances das representações imagéticas, da forma de assistir aos filmes, evoluíram. O ensino médio cursado em Juiz de Fora, a graduação e o mestrado em História na UFJF, a atual experiência de doutorando e minha trajetória profissional como professor e historiador me permitiram desenvolver a maturidade intelectual necessária para perceber muitas coisas imperceptíveis àquela época. Uma delas foi a percepção de que somente um cinema com as características do Palace poderia exibir um filme nacional, de cunho não comercial, como “A Terceira Morte de Joaquim Bolívar”.</p>



<p>Podemos imaginar, portanto, que esse confronto entre presente e passado também trouxe desencantamentos. Hoje, entendo que aquela bandeira do Brasil, surrada, desbotada e esgarçada, posicionada ao lado de uma barraca verde-amarela, não estava ali de maneira fortuita. O Cine Palace, minha referência na linda e longa rua Halfeld do ano 2000, não existe mais. Sucumbiu ao capital. Está oco, ainda que cheio de mercadorias que “alimentam” o consumismo deprimente e insosso da sociedade contemporânea. Por ironia do destino, diante de seu recente desmonte, assistimos a um drama real, em que parte da sociedade juizforana vivenciou, literalmente, a “terceira morte de Joaquim Bolívar”&#8230; Entretanto, mesmo oco, sem mais poder preencher um vazio impreenchível, o Palace estará sempre e umbilicalmente associado a esse momento marcante que acabo de relatar, em que me sensibilizei e despertei para sonhos, vocações e afeições até hoje vivas dentro de mim, através dos livros, da História e das artes. Mas uma inquietação permanece: o que estamos fazendo para que outras gerações tenham essa oportunidade de continuar a sonhar?</p>



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<p><strong>Sérgio Augusto Vicente</strong> é bacharel, licenciado, mestre e doutorando em História pela UFJF. Dedica-se ao estudo da história social da cultura no Brasil, abrangendo temas como trajetórias individuais e de grupos, sociabilidades, associativismo, história intelectual, história social da literatura, acervos documental e bibliográfico, patrimônio cultural, memória e educação. Professor de História e historiador. Atualmente, trabalha no Museu Mariano Procópio (Juiz de Fora – MG).</p>



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