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	<title>Arquivos José Aravena Reyes - Revista Trama</title>
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	<description>Arte, Cultura e Criatividade</description>
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		<title>VIDAS ALIENADAS</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 26 Dec 2021 21:28:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 122]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[José Aravena Reyes]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  José Aravena Reyes</p>
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<p>Caminhar pela cidade em um solilóquio urbano desde o qual se observam passivamente os sinais das ruas e galerias tornou-se uma rotina. Agora, construir e dar unidade ao que se observa, dar sentido e estatuto à cidade, transformou-se em uma tarefa árdua. Há muitos sinais e em tempos de alta polução visual e sonora muita coisa se exclui quase que automaticamente. Parece que muitas coisas perderam realidade, multiplicidade, sentido. Observamos detidamente as coisas que nos cativam, outras passam sem provocar nenhum efeito. Essas outras coisas eram parte de uma paisagem cativante, mas a força da sua presença se reduziu drasticamente e não sobrou muita coisa. Agora cada coisa pula em seu próprio ritmo de sobrevivência e o tempo em que elas compunham uma sinfonia urbana harmônica e rica, parece não ter mais lugar. E aqui não se trata do resgate de um passado melancólico, senão das possibilidades de dar sentido presente em função das possibilidades que abre todo um passado.</p>



<p>A fragmentação do real deixou um quebra-cabeça incompleto, há vazios, coisa não junta com coisa. Algumas peças desapareceram. Só ficaram cacos do real e não há como formar uma figura que valide todas as diferenças na legítima unidade da sua multiplicidade. As relações entre as coisas foram sequestradas e sua composição no real passou a ser objeto de projetos de inclusão e exclusão. Sistemas que eram abertos foram diminuindo a sua permeabilidade: corte e fluxo, passa ou não passa; acolhe ou descarta. Sem muito pensar, seguimos as sinalizações da vida na cidade.</p>



<p>O real se transformou em um projeto do capitalismo onde todas as relações são antecipadas para produzir um percurso controlado. Porém, nos múltiplos sinais em concorrência, não há nada que não possa ser quebrado, recortado, manipulado para torná-lo uma nova realidade. É romântico pensar que ainda há um real sagrado, um materialismo imóvel, uma vida sem sobressaltos. As rupturas, as revoluções, os consensos, todos esses elementos que sempre existiram como manifestações que deram estabilidade ao homem, hoje são a matéria prima daqueles que sabem que nada permanece imóvel e que no fluxo do devir pode-se antecipar e realizar muita coisa.</p>



<p>As vidas podem ser orientadas de muitas maneiras. As derivas, por exemplo, são apropriadas mediante o sequestro das relações que compõem que dão sentido às rotas. Aqueles que produzem o real sabem que se trata de um projeto de relações: o estável ou o essencial não é mais referência para comprimir o fluxo do devir e estabiliza-lo em um ser inalterável. A referência é a <em>mudança</em>, e a mudança do real tornou-se um negócio lucrativo: se lucra compondo e produzindo o sentido e percurso do real.</p>



<p>Talvez George Orwell nos alertasse para esse fato. Em <em>1984</em> a ideia de um estado totalitário, de um único olho, de uma única voz, de um rosto superior que define o real, representa um retrato dos tempos da guerra fria (foram os próprios ocidentais que associaram o romance ao stalinismo soviético). Poderíamos pensar que o totalitarismo denunciado na obra de Orwell consiste mais em uma oportuna narrativa epocal do que um entendimento daquilo que realmente interessa na sua escrita: a farsa do real; a possibilidade de mudar toda a história de modo que ela se transforme na verdade que interessa, no real que interessa. Saber quem exerce esse poder não é tão relevante como conhecer as operações que permitem manipular a história. A farsa do real era parte de um projeto, aliás, de um projeto técnico, onde o estado de falsidade era a condição produtiva do projeto social orwelliano.</p>



<p>Nesse sentido, a operação interessa mais do que o resultado, pois ao total se chega só retorcendo os fatos, porque os fatos em si já são doadores de consistência e estabilidade no fluxo de um devir que sempre é aberto. Trata-se de relações; é através delas que os fatos tornam-se significantes ou insignificantes. Na interpretação tradicional do romance de Orwell é mais significativo denunciar o fantasma do totalitarismo do que a operação que o produz. Para produzir um total é sempre necessário estar anulando, corrigindo, deturpando. Se algo se estabiliza é porque se traça uma linha que dá consistência a um devir que não se cansa de mudar, portanto, para produzir o equilíbrio e a estabilidade de um real totalizante, há que corrigir os desvios.</p>



<p>Na temporalidade do devir, no tempo do ser – essa linha temporal e histórica na qual estamos lançados –, o real extrai sua realidade de um campo de indeterminações que se encontra estabilizado, mas não de maneira finalística. Sempre há muita potência por realizar e desse campo aberto de indeterminações o puro devir também extrai realidade; com efeito, exatamente do mesmo lugar de onde as linhas estabilizantes extraem a sua. Estabilidade e instabilidade emergem do mesmo lugar. Corta-se ou deixa-se passar algo que nasce do mesmo lugar. O real passa ser a composição desses cortes e fluxos. Por isso Orwell é mais significativo se colocado de frente aos procedimentos que reconhecem essa plasticidade e operam tecnicamente para manipular os fluxos e suas relações, que no fundo, são a historicidade do ser: Orwell interessa porque mostra que aquele fluxo temporal de onde o ser extrai sua realidade pode ser antecipação, projeto. Mas do que uma sociedade disciplinar ou de controle, habitamos uma sociedade de projetos.</p>



<p>Tal perspectiva não nos leva a pensar que estamos voltando a 1984 ou que hoje <em>é</em> 1984. As invariantes estão nos processos que operam sobre a temporalidade. Orwell nos permite constatar que qualquer temporalidade do ser pode ser manipulada tecnicamente e com isso, devemos entender que o alerta que foi feito diz respeito primeiro à técnica, e depois à política como <em>techné regia</em>. A historicidade do ser é constituída tecnicamente e nos tempos de uma sociedade altamente tecnologizada, não se volta a 1984, se caminha sobre um real cada vez mais flexível, composto de uma materialidade mais plástica, configurável, programável.</p>



<p>Ir e vir; ler, escrever, aprender os significados; aprender a fazer, se preparar para a vida do trabalho, trabalhar. Formar família, reproduzir por amor ou prazer nossa espécie, cuidar, repetir os ciclos de uma deriva que, embora pareça autêntica, não é propriamente nossa: aprendemos a ser assim ou assado, somos adestrados. A margem de deriva dentro de um sistema que manipula os símbolos e suas relações é pequena. As chances de parecermos com outros são grandes. As chances de nos identificarmos com um <em>nós</em> abstrato são também grandes. No jogo das identidades, as relações sobre o real estão estabilizadas e ficam a mercê dos negócios da identidade. Alternativo, por exemplo, é outro nome para os negócios da alteridade. Por outro lado, as diferenças são sufocadas: há um embargo, um bloqueio sobre os territórios da diferença. Se eles servem para os negócios identitários, bem-vindos; mas, se configuram autopoiésis, não servem; a novidade ajuda os negócios do capitalismo (a chamam de inovação), mas a autonomia atrapalha.</p>



<p>Trabalhar e trabalhar. Fomos condenados eternamente ao castigo de Zeus. Ao final, para muitos, tudo depende de ter emprego; seja esquerda ou direita, a questão é que sempre se deve estar trabalhando. Trata-se de conseguir dinheiro para alimentar a prole; estudar para ser alguém na vida. Os desvios que convidam a sair do roteiro são perigosos: arrisca-se à rejeição e ao ostracismo social. Não estudar significa ser um diferente indesejável. Todos devem ser adestrados, educados e absorvidos em formas sociais pensadas e planejadas para manter a estabilidade da ordem social que escolhemos ter. Isso mesmo, que escolhemos ter.</p>



<p>Sem pensar e esgotados pela força de relações tecnicamente forjadas, nossa capacidade de encontrar significado aos sinais do real se reduzem. Conscientemente, democraticamente – ainda quando os sem sabores da democracia desanimem e façam pensar ‘tanto faz, vamos ter que trabalhar do mesmo jeito’ – escolhemos representantes e agimos como se a vida tivesse um único sentido. No futuro obscuro do capitalismo só faz sentido que todos devem trabalhar porque todos devem contribuir para manter essa ordem. Quem não trabalha é vagabundo.</p>



<p>Esse recorte do sentido não se faz em um par de anos de governo neoliberal. O Estado que garante o controle da ordem social, há muito tempo não produz autonomia. Sua lerdeza comunicacional e operativa está neutralizada e sempre é objeto dos ágeis abutres que retorcem os fatos para oferecer novas narrativas que enganam os dóceis cidadãos. Aí podemos ver claramente Orwell apagando da história as relações dos que outrora foram inimigos e rescrevendo o passado de onde surge uma antiga amizade: a dos novos amigos da democracia. Não faltam relações para dar sentido a essa nova realidade transvestida de dever democrático.</p>



<p>Governa-se em base a políticas de identidades, ora de inclusão, ora de exclusão; ora de amizades, ora de inimizades. Governa-se mediante temporalidades constituídas através de narrativas flexíveis que são as formas operativas nas quais nos encontramos lançados. Os significados são adequados para nos fazer aterrissar no real que interessa. Não é a alienação do trabalho o que nos coloca nesse dilema político: o que foi alienado é nosso desejo, nossa vida toda: <em>vidas alienadas</em>. Ela não mais nos pertence. As forças do trabalho e do descanso já não nos pertencem. Ingenuamente acreditamos sermos os donos de nos mesmos, de nosso ócio, de nosso prazer; mas toda nossa capacidade produtiva está à mercê das limitadas possibilidades produtivas que nos foram dadas. A nossa vida está em mãos da governança técnica que caracteriza nossa época e que hoje, mais do que nunca, toma a forma de um algoritmo: a governabilidade é algorítmica.</p>



<p>Trabalho e prazer, tudo passa pelo crivo técnico. Tudo é calculável e, portanto, tudo pode ser colocado sob a perspectiva da representação. Nosso desejo é tratado com algo calculável: cortar ou deixar passar os fluxos de sentido. Constrói-se uma operação de significados para conduzir uma manada adestrada:</p>



<p>Para cada ser representado pela sua atividade e registro na massa dos <em>big data</em> (<em>for s = 1 to n</em>), verifique se um dado símbolo afeta; Caso afete, seduza um comportamento, oriente uma forma de consumo, ofereça reconhecimento identitário (<em>if s = x then goto c</em>). Faça isso enquanto exista vida (<em>next s</em>).</p>



<p>Na governança algorítmica da inteligência artificial somos produzidos em formas pensadas pela racionalidade daqueles que operam a maquinação do desejo. Os operadores técnicos pensam, ingenuamente, que estão a atingir novos patamares de desenvolvimento humano, mas só aceleram a <em>miséria simbólica</em> que nos afeta. A cada dia, os símbolos perdem mais e mais possibilidades de deriva. Sua cadeia significante é manipulada para sempre chegar ao mesmo lugar e na velocidade em que se calcula a vida, se atrofia o desejo.</p>



<p>Na temos tempo de digerir o sentido. Antes de desenvolver um fluxo, já somos forçados a adotar a direção para o próximo destino que irá satisfazer nosso desejo. O prazer sempre é diferido; a falta, produzida: o que enche o vazio da cadeia significante é planejado, pensado e operado para guiar o desejo em direção dos interesses do capital; puro projeto, pura manipulação técnica do tempo: o estado de aberto do devir se torna angustiante: fluir seguindo qualquer outra deriva se transforma em um <em>bug</em>, um equivoco na modelagem da espécie. Docilmente, ou aceitamos e multiplicamos o mundo que nos oferece o algoritmo, ou rejeitamos e neutralizamos as singularidades que escapam ao programa.</p>



<p>Aceitar ou rejeitar. Nessa lógica binária o que se transforma se faz sobre opções polarizadas; o desejável se converte em deriva legitima e o indesejável em transtorno, mas tudo se opera sobre opções pré-definidas. Por isso estamos sempre atentos às razões algorítmicas que nos oferecem prazer ou nos livram da angústia mediante recomendações de leituras, <em>playlists</em>, filmes, lugares, amores e todo que for possível transvestir de reconhecimento para nos aliviar do tédio, do sem-sentido de uma vida que não é produzida por nós: uma vida de prateleira, uma vida alienada. Não percebemos que estão nos alienando do nosso tempo, de nossa vida. Ser ou não ser não é mais uma disputa metafísica entre o ser e o nada; se transformou uma pressão quotidiana sob o controle das opções de escolha algorítmica. Sem exercitar a crítica e sem escutar os indesejáveis, os alheios, os outros que defendem suas diferenças, nos tornamos defensores da homogeneidade e, assim, nossa cidade se parece cada dia mais ao projeto urbano de um cidadão padrão, de uma figura que foi moldada a partir do sequestro da sua <em>timeline</em> e de seu <em>histórico</em> <em>de navegação</em>, promovendo um narcisismo perverso que infantiliza e conduz. Adestrados, esses cidadãos são alienados da sua própria capacidade de se tornar o que eles desejem ser. O cidadão só pode ser de acordo aos projetos hegemonizantes que o governam. Não se trata mais de um governo que representa os anseios da sua população; se trata de projetar uma forma de governança baseada em uma representação, no cálculo de um ser, um ser projetado: o cidadão de <em>vida alienada</em>.</p>



<p>Nossas diferenças se pasteurizam em função desses projetos e daqueles que os governam. Nossos corpos e os corpos dos outros são parte de uma <em>psicopolítica</em> que molda o cidadão como um ser governável, abolindo as diferenças e as possibilidades de deriva que possam desestabilizar o que já foi construído. Interrompem-se os fluxos, congelam-se as almas e se institui a vida como repetição de um roteiro que, na calma e tranquilidade que oferece, esconde a técnica que desvitaliza a nossa capacidade de divergir, de variar, de nos diferenciarmos e construirmos nossas derivas como se fossem simples e corriqueiros experimentos existenciais.</p>



<p>Talvez só se trate disso: de fazer da vida um experimento existencial que na sua singularidade é inalienável. O contra-algoritmo não é um muro em torno da privacidade; é a defesa da possibilidade de escolher os próprios caminhos; a defesa das possibilidades de invenção das nossas próprias vidas.</p>



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<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:22% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/8d08b-jose-aravena.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-15522 size-full" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p><strong>José Aravena Reyes</strong> é natural de Santiago de Chile. Músico popular e canta-autor na época, veio para o Brasil a cursar pós-graduação em <em>Engenharia Oceânica</em>. <em>Professor Titular</em> da Faculdade de Engenharia desde 2018, fez pós-doutorado em <em>Filosofia da Técnica e da Tecnologia</em> na <em>Pontifícia Universidade Católica do Paraná</em>. Atualmente ministra aulas de <em>Engenharia e Sociedade</em> e <em>Gerenciamento de Projetos</em> na UFJF. Na sua vida pessoal, é discotecário de músicas do mundo. Membro do grupo de <em>Maracatú Estrela na Mata</em>, divide suas pesquisas de Filosofia da Tecnologia com suas outras pesquisas musicais em discos de vinil do mundo que utiliza em suas mixagens e produções autorais de música eletrônica.</p>
</div></div>



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		<title>O GLOBO EM PERIGO</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 07 Nov 2021 21:21:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 107]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[José Aravena Reyes]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  José Aravena Reyes</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Nestes dias o <em>Mundo</em> se reuniu para discutir o planeta <em>Terra</em>. Curiosamente, Terra e mundo parecem estar de lados opostos. Homens aqui, natureza lá. O mundo inclui a Terra, mas sabemos que não haveria mundo sem ela. A invenção do mundo é recente e remete à cultura, ao homem e seus feitos; raramente colocamos a natureza como mundo, ao contrário, a natureza é Terra, é Gaia, é Medéia. A separação homem-natureza permite ao homem ser o centro da terra e do mundo; faz-nos flutuar sobre tudo o que há, dispondo e significando o fora, o alheio, o exterior, ao mesmo tempo em que nos permite preservar um lugar privilegiado de observação e ação: separados e autônomos, somos sujeitos <em>na</em> terra e <em>no</em> mundo. Jamais Terra, jamais mundo. No universo, somos planeta entre muitos outros azuis, vermelhos ou cinzas. A cisão fundamental homem-natureza organizou nossa racionalidade e nos outorgou o título de seres racionais, de <em>homo sapiens</em>.</p>



<p>O outro nome que damos à Terra é <em>Globo</em>, como se a forma esférica fosse mais importante que o relevo que pisamos. O globo, na verdade, permite construir uma relação equidistante ou matemática de todas as vidas em relação a um centro, também matemático. O globo interessa por esse cálculo, que por sua vez é o procedimento que serve tanto para calcular os deslocamentos dos homens ao redor da Terra quanto das suas mercadorias. Seres viajam de um lugar a outro fazendo geodésicas na sua superfície; encomendas também as fazem. As rotas fazem marcas imaginárias em um globo imaginado.</p>



<p>A esfera como tal – diz Peter Sloterdijk – sempre fascinou e foi palavra sábia. Dos geômetras em diante, a esfera sobe e se alça como a forma própria da perfeição, da totalidade, da unidade, do mundo ou do cosmos. Tudo que deve constituir uma singularidade encontra na esfera um <em>rátio</em>, uma racionalidade centrada, onde qualquer caracterização é remetida de forma equidistante ao centro substancial; a razão é neutra, é verdade, está despida das variações do espírito; o homem é universal, o tempo e o espaço, dois <em>a priori</em>. Cientes do poder da escrita e do registro neutro, evoluímos procurando o verdadeiro sentido para nos situar de forma equidistante aos fatos que povoam o mundo.</p>



<p>Nós, simples peripatéticos, deambulamos na superfície – também apropriada pelos geômetras – do mundo através das rotas da cidade e do espírito. Ruas e avenidas nos ensinam as formas de deslocamento na superfície terrestre. Livros e filmes nos conduzem pelas geodésicas do tempo da razão. Os outros, igual que nós, flutuam na diversidade das cópias imperfeitas do <em>rátio</em> civilizatório que nos identifica.</p>



<p>Esta superfície – que também chamamos de solo – está exatamente embaixo dos nossos pés e foi por ela que chegamos a provar que estamos sobre a crosta do globo. Os experimentos de <em>Eratóstenes</em> deram uma formulação concreta ao raio da esfera terrestre e a exatidão dos seus cálculos inaugurou um ponto de observação para tudo que há no solo e em torno dele. Nem os recentes terraplanistas tiveram força intelectual para produzir uma nova razão, desta vez não esférica. A perfeição da esfera coloca todos os pontos da Terra de forma equidistante ao centro substancial. Seu núcleo se estabelece pela intenção universalizante; dos Direitos Humanos aos Direitos da Terra, se trata de um raio único para todos os seres e para todos os propósitos. Mas, o <em>rátio</em> é sempre referido a algo, a um sistema de referencia, de pensamento. Talvez por isso a síntese do globo reúna a totalidade da esfera em relação a um centro equidistante: há uma razão, e como tal, os seres da razão que habitam o planeta se reúnem constantemente para definir o centro, o raio e, consequentemente, o que está dentro ou fora da totalidade esférica.</p>



<p>Recentemente, Bruno Latour comentou sobre os bem intencionados seres racionais que pretendem deixar a esfera para ver de longe como ela sucumbe à crise planetária, tal qual se fez um tempo atrás quando se afastou o sujeito do seu mundo-objeto. Os requintes midiáticos de turismo espacial não são suficientes para eliminar a compreensão de que, perante a crise, alguns afortunados – com suas bilionárias fortunas – possam ver desde cima os infortúnios dos mais pobres, na crosta de um globo que se deteriora irremediavelmente.</p>



<p>Dos porões dos laboratórios (e daqueles que os financiam) sabemos muito pouco. De fato, foi pela mídia jornalística e não nos congressos científicos que ficamos sabendo dos embriões humanos produzidos a partir de células tronco de macacos e humanos. Portanto, não devemos estranhar a possibilidade real de estarem sendo desenvolvidas clandestinamente formas de sobrevivência de longo prazo fora da crosta terrestre e também não devemos estranhar que essas formas técnicas possam ser utilizadas para fugir de um planeta em crise. A alarmante situação da crosta terrestre parece não encontrar saída nela mesma e por tal motivo, muitos afortunados querem se alinhar a um modelo político e econômico que transite entre um discurso de cuidados planetários ao mesmo tempo em que viabilizam opções de sobrevivência para salvaguardar suas particulares versões da espécie humana. A Terra está sob crescente risco de colapso ambiental; digamos, risco de que colapse aquilo que está fora, afetando-nos irremediavelmente. O colapso ambiental é o colapso da Terra. Ela é hoje elevada à condição de organismo para nos fazer ver que se defende do <em>homo sapiens</em> e de sua vertiginosa corrida à plenitude, como sujeito contaminante que ainda flutua sobre ela. A preocupação com o colapso da Terra nos faz articular toda a racionalidade planetária para pensar o impensável, para promover o impossível com o intuito de criar uma deriva filogenética que não seja nociva para a Terra.</p>



<p>Porém, a degradação planetária não define seu <em>rátio</em> exclusivamente sobre a crosta terrestre; o raio que define o mundo sequer repousa sobre a ideia de uma natureza que equidista do substancial ser humano que a gera, pois ao mesmo tempo, esse humano a corrompe. O mundo – essa invenção recente que destaca as virtudes de um sujeito que flutua sobre a crosta danificada sem assumir nenhuma responsabilidade – inclui a Terra e também se corrói, contaminando as relações e as mentes. A degradação planetária também eleva a temperatura dos conflitos, provoca situações extremas de vida e morte, oferecendo à razão opções necropolíticas tão justificáveis como foram Auschwitz e Hiroshima para as outrora injustificáveis versões da racionalidade humana. Além da degradação ambiental, o mundo que institui nossa sociedade e cultura vive processos de degradação psíquica e social. Por um lado, as sínteses tecnológicas e os algoritmos de recomendações substituem nosso contato com o real provocando os meios propícios para a governança algorítmica, por outro, o cenário se complica à luz da manipulação comercial do desejo, das identidades e do ódio à alteridade.</p>



<p>Na vida coletiva, negar o outro nunca foi tão lucrativo como hoje; as <em>fake news</em> não são o puro resultado do confronto entre pensamento moderno e pós-moderno, nem uma luta entre diferentes bolhas de narrativas próprias. A própria noção de pós-verdade atualizou algo similar ao que há muito tempo já fora denunciado e atacado na figura do relativismo. Mas, se <em>nunca fomos modernos</em>, como diz Latour, também nunca a verdade foi um absoluto. Ela sempre se ergueu como o instrumento de poder dos donos das meta-narrativas. Ao atualizar o poder político das narrativas menores no contexto comercial das bolhas virtuais, a virada pós-moderna mostrou que o diferente ainda incomoda; mostrou como é simples produzir ódio ao diferente, e finalmente, mostrou como é lucrativo o ódio. O deterioro social se produz recolhendo as identidades fragmentadas e confrontando-as em uma economia tanatológica, porque de certa forma ela é uma das expressões econômicas da necropolítica contemporânea.</p>



<p>Na dimensão psíquica, Bernard Stiegler nos alerta sobre a <em>proletarização cognitiva</em>, um fenômeno que se ergue sobre a incapacidade de criar opções de vida perante a voluminosa oferta de modos de vida de prateleira que oferece o capitalismo. Sem produzir a vida, só escolhemos as formas de vida que nos oferecem. A velocidade de produção técnica da economia da cultura antecipa o desejo sem dar chances para que a dinâmica social reflita e absorva as transformações operadas pela técnica no conjunto de vidas do corpo social. Com isso, estamos sempre à deriva, sendo conduzidos pelas novas versões de tecnologias que operam na camada da libido, tornando-nos verdadeiros seres sem condição coletiva estável. Parece-nos que todos nossos desejos já são conhecidos pelos produtores da tecnologia e confiamos cega e ingenuamente nos objetos que nos disponibilizam. Sem pensar, sentimos e agimos intuitivamente em um campo onde sentir e intuir está completamente mapeado, impedindo que nosso cérebro faça os exercícios neuronais necessários para reconhecer a manipulação capitalista. Chegamos ao ponto de consolidar uma subjetividade obediente e limitada que acaba defendendo como verdadeiras as únicas formas de vida nas quais somos envolvidos. Essa dinâmica atrofia o desejo, a mente e produz o rebanho, o gado, enquanto os pastores da identidade e da manipulação do desejo enchem seus bolsos de dinheiro. Cada membro do rebanho tem seu pastor e cada pastor, seus interesses. Atrofiado, o rebanho serve de matéria prima para o lucro, a identidade se transforma em uma mercadoria e, como sempre acontece no capitalismo darwiniano, sobrevivem os mais aptos: novamente a necropolítica se encarrega de dar condições para extrair lucro até do último suspiro do homem obediente: o ódio e a morte se tornam espetáculo.</p>



<p>De tanta degradação pairando na Terra, a crosta terrestre não é mais um lugar seguro.</p>



<p>De tanta manipulação política e economia do desejo, o mundo que reside sobre essa crosta também não é.</p>



<p>Será que o globo pode promover um novo e seguro <em>rátio</em>, uma nova razão salvadora?</p>



<p>Poderíamos dizer que alguns pensam que sim, desde que exista tempo. E mais ainda, eles pensam que são uns poucos os que se devem salvar da catástrofe planetária.</p>



<p>O desenvolvimento tecnológico que avança nos porões dos laboratórios sempre está disposto a caminhar na direção do capitalismo. Se agora se trata de uns poucos afortunados que podem flutuar por longos períodos de tempo em uma órbita segura – e ainda assistir de camarote a crise planetária – sem dúvida financiamentos serão direcionados para isso. A mesma velocidade da máquina de morte da segunda guerra pode ressurgir para acelerar a construção das naves dos afortunados. Mesmo assim, a questão continua a ser se haverá tempo suficiente, pois na singela vida dos peripatéticos humanos, os riscos da degradação planetária podem obriga-los a tomar medidas extremas, e sabemos que uma multidão faminta, raivosa e decidida, não é tão controlável assim, de modo que antes das privilegiadas naves sair voando a ocupar a arquibancada orbital da tragédia humana, os irrelevantes, os famintos, os excluídos, os obedientes, podem se deslocar sem rumo, derrubando tudo que estiver ao seu passo; inclusive os afortunados e suas tecnologias de sobrevivência podem ser pisoteados pela multidão desorientada.</p>



<p>Neste trágico contexto, parece que nenhum lugar é seguro, nenhum tempo é suficiente e nenhum homem quer reconhecer a situação de modo a evitar o pânico que pode influenciar a multidão desorientada. Talvez a mais lúcida de todas as interpretações desse momento seja da gigante Greta Thungber, que sem meias palavras denuncia a surdez dos governantes e a displicência com que eles tratam nosso degradado planeta. Para ela, falsas promessas fazem parte do roteiro do G20 e Bruno Latour já nos alertou para esse engodo: nem humanismo de esquerda nem liberalismo de direita. Enredados nessa disputa binária, devemos superar as dicotomias e caminhar para uma <em>política terrana</em> que se distancie radicalmente do antropocentrismo humanista e liberal que até hoje não conseguiu reunir aquilo que com tanto orgulho separou séculos atrás. No horizonte da fuga promovida pelos afortunados do capitalismo, com menos possibilidades de salvar a espécie se anuncia o novo homem do transumanismo. O homem melhorado parece só aprimorar aquilo que o capitalismo considera necessário para o próximo passo evolutivo. Seja qual for o pós-homem projetado e produzido pelo transumanismo, o tempo é mais curto ainda, pois os problemas pipocam por todos os lados e logo os corpos chegarão aos porões dos laboratórios, e quem sabe, essa multidão de corpos ditos obsoletos e desorientados erguerá a estupidez como a nova condição evolutiva para consagrar a necropolítica como a única e necessária política de fim do mundo como conhecemos hoje. Junto com o pós-humano deverá se erguer outro mundo, o <em>pós-mundo</em> desse pós-humano, a partir de uma estirpe engajada na necropolítica que irá usar eficientemente uma razão bastante flutuante e manipulável para produzir a evoluída e necessária condição de atrofia mental que abrirá passo à nova geração.</p>



<p>Aqui no Brasil sabemos como isso faz parte de um verdadeiro projeto político. Orgulhoso da sua estupidez, nosso representante maior pretende erguê-la como antidoto a uma razão planetária corroída por uma globalização predatória tentando disfarças os interesses do seu clã sobre a Amazónia; percorre as ruas da Itália para instituir uma imagem usável nos círculos toscos das esferas identitárias do seu clã, que espera orgulhosa a nova montagem que justifica seus atos. Orgulhosos da estupidez, alguns já se exercitam em ginásticas físicas, dando a entender que perante o fracasso do <em>rátio</em> humanista é necessário criar outra esfera que abrigue outro mundo, o qual será erguido controlando tudo e descartando muitos modos de existência alternativa para assim afirmar um único e hegemônico modo de vida; um modo de vida que insiste em dominar tudo: homens e natureza; insistem em um modo de vida onde o consumo é ingenuamente elevado como valor fundamental do sujeito livre, mas que materialmente é nada mais do que veículo e expressão do seu próprio processo de extinção. Mal sabem esses guerreiros que caminham orgulhosamente para uma morte sem honra.</p>



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<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:22% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/8d08b-jose-aravena.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-15522 size-full" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p><strong>José Aravena Reyes</strong> é natural de Santiago de Chile. Músico popular e canta-autor na época, veio para o Brasil a cursar pós-graduação em <em>Engenharia Oceânica</em>. <em>Professor Titular</em> da Faculdade de Engenharia desde 2018, fez pós-doutorado em <em>Filosofia da Técnica e da Tecnologia</em> na <em>Pontifícia Universidade Católica do Paraná</em>. Atualmente ministra aulas de <em>Engenharia e Sociedade</em> e <em>Gerenciamento de Projetos</em> na UFJF. Na sua vida pessoal, é discotecário de músicas do mundo. Membro do grupo de <em>Maracatú Estrela na Mata</em>, divide suas pesquisas de Filosofia da Tecnologia com suas outras pesquisas musicais em discos de vinil do mundo que utiliza em suas mixagens e produções autorais de música eletrônica.</p>
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		<title>A CIDADE É NOSSO TERRITÓRIO</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 05 Sep 2021 21:30:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 107]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[José Aravena Reyes]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  José Aravena Reyes</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Nos dias de hoje, observamos estupefatos os acontecimentos de uma guerra que leva mais de quinhentos anos: o sequestro da terra por parte da máquina global dominante.</p>



<p>Nessa operação global, o dever que nos foi dado agora é de ser o celeiro do mundo, de alimentar os povos do planeta. Cultivamos, colhemos e exportamos como bons cidadãos visando o reconhecimento do importante papel econômico que nos cabe na divisão internacional do trabalho, mediante a qual se distribuem as tarefas da Aldeia Global.</p>



<p>A ideia de que somos de um país de grande relevância na tarefa de alimentar mundo é uma grande e silenciosa armadilha na que alguns desavisados caíram, se investindo de um abecedário pragmático recolhido de uma pseudo-erudição econômica que todos conhecemos: o neoliberalismo. É ele que seduz-nos a pensar só a partir dos resultados de um processo que, no longo prazo, traz consequências preocupantes para todas as vidas do planeta.</p>



<p>Sem muito esforço, ficam expostos os interesses: de um lado a exploração predatória da Terra cujo efeito no deterioro planetário não entra na conta dos ganhos imediatistas de um <em>agrobusiness</em> que não tem nada de <em>pop</em>; de outro, um horizonte onde sequer os trabalhadores são objeto da exploração, pois já se visualiza a marcha alegórica e cibernética das máquinas com as quais o próprio homem se tornará, aos poucos, irrelevante.</p>



<p>Dos muitos que se querem apropriar da Terra para a tarefa de alimentar o mundo sem pensar nas consequências nocivas ao planeta, só resta a ingênua perspectiva de que os lucros realizados lhes permitiram usufruir de outras mercadorias que acalmarão o vazio de um ser que <em>consome e se consome</em> nelas. Quando a redonda Medéia passar a conta, a elite abastada não poderá pedir clemencia a essa mãe que não aceita desculpas.</p>



<p>Enceguecidos, patrões e trabalhadores dançam ao ritmo de uma banda que toca uma música muito diferente daquelas que mobilizaram as revoluções e os grandes negócios do capitalismo industrial. A alienação não é mais do esforço humano. A alienação contemporânea extrapola em muito a força de trabalho humana, pois se instala na manipulação direta dos desejos, os quais estão constantemente sendo rescritos mediante o decalque grosseiro de uma intimidade de prateleira.</p>



<p>Acreditamos que nosso íntimo está sob nosso controle, que somos nós os donos das marcas do nosso corpo e nossa mente, porém, se bem não somos uma tábula rasa, de certa forma somos uma tábula editável, que opera de forma similar aos dispositivos de armazenamento digital os quais, a qualquer momento podem regravar, recodificar ou reiniciar suas mídias. A nossa mente racional só recebe os sinais escuros e criptografados dessa lógica que inscreve na nossa intima deriva libidinal aquilo que toma conta das nossas preocupações diárias: temos tarefas a cumprir e como bons cidadãos, postergamos todo o prazer para o final da jornada. Até Rubén Blades<a href="#_ftn1">[1]</a> escreveu <em>estude, trabalhe, seja gente primeiro, eis ai a salvação</em>, nos indicando o caminho do reconhecimento e das obrigações como passo anterior ao usufruto livre da vida.</p>



<p>Para o cidadão médio, há deveres a cumprir antes de dançar a <em>dança cósmica</em> que tanto recomenda nosso querido Ailton Krenak. Para muitos desses abnegados cidadãos, olhar o céu e dançar no meio da semana, movidos pelo simples desejo de agradecer ao cosmos pela alegria de estarmos vivos usufruindo de cada segundo que dura o tempo, é coisa de desocupados, de gente que não trabalha, que não produz, por que antes de dançar é preciso produzir: temos que ser <em>gente</em> primeiro.</p>



<p>Chega-se a pensar que a defesa dos territórios indígenas é assunto de folgados, não de gente que produz, de gente que entende àquele que produz e defende uma vida produtiva como exemplo de virtude, inclusive – sejamos compreensivos com os ingênuos – chegando a pensar que as máquinas do agro produzem e por isso toda a cadeia técnica merece nossa irrestrita confiança. Mas essa ingenuidade já fora desvendada por Max Webber quando mostrou que o discurso de que <em>só o trabalho dignifica</em> também foi uma armadilha para aquele que se sente culpado por ter nascido e que em função dessa culpa adere à ética do acúmulo; esse asceta que quer mostrar, orgulhoso, que está no pleno controle do desejo de dançar livremente as segundas ou terças-feiras ou de simplesmente dançar outra dança que não seja a dança do acúmulo. Esse controle não só aliena o resultado do trabalho como também aliena o desejo e a vontade de viver.</p>



<p>Os pecadores arrependidos consomem e não gostam de dançar a dança cósmica por que ela os leva ao deterioro inevitável dos alicerces do hegemônico modelo da sociedade capitalista ocidental, pois se a nossa responsabilidade é produzir antes de dançar, <em>dançar antes de produzir é um risco</em> na vida serena de quem escuta o jornal mais do que escuta o próprio corpo.</p>



<p>O trabalho alienado já cobrou seu preço e a alienação está em outro patamar; é a própria vida que não nos pertence mais. Fomos distanciados do mundo real para retornarmos a ele de outra forma. Aproximamo-nos aceitando as recodificações que foram feitas durante nosso distanciamento. O melhor exemplo disso está nas mídias que recortam o real e nos oferecem sínteses do mundo, e assim, vivemos uma vida pela metade onde a fotografia da Amazônia verde parece mais real que o seu próprio desmatamento. Na verdade, só queremos representações de um real manipulado que, transitando entre o hipnótico e o gratificante, nos usurpa o desejo e o reconduz na direção dos interesses da economia libidinal.</p>



<p>Amazônia fica longe e o direito dos povos originários de reivindicar os compromissos constitucionais também soa distante. De fato, estamos muito longe de poder sentir e compreender essa forma de se relacionar com a Terra. E não só isso. O ruído das folhas secas da cidade, o amarelo da grama e o cheiro da queimada não parecem nos afetar diretamente. Esses fatos parecem não estar vinculados ao dia a dia de andar de ônibus, de trabalhar o dia inteiro e depois voltar para casa para descansar do eterno ciclo semanal, mensal, anual dessa roda que gira e gira e que em algum momento nos dá um respiro para deixar que nos sentemos diante do prato de comida que merecemos. O chamam de <em>meritocracia</em>, porém é nada mais do que o outro rosto da alienação.</p>



<p>Se a Amazônia parece estar longe, a cidade também. O asfalto quente do verão – que é o mesmo asfalto esburacado que vemos no inverno – também nos parece um simples pedaço operacional do mundo: um elemento a mais da bricolagem urbana. Fomos disciplinados para viver burocraticamente a cidade: as paredes descoloridas dos edifícios e os telhados marrons formam perspectivas quase descartáveis da nossa trajetória diária. Só nos chama a atenção o que nela se destaca: os textos, as mensagens. Somos capturados pela linguagem dos cartazes (de vez em vez, talvez, por algum rosto amigável), pois em geral, são os letreiros os que nos atraem com a mesma força que um imã atrai o pó de ferro. Almoçamos entre televisores, tomamos cerveja assistindo programas bem conhecidos ou jogos de futebol sempre cativantes. Os cabos desordenados da energia e da telefonia se tornam rabiscos inconvenientes do horizonte, mas não porque interrompem um contínuo perfeito que não requer mais formas do que as nuvens e a chuva, senão porque nos remetem a um problema que já foi resolvido: o mundo sem fio do próximo fone de ouvido. Toda a sinalização da cidade deflagra um hábito enraizado em procedimentos de vida ou morte: sinais verdes ou vermelhos, faixas de pedestres, marcas de estacionamento: <em>mind the gap</em>! Cada passo que damos entre transeuntes se divide entre o avançar destemido ou uma manobra de <em>skatismo</em> humano: há que se decidir rápido entre um desvio eloquente ou um pedido de desculpas por esbarrar com outro corpo que também caminha com a urgência de produzir.</p>



<p>Essa é a nossa selva, nosso território; e, como membros originários, parecemos indefensos perante o avanço da maquinação urbana que nos usa para gerar sua mais-valia. Somos invadidos no nosso íntimo e parece que toda defesa é ilusória: adaptamo-nos rapidamente à norma.</p>



<p>Não temos muito mais poder sobre as ruas, praças e avenidas, pois essas não são mais o lugar de todos dado que todo lugar com seu movimento dentro da cidade se encontra codificado. Todos os comportamentos estão moldados mediante motivos e procedimentos predefinidos. Não temos uma trilha para poder nos perder à vontade. Até os desvios foram impedidos; sequer podemos desejar desvios, atalhos ou demoras, não podemos experimentar solidões nem encontros sob outras premissas que não sejam a de viver de acordo com códigos obrigatórios.</p>



<p>O asfalto é nosso território, porém todo dia é palco de um novo traçado, onde se jogam as sementes de um mesmo axioma: produzir e fazer aos outros produzirem esse mesmo mundo que nos obriga. A alegria é só permitida em migalhas carnavalescas, em pacotes de férias, todos eles adaptados ao tempo e aos negócios do entretenimento. Toda a liberdade do corpo está confinada a esse outro negócio que envolve comer, beber e dançar no limitado tempo do descanso da máquina produtiva.</p>



<p>Claro, não se pode fazer qualquer coisa na cidade, mas entre isso e a forma normativa que impõe a lógica do asceta urbano, há muita distância. Se há uma diretriz ética para nosso território, ela poderia ser a de <em>não limitar a deriva das vidas que a cidade acolhe a título de manter uma única e hegemônica forma de habitar a cidade</em>. Os modos de vida são muitos e todos eles formam a paisagem urbana. A defesa do nosso território consiste em nada mais do que dar garantias para a possibilidade real de poder acolher de todos os modos de vida que nela se expressam. A dinâmica do nosso território exige isso: toda vida vale, todo desejo tem direito a promover seus agenciamentos. A vida que resulta da monocultura do nosso território pode ser nociva para a maioria dos seus habitantes. O que se requer então, é um amplo diálogo, um diálogo com todos os atores, com todas as migrações que conduziram até aqui, com todo os fluxos que vieram se enredar nesse lugar. A identidade da cidade não pode ser um instrumento para garantir a hegemonia de um único modo de existir: ela deve se abrir à dinâmica nômade de todas as vidas e construir assim um fluxo identitário, uma sempre nova forma de afirmar quem somos nós. Não há motivos para que uma forma de existir tenha prioridade perante outra, menos ainda aniquilando as suas expressões. Todas as vidas da cidade são pertinentes para a expressão da sua totalidade.</p>



<p>E perante o sempre possível desejo de não querer que nada mude, para aquele que resiste à expressão das outras vidas, ainda vale a pena perguntar: quem diz que uma muralha cinza tem mais razões de existir que um grafite? Quem diz que um carro tem mais razões para ocupar o asfalto que uma bicicleta? Quem diz que a cidade silenciosa e organizada tem prioridade sobre o barulho e alegria das almas?</p>



<p>Para que ninguém seja surpreendido, saibam que o asfalto, as ruas, as galerias e os parques, são de todos: a cidade é nosso território, nela cultivamos e colhemos nossas existências.</p>



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<p><a href="#_ftnref1">[1]</a> Músico panamenho, candidato à presidência desse país em 1994.</p>



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<p><strong>José Aravena Reyes</strong> é natural de Santiago de Chile. Músico popular e canta-autor na época, veio para o Brasil a cursar pós-graduação em <em>Engenharia Oceânica</em>. <em>Professor Titular</em> da Faculdade de Engenharia desde 2018, fez pós-doutorado em <em>Filosofia da Técnica e da Tecnologia</em> na <em>Pontifícia Universidade Católica do Paraná</em>. Atualmente ministra aulas de <em>Engenharia e Sociedade</em> e <em>Gerenciamento de Projetos</em> na UFJF. Na sua vida pessoal, é discotecário de músicas do mundo. Membro do grupo de <em>Maracatú Estrela na Mata</em>, divide suas pesquisas de Filosofia da Tecnologia com suas outras pesquisas musicais em discos de vinil do mundo que utiliza em suas mixagens e produções autorais de música eletrônica.</p>
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		<title>A INTELIGÊNCIA DA CIDADE SOMOS NÓS</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 02 May 2021 21:30:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 089]]></category>
		<category><![CDATA[Capitalismo e avanços tecnológicos]]></category>
		<category><![CDATA[Cidades automatizadas]]></category>
		<category><![CDATA[Desprezo pelos corpos]]></category>
		<category><![CDATA[eliminação do humano]]></category>
		<category><![CDATA[filosofia da tecnologia]]></category>
		<category><![CDATA[José Aravena Reyes]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  José Aravena Reyes</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Nos dias de hoje, não é difícil evidenciar o quanto a humanidade tem evoluído em função do desenvolvimento da ciência e da tecnologia. Porém, a conotação de <em>evoluído</em> dessa afirmação pode soar polêmica.</p>



<p>O ideário iluminista, que alinhou o progresso à mudança de pensamento operada na revolução copernicana, talvez não tenha imaginado que, a inícios do século XXI, estaríamos lidando com a criação artificial de embriões e à beira de um colapso ambiental planetário. Sob o conceito de <em>Antropoceno</em>, se relacionam (de forma crítica) a dinâmica geológica da Terra e a ação do homem no planeta; hoje, se observa com preocupação o grau de degradação ambiental, social e psíquica provocado pelo chamado progresso &#8211; o qual, por sua vez, foi fortemente condicionado pelo avanço tecnológico. Atualmente, há altos riscos de extinção para todas as vidas no planeta e, para alguns, tal situação não parece representar uma condição melhor ou mais evoluída da nossa espécie.</p>



<p><em>Los muertos que trajo sin ver la ciencia</em><a href="#_ftn1">[1]</a> não foram contabilizados como parte do progresso. E esses não totalizam um reduzido número de seres, resultado das experiências incertas ou mal sucedidas do caminho do desenvolvimento, senão que mascaram os milhares de efeitos que se escondem debaixo do tapete das realizações da sociedade capitalista. De fato, há muitos que pensam que é exatamente o capitalismo que deu as condições para a evolução técnica. Porém, esses orgulhosos defensores do progresso só contabilizam resultados que são medidos com a própria vara do acúmulo. As vidas perdidas e precarizadas pela lógica consumista e predatória não formam parte do modelo de sucesso; ao contrário, se dobra a aposta. Para os liberais, o erro está naqueles que não se incorporaram aos processos produtivos, a operações do capitalismo tais como a especulação financeira e hoje, à economia cognitiva &#8211; essa sutil transformação das mentes em mercadoria: Quem sou eu? O que eu quero? O que eu penso? Com todas essas questões, o capitalismo, hoje, faz negócios e desdenha de quem não faz.</p>



<p>Na literatura especializada, a evolução técnica é descrita por revoluções industriais: primeiro a máquina; depois a fábrica; recentemente a informação; e agora, a vida. No final do percurso evolutivo, o que se quer racionalizar é o modo de vida do homem nos seus alicerces mais profundos: seu corpo e sua mente.</p>



<p>Normalmente entendemos a tecnologia apontando para o exterior do homem, para o outrem: a natureza, o mundo, a cidade etc. Mas estamos muito próximos de uma guinada irreversível: em poucos anos, a tecnologia apontará para dentro de nós mesmos através de uma diversificada e poderosa biotecnologia.</p>



<p>Na fronteira dessa guinada, se encontram vários avanços técnicos que repercutem diretamente naquilo que hoje chamamos de homem. Aparentemente nosso destino é <em>pós-humano</em>, <em>trans-humano</em>; nosso corpo não será mais o mesmo.</p>



<p>Sabemos que o corpo nunca foi sagrado; da penicilina ao marca-passo, sempre profanamos o corpo, sempre fomos objeto de uma <em>antropotécnica</em>. Mas a questão hoje envolve a transformação radical e irreversível daquilo que entendemos por corpo; algo que se aproxima mais do novo <em>Blade Runner</em> que sonha com uma estirpe, uma descendência, uma nova espécie, do que do desgastado <em>cyborg</em> híbrido de máquina e carne. As fronteiras entre o artificial e o natural, a cada dia, ficam menos nítidas, tal como quando pensamos se a rosa que resulta de um enxerto é natural, artificial, híbrida ou quando afirmamos, definitivamente, que essa separação não faz diferença, porque o que interessa da rosa é sua beleza. Parece que o artifício originário que levou ao atual estado de coisas não é o da rosa do enxerto, mas do homem amputado da <em>pacha</em>, nessa separação artificial que nos afastou da natureza, que bifurcou o olhar do homem e do mundo, tornando este último um externo, algo alheio.</p>



<p><em>El error consistió en creer que la tierra era nuestra cuando la verdad de las cosas es que nosotros somos de la Tierra</em><a href="#_ftn2">[2]</a>.&nbsp; Esta frase, tão verdadeira como necessária, é a epistemologia ancestral dos guardiões da floresta e dos xamãs: o homem pertence à Terra. Se o homem se lança em um projeto técnico que pode resultar em uma outra espécie, num outro ser – como anunciam os cientistas do capitalismo: um novo homem, um homem melhorado, que vai viver mais, pensar melhor e ser definitivamente feliz – &nbsp;talvez possamos até acreditar nele, mas será necessário também preparar nossos paraquedas coloridos, porque a Terra <em>Medeia</em> pode a qualquer hora nos lembrar, com suas técnicas (estas sim inclusivas), que todos seus filhos <em>lhe</em> pertencem.</p>



<p>Perante tanta ousadia neste babel contemporâneo, este homem que para alguns vai de um <em>homo-faber</em> a um <em>homo-sapiens</em> e depois a um <em>homo-deus</em>, continua a esconder, debaixo do tapete das novas realizações técnicas, as mortes que decretam ao amparo dos investimentos que vêm sustentar todo o recente negócio das vidas: a morte da morte custa dinheiro; a escolha genética de um corpo ário ou sábio custa dinheiro. Aos poucos, os problemas éticos vão pipocando por tudo quanto é lado &#8211; e os operacionais também.</p>



<p>Sabemos que, antes dos corpos modificados, a guinada capitalista não precisará mais de trabalhadores nas fábricas automatizadas; os empregos serão outros, e se propõe renda mínima para os que se tornem irrelevantes no novo modelo produtivo dos sistemas ciberfísicos. Quanto mais repetitivo o trabalho, menos chance haverá de fazer parte do novo modelo. A nova indústria se auto-define como revolucionária em função da automação e da interconexão global dos dados das fábricas e dos produtos. Estes últimos, portadores de uma espécie de alma técnica, instruirão as fábricas em torno dos seus íntimos sentidos, uma rede de sensores-atuadores que expressarão palavras técnicas na linguagem da inteligência artificial. A observação e o controle humano diminui.</p>



<p>A cidade quer ser declarada inteligente, de modo que tudo nela seja adequado para o funcionamento otimizado da nova infraestrutura. Da coleta do lixo ao sensoriamento coletivo das vias, passando pelo reconhecimento dos rostos e das atitudes, na vida pública e privada, a ideia é auxiliar aos seus impróprios habitantes que, limitados pela própria natureza dos seus limitados corpos, seguirão à risca as recomendações que virão por todos lados. O enorme volume de <em>big data</em> deverá ser filtrado para uso dos corpos obsoletos, e com isso, a realidade pode se transformar em uma experiência de realidade, um recorte, um subconjunto do real mediado pelas bolhas técnicas da virtualidade automatizada.</p>



<p>A própria forma da cidade pode perder sentido, pois a nossa experiência será assessorada por realidades híbridas. Se o que interessa é enriquecer a experiência mediante interfaces de realidade híbrida, aumentada ou virtual, nem a forma nem a experiência em si são relevantes para o homem que quer ser deus. A humanidade será varrida para baixo do tapete para erguer o novo homem &#8211; ou melhor, aquilo que se irá erguer sobre nosso limitado corpo.</p>



<p>O mais próximo que temos, a cidade inteligente, se vislumbra como a cidade de uma inteligência artificial – e de quem a programa – que visa melhorar a vida da cidade e dos seus cidadãos. Parece que o destino técnico quer nos fazer pensar que somos desprovidos de inteligência; porém, isso não é verdade. O que realmente interessa é nos aleijar também da nossa própria inteligência, pois uma vez que sejamos incapazes de inventar as nossas próprias vidas, de produzir nossas próprias escolhas, o capitalismo da cidade inteligente sempre terá um leque de vidas de prateleira para nos oferecer.</p>



<p><strong>Aqui é onde somos chamados a montar a <em>nossa</em> cidade inteligente, porque a cidade da inteligência artificial é incapaz do produzir o novo</strong>. Sob o modelo do cálculo, ela opera na representação, e como tal, sempre chega tarde ao presente, lugar próprio do evento, da criação; sempre aparece depois da intuição inventiva; articula relações que primeiro precisa fixar, congelar, extrair toda vitalidade, para só depois poder torná-las relações que representam a vida da cidade; enquanto a cidade é exatamente o contrário: um emaranhado de relações em tempo presente, acontecimentos, que só ocorrem, passam, e são tão presentes que a sua representação é inviável. Os encontros, os olhares, tudo ocorre no tempo da invenção da vida mesma, e não há artificio que desvende o mistério dos corpos enamorados que se deslocam sob o sol presente e a noite viva. <strong>Criar a vida da cidade é o maior ato de inteligência de nossa cidade. Tudo deve apontar a nós porque <em>a inteligência da cidade somos nós</em></strong>.</p>



<p>Eu, por exemplo, que sou engenheiro, ando tocando músicas do mundo em discos de vinil velhos e novos, criando vínculos sensíveis que são como um presente a ser vivido ao meu encontro. Há toda uma inteligência musical que abre caminhos, há um coletivo de discotecários inaugurados pelo <em>Vinil é Arte</em> que se enreda em acontecimentos renovadores, porque a cada vez que soa uma música, já soa em outro emaranhado sensível, com outros protagonistas, sempre renovado, sempre diferente. Nesse tempo presente é que ocorre a inteligência da cidade. O resto, conta e reconta quem viveu; mas o que aconteceu nesse encontro permanece aí, na invenção em tempo presente da vida.</p>



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<p><a href="#_ftnref1">[1]</a> <em>Chinoy</em>, cantor popular chileno (www.letras.com/chinoy/1766338/)</p>



<p><a href="#_ftnref2">[2]</a> Nicanor Parra, Ecopoemas (www.nicanorparra.uchile.cl/antologia/ecopoemas/ecopoemas.html)</p>



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<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:22% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/8d08b-jose-aravena.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-15522 size-full" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p><strong>José Aravena Reyes</strong> é natural de Santiago de Chile. Músico popular e canta-autor na época, veio para o Brasil a cursar pós-graduação em <em>Engenharia Oceânica</em>. <em>Professor Titular</em> da Faculdade de Engenharia desde 2018, fez pós-doutorado em <em>Filosofia da Técnica e da Tecnologia</em> na <em>Pontifícia Universidade Católica do Paraná</em>. Atualmente ministra aulas de <em>Engenharia e Sociedade</em> e <em>Gerenciamento de Projetos</em> na UFJF. Na sua vida pessoal, é discotecário de músicas do mundo. Membro do grupo de <em>Maracatú Estrela na Mata</em>, divide suas pesquisas de Filosofia da Tecnologia com suas outras pesquisas musicais em discos de vinil do mundo que utiliza em suas mixagens e produções autorais de música eletrônica.</p>
</div></div>



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