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	<title>Arquivos escrita literária - Revista Trama</title>
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	<description>Arte, Cultura e Criatividade</description>
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		<title>A ESCRITA DE MICROCONTOS COMO RESPIRO NA PANDEMIA</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 23 May 2021 21:28:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 092]]></category>
		<category><![CDATA[Arte na Pandemia]]></category>
		<category><![CDATA[Crônica e microconto]]></category>
		<category><![CDATA[escrita literária]]></category>
		<category><![CDATA[Renata Sieiro]]></category>
		<category><![CDATA[Renata Sieiro Fernandes]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Renata Sieiro</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>A Pandemia da Covid-19, que assola o mundo desde o segundo bimestre de 2020, devolveu-nos às nossas casas (para os que possuímos teto), em relação mais próxima (geográfica e temporalmente) com os que coabitam o mesmo espaço, ou com a solitude dos que moramos sozinhos e a qual nos coloca em contato inadiável com nossas emoções e sentimentos mais profundos e arraigados, ligados a medos, tristezas, ansiedade, solidão, dor e vazio existencial.</p>



<p>Acompanhando, diariamente, as notícias nas mídias alternativas, ou afastando-nos delas momentaneamente, vamos percebendo que o que se desejava que passasse logo se mantém e persiste, ainda que alguns neguem a realidade do vírus ou negligenciem os protocolos de segurança consigo e com os outros.</p>



<p>E mergulhados em um cotidiano novo e expandido, em que as folhas do calendário se truncam e se rompem, somos entregues a desafios intelectuais e psíquicos de buscas de estratagemas para sobreviver, resistir e enfrentar o caos instaurado, que parece anunciar o fim de um mundo e, quiçá, o surgimento de outro, melhor, mais justo, mais bonito, mais respeitoso, mais solidário, mais terno &#8211; ainda que não possa, eu, visualizá-lo como utopia no horizonte.</p>



<p>Pela necessidade de lidar comigo mesma, com as oscilações de humor, irritabilidade, falta de crença, mas também, de ternuras, de confiança, ausência de tentativas de controle e de ressignificar as experiências que me tocam e atravessam nesse período, recorri à arte como linguagem tanto terapêutica como de criação para dar vazão a aspectos intuitivos, inesperados, inspirados, que se manifestavam sob a forma de escrita, bem como para me redesenhar de outros modos possíveis de ser e existir, em meus 50 anos de idade.</p>



<p>Sendo assim, a prática da escrita literária, como fazem e fizeram outras mulheres, em outros tempos e espaços, é o lugar de refúgio, de abrigo, durantes as tempestades e as marolas. Também tem sido assim para mim pela via de um subgênero nomeado de microcontos ou microficções poetizáveis, num entrecruzar de gêneros textuais. (FERNANDES, 2019)</p>



<p>E por essa prática, que considero formativa, vou inventando possíveis materializáveis para mim, numa escrita privada, mas que não teme se publicizar, de forma digital, em redes sociais, e impressas, atendendo a convocatórias ou espontaneamente, em publicações independentes ou financiadas por editais de incentivo, por editoras fora do <em>main stream</em> ou cartoneiras<a href="#_ftn1">[1]</a>, pretendendo servir, também, para outros, como estímulo poético, sensível, inteligível e mobilizador de outras escritas.</p>



<p>Neste texto apresento minha experiência formativa, a partir da prática educativa/formativa da escrita literária como linguagem artística e recurso de re-existência em meio ao isolamento social e resistência ao Corona vírus, pois que reafirma o lema das Madres de Plaza de Mayo<a href="#_ftn2">[2]</a>, “la única lucha que se pierde es la que se abandona”. (KOROL, 2016, p. 152)</p>



<p>Tenho escrito microcontos há algum tempo. Eles surgem em meus pensamentos a partir de alguma imagem ou situação do cotidiano, muitas vezes advindas de contemplação ou por surpreendente aparição. O texto rapidamente se forma, e eu me sento ao computador para apurar o ritmo e alocar as melhores palavras. Se não os escrevo, não me deixam em paz; ficam comigo o restante do dia. Ao escrevê-los, liberto-os, deixo-os voarem e embelezarem o mundo.</p>



<p class="has-text-align-right"><em>(&#8230;) por que sou levada a escrever? [&#8230;] para me tornar mais íntima comigo mesma e consigo. para me descobrir, preservar-me, construir-me, alcançar autonomia[&#8230;] finalmente, escrevo porque tenho medo de escrever, mas tenho um medo maior de não escrever.</em> (ANZALDÚA, 2020, p. 232)</p>



<p>O microconto é tido como um subgênero nomeado de microcontos ou microficções poetizáveis, num entrecruzar de gêneros textuais.</p>



<p>Marcelino Freire chama de “literatura menor”, dentro do conceito de menoridade como espaço às margens ou alternativo, de potência inventiva e criadora.</p>



<p>Para Lucilene Lemos de Campos, “a proposta estética que o micro conto realiza não surge como decalque da prosa tradicional, mas como espaço intervalar, uma terceira-margem poética, um entre lugar que desloca e anula a antiga noção de centro cultural hegemônico”.</p>



<p>O que faço desliza entre prosa e poesia e gira em torno do intervalo de 7 e 500 palavras, que faz parte da definição subgênero. Faço uso de minúsculas, porque soa como transgressor a norma padrão e porque me sugere delicadeza e sutileza. Também não dou títulos, porque seria como etiquetá-los e gosto que a leitura revele o seu corpo.</p>



<p>Quando escrevo o que escrevo, pretendo que sirva e que provoque projeções (como toda produção artística provoca). E, também, como estímulo poético, sensível, inteligível e mobilizador de outras escritas para outras pessoas.</p>



<h4 class="has-text-align-center wp-block-heading">microconto 177</h4>



<p class="has-text-align-center">ela apenas deslizava por aí,<br>de corpo nu,<br>distraída e atenta<br>quando é interpelada<br>pelo sentinela.</p>



<p class="has-text-align-center">‘alto lá, quem é você, qual seu nome,<br>cadê seu capacete, seu escudo, suas botas de esporão?<br>responda em prosa e ajoelhe-se’.</p>



<p class="has-text-align-center">‘sou esta que me lê, meia lua inteira,<br>sol sou e mais amada que ar,<br>voluta, rodopio’.</p>



<p class="has-text-align-center">‘não te reconheço<br>e esta porta você não adentra.&#8217;</p>



<p class="has-text-align-center">a intuição, no corcel negro<br>de longas crinas,<br>apenas segue pelas terras<br>sem dono<br>e sem cercas,<br>enquanto a razão<br>vestida de cetro e lança<br>defende o forte.</p>



<p class="has-text-align-center">(&#8230;)</p>



<div style="height:20px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<h4 class="has-text-align-center wp-block-heading">microconto 128</h4>



<p class="has-text-align-center">ela aqui e ele lá.<br>cada um recolhido em seu lar,<br>em momento de quarentena mundial.<br>ele envia de presente<br>um áudio com voz e contrabaixo.<br>ele inteiro. apenas ele,<br>terno, quente e aveludado<br>como é o toque dos apaixonados.<br>pra colocar debaixo do travesseiro<br>e dormir sonhando com a esperança e a espera,<br>de que o amor seja o vírus contagiante.<br><br>(&#8230;)</p>



<div style="height:20px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<h4 class="has-text-align-center wp-block-heading">microconto 132</h4>



<p class="has-text-align-center">quando a terra passou a respirar<br>entre o ventre e o tórax,<br>foram embora a ansiedade, o estresse e o medo.<br>o ruído sobre a crosta silenciou<br>e as vibrações sísmicas diminuíram.<br>os humanos recuaram,<br>cessaram de falar e de se agitar.<br>então, os ursos passaram a rolar nas gramas dos parques,<br>os esquilos transitaram entre as árvores da cidade,<br>as tartarugas marinhas invadiram as praias para depositarem ovos à luz do dia,<br>os golfinhos adentraram os canais,<br>as águas de veneza ficaram translúcidas.<br>os efeitos da respiração longa e profunda<br>aparecem nos músculos relaxados,<br>nos batimentos cardíacos desacelerados,<br>na melhor oxigenação das células.<br>e todos os reinos são invadidos<br>por uma interna sensação de paz.<br><br>(&#8230;)</p>



<div style="height:20px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<h4 class="has-text-align-center wp-block-heading">microconto 142</h4>



<p class="has-text-align-center">se antes escolhia o inverno,<br>agora prefere a amenidade da meia-estação.<br>se optava pelo perfume,<br>agora se banha com a volatilidade da água de colônia.<br>se transitava entre os odores cítricos e amadeirados,<br>agora aceita a docilidade da alfazema.<br>se sempre tomava café preto,<br>agora inclui a leveza do chá de hortelã com melissa.<br>se digladiava-se em busca da razão,<br>agora se rende ao aconchego da paz.<br>se teve medo da solidão,<br>agora se diverte em autorretratos em preto e branco.<br>se antes perseguia o fixo e o duradouro,<br>agora convida o efêmero e o mutável.<br>se antes era aquilo,<br>agora é isto.<br>entre fincar ser ou não ser,<br>agora é solta reinvenção.<br><br>(&#8230;)</p>



<div style="height:20px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<h4 class="has-text-align-center wp-block-heading">microconto 161</h4>



<p class="has-text-align-center">quando o ouvido do mundo<br>se afina<br>é possível ouvir as entranhas da terra<br>no oco das cavernas,<br>a malemolência do mar<br>na espiral da concha<br>e o ronco vibrante do planeta<br>no silêncio e escuridão da noite.<br><br>(&#8230;)</p>



<div style="height:20px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<h4 class="has-text-align-center wp-block-heading">microconto 163</h4>



<p class="has-text-align-center">ela quis que ele viesse<br>participar da fogueira julina<br>com quentão, paçoca e pinhão,<br>estrelas e lua cheia no céu,<br>mas ele a recordou<br>que tem que ser com máscara,<br>distanciamento e álcool só em gel.</p>



<p class="has-text-align-center">a gente demora uma vida para se tornar<br>mulher errante, incorreta, indisciplinar<br>e vem o superego vestido de juízo,<br>armado de precaução,<br>querer docilizar o selvagem,<br>civilizar o prazer.<br><br>o bom é que o id primitivo<br>desequilibra a regra de três<br>e se perde no desejo, pulsão, impulso, satisfação.<br><br>(&#8230;)</p>



<div style="height:20px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<p>A escrita funciona e tem funcionado neste contexto de isolamento como um dispositivo de formação; se entende como um ato, uma prática que envolve a constituição ou a produção de si, que permite ensaios de modos de subjetivação, principalmente, por tratar de criação, criatividade, intuição, imprevisibilidade, de devir, para além da ordem, no caos.</p>



<div style="height:50px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<hr class="wp-block-separator" />



<p><strong>Referências</strong></p>



<p>ANZALDÚA, Gloria. Falando em línguas: uma carta para as mulheres escritoras do terceiro mundo. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, v. 8, n. 1, p. 229, jan. 2000.</p>



<p>FERNANDES, Renata. A donzela guerreira e outros microcontos, volume 1. SP: Urutau, 2019. KOROL, Claudia. Feminismos populares: las brujas necessárias en los tiempos de cólera. Nueva Sociedad, n, 265, p. 142-152, sep./oct 2016.</p>



<div style="height:50px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<hr class="wp-block-separator" />



<p><a href="#_ftnref1">[1]</a> As editoras cartoneras são alternativas artesanais ao modelo padrão de publicação e comercialização, que utilizam papelão (<em>cartón</em>) reaproveitado para a publicação. Surgiram em 2003 com a criação de Eloísa Cartonera, em Buenos Aires e se expandiram pela América Latina. (https://www.blogs.unicamp.br/marcapaginas/2019/04/22/cartoneras-a-publicacao-de-livros-como-instrumentos-de-resistencia/)</p>



<p><a href="#_ftnref2">[2]</a> Trata-se de um movimento e uma associação argentina, formada em 1977, durante o governo ditatorial de Jorge Rafael Videla, com a finalidade de encontrar pessoas desaparecidas nesse período. (https://www.infobae.com/america/mexico/2020/08/07/como-las-madres-de-plaza-de-mayo-mujeres-en-busca-de-sus-hijos-desaparecidos-marcharan-el-primer-miercoles-de-cada-mes-en-el-corazon-de-mexico/)</p>



<div style="height:50px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<hr class="wp-block-separator" />



<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:22% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/2840d-renata-sieiro.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-14301 size-full" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p><strong>Renata Sieiro</strong> é pós-doutora em Educação pela UNICAMP e docente do Ensino Superior. Microcontista, autora de “<a href="https://open.spotify.com/show/3pgd17BO7eE2rpl3DYdw6p">A donzela guerreira e outros microcontos</a>”. Colagista amadora, tendo produções publicadas em periódicos como Revista Alegrar e Revista Clima.com, além de livros, mostras e exposições coletivas. Também é fotógrafa amadora. Conheça mais de seu trabalho no <a href="https://www.instagram.com/rsieirof_colagens">Instagram</a>.</p>
</div></div>



<div style="height:50px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



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