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	<title>Arquivos Demarcação de Terras Indígenas - Revista Trama</title>
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	<description>Arte, Cultura e Criatividade</description>
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		<title>O FIAR DA MEMÓRIA</title>
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		<pubDate>Sun, 01 Aug 2021 21:30:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 102]]></category>
		<category><![CDATA[arte]]></category>
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		<category><![CDATA[Demarcação de Terras Indígenas]]></category>
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		<category><![CDATA[Micael Correia]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Dryelle Müller</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>As nornas, na mitologia nórdica, são três anciãs fiandeiras que moram nas raízes de Yggdrasil e tecem o tecido do destino e da realidade. As parcas, na mitologia romana, são filhas da noite e controlam o fiar da vida humana, e nem mesmo Zeus consegue controla-las. Na mitologia grega, moiras são as responsáveis por essa mesma função. A arte de tecer a história, na mitologia, é extremamente poderosa e isso não é um mero acaso. Lembrar é um ato de poder. Apenas os seres humanos vivenciam e produzem lembranças de forma tão poderosa. E como uma arte a ser produzida de forma complexa, precisamos de múltiplas ferramentas.</p>



<p>Pense como um bordado a ser construído: inicialmente precisamos do material, da matéria a ser consumida. Um tecido branco ou um tecido previamente colorido. Pela oralidade, é instruído sobre como fazer o desenho, como delinear o bordado de acordo com a experiência prévia de um outro alguém. Assim me lembro do outro mesmo não estando no outro, e lembro de como era antes mesmo de ser, de nascer e de reconhecer a mim e ao mundo. Lembro-me de desejar tudo intensamente: nasci num parto sem anestesia, na sala de espera, mamando – e desejo tudo com intensidade ainda hoje. É o saber do outro inserido em mim.</p>



<p>Depois vem a linha e o ponto. Cada um tem apenas uma linha de apenas uma cor e, com calma, pequenos detalhes são colocados no tecido. Não é possível trocar de cor, contudo o bordado nunca será apenas uno, ou então não será visto: passamos para outros tecidos, nossa cor é inserida em outras cores e uma figura começa a ser traçada. Halbwachs (1968) defende que a experiência é evocada de forma vivida quando observada por diversos pontos de vista. A lembrança é coletiva e inserida no social, se constrói com afinco porque tem-se muitas cores. Minhas cores se misturam, desde criança, com as cores de meus amigos de infância e das pessoas que conheci muito cedo e que ainda mantenho em vida: os detalhes são vívidos porque para eles, também são.</p>



<p>Uma vez que os bordados estão delineados, conectamos os desenhos a outros, desenhamos um plano maior: uma linha vermelha se conecta a uma linha verde e em diversas tonalidades criamos uma rosa. Outra planta será inserida, e outro desenho será ligado a unidade. Construímos um sentido, um objetivo. Uma história. Tenho mais memórias, em determinado ponto da vida, com colegas de trabalho e de escola do que com a família ou quando em solidão. O sentido e o objetivo que marcou a minha vida definiu o desenho que construí com mais afinco, enquanto em outros deixei apenas alguns pontos feitos.</p>



<p>Alguns materiais adicionais fortalecem o desenho a ser definido, como a oralidade e a memória coletiva. Esses materiais complementam o desenho final com mais definição, e uma camada de detalhes rica: diários, fotografias, livros. Um objeto pode contar muitas histórias, pode conectar. São elas as memórias superficiais que se transformam em efemérides, pequenas celebrações datadas.</p>



<p>O bordado pode ser comparado com o fiar em aspectos mais escuros da memória também. Quando fiamos um único caminho é traçado e, apesar de suas conexões e das ligações que faz, cada fio possui seu caminho e sua sequência, podendo ser encerrado apenas quando cortado. Ao fiar ou ao bordar, com ou sem intencionalidade, podemos repetir a mesma coisa duas vezes ou bordar várias vezes a mesma coisa, criando um motivo. Falhando na construção do todo. Desfazendo o bordado anterior. Essas são as memórias que, de acordo com Santayana (1905) nos coloca em um estado infante perpétuo. Que nos fada a repetir o passado. Memórias da história que se repetem pois são contadas por quem venceu, com benefícios em se fazer de tal forma. Nietzsche (2003) em sua segunda consideração intempestiva conclui de que somos históricos e que o homem pode apenas tomar plena consciência de si conhecendo suas raízes, dominando e se apropriando, conhecendo através do antes o agora.&nbsp;</p>



<p>A memória pode ser vista em inúmeras nuances: em pequenos gestos, em pequenas palavras. Em grandes contos e feitos. Nas nuances de outras nuances, passadas em gerações. Elas se debruçam sobre nós, fazendo do agora um ponto, do antes uma linha, do todo um desenho. Evoca emoções, provoca questionamentos e produz mais, sempre mais, para logo depois se apagar em si. São históricas e a-históricas. É mitologia e fato. Cotidiano e conto. É arte por si só. E como toda arte é nova, complexa e vital. É superfície e símbolo. É admirada intensamente.</p>



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<p><strong>REFERENCIAS</strong></p>



<p>DALCASTAHNÈ, Regina. Pela superfície do mundo: objetos e memória na literatura brasileira contemporânea.&nbsp;<strong>Letras de Hoje</strong>, v. 53, n. 4, p. 463-468, 30 dez. 2018.</p>



<p>HALBWACHS, Maurice. <strong>A memória coletiva</strong>. São Paulo: Vértice, 2006.</p>



<p>NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. <strong>Segunda consideração intempestiva</strong>: da utilidade e desvantagem da história para a vida. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2003.</p>



<p>SANTAYAMA, George. <strong>The life of reason</strong>: os the phases of human progress. Londres: Archibald Constable, 1906. Disponível em: <a href="https://archive.org/details/in.ernet.dli.2015.93625/page/n3/mode/2up">https://archive.org/details/in.ernet.dli.2015.93625/page/n3/mode/2up</a>. Acesso em: 08 jul. 2021.</p>



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<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:22% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="950" height="950" src="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/f2b0a-dryelle-muller.png?resize=950%2C950" alt="" class="wp-image-17362 size-full" srcset="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/f2b0a-dryelle-muller.png?w=966&amp;ssl=1 966w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/f2b0a-dryelle-muller.png?resize=300%2C300&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/f2b0a-dryelle-muller.png?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/f2b0a-dryelle-muller.png?resize=768%2C768&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/f2b0a-dryelle-muller.png?resize=96%2C96&amp;ssl=1 96w" sizes="(max-width: 950px) 100vw, 950px" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p><strong><strong><strong>Dryelle Müller </strong></strong></strong>é discente de Licenciatura em Biblioteconomia pela UNIRIO. Estagiária na Coordenadoria de Acesso a Informação (COOAI) no Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro (APERJ), membro do grupo de pesquisa “Estudos sobre práticas inovadoras de ensino-aprendizagem em Biblioteconomia” pelo CNPq/UNIRIO, Monitora de fundamentos teóricos da Representação Descritiva e Bolsista e Projeto de Extensão &#8220;Oficina para o desenvolvimento de colaboradores de sala de leitura e unidades de informação&#8221;. Atuou como membro no Laboratório Multidimensional de Estudos em Preservação de Documentos Arquivísticos e participou da ação &#8220;Documentos Arquivísticos: o que, por que e como preservar?&#8221;.</p>
</div></div>



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		<title>O AMOR PODE DESTITUIR A NOSSA HUMANIDADE</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 01 Aug 2021 21:29:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 102]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Demarcação de Terras Indígenas]]></category>
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		<category><![CDATA[Micael Correia]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Micael Correia</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Há um século, num texto intitulado “<em>Psicologia das massas e análise do Eu</em>”¹, Freud nos falava sobre um tipo específico de amor. Antes, Freud insiste na ideia de que a ligação amorosa está na base da explicação dos processos anímicos, desde os individuais até os sociais. Ali ele nos fala como quem defende que um corpo social é simplesmente a subsunção, numa escala ampliada, da forma ficcional de um <em>indivíduo</em>, gestor de suas volições e portador de predicados que o identifica. Mas se Freud nos leva a falar de amor nesse caso, é porque mesmo uma massa organizada não se explica através da descrição da conveniência tática firmada em acordos coletivos de sobrevivência. Afinal, isso seria negligenciar um elemento ainda mais primário, que é capaz de fazer deslizar os ideais dos eus para ideais partilhados, numa fraterna socialização de modos de desejar.</p>



<p>Na verdade, Freud irá descrever esse tipo de aliança como estando sustentada por um fechamento narcísico do eu com outros eus que demandam reciprocamente amparo, afirmação e reconhecimento, e que estão dispostos a um mesmo núcleo afetivo. Não por acaso, esse encontro depende muito precisamente de certa instilação egóica, que se expressará no reforço mecânico daqueles predicados que constituem a identidade da massa e do indivíduo, dialeticamente. Assim, Freud falará, a sua maneira, dessa faceta do amor: “a identificação é a forma mais originária de ligação afetiva com um objeto”<a href="#_ftn1">[1]</a>.</p>



<p>Nesse momento, Freud parece encontrar um termo para descrever uma instância do amor característico das sociedades liberais, que teria, por sua vez, a flexibilidade de se expandir para as formas sociais mais gregárias. Se podemos falar da identificação como uma operação elementar do amor, sua precisão teórica repousa no fato histórico de que <em>a modernidade foi capaz de produzir um amor que desconhece relações produtivas fora do âmbito das identidades</em>. Amar seria uma atividade necessariamente dependente de uma noção abstrata de <em>pessoa</em>, concebida enquanto portadora de qualidades que a predicam, que a definem identitariamente dentro de um campo social. Falar de amor, seria falar dos processos de demandas que merecem ser atendidas dentro de uma relação cooperativa, relação cujo cerne narcísico exigiria investimentos recíprocos de libido &#8211; no eu e ao outro.</p>



<p>Vejamos que dizer em termos de “investimento” ainda acabaria por adensar uma “analogia” bastante própria ao amor nas sociedades liberais modernas: a possibilidade do amor se expressa como se vivêssemos num mercado, no qual as pessoas circulam como mercadorias e “escolhem” umas às outras a partir de contratos que forçam relações de reconhecimento daquilo que em mim julgo essencial<a href="#_ftn2">[2]</a>. Estranha concepção em que a própria noção de pessoa se encontra fetichizada. E seu aspecto mercantil reside justamente na ideia de que a única forma possível de sujeito é aquela entificada na forma-pessoa e na forma-indivíduo, derivados do mesmo modelo daquela da propriedade privada. Nesse caso, é mais fácil assumir que não há sujeitos para o capitalismo – só existem sujeitos para os psicanalistas e para mais alguns outros.</p>



<p>Há de se perguntar se existiria uma outra forma de amor possível, que prescindisse das predicações individuais e nos conduzisse a uma experiência contraposta à racionalidade mercantil que apossa nossos corpos. Uma experiência que simplesmente renunciaria nossa própria dependência da noção psicológica de identidade. Caberia aqui o problema de deposição do amor, justamente nos tempos onde ele parece suscitar as mais esperançosas razões de ser – a saber, nos tempos de cólera, muros e sectarismos?</p>



<p>Acredito que se a psicanálise mesma pode nos ajudar a coletar de seu escopo teórico uma fagulha que faça queimar os vazios da identidade, aquiescendo aquilo que não coincide ao eu dentro de uma relação, é justamente porque podemos a partir de sua reflexão apontar a radicalidade de um <em>amor anti-predicativo</em>. Podemos encontrar algo assim no célebre aforismo lacaniano: “<em>amar é dar aquilo que não se tem</em>”<a href="#_ftn3">[3]</a>. É aqui que Lacan, motivado por identificar o caráter de desmesura que coloca um amor que não pode ser delimitado pela posse, qualifica o amor enquanto algo da ordem do <em>dom</em>. Afinal, dar o que não se tem é uma experiência de fazer circular aquilo que aparece como falta. Ponto obscuro este em que lidar com faltas é também reconhecer a impossibilidade de qualquer que seja a reciprocidade; pois no amor, não participamos quando demandamos investimentos e pactuamos acordos de indissolubilidade. No amor, a regra é justamente a não-equivalência daquilo que se dá e do que se recebe. Aliás, aquilo que é recebido, está longe de ser parte reconhecível de mim num outro externo. Aqui prevalece a radicalidade de um outro que é capaz de colapsar minha individualidade e impactar como um objeto que me sujeita sem pedir permissão.</p>



<p>Talvez o poema “Salmo” de Paul Celan &#8211; no qual a própria não-identidade é positivada em um ato de louvor enquanto se ama – também possa indicar esse caminho por onde o amor resiste a pressão de se submeter à identidade. Ali onde o amor é dom, ali também ele há de nos abrir para outra humanidade:</p>



<p class="has-text-align-right"><em>Ninguém molda-nos novamente com terra e barro</em><br><em>Ninguém evoca nosso pó</em><br><em>Ninguém.</em><br><em>Louvado sejas, Ninguém.</em><br><em>Por ti queremos</em><br><em>Nós florescer.</em><br><em>Ao teu</em><br><em>Encontro.</em><br><em>Um nada</em><br><em>Éramos nós, somos nós, permaneceremos</em><br><em>Sendo, florescendo:</em><br><em>A rosa nada, a</em><br><em>Rosa de ninguém.</em><br><br><em>(Paul Celan)</em></p>



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<hr class="wp-block-separator" />



<p><a href="#_ftnref1">[1]</a> FREUD, S. Psicologia das massas e análise do Eu (1921).</p>



<p><a href="#_ftnref2">[2]</a> Ver mais sobre a racionalidade mercantil do amor em SAFATLE, V. (2019) O circuito dos afetos: corpos políticos, desamparo e o fim do indivíduo.</p>



<p><a href="#_ftnref3">[3]</a> LACAN, J. O seminário: livro 8 – A transferência (1960-1961).</p>



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<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:22% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/9d309-micael-correia.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-14286 size-full" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p><strong><strong><strong>Micael Correia&nbsp;</strong></strong></strong>tem 22 anos e é um escritor não-autorizado. Faz graduação em Psicologia e nutre interesse por Psicanálise, Cultura e Religião.</p>
</div></div>



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		<title>5 TESES SOBRE A HISTÓRIA PARA DIZER DA LUTA INDÍGENA NO BRASIL</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 20 Jun 2021 21:30:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 096]]></category>
		<category><![CDATA[Demarcação de Terras Indígenas]]></category>
		<category><![CDATA[Luta Indígena]]></category>
		<category><![CDATA[Micael Correia]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://atomic-temporary-162935141.wpcomstaging.com/?p=16527</guid>

					<description><![CDATA[<p>por:  Micael Correia</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="has-text-align-right"><em>Lutai primeiro pela alimentação e pelo vestuário,</em><br><em>E em seguida o reino de Deus virá por si mesmo</em></p>



<p class="has-text-align-right"><em><strong>Hegel</strong></em></p>



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<p><strong>Explodir</strong></p>



<p>A história universal, tal como Walter Benjamin a representa, é aditiva: “ela utiliza a massa dos fatos, para com eles preencher o tempo homogêneo e vazio”. É um tempo fetichista; reificado. A história geralmente é aplainada nesse fluxo contínuo. Somente quando paramos é que se torna possível o confronto à história e recuperação de seu passado oprimido. São explosões, rupturas, cortes, furtos. Quando essas <em>quebras</em> acenam às ruas, o povo indígena enuncia um movimento de conservação libertária, que desvia o curso da história para uma época antes forcluída. Esse anúncio é um apelo ao tempo.</p>



<p><strong>Escovar</strong></p>



<p>O contemporâneo que se conforma tem empatia pelo vencedor. É isso que a história mostra quando é contada pela versão dos colonizadores, impactados nostalgicamente pelo que representou extermínio e caça ao povo dessa terra. Os vencedores são os estandartes da barbárie que marcham em tom fúnebre por sobre o solo dominado pela força bruta do branco. Todos os documentos estão alinhavados pelo triunfo dos poderosos, e por isso são evidências da barbárie. Pra reler o país, é preciso desidentificar-se com o curso desta transmissão e escovar a história a contrapelo.</p>



<p><strong>Reviver</strong></p>



<p>Pois “toda terra é indígena”. Não existe rememoração transiente. Quando a imagem do passado se apresenta ela é experiência no tempo que flutua e faz parar o tempo histórico. Para que a consciência histórica, então, emerja, o “era uma vez” de Pindorama necessita ruir em seu aspecto progressista e reviver enquanto “tempo de agora”, que conecta uma época a outra e faz notar o messiânico.</p>



<p><strong>Profanar</strong></p>



<p>Se a tradição está nas mãos dos opressores, ela deve ser inconformadamente arrancada. Ela deve servir à redenção dos que despertam como signo de esperança e se contrariam ante a demissão de sua existência. Pois o passado não é “o que foi”: ele é a revitalização lampejante da memória nos tempos de perigo. Recusar a tradição dos opressores e recuperar a história – eis o imperativo da luta indígena, que se opõe a aceitar o estado de exceção em que se vive.</p>



<p><strong>Redimir</strong></p>



<p>Do ponto de vista do progresso e do capitalismo, o tempo avança sem interrupções e vê o horizonte como espólio. Mas quem vê os acontecimentos de cima sabe que nada do que aconteceu está verdadeiramente perdido. A vista do ponto dos vencidos é totalmente outra, porém está deslocada, borrada, interrompida. Somente quando cada momento compor o quadro geral da existência, e em que o povo desta terra obter a presença viva de seu passado – somente nesta luta é que a redenção será abraçada.</p>



<div style="height:20px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<p><em>Em solidariedade a todos guerreiros e guerreiras indígenas que lutam por sua existência em favor da demarcação de suas terras. A todos e todas essas: um futuro de paz!</em></p>



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<p><strong><strong><strong>Micael Correia&nbsp;</strong></strong></strong>tem 22 anos e é um escritor não-autorizado. Faz graduação em Psicologia e nutre interesse por Psicanálise, Cultura e Religião.</p>
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