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	<title>Arquivos Judith Butler - Revista Trama</title>
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	<description>Arte, Cultura e Criatividade</description>
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		<title>O AVESSO DO LUTO: EXCURSOS PANDÊMICOS</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 14 Mar 2021 21:30:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 082]]></category>
		<category><![CDATA[Covid-19 Trauma Civilizacional]]></category>
		<category><![CDATA[Elizabeth Kübler-Ross]]></category>
		<category><![CDATA[estágios do luto]]></category>
		<category><![CDATA[Judith Butler]]></category>
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		<category><![CDATA[responsabilidade ética]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Micael Correia</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="has-text-align-right"><em>A melancolia é o repúdio ao luto</em><br>&#8211; <em>Judith Butler</em></p>



<p>Há de se refletir sobre a volta que o Brasil deu até chegar (ou retornar) ao marco zero de enfrentamento à pandemia após quase um ano de sua eclosão. Se esquivar da análise do que foi e está sendo o real da pandemia ainda é plenamente justificável quando entendemos que acontecimentos desta dimensão escapam à capacidade de elaboração histórica imediata &#8211; se trata de um <em>trauma </em>civilizacional que só compreenderemos daqui a algum tempo (retroativamente). Do ponto de vista político e social, no entanto, não há recuos possíveis: há uma forçosa <em>urgência </em>quando a câmara de gás a céu aberto chamada Brasil atinge a marca de pouco mais de <strong>uma morte por minuto</strong>, ou mais de <strong>dez mil mortes em uma única semana</strong>. Não acredito que já tenhamos passado por tudo o que poderíamos; a crise de gestão não nos permite dizer o contrário. Mas creio que algo pode ser <em>semi-dito.</em></p>



<p>Podemos falar do <em>luto </em>e da perda como dinâmicas próprias a contextos de morte generalizada como esse, ainda que fatores específicos surjam como supressão dessas experiências que, por definição, são subjetivas e dizem respeito ao laço social que nos funda. Contudo, proponho que façamos um excurso pelo avesso do sentimento de luto, i. e., pensar se a recusa consciente do <strong>luto </strong>também consiste em obedecer a alguns padrões semelhantes, como no caso de uma perda inconsciente (melancolia). Aqui, isso implica pensá-lo criticamente sob sua modalização ideológica, tentando perceber como (e se) certo tipo de consciência nacional frente ao vírus passou por um processo idêntico, sob a hipótese de que a experiência de perda provocada pela pandemia tenha decomposto versões ruins face ao mesmo fenômeno.</p>



<p>Tomemos, pois, o modelo da psiquiatra Elizabeth Kübler-Ross que delineia um processo de cinco estágios da confrontação com a perda (ex. quando recebemos a notícia de uma doença terminal ou da morte de um ente próximo): (1) <em>negação</em> (“isso não pode estar acontecendo comigo”); (2) <em>raiva </em>(“por que isso está acontecendo comigo?”); (3) <em>barganha </em>(“se pelo menos puder ver meu filho casar, não pedirei mais nada”); (4) <em>depressão </em>(“já estou morrendo mesmo, nada posso fazer”); (5) <em>aceitação</em>. O esquema de Kübler-Ross já foi redescrito por outros profissionais e também relativizado em razão de que não é necessária a passagem por todos os estágios nem na mesma sequência; mas usar desse modelo pode auxiliar na visualização de algumas incorrências tácitas do <em>apocalipse</em>.</p>



<p><strong>Negação</strong> ou: <em>“é só uma gripezinha”</em></p>



<p>Esse primeiro momento é extremamente ideológico e mágico, pois o sujeito se recusa a aceitar os fatos. Os esforços em produzir narrativas que obliterassem o sofrimento e a vulnerabilidade dos corpos, bem como a dimensão real (e <em>Real</em>) do vírus, acabou por <em>viralizar </em>toda espécie de xenofobia, desinformação, descaso social e paranoias conspiratórias, onde o próprio status da pandemia era duvidado. Não é à toa que os recursos mítico-religiosos ganharam forte adesão social¹.</p>



<p><strong>Raiva </strong>ou: <em>“e daí?”</em></p>



<p>Quando não é mais possível negar diretamente a realidade, a reação inflama e cede a um sentimento mais aflorado de <em>revolta</em>. Aqui é onde a crueldade se mostrou mais explícita e a mortalidade foi tomada como inerente à salvação do mercado². O <strong><em>gozo </em></strong>com a morte do outro veio à tona revelando o desdém próprio do poder soberano. Fazer morrer e deixar viver &#8211; eis a <em>necropolítica</em>.</p>



<p><strong>Barganha </strong>ou: <em>“tem medo do quê? Enfrenta!”</em></p>



<p>Aqui é quando o sujeito precisa propor algo sob a forma de uma negociação, na tentativa de minimizar o caos e suprir com alguns objetos parciais os buracos que ficam impossíveis de encobrir. Cloroquina e ivermectina foram as marcas da propaganda e do investimento. A negação científica foi estetizada.</p>



<p><strong>Depressão </strong>ou: <em>“eu não consigo fazer nada”</em></p>



<p>A formulação lacaniana de que o afeto depressivo resultaria de uma covardia moral (<em>lâcheté morale</em>) foi anunciado em sua versão cínica: não só a gravidade e as mortes pelo coronavírus foram normalizadas, mas até mesmo as possibilidades de contenção perderam sua tensão necessária. Resta admitir a incompetência e se afundar na mornidão &#8211; que é a mesma coisa que entregar à morte.</p>



<p><strong>Aceitação </strong>ou: <em>“para a mídia, o vírus sou eu”</em></p>



<p>Esse ponto necessitaria um recuo. Geralmente a aceitação faz parte da simbolização da perda ou da retomada de uma atitude que reconstrua nosso campo de possibilidades, o que não parece possível aplicar ao nosso objeto de análise.</p>



<p>Creio, junto com Judith Butler³, que o luto signifique concordar em passar por uma transformação que destitua nosso antigo sistema de afetos. Aceitar o luto é assumir nossa dependência mútua, a responsabilidade ética incondicional que nos constitui. Talvez esse seja nosso desafio imediato.</p>



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<p>REFERÊNCIAS</p>



<p>¹Ver mais em: DOS ANJOS, F. &amp; MOURA, J. L. <em>Contágio Infernal: o apocalipse bolsonarista-evangélico. </em>Editora Recriar (2020).</p>



<p>²Para uma leitura sobre a relação entre o pacto social neoliberal brasileiro e a desumanização, ver SILVA JUNIOR, N. <em>O Brasil da barbárie à desumanização neoliberal: do “Pacto Edípico e pacto social”, de Hélio Pellegrino, ao “E daí?”, de Jair Bolsonaro </em>(2021) In: Neoliberalismo como gestão do sofrimento psíquico (org. SAFATLE; SILVA JUNIOR; DUNKER).</p>



<p>³BUTLER, J. Vida precária: os poderes do luto e da violência (2019).</p>



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<p><strong><strong><strong>Micael Correia&nbsp;</strong></strong></strong>tem 22 anos e é um escritor não-autorizado. Faz graduação em Psicologia e nutre interesse por Psicanálise, Cultura e Religião.</p>
</div></div>



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