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	<title>Arquivos Mia Couto - Revista Trama</title>
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	<description>Arte, Cultura e Criatividade</description>
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		<title>SONHANDO ENQUANTO ELES DORMEM</title>
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		<pubDate>Sun, 28 Mar 2021 21:28:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 084]]></category>
		<category><![CDATA[Freud]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Micael Correia</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="has-text-align-right"><em>Nós não somos “sonhadores”.</em><br><em>Somos o despertar de um sonho</em> <br><em>que já se tornou pesadelo.</em><br><br>&#8211; <em>Slavoj Žižek, durante a manifestação</em><br><em>“Ocupem Wall Street” em outubro de 2011.</em></p>



<p>No romance “Terra Sonâmbula”, o escritor moçambicano Mia Couto aborda a consequência devastadora da guerra civil em Moçambique. O romancista narra o estado dos sobreviventes acometidos traumaticamente pela morte de familiares e conhecidos do povoado a partir da metáfora do sonambulismo: aquele povo se encontrava <em>encapsulado</em> numa dimensão <strong>onírica </strong>(sonho), presos a uma espécie de indiferenciação entre estar <em>acordado</em> e estar <em>dormindo</em>, elevando ao grau máximo a solução entre o sonho e a realidade. Tal dimensão de sonambulismo só poderia ter sido aprofundada pela violência insuportável sofrida pelo assalto do passado, o furto do futuro e, consequentemente, da indeterminação do presente, condenando-os à uma experiência de <em>paralisia psíquica</em>.</p>



<p>Lembremos que a teoria da interpretação de sonhos em Sigmund Freud já houvera sido modificada por ocasião da análise de sonhos dos neuróticos de guerra, pois, conquanto a tese inicial de Freud a respeito dos sonhos implicava que eles fossem a realização (alucinatória) dos desejos inconscientes¹, podendo ser “interpretável”, a clínica com os soldados remanescentes da guerra demonstrava que haveria nos sonhos uma repetição das vivências traumáticas &#8211; sendo, portanto, cenas manifestadamente indesejáveis -, relativizando a ideia de que o trabalho de interpretação conduziria à verdade do desejo do sujeito.</p>



<p>Pela primeira vez na teoria freudiana, situada mais especificamente no texto “Além do princípio do prazer”, essa “experiência alucinatória inofensiva” chamada sonho, como dizia Freud, cedia espaço a um outro tipo de qualidade de experiência, uma que remetia a um trabalho de sonho <em>intraduzível</em>, indecifrável, uma falha estrutural na tentativa transmutação do episódio traumático em realização do desejo. Podemos dizer que: se num primeiro momento os sonhos eram tomados como vias régias aos códigos do desejo, nesse segundo momento os sonhos colocavam o sujeito frente à sua angústia, como uma “<em>pulsão aflorante da fixação traumática</em>”².</p>



<p>Não é de hoje a preocupação de pesquisadores com a temática dos sonhos em tempos excessivos como ditaduras e guerras, como também eventos significativos do ponto de vista histórico e social, que inclui o caso da pandemia que estamos vivendo. Desde a pesquisa seminal de Charlotte Beradt sobre os sonhos dos alemães no Terceiro Reich, que mostrava testemunhos sobre a antecipação inconsciente do que viria a ser o estado <em>nazifascista </em>alemão a partir do relato de sonhos, a importância de se registrar o que as pessoas têm sonhado, sobretudo em momentos de crise política e social, confere uma postura outra em relação aos sonhos, dando-lhe a qualidade de uma <em>literatura testemunhal</em>.</p>



<p>O contexto brasileiro de pandemia não nos excluiu dessa tarefa. Paulo Endo, psicanalista e professor universitário (USP) é um desses pesquisadores que têm se interessado por reunir relatos de sonhos no Brasil. Em uma de suas apresentações mais recentes, Endo relata o sonho de uma entrevistada durante o período entre o primeiro e o segundo turno das eleições de 2018, no qual a narrativa de morte, acompanhada pela figura do leiteiro assassinado do poema de Drummond, aparecia escrita com muitos símbolos de cruz (†) entre os espaços das palavras. <em>Mal sabíamos</em> que fotos com milhares de túmulos e a realidade de tantas mortes comporiam o cenário que mais se repetiria durante uma gestão <em>genocida </em>da pandemia. Nesse sentido, podemos falar de um caráter premonitório dos sonhos, para mais além de sua qualidade <em>fixatória</em>.</p>



<p>O risco paralisante dos contextos violentos &#8211; entre os quais o Brasil de 2021 não escapa &#8211; é perene. Pois o objetivo da coação genocida não é simplesmente a neutralização das linguagens da <em>não-liberdade</em>, que nos impediria de enunciar nosso sofrimento e revolta, mas a imposição de um estado de sonambulismo em que permanecemos presos a um sonho, acreditando estarmos acordados. É por isso que, se os sonhos contêm, para além da repetição traumática, uma potência premonitória, é devido ao fato de que ele “esgarça as fronteiras do pensamento até que dali brotem pensamentos inéditos, imagens inéditas e palavras inéditas, fazendo surgir novas nomeações”³. <strong>Não porque prevê o futuro, mas porque aprofunda o presente</strong>. Daí que podemos nos alinhar à postura anti-freudiana de Jacques Lacan. Freud dizia que os sonhos eram os “guardiões do sono”. Em Lacan, essa máxima se subverte: os sonhos, na verdade, fazem despertar. Enquanto alguns querem que durmamos e vivamos num pesadelo, façamos uma inflexão: sonhemos; porém, não para fugirmos, mas sim para despertarmos para o presente &#8211; mesmo que o despertar absoluto signifique a <em>morte</em>.</p>



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<p>REFERÊNCIAS</p>



<p>¹Tese apresentada em <em>A interpretação dos sonhos</em> (FREUD, 1900).</p>



<p>² FREUD, S. (1932-1936) Novas Conferências Introdutórias sobre a Psicanálise e outros trabalhos. Conferência XXIX: <em>Revisão da teoria dos sonhos</em>. In: Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud., v. XXII</p>



<p>³ Paulo Endo em “<em>Aula aberta</em> <em>Sonhar a Democracia com Denise Mamede e Paulo Endo</em>”, disponível no Youtube.</p>



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<p><strong><strong><strong>Micael Correia&nbsp;</strong></strong></strong>tem 22 anos e é um escritor não-autorizado. Faz graduação em Psicologia e nutre interesse por Psicanálise, Cultura e Religião.</p>
</div></div>



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