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	<title>Arquivos Emancipação - Revista Trama</title>
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	<description>Arte, Cultura e Criatividade</description>
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		<title>E.MAN.CI.PA.ÇÃO</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 28 Feb 2021 21:29:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 080]]></category>
		<category><![CDATA[Emancipação]]></category>
		<category><![CDATA[Ideologia Política]]></category>
		<category><![CDATA[Micael Correia]]></category>
		<category><![CDATA[Psicanálise]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: Micael Correia</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="has-text-align-right"><em>Receio que não nos livraremos de Deus,</em><br><em>pois ainda cremos na gramática.</em><br><br><em>Nietzsche</em></p>



<p>Não é grande descoberta notar que um certo tipo de ideologia <em>emancipatória</em> está impregnada em nossa fantasia <em>política</em> sob a forma de representações que se deslocam até descaracterizarem a realidade e torná-la o modelo ideal de uma sociedade pacífica — sob as custas do ocultamento de uma série de opressões. Essa é uma versão tácita de <em>construção de mitos </em>que diluem <em>biopolítica </em>como cordialidade, <em>racismo </em>como miscigenação, <em>colonização </em>como encontro, concorrência como estado de natureza e virtude mercadológica. Não é de se espantar que <em>emancipação </em>tenha virado mais um termo retórico de ocultamento.</p>



<p>Nesse contexto, a realização de sujeitos emancipados pode se efetivar somente de maneiras pré-ordenadas, de modo que o próprio estado de coisas não necessite progredir para novas versões, uma vez que já se encontra, por assim dizer, em seu <em>instante final</em>, apenas dificultada por obstáculos de gestão ou pela ausência de um sistema político A ou B em seu estado absoluto.</p>



<p>É justamente o cálculo dessa <em>pseudoemancipação</em> o fermento ideológico que opõe o ato transformativo a uma manutenção do estatuto do poder. Mas por que isso acontece? Por que as nossas lutas políticas e sociais se limitam a casos particulares de ascensão social ou de visibilidade midiática? Por que os esforços emancipatórios parecem tão limitados a condições jurídicas? Por que os empuxos que acenam uma nova ordem são, na maioria das vezes, experimentados como uma falta-a-gozar ou como ensejo tirânico-ditatorial?</p>



<p>Talvez a própria forma pela qual herdamos a discussão e até a descoberta da necessidade de emancipação nos comunique a origem da defasagem entre o conceito, o esforço e a experiência emancipatória concreta.</p>



<p>Atribui-se a Kant a abertura desse horizonte normativo. No pensamento kantiano a emancipação estaria ligada à <em>superação da menoridade ou da tutela </em>(KANT, 1783/1985), conquanto estas seriam auto-incompatíveis com os homens e condicionadas pela falta de <em>esclarecimento. </em>O esclarecimento seria o recurso que libertaria o indivíduo da orientação de outrem para a condução de sua inteligibilidade, mesmo quando sua menoridade for caracterizada pela falta de coragem ou de decisão. Em outras palavras, emancipar-se seria tornar-se apto à ação regulada pela vontade de cada um em meio à trama social. Esta ideia ainda se assemelharia com uma certa noção de <em>autonomia</em> arbitrada pela coerente internalização dos regimes sociais, das leis, dos padrões normativos e por uma autorregulação ante à lugares fixos de autoridade.</p>



<p>Pensar assim, no entanto, acabaria por equalizar <em>emancipação</em> a concepções que suporiam o poder de agenciamento de si, de tomada de decisão e de relação autônoma com as leis. Nesses termos, a imposição da lei é determinante: seria inadmissível pensar uma emancipação <em>para além </em>da lei, uma vez que a lei é seu limite intransigente; a emancipação <em>depende</em> da função de reconhecimento da lei para existir. Emancipar-se só <em>para dentro</em> da lei é característico de uma sociedade que só se permite afetar por condições existentes.</p>



<p>O equívoco aqui é que essas condições fazem acreditar-se apenas nelas mesmas. Esse elemento ideológico que supõe uma emancipação enquanto conservação dos sistemas-mundo de poder é nada mais que a garantia de sua perpetuação, a educação de seus futuros herdeiros.</p>



<p>Apesar de incorporar o sentido emancipatório ao seu pensamento sobre educação, Theodor Adorno não se recusa a criticar a variante ruim que uma <em>pseudoemancipação</em> poderia produzir no processo formativo. Para ele, a contradição entre <em>o compromisso em relação à ordem</em> e o<em> rompimento com a autoridade</em> é nada mais que uma <em>sabotagem </em>do ideal emancipatório, que, mesmo em Kant, deveria ser pensando como um <em>devir</em>, uma abertura ao <em>inexistente</em>. Ele também rejeita a expectativa de ruptura através do simples protesto contra a autoridade.</p>



<p>Pois isso seria — agora com Lacan —  nada mais que uma insubmissão <em>histérica</em> direcionada aos ocupantes do poder sob a forma de questionamento ao outro, algo que não afetaria em nada suas estruturas de dominação a não ser seus agentes.</p>



<p>Na verdade, se quisermos pensar <em>emancipação</em> como um horizonte efetivo de resistência e de superação, deve-se começar pela recusa mesma de seus programas controlados que comportam práticas mínimas de transformação e de existência, na medida em que eles supõem uma transmissão de lugares que trocam de agentes dominadores sem mudar a estrutura que a permite. São os “<em>raios da roda</em>” na marcante fala de Daenerys Targaryen (<em>Game of Thrones —  série de TV</em>) que “<em>esmaga o que está embaixo</em>”, para quem a verdadeira prática emancipatória consistiria em “<em>quebrar a roda</em>”. Essa é uma das lições na implicação política do conceito lacaniano de <em>ato analítico (ou ato revolucionário) </em>lido por Vladimir Safatle (2020). Do que adianta, diria ele, mudar os agentes-sujeitos se quem age é a gramática que age através de nós? <strong>Emancipar-se não é simplesmente deliberar conscientemente e<em> recuperar a enunciação</em> como um salto da menoridade social</strong><em>. </em>Esse é o equívoco<em>.</em> Emancipar é uma espécie de ato subversivo de<em> recusa </em>e de<em> “instauração de uma nova gramática de poder na vida social” (SAFATLE, 2020, p. 134)</em>.</p>



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<p>REFERÊNCIAS</p>



<p>ADORNO, T. <em>Educação e emancipação</em> (1956-69/2020)</p>



<p>KANT, I. <em>O que é Esclarecimento?</em> (1783/1985)</p>



<p>SAFATLE, V. <em>Maneiras de transformar mundos: Lacan, política e emancipação </em>(2020)</p>



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<p><strong><strong><strong>Micael Correia&nbsp;</strong></strong></strong>tem 22 anos e é um escritor não-autorizado. Faz graduação em Psicologia e nutre interesse por Psicanálise, Cultura e Religião.</p>
</div></div>



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