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	<title>Arquivos Moda Sustentável - Revista Trama</title>
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	<description>Arte, Cultura e Criatividade</description>
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		<title>A ARTE QUE MORA NO SEU GUARDA-ROUPAS</title>
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		<pubDate>Sun, 12 Sep 2021 21:28:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 108]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Beatriz Galil</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Em resumo, não seja escravo da Moda. Seja artista.</p>



<p>Mergulhando na hype do autoconhecimento (uma das estratégias adotadas pelo ser humano para suprir necessidades básicas, como de sentido, significado e expressão), me pergunto <strong>porque ainda temos um olhar para a Moda apenas como um movimento mercadológico</strong> <strong>e não como uma potencial ferramenta de investigação pessoal e autoexpressão.</strong></p>



<p>Nesse mesmo perguntar, <strong>já que vestir é ato cotidiano</strong> (e eu gosto), venho me descobrindo e também <strong>como me manifestar através do vestir sem precisar ser refém das tendências vendidas pelo mercado</strong>, onde eu fico “querendo consumir consciente” ao mesmo tempo que desperdiçando meu dinheiro com uma peça de roupa que até duraria anos, mas “ficou ultrapassada em um mês”.</p>



<p><strong>Suspeito que grande aliada da Moda como futilidade seja o modo automático com o qual nos conectamos no dia a dia e a nossa desconexão e/ou desconhecimento da História</strong> &#8211; de quem, quando, como e porque conceitos da atualidade foram construídos e desenvolvidos. Se observarmos a origem do vestir, chegaremos na pré-história, onde o ser humano inicia a vestimenta instintiva por necessidade de conforto e proteção do clima e das superfícies, bem como da mobilidade. Mais pra frente, com o fim da vida nômade, a evolução da vestimenta chega nos adornos/enfeites por necessidade de significado, onde passamos a usar elementos que simbolizavam sentimentos, poder, e status. E assim é, até hoje.</p>



<p>Trago essa breve contextualização histórica, que mereceria uma matéria apenas para o assunto (onde poderíamos entender que muitos índios não andavam pelados, como é dito por aí), apenas para compreensão de que <strong>a vestimenta existe para suprir necessidades do ser humano. </strong>Conforme fomos evoluindo, nosso leque dessas necessidades básicas foi aumentando: <strong>além de proteção e significado, o vestir foi se tornando estratégia que também supre necessidades, por exemplo, de apreciação, atenção, pertencimento, autenticidade, autoestima, liberdade, e expressão.</strong></p>



<p>Conforme a valorização da vestimenta, as profissões de costureiras, alfaiates e estilistas foram surgindo. Sempre influenciadas, diretamente, pelo período histórico e geográfico (que ditava o tecido e a modelagem apropriada para a época). <strong>Assim, foi se formando o conceito de Moda: um sistema expressivo que integra o simples vestir do dia-a-dia a um contexto maior (social, econômico, cultural e político).</strong></p>



<p>Foi assim, também, que a Moda ganhou espaço no mercado e hoje é a segunda indústria que mais polui o planeta. E é aqui que entra a relevância da História: <strong>nossos movimentos enquanto sociedade vieram transitando de estratégias para suprir necessidades básicas para estratégias que alimentam exageros e acumulações. </strong>Para sustentar esse modelo de vida, cada setor de mercado foi descobrindo sua forma de estimular o consumo inconsciente. Na alimentação, o comer por prazer, somado à infinitas atualizações de sabores e informações nutricionais. No educacional, a todo momento uma promessa bem argumentada sobre uma nova habilidade que vai resolver problemas. Na tecnologia, a obsolescência programada. Na moda, as tendências.</p>



<p>“Aquilo que leva alguém a seguir determinado caminho ou agir de certa forma”. &nbsp;Que estará disponível para o consumo do próximo mês. Um conjunto de roupas e acessórios em determinados modelos, cores e estampas, que estarão sendo vendidos nas ruas e postados no Instagram. <strong>Tendência é um dos aspectos da Moda: aquele que traduz criações de um pequeno grupo (estilistas) para consumo da grande massa (nós, os consumidores).</strong></p>



<p>Falando assim, parece que as tendências são as grandes vilãs da Moda, e não são. Pelo menos, não só. A questão é a velocidade com que estamos consumindo e as referências visuais que permitimos ser construídas e fixadas na nossa mente. <strong>E, portanto, chegamos ao “fast fashion”, que vem para lançar tendências a cada estação do ano, a cada mês e, hoje, a cada semana, garantindo assim a manutenção do consumo.</strong></p>



<p>Esse movimento, sutilmente, foi transformando a relação das pessoas com o vestir: <strong>estimulando constante sentimento de frustração e insegurança ao olhar para o próprio guarda-roupas, ao mesmo tempo que tornando possível e acessível a breve sensação de “empoderamento”, quando compramos “a roupa da moda”. </strong>Em primeiro momento, isso pode até parecer equilibrado, pois o mercado supre as necessidades do ser humano. Porém, necessidades que o sistema mesmo criou, para continuar lucrando. Isso sem contar a anulação da nossa capacidade de autoexpressão, uma vez que as tendências fast fashion entregam, já pronto, aquilo que é bonito e maneiro, construindo a imagem do que é belo para a sociedade e desestimulando nossa criatividade e autonomia.</p>



<p><strong>Resultado disso: a Moda como ferramenta de manobra da sociedade, ou seja, apenas um movimento mercadológico.</strong> Enquanto isso, vamos consumindo inconscientemente e conceituando o “consumo consciente”. Nos descobrindo em terapia e usando da roupa para nos sentirmos pertencentes aos nossos grupos de interesse. Nos manifestando no Instagram e com déficit de expressão autêntica.</p>



<p><strong>Numa busca por melhorar esse cenário, fica a primeira dica: entendimento da História que nos fez chegar até aqui e como isso conecta com o dia a dia de cada um. Simultaneamente, o desenvolvimento, ativo e intencional, da nossa autoexpressão:</strong> manifestação daquilo que é autêntico, genuíno. Independente da forma: fala, gestos, decisões, movimentos, culinária, música, desenhos, vestimenta, e várias outras.</p>



<p>Tal desenvolvimento, sendo particular de cada pessoa<strong>, envolve uma investigação pessoal e o reconhecimento daquilo que foi descoberto.</strong> Por isso, toca em pontos profundos de auto aceitação, auto confiança, competências sociais, e rede de apoio (um ambiente seguro para ser quem se é).</p>



<p><strong>Nesse processo, a Moda pode e deve ser aliada.</strong> Por nos vestirmos todos os dias, temos a oportunidade de materializar conscientemente as mensagens que desejamos comunicar através do nosso corpo, que é um veículo de comunicação verbal e não verbal. <strong>A construção da nossa imagem (que não é estática) é um treino prático da autoexpressão, e a roupa que usamos é um recurso disponível pra isso.</strong> Ao optar por utilizá-la, seguem algumas premissas, dicas e opiniões.</p>



<p><strong>A formação da imagem é a expressão do auto conceito</strong>, e isso se distingue em três espectros: visão real (como eu me percebo), visão ideal (como gostaria de ser percebido), e visão social (como me apresento para o outro). Nos atentarmos a isso pode cuidar de sentimentos não-identificados de insatisfação com quem somos e como pertencemos.</p>



<p><strong>Deixemos as tendências de lado, ou usemos só para dar um agito na criatividade quando necessário</strong> (ou seja, quando já tiver esgotado o saco criativo). Construirmos nossas referências, dos nossos gostos e preferências, e usar como um manual de criação é a libertação da ditadura da moda. Pode ser uma pasta de itens salvos no Instagram ou Pinterest. E, também, pode ser umas fotos ou desenhos muito loucos que a gente curta fazer.</p>



<p><strong>Os desafios do vestir são incontáveis e pessoais</strong>, porém agrupados em: auto conexão e autoconhecimento, oferta de tamanhos das peças, identificação com o estilo, acesso financeiro, criatividade no uso. Vale a pena identificar quais são nossos desafios e criarmos estratégias que cuidem diretamente de cada um.</p>



<p>Os fatores que influenciam o vestir, de praxe, são: clima/temperatura, situação/ocasião, humor/vibe do dia, pessoas ao nosso redor e o que elas vão pensar da nossa roupa. Sabendo disso, escolhemos os que fazem sentido e comecemos por eles ao vestir. Os outros (ou melhor, o último), a gente descarta.</p>



<p><strong>O nosso guarda-roupas já tem toda matéria prima necessária para nossa expressão através do vestir</strong>. Vale a pena fazer uma investigação aí, e conhecer bem as peças que temos. Se elas não nos representam, é hora de começar uma transição. Se elas nos representam e não aguentamos mais olhar pra elas, uma tática muito boa é criar/manifestar/expressar novas formas para o que já existe.</p>



<p><strong>Aumentar o ciclo de vida das nossas peças é coerente com o planeta mas, acima de tudo, é barato, original e autêntico.</strong> Cuidar bem delas, fazer manutenção e pequenos consertos, transformar uma calça em uma jardineira, usar um vestido como saia. <strong>Fazer da Moda uma manifestação artística cotidiana que expressa quem você verdadeiramente é e quer ser.</strong></p>



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<p><strong>Beatriz Galil</strong> é artista independente, em processo de investigar o universo da moda através da costura e da reconstrução de roupas que já existem.</p>
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