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	<title>Arquivos Almeida Junior - Revista Trama</title>
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	<description>Arte, Cultura e Criatividade</description>
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		<title>A Imaginação das mãos</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 21 Jul 2019 10:41:09 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 001, N 006]]></category>
		<category><![CDATA[Almeida Junior]]></category>
		<category><![CDATA[história da arte]]></category>
		<category><![CDATA[mão na pinura]]></category>
		<category><![CDATA[pintura]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: Rayane Souza e Marcus Cardoso</p>
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<p class="has-drop-cap">Parece que é em cada fio muscular que chega à ponta dos dedos que a<br>gente sente: a mão, esse lugar que fica mais distante do cérebro ou do<br>coração, que revela tanto quanto esconde: protege e cria: atinge e afaga. Cada dedo um apontamento, uma contagem, um tudo: se não a mão, por onde mais pegamos o mundo?<br>Não há como escapar: é quando uma mão toca a outra que o arrepio se<br>alastra. Não há como esculpir sentimento algum. Se olharmos atentamente,<br>perceberemos as laringes que habitam as falanges, fazendo os gestos dizerem daí: vide como tocar, ao mesmo tempo que significa pegar algo físico e corpóreo, significa abrir-se em suas entranhas e se instalar no coração: com se quando eu te tocasse, eu te tocasse também.<br>Pensar a mão nas diferentes representações artísticas é um sensível<br>exercício de análise e reflexão. As mãos daquela figura humana que segura o pincel, que passa a linha pela agulha, que bate a argila contra a mesa, que<br>segura o leque para o próximo passo; tudo envolve movimento, estudo e talvez a espera por certa inspiração que embeleze aquele determinado fazer artístico.<br> Todas essas esperas e utilizações dessa extremidade do nosso membro<br> superior também se encontra presente e ganha voz dentro do silêncio corporal das obras de arte.<br> Em <em>Saudade</em>, de Almeida Júnior, a mão da figura feminina que lê e se<br> comove demonstra o aperto, a dor de uma memória afetiva, de algo que foi ou algo que acabou de ser. Os dedos vão se fechando e sustentando, junto ao pano que tapa a boca, a surpresa nada positiva de uma notícia que é<br> respondida por lágrimas.<br> O que nos punge, justamente, é que essa mão trabalha segurando a<br> boca, como uma espécie de consolo, tenta segurar palavras que podem vir: um desespero ao não dizer: um quase punho em riste, que guarda algo que nunca saberemos: o que ali está escrito? Que notícia paira no ar, rodeia o ambiente, embarga a voz?</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/blog.artebodoque.com/wp-content/uploads/2019/07/saudade.jpg?fit=606%2C1011&amp;ssl=1" alt="" class="wp-image-531" /><figcaption><em>Saudade</em>, 1899, óleo sobre tela, 197 cm x 101 cm. Almeda Júnior,  Pinacoteca do Estado de<br> São Paulo .</figcaption></figure>



<p>Na pintura de Delacroix, A Liberdade guiando o povo, a mão tensa que<br>ergue a bandeira e toma força junto ao silencioso grito de liberdade, igualdade e fraternidade, também nos traz uma dor e memória. Junto a uma coragem e levante de uma força que cria tensão desde os braços até os dedos que se curvam e se prendem como um só: o só do coletivo.</p>



<figure class="wp-block-image size-large is-resized"><img fetchpriority="high" decoding="async" src="https://i1.wp.com/blog.artebodoque.com/wp-content/uploads/2019/07/Eugène_Delacroix_-_Le_28_Juillet._La_Liberté_guidant_le_peuple.jpg?fit=606%2C486&amp;ssl=1" alt="" class="wp-image-536" width="638" height="512" /><figcaption><em>Liberdade Guiando o Povo</em>, 1830, óleo sobre tela, 260 x 325 cm,  Eugène Delacroix , Museu do<br> Louvre, Paris.</figcaption></figure>



<p>Diferentes, porém, parecidas. Mãos que não se encontraram e que não<br>se cruzaram, mas que dialogam entre si pelo movimento, sutileza e resistência de seus gestos, ambas com dor e na tentativa de sustentação de algo que fere e faz mover.<br>Ernst Gombrich nos fala sobre uma história da arte contínua, onde as<br>obras de determinado período estão sempre refletindo o passado e apontando<br>para o futuro. Se criarmos uma relação disto com as mãos, e tudo o que se<br>desdobra a partir de seu uso, temos obras vivas e artistas que ainda tocam<br>sem tocar, ou porque criaram a partir de seus dedos ou por deixarem seus<br>trabalhos nos tocarem a partir de movimentos singelos de saudade, de<br>comando ou de silêncios: de fazeres manuais invisíveis.<br>Nisso, a gestação dos gestos, sejam aqueles retratados ou aqueles que fazem o retrato, se impõe: como se os dedos é que imaginassem junto com o construir, com o moldar: as linhas curvas da pintura, as linhas expressivas das mãos do artista. Tudo vai e vem disso: as mãos que retratam mãos, suas semelhantes, seus espelhos: O vórtice que leva tudo pra lá: em vez de oz, no final do furacão da arte, você se encontra nas mãos.<br>Enfim, é nãos mãos que tudo nasce, que tudo vive, que tudo morre e<br>que tudo fica: é através dela que escrevemos esse texto, que percebemos as<br>formas do mundo, que nos expressamos mais do que na voz e na fala, essa<br>forma toda atravessada pelo pensar. Está tudo nas mãos, sempre.</p>



<hr class="wp-block-separator" />



<p><strong>Rayane Souza</strong> é historiadora da arte e arte educadora, não necessariamente nessa ordem. aceita o que vem da vida assim como a vida aceita o que vem dela.</p>



<p><strong>Marcus Cardoso</strong>, historiador de formação, mestrando, músico&#8230; Faz tanta coisa que acaba não fazendo nada. E, se somos o que fazemos, então é isso: um grande nada que acredita piamente que a salvação do mundo está escondida em um haicai.</p>
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