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	<title>Arquivos Guilherme Mative - Revista Trama</title>
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	<description>Arte, Cultura e Criatividade</description>
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		<title>Fascismo à brasileira</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 21 Jun 2020 21:29:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 050]]></category>
		<category><![CDATA[fascismo]]></category>
		<category><![CDATA[Guilherme Mative]]></category>
		<category><![CDATA[sociedade]]></category>
		<category><![CDATA[violencia]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Guilherme Mative </p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p><em><em>Uma reflexão sobre o uso da violência</em></em></p>



<p class="has-drop-cap">Em 1909, o poeta e ideólogo italiano Filippo Tommaso Marinetti lançava o Manifesto Futurista, onde teorizava sobre a luz para o século que se iniciava: “Queremos glorificar a guerra – única higiene do mundo, o militarismo, o patriotismo, o gesto destruidor dos anarquistas, as belas ideias pelas quais se morre e o desprezo da mulher”. Não é preciso lembrar que, pelos 40 anos seguintes, o mundo enfrentaria a grande decepção da modernidade – as guerras mundiais com seu saldo aproximado de 100 milhões de mortos.</p>



<p>As limpezas étnicas, ou melhor, estéticas, não seriam novidade no século que emergia. De meados da primeira guerra até o presente, com líderes totalitários ou representantes eleitos democraticamente, temos os mais vastos exemplos: Camboja (1975-79), Turquia (1915-23), Bangladesh (1971), Congo Belga (1980-89), União Soviética (1930-40), China e Tibete (1958-69).</p>



<p>O Brasil também foi, e é, um terreno fértil para a violência contra as “minorias” que são sistematicamente agredidas e exterminadas. Segundo a Human Rights Watch (HRW), pelo menos 434 pessoas foram mortas pelos agentes do estado durante a ditadura militar no Brasil, entre 1964 e 1988; além das mortes, cerca de 20 mil pessoas foram torturadas no mesmo período. Já no período da nossa “nova republica”, ao que temos visto, aparentemente os genocídios acontecem dentro dos limites da democracia. Era tarde de 2 de Outubro de 1992 quando a PM do estado de São Paulo, sob o comando do então coronel Ubiratan Guimarães e do governador do estado na época, Luiz Antonio Fleury Filho, invadiu a Casa de Detenção de São Paulo para conter uma rebelião, resultando no massacre de 111 detentos. Até hoje, o episódio não foi totalmente esclarecido pela justiça. O único condenado foi o referido coronel Ubiratan Guimarães, que jamais chegou a ser preso, até ser absolvido posteriormente em 2006 (mesmo ano de sua morte). Antes de morrer, em 2002, Ubiratan chegou a ser eleito Deputado Estadual, com o número 14.111 (sim, 14.111), recebendo mais de 56 mil votos.&nbsp; Tal episódio recebeu atenção do mundo inteiro, sendo eternizado nas artes através de filmes como “Carandiru”, de 2003, dirigido por Héctor Babenco e músicas como “Diário de um Detento”, de 1997, por Racionais MC’s&nbsp; e “Haiti”, de 1993, por Caetano Veloso e Gilberto Gil. Apreciemos alguns trechos selecionados:</p>



<figure class="wp-block-table"><table><tbody><tr><td><a href="https://www.youtube.com/watch?v=kkytzD30nJ8&amp;list=RDdyfMrr23Dbk&amp;index=15"><strong>Diário de um Detento, Racionais MC’s</strong> </a>&nbsp; <br><br>Fumaça na janela, tem fogo na cela<br>Fudeu, foi além, se pã, tem refém<br>Na maioria, se deixou envolver<br>Por uns cinco ou seis que não têm nada a perder<br>Dois ladrões considerados passaram a discutir<br>Mas não imaginavam o que estaria por vir<br>Traficantes, homicidas, estelionatários<br>Uma maioria de moleque primário<br>Era a brecha que o sistema queria<br>Avise o IML, chegou o grande dia<br>Depende do sim ou não de um só homem<br>Que prefere ser neutro pelo telefone<br>Ratatatá, caviar e champanhe<br>Fleury foi almoçar, que se foda a minha mãe<br>Cachorros assassinos, gás lacrimogêneo<br>Quem mata mais ladrão ganha medalha de prêmio<br>O ser humano é descartável no Brasil<br>Como modess usado ou Bombril<br>Cadeia? Guarda o que o sistema não quis<br>Esconde o que a novela não diz<br>Ratatatá sangue jorra como água<br>Do ouvido, da boca e nariz<br>O Senhor é meu pastor<br>Perdoe o que seu filho fez<br>Morreu de bruços no Salmo 23<br>Sem padre, sem repórter<br>Sem arma, sem socorro<br>Vai pegar HIV na boca do cachorro<br>Cadáveres no poço, no pátio interno<br>Adolf Hitler sorri no inferno<br>O Robocop do governo é frio, não sente pena<br>Só ódio e ri como a hiena<br>Ratatatá, Fleury e sua gangue<br>Vão nadar numa piscina de sangue<br>Mas quem vai acreditar no meu depoimento?<br>Dia 3 de Outubro, diário de um detento.</td><td><strong><a href="https://www.youtube.com/watch?v=MfAxBoxdlb0">Haiti, Caetano Veloso</a></strong> &nbsp; <br><br>Quando você for convidado pra subir no           adro<br>Da fundação casa de Jorge Amado<br>Pra ver do alto a fila de soldados, quase todos pretos<br>Dando porrada na nuca de malandros pretos<br>De ladrões mulatos e outros quase brancos<br>Tratados como pretos<br>Só pra mostrar aos outros quase pretos<br>(E são quase todos pretos)<br>Como é que pretos, pobres e mulatos<br>E quase brancos quase pretos de tão pobres são tratados<br>E não importa se os olhos do mundo inteiro<br>Possam estar por um momento voltados para o largo<br>Onde os escravos eram castigados<br>(&#8230;) E ao ouvir o silêncio sorridente de São Paulo<br>Diante da chacina<br>111 presos indefesos, mas presos são quase todos pretos<br>Ou quase pretos, ou quase brancos quase pretos de tão pobres<br>E pobres são como podres e todos sabem como se tratam os pretos (&#8230;) &nbsp; <br></td></tr></tbody></table></figure>



<p>Mas Ubiratan não é o único político eleito que defende e prolifera as ideologias do mal. Em 2017, aconteceram novos massacres em penitenciarias brasileiras &#8211; desta vez, em Manaus e Boa Vista. Na época, o então secretário nacional da Juventude declarou: “Tinha que matar mais. Tinha que fazer uma chacina por semana”. Sobre o mesmo episódio, o então deputado federal Major Olímpio (SD-SP) incitou uma disputa de mortes entre presídios dizendo: “Placar dos presídios: Manaus 56 x 30 Roraima. Vamos lá, Bangu! Vocês podem fazer melhor!” Ao explicar sua fala polêmica, ele justificou que seu papel como legislador é “manifestar o pensamento da sociedade”. De fato. Major Olímpio está certo, desta vez. Esse é realmente o pensamento da parcela fascista da sociedade brasileira. Para fechar nossa resumida lista reflexiva, não podemos deixar de citar o fatídico episodio de 17 de abril de 2016, quando, em plenário, o então deputado federal Jair Messias Bolsonaro defendeu seu voto favorável pelo impeachment da ex presidente Dilma Rousseff, homenageando a memória do notório torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra. Vale lembrar ao leitor menos atento que foi aberto um processo no Conselho de Ética da Câmara dos Deputados para apurar tal absurdo. Não deu em nada. Aliás, deu sim: Bolsonaro foi eleito Presidente do Brasil. Mais uma vez, Major Olímpio tinha razão!</p>



<p>Vivemos tempos de nova emergência fascista em nosso país. Parece não haver mais espaço para diálogo, debates e discordâncias no campo democrático. A própria imprensa tem sido perseguida por noticiar verdades que envolvam o governo atual. Segundo a organização Repórteres Sem Fronteiras o Brasil, está em 107 lugar de 180 posições no ranking de países com mais liberdade de imprensa. A constante queda no ranking está relacionada ao presidente atual, segundo a entidade.</p>



<p>O fascismo não é uma ideologia estanque. Ele se adapta e se modifica ao longo do tempo. Através da história, temos suficiente material para perceber essa transição com eventos ao redor do globo; Portugal, Espanha, França, Áustria, e Holanda são alguns dos países que experimentaram ondas fascistas ao longo do século XX. &nbsp;</p>



<p>Na obra “Como Funciona o Fascismo”, o filósofo americano Jason Stanley enumera um conjunto de características de um governo de viés fascista. Tentaremos resumir os 10 aspectos descritos em sua obra:</p>



<ol><li><strong>O Passado Mítico:</strong> Controle da história através da educação, exaltando ou diminuindo a importância de eventos passados conforme a ideologia dominante.</li><li><strong>Propaganda:</strong> Apreço pelas palavras de ordem e desprezo pela lógica do diálogo.</li><li><strong>Anti-intelectualismo:</strong> As universidade e centros acadêmicos passam a ser descredibilizados, assim como ciências especificas.</li><li><strong>Irrealidade</strong>: Fatos históricos são substituídos por teorias da conspiração. A emoção é muito mais fácil de se manipular do que a razão.</li><li><strong>Hierarquia</strong>: <em>sine qua non</em>, o líder se torna figura indispensável e insubstituível, ainda que vá contra toda ordem lógica e racional de outras lideranças.</li><li><strong>Vitimização:</strong> A perseguição a determinados grupos não se trata de um ataque ou intolerância, mas sim de uma reação quanto ao hipotético mal que eles representam.</li><li><strong>Lei e Ordem:</strong> Preservação do <em>status quo</em> é fundamental para manutenção do desenvolvimento da ideologia.</li><li><strong>Ansiedade Sexual:</strong> Os homens passam a crer que seus assédios não são mais vistos como um simples flerte. Tendência a um retorno ao “machismo”.</li><li><strong>Noção de pátria:</strong> Percepção de que este ou aquele povo é melhor que outro. O diferente não deve ser tolerado.</li><li><strong>Arbeit mach frei:</strong> Noção de que as riquezas de uma nação devem ser distribuídas apenas aos que participam ativamente da criação de riqueza.&nbsp; Deficientes físicos, por exemplo, deveriam ser descartados.</li></ol>



<p>Recomendo a leitura completa da obra para ampliar horizontes sobre o tema. No entanto, mesmo com o breve resumo descrito até aqui, o leitor consegue notar alguma semelhança com o atual modelo de governo brasileiro?</p>



<p>O sujeito “moderno” abstrato com seu “modo de vida” de difícil identificação (seja por conta do sexo, religião, riqueza, etc) passa a não caber mais dentro desses modelos de sociedade enamoradas pelo fascismo. O “grande Outro” se torna cada vez mais incômodo ao existir junto do <em>status quo</em> definido. Para usar a analogia de Bauman em “O mal estar da pós-modernidade”: Sapatos, ainda que magnificamente lustrados, não são bem vindos em cima da mesa de jantar.</p>



<p>Por falar em jantar, quem estará convidado para se sentar à mesa? A história tem demonstrado que as minorias não têm seus lugares reservados. Os negros, nativos indígenas, LGBTQ+, deficientes, mulheres, judeus na Alemanha de 1940, curdos na Turquia, e tantos outros grupos em situação de vulnerabilidade compõem a extensa lista de pessoas que jamais puderam se sentar à mesa de jantar.</p>



<p>Caetano e Gil, cantaram em 1993:</p>



<p class="has-text-align-center">Quando você for convidado pra subir no adro<br>Da fundação casa de Jorge Amado<br>Pra ver do alto a fila de soldados, quase todos pretos<br>Dando porrada na nuca de malandros pretos<br>De ladrões mulatos e outros quase brancos<br>Tratados como pretos<br>Só pra mostrar aos outros quase pretos<br>(E são quase todos pretos)<br>Como é que pretos, pobres e mulatos<br>E quase brancos quase pretos de tão pobres são tratados</p>



<p>Hoje cantamos:</p>



<p class="has-text-align-center">Rayshard Brooks, Atlanta<br>George Floyd, Mineápolis<br>João Pedro, Rio de Janeiro<br>Guilherme Silva, São Paulo</p>



<hr class="wp-block-separator" />



<p><strong>Referências:</strong></p>



<p>Marilena Chaui – Manifestações ideológicas do autoritarismo brasileiro, 2013</p>



<p>Zygmunt Bauman – Modernidade e Holocausto, 1997</p>



<p>Zygmunt Bauman – Medo líquido, 2006</p>



<p>Jason Stanley – Como funciona o fascismo, 2018</p>



<p>Hannah Arendt – Origens do totalitarismo, 2015</p>



<p>Hannah Arendt – A condição humana, 2015</p>



<p>Pierre Bourdieu – Sobre o estado, 2012</p>



<p>Slavoj Zizek – Violência, 2008</p>



<p>Slavoj Zizek – O sujeito incômodo, 2016</p>



<p><a href="https://politica.estadao.com.br/noticias/geral,human-rights-watch-ditadura-no-brasil-torturou-20-mil-pessoas-434-foram-mortas-ou-desapareceram,70002770377">https://politica.estadao.com.br/noticias/geral,human-rights-watch-ditadura-no-brasil-torturou-20-mil-pessoas-434-foram-mortas-ou-desapareceram,70002770377</a></p>



<p><a href="https://g1.globo.com/mundo/noticia/2020/04/21/brasil-cai-pelo-segundo-ano-seguido-em-ranking-de-liberdade-de-imprensa.ghtml">https://g1.globo.com/mundo/noticia/2020/04/21/brasil-cai-pelo-segundo-ano-seguido-em-ranking-de-liberdade-de-imprensa.ghtml</a></p>



<p><a href="https://brasil.elpais.com/brasil/2017/01/11/opinion/1484149442_585187.html">https://brasil.elpais.com/brasil/2017/01/11/opinion/1484149442_585187.html</a></p>



<p><a href="https://super.abril.com.br/mundo-estranho/os-10-maiores-genocidios-da-historia/">https://super.abril.com.br/mundo-estranho/os-10-maiores-genocidios-da-historia/</a></p>



<p><a href="https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0103-20702019000200123">https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0103-20702019000200123</a></p>



<p><a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Massacre_do_Carandiru">https://pt.wikipedia.org/wiki/Massacre_do_Carandiru</a></p>



<p><a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Ubiratan_Guimar%C3%A3es">https://pt.wikipedia.org/wiki/Ubiratan_Guimar%C3%A3es</a></p>



<p><a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Pablo_Neruda">https://pt.wikipedia.org/wiki/Pablo_Neruda</a></p>



<p><a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Giacomo_Matteotti">https://pt.wikipedia.org/wiki/Giacomo_Matteotti</a></p>



<p>(todos os links consultados em 20/06/2020)</p>



<hr class="wp-block-separator" />



<p><strong>Guilherme Mative Butikofer Keppk</strong> é professor, graduado em Teologia e graduando em Sociologia Política pela FESP-SP.</p>



<hr class="wp-block-separator" />



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/9acee-publi-ediccca7acc83o-impressa-1.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-5668" data-recalc-dims="1" /></figure>





<hr class="wp-block-separator" />



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.artebodoque.com/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/747d3-publi-bodoque3.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-5017" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color">Clique na imagem para acessar a loja virtual da Bodoque!</p>



<hr class="wp-block-separator" />



<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-large-font-size has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color">Galeria</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.instagram.com/iuryborel/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/d4d5c-galeriaiury2.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-10526" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



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		<title>Comme il faut, Comme il ne faut pas</title>
		<link>https://revistatrama.artebodoque.com/2020/03/08/comme-il-faut-comme-il-ne-faut-pas/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 08 Mar 2020 21:26:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 035]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Guilherme Mative]]></category>
		<category><![CDATA[sociedade]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Guilherme Mative </p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong>O que pega bem, o que pega mal</strong></p>



<p><em>Uma reflexão sobre o alcance da cultura em um mundo globalizado</em>.</p>



<p><strong>“Bem, as pessoas podem ser loucas por tudo que é digital e ainda assim ler livros, podem frequentar a ópera, assistir a uma partida de críquete e reservar bilhetes para o Led Zeppelin sem por isso se segmentarem</strong>&#8230; Gosta de comida tailandesa, mas o que há de errado com a italiana? Espere aí&#8230; calma. Gosto das duas. Sim. Isso é possível”. Essas são palavras de Stephen Fry, ator, cineasta e apresentador de TV britânico, atualmente no comando do programa <em>QI</em>, na BBC.</p>



<p class="has-drop-cap">Quais são os marcadores separadores das fronteiras da cultura em nossos tempos? Quais ferramentas sociais existem para definir quais os tipos de cultura que eu posso consumir conforme minha classe social, gênero, nacionalidade ou nível de instrução? Não somos mais limitados a consumir conteúdo cultural que diz respeito somente as nossas cadeias de relações. Talvez o que possa bem definir a nossa interação com a cultura em nossos tempos seja a reflexão de<strong> Richard Peterson: “Nenhum produto da cultura me é estranho, com nenhum deles me identifico cem por cento, totalmente, e decerto não em troca de me negar outros prazeres. Sinto-me em casa em qualquer lugar, embora não haja lugar que eu possa chamar de lar”.</strong></p>



<p>No passado a cultura era um marcador de classes com triplo efeito – definição de classe, segregação de classe e manifestação de <strong>pertencimento a uma classe – como afirma Bourdieu.</strong>&nbsp; Segundo o sociólogo francês, as obras de arte destinadas ao consumo estético apontavam, assinalavam e protegiam as divisões entre classes. <strong>Havia o gosto das elites e naturalmente relacionado a “alta cultura” que despreza o “banal”, o gosto médio, típico das classes médias e por fim o gosto vulgar, venerado pelas classes</strong> <strong>baixas.</strong>&nbsp;</p>



<p>Hoje em dia não podemos observar mais tais marcadores com tanta ênfase. Talvez a cultura tenha finalmente alcançado sua pretensão original: servir como um agente de mudança do status quo, e não de sua preservação, como um instrumento de navegação para orientar a evolução social. Assim como define <strong>Matthew Arnold, “a cultura busca eliminar as classes, generalizar por toda parte o melhor do que se pensa e se sabe”.&nbsp;</strong></p>



<p>Um jovem de elite branca não encontra dificuldades para consumir a cultura da periferia, frequentar um show do grupo de rap Racionais MC’S nas maiores casas do país. Uma jovem estudante do Capão Redondo não se depara com barreiras tão visíveis para frequentar um concerto da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo na Sala São Paulo ou no Teatro Municipal de São Paulo. Uma adolescente branca, parda ou negra de qualquer classe social não tem razões fundamentadas para não ser consumidora assídua do aclamado Korean Pop (K-pop). Por conseguinte, poderíamos citar mais uma porção de exemplos que demonstrem o movimento de <strong>“máximo de tolerância e mínimo de seletividade” como define Bauman ao pensar a cultura no mundo líquido moderno.&nbsp;</strong></p>



<p>Porém, será que tal pretensão permanece pura e não cooptada por outras motivações que se transvestem de puras, para manter ainda tais escusas? Em outras palavras, será que apesar do movimento de universalização da cultura, ela realmente segue um fluxo de agente de mudança, livre das imposições ideológicas das classes dominantes?</p>



<p><strong>Gilles Lipovetsky irá sugerir uma reflexão fundamental ao defender que o hipercapitalismo se infiltra e reconfigura todas as lógicas e reorganiza todas as atividades, inclusive culturais</strong>. Nessa nova realidade a cultura é produzida para ser consumida, quanto e por mais pessoas, melhor. Portanto, sob esse espectro a própria universalização das formas de cultura é uma ferramenta para a retro alimentação do status quo definido: a lógica do capital.&nbsp;</p>



<p><strong>A linha divisória entre a identidade socialmente aceita e a apenas individualmente imaginada é a relação entre autoafirmação e loucura. É por isso que todos nós sentimos sempre uma esmagadora “necessidade de pertencimento”, a necessidade de identificar não apenas a nós mesmos como seres humanos individuais, mas como membros de uma entidade maior.</strong> Parece que a cultura em tempos líquidos tem alcançado justamente essa nova face; oferecer a sensação de pertencimento a todos, enquanto segrega a partir da sua própria lógica.&nbsp;</p>



<p>Será que os movimentos culturais podem realmente se manter puros em suas próprias convicções? Se já usamos como exemplo o consumo do RAP pelas “elites”, então nos voltemos para a obra “Racionais MC’S, sobrevivendo no inferno” e seu límpido exemplo dessas convicções: <em>“A aposta do Racionais, ao contrário, está na construção de uma identidade formada a partir da ruptura com essa tradição conciliatória, por meio da afirmação de uma comunidade negra que se desvincula do projeto de nação mestiça concebido até então. Desde o princípio o rap nacional vai se reconhecer enquanto gênero cantado por negros que reivindicam uma tradição cultural negra por meio de um discurso de demarcação de fronteiras étnicas e de classe que denuncia o aspecto de violência e dominação contido no modelo cordial de valorização da mestiçagem”.</em></p>



<p>Por fim, se todos podemos ter acesso a todo tipo de cultura, então será que conseguimos defender que todos são iguais? Que alcançamos um padrão de erudição cultural que nos iguala ao invés de segregar como no passado?&nbsp;</p>



<p>Ao leitor cabe o problema.</p>



<p><strong>Referências bibliográficas:</strong></p>



<p>1 – Richard A. Peterson – “Changing arts audiences: capitalizing on omnivorousness”, Cultural Policy Center, Universidade de Chicago.</p>



<p>2 – Pierre Bourdieu – A distinção, critica social do julgamento, 2006</p>



<p>3 – Matthew Arnold – Culture or anarchy, 1869</p>



<p>4 – Zygmunt Bauman – A cultura no mundo líquido moderno, 2011</p>



<p>5 – Zygmunt Bauman – Globalização as consequências humanas, 1998</p>



<p>7 –&nbsp; Zygmunt Bauman – Vida em fragmentos sobre a ética pós-moderna, 1995</p>



<p>8 – Gilles Lipovetsky – A cultura mundo resposta a uma sociedade desorientada, 2008</p>



<p>9 – Michel Maffesoli – O tempo das tribos, 2014</p>



<p>10 – Racionais MC’S – Racionais MC’S sobrevivendo no inferno, 2018, p.25</p>



<hr class="wp-block-separator" />



<p><strong>Guilherme Mative Butikofer Keppk</strong> é professor, graduado em Teologia e graduando em Sociologia Política pela FESP-SP.</p>



<hr class="wp-block-separator" />



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/9acee-publi-ediccca7acc83o-impressa-1.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-5668" data-recalc-dims="1" /></figure>





<hr class="wp-block-separator" />



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.artebodoque.com/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/747d3-publi-bodoque3.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-5017" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



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