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	<title>Arquivos Derrubada de monumentos - Revista Trama</title>
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	<description>Arte, Cultura e Criatividade</description>
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		<title>Chumbo trocado</title>
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		<pubDate>Sun, 05 Jul 2020 21:31:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 052]]></category>
		<category><![CDATA[Derrubada de monumentos]]></category>
		<category><![CDATA[Luciano Nascimento]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Luciano Nascimento</p>
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<p class="has-drop-cap">Acabo de ler o peculiar artigo que um intelectual midiático publicou hoje, 27 de junho, num jornal de grande circulação no país. Por discrição costumo não citar nomes.&nbsp;</p>



<p>Em seu texto na <em>Folha de São Paulo</em>, Demétrio Magnoli critica, com a habitual ironia autorreferenciada paulistana, a retirada de estátuas de figuras históricas de espaços públicos. O gesto tem se tornado um tanto mais frequente em meio às manifestações antirracistas decorrentes do assassinato de George Floyd, nos EUA. Magnoli diz que a atitude caracteriza a “imposição do esquecimento”, chama seus praticantes de “vândalos do bem” e, pérola das pérolas!, afirma categoricamente: “Uma estátua erguida no passado não representa uma celebração presente”.</p>



<p>Muito <em>sui generis</em> a perspectiva do doutor – em geografia humana, ressalte-se. Fico pensando se a Estátua da Liberdade, em Nova Iorque, tem ou não esse estatuto “celebrativo”&#8230; Acho que sim. O Cristo Redentor? Sim. As imagens colossais de Buda no extremo Oriente? Idem. “Padim Ciço” em Juazeiro? Também. Alguém poderia dizer: “Ah, mas é diferente&#8230; esses são símbolos de religiosidade”, grosso modo. Tudo bem, pode até ser, mas e o David, de Michelângelo? E a estátua de Pedro, o Grande, em São Petersburgo? E o uso comercial que lojas de departamento e <em>shopping centers</em> Brasil afora fazem de réplicas de certas imagens “simbólicas”, como a musa nova-iorquina?</p>



<p>Ao contrário do que disse o midiático pensador, estátuas de personalidades – históricas ou míticas – servem justamente para tornar o passado eternamente presente. Porque “é possível viver quase sem lembrança, sim, e viver feliz assim, como mostra o animal; mas é absolutamente impossível viver, em geral, sem esquecimento”, diz F. Nietzsche (na sua <em>Segunda consideração intempestiva</em>). Liberar memória de trabalho é uma necessidade fisiológica para o ser humano, e é também por isso que construímos estátuas, pintamos quadros, escrevemos romances (históricos ou não)&#8230; Todos esses textos (em sentido lato) funcionam como “arquivo” (cf. J. Derrida) da nossa humanidade, mantendo e atualizando constantemente a história dos significados das coisas por eles representados. Sem arquivos, talvez tivéssemos que conviver com a maldição da lembrança integral, eterna e instantânea, como <em>Funes, o memorioso</em>, de J. L. Borges.&nbsp;</p>



<p>Acontece que, também como diz Derrida, todo arquivo traz em si a pulsão de morte: morte da memória fisiológica da comunidade que o instituiu – e que confia a ele, ao arquivo, a tarefa de lembrar – e morte dele próprio, o arquivo, que, se abandonado pela comunidade, se esquecido, morre. No caso das estátuas de escravagistas notórios, o que será que elas matam? O que preservam? Horror ou louvor? Asco ou veneração?</p>



<p>Num momento de reação ao racismo, algumas dessas imagens foram arrancadas de seus pedestais; outras entraram na mesma mira e talvez tenham destino semelhante. Tomara que sim, porque também é arquívica a imagem do arremesso da estátua de um mercador de vidas pretas ao fundo de um rio (que não é o do esquecimento). De uma forma ou de outra, mesmo invisível em si mesma, a escultura infame continuará fazendo parte da história, assim como as esculturas de Lenin que Magnoli cita, talvez para parecer isento e imparcial, certamente ciente de que assim ostenta erudição e exala autoridade.</p>



<p>Europeus saquearam o continente africano por séculos, como bem lembra Eric Killmonger (o vilão do filme <em>Pantera Negra</em>); são chamados “conquistadores”, “colonizadores” e outros nomes com conotação em geral positiva. Se apenas eu não vi Demétrio Magnoli chamá-los de “ladrões”, peço desculpas: falta-me “erudição”. Mas, do meu ponto de vista, se derrubar estátuas de racistas vai nos fazer parecer “vândalos do bem”, assim seja: chumbo trocado não dói.</p>



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<p><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong>Luciano Nascimento</strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong> é mangueirense, filho, marido, pai, professor, flamenguista, psicopedagogo&#8230; mais ou menos nessa ordem. É, também, idealizador do projeto Dê Efiência (<a rel="noreferrer noopener" href="http://www.deeficiencia.com.br/" target="_blank">www.deeficiencia.com.br</a>)</p>



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<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.instagram.com/iambrendamarques/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2020/07/cf6fa-begaleria1-1.png?w=950" alt="" class="wp-image-10809" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



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