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	<title>Arquivos Deus - Revista Trama</title>
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	<description>Arte, Cultura e Criatividade</description>
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		<title>Deus é brasileiro, o papa é argentino, e uns messias&#8230;</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 10 May 2020 21:28:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 044]]></category>
		<category><![CDATA[Deus]]></category>
		<category><![CDATA[Kariston França]]></category>
		<category><![CDATA[messias]]></category>
		<category><![CDATA[papa]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Kariston França</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>“Se Deus existe, ele é brasileiro”. Todo mundo já ouviu essa frase em algum momento da vida; mas se Ele é brasileiro, porque temos um papa argentino?!</p>



<p>Eu não resisto a esse pensamento. Talvez pela paixão que tenho pelo futebol, eu não consiga desvincular essa situação como desastrosa. Óbvio que o Papa argentino é pop e tem se mostrado um referencial de como a espiritualidade é capaz, ainda, de ser relevante no mundo.</p>



<p>Penso imediatamente na relação com “American Gods” ou “Deuses Americanos”, que retrata o conflito entre os deuses antigos e os novos, fruto dos antigos que criaram os homens. <strong>Ou seja, do homem, que vem do divino, surge algo novo, algo divino.</strong></p>



<p>Fato é que o Papa Francisco entra em cena em um momento histórico onde a instituição se encontra desmoralizada, ruída, mergulhada em escândalos. Onde cada mergulho é um flash na cara de algum integrante da alta cúpula da igreja.</p>



<p>Mas isso não é uma exclusividade da Igreja Católica. As principais religiões do mundo vivenciam a morte de suas crenças e a redução de seu crescimento, o que consequentemente culmina em decadência de suas influências e de suas forças diante da sociedade. Por outro lado, esse fenômeno decadente das religiões, não anula o crescente fanatismo de seus atos; ou seja, quando o calo aperta, a relação passa a ser pela dor (na maioria das vezes).</p>



<p>A prova de que o fanatismo é uma reação à decadência é a existência de projetos messiânicos que tentaram, baseados no cristianismo, criar força para influenciar, dominar, e alimentar suas vaidades. Esse será nosso objeto de análise por hoje.</p>



<p class="has-text-align-right"><em>Antes de dar sequência, quero aqui fazer um adendo: sou cristão desde berço, questionei minha fé, me percebi cético, me reencontrei no amor às pessoas, e hoje sigo a fé cristã, mas entendo que a minha fé está longe da fé que se vive em alguns palanques e prédios.</em><br><em>Esse texto, então, é uma crítica não a crença pura de cada indivíduo, mas um exemplo de como a vaidade, a ganância e a soberba podem arruinar vidas, mesmo que estas estejam travestidas de religiosidade, de amor e de boas obras.</em></p>



<p>Sendo assim, voltemos ao raciocínio anterior: diversas foram as vezes em que líderes religiosos surgiram com soluções para as mazelas de sua época. Fossem elas a cura para a peste, o alívio pleno da fome e da pobreza ou o convite a um amor puro, verdadeiro e eterno, nesses contextos, os “<em>messias</em>” sempre surgiram.</p>



<p>Alguns, de fato, vieram e mudaram a maneira como o divino interage com mundo. Eles causaram mudanças apoteóticas. Seus escritos transformaram pessoas, influenciaram o pensamento crítico, a auto-estima e a valorização do homem como sagrado. No entanto, em maior força, vez ou outra encontramos na história “homens santos” que conduziram os seus semelhantes, (entenda como subalternos), ao ato mais banal possível: a perda da sua humanidade.</p>



<p>O que estamos dizendo aqui é que não é de hoje que os messias surgem como o que temos em nosso (DES)governo&#8230; São invejosos e acreditam que possuem a razão, a verdade, o conhecimento pleno. Eles possuem a <strong>solução final</strong>. </p>



<p>Com a desculpa de &#8220;ser um mensageiro&#8221;, Jim Jones promoveu a criação de uma “cidade santa” onde todos seriam iguais, onde não haveria fome nem doenças; no entanto, o que seus seguidores tiveram foi a privação do resto de suas vidas em um “suicídio” ou assassinato em massa de quase mil pessoas em Jonestown, além de diversas outras mortes envolvidas na trajetória do líder.</p>



<p>Marshall Applewhite também conduziu diversas pessoas na crença de que seus corpos eram meros receptáculos. Numa mistura de crenças, prometeu libertar as pessoas das desigualdades terrenas as quais suas almas estavam fadadas a experimentar pois era dito que o corpo humano era um “receptáculo ou veículo” por onde as almas evoluídas pudessem entrar e sair, levando seus seguidores a compreender que era necessário evoluir o espiritual e abrir mão de todos os vínculos terrenos. Tal compreensão conduziu seus liderados a um suicídio coletivo no anseio de que uma nave espacial os levaria da terra para o novo lugar.</p>



<p>Mais outro “<em>messias</em>” <strong>se faz presente, afetando não só a vida de seus seguidores, mas tentando conduzir um ataque contra um estado democrático</strong> (<em>algo familiar?!</em>). Seu nome, Shoko Asahara. Asahara assume a posição de líder da seita Verdade Suprema e conquista o reconhecimento do governo japonês como grupo religioso. A partir desse ponto, a seita ganhou força, dinheiro e influência na televisão japonesa.</p>



<p>Andando em carros luxuosos, começou a divulgar suas teorias apocalípticas misturadas ao budismo e outras concepções religiosas através de desenhos animados na televisão e mangás, sempre enfatizando a proximidade da terceira guerra mundial e a busca por uma verdade final para a sobrevivência no fim do mundo. Acontece que o medo da guerra nuclear foi diminuindo com a dissolução da união soviética, o que fez com que a percepção deste inimigo comum deixasse de existir. Em sua decadência, a seita parte para a força e realiza dois ataques com Gás Sarin (o mesmo criado pelos nazistas) contra a população japonesa, sendo o primeiro ataque em 1994 e o segundo nos metrôs de Tóquio em 1995.</p>



<p>Todos os referenciais citados alegavam uma vocação messiânica (heróica).</p>



<p>Entramos então em outro aspecto, a questão do mito, e como isso tem se tornado uma cultura maior através dos séculos e em especial, em nosso milênio, o terreno parece incrivelmente fértil para o nascimento de novos “mitos ou messias”.</p>



<p>De acordo com Marilena Chaui,</p>



<p class="has-text-align-right"><em>Para que o mito sobreviva, é necessário o sacrifício, que ordena nossa visão de mundo. Em várias sociedades, o sacrifício de vidas humanas mantinha as relações com a divindade, com o objetivo de aplacar a ira do supremo. Os hebreus, de acordo com o Velho Testamento, ofereciam em sacrifício o melhor de suas criações, geralmente uma ovelha ou cordeiro, porque eram as vítimas perfeitas – as que não reagiam ao sacrifício, daí a expressão “bode expiatório” (aquele que paga pela culpa do outro). A repetição do sacrifício dá origem ao ritual, que é o mito tornado ação. Com a repetição do ritual, nasce a religião.</em></p>



<p>Sendo assim, temos a ascensão ao bolsonarismo como um movimento messiânico no <em>brazil</em>. O Clássico presidente de uma nação do terceiro mundo que sempre lambe botas do presidente estadunidense nos filmes de ação dos anos 80-90 ao estilo <em>Braddock, Rambo, Soldado Universal </em>entre outros.</p>



<p>Enquanto candidato à presidência, um tal mito passou por um período de risco de vida em um dia de campanha eleitoral, foi atacado e, mesmo estando sob cuidados médicos que o impediam de ir a debates, tem sua dignidade contestada por todos &#8211; o que só aumenta a carga <em>messiânica</em> que parece ser destinada a ele por “deus”. Sua base eleitoral cresce, e passa a receber apoio dos “profetas” midiáticos ao buscar refúgio, orientação e consolo,&nbsp; o legitimando como servo de algo maior, da moral e dos bons costumes. Um simples homem se torna um mártir ambulante. Mas não se esqueçam dos casos anteriormente mencionados: um verdadeiro messias suporta seus fardos, não revida e continua dando a sua vida pela sua crença, sem colocar a vida de outros na “linha de fogo”.</p>



<p>A exemplo disso temos Gandhi, que desafiou uma das maiores forças imperialistas da história, colocando a <strong>si mesmo</strong> na linha de frente, e não expondo os seus <strong>semelhantes.</strong> Gandhi assumiu em sua atitude a compreensão de que cada ser humano era seu semelhante e desenvolveu sua <strong>satyagraha</strong> (Força da Verdade) como combustível para sua rebeldia civil sem violência. Num contexto da África do Sul, lutou para que os casamentos de outras religiões além do cristianismo fosse aceito pela sociedade, criou vínculo com Leon Tolstói, Protr Kropotkin, Charles Freer, além de beber dos ideais de Henry Thoreau. Criou forças enquanto apanhava, era preso e humilhado, sem jamais revidar.</p>



<p>Gandhi mudou a história da África do Sul, mas também transformou sua terra natal, a Índia. Assumiu a culpa por erros dos seus pares, chamou a responsabilidade e dedicou a vida pela liberdade de todos em sua nação.</p>



<p>Outros nomes, como Antônio Conselheiro, Padre Cícero e Martin Luther King, também foram messias/mitos que transformaram suas nações, se esforçaram pelo bem comum. Essas são histórias que abordarei em uma série chamada &#8220;Mitos de Verdade&#8221;.</p>



<p>Quero encerrar esse texto compartilhando a respeito de um <em>MITO-MESSIAS</em>, um ser que vive em outra realidade, uma criança em seu &#8220;<em>fantástico mundo</em>&#8220;. Não, ele não luta por seus semelhantes, luta apenas por aqueles que se submetem a sua visão de mundo, sua crença. Opta por expor todos os seus &#8220;devidos semelhantes&#8221; a um vírus que tem paralisado até às nações mais poderosas, desfigurado uma sociedade, construindo uma rede de mentiras e colocando como vítima.</p>



<p>Um mito aceita seu destino de martírio, entrega sua vida e não aceita receber nada em troca; sofre humilhações e apenas entrega a outra face; vê o sofrimento ao seu lado e se compadece; chora; se desespera em aliviar o sofrimento e trazer justiça aos outros antes de buscar qualquer benefício. Esse mito, ele ainda não se encontra em nossa realidade, não aparece nos dias de hoje. </p>



<p><strong>Desconfie de um messias que não se importa com os que ficam pelo caminho, com aqueles que perdem a vida. Desconfie de alguém que prefira alimentar os seus pupilos ao invés de alimentar a multidão.</strong> </p>



<p><strong>Um verdadeiro <em>MITO-MESSIAS </em>nunca se reconhece como um escolhido</strong>; alguém assim só tem potencial para trazer desilusão, caos e destruição de tudo que é divino, de tudo que faz Deus ser brasileiro, o papa ser argentino. Um messias não busca a destruição. Nem te convence que é bom mandar matar e ainda celebrar a morte do assaltante como um ato bondoso.</p>



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<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:32% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2020/04/b5310-bio-ka.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-8637" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p><strong><strong><strong>Kariston França</strong> </strong></strong>é apaixonado por pizza, e nas horas vagas atua como entusiasta da teologia pública.</p>
</div></div>



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<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/9acee-publi-ediccca7acc83o-impressa-1.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-5668" data-recalc-dims="1" /></figure>





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<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.artebodoque.com/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/747d3-publi-bodoque3.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-5017" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



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<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-large-font-size">Galeria</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.instagram.com/culafernandes/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2020/05/d5900-bale-3.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-9543" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-medium-font-size"><em>Apoie pautas identitárias. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>
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		<title>Piruá</title>
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		<pubDate>Sun, 08 Sep 2019 20:19:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 001, N 013]]></category>
		<category><![CDATA[Deus]]></category>
		<category><![CDATA[Diego Neves]]></category>
		<category><![CDATA[Piruá]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: Diego Neves</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Não, Deus, eu não te busco<br>Mentia ao dizer saber quem Você é<br>Não, eu não sou injusto quando afirmo pensar<br>Que o pensar é traiçoeiro<br>Pois, veja bem, quem leu o primeiro afirmar<br>No verso inaugural dessa canção, em sua maioria achou Que se tratava de uma negação<br>Pois bem, não é<br>E você sabe, Deus, não te procuro<br>Porque te achei faz tempo,<br>Porque te vejo dentro de toda expressão de amor </p>



<p>E quando a fé se complicou, a insegurança me bateu Tal qual pandeiro<br>Sorrateiro chegou o amor, me levou e me fez lar </p>



<p>Longe dos bordões da massa<br>Vi banda passar na praça<br>Vi beleza no ensinar, me provando do contrário Todo meu imaginário era feio e solitário<br>E tão falho ao tentar aplicar definições </p>



<p>Redenção, eu vi teu berço
Vi crença dormir no terço
Salvação, vi teu crescer
Espanto extraordinário:
</p>



<p>É que hoje os trens andam no horário em mim, sim, escolho crer Que a dúvida persista, mas com Ele eu vou<br>Mesmo que Ele não exista </p>



<hr class="wp-block-separator" />



<p><strong>Diego Neves</strong> é músico integrante da banda Legrand, designer gráfico, sociólogo em formação e aspirante a escritor.</p>



<hr class="wp-block-separator" />



<p style="background-color:#005d3b;text-align:center" class="has-text-color has-background has-medium-font-size has-very-light-gray-color">Quer ajudar a manter a revista? Siga a Bodoque Artes e ofícios no Instagram e compartilhe com os amigos!</p>



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<hr class="wp-block-separator" />



<p style="background-color:#785800;text-align:center" class="has-text-color has-background has-large-font-size has-very-light-gray-color">Galeria</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i1.wp.com/blog.artebodoque.com/wp-content/uploads/2019/09/menino-poço.jpg?fit=606%2C608&amp;ssl=1" alt="" class="wp-image-2231" /></figure>



<p style="text-align:center" class="has-text-color has-background has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color"><em>Apoie causas humanitárias. Em tempos de cólera <strong>amar é um ato revolucionário.</strong></em></p>
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		<title>Deus</title>
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		<pubDate>Sun, 25 Aug 2019 20:54:20 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 001, N 011]]></category>
		<category><![CDATA[arte]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Deus]]></category>
		<category><![CDATA[Diego Neves]]></category>
		<category><![CDATA[MÚSICA]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: Diego Neves</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p style="text-align:center"><em><strong>And so therefore, I don’t believe in God anymore.</strong></em></p>



<p class="has-drop-cap">As palavras possuem peso, forma, cor, textura e estados diferentes. Por exemplo, as palavras entre aspas, lidas logo ali no início, mesmo que em outra língua, são sólidas, espessas, maciças, cinzas como rocha e pesam toneladas. É provável que, na boca de onde saíram, tenham deixado um <em><strong>after taste</strong></em> amargo, mas sincero. <em>E assim, portanto, eu não acredito mais em Deus</em>. No mais claro português, em tradução livre, essa é a declaração que inaugura o texto. O que levaria alguém a dizer isso? Como a ideia de Deus pode naufragar, acabando isolada na ilha da descrença? Afinal de contas &#8211; assim como perguntava a capa do livro de Philip Yancey, exposta nas prateleiras dos <em>best sellers</em> cristãos há alguns anos -, para que serve Deus?&nbsp;</p>



<p> Na Europa aflita, onde os ventos cortantes do fascismo e do nazismo começavam a soprar, Simone Weil experimentou Deus. Formada em filosofia pela universidade de Sorbone, foi a primeira mulher a alcançar o nível mais alto do ensino francês, sendo catedrática em um tempo onde o acesso à educação, principalmente no ensino superior, era dominado por homens. Por escolha, se pôs no chão de fábrica, junto aos operários franceses. Sentiu na pele o quanto pode ser cruel o mundo do trabalho incessante, que rouba dos proletários tempo, saúde e vida. Abriu mão do magistério para estar com os sem amparo, os esquecidos, os pobres. Passou a vida servindo. No chão árido do sofrimento, brotou a fé. Se dispôs a lutar na guerra, mas foi impedida. Ainda assim não houve como impedir o seu serviço. Se dispôs a viver no campo, cuidando do gado, ensinando crianças a ler e escrever, sentando-se à mesa com os rejeitados. Para Simone Weil, Deus serviu para revelar a ela um propósito de vida, como prova de que a miséria pode revelar a presença divina. Mas, talvez não seja na miséria que a fé more, ou que Deus esteja presente. Para Rookmaaker, por exemplo, Deus estava, apesar de também ter experimentado sofrimentos causados pela guerra, não na dor, mas na arte. </p>



<p><strong>Henderik Roelof Rookmaaker</strong> &#8211; conhecido também como Hans Rookmaaker &#8211; chegou a servir na segunda guerra. Conheceu os horrores dos campos de concentração como prisioneiro, teve um noivado rompido pela violência nazista, que levou sua noiva judia para os campos de concentração. Quando preso, se dedicou a ler a bíblia minuciosamente, de modo que se sentiu afeito pela mensagem do cristianismo. Após conseguir sua liberdade dos horrores do campo de concentração, estudou História da Arte, em sua volta à Holanda, agora já no período pós-guerra. Casou-se com Anky, mergulhou no universo das artes e da espiritualidade cristã, acreditava na criatividade como manifestação divina. Sua principal teoria buscava explicitar que a arte é plena em si, não precisar ser justificada. Temia a morte de um desejo de expressão do divino nas produções modernas, que buscavam se livrar da estética iluminista, rompendo com o apego ao mundo visto, mas ainda focando seus esforços no homem, não em Deus. Teve uma carreira notável, valiosa, que trouxe um olhar inquieto e necessário para o campo da espiritualidade e das artes. Para rookmaaker, o Deus presente na dor, se revelou belo nas artes. Mas talvez não seja na arte que você queira encontrar Deus.  É possível que você queira ver um Deus próximo, que se faça visto e palpável na comunhão, o que te leva a  procurá-lo nas igrejas &#8211; em específico, na narrativa religiosa cristã.. </p>



<p class="has-text-color has-background has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color">Já superamos o mundo feudal, já ultrapassamos o período de ascensão da burguesia, já rompemos com a modernidade e agora estamos em dias que não sabemos  definir.  Conexões sem fio, mensagens rápidas, comunicação curta, informações em número e velocidade inimagináveis. São tempos apressados, individuais e individualizantes. Em meio ao turbilhão de mudanças, as igrejas não se livraram de uma reformulação. </p>



<p>Não mais arquitetura gótica, nem barroca, muito menos as linhas e formas que fazem as igrejas parecerem a casa da vovó. Lógico, ainda há o que sobrou do passado, alguns templos não podem mudar, até por motivos históricos, mas o que se vê no interior não é mais o mesmo. Os ternos e gravatas não saíram de moda, mas agora dividem espaço com o visual jovial, casual, descolado. As músicas soam mais atuais, com fortes traços pop &#8211; o que pode fazer um leigo, numa ouvida despretensiosa, confundir o som <em>worship </em>com um novo disco do David Guetta ou do Black Eyed Peas. Os olhos e ouvidos são conquistados pelas cores e timbres, que já não lembram o frio ambiente eclesiástico do século passado. As luzes, os vídeos, as danças, as pregações, nada escapa do novo perfil de igreja, que se baseia em importações americanas, europeias e australianas. Tudo por dentro é novo. Ao menos, se assemelha com o novo. </p>



<p>Mas as novidades vão morrendo ao longo do percurso. Não demora muito, tudo é outra vez igual. Não há como negar o poder de movimento de massa que a igreja tem, nem o poder ressignificativo que a religião dá aos seus fiéis. Não raro podemos ouvir testemunhos que falam sobre as trocas de armas por bíblias nas mãos, de chinelo e bermuda por ternos e as novas identidades assumidas por tantos. Ontem, “Zé Pequeno”, hoje “um grande homem de Deus”. E isso é realmente significativo e bom. O problema está no modo como a igreja comprou a ideia da reificação, ainda que não veja isso. A ideia de padronização, com o intuito de conformar as pessoas ao sistema vigente, da Indústria Cultural, muito criticada pelo sociólogo alemão Theodor Adorno, se faz presente nas inovações no campo das instituições religiosas. </p>



<p style="background-color:#866200" class="has-text-color has-background has-very-light-gray-color">Toda essa nova experiência religiosa, que a igreja do agora apresenta,&nbsp; se baseia na estética e na performance. Uma vez que, de modo sincero, você expõe dúvidas e indagações, ou simplesmente discorda, por pensar de um modo diferente do que se assumiu como correto, uma imagem sua é construída e romper com ela é, no mínimo, complicado. As paredes do templo são menos rígidas, fixas e intransponíveis do que os muros levantados sobre os alicerces estéticos e performáticos. Os enlaces e flertes dessas novas experiências religiosas com a razão instrumental fazem dos espaços religiosos um espelho da pequena cidade fictícia &#8211; e não menos cruel por esse motivo &#8211; de Dogville.&nbsp;</p>



<p>Fugindo de não se sabe bem o que, uma mulher chamada Grace encontra refúgio num vilarejo pacato, no interior dos Estados Unidos. No filme de Lars von Trier, quase tudo é tão imaginário quanto a própria cidade, uma vez que não há em cena paredes, nem locações específicas. Tudo é construído sobre um palco e um fundo pretos, onde os sons e as interpretações é que fazem nossa imaginação complementar as cenas com aquilo que está ali, mas não é visto. O que não é imaginário é o modo como as coisas ficam densas ao longo do roteiro. A estrangeira recebe a acolhida e a benevolência de todos da cidade, que se compadecem de sua condição: sozinha, perdida, faminta e sem abrigo. Retribuindo o modo como foi recepcionada, Grace passa a prestar pequenos serviços à comunidade. Mas passam-se os dias e a comunidade começa a enxergar a visitante com outros olhos. Os serviços prestados de boa vontade já não bastam. Sendo ela a única estrangeira ali &#8211; o que implicava ter menos obrigações -, qualquer&nbsp; outra tarefa que um morador local não pudesse fazer, passava a ser sua responsabilidade. Ela não podia dizer não, não podia descansar, não podia ser livre.&nbsp; O peso posto sobre os ombros dela era insuportável. Isso tudo nos leva de volta à frase do início: “And so, therefore, I don’t believe in God anymore”.&nbsp;</p>



<p>Caminhando pela vizinhança, com sua filha e sua mulher Lisa &#8211; uma musicista de qualidade imensurável, compositora ímpar e excelente cantora &#8211; Michael Gungor professa sua descrença. Músico virtuoso, exímio compositor e um dos artistas mais prolíficos e criativos que o universo cristão já pôde experimentar, Michael &#8211; e também Lisa &#8211; experimentou a faceta “dogvilliana” da religião institucionalizada. Se conheceram na igreja, construíram sua relação no ambiente da igreja, formaram família, fizeram a vida nos espaços eclesiásticos. O sexo, o beijo, o corpo. Tudo guardado para o momento correto. Aos 20 anos já estavam casados, fazendo parte de uma mega igreja em Denver e tendo o sustento garantido pelos serviços prestados à comunidade de fé.  Mas a pressão sobre os ombros de ambos era descomunal. A estética e  performance exigidas pelo universo cristão é purista, excludente e cruel. “Para pertencer a esta tribo, você tem que se conformar. E se tiver dúvidas, você é uma pessoa perigosa”, diz Lisa. Lisa e Michael já lotaram muitos lugares de pessoas que queriam ouvir a música, ver a arte produzida pelos dois. Mas se a arte é um meio de expressão e por ela conseguimos comunicar e captar mensagens, não é de se espantar pensar que a arte que produzimos nos põe frente a frente com nossos “vícios e virtudes”, o que nos leva a questionar muita coisa sobre nós mesmos. Resumindo: o contato com a arte faz emergir as dúvidas. Mas a performance correta e a estética perfeita do “bom cristianismo” não aceita dúvidas. Dessa forma, assim como foi com Grace, toda a boa ação dos casal Gungor se transformou em obrigação moral. </p>



<p>Uma vez que as dúvidas abalaram a fé de ambos, já não eram bem vindos entre os “santos”. Hoje eles experimentam uma fé sem nomes, que se revela através da vida de Lucy, a filha caçula do casal, e de sua irmã Amelie. Lucy foi diagnosticada com Síndrome de Down assim que nasceu. Nada que a impedisse de ser inteligente esperta, linda. Uma criança que ressignificou a fé já ressignificada de seus pais. Para os Gungor, “somente uma fé que se abalou inabalável é”. </p>



<p>Nos anos de 1990 o cenário da música cristã nos presenteou com excelentes artistas. Caedmon’s Call era um dos nomes associados a esse grupo de artistas incrivelmente criativos. Derek Webb era uma das vozes e mãos que davam o tom dessa, que foi uma das bandas mais expressivas do fim dos anos 1990. Junto a ele, Sandra McCraken. Os anos se apresentaram conturbados para o casal. Derek mergulhou, adivinhem só, em dúvidas sobre sua fé, lutou contra questionamentos antigos, abandonou e reatou seu relacionamento com a igreja. Em 2013 lançou o disco “<em>I Was Wrong, I’m sorry and I love you”</em>, no qual, na música homônima ao disco, relatava suas idas e vindas, mas reconhecendo que tudo que queria dizer em tudo que buscou era a tríade de sentenças mencionadas: eu estava errado, eu sinto muito e eu te amo. Quando parecia que ele havia encontrado seu caminho de volta aos braços da estética e da performance religiosa, Derek quebra o silêncio, assume seus erros, confessa que traiu sua mulher e abraça de vez o ateísmo. Como o rei perplexo e confuso da música de Leonard Cohen, ele também compõe o seu “hallelujah torto”.Em “<em>Spirits bears the curse” </em>, terceira faixa de seu disco mais recente, <em>“Fingers Crossed”,&nbsp;</em> Derek declara:</p>



<pre class="wp-block-verse">Agora meus joelhos estão fracos<br> Meu discurso é arrastado<br> Oh, você agita as coisas<br> O, você agita as coisas<br> Eu estou chamando o único nome<br> Que me libertou da minha culpa e vergonha<br> <br><br> Oh, álcool<br> Álcool<br> Oh, álcool<br> Nós levantamos nossas vozes para o álcool<br> Álcool<br> Uma oferta de álcool<br> Álcool<br> Oh, álcool<br> Oh, álcool</pre>



<p>A oração confusa, dura, mais sincera que tantas outras que já ouvimos e fizemos, revela um homem que viu sua fé erodir, se transformar e que abraçou a dor como resposta ao Deus que não gosta de ser importunado com dúvidas. Hoje Derek se declara ateu.</p>



<p>Um outro menino australiano, no início dos anos 2000 cantava <em>‘I will read my bible and pray. I will follow you all day”, </em>mas, semana atrás, ele veio a público, já aos 40 anos, para parafrasear a banda R.E.M ao dizer algo como: <em>“I’m losing my religion”. </em>Marty Sampson, um dos mais populares integrantes da mega igreja <em>Hillsong </em>e da mega &#8211;&nbsp; e minha querida &#8211; banda <em>Hillsong United</em>, publicou &#8211; enquanto esse texto ainda é redigido &#8211; um longo texto, com uma carga emocional altíssima, sobre como ama seus amigos, a família que o acolheu e amou, a igreja da qual fez parte, mas&nbsp; que, apesar de ter gostado de ser cristão por muito tempo, e até amar os cristãos, ele já não é mais um deles.&nbsp;</p>



<p>Lisa, Michael, Derek, Marty. Pessoas diferentes, relatos semelhantes. A ideia de Deus lhes serviu de casulo. Cresceram, o romperam e agora fazem o caminho da desconstrução para reconstruir. Cada um a seu modo, cada qual com suas escolhas. Mas talvez, por motivos claros, você também não tenha se convencido pelo Deus das <em>churches. </em>É bem possível que nem mesmo a ideia de Deus lhe agrade. Afinal de contas, pra que serve Deus?</p>



<p>Bem no início do curso de Ciências Sociais, tive aula com um professor indiano. Vindo de uma cultura muito distante da cultura ocidental, assimilava as questões divinas com outra perspectiva. Um dia, enquanto estudávamos um texto bíblico &#8211; o que é comum na disciplina de Estudos Comparados da Religião -, ele perguntou: Para que serve Deus?&nbsp;</p>



<p>As respostas variavam entre os alunos. Uns defendiam a ideia de que Deus servia para enganar e fazer fortuna. Outros acreditavam num certo tipo de dominação pela alienação, dizendo que Deus servia como uma distorção da realidade.&nbsp; Havia os que, em suas palavras, faziam coro com Richard Dawkins, dizendo que Deus era um delírio. Então meu professor respondeu a pergunta que ele mesmo havia feito:</p>



<p class="has-text-color has-background has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color">	-Para quê serve Deus? Deus serve para nos livrar da dor. Se o teu Deus não faz isso, troque-o.&nbsp;</p>



<p>	Não havia hedonismo ou rebeldia em sua resposta. Ali se descortinava para mim a imagem da&nbsp; possibilidade de um Deus que não assume uma postura totalitária e opressiva. Trocar Deus não significa dizer que ele não presta, então o jogo fora como uma coisa. Não é para o caminho desse Deus reificado, mecânico, que ele apontava. Ele não estava pregando um ateísmo radical, mas um rompimento com a uma ideia de Deus. Se o Deus exibicionista e pirotécnico dos dias de hoje não me agrada, me apego ao Deus de Simone Weil, que se revela no meio da dor. Se o Deus não afeito às artes, que despreza o lúdico em prol da eficiência, não me agrada, me apego ao Deus de Rookmaaker. Se o Deus rígido, que se compraz em punir, não me agrada, me apego ao Deus que se permite ser questionado. E se nenhuma ideia de Deus me agrada, a vida segue sem problemas também.&nbsp;</p>



<p>Prefiro seguir acreditando que a ideia de Deus é multiforme. Que, assim como cantam Lisa e Michael, Deus não é homem. Deus&nbsp; Não é um homem branco, não é um homem sentado em uma nuvem, não pode ser comprado, não será encaixotado, nem será possuído pela religião. Deus não é um homem velho, não pertence aos republicanos, não é uma bandeira, nem mesmo é americano e não depende de um governo.&nbsp;</p>



<p>Deus bate bolos, borda, joga futebol, aprende a engatinhar. Ele se apaixona, chora, sofre, faz coisas lindas do pó.</p>



<p>&nbsp;Talvez Deus seja como um de nós. Um desajeitado, como um de nós. Um estranho em um ônibus, tentando voltar pra casa.</p>



<hr class="wp-block-separator" />



<p><strong>Diego Neves</strong> é músico integrante da banda Legrand, designer gráfico, sociólogo em formação e aspirante a escritor.</p>



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