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	<title>Arquivos massa - Revista Trama</title>
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	<description>Arte, Cultura e Criatividade</description>
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		<title>Role a pedra, Prometeu</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 14 Jun 2020 21:23:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 049]]></category>
		<category><![CDATA[crônica]]></category>
		<category><![CDATA[domingo]]></category>
		<category><![CDATA[massa]]></category>
		<category><![CDATA[Vinícius Lara]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Vinícius Lara</p>
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<p class="has-drop-cap">Eram duas e quarenta e nove da manhã quando abriu os olhos. Estendeu a mão para o chão, na direção da cabeceira da cama, para alcançar o celular e conferir se alguém tinha ligado ou enviado mensagem. O claro forte da tela no escuro do quarto fez com que apertasse os olhos e, aos poucos, fosse vendo sem que as coisas parecessem embaçadas. Nenhum registro de chamadas, nenhuma mensagem. Como já tivesse acordado, resolveu levantar e beber um pouco de água; cambaleou no breu primeiro entre o quarto e a cozinha e depois de volta. O celular continuava na mão sem um motivo consciente específico, mas sentia que caso o deixasse longe, por pouco tempo que fosse, alguém poderia ligar.</p>



<p>Sentado na cama, olhou a parede em frente, onde havia colocado a televisão alguns meses antes. Naquele momento, a luz difusa do poste que entrava pela janela era amarelada o suficiente para se refletir na tela da TV e captar um simulacro da sua própria imagem. Distorcido, com a cabeça na forma de uma chama de vela, percebeu que o seu duplo fazia movimentos engraçados quando ele se movia. Eram contorções psicodélicas que esticavam seu rosto ou o engordavam, caso olhasse para cima ou para a direita. Ficou assim, brincando com o reflexo por algum tempo, até que a graça se foi. No meio da madrugada, ele se sentia muito solitário.</p>



<p>Deixando o celular ao lado da sua coxa, recostou-se na parede e começou a se lembrar do dia anterior. Aquele tinha sido um dia cansativo. Acordou cedo para ter tempo de se arrumar com calma &#8211; o que não serviu exatamente para isso, já que se atrasou do mesmo jeito. Preparou rapidamente o café bem forte que bebeu sem açúcar, ao mesmo tempo que mastigava duas torradas secas. Morava sozinho, e por isso deixou a mesa por arrumar. Enquanto saía, arrancou uma banana do cacho, descascou e começou a mastigar junto com a chave passada na porta. Eram seis e vinte quando chegou no ponto do ônibus. Deveria estar no trabalho às oito.</p>



<p>Uma quarta-feira agitada, como costumavam ser os dias em uma lanchonete na beirada da rua. Os clientes eram, na sua maioria, insatisfeitos com a vida e especialistas em fazer com que os funcionários soubessem claramente disso. Tinha ficado de pé, no caixa, das oito até às dezoito, tendo duas horas de almoço e mais dois pequenos intervalos no meio da tarde. Era início de mês, e o movimento aumentava sensivelmente naqueles dias que casavam com a data das folhas de pagamentos do funcionalismo público. Talvez tivessem passado por ele, naquela quarta-feira, mais de mil pessoas. A maioria delas era completamente esquecível: estavam imersas demais no clichê da normalidade cotidiana; apressadas, olhavam para o chão, mexiam no celular &#8211; ele não podia fazer o mesmo durante o expediente. Se lembrava, porém,&nbsp; de alguns clientes <em>especiais, </em>dentre eles o &#8220;seu&#8221; Raimundo, um policial militar aposentado que ia todos os dias na lanchonete, de manhã e no final da tarde, para tomar seu café &#8211; que exigia fosse servido em um copo americano. Sempre que chegava, ele mexia com as meninas do balcão e logo acenava com a mão para o caixa, como se fizesse um gesto de alegria estalando o indicador da mão direita sobre o dedo médio e o polegar, seguido do cumprimento “<em>Tudo na paz, meu garoto?</em>”. Quando estava animado, bebia o café e passava horas contando histórias de quando serviu no batalhão de Barra do Piraí, no Rio de Janeiro, onde dirigia a viatura da rádio patrulha. Seu Raimundo era magro e tinha a pele levemente morena, com um bigode que ficou grisalho antes do cabelo. No meio das histórias que contava, repetia fatalmente uma ou outra, e às vezes mudava os desfechos, mas isso importava menos do que contar.&nbsp;</p>



<p>Além daquilo, o dia foi só mais uma edição do clássico <em>role a pedra</em>. Abriu o caixa, registrou as vendas, fechou o caixa, conferiu mercadorias, organizou reposição. O horário de ir embora chegou, e ele terminou ficando ainda mais trinta minutos preso na resolução de um pequeno problema com a máquina de cortar mussarela. Repetindo o trajeto da manhã, foi para o ponto de ônibus tomar nova condução lotada. Chegou em casa eram oito e quinze na noite. Tomou banho, comeu mexido de ovos e presunto, pegou uma edição de Frankenstein, de Mary Shelley (que estava lendo há mais de um mês), e descansou no sofá.</p>



<p>Desde que entrou em casa, o celular permaneceu nas suas mãos. Conferia e reconferia as redes sociais, sem saber exatamente o que procurava. Na verdade, pode ser que soubesse: ele sentia falta de companhia. Tinha namorado algumas vezes, mas nos últimos tempos, &#8211; fosse pela pressão da crise que ameaçava fazer com que perdesse o emprego toda semana ou pela saudade em que mergulhou depois da morte da sua mãe dois anos antes -, o fato é que ficava pesado demais continuar sozinho; mas ele parecia não conseguir fazer qualquer coisa sobre isso. Além do mais, se sentia tímido, introspectivo e sem atrativos para outras pessoa. Quase não saía de casa. Gostava de ler, tinha vontade de um dia se formar em alguma coisa que envolvesse leitura, mas não poderia fazer assim enquanto precisasse trabalhar. Vivia no apartamento que era da mãe, o que o aliviava do aluguel; mas mesmo assim, o dinheiro era contado.</p>



<p>Quase às quatro da manhã, ele repassava não só mais o dia, mas sua vida como um todo. Como acontece a todo rapaz que começa a deixar de ser menino para começar a ser adulto, ele se perguntava o porquê do ônibus, do trabalho, da solidão, do celular. A casa parecia estranha, a cama parecia estranha, ele mesmo não agia como se estivesse normal. Alguém ligaria para ele? Além da irmã que vivia em São Paulo, mais quem tinha o seu número? Não adiantava esperar mais. Tentou se lembrar dos amigos da infância, mas foi em vão; sua memória só resgatou crianças brincando no pátio do colégio estadual. Quando cresceu, foi como se afunilasse a vida: nasceu muitos, cresceu um só.</p>



<p>Essas coisas todas passavam por sua cabeça com rapidez, e ele sentiu medo do que poderia fazer. Teve vontade de se matar e pensou em pular da janela; como vivia no segundo andar, porém, calculou que a queda não levaria à morte, só causaria escândalo. Não costumava tomar remédios, então não os tinha disponíveis. Também descartou a possibilidade de cortar os pulsos, por imaginar que não teria coragem. Na medida em que ia anulando as alternativas de que dispunha para deixar de existir, sua angústia aumentou e ficou tão grande que, encostado na parede como estava, levou as mãos no rosto como a criança que sente vergonha e chorou. Se alguém perguntasse porque exatamente chorava, ele não saberia dizer. Mas alguma coisa se movia com tanta força por debaixo da pele e aquecia seus rins numa mistura de calor e friagem que era como se seu espírito se condensasse na região mais alta da cabeça e chovesse pelos olhos. Fazia barulho, soluçava, se engasgava e, quando parecia que ia parar, era como se um pêndulo voltasse a se movimentar recomeçando o ciclo. Deve ter ficado assim por mais de uma hora, porque quando adormeceu, o dia já estava clareando. Não foi trabalhar na quinta-feira; mandou uma mensagem ao dono da loja e disse que estava com febre. Caso quisesse, poderia descontar o dia.</p>



<p>Acordou ainda melancólico, mas no fundo desse temporal existia um ponta de alegria. A princípio, teve pudor de notar que era assim; mas na medida em que o dia passava, foi perdendo a reserva de si. A vida que levava, o ônibus, o trabalho, as horas-extras, tornar-se nomofóbico, nada disso fazia o menor sentido. Talvez o Seu Raimundo fizesse, mas o resto não. Riu de si mesmo e da existência que repetia, irracional, há anos. Quando pensou assim, riu mais ainda. Até aquela madrugada, sofria porque não sabia qual seria o sentido das coisas. Depois de chorar toda a noite, percebeu que as coisas não tinham sentido algum. Para muitos, isso seria um fim tenebroso; mas para ele, não. Não ter um sentido específico, quer fosse o céu ou a riqueza, o diploma ou filhos, significava transitar por todos eles. Fazer o que se faz por escolha é muito diferente de fazer o que se faz por compulsão.</p>



<p>Na sexta-feira, ele voltou ao trabalho normalmente. Mesma rotina. Prestou mais atenção no Seu Raimundo. Em casa, terminou Mary Shelley e decidiu que faria uma conta no Tinder.</p>



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<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:26% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2020/04/41684-bio-vin-lara.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-8647" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p><strong><strong>Vinícius Lara </strong></strong>é historiador, fotógrafo amador e um apaixonado pelo absurdo.</p>
</div></div>



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<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-flow wp-block-group-is-layout-flow">
<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-large-font-size has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color">Galeria: Artistas pra seguir na quarentena</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.instagram.com/iuryborel/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2020/06/6f36c-angola.png?w=950" alt="" class="wp-image-9947" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-medium-font-size has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color"><em>Apoie os artistas nessa quarentena. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>
</div></div>



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<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/9acee-publi-ediccca7acc83o-impressa-1.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-5668" data-recalc-dims="1" /></figure>





<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.artebodoque.com/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/747d3-publi-bodoque3.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-5017" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color">Clique na imagem para acessar a loja virtual da Bodoque!</p>



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		<title>Fetiche</title>
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		<pubDate>Sun, 31 May 2020 21:23:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 047]]></category>
		<category><![CDATA[crônica]]></category>
		<category><![CDATA[domingo]]></category>
		<category><![CDATA[massa]]></category>
		<category><![CDATA[Vinícius Lara]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Vinícius Lara</p>
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<blockquote class="wp-block-quote has-text-align-right is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p><em>E estava em pé entre mortos e vivos. <br>Números 16:48</em></p></blockquote>



<p>Vistas de cima, as pessoas que caminham pelas ruas de qualquer lugar dão a ideia de hemácias que se movem, em pulsações, espremidas por veias e artérias, dando viscosidade ao sangue. Seres humanos, igualmente, fazem visco no mundo, têm ritmo próprio, são expulsos pela batida dos corações metafóricos e concretos de seus corpos e <em>habitats</em>. Eis a vida. Surge contra expectativas, se distende ao revés da razoabilidade e, quando se consente em ir de si mesma, descarta um corpo inerte. Para lidar com isso, movem-se as coisas e os pensamentos.</p>



<p>As grandes cidades, porém, com milhões de habitantes, não se suportam o tempo todo nesse frenesi de ir e vir. Uma possível alternativa para aliviar a tensão está em diminuir a velocidade. Os bairros servem a essa função; são também cidades, só que menores, mais lentas. Ali se conhece o dono da quitanda ou o frentista do posto. É onde fica mais fácil conversar com a baiana que vende acarajé ou comprar pão, mesmo tendo esquecido alguns centavos e a conta não fechando. Já foi melhor, mas ainda hoje o Grajaú é assim: uma cidadezinha pequena de pessoas minimamente conhecidas dentro da grande e selvagem capital fluminense. Lá, por instantes, as coisas são o que são. Esse mistério da vida banal nunca parece claro o suficiente.</p>



<p>É comum comer fora aos domingos. O vozerio do trânsito diminui a gritaria dos motores de ônibus e carros, camas elásticas são montadas na pracinha, e de tempos em tempos, a feira da Anitcha termina por incentivar que se saia à rua. O almoço é o clímax do meio dia. Depois dele, as pessoas voltam para casa, para o futebol, para um livro que estejam lendo. Às vezes tudo isso tem feições de um ritual.</p>



<p>Numa cantina de massas bem simples, transbordando de famílias que pediam seus pratos a garçons dispostos porém desatentos, entrou Gabriele, sozinha. Muitas mesas. O barulho festivo substitui o barulho da luta. A voz das pessoas contando as mesmas histórias de sempre fala mais alto.</p>



<p>Não é fácil conseguir mesa para um quando o lugar está cheio. O espaço ocupado por uma pessoa, tecnicamente, poderia ser ocupado por duas ou três, talvez quatro, e quantidade significa consumo. Mesmo assim, Gabriele conseguiu uma mesa no fundo do salão, próxima ao banheiro. Escolheu o prato, que o garçom atarracado anotou num picoto de papel com letras que só ele e as pessoas da cozinha entenderiam. Enquanto a comida fosse preparada, e tudo levava a crer que demoraria, pediu uma cerveja forte. Encheu o copo estilo tulipa, onde estava gravada a marca cervejeira, apoiou o ombro contra a parede e, por alguns segundos, fechou os olhos.</p>



<p>O revestimento de madeira modesto dava ao restaurante um ar minimamente requintado, e o papel de parede vermelho com alguns arabescos de cor mais escura faziam destacar os retratos de família do dono do estabelecimento. Na outra ponta, perpendicular ao caixa, estavam alguns quadros com poses de futebol onde se via a seleção brasileira de 1970 em destaque, com a fotografia já amarelada pelo tempo. Em linhas gerais, era um boteco comum, sem exageros, tipicamente familiar. Ser familiar era uma navalha na carne, naquele domingo. Porém, existem motivos obscuros que fazem com que o coração crie dores de estimação. Elas não machucam menos, mas conferem a quem sente uma espécie de elegância estoica, capaz de cavar fossos em torno dos olhos e tracejar a testa com aquilo que é chamado maturidade.</p>



<p>Deu um gole na cerveja e voltou a colocar o copo sobre a mesa de mármore, daquelas antigas. Pegou o celular para conferir algumas mensagens, reabrir conversas mal terminadas pelo whatsapp pela enésima vez e visitar perfis no Instagram. Isso se tornava um procedimento padrão em 2019 para quase todos os que nasceram depois de 1985. Nada excessivo. Feito isso, virou a tela do aparelho para baixo, abriu a bolsa e pegou um pequeno saco de veludo, de onde retirou uma pulseira com pedrinhas escuras e correntes prateadas. O item estava bastante fora de moda, diria-se que alguém tinha usado por muito tempo e depois parou, seja porque perdeu ou porque enjoou. Talvez fosse um presente ou a lembrança do relacionamento findo. Naquele momento, quase não se reparava que Gabriele fazia essas coisas, e quem reparasse não conseguiria entender.</p>



<p>Não colocou a pulseira em si mesma. Chegou a garrafa para a direita na mesa e o copo também. O celular continuou virado para baixo. Em cima do aparelho, ela fez uma espécie de almofada com o saquinho de pano e, sobre ele, arrumou a correntinha como se estivesse no mostruário de uma joalheria. Quando ficou pronto, esboçou um sorriso discreto no canto da boca &#8211; muito belo por sinal. Com a pele clara e os cabelos negros encaracolados, o sorriso foi capaz de fazer luz no rosto de um jeito espontaneamente desarmado, entregue. Aquela fresta, que não chegava a mostrar os dentes de Gabriele, foi um portal que, uma vez trespassado, esvaziava subitamente o lugar, restando apenas ela, o copo, a mesa e a bijouteria.</p>



<p>Apoiou, então, os dois cotovelos na mesa e afundou o queixo sobre eles, enquanto os olhos iam longe. Um dos garçons, que já trabalhava há trinta anos na função, a notou: <em>deve estar apaixonada</em>. A mulher que se levantava para ir ao banheiro e passou pela mesa-universo sacudiu a cabeça com sinal de desaprovação, como se estivesse ressentida pela moça ter sido abandonada e por isso ficar assim, no mundo da lua. <em>Tão jovem, deveria estar aproveitando a vida</em>. Poucos notavam Gabriele, é verdade; mas quando notavam, sentiam pena: um misto de angústia de si com angústia do outro. Não que estivessem eles mesmos plenamente felizes, mas existe uma espécie de solidariedade que une o que é da condição humana, e faz com que notar a dor de outros alivie de alguma maneira a dor de mim. Um enigma fantástico, mais instigante do que aquele sobre o ser humano ser um animal de leis ou não; afinal, nem tudo parece ser fruto das leis.</p>



<p>O prato chegou. Massa de abobrinha com molho pesto. Comum, mas lindo! O microcosmo foi rearranjado, porém sem desfazer o trono sobre o celular. Entre uma garfada e outra, a olhadela na direção do fetiche, discreta, constante. Qualquer coisa naquele cantinho lhe fazia companhia. Comeu rápido, como se come rápido hoje em dia, pediu um café expresso. Nessa altura, já eram quase dezesseis horas, e o restaurante tinha bem menos gente &#8211; e menos barulho também. Aos poucos foi voltando a si, percebeu os restos de comida sobre as mesas que eram retirados pelos funcionários e viu na TV, que agora conseguia escutar, os comentários eletrizados sobre a final da Copa Libertadores. Mais um domingo comum e quente no Rio de Janeiro. Ainda ficou alguns minutos namorando a pulseira, que apertou dentro da mão direita na altura do peito antes de voltar com ela para o veludo.</p>



<p>Desta vez, enquanto afrouxava o cadarço que fechava o embrulho, uma pequena etiqueta despontou. Escrito com caneta azul era possível ler um nome, Marinete. Depois de recolocar a bijuteria no lugar, escondeu a etiqueta. Voltou com o saquinho para bolsa, desvirou o celular e fez o mesmo ritual de conferência das redes sociais. Pediu a conta, pagou com cartão, no débito. Foi ao banheiro e saiu. Quando já estava na rua, o garçom que retirava sua mesa pensou quase sem pensar, nesses desabafos que a mente faz para si mesma quando é confrontada com as coisas da vida. <em>Coitada</em>.</p>



<p>Gabriele esperava seu ônibus para a Tijuca. Estava feliz. Mais um ano passou e ela estava conseguindo vencer, seja lá o que isso significasse. Não era de tantos amigos para poder dividir. Vivia sozinha no Rio de Janeiro depois que a mãe faleceu, mas de tempos em tempos almoçava com ela em pequenas cantinas por aí. A mãe adorava massas, e com certeza deve ter gostado de mais aquele almoço de domingo comum.</p>



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<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:26% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2020/04/41684-bio-vin-lara.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-8647" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p><strong><strong>Vinícius Lara </strong></strong>é historiador, fotógrafo amador e um apaixonado pelo absurdo.</p>
</div></div>



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<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-flow wp-block-group-is-layout-flow">
<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-large-font-size">Galeria: Artistas pra seguir na quarentena</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.instagram.com/iuryborel/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2020/05/3460d-angola.png?w=950" alt="" class="wp-image-9947" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-medium-font-size"><em>Apoie os artistas nessa quarentena. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>
</div></div>



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<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/9acee-publi-ediccca7acc83o-impressa-1.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-5668" data-recalc-dims="1" /></figure>





<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.artebodoque.com/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/747d3-publi-bodoque3.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-5017" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background">Clique na imagem para acessar a loja virtual da Bodoque!</p>



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