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	<title>Arquivos Contrato Social - Revista Trama</title>
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	<description>Arte, Cultura e Criatividade</description>
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		<title>O ESPÍRITO TIRÂNICO E A FIDELIDADE NA SERVIDÃO</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 18 Apr 2021 21:29:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 087]]></category>
		<category><![CDATA[Contrato Social]]></category>
		<category><![CDATA[expressão subjetiva como resultado de crenças]]></category>
		<category><![CDATA[Gyovana Machado]]></category>
		<category><![CDATA[Pensar é Subverter]]></category>
		<category><![CDATA[questionar suas próprias ações]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Gyovana Machado</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="has-text-align-right"><em>&#8220;A resposta de La Boétie [sobre a servidão voluntária] é terrível: consentimos em servir porque também esperamos ser servidos. Servimos ao tirano porque somos tiranetes: cada um serve ao tirano porque deseja ser servido pelos demais que lhe estão abaixo (&#8230;) A servidão é voluntária porque há o desejo de servir, há desejo de servir porque há desejo de poder e há desejo de poder porque a tirania habita cada um de nós e institui uma sociedade tirânica, ou seja, a tirania não se encontra no topo do social, mas espalhada por ele e a crueldade se espalha por toda a parte. A covardia se manifesta na crueldade física, psicológica, moral e política com que cada um deseja esmagar e exterminar quem recusa a tirania.&#8221; (CHAUÍ, 2021, p. 3)</em></p>



<p>Partindo de uma sinalização dos conceitos de biopoder e biopolítica em Foucault, pretendo discutir hoje sobre o corpo político &#8211; ou, nesse momento, sobre a sociedade tirânica que firma e amplia desejos e pretensões que refletem, por exemplo, as decisões de quem a governa. Nesse sentido, há também de se dizer que: quem governa essa sociedade carrega em si um símbolo atribuído de sintomas sociais.</p>



<p>Há uma série de crenças silenciosas que precedem as nossas expressões. A &#8216;neutralidade&#8217;, por exemplo, em face à oposição que muitos entendem como polarização, recorre a dispositivos pré-concebidos e internalizados &#8211; e, por isso, é uma afirmação vazia, que não contrasta com as disposições de se ter uma postura &#8216;crítica&#8217; ou &#8216;equilibrada&#8217; quanto ao cenário político, sobretudo se levarmos em consideração o conceito de &#8216;política&#8217; em Weber, a rigor, relações de poder no Estado e, também, para além dele, na vida cotidiana.</p>



<p>Donna Haraway, em um dos seus estudos sobre feminismo, desenvolveu o conceito de &#8220;conhecimentos situados&#8221;, onde reivindica a não-ocultação dos momentos, lugares e estatuto social dos indivíduos que produzem saberes e práticas, sendo essa mais uma tentativa de definir com maior precisão a objetividade do conhecimento permitindo um olhar reflexivo sobre o &nbsp;intérprete, o que produziria certo engajamento na lente daquele que desenvolveu um determinado tipo de conhecimento. Esse é também um esforço de recorrer ao ambiente que nos circunda e que permite a construção de crenças internas as quais se inserem diretamente em todo tipo de expressão — pública ou não — de um indivíduo subjetivo. Reafirmo: <strong>todas as nossas expressões são resultado de uma série de crenças silenciosas</strong>. Mais do que isso, considero que o indivíduo não é um <em>self-made</em> de si; ao contrário, ele é perpassado por um conjunto de espaços que produzem certo tipo de sociabilidade, portanto, ações em interações, posturas desenvolvidas dentro de relações, enfim. &nbsp;</p>



<p>Os símbolos construídos em sociedades democráticas precisam de um certo tipo de sustentação para que sejam eleitos e alcancem o poder atribuído às cadeiras representativas do Estado a níveis municipais, estaduais e federais. Nesse sentido, há de se pensar que é necessário um corpo político e socialmente pactuado que age sob a direção de pressupostos políticos &#8211; e, nesse conjunto, podemos considerar as pautas que são erguidas sob alegação de serem &#8216;valores religiosos&#8217; (de cunho mais conservador). A proposta de La Boétie aponta para uma perspectiva de servidão voluntária que se justifica na espera (daquele que serve) de ser também servido.</p>



<p>Ao pensar em uma parcela da sociedade acordada em torno de princípios que buscam a supressão do direito do Outro de viver — em pleno exercício de seus direitos inalienáveis —, se destacam os alicerces deste acordo tirânico que busca a introdução de um &#8216;inimigo objetivo&#8217;, como discute Hannah Arendt; afinal, isso é muito mais decisivo para o funcionamento deste corpo do que a definição ideológica por categorias, pois o &#8216;inimigo objetivo&#8217; passa a representar aquilo que é contrário à política de um governo, sendo, portanto, um &#8216;portador de tendências&#8217;. À vista disso, prova-se as últimas rodadas de eleições no Brasil, sobretudo as presidenciais em 2018. <strong>O que se elegeu foi um símbolo que diversificava o discurso entre &#8216;metralhar a oposição&#8217; e a citação bíblica de João 8:32, &#8216;conhecereis a verdade e a verdade vos libertará&#8217;</strong>. A verdade, outrora atribuída a figura d&#8217;O Cristo, serviu como propaganda política que cimentou, num mesmo grupo, pastores e milicianos. Na perspectiva do presente ensaio, é possível refletir que a cola social diz da natureza dos valores atribuídos aos símbolos (ou ao símbolo) no período eleitoral; assim sendo, os valores usados como justificativas são essencialmente tirânicos por serem movidos à cólera e à crueldade exibidos em signos de força ou em atos moralmente covardes enquanto são marcados, assumidamente, na contramão de uma sociedade justa e igualitária. Como discute Chauí, <strong>nesse tipo de sociedade, as leis são armas para preservar privilégios enquanto, para as camadas populares, significam repressão</strong>. <strong>O Outro, ainda segundo Chauí, não é lido como um sujeito, muito menos um sujeito com direitos</strong>; comento que esse mesmo Outro é tido como aquele que precisam silenciar, oprimir e marginalizar sob ataque contínuo por ter sido eleito aquilo que representa a oposição do governo vigente &#8211; portanto, um &#8216;inimigo&#8217;.</p>



<p>O destaque vai para a política de fidelidade que se desenvolve a partir da tirania. Arendt irá cunhar o conceito de &#8216;banalidade do mal&#8217; para explicar, em linhas gerais, essa interação dos sujeitos com sistemas de violência, figuras que usam da violência para a dominação social, enfim. &#8216;Banalidade do mal&#8221; consiste na recusa do homem de fazer o exercício da reflexão, é a negativa do pensamento o que o afastará da responsabilidade de suas ações. Exemplo seria a justificativa dada por Adolf Eichmann em seu julgamento: usando de narrativas vazias e redundantes, o nazista justificava suas ações apenas como ordens que lhe foram dadas e, nesse sentido, seria algo como &#8220;<em>assassinei porque mandaram; torturei porque mandaram</em>&#8220;, etc. A fidelidade que se desenvolve neste pacto tirânico é extremamente perigosa, pois já não há base ética que indague o conjunto de ações que se desenvolve no corpo político e nos símbolos gerados por tal corpo. O que se espera é a via da servidão mútua: agimos sem questionar nossas ações, e o que prova que estamos corretos em agir é um aceno daquele que nos governa (através de decretos, tentativas de barrar algumas ações e políticas públicas contrárias a ideologia do governo, etc). <strong>Subverter, neste tipo de governo, é pensar</strong>.</p>



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<p class="has-text-align-right"><em>&#8220;Exercício e dignidade heróica do pensamento: este é o nosso lugar na</em> <em>luta</em><br><em>contra a covardia, a crueldade, a mentira e o cinismo.&#8221; (CHAUÍ, 2021, p. 14)</em></p>



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<p>BIBLIOGRAFIA DE APOIO</p>



<p>HARAWAY, Donna. <strong>Situated Knowledge</strong>: the science questions in feminism and the privilege of partial perspective. Feminist Studies, v. 14, n, 3 (Autumn, 1988), pp. 575-599.)</p>



<p>CHAUI, Marilena. O exercício e a dignidade do pensamento: o lugar da universidade brasileira.&nbsp;<strong>Congresso Virtual UFBA</strong>: Universidade em movimento, p. 1-14, 2021.</p>



<p>FOUCAULT, Michel. <strong>O nascimento da biopolítica</strong>: curso dado no Collegè de France (1978-1979). São Paulo: Martins Fontes, 2008b.</p>



<p>ARENDT, Hannah.&nbsp;<strong>Origens do Totalitarismo</strong>. [<em>S. l.</em>]: Companhia de Bolso, 2013.</p>



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<p><strong><strong><strong><strong><strong>Gyovana Machado </strong></strong></strong></strong></strong>é cristã, formada no Seminário Rhema Brasil, graduanda em História pela UFJF, bolsista no LAHES, interessada nas grandes áreas de teologia, política e feminismo.</p>
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		<title>Na pandemia, Rousseau não está feliz (e o Hedonismo se readapta)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 21 Mar 2021 21:30:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 083]]></category>
		<category><![CDATA[Contrato Social]]></category>
		<category><![CDATA[COVID-19]]></category>
		<category><![CDATA[Gyovana Machado]]></category>
		<category><![CDATA[Hedonismo]]></category>
		<category><![CDATA[liberdade]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Gyovana Machado</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Em uma semana com alto número de mortes diárias no país por conta da COVID-19, eu precisei repensar. Não bastava escrever sobre o que acredito precisar de maior reflexão — mesmo que meus esforços na escrita indiquem uma espécie de reflexo grupal/coletivo —, mas eu precisava escrever sobre algo que, honestamente, demorei a saber.</p>



<p>Estamos caminhando por um momento de crise sanitária e humanitária que exige, fundamentalmente, um esforço externo &#8211; ou seja, que diz de uma co-dependência social. Eu preciso do outro e ele precisa de mim; eu preciso que ele me veja bem como preciso vê-lo; e assim vai. No entanto, há uma série de faltas que não foram arranjadas e organizadas antes da pandemia (e que, mesmo se não houvesse pandemia, essas faltas permaneceriam), há uma série de acordos que sequer foram colocados em discussão e, nesse sentido, vivemos sob não-acordos enquanto enfrentamos um inimigo invisível. Para enxergamos isso na prática, basta um olhar para aqueles que se recusam a usar máscara, que se aglomeram em festas clandestinas, em bares, em circunstâncias irregulares, enfim. No entanto, há ainda uma leitura a ser feita desses<em> não-ditos</em> &#8211; o que, em muito, me faz refletir sobre o famoso Contrato Social de Rousseau, pois, na sua existência incontestável, temo que não tenham entregado aos sujeitos para que eles assinassem.</p>



<p>O que isso significa? No século XXI, em meio a uma pandemia, significa a escolha de uma servidão imersa aos próprios desejos, ímpetos e vontades. Penso, portanto, no sentido atribuído à palavra &#8220;liberdade&#8221;, que tem sido revisitada e lançada como argumento para a defesa à servidão do Eu. Em um mundo que tenta ler o indivíduo segundo méritos que não dialogam com as subjetividades e que, ainda, se esforça para poluir a educação enquanto uma imagem de aquisição de competências, há uma profunda proposta (sobretudo no âmbito das redes sociais) de evolução de si, seja através do &#8220;seja a melhor versão de si&#8221; ou através da estética tecida em torno daquilo que faria bem a &#8220;saúde mental&#8221;. E, nesse último ponto, podemos analisar o tanto de justificativas de pessoas que aglomeraram e que não respeitaram as regras de distanciamento e prevenção de contágio baseadas em &#8220;fiz para o bem da minha saúde mental&#8221; e, logo, vem um &#8220;ainda estou em evolução enquanto ser humano&#8221; &#8211; como se o &#8220;ser humano&#8221; significasse alguma permissão ou naturalização das irresponsabilidades. Com isso, não digo que não podemos errar; digo que, se a opção pelo erro envolve a possibilidade de condenar o Outro à morte, há sim uma crise ética e social, a qual não deve ser entendida como pedagógica dentro de um &#8220;compromisso de evolução&#8221; pessoal.&nbsp;</p>



<p>O único problema de mergulhar em si mesmo é não conseguir sair de lá. Se isso ocorre, o mundo se torna um palco possível para a concretização dos meus desejos, e o Outro, um ser passivo à predestinação do meu sucesso. Esse tipo de leitura unilateral do mundo é um perigo do qual temos experimentado os efeitos. Li piadas em torno da não contaminação de algumas pessoas que possuem o costume de sair (como se isso fosse lucro) e, em paralelo, vi 1.910 pessoas morrendo naquele dia devido à COVID-19. Essa espécie de &#8220;hedonismo&#8221; busca, na ideia que construíram sobre liberdade, reiterar o compromisso que possuem com suas próprias demandas, nem que isso condene os planos, sonhos, projetos, conquistas, experiências e tudo aquilo que um Outro poderia ter, à morte. A liberdade não é a percepção ou conhecimento dos nossos próprios desejos e vontades; afinal, a emancipação efetiva é aquela que dimensiona uma noção lá da infância, que é a separação entre o Eu e o Outro, e do conhecimento, portanto, de um Outro mundo. Nesse sentido, liberdade é, também, saber que não se pode tudo.</p>



<p>É possível pensar nessa perspectiva sobre liberdade no século XXI? Não. Há uma série de construções e iniciativas econômicas que atribuem valor ao indivíduo segundo sua disposição financeira, da qual derivam, entre tantas coisas, as noções de sucesso, por exemplo. Todavia, a pandemia nos mostra a necessidade de melhor pontuarmos o significado de &#8220;liberdade&#8221;, para que ela não seja tapume para o verdadeiro significado das irresponsabilidades: crime.</p>



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<p><em>Em memória, meu Tio Tião, que faleceu devido as complicações da COVID-19. Ele nunca será apenas uma estatística e, o nosso luto, jamais será um &#8220;mimimi&#8221;.</em></p>



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<p>BIBLIOGRAFIA DE APOIO</p>



<p>GIUSEPPE FERRARO, Giuseppe. LA FILOSOFIA E L’EDUCAZIONE.&nbsp;<strong>Anais do V Colóquio Internacional de Filosofia da Educação, UERJ</strong>, Rio de Janeiro, 2010.</p>



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<p><strong><strong><strong><strong><strong>Gyovana Machado </strong></strong></strong></strong></strong>é cristã, formada no Seminário Rhema Brasil, graduanda em História pela UFJF, bolsista no LAHES, interessada nas grandes áreas de teologia, política e feminismo.</p>
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