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	<title>Arquivos Ana Liési Thurler - Revista Trama</title>
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	<description>Arte, Cultura e Criatividade</description>
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		<title>Maternidades:  em tempo de pandemia, algumas reflexões</title>
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		<pubDate>Sun, 10 May 2020 21:30:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 044]]></category>
		<category><![CDATA[Ana Liési Thurler]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: Ana Liési Thurler</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>***&nbsp;<strong>Observação:</strong>&nbsp;o texto foi inteiramente escrito em gênero neutro.</p>



<p class="has-drop-cap">Neste ano, o <em>Dia das Mães</em> surge em meio ao confinamento imposto a todes por um vírus ínfimo, lembrando um fantasma que ninguém vê, mas que todes temem. O medo está no ar. Neste pesadelo kafkaniano, uma avalanche de números nos assombra: números de pessoas que contraíram o vírus, números de óbitos. O vírus lembra nossa condição de mortalidade. Em contraponto, as mulheres nos remetem à vida e à natalidade. Somos seres mortais, ouvimos desde sempre. Mas precisa ser dito que somos também seres natais. Todas, todes, todos inexoravelmente morremos, inexoravelmente nascemos.</p>



<p><strong><em>Milagre da natalidade</em></strong></p>



<p>Se o vírus &#8211; que tudo engole, encobre,&nbsp; envolve &#8211; nos lembra sermos seres mortais, as mães, em forte contracanto, anunciam sermos seres natais: inescapavelmente, nascemos. E nascimento é começo, outra possibilidade, continuidade ou descontinuidade na história-aventura humana. Estou evocando o olhar de esperança de Hannah Arendt, permitido pelo <em>milagre da natalidade, </em>designa ela. Porque humanes continuam nascendo, reinvenções poderão acontecer. E na palavra dela: &#8230;”parece que só hoje reconhecemos o extraordinário significado político inserido no poder-começar (&#8230;) Contra a possível determinação e previsibilidade do futuro está o fato de o mundo se renovar a cada dia por meio do nascimento e, pela espontaneidade dos recém-chegados, está sempre se comprometendo com um novo imprevisível” (Arendt, 2002).</p>



<p><strong><em>Mulheres: a vida importa, </em></strong><strong>todas<em> as vidas importam</em></strong></p>



<p>Nunca se viveu um dia das mães em um quadro de ameaças tão fortes à vida des humanes por um vírus predador, inimigo invisível, com negacionistas desdenhando, desafiando e, até, não admitindo a existência deste coronavírus. E a gestão da pandemia sob responsabilidade feminina se impôs pela competência, &nbsp;sensibilidade, biofilia com o critério inegociável de priorização da vida e a valorização de <em>todas</em> as vidas. As mulheres são gestadoras de novas vidas, portadoras daqueles que chegam. Entre mulheres-gestoras da pandemia, destaco o trabalho modelar de Jacinda Ardern, primeira-ministra da Nova Zelândia, também uma jovem mãe, que, rompendo paradigmas, chegou à Assembléia Geral das Nações Unidas, em 2018, com a filha &#8211; então com três meses. Com forte protagonismo, ela questionou falsas interdições de a maternidade ser impedimento para participação e atuação de mulheres-mães nas mais altas esferas da política. Ardern é uma liderança empática, estabelecendo uma rotina de transparência e proximidade com a população, incluindo <em>lives</em> no facebook. Ousadamente propôs eliminar, e não simplesmente achatar, a curva de transmissão, <em>lockdown,</em> testagem em massa, controle rigoroso, obtendo &nbsp;plena adesão da população de seu país.</p>



<p>Sob a coordenação da presidenta Tsai Ing-Wen, políticas de prevenção e contenção da pandemia foram implementadas com sucesso em Taiwan, imediatamente após os primeiros casos da COVID-19 serem notificados à OMS. Mesmo vizinho da China, o país passou quase ileso pela experiência. A presidenta pediu atenção com as fronteiras e todos os passageiros vindos de Wuhan passaram a ser investigados. Quem apresentou febre e outros sintomas foi mantido em quarentena. Na Islândia, também a primeira-ministra, Katrín Jakobsdóttir testou em massa a população e cuidou das fronteiras, evitando a importação do vírus. Na Finlândia, a primeira-ministra Sanna Marin, a governante mais jovem do mundo, com respostas muito positivas, divulga informações sobre a pandemia baseada em dados científicos, via rede social, com apoio de influenciadores digitais. Crianças norueguesas são tranquilizadas, conversando com a primeira-ministra de seu pais, Erna Solberg pela TV, explicando <em>porque não podem ir à festa</em>? E o clima é de muita confiança.&nbsp; &nbsp;</p>



<p>Na Dinamarca, a primeira-ministra Mette Frederikse controlou as fronteiras com a Alemanha e a Suécia e adotou medidas com resultados positivos. Na Bélgica, a primeira-ministra Sophie Wilmes adotou medidas preventivas e restritivas, inclusive levando testes para os lares de idosos. Na Alemanha, a primeira-ministra Angela Merkel desencorajou o negacionismo, começando logo a testagem em massa para ter um melhor diagnóstico da situação sanitária no país. Com isso, a taxa de mortalidade tem permanecido baixa.</p>



<p>Nesta última década surgiu uma onda de governos de extrema direita, negacionistas da história e da ciência, estabelecendo necropolíticas, evidenciando o valor de gestões femininas: maio de 2010, Viktor Orbán, na Hungria; dezembro de 2012, Shinzo Abe, no Japão; maio de 2014, Narendra Modi, na Índia; janeiro de 2017, Donald Trump, nos EUA; janeiro de 2019, Jair Bolsonaro. Paralelamente, ocorreu a ascensão de mulheres ao poder em diversos países. E são delas as melhores práticas no controle do coronavírus, em favor da saúde e da vida.</p>



<p><strong><em>Maternidade entre idealizações e instrumentalização</em></strong> </p>



<p>Onde estaria o início dessa data comemorativa, o <em>dia das mães</em>? Na afeição da jovem Anna Jarvis por sua mãe Ann Reeves Jarvis, que morreu em maio de 1905, dizem alguns registros. A mãe admirada ofereceu cuidados e auxílios durante a Guerra de Secessão (1861-1865, EUA) para soldados e familiares dos dois lados do conflito e, no pós-guerra, se dedicou à promoção &nbsp;da reconciliação e da paz. Anna não queria homenagear somente sua mãe. Assim, todas as mães em seu estado, Vírgínia Ocidental, cinco anos após, passaram a ser homenageadas: foi criado o <em>dia das mães.</em> Propagando-se por diversos estados, quatro anos depois, a data saltou para o calendário nacional. Chegou ao Brasil em 1918, via Associação Cristã de Moços de Porto Alegre e foi nacionalizada com Getúlio Vargas, em 1932.</p>



<p>Sobre o desejo inicial de reconhecimento do valor da presença de uma mãe que trabalhou pela paz, do valor das mães amplamente e da criação do <em>dia das mães</em> incidiram tanto a ação do comércio atento a oportunidades de incrementar vendas e lucros, quanto romantizações religiosas. Lembremos que isso tudo manteve a maternidade instrumentalizada &#8211; pelo capitalismo &#8211; e idealizada – por religiões &#8211; distante da realidade cotidiana de mulheres com a responsabilidade pela reprodução social. E muitos &nbsp;esquecem que ser mãe no mundo real continua difícil.</p>



<p><strong><em>Maternidade é escolha</em></strong></p>



<p>Maternidade rima bem com liberdade. Maternidade precisa ser escolha, pois gestar e cuidar da vida continuam sendo atribuições eminentemente femininas, de pessoas com útero, envolvendo o corpo e a vida das mulheres. Em nossa sociedade, entretanto, a maternidade ainda é mantida com caráter compulsório, desigualmente da paternidade, que preserva caráter optativo. Repetem-se, também aqui, as desigualdades de gênero. Um homem pode postergar indefinidamente o reconhecimento de uma criança como filha, apesar da existência de uma lei da paternidade, desde 1992. Um Judiciário sexista contribui para a eficácia de medidas protelatórias adotadas por aqueles que desejam permanecer longe de responsabilidades parentais. (Prorrogações foram aceitas até no âmbito do Supremo Tribunal Federal, onde, após idas e vindas, um processo de busca de reconhecimento da paternidade iniciado em 21.04.1956, no Rio Grande do Sul, somente foi julgado definitivamente com a Ministra Rosa Weber, em 31.05.2019, após inacreditáveis 63 anos de tramitação, sugerindo que a presença de mulheres no sistema de Justiça, em espaços de deliberação e decisão,&nbsp; pode fazer diferença). O pai,&nbsp;<em>indicado</em>&nbsp;<em>pela mãe</em>, é mantido no Judiciário brasileiro &#8211; de forma sexista &#8211; eternamente como&nbsp;<em>suposto</em>&nbsp;<em>pai</em>. Uma vez que as palavras não são neutras, significa que, de forma misógina, a instituição se mantém duvidando da palavra da mãe. A solução estaria na inversão do ônus da produção da prova da paternidade, oferecendo um prazo para <em>o pai&nbsp;indicado</em>&nbsp;<em>pela mãe &#8211;</em> bem mais que um&nbsp;<em>suposto</em>&nbsp;<em>pai</em>, como pretende nosso sistema de Justiça &#8211;&nbsp; &nbsp;simplesmente provar não ser o pai.</p>



<p>A taxa de brasileires não assumides pelos homens-pais, resultando em pessoas sem reconhecimento paterno, otimistamente, gira em torno de 10% da população. Hoje, nosso país tem uma população de 210 milhões, podendo significar 21 milhões de homens que escolheram não assumir a paternidade ou seja, o reconhecimento da filiação. Em outros termos, significa 21 milhões de pessoas <em>filhas da mãe, </em>o que em uma sociedade patriarcal representa forte demérito. Esse número é maior que toda a população do Chile (19,1 milhões) ou, ainda, maior que a população da Bolívia (11,4 milhões) e do Paraguai (7,1 milhões) juntas (18,5 millhões). Torna-se claro ser a paternidade livre neste país: o homem brasileiro é pai se e quando quiser.</p>



<p><strong><em>Maternidade e gravidez precoce</em></strong></p>



<p>No mundo real, a maternidade continua difícil.</p>



<p>Gravidez e maternidade infantil no Brasil e na América Latina e Caribe &#8211;&nbsp; especialmente em áreas rurais e entre população de baixa renda &#8211; restringem direitos e interrompem possibilidades presentes e futuras. Gravidez infantil resulta de estupros &#8211; incestuosos ou, raramente, por estranhos à família. Entre 10 e 14 anos é a faixa etária em que as meninas sofrem altas taxas de violências sexuais. Não há <em>normalidade</em> em meninas se tornarem mães. Há violência. Anualmente, temos dois milhões de partos de meninas menores de quinze anos no mundo(UNFPA, 2013); e nem todos os estupros, incestos e casamentos infantis resultam em gravidez. E nem todas as vítimas sobrevivem. &nbsp;O Comitê CEDAW e o Comitê dos Direitos da Criança expressaram que a gravidez precoce e os casamentos infantis são práticas nocivas, que comprometem gravemente os direitos humanos da menina e da adolescente (Recomendação Geral Conjunta 31).&nbsp; &nbsp;&nbsp;</p>



<p><strong><em>Um Estado maternicida</em></strong></p>



<p>No mundo real, a maternidade continua difícil.</p>



<p>Maternicídios têm sido cometidos, desde 2010, chancelados pelo Estado brasileiro. Atentando contra direitos de crianças, adolescentes e mães, foi aprovada, naquele ano, a lei da alienação parental, dando a um judiciário misógino instrumento para promover separações – muitas vezes definitivas &#8211; de crianças e suas mães. A existência e a aplicação dessa lei, criminalizando mães que denunciam violências e abusos sexuais, precisam ganhar ampla visibilidade junto à sociedade. É incompatível a permanência dessa lei maternicida com as festividades em torno da mãe, no segundo domingo de maio. A revogação dessa lei se impõe à pauta social e política brasileira.&nbsp;&nbsp; &nbsp;&nbsp;</p>



<p><strong><em>Mãe: multiplicidades de experiência feminina</em></strong> &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Fica o convite para celebrarmos todas as maternidades. Mães solo, mães trans, mães negras, mães indígenas, mães brancas, mães migrantes, mães refugiadas, mães lésbicas, mães bissexuais, mães heterossexuais, mães biológicas, mães adotivas. A todas, a sociedade e o Estado devem reconhecimento, valorização, acolhimento e apoio. Todas dão nascimento, amamentam, nutrem, cuidam no presente e gestam o futuro.</p>



<hr class="wp-block-separator" />



<p><strong>Ana Liési Thurler</strong> é doutora em Sociologia das Relações Sociais de Gênero pela Universidade de Brasília, autora de <em>Em nome da mãe: o não reconhecimento paterno no Brasil</em> e de<em> Pós-patriarcado. </em> Pesquisadora e consultora em Direitos Humanos das Mulheres. Ativista no feminismo anti-capitalista, antirracista, anti-lgbtifobia e na #partidA, por uma democracia feminista.</p>



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<p class="has-text-align-center has-text-color has-background has-large-font-size" style="background-color:#2b2b2b;color:#ffffff">Galeria: artistas pra seguir na quarentena</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.instagram.com/culafernandes/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2020/05/d425f-bale-2.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-9547" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<p class="has-text-align-center has-text-color has-background" style="background-color:#2b2b2b;color:#ffffff"><em>Apoie artistas nessa quarentena. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>



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<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/9acee-publi-ediccca7acc83o-impressa-1.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-5668" data-recalc-dims="1" /></figure>



<p>Versão Impressa &#8211; Edição Conceito</p>



<p>Exemplar impresso da edição conceito da Trama, contendo os 10 textos mais lidos até sua diagramação. Autores selecionados: Ricardo Cristófaro, Dane de Jade, Enrique Coimbra, Gyovana Machado, Frederico Lopes, Caroline Stabenow, Gabriel Garcia, Marcus Cardoso, Kariston França, Paola Frizeiro, Luisa Biondo.</p>



<p>35.00 R$</p>



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<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.artebodoque.com"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/747d3-publi-bodoque3.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-5017" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<p class="has-text-align-center has-text-color has-background" style="background-color:#2b2b2b;color:#ffffff">Clique na imagem para acessar a loja virtual da Bodoque!</p>
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