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	<title>Arquivos Matheus Queiroz - Revista Trama</title>
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	<description>Arte, Cultura e Criatividade</description>
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		<title>No flagelo, a descoberta do amor</title>
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		<pubDate>Sun, 26 Apr 2020 21:21:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 042]]></category>
		<category><![CDATA[amor]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: Matheus Queiroz</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="has-drop-cap">Sem saber com exatidão se realmente dormiu ou se esteve em meditação para diminuir a ansiedade, pulou da cama em prontidão para, enfim, colocar-se a serviço do Outro. Bastou, no entanto, ouvir três palavras para que os ouvidos esquentassem; e tornou-se Parrásio tão logo se prostrou a movimentar os braços como resposta à breve expressividade de seu interlocutor.&nbsp;</p>



<p>Incorporando o trompe-l&#8217;œil aos movimentos, os braços finos tomaram vida própria e a mobilidade apaixonada dos membros aumentou em três vezes sua espessura, assustando até mesmo o mais corajoso guerreiro. Então, guiados não mais pela racionalidade lógica que a situação exigia, o norte era único, era amor.&nbsp;</p>



<p>Há quinze dias, o isolamento em casal parecia uma boa ideia, pois nos momentos diários de convivência sempre vivera na ilusão do romantismo último. Agora, aquelas palavras&#8230; Haverá futuro com elas? Descortinado o engano, via-se num mordaz romance de Virginia Woolf.</p>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-flow wp-block-group-is-layout-flow">
<p class="has-text-align-right">“<em>a carne tinha se fundido com o mundo.&nbsp;</em></p>



<p class="has-text-align-right"><em>Seu corpo tinha se macerado até restarem apenas as fibras nervosas.&nbsp;</em></p>



<p class="has-text-align-right"><em>Estendia-se como um véu em cima de uma pedra</em>.”</p>
</div></div>



<p>Enquanto a harmonia se mostrava na fachada, o rancor se escondia no interior do convívio. Da reflexão, seguiu o cessar dos movimentos dos braços, que logo voltaram a seu aspecto franzino.</p>



<p>&nbsp;À distância, seus olhos encaravam a aproximação do interlocutor, que desferira curtas ondas sonoras as quais, curiosamente, se materializaram na forma de adagas que pareceram golpear sua consciência, seja lá o que esta for. Com a mente confusa, a sentença lhe vinha à cabeça: “Eu te amo, mas não tenho obrigação!”. Ao que pensou nas três últimas palavras, voltou a se agitar e, tão logo se distanciou, sentiu o rosto acariciado por quem agora renunciava.</p>



<p>“Não tenho obrigação!” &#8211; afastou-se. Ora, só amam aqueles que nada esperam em troca, sempre acreditara nisso. Quando foi que abandonou o romantismo por uma relação mutualística? Quando foi que assassinou o romantismo para dar lugar ao escambo que ambos tanto aproveitaram? Se culpava, pois já não se movia mais pelo idealismo há muito tempo e só agora percebera. Tratou, então, de se afastar do corpo, agora estranho, com o qual coabitava.</p>



<p class="has-text-align-right">“<em>A ternura de um lobo por um cordeiro, eis a imagem exacta do amor que os apaixonados sentem pelo jovem amado</em>”. </p>



<p>É isso! &#8211; sussurrou após se lembrar das palavras de Sócrates ao discípulo Fedro. Com a lembrança, levantou-se em grande intempestividade por entender o óbvio: tudo o que sentiu foi ressignificado aos moldes do capitalismo. Ó Sócrates, após milhares de anos ainda induz o parto do conhecimento.&nbsp;</p>



<p>Enquanto caminhava para outro cômodo para discutir com seus “eus” interiores, manteve-se em quietude, para quando, em real isolamento, liberar o caos que contagiava sua mente. Sentada com as mãos na cabeça, parecia invocar todas as entidades que compuseram e adestraram o que manifestava de si. Com os olhos fechados, conjurava na mente todos os algozes ludibriadores que eliminaram quaisquer chances de um dia sentir o que é o amor.</p>



<p>Já em pé, andando de um lado ao outro, se martirizava por ter confundido tudo. Então, inerte no centro do cômodo, junto à realização de todo o falso amor que sentira, sentou-se um sorriso nos lábios e uma curta gargalhada. Voltando-se para o espelho, ria; contemplava sua própria felicidade e a ironia do isolamento, que revelou a natureza mercantil-simbólica do relacionamento.&nbsp;</p>



<p>&nbsp;Percebeu, em meio ao êxtase, que em seu caso o romance se contrapunha ao amor em sua forma bruta; seu maior prazer não apresentava valor o suficiente para que seu par investisse na empreitada. “Se o amor fosse uma pintura, teria sido obra do grande Parrásio”, pensou, e assim como Zeuxis, decretou a própria derrota. Superada a ilusão, identificou em si o amor bruto &#8211; aquele que age para os quais de quem nada se espera.&nbsp; Com os ânimos à flor da pele, se preparava para amar, quando ouviu três batidas na porta.</p>



<p>“Vamos! Se te faz feliz&#8230;”&nbsp; </p>



<p>Pouco tempo atrás, se renderia. A essa que, aos olhos de seu interlocutor, seria a mais pura expressão de amor. Contudo, não havia mais espaço para expectativas ou para o líquen que se mostrou ser a relação entre o casal. A epifania descaracterizara totalmente o que haviam construído ao longo dos meses que passaram em conjunção; o relacionamento nada mais era que o resultado de um mutualismo afetivo.</p>



<p>Nada havia o que dizer. Encontravam-se ali duas vítimas de um equívoco ao qual foram imputados. Assim, esperava que sua saída repentina transmitisse todas as reflexões que agora já estavam ofuscadas pelo desejo de amar. Com o carro carregado, seguiu sua rota de distribuição das doações aos mais vulneráveis, cuja recompensa única seria o fortalecimento desse sentimento que sempre soube que existira, mas que só agora sente.</p>



<hr class="wp-block-separator" />



<p><strong>Matheus Queiroz</strong> é jornalista, diretor de comunicação da UNALGBT-MG, ativista antifascismo e apaixonado pela disrupção de constructos sociais.</p>



<hr class="wp-block-separator" />



<p style="background-color:#2b2b2b;color:#ffffff" class="has-text-color has-background has-text-align-center has-large-font-size">Galeria: artistas pra seguir na quarentena</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.instagram.com/vianablack/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2020/04/01646-beto4.png?w=950&#038;ssl=1" alt="Esta imagem possuí um atributo alt vazio; O nome do arquivo é 78a01241-c965-4a73-84ff-dae6da365d7c-860x1024.png" class="wp-image-9043" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<p style="background-color:#2b2b2b;color:#ffffff" class="has-text-color has-background has-text-align-center"><em>Apoie artistas nessa quarentena. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>



<hr class="wp-block-separator" />



<figure class="wp-block-image"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2020/04/c41a4-publi-ediccca7acc83o-impressa-1-1024x446-1.png?w=950&#038;ssl=1" alt="Esta imagem possuí um atributo alt vazio; O nome do arquivo é PUBLI-EDIÇÃO-IMPRESSA-1-1024x446.png" data-recalc-dims="1" /></figure>



<p>Versão Impressa &#8211; Edição Conceito</p>



<p>Exemplar impresso da edição conceito da Trama, contendo os 10 textos mais lidos até sua diagramação. Autores selecionados: Ricardo Cristófaro, Dane de Jade, Enrique Coimbra, Gyovana Machado, Frederico Lopes, Caroline Stabenow, Gabriel Garcia, Marcus Cardoso, Kariston França, Paola Frizeiro, Luisa Biondo.</p>



<p>35.00 R$</p>



<figure class="wp-block-image"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/atomic-temporary-162935141.wpcomstaging.com/wp-content/plugins/jetpack/_inc/blocks/images/paypal-button-1e53882e702881f8dfd958c141e65383.png?w=950&#038;ssl=1" alt="Pagar com o PayPal" data-recalc-dims="1" /></figure>



<hr class="wp-block-separator" />



<figure class="wp-block-image"><a href="https://www.artebodoque.com"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/747d3-publi-bodoque3.png?w=950&#038;ssl=1" alt="Esta imagem possuí um atributo alt vazio; O nome do arquivo é PUBLI-BODOQUE3-1024x1024.png" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<p style="background-color:#2b2b2b;color:#ffffff" class="has-text-color has-background has-text-align-center">Clique na imagem para acessar a loja virtual da Bodoque!</p>
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