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	<title>Arquivos Cozinhar - Revista Trama</title>
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	<description>Arte, Cultura e Criatividade</description>
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		<title>Cozinhar, um Caminho de Volta Para Si Mesmo</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 15 Sep 2019 21:37:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 001, N 014]]></category>
		<category><![CDATA[arte]]></category>
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		<category><![CDATA[Hadassah Sorvillo]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: Hadassah Sorvillo</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong><em>Cozinhar é uma fuga da natureza para a imaginação. Uma refeição alimenta tanto o corpo quanto alma. É uma volta para si mesmo.</em></strong></p>



<p class="has-drop-cap">Das minhas lembranças mais antigas, das quais ainda tenho guardadas, até às mais recentes, muitas delas estão associadas à comida. Dos almoços de sábado na casa da minha avó, onde ela preparava o famoso nhoque de batata com molho de tomate, que era a sua especialidade. Como também das noites frias de julho quando minha mãe fazia uma sopa de feijão branco que aquecia o corpo e a alma. Lembro também quando a família se reunia e as tias faziam fornadas de chipas; em volta da mesa os risos e conversas, as histórias do passado se desdobravam e eu as ouvia fascinada com a boca cheia de massa roubada da bacia.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i2.wp.com/blog.artebodoque.com/wp-content/uploads/2019/09/17082019-RSVL3442-2.jpg?fit=606%2C404&amp;ssl=1" alt="" class="wp-image-2454" /></figure>



<p>Do bolinho de chuva, macarrão com berinjela, pão ainda quente banhado no azeite de oliva com uma pitada de sal marinho, bolo de aniversário com recheio de abacaxi, até a vitamina de pepino e beterraba que minha mãe me obrigava a tomar de manhã. Eu poderia passar um bom tempo listando todos os pratos e quitutes, todos os rostos e mãos das pessoas que os prepararam, e de todas as sensações que cada prato me proporcionou.</p>



<p>Sei que não sou a única a ter lembranças com a comida. Você também, caro leitor, deve ter as suas. Afinal, todos nós como seres vivos nos alimentamos, primordialmente pelo fator nutritivo e mantenedor dos alimentos. No entanto, além da sobrevivência, nós desenvolvemos a capacidade de criar hábitos culinários que não sucedem apenas do mero instinto de sobrevivência. Vão além, transformando o cozinhar em expressão da nossa história, cultura, geografia, crenças e organização social. Como também o cozinhar é a manifestação dos nossos sentimentos e da nossa imaginação.</p>



<p class="has-text-color has-background has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color">Gosto do termo <strong><em>&#8220;comida de alma.</em></strong>&#8221; Nossas primeiras experiências, talvez as mais queridas e reconfortantes foram vividas em uma cozinha. Como cozinheira eu entendo o valor dos restaurantes, no entanto acredito muito na cozinha doméstica. Ela que é democrática, que possibilita a todos a graça e poder de transformar e criar. Ela que também pode conter a nossa alma.</p>



<p>A cozinha como o útero e coração da casa, é forno, é criação, fonte e manutenção. Aquele que se aventura entre as panelas torna-se íntimo da matéria e dos seus mistérios. Dos seus segredos é possível gerar pratos com misturas e separações, formas, texturas, cores e aromas. Transformando a realidade a partir da imaginação. Transformando isso naquilo.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i2.wp.com/blog.artebodoque.com/wp-content/uploads/2019/09/03082019-RSVL2419.jpg?fit=606%2C909&amp;ssl=1" alt="" class="wp-image-2455" /></figure>



<p style="background-color:#a17600" class="has-text-color has-background has-very-light-gray-color"><strong><em>Cozinhar é propriamente criação, pois transforma a crueza e rudez dos alimentos, revestindo-os de fantasia, combinações, aromas, molhos, acompanhamentos e cores. Há uma narrativa e um encantamento enquanto se cozinha.</em></strong></p>



<p>O cozinheiro, enquanto corta os legumes, ao cozinhar as massas e assar as carnes, está criando como um artesão, um pintor e um compositor. No entanto, o seu material bruto são os alimentos e as possibilidades que daí derivam.</p>



<p>O momento de cozinhar é afetivo e evoca um centro criativo. Estar na cozinha é uma metáfora da alma e corpo, ambos em busca de alimentação. Comer, além de ser um ato fisiológico e cultural, é também um ato emocional e simbólico.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i1.wp.com/blog.artebodoque.com/wp-content/uploads/2019/09/15082019-RSVL3184.jpg?fit=606%2C404&amp;ssl=1" alt="" class="wp-image-2456" /></figure>



<p>Hoje em dia com a aceleração do ato de comer tanto em casa quanto no trabalho e na rua &#8211; o fast food, a comida congelada e pré-pronta &#8211; o rito do cozinhar e da refeição acabam perdendo o seu valor. A mesa como metáfora da vida acaba refletindo como somos e estamos escolhendo viver. No caos dos dias esquecemos que cozinhar é como a vida, e viceversa. É preciso parar e retornar para o centro, para o coração para o útero que gera, para aqueles momentos em que a comida é preparada com cuidado e dedicação.</p>



<p>É triste ver como alimentos insípidos e sem atrativos criativos e afetivos, acabam adentrando nossos corpos. Estes escolhidos apenas pela utilidade prática. Daí o encantamento se parte e as possibilidades ficam restritas ao conformismo. Come-se, mas falta saciar a alma.</p>



<p>Precisamos nos alimentarmos em diversos planos da nossa existência. Alimentados de paixões, alimentados de sonhos, buscamos saciar-nos continuamente. Alimentamo-nos de nossos laços com coisas, pessoas, tradições e culturas. Como também da arte, literatura, ideias e histórias. A busca pela nutrição, da nossa psique e corpo, é contínua. Estamos sempre com fome de algo.</p>



<p>Aí que chega a questão: como nos saciamos?</p>



<p>Já adianto que não tenho a pretensão de responder a essa pergunta. Até porque ela é ampla em si mesma, pois carrega a fome de cada um nós. E bem, cada um de nós já é por si só um universo o que torna as respostas inumeráveis.</p>



<p>No entanto, talvez, eu tenha uma boa pista. Algo que aprendi de experiência pessoal, com as minhas memórias afetivas na cozinha, das quais busquei entender a minha fome de corpo e alma vestindo o avental e botando a barriga no fogão. Algo que também aprendi conversando com pessoas que cozinham.</p>



<p class="has-text-color has-background has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color">Descobri na cozinha física, nas panelas, nos ingredientes e métodos uma parte escondida e pouco compreendida por mim mesma, da minha subjetividade. Virou então metáfora.</p>



<p>&nbsp;Daí que descobri que voltar para a cozinha é voltar para si mesmo. É compreender o tempo das coisas, os processos e as possibilidades. A importância do nosso corpo, das nossas mãos como ferramentas e intermediárias. Transformando pensamentos em ações. Ações em comida. Consciência de estar presente naquele momento. Pois é preciso focar e deixar os problemas do trabalho, da escola, e outros tipos de pensamentos do lado de fora da cozinha. Não se cozinha bem com a cabeça em outro lugar, é preciso estar inteiro.</p>



<p>Cozinhar também é um exercício de paciência. Compreender que cada ingrediente possui a sua individualidade. A batata cozinha em um tempo diferente da abóbora, um bolo leva um fermento diferente do pão. E neste sentido as pessoas exigem a mesma compreensão. Cozinhar pode nos ensinar a respeitar a amar as pessoas, reconhecendo as suas diferenças, belezas e restrições. É também se auto amar e reconhecer os seus processos individuais.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i2.wp.com/blog.artebodoque.com/wp-content/uploads/2019/09/15102018-RSVL7249.jpg?fit=606%2C909&amp;ssl=1" alt="" class="wp-image-2457" /></figure>



<p>Cozinhar é humildade e doação. Quando cozinhamos para outras pessoas percebemos que essa é uma responsabilidade e um exercício de se colocar no papel de criado. No entanto, olha a graça! O criado esconde, por outro lado, o criador. E quem come, se sacia de fato, da sua criação.</p>



<p>Ir para a cozinha é uma ação que passa longe de ser banal. Se ela for encarada como um processo emocional. E o resultado é no mínimo um processo de autoconhecimento e ressignificação de sentimentos. É uma percepção de como você encara a sua mesa e por consequência a sua vida.</p>



<p class="has-text-color has-background has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color">Meu apelo e desejo é que voltemos a criar histórias e memórias na cozinha. Que possamos perpetuar aquilo que aprendemos com aqueles que nos antecederam. E assim, criemos novas experiências e lembranças para aqueles que estão vindo. Dando corda no tempo, cozinhando memórias.</p>



<p>Que possamos usar a nossa imaginação para criar. Que compartilhemos o pão, os momentos e sentimentos com outras pessoas. Que deixemos de optar pelo o que é apenas conveniente, mas tão pobre em sabor e sentimento. Que a nossa cozinha seja um espaço físico que alimente a nossa casa, nossos corpos, nossas mentes, nossos corações. E por fim, nossas almas. Estas que andam tão famintas de comida de verdade, e digo isso em todos os sentidos.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/blog.artebodoque.com/wp-content/uploads/2019/09/15082019-RSVL3168.jpg?fit=606%2C909&amp;ssl=1" alt="" class="wp-image-2458" /></figure>



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<p><strong>Hadassah Sorvillo</strong> é amante das palavras e da natureza. Formada em publicidade e gastronomia, equilibra seus dias na rotina como freelancer de conteúdos digital e cozinheira. Também compartilha receitas e descobertas culinárias no <a rel="noreferrer noopener" href="http://temperodahady.com/" target="_blank">temperodahady.com</a></p>



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<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.artebodoque.com"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/5b980-5-3.jpg?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-2452" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



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<p style="text-align:center" class="has-text-color has-background has-large-font-size has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color">Galeria</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i2.wp.com/blog.artebodoque.com/wp-content/uploads/2019/09/photo5186361507900925972.jpg?fit=606%2C608&amp;ssl=1" alt="" class="wp-image-2453" /></figure>



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