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	<title>Arquivos pesquisaacademica - Revista Trama</title>
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	<description>Arte, Cultura e Criatividade</description>
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		<title>Menininha assassina, estuprador brother: a atualização do discurso de que perigosas são as mulheres </title>
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		<pubDate>Sun, 23 Jun 2024 12:38:45 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 006, N 197]]></category>
		<category><![CDATA[Dossiê 1904]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Existem informações que nós, feministas, estamos cansadas de saber. Sabemos que o Brasil ocupa, há muitos anos, a posição de 4º país no mundo com maior número de casamentos infantis (ou seja, homens adultos se casando com meninas). Sabemos que a violência sexual é a forma de violência predominante contra meninas de 10 a 14 … </p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Existem informações que nós, feministas, estamos cansadas de saber. Sabemos que o Brasil ocupa, há muitos anos, a posição de 4º país no mundo com maior número de casamentos infantis (ou seja, homens adultos se casando com meninas). Sabemos que a violência sexual é a forma de violência predominante contra meninas de 10 a 14 anos e que a maioria estrondosa dos violentadores são homens. Sabemos que o Brasil ocupa o 2º lugar no ranking mundial em exploração sexual infantil, que em 2023 registrou-se o maior montante de denúncias deste tipo de violência ocorrendo na internet e sabemos que, novamente, a maioria dos agressores são homens e a maioria das vítimas são meninas. Os números sobre violência sexual e doméstica não são muito melhores quando estamos falando de mulheres adultas. E claro, sabemos que, em uma estrutura capitalista e racista, a subjugação racial e econômica transforma meninas e mulheres pretas e/ou com condições financeiras precárias, em alvos ainda mais fáceis para a predação sexual masculina.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Não digo que estamos cansadas de saber apenas porque a maioria de nós tem esses dados e essas vivências na ponta da língua, mas porque carregar, sozinhas, essa memória coletiva visceralmente entranhada é uma condição de existência exaustiva. O fardo não é suportado só por nós pois tratam-se de estatísticas e fatos escondidos, de algo que apenas nós sabemos. Para a classe masculina hegemônica, independentemente de partido político, essas informações também não são novas, mas significam poder: são o retrato de que a máquina patriarcal segue funcionando a todo vapor.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Se, como Susan Brownmiller colocou, o estupro é um processo social consciente de intimidação onde todos os homens mantém todas as mulheres em um estado de medo, podemos falar o mesmo de uma gravidez indesejada. Isto é especialmente verídico em um país onde 7 a cada 10 mulheres são mães; onde a cada 5 bebês nascidos, 1 foi gestado por uma menina com idade entre 10 e 19 anos; e onde uma menina com idade até 14 anos se torna mãe a cada 20 minutos.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>A guerra contra meninas e mulheres acontece de forma entrelaçada. Existem os atos práticos que limitam as possibilidades de vida, como a não garantia dos direitos reprodutivos, e existe também uma ideologia que se impõem no campo do discurso. Se Foucault falou que não existe saber sem poder, Marx falou que um componente imprescindível da dominação é a promulgação das ideias da classe dominante como se fossem ideias universais, ideias que beneficiam a todos, quando na verdade apenas reforçam o poder dos dominadores. Marx falava de capitalistas, mas as feministas sabem que existem classes para além das econômicas, ou melhor, que as classes sexuais são, também, econômicas. E esta é uma das funções secundárias do PL 1904/2024, que classifica como homicida uma vítima de estupro que aborta após a 22ª semana, com direito a uma pena maior que a destinada aos estupradores. A porcentagem de abortos legais realizados nesse período gestacional é baixa, cerca de 5%, e quem necessita são majoritariamente menininhas com quem toda a estrutura familiar, escolar, de saúde e assistência falhou. Além de todas as consequências concretas, o PL 1904/2024 solidifica, na aliança entre patriarcado e legislação, um intertexto. Que mensagem está sendo passada?&nbsp;</p>



<p>Vejamos, no início deste ano, aqui no país do futebol, o jogador mais reconhecido do Brasil e um dos mais famosos do mundo apoiou financeiramente um provável estuprador, também jogador. Seu brother. Ainda que a mídia tenha feito alguns comentários, motivada pelos protestos das mulheres, não houve grandes repercussões. A carreira deste braço amigo não foi afetada, nem houve perda significativa de adoração do seu público, composto em grande parte por, isso mesmo, você adivinhou, homens! Já uma menina de 10 anos no ES, repetidamente estuprada dentro da família, teve que ser enfiada no porta-malas de um carro para conseguir entrar em um centro de saúde e interromper uma gestação. Uma aglomeração de pessoas do lado de fora gritava “assassina!”. Ainda que ilustrativas, essas situações não são anômalas, não são exceções. Também não se trata de hipocrisia. É dialética, diria Marx.&nbsp;</p>



<p>Já Foucault, que pouco seria sem Marx, conceitua discurso como um conjunto de enunciados regidos pela mesma regra. De um lado, temos a normalidade com que acusados de estupro e seus protetores são tratados. De outro, temos a potencial classificação criminal de assassinato por interromper uma gestação originária de violência masculina. Tratam-se de enunciados regidos pela mesma mensagem: <strong>o perigo reside nas mulheres</strong>. É esse o intertexto que o PL 1904/2024 busca consagrar na legislação, independentemente de qualquer amenização que busque fazer agora com a retranca. Em 2019, o PL 2893 do PSL tentou fazer o mesmo, declarando que a mulher vítima de estupro que opta pelo aborto é mais criminosa que o estuprador pois este lhe poupou a vida. Como são misericordiosos, os homens!&nbsp;</p>



<p>São as mulheres, com seus úteros potencialmente vazios, que são as causadoras de violência. Essas mesmas, que neste país tem, legalmente, menos autonomia corporal que um cadáver. Sim, pois um corpo morto que em vida tenha se recusado a ser doador de órgãos será respeitado, ainda que um único doador possa salvar até 8 pessoas. A periculosidade feminina está inscrita em nossos corpos, enquanto os corpos dos homens são descritos como neutros e, portanto, idôneos. Veja o exemplo de Arthur Lira, presidente da câmara que tentou acelerar o PL 1904/2024. Arthur usou seu corpo para trair a esposa e engravidar a mulher com quem dava suas escapadinhas do sagrado matrimônio. Depois, se recusou a reconhecer a paternidade dessa filha, que possui uma doença e necessita de tratamento especial. Quando questionado, o excelentíssimo exemplar da moral masculina respondeu: “a vida privada de um homem público não interessa”. Já o corpo, tornado público, de meninas e mulheres privadas de uma existência livre de violência interessa, e muito, aos homens. Consciência de classe é algo muito presente em quem está hierarquicamente posicionado acima. Não é à toa que Arthur Lira marca o sujeito da frase: homem.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Então me parece necessário e apenas justo que, na retomada do discurso, nós marquemos também. Eu, já há algum tempo, abandonei expressões que se tornaram higienizadas como, por exemplo, “violência de gênero”. A neutralidade não nos cabe, sabemos a quem ela pertence. Penso, como Heleieth Safiotti, que é necessário marcar o vetor da dominação-exploração. Nomeio então: violência masculina. Aponto para os homens, enquanto classe. E isso envolve apontar também para a esquerda institucional masculinizada, que tem sim tanta responsabilidade quanto os ‘conservadores’. A pauta da legalização da interrupção de gestações indesejadas só segue podendo ser usada como chantagem política porque a própria esquerda não a assume como essencial. O mesmo vale para um combate sério e comprometido contra o estupro e a exploração sexual. Andrea Dworkin, em uma fala brilhante dirigida para uma plateia de homens progressistas, afirmou: “Todas as nossas ações políticas são mentira se não nos comprometemos a abolir a prática do estupro”. Se você nunca leu o manifesto dela pelo fim do estupro, procure o texto. Eu poderia dizer que a atualidade de algo dito décadas atrás é impressionante, mas na verdade é apenas triste.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Ainda que tenhamos diferenças entre nós, que muitas mulheres sejam amaciadas pela esquerda masculina (alou Nísia, alou Cida) ou cooptadas pela direita, eu peço para que lembrem que nossa população não é minoria. E se não há novidade na estratégia de enquadrar mulheres como figuras perigosas e criminosas, talvez o que nos resta seja realmente sermos. Aqui, de novo, trago uma frase em que Marx falava dos detentores do monopólio capitalista, mas podemos pegar para a nossa classe, que em si mesma tem aquilo de mais essencial monopolizado pelos homens: &#8220;Se a conquista se constitui como um direito natural por parte de poucos, então a maioria tem apenas que juntar força suficiente para adquirir o direito natural de reconquistar o que lhes foi tirado&#8221;. Sejamos perigosas então.&nbsp;</p>



<p>&nbsp;</p>



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<p><strong>Ana Maria Bercht</strong></p>



<p>Psicóloga Clínica, Mestra em Psicologia Social e Pesquisadora a nível de Doutorado no PPG de Psicologia da PUCRS, investigando as temáticas de objetificação sexual, saúde mental de mulheres, sexismo e aborto. Já atuou no SUS e no SUAS, bem como em cargos de docência.&nbsp;&nbsp;</p>



<p></p>
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		<title>O que uma evangélica de berço pensa sobre a PL 1904/24?  </title>
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		<pubDate>Sun, 23 Jun 2024 12:21:43 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 006, N 197]]></category>
		<category><![CDATA[Dossiê 1904]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[pesquisaacademica]]></category>
		<category><![CDATA[pl1904]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Nasci em 1996, filha de mãe batista e pai pentecostal. Sou fruto de uma gravidez não planejada, mas de um amor consentido, e logo que minha mãe soube da notícia, fui amada, desejada e celebrada pela minha família e pela minha comunidade de fé. Fui alfabetizada e aprendi a ler arrastada pelo exemplo da minha … </p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Nasci em 1996, filha de mãe batista e pai pentecostal. Sou fruto de uma gravidez não planejada, mas de um amor consentido, e logo que minha mãe soube da notícia, fui amada, desejada e celebrada pela minha família e pela minha comunidade de fé. Fui alfabetizada e aprendi a ler arrastada pelo exemplo da minha avó, paraibana, empregada doméstica que lia a bíblia para mim todos os dias. Aos 8 anos aceitei Jesus publicamente, aos 11 me batizei, e desde então permaneço conduzida e guiada pela Ruah de Deus. Não me vejo em outro lugar que não seja na presença de quem me sustentou até aqui.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Dito isso, o que uma mulher nascida e criada no evangelho pensa sobre um projeto de lei que deseja equiparar o aborto a um homicídio em casos de estupro? Pode uma mulher evangélica não se sentir representada por uma bancada que professa sua fé?&nbsp;&nbsp;</p>



<p>O Projeto de Lei 1904/24, que visa restringir ainda mais o acesso ao aborto legal no país, ignora completamente a realidade brutal e dolorosa de tantas mulheres e crianças que enfrentam a violência sexual diariamente. A violência sexual é uma chaga profunda em nossa sociedade, e, lamentavelmente, também entre nós, evangélicos. Quantas vezes o estupro ocorre em lares cristãos, em famílias que professam a fé em Jesus? Quantas mulheres casadas, solteiras, viúvas, irmãs, filhas e netas sofrem abusos e são silenciadas? Enquanto isso, a pauta da criminalização do aborto é colocada como prioridade, desviando a atenção das verdadeiras questões de violência e abuso que deveriam ser enfrentadas com seriedade e segurança na sociedade civil, incluindo os púlpitos e gabinetes pastorais.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>No mesmo mês que a bancada evangélica se engaja pelo PL 1904, pipocam as denúncias de pastores e líderes assediadores e pedófilos circulando em diversas denominações. Quais são os mecanismos que permitem que homens abusem deliberadamente de nós em ambientes institucionais religiosos? Por que crimes contra a mulher são tratados a nível espiritual e não legislativo, penal e judiciário? O mesmo Deus que justifica o pecador é justo e ouve o clamor das vítimas abandonadas, apagadas e esquecidas. Há de se ouvir o grito audível do corpo das meninas violadas e dar menos holofotes à histeria daqueles que imaginam diálogos de fetos, mas são incapazes de atentar para o pedido de socorro das milhares de mulheres e crianças violentadas a cada 8 minutos no nosso país.&nbsp;</p>



<p>Quem ora pelas mulheres que morrem em clínicas de aborto clandestinas? Quem sente a dor e se compadece do trauma das mães solo que foram violadas inúmeras vezes por seus parceiros? Quem se sensibiliza pelas mulheres que sofrem de estupros maritais, e que não são vistas como vítimas por estarem debaixo da bênção do matrimônio instituído por Deus? Se somos a favor da vida, devemos rever quais vidas estão imbricadas nessa equação. Silenciar o debate não nos fará mais santos ou menos pecadores, até porque a nossa fé pessoal não dita a vida de todos, mas a nossa conivência com esse PL 1904/24 afetará violentamente a vida das maiores vítimas de estupro do Brasil, meninas de 13 anos de idade, que majoritariamente são abusadas por familiares.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>A bancada evangélica fala por quem? Será que ela contempla a oração das crianças que tiveram a sua infância roubada por abusadores? Quando a bancada evangélica se posiciona em defesa da família, ela também compreende os arranjos familiares que esse PL 1904 irá gerar? Estamos falando da perpetuação de vínculos de violência incestuosa, e ainda no contínuo abandono de fetos, que assim que paridos, automaticamente são esquecidos por uma militância fanática que sacraliza a madre, mas abomina os direitos humanos e as políticas assistencialistas que garantem o mínimo de dignidade a essas crianças.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>O Brasil que vemos hoje, com os olhos racionais caminha depressa para um abismo fundamentalista e autoritário, mas aquele que vemos com os olhos da fé, é maior que a teocracia que políticos de extrema direita e fundamentalistas lascivamente cobiçam. Diferente deste pesadelo, sonhamos com dias em que a justiça, a paz e a alegria frutifiquem, em dias que nossos ventres gerem vidas consentidas e desejadas, e que nossas crianças possam brincar sem medo da violação de seus corpos, crescendo em graça, beleza e sabedoria.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>O Brasil que sonhamos não é feito de púlpitos e mercenários da fé, mas dessa miscelânea amorosa, criativa e diversa que nos dá motivos para prosseguir. Não iremos nos abalar com a maldade institucionalizada nas paredes concretas de empresas que se intitulam igrejas. Igreja é gente, e gente é para ter vida em abundância, porque Deus nos criou para isso, e a constituição do Estado laico nos garante também este direito, não somente para nós, mas para cada pessoa, independentemente de sua fé, crença, ideologia, orientação sexual, identidade de gênero, raça e etnia.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>É por esse Brasil que dobramos nossos joelhos e clamamos todos os dias. É esse o Brasil que estamos construindo à revelia daqueles que desejam nos expulsar do corpo de Cristo. Em nome de uma fé que valoriza a vida em sua plenitude, clamamos por justiça e dignidade para todas as mulheres. Não em nosso nome, não ao PL 1904/24.&nbsp;</p>



<p>&nbsp;</p>



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<p><strong>Pâmella Campos</strong></p>



<p>evangélica há mais de 20 anos, historiadora da religião, vice-presidente do O Reino em Pessoa, uma das idealizadoras do Mulheres Profetizando Vida.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Redes sociais: @pamellacampos96  @oreinoempessoa @mulheresprofetizandovida</p>
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		<title>O horror ao Feminino e o PL 1904 </title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 23 Jun 2024 12:15:20 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 006, N 197]]></category>
		<category><![CDATA[Dossiê 1904]]></category>
		<category><![CDATA[arte]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>“[…]o direito à autonomia da mulher esbarra, sem dúvida, no dever constitucional imposto a todos nós de proteger a vida de qualquer um, mesmo um ser humano formado com 22 semanas” José Hiran Gallo, Presidente do CFM (Conselho Federal de Medicina)  O PL 1904, que pretende equiparar abortos realizados após 22 semanas de gestação, mesmo em … </p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<ol start="1">
<li>Breves considerações sobre a natureza e objetivos do PL 1904:&nbsp;<br>&nbsp;</li>
</ol>



<p><em>“[&#8230;]</em><em>o direito à autonomia da mulher esbarra, sem dúvida, no dever constitucional imposto a todos nós de proteger a vida de qualquer um, mesmo um ser humano formado com 22 semanas”</em>&nbsp;<br><em>José Hiran Gallo, Presidente do CFM (Conselho Federal de Medicina)</em>&nbsp;</p>



<p>O PL 1904, que pretende equiparar abortos realizados após 22 semanas de gestação, mesmo em caso de estupro, ao crime de homicídio, é justificado por seus autores e apoiadores como sendo “uma defesa da vida”, o feto, é portanto, uma tela em branco, a vítima perfeita na qual pode-se escrever tudo o que há de belo e puro e na humanidade, humanidade essa, negada à meninas e mulheres que tem sua autonomia cerceada por um projeto que estabelece que o juiz pode mitigar, ou mesmo deixar de aplicar a pena, <em>“se as consequências da infração atingirem o próprio agente de forma tão grave que a sanção penal se torne desnecessária”. </em>A mutilação do corpo feminino, é portanto, a punição desejável.&nbsp;</p>



<ol start="2">
<li>Vagina Dentata e o Monstruoso Feminino&nbsp;<br><em>“</em><em>Feriu-o duas vezes na nuca e decepou-lhe a cabeça. Desprendeu em seguida o cortinado das colunas e rolou por terra o corpo mutilado.”</em>&nbsp;</li>
</ol>



<p><em>Judite 13:10</em>&nbsp;</p>



<p>A teoria freudiana clássica atribui o tabu do corpo feminino ao horror da castração (Chaves, 2013), o menino, ao encarar os órgãos genitais de sua mãe, crê que ela foi castrada, teve seu pênis retirado, ele teme então, que seu pai o castre; o corpo feminino, está associado, portanto, à falta, o homem teme o corpo feminino, porque a ideia de emascular-se, tornar-se como mulher, lhe é aterrorizante. Teóricas feministas há muito contradizem a teoria psicanalítica clássica, procurando compreender o horror ao corpo feminino em outros termos. O mito da Vagina Dentata, presente em diferentes culturas, apresenta o próprio genital feminino como objeto de castração (Creed, 1993), a vagina com dentes que ameaça mutilar o pênis, revela o poder que o corpo feminino detém e o horror que produz, em um dos mitos descritos por Neumann, um peixe carnívoro habita a vagina da Mãe Terrível, o herói é aquele que quebra os dentes da vagina, vencendo assim a Mãe e tornando-a uma mulher (Neumann, 2015). O horror ao corpo feminino, está associado, não à um objeto externo (o Pai) que ameaça castrar o homem, mas à própria genital feminina que possui poder para mutilar o corpo masculino. O horror à mulher não está atrelado à falta, mas precisamente ao excesso, excesso de sangue, excesso de vida, excesso de poder. A vagina, o útero, os seios, tudo aponta para o poder do corpo feminino de gerar a vida, de a nutrir e de a destruir, o homem, ao contemplar o corpo feminino, se depara com um poder misterioso, imprevisível e ingovernável (Kristeva, 1982)&nbsp;</p>



<ol start="3">
<li>Cabeça/Corpo &#8211; Forma/Matéria&nbsp;&nbsp;</li>
</ol>



<p><em>“Mas quero que saibais que Cristo é a cabeça de todo o homem, e o homem a cabeça da mulher; e Deus a cabeça de Cristo.”</em>&nbsp;</p>



<p><em>1 Coríntios 11:3</em>&nbsp;</p>



<p>Com a revolução científica a mulher emerge do aristotelismo medieval, a descoberta do processo ovulatório põe fim à teoria de que o homem é a única potência ativa na geração da vida. A ciência médica, no entanto, inseparável aliada do colonialismo (Fanon, 1994; Peiretti-Courtis, 2021) dá continuidade à antiga associação entre o masculino e a forma, o feminino e a matéria, para Carolyn Merchant (1980) “A natureza indisciplinada estava simbolicamente associada ao lado sombrio da mulher [&#8230;] como a natureza caótica e selvagem, a mulheres precisavam ser dominadas e mantidas em seu lugares” O horror ao corpo feminino e o temor diante da natureza desorganizada traduzem-se em dispositivos de controle e subjugação. A matéria informe e irracional do corpo feminino deve ser controlada pelo poder formativo da mente masculina (Beattie, 2013), o corpo e os poderes reprodutivos e gestacionais da mulher devem ser controlados pelo estado, pela igreja e pela classe médica. O corpo deve estar sujeito à cabeça, sob pena de ser mutilado, torturado, preso ou morto.&nbsp;&nbsp;</p>



<ol start="4">
<li>Direitos reprodutivos e defesa da vida&nbsp;<br><em>“a Igreja Católica neste momento considera importante a aprovação do PL 1904/2024, mas continua no aguardo da tramitação de outros projetos de lei que garantam todos os direitos do nascituro” </em>&nbsp;<br><em>Nota da CNBB (Conferência Nacional de Bispos do Brasil) sobre o PL 1904/2024</em>&nbsp;</li>
</ol>



<p>O flagrante sadismo do PL 1904, que segundo seu autor, propõe medidas socioeducativas para meninas, menores de idade, abusadas sexualmente, demonstra que o ataque aos já escassos direitos reprodutivos no Brasil precede ataques ainda mais flagrantes, à mulheres e à infância, foi reaberto recentemente, na CCJ (Comissão de Consitutição, Justiça e Cidadania) o projeto de lei que propõe a legalização do trabalho infantil. As tendências reacionárias seguem reproduzindo o que já acontece no EUA, onde mulheres estão sendo presas por abortos naturais e o direito à métodos contraceptivos está sendo contestado. O apoio da Igreja Católica, que considera o aborto como pecado grave em qualquer situação (inclusive em casos de estupro e risco de vida da mãe) e o “estatuto do nascituro” que também tramita na câmara, demonstram que os ataques à dignidade de meninas e mulheres não cessarão, é preciso, portanto, não recuar diante da ofensiva reacionária, antes, obstruir os projetos da extrema-direita e reinvidicar o corpo feminino e fortalecer as legislações que versam sobre os direitos reprodutivos. Essa é a ampla defesa da vida: da vida de meninas, mulheres e de pessoas que gestam.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Referências::&nbsp;</p>



<p>PODER360.<strong> Autonomia da mulher não deve prevalecer em casos de aborto, diz CFM. </strong>Disponível em: &lt;<a href="https://www.poder360.com.br/poder-congresso/congresso/autonomia-da-mulher-nao-deve-prevalecer-em-casos-de-aborto-diz-cfm/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">https://www.poder360.com.br/poder-congresso/congresso/autonomia-da-mulher-nao-deve-prevalecer-em-casos-de-aborto-diz-cfm/</a>&gt; Acesso em: 21 jun. 2024.&nbsp;</p>



<p>CHAVES, Ernani. <strong>A Cabeça de Medusa</strong>. Clínica &amp; Cultura v.II, n.II, jul-dez 2013, 91-93.&nbsp;</p>



<p>CREED, Barbara. <strong>The Monstrous-Feminine</strong>. [s.l.] Routledge, 1993.&nbsp;</p>



<p>NEUMANN, Eric. <strong>The Great Mother: an analysis of the archetype</strong>. Princeton, New Jersey: Princeton University Press, 2015.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>KRISTEVA, Julia. <strong>Powers of Horror: an Essay on Abjection</strong>. Tradução Leon Roudiez. [s.l.] Columbia University Press; Reprint edition, 1982.&nbsp;</p>



<p>FRANTZ Fanon. <strong>A dying colonialism. </strong>Tradução: Haakon Chevalier. [s.l.] Grove Press, 1994.&nbsp;</p>



<p>‌PEIRETTI-COURTIS, Delphine. <strong>Corps noirs et médecins blancs</strong>. [s.l.] La Découverte, 2021.&nbsp;</p>



<p>MERCHANT, Carolyn. <strong>The death of nature: women, ecology, and the Scientific Revolution.</strong> San Francisco: Harper and Row. 1980&nbsp;</p>



<p>BEATTIE, Tina. <strong>Theology after postmodernity : divining the void&#8211;a Lacanian reading of Thomas Aquinas.</strong> [s.l.] Oxford University Press, 2013.&nbsp;</p>



<p><strong>“Permitamos viver a mulher e o bebê”: CNBB considera importante a aprovação do PL 1904/2024</strong> &#8211; CNBB. Disponível em: &lt;<a href="https://www.cnbb.org.br/nota-cnbb-pl-1904-2024-debate-aborto/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">https://www.cnbb.org.br/nota-cnbb-pl-1904-2024-debate-aborto/</a>&gt;&nbsp; Acesso em: 21 jun. 2024.&nbsp;</p>



<p><strong>Black woman charged after miscarrying in bathroom shares feelings about arrest.</strong> Disponível em: &lt;<a href="https://www.nbcnews.com/news/nbcblk/brittany-watts-miscarriage-bathroom-charged-rcna135861" target="_blank" rel="noreferrer noopener">https://www.nbcnews.com/news/nbcblk/brittany-watts-miscarriage-bathroom-charged-rcna135861</a>&gt;&nbsp;</p>



<p><strong>Debate sobre proposta que reduz a 14 idade mínima para que adolescente possa trabalhar volta à CCJ da Câmara; entenda.</strong> Disponível em: &lt;<a href="https://g1.globo.com/politica/noticia/2024/06/18/debate-sobre-proposta-que-reduz-a-14-idade-minima-para-que-adolescente-possa-trabalhar-volta-a-ccj-da-camara-entenda.ghtml" target="_blank" rel="noreferrer noopener">https://g1.globo.com/politica/noticia/2024/06/18/debate-sobre-proposta-que-reduz-a-14-idade-minima-para-que-adolescente-possa-trabalhar-volta-a-ccj-da-camara-entenda.ghtml</a>&gt;&nbsp; Acesso em: 21 jun. 2024.&nbsp;</p>



<p>“<strong>Se não quiserem votar esse, votamos o Estatuto do Nascituro”, diz autor de PL Antiaborto por Estupro.</strong> Disponível em: &lt;<a href="https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2024/06/autor-do-pl-antiaborto-por-estupro-diz-que-proposta-vai-a-voto-mas-parlamentares-recuam-apos-pressao.shtml" target="_blank" rel="noreferrer noopener">https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2024/06/autor-do-pl-antiaborto-por-estupro-diz-que-proposta-vai-a-voto-mas-parlamentares-recuam-apos-pressao.shtml</a>&gt; Acesso em: 21 jun. 2024.&nbsp;</p>



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<p><strong>Bru Dutra </strong>tem 19 anos e formação técnica em segurança do trabalho. Seus interesses incluem teologia católica, teoria queer e feminismo.&nbsp;</p>
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		<title>A PL 1904/2024 e as novas direitas: o caso da nova resistência </title>
		<link>https://revistatrama.artebodoque.com/2024/06/23/a-pl-1904-2024-e-as-novas-direitas-o-caso-da-nova-resistencia/</link>
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		<pubDate>Sun, 23 Jun 2024 12:13:34 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 006, N 197]]></category>
		<category><![CDATA[Dossiê 1904]]></category>
		<category><![CDATA[pesquisaacademica]]></category>
		<category><![CDATA[pl1904]]></category>
		<category><![CDATA[pldoaborto]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Nos últimos dias presenciamos nas redes sociais e na mídia tradicional uma intensa movimentação de grupos de diferentes espectros ideológicos a respeito do Congresso Nacional ter aprovado, no dia 12 de Junho, – de modo curiosamente instantâneo em uma votação que durou segundos – a tramitação em regime de urgência do Projeto de Lei 1904/2024. … </p>
<p class="link-more"><a href="https://revistatrama.artebodoque.com/2024/06/23/a-pl-1904-2024-e-as-novas-direitas-o-caso-da-nova-resistencia/" class="more-link">Leia mais<span class="screen-reader-text"> "A PL 1904/2024 e as novas direitas: o caso da nova resistência "</span></a></p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Nos últimos dias presenciamos nas redes sociais e na mídia tradicional uma intensa movimentação de grupos de diferentes espectros ideológicos a respeito do Congresso Nacional ter aprovado, no dia 12 de Junho, &#8211; de modo curiosamente instantâneo em uma votação que durou segundos &#8211; a tramitação em regime de urgência do Projeto de Lei 1904/2024. O PL tem como autor o deputado Sóstenes Cavalcante (PL-RJ) e possui como objetivo punir mulheres e meninas &#8211; e demais pessoas que gestam &#8211; que fizerem o procedimento de aborto após as 22 semanas de gestação. A pena seria a reclusão entre 6 a 20 anos, incluindo casos de estupro &#8211; pena essa maior que de seus estupradores. Vale ressaltar que o Decreto-Lei 2.848 de 1940 já delimitava os casos nos quais o aborto seria permitido no Brasil e os casos de estupro, bem como risco de vida à gestante, estavam inseridos. No ano de 2012, o Supremo Tribunal Federal (STF) ampliou outros casos para a interrupção &#8211; como por exemplo, de fetos anencefálicos.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Após os quatro anos de governo Bolsonaro e da naturalização dos discursos da direita, especialmente da Nova Direita &#8211; pró mercado financeiro e adepta de um conservadorismo extremo -, podemos observar que mesmo com a eleição de 2022 e a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) o modus operandi fascista de ataques via redes sociais se intensificou, assim como também de articulação por meio do Congresso Nacional colocando em pauta políticas públicas contrárias aos direitos humanos. Não houve recuo na atuação da extrema direita e nem derrota na prática, pois continuam pautando os debates públicos. Além disso, podemos observar o mesmo quando se trata dos novos tipos de direita que surgiram no Brasil pós crise de 2008 e ascensão do anti-petismo.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;</p>



<p>O movimento abordado aqui será a Nova Resistência que surgiu em um período de efervescência da crise política no Brasil em meados de 2014/2015 no Rio de Janeiro e possui sua origem nos primórdios das redes &#8211; o Orkut &#8211; onde reuniam jovens que já conheciam a figura de Olavo de Carvalho, porém não concordavam com o “super herói” da direita bolsonarista. As coisas ganham forma a partir dos Encontros Evolianos, tendo seu primeiro no ano de 2012. Nesse encontro se reuniam pesquisadores e acadêmicos, bem como simpatizantes das ideias do autor tradicionalista Julius Evola. Muitos ali tiveram suas ligações e participações com o que eles chamam de terceira posição &#8211; um nome mais discreto para Fascismo/Nazismo. O que viria a ser a NR foi fruto de um racha de seguidores no Brasil do filósofo russo Alexander Dugin &#8211; fundador do Partido Nacional Bolchevique e principal ideólogo do Neoeurasianismo.&nbsp;</p>



<p>O que defendem é a Quarta Teoria Política ou Quarta Posição desenvolvida por Dugin. O filósofo parte do princípio que é necessário negar todos os aspectos da modernidade Ocidental e manter aquilo que há de mais tradicional em movimentos que tentaram enfrentá-la, como o Fascismo e o Marxismo. Porém em seus escritos é possível identificar um apelo muito maior ao Fascismo, dado o seu passado em grupos fascistas da Rússia. Essa teoria propõe combater o neoliberalismo através das teorias do conservadorismo do início do século XX &#8211; utilizando autores como Heidegger, Oswald Spengler, Carl Schmitt e outros que apoiaram o nazifascismo. Ao mesmo tempo em que busca em autores que criticam o capitalismo &#8211; como os marxistas &#8211; base para se contrapor ao imperialismo, individualismo e a exploração.&nbsp;</p>



<p>Como adeptos de um Fascismo supostamente repaginado, rejeitam o progressismo ou qualquer projeto que tenha como objetivo romper com as hierarquias consideradas “naturais” &#8211; como o patriarcado. Portanto, acredita que a resposta para o combate às mazelas da pós-modernidade em que vivemos é o retorno às tradições pré-modernas. A geopolítica também é uma parte importante de toda essa “salada teórica”, pois compreendem que o Ocidente e seu expansionismo &#8211; bem como sua “degradação moral”, utilizando termos como “agenda woke”&nbsp; &#8211; é algo que precisa ser contido. Enxergam os Estados Unidos como a nação que representa tal agenda e por isso adotam o discurso anti imperialista. Por outro lado, a Rússia (país de origem de Dugin) e o sul global seriam os protagonistas da defesa da tradição e dos costumes originários. Assim, acreditando que há não apenas uma guerra entre nações, mas entre culturas.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Ao contrário do escritor pseudo filósofo da Virgínia, que acreditava que as elites globalistas defendem um projeto socialista patrocinando o que seria o “marxismo cultural” e um status quo esquerdista, a NR foca sua crítica ao liberalismo e a modernidade defendidos pelo Iluminismo. Tratam a separação do Estado e da religião como declínio e o que levou a uma perda da tradição, da cultura, da ancestralidade e da coletividade. Para se diferenciarem da nova direita bolsonarista e olavista alegam que há uma direita contaminada pelo liberalismo com um discurso pró mercado e individualista, na qual não é alinhada com o que defendem para o país.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>O caso da Nova Resistência merece uma atenção &#8211; e análise cuidadosa &#8211; tanto quanto o bolsonarismo, pois utilizam um verniz de defesa da soberania nacional e do anti-capitalismo para tornar seu projeto atraente. Ou seja, é possível identificar que seus discursos são convidativos àqueles que já são inclinados à esquerda mais nacionalista ou mesmo os defensores do trabalhismo. Além deles, uma parte da esquerda radical também acaba por convergir com esse verniz do movimento, mais especificamente os que são resistentes a tratar as questões de gênero e raça como prioritárias alegando que a classe seria supostamente uma categoria acima das demais. Do mesmo modo, a NR coloca-se à disposição daqueles que já possuem uma tendência conservadora, porém não são contemplados pelo bolsonarismo ou a direita “Faria Lima” com seus discursos pró mercado. Ainda não há uma linha historiográfica que analise essa fração específica das novas direitas, pois o bolsonarismo tem sido objeto de maior foco dado às consequências dos últimos anos em nosso país. Porém é importante combatermos o neofascismo em suas mais diferentes formas.&nbsp;</p>



<p>&nbsp;Em relação ao PL 1904, foi publicado no canal oficial da Nova Resistência no Youtube com o título <em>PL1904: retrocesso ou avanço? | Observatório Legislativo #1 </em>(<strong>https://www.youtube.com/watch?v=nSiuWcT4aHY)</strong>, o que seria um tipo de posicionamento oficial do movimento- especialmente de sua célula em Santa Catarina. O membro que gravou o vídeo reforça que a Nova Resistência sempre se posicionou contra o aborto e esclarece que estarão apoiando deputados e bancadas que estiverem propondo formas de não permitir a naturalização da realização do procedimento, sendo assim, são a favor do PL. Porém faz questão de trazer o assunto sob um olhar geopolítico delimitando que a NR e o projeto político que parlamentares que fazem parte da bancada de Sóstenes Cavalcante (PL-RJ) estão diretamente ligados ao sionismo, pois essa fração possui uma posição pró Israel. Sendo assim, apoiam o projeto de lei e não o partido que o encabeça.&nbsp;&nbsp; é válido sublinhar que a NR possui membros mulheres que usam suas redes sociais e colunas para escreverem sobre questões relacionadas à família, gênero, religião e geopolítica &#8211; como Catarina Leiroz.. Há também um setor feminino denominado <em>Mátria</em>, cujo símbolo é uma mulher de cabelos negros compridos ao centro e o símbolo do Movimento Neoeurasiano &#8211; uma estrela com oito flechas.&nbsp;</p>



<p>Podemos identificar que nas pautas consideradas morais &#8211; como aborto, gênero, raça e progressismo &#8211; o grupo está em concordancia com a nova direita vinculada às ideias de Olavo de Carvalho e o bolsonarismo. Raphael Machado, líder do grupo, em suas redes utilizou um argumento parecido com aqueles que eles denominam de “hipócritas” por apoiarem Israel&nbsp;</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-full"><img loading="lazy" decoding="async" width="337" height="313" src="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2024/06/image.png?resize=337%2C313&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-36426" srcset="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2024/06/image.png?w=337&amp;ssl=1 337w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2024/06/image.png?resize=300%2C279&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2024/06/image.png?resize=205%2C190&amp;ssl=1 205w" sizes="(max-width: 337px) 100vw, 337px" data-recalc-dims="1" /></figure></div>


<figure class="wp-block-embed is-type-rich is-provider-twitter wp-block-embed-twitter"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<blockquote class="twitter-tweet" data-width="550" data-dnt="true"><p lang="pt" dir="ltr">Pelo menos admitem que é bebê, o que significa que não se trata de aborto, mas de assassinato. De resto, a negativa é por autonomia médica, o procedimento necessário para assassinato de bebês em estágio avançado de desenvolvimento no útero é arriscado. <a href="https://t.co/z8bb1eerQF">https://t.co/z8bb1eerQF</a></p>&mdash; Raphael Machado (@camaradamachado) <a href="https://twitter.com/camaradamachado/status/1795185507187482738?ref_src=twsrc%5Etfw">May 27, 2024</a></blockquote><script async src="https://platform.twitter.com/widgets.js" charset="utf-8"></script>
</div></figure>



<p>Esse tipo de postura vai de encontro com as ideias e crenças defendidas pelo grupo, pois a mulher, para os seguidores de Dugin no Brasil, deve ser modesta e seguidora dos valores tradicionais &#8211; algo que com certeza já ouvimos de qualquer bolsonarista médio &#8211; porém a tradição sem as influências do ocidente decadente.&nbsp;&nbsp;</p>



<figure class="wp-block-image size-full"><img loading="lazy" decoding="async" width="344" height="178" src="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2024/06/image-1.png?resize=344%2C178&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-36427" srcset="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2024/06/image-1.png?w=344&amp;ssl=1 344w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2024/06/image-1.png?resize=300%2C155&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2024/06/image-1.png?resize=205%2C106&amp;ssl=1 205w" sizes="(max-width: 344px) 100vw, 344px" data-recalc-dims="1" /></figure>



<figure class="wp-block-embed is-type-rich is-provider-twitter wp-block-embed-twitter"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<blockquote class="twitter-tweet" data-width="550" data-dnt="true"><p lang="pt" dir="ltr">&quot;No Ocidente uma mulher deve se expor aos homens p/ poder ser fonte de prazer p/ eles! Haveria uma forma + grave de opressão? Eles dizem q isso é &#39;liberdade&#39;, e o oposto disso chamam de &#39;escravidão&#39;! Qnd ao contrário é a modéstia feminina q lhes concede respeito&quot;- Ali Khamenei <a href="https://t.co/jmtlBFBk8y">pic.twitter.com/jmtlBFBk8y</a></p>&mdash; Raphael Machado (@camaradamachado) <a href="https://twitter.com/camaradamachado/status/1610938958002757632?ref_src=twsrc%5Etfw">January 5, 2023</a></blockquote><script async src="https://platform.twitter.com/widgets.js" charset="utf-8"></script>
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<p>Em uma postagem sobre o Dia Internacional da Mulher no site oficial da Nova Resistência chama a atenção a forma na qual o papel das mulheres é delimitado no projeto defendido pelo grupo<strong> (</strong><strong>https://novaresistencia.org/2017/03/08/dia-internacional-da-mulher/)</strong>&nbsp;</p>



<figure class="wp-block-image size-full"><img loading="lazy" decoding="async" width="624" height="327" src="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2024/06/image-2.png?resize=624%2C327&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-36428" srcset="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2024/06/image-2.png?w=624&amp;ssl=1 624w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2024/06/image-2.png?resize=300%2C157&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2024/06/image-2.png?resize=205%2C107&amp;ssl=1 205w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2024/06/image-2.png?resize=480%2C252&amp;ssl=1 480w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2024/06/image-2.png?resize=600%2C314&amp;ssl=1 600w" sizes="(max-width: 624px) 100vw, 624px" data-recalc-dims="1" /></figure>



<p>As críticas são direcionadas tanto à direita que se propõe a diminuir a mulher em relação ao homem &#8211; algo que podemos encontrar no discurso de pastores e até deputados &#8211; , mas também à ideia de liberdade sexual feminina, algo que a todo custo tentam atrelar ao Ocidente ou ao capitalismo. Ao tentar naturalizar o lar, as funções que o patriarcado desenhou para nós &#8211; um patriarcado que, ao contrário do que a NR afirma, é aliado do capital &#8211; há uma reprodução de uma lógica que já conhecemos, porém sob as vestes da tradição e do discurso da antimodernidade. Portanto, quando os duguinistas se esforçam para se diferenciar da extrema direita bolsonaristas &#8211; invocando os conceitos “liberalismo x tradição” ou “Ocidente x Oriente” &#8211; não rompe com pré-determinismo acerca dos papéis de gênero. Por mais que delimitem que os defensores do PL não sejam os verdadeiros conservadores, não pensam duas vezes em se alinharem a eles em prol do controle dos corpos de pessoas que gestam.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Quando tratam o feminismo como caricatura da mulher com axilas peludas ou o cabelo colorido não rompem com os trumpistas ou bolsonaristas, menos ainda com aquilo que chamam de sistema. Em seu discurso há um caráter autoritário, pois enxerga o corpo à serviço da Pátria, revelando que suas bases não são apenas conservadoras, mas de influência fascista. O trabalhador ou pobre invocado em suas publicações não é rigorosamente definido e possui o objetivo de tentar apelar para um senso de coletividade que claramente é uma idealização &#8211; um pobre supostamente ignorante ou rústico, e naturalmente conservador.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Por fim, não é uma novidade que diferentes espectros da nova direita se unam à favor do projeto de lei 1904, pois mulheres e diversas minorias são os grupos que são diretamente afetados em momentos de tensões políticas. Seus direitos são utilizados como barganha para pressionar o Estado brasileiro a naturalizar um lugar de pária &#8211; assim como esses grupos naturalizam as desigualdades e opressões utilizando um argumento econômico, filosófico ou religioso. O que chama a atenção é como projetos políticos com bases teóricas que apontam para direções diferentes como da Nova Resistência e dos deputados bolsonaristas convergem quando o tema é mulher, gênero ou raça. É fundamental que essas convergências sejam melhor elucidadas,e como podemos notar, o ultra conservadorismo é o que os une.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>O projeto do Brasil desses grupos é intolerante e reativo aos que não se comportam e não agem de acordo com aquilo que impõem como ideal de brasileiro, de homem ou mulher. Sendo assim, é importante para aqueles que estão dispostos a lutar por um mundo mais igualitário e radicalmente livre de opressões de todo tipo estarem atentos aos projetos e ideias que surgiram a partir do neofascismo cultivado pelas crises políticas e econômicas dos últimos anos. Seus objetivos são diferentes, mas os alvos já conhecemos: mulheres, negros LGBTSQIA+ e todos aqueles que o colonialismo colocou um alvo desde seu surgimento.&nbsp;</p>



<p><strong>REFERÊNCIAS&nbsp;</strong>&nbsp;</p>



<p><strong>DUGIN,Aleksandr. A Quarta Teoria Política. 2012</strong>&nbsp;</p>



<p><strong>NETO, Odilon Caldeira. O NEOFASCISMO NO BRASIL, DO LOCAL AO&nbsp;&nbsp; GLOBAL?. Esboços, Florianópolis, v. 29, n. 52, p.599-619, set./dez., 2022.</strong>&nbsp;</p>



<p><strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; SEDGWICK,Mark. Contra o mundo moderno:o Tradicionalismo e a história</strong>&nbsp;</p>



<p><strong>secreta do século XX. Tradução:Diogo Rosas. Editora Âyiné. Coleção Trotz der.</strong>&nbsp;</p>



<p><strong>2021</strong>&nbsp;</p>



<p><strong>TEITELBAUM,BENJAMIN R. Guerra Pela Eternidade: o retorno do</strong>&nbsp;</p>



<p><strong>tradicionalismo e a ascensão da direita populista; tradução:Cynthia Costa–</strong>&nbsp;</p>



<p><strong>Campinas, SP:Editora Unicamp, 2020</strong>&nbsp;</p>



<p><strong>VASCONCELOS, Thiago Francisco Rocha. A dissidência tradicionalista: a reinvenção da extrema direita brasileira como aliança vermelho &#8211; marrom. Almanaque de Ciência Política, Vitória, vol.7, n.2, pp. 01-29, 2023.</strong>&nbsp;</p>



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<p><strong>Beatriz Oliveira</strong> &#8211; Historiadora e Educadora popular, pós graduanda em ensino de História. Pesquisa A Quarta Teoria Política e o uso de fontes digitais.&nbsp;</p>
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		<title>Descortinando a narrativa sobre a PL 1904: ambivalências e hipocrisias dentro do discurso conservador  </title>
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		<pubDate>Sun, 23 Jun 2024 12:07:40 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 006, N 197]]></category>
		<category><![CDATA[Dossiê 1904]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[pesquisa]]></category>
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		<category><![CDATA[pl1904]]></category>
		<category><![CDATA[pldoaborto]]></category>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Em um ano eleitoral, a discrepância entre o discurso da extrema direita e as necessidades reais da população brasileira torna-se evidente. O Congresso Nacional acumula mais de 13 mil projetos de lei em tramitação, abrangendo áreas essenciais como reforma nas leis trabalhistas, acesso à educação e saúde de qualidade, fomento ao esporte, segurança pública, entre outras. Esses projetos têm o potencial de impactar diretamente a vida dos brasileiros e brasileiras, promovendo avanços significativos em diversos setores. Entretanto, a presença de grupos no Congresso que se aproveitam da desinformação para gerar atrasos nas votações desses projetos é uma realidade preocupante. Esses grupos, muitas vezes alinhados à extrema direita, têm como estratégia desacelerar as políticas de reconstrução do país para colocar em evidência projetos conhecidos como “pauta de costumes”. Ao disseminar informações falsas ou distorcidas, eles criam obstáculos para a implementação de reformas necessárias e prejudicam o avanço nacional.&nbsp;</p>



<p>Na noite do dia 12 de junho, a bancada evangélica, juntamente com o presidente da Câmara Arthur Lira (PP- AL) conseguiu colocar em votação a proposta do deputado federal Sóstenes Cavalcante (PL-RJ). Uma proposta inconstitucional que visa equiparar o aborto realizado após a 22ª semana de gestação ao crime de homicídio, aumentando a pena para até 20 anos de prisão, pena maior que do crime de estupro que é de 10 anos. No outro dia a proposta ganhou grande repercussão contrária nas redes sociais, no parlamento e nas ruas. As manifestações populares tomaram ainda mais força quando descortinaram a verdadeira intenção do grupo conservador no congresso: proteger criminosos, criminalizar crianças e desumanizar os corpos das mulheres.&nbsp;</p>



<p>As consequências deste projeto de lei são completamente inconstitucionais, pois colocam em risco a vida de milhões de meninas, que seriam forçadas a ter os filhos de seus estupradores, e de mulheres que seriam obrigadas a levar adiante gestações resultantes de violência sexual. Muito além de ser apenas um projeto moralista contra o aborto, a proposta visa transformar vítimas em criminosas e crianças em mães. A aprovação desta proposta afetaria principalmente as crianças, cujos casos de abuso sexual e gestação frequentemente demoram a ser identificados, resultando na busca tardia pelos serviços de aborto legal.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Por outro lado, observamos as histórias dos homens que escrevem as leis neste país, os quais, coincidentemente, compartilham os mesmos interesses: proteger seus pares. Um caso recente em Anápolis ilustra bem essa questão, onde mais de 50 denúncias de violência sexual foram feitas contra um pastor, envolvendo meninas, adolescentes e jovens. Se pesquisarmos no Google &#8220;Quantidade de pastores presos por estupro em 2024&#8221;, encontraremos diversas páginas informando que, só no primeiro semestre deste ano, 82 pastores foram presos por esse crime. Este é apenas um dos indícios que revelam os interesses da bancada evangélica por trás da PL 1904.&nbsp;</p>



<p>Em sua última manifestação no Senado, Eduardo Girão (NOVO – CE) iniciou sua fala declarando: &#8220;Eu considero a causa das causas: a defesa da vida desde a concepção, porque é direito à liberdade de nascer&#8221;. O senador trouxe uma contadora de histórias para &#8220;performar&#8221; como um suposto feto submetido a um procedimento de interrupção de gravidez, um momento que muitos consideraram um &#8220;circo&#8221;. Entretanto, o que mais chama a atenção é a frase pronunciada pelo senador: &#8220;a causa das causas: a defesa da vida&#8221;. O grupo político de Girão tem se esforçado para difundir a ideia pró-vida como um princípio incontestável, mas acolher essa narrativa enquanto defende o armamento da população e a pena de morte tem sido bastante indigesto.&nbsp;</p>



<p>&nbsp;“Todo poder emana do cano de uma arma” esta frase foi dita pela deputada federal Julia Zanatta em 2023. Atualmente Julia é uma das deputadas que votam a favor do projeto de lei 1904, assim como Carla Zambelli, que defendeu o projeto da forma mais vazia possível “não quer o bebê? Entrega para o aborto! ”. Esta manifestação de Zambelli só comprovou a assertividade da ministra do STF Cármen Lúcia em usar o termo “desinteligência natural” e “burrice” para comentar a conduta da deputada em outro episódio de charlatanice.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>O que podemos perceber é que grupos da direita tem se mobilizado para fazer tramitar nos debates públicos as pautas de costumes com o intuito de taxar as novas candidaturas e as bases do governo de “abortistas” e até mesmo “homicitas”. Assim como foi feito em 2018 com a proliferação da indústria de Fake News. Se por um lado o debate político avança lentamente para a inclusão de políticas públicas que atendem as necessidades da realidade brasileira, por outro lado ainda vemos um debate político interessado em gerar transtornos e desinformação. Infelizmente, políticas públicas para proteção de mulheres neste país ainda está longe de ser um problema. De acordo com o jornal O Globo, uma mulher sofre violência sexual no país a cada 46 minutos, ou seja, enquanto estamos submersos sobre as nossas preocupações do cotidiano uma mulher pode estar sofrendo a pior das violações em seu corpo.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Em 1945, a autora Virginia Woolf apresentou a seu público leitor a perturbadora realidade de uma cena de estupro e como isso pode destroçar a mente de uma pessoa. Ao ler uma notícia, Isabela, personagem criada por Woolf, passa a imaginar a dor sentida pela vítima: “Aquilo era real, tão real que ela conseguia ver o quarto, a cama, a moça que gritava batendo no rosto dele”(WOOLF, 2008 p. 43). Acredito que a reação de Isabela não difere da das mulheres que, hoje em dia, convivem diariamente com notícias de estupro. A sensação perturbadora que acompanha esses relatos é a de falta de segurança, e a percepção de que, a qualquer momento, podemos ser violentadas.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>O Projeto de Lei 1904 só intensifica esse sentimento de terror, pois sua aprovação legitima a defesa de um grupo que utiliza a fé para propagar discursos de violência. Além disso, a proposta legislativa afronta princípios constitucionais fundamentais, como os direitos das mulheres, a dignidade da pessoa humana, a solidariedade familiar e o melhor interesse da criança. A partir disso fica em nossas cabeças a seguinte pergunta: Por que, em momentos de criar pautas polêmicas, a política conservadora demonstra tanto interesse em violar os direitos das mulheres e controlar seus corpos?&nbsp;&nbsp;&nbsp;</p>



<p><strong>REFERÊNCIA BIBLIOGRAFICA&nbsp;</strong>&nbsp;</p>



<p>WOOLF, Virginia. Entre os Atos. Editora Novo Século. São Paulo. 2008</p>



<p></p>



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<p><strong>Natália Médice</strong> &#8211; Professora de História do Estado de Minas Gerais, graduada em História pela Universidade Federal de Juiz de Fora e atualmente mestranda na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro. Especialista em Teoria da História e História da Historiografia.&nbsp;</p>
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		<title>Ataque à lei Maria da Penha: o que está em jogo? </title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 23 Jun 2024 11:58:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 006, N 197]]></category>
		<category><![CDATA[Dossiê 1904]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>No dia 7 de junho de 2024 recebemos a notícia de que Maria da Penha, símbolo do combate a violência contra as mulheres1, voltou a ter proteção do Estado por sofrer ameaçadas da extrema direita no país2. De acordo com as notícias de jornais, Maria da Penha alega que grupos RedPill e a extrema direita … </p>
<p class="link-more"><a href="https://revistatrama.artebodoque.com/2024/06/23/ataque-a-lei-maria-da-penha-o-que-esta-em-jogo/" class="more-link">Leia mais<span class="screen-reader-text"> "Ataque à lei Maria da Penha: o que está em jogo? "</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>No dia 7 de junho de 2024 recebemos a notícia de que Maria da Penha, símbolo do combate a violência contra as mulheres<sup>1</sup>, voltou a ter proteção do Estado por sofrer ameaçadas da extrema direita no país<sup>2</sup>. De acordo com as notícias de jornais, Maria da Penha alega que grupos RedPill e a extrema direita como um todo tem reproduzido uma séria de notícias falsas que tentam prejudicar não somente sua imagem, mas, também, enfraquecer a importância da lei Maria da Penha. Mas quem são esses grupos e porque são contra a lei que enfrenta a violência contra as mulheres?&nbsp;</p>



<p>O movimento RedPill é recente, composto por homens misóginos que entendem que, na medida que os direitos das mulheres avançam, a masculinidade se enfraquece e os direitos dos homens retrocede. Esse termo remete ao filme <em>Matrix </em>em que é oferecido ao personagem <em>Neo</em> a pílula azul (bluepill) que lhe manteria na ignorância e a pílula vermelha (redpill) que lhe levaria a verdade por traz de toda mentira da sociedade. Diante disso, grupos de homens denominados masculinistas<sup>3</sup> adotaram o termo para se organizar e expressar sua revolta com relação ao avanço dos direitos das mulheres. Ou seja, para eles, a verdade é que as mulheres são aproveitadoras, maléficas e querem destruir os homens. Principalmente as mulheres que se consideram feministas e questionam o os padrões vigentes na sociedade.&nbsp;</p>



<p>O movimento RedPill está muito associado a extrema direita por, justamente, possuírem pensamentos parecidos como o neoconservadorismo que envolve a manutenção da submissão feminina, a masculinidade viril quanto a manutenção da heteronormatividade e violência como forma de proteção. Haroche (2013) introduziu o conceito de masculinidade viril, destacando que, dentro desse modelo de gênero, tanto o exercício do poder quanto a preocupação com a potência são relevantes. De acordo com o antropólogo Lucas Moreira (2021), para manter a autoridade simbólica, física e moral do homem viril, existe um temor de impotência que é transformado em força e domínio. Diante da angústia de perder a virilidade e de vê-la ameaçada, os homens podem se tornar agressivos, violentos, brutais e, em casos extremos, recorrer ao homicídio para defendê-la.&nbsp;</p>



<p>Os defensores da masculinidade tradicional há muito identificam em Jair Bolsonaro uma personificação de seus anseios (Lima e Silva, 2023). Ele é percebido como um arquétipo de &#8220;macho viril&#8221;, que confronta as mulheres de forma agressiva nos domínios do poder, dissemina piadas misóginas e se justifica sob o pretexto da liberdade de expressão. É possível perceber que Bolsonaro aumentou sua visibilidade ao promover o porte de armas, flexibilizando as legislações e estimulando sua utilização, frequentemente fazendo gestos de &#8220;arminha&#8221; com as mãos e até mesmo instruindo crianças a imitá-lo. A arma e a virilidade são elementos cruciais na construção da masculinidade desse homem heterossexual e cisgênero (Lima e Silva, 2023).&nbsp;</p>



<p>Os argumentos empregados pelo neoconservadorismo são de natureza moral, com o propósito de restaurar a autoridade patriarcal. Lacerda identificou a presença do neoconservadorismo no Brasil a partir de 2005, embora sua influência política direta seja observada a partir de 2008 (Lacerda, 2019). Nesse período, houve um aumento nas medidas contrárias à legalização do aborto e na adoção de uma legislação mais rigorosa em relação a essa prática, bem como um incremento nas iniciativas de combate às demandas LGBT+ e de gênero. Especificamente, iniciativas mais severas contra o aborto foram observadas em 2011, enquanto o ativismo contra as agendas LGBT+ ganhou impulso a partir de 2014 (Lacerda, 2019). É nesse cenário que se constrói uma ofensiva aos direitos das mulheres como, por exemplo, contra a lei Maria da Penha. A história de Penha é marcada por violências do seu algoz. Foi perseguida, violentada e sofreu tentativas de feminicídio até conseguir que seu caso fosse para os tribunais internacionais. Como forma de reparação, o Brasil aprova a lei nº 11.340/2006, que leva seu nome.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Ao longo dos anos, homens que são contra os direitos das mulheres, questionaram a necessidade de tal lei, alegando que os homens que tornariam as maiores vítimas das mentiras das mulheres.&nbsp; Com isso, notícias falsas eram reproduzidas principalmente através de plataformas misóginas como o Brasil Paralelo<sup>4</sup> e, assim, eram e ainda são compartilhadas em aplicativos de mensagens, plataformas de vídeos e outros canais de comunicação. As consequências da disseminação de notícias falsas como essa é a reprodução da violência. Como dito, atualmente, Maria da Penha tem sido ameaçada e, por isso, novamente está sob a proteção do Estado, igualmente quando sofreu tentativas de feminicídio por parte de seu ex-marido.&nbsp;</p>



<p>Hoje, a violência contra as mulheres representa uma das principais formas de violação dos <a href="https://www.politize.com.br/direitos-humanos-o-que-sao/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Direitos Humanos</a>. Além de contribuir para a desigualdade de <a href="https://www.politize.com.br/vamos-falar-sobre-genero/#:~:text=Toda%20informa%C3%A7%C3%A3o%20deve%20ser%20democratizada&amp;text=Comunicadora%20do%20Embaixadores%20Politize!" target="_blank" rel="noreferrer noopener">gênero</a>, afeta diretamente direitos considerados fundamentais, como o direito à vida, o direito à saúde e à integridade física. No Brasil, segundo dados de 2020 da <a href="https://agenciapatriciagalvao.org.br/violencia/violencia-sexual/pais-tem-um-estupro-a-cada-8-minutos-diz-anuario-de-seguranca-publica/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Agência Patrícia Galvão</a><sup>5</sup><a href="https://agenciapatriciagalvao.org.br/violencia/violencia-sexual/pais-tem-um-estupro-a-cada-8-minutos-diz-anuario-de-seguranca-publica/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">,</a> uma mulher é estuprada a cada 8 minutos, sendo que cerca de 84% dos casos o crime é cometido por pessoas próximas da vítima, familiares ou pessoas de confiança. A principal lei nacional no enfrentamento dessa violência é considerada um divisor de águas na abordagem jurídica brasileira na luta contra a violência baseada no gênero. Contudo, campanhas de deslegitimização de sua necessidade gera graves consequências como a falta de procura de seus direitos quando algum crime de violência de gênero ocorre. Além disso, encoraja homens a promover violências com a sensação de impunidade.&nbsp;</p>



<p>Os direitos das mulheres são conquistas que afetam a vida política, social e econômica promovendo a emancipação e a mudança de paradigmas de toda sociedade. O neoconservadorismo misógino como ferramenta da extrema direita e masculinistas promove o ódio, a violência e o silenciamento das mulheres e continua educando homens agressivos e prisioneiros de uma masculinidade viril que nega qualquer diversidade ou diálogo. Diante disso, a promoção, manutenção e valorização de políticas públicas de proteção aos ditos grupos minoritários são não somente formas de reparação, mas, também, meios de educação para que a o patriarcado se enfraqueça e dê lugar a outros modos de vida.&nbsp;</p>



<p><strong>REFERÊNCIAS BILIOGRÁFICAS&nbsp;</strong></p>



<p>HAROCHE, Claudine (2013). “Antropologias da virilidade: o medo da impotência”. In: CORBIN, Alan; COURTINE, Jean-Jacques; VIGARELLO, Georges (orgs.). <em>História da Virilidade</em>. Petrópolis-RJ: Vozes, p. 15-34.&nbsp;</p>



<p>LACERDA, Marina Basso (2019). <em>O Novo Conservadorismo brasileiro</em>: de Reagan a Bolsonaro. Porto Alegre: Zouk.&nbsp;</p>



<p>LIMA E SILVA, Bruna Camilo de Souza (2023). <em>Masculinismo</em>: misoginia e redes de ódio no contexto da radicalização política no Brasil. Tese (Doutorado). Belo Horizonte, Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais.&nbsp;</p>



<p>MOREIRA, Lucas (2021). Masculinidade genealógica e o “viking” do Capitólio: reflexões sobre virilidade e política. <em>Novos Debates</em>, v. 7, n. 1, p. 1-12. <a href="https://novosdebates.abant.org.br/revista/index.php/novosdebates/article/view/181/98" target="_blank" rel="noreferrer noopener">https://novosdebates.abant.org.br/revista/index.php/novosdebates/article/view/181/98</a> (acesso em: 22/03/2024).&nbsp;</p>



<p></p>



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<p><strong>Bruna Camilo</strong>&nbsp; &#8211; Pesquisadora em gênero e radicalização. Doutora em Ciências Sociais pela PUC-Minas. Mestra em Ciência Política pela UFMG.&nbsp;</p>
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		<title>Os usos políticos do gênero pelos grupos das extremas direitas. </title>
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		<pubDate>Sun, 23 Jun 2024 11:52:01 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 006, N 197]]></category>
		<category><![CDATA[Dossiê 1904]]></category>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Nos últimos anos, observamos sujeitas como Michelle Bolsonaro, Damares Alves e Carla Zambelli alcançarem destaque em veículos de comunicação nacionais e internacionais. A emergência pública de mulheres pertencentes às novas direitas vem gerando debates em torno do que é ser uma mulher na política. Essas discussões estão longe de serem encerradas e geralmente englobam aspectos sobre as tarefas de reprodução social que associam o sujeito feminino às atividades de cuidado com o lar e o núcleo familiar.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>A dicotomia público-privado é um tema central para a História das Mulheres e de Gênero, historiadoras como Joan Scott e Michelle Perrot já abordaram a questão em seus consagrados trabalhos publicados nas décadas de 1990 e 2000, respectivamente. Da mesma forma que outras áreas dos estudos históricos, a História das Mulheres e de Gênero foi reformulada e ampliada ao longo dos tempos, inserindo categorias como raça e classe em suas análises. Além disso, pautou a importância da não essencialização do ser mulher e de binarismos biologicamente e socialmente construídos.&nbsp;</p>



<p>Uma das diversas transformações recentemente incorporadas pelo campo de pesquisa é a desconstrução da ideia de que mulheres conservadoras e imersas às culturas políticas das direitas e extremas direitas são exclusivamente submissas e vítimas do patriarcado. Afinal, a premissa é restritiva no que tange às investigações sobre as produções intelectuais, as experiências individuais e coletivas e os projetos políticos dessas agentes. Pois, possibilita que esses grupos sejam analisadas a partir de um único segmento &#8211; o de subordinação e obediência.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>As trajetórias de sujeitas históricas como Margaret Thatcher (1925-2013) na Inglaterra, Pilar Primo de Rivera (1907-1991) na Espanha e Lucía Hiriart (1923-2021) no Chile evidenciam que esse imaginário não condiz com a materialidade histórica ocidental. Inúmeros governos de caráter fascista, autoritário e ditatorial usaram do gênero como ferramenta de cooptação e sedução da população feminina em benefício de seu projeto político. E claro, contaram com o auxílio de outras mulheres para fazê-lo.&nbsp;</p>



<p>As lideranças acima experienciaram momentos históricos em que parcela considerável dos partidários das extremas direitas tinham ciência de que a estrutura capitalista e patriarcal se mantém graças às tarefas de manutenção da vida outorgada às mulheres. Logo, precisavam do seu apoio político para a execução de projetos e programas. Concomitantemente sabiam que a modernidade exigia certa modificação dos papéis historicamente atribuídos aos gêneros, corroborando para que a participação feminina fosse parcialmente aceita em âmbitos públicos das sociedades.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Outro ponto a ser ressaltado são as reivindicações dos movimentos feministas que exigem mudanças estruturais no que diz respeito à desigualdade de gênero. Eles denunciaram os governos conservadores e mostraram que a categoria em pauta não é abstrata, imutável e desprovida de complexidades. Muito pelo contrário, se insere em um sistema altamente imperialista e colonialista que privilegia o “sujeito universal masculino”, expresso na imagem do homem branco, cis, ocidental, hétero e sem deficiência. Por causa desses fatores, entendemos que os usos políticos do gênero pelas extremas direitas também são uma tentativa de retroceder direitos já conquistados e impedir que novas vitórias feministas se concretizem.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Um exemplo é a trajetória de Lucía Hiriart, esposa de Augusto Pinochet, general que comandou a ditadura militar chilena (1973-1990). O Estado repressivo instaurado utilizou do gênero como ferramenta de cooptação e sedução da população feminina. Em nome da família tradicional, da moral e da pátria, o governo impôs um programa intitulado “Refundação Nacional” que tinha como base o neoliberalismo, o autoritarismo, o anticomunismo, o masculinismo e o catolicismo. Foi difundido um ideal de mulher mãe, dona de casa e religiosa que deveria defender o país do inimigo interno. Nesse caso, feministas, comunistas, socialistas, LGBT’s e qualquer indivíduo que se manifestasse contra as violações aos direitos humanos cometidas pelos militares.&nbsp;</p>



<p>Lucía Hiriart foi a grande protagonista desse processo de politização do gênero que operou em conjunto com o anticomunismo e o antifeminismo. Ela foi considerada a mulher mais poderosa da ditadura militar, organizando um “exército pessoal” em decorrência de seu poder econômico, jurídico e institucional. A primeira dama era a presidenta nacional do CEMA &#8211; Chile, instituição de caráter privado e assistencialista cujo objetivo consistia em organizar e controlar os “Centros de Mães” existentes em espaços urbanos e rurais dos territórios chilenos. Nesses ambientes, as mulheres eram ensinadas a desenvolver cuidados com a casa e a família através de cursos de formação e outros dispositivos oferecidos pela propaganda autoritária.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>CEMA &#8211; Chile publicou uma revista onde Lucía Hiriart era retratada como um modelo de mulher defendido e valorizado pelo Estado. As fotografias e os discursos que envolviam a sujeita a projetavam como uma mulher adepta da feminilidade padrão e preocupada com o bem-estar de seu núcleo familiar. Ela foi concebida como uma liderança que lutava pela construção de uma pátria educadora, organizada e isenta de uma suposta ameaça comunista. Dessa forma, Lucía Hiriart surgiu como uma figura carismática, popular e maternal não apenas para os seus filhos, mas para toda a população chilena. A primeira dama também se beneficiou dos serviços oferecidos pela “Secretaria Nacional da Mulher”, organização inspirada na estrutura política das fascistas partidárias da ditadura de Francisco Franco na Espanha.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>O que a experiência chilena nos ensina sobre os dias atuais? Como mulheres conservadoras imersas nas culturas políticas das novas direitas se relacionam com as personagens históricas anteriormente estudadas? Notamos que essas mulheres são, em grande parte, privilegiadas pela raça e pela classe a que pertencem. A branquitude somada ao espaço que ocupam na esfera pública, lhes outorga certo poder no que tange a participação ativa na construção e implementação dos projetos políticos das extremas direitas. Percebemos que muitas delas se comportam como agentes anti feministas e anticomunistas capazes de promover transformações sociais em nome da ordem, da pátria e da família.&nbsp;</p>



<p>Outro aspecto a ser destacado é que todas elas estão inseridas em uma estrutura patriarcal e capitalista, onde existe um culto à virilidade e à masculinidade. Vemos como a categoria de “gênero” assume uma dimensão ampla que se relaciona diretamente com a masculinidade exacerbada que homens das extremas direitas almejam performar. As declarações e atitudes de Jair Messias Bolsonaro no Brasil e Donald Trump nos Estados Unidos são exemplos disso.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Observamos que nenhum processo histórico se repete e as condições territoriais e temporais são essenciais para analisá-lo conforme as suas especificidades. É notável que os governos das direitas e extremas direitas da atualidade continuam usando o gênero como ferramenta ideológica. Os aspectos historiográficos levantados comprovam que esse fenômeno não é novo, mas adquiriu contornos de seu espaço-tempo. Além disso, tem dimensões transnacionais como os casos de Chile e Espanha citados anteriormente. Ou seja, estão conectados com outros grupos e sociedades que comungam de ideologias semelhantes e extrapolam fronteiras. Por fim, sublinhamos que muitas das mulheres que atuaram nesses processos escolheram fazê-lo, rompendo com papéis de vítimas obedientes erroneamente lhes atribuídos e complexificando investigações sobre a categoria de “gênero” na pesquisa histórica.&nbsp;</p>



<p><strong>Referências Bibliográficas</strong>&nbsp;</p>



<p>GAGO, Verónica. A potência feminista ou o desejo de transformar tudo. São Paulo: Editora Elefante, 2020.&nbsp;</p>



<p>MATUS, Alejandra. Doña Lucía. La biografía no autorizada. nov. Ediciones B Chile S.A. 2013.&nbsp;</p>



<p>POWER, Margaret. La mujer de derecha: el poder femenino y la lucha contra Salvador Allende, 1964-1973. Direção de Bibliotecas, Arquivos e Museus, Santiago, Chile, 2008.&nbsp;</p>



<p>SEPÚLVEDA, Vanessa. El influjo del falangismo español en Chile: La Secretaría Nacional de la Mujer y la recepción de los modelos y políticas de la Sección Femenina de FET y de las JONS. Historia 396, Valparaíso v. 13, n. 2, jul-dic. 2023, pp. 00-00.&nbsp;</p>



<p><strong>Site</strong>&nbsp;</p>



<p>CEMA &#8211; Chile. Memoria Chilena. Disponível em <a href="https://www.memoriachilena.gob.cl/602/w3-article-95680.html" target="_blank" rel="noreferrer noopener">https://www.memoriachilena.gob.cl/602/w3-article-95680.html</a>. Acesso em 13 de junho de 2024.&nbsp;</p>



<p></p>



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<p><strong>Iasmin do Prado Gomes&nbsp;</strong></p>



<p>Doutoranda em História pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Licenciada, Bacharela e Mestra na área pela Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP). Nos últimos anos desenvolveu pesquisas que articularam a História Política, a História Intelectual e a História das Mulheres. Atualmente, estuda os usos políticos do gênero no processo de ditadura militar do Chile (1973-1990).&nbsp;</p>



<p></p>
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		<title>[EDITORIAL] A sua imagem e semelhança: uma coletânea de reflexões sobre o PL 1904 e os assuntos que o orbitam.  </title>
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		<pubDate>Sun, 23 Jun 2024 11:38:44 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 006, N 197]]></category>
		<category><![CDATA[Dossiê 1904]]></category>
		<category><![CDATA[Gyovana Machado]]></category>
		<category><![CDATA[pesquisaacademica]]></category>
		<category><![CDATA[pl1904]]></category>
		<category><![CDATA[pldoaborto]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Organizar uma série e/ou coletânea de textos e reflexões acerca do PL1904 nos pareceu uma atividade de resistência. Antes de voltarmos os olhares para um projeto de lei, meramente, foi necessário ampliar a dinâmica estabelecida, rasgar alguns — muitos — véus e estendermos a observação para um universo gestado, construído, alimentado, retroalimentado e mantido, continuamente, … </p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Organizar uma série e/ou coletânea de textos e reflexões acerca do PL1904 nos pareceu uma atividade de resistência. Antes de voltarmos os olhares para um projeto de lei, meramente, foi necessário ampliar a dinâmica estabelecida, rasgar alguns — muitos — véus e estendermos a observação para um universo gestado, construído, alimentado, retroalimentado e mantido, continuamente, dentro de uma ordem de administração da vida que pauta alegorias e produz um frequente culto aos individualismos, apesar da chamada coletiva de adesão a essa(s) forma(s) de olhar para o mundo. Individualismo é posto, aqui, como um aspecto centralizador e dominante, capaz de subjugar para manter o seu rigor correspondente aos pútridos corações que, todos os dias, levam ao jogo público a proposta de seu domínio.&nbsp;</p>



<p>Nos últimos anos, a extrema direita voltou ao centro do debate e tem crescido em todo o mundo, alimentando um clima de polarização e representando uma séria ameaça à democracia e aos direitos humanos. Jair Messias Bolsonaro, eleito no Brasil em 2018, Donald Trump, eleito nos Estados Unidos em 2016, Narendra Modi na Índia desde 2014, Viktor Orbán na Hungria desde 2010, Recep Tayyip Erdoğan na Turquia desde 2014, Rodrigo Duterte nas Filipinas desde 2016 e Javier Milei, candidato à presidência da Argentina em 2023, são apenas alguns dos líderes que representam essa onda global. Em cada país, essa nova extrema direita apresenta características próprias, mas opera de forma similar, atacando mulheres, negros, cientistas, instituições públicas, movimentos sociais progressitas, imigrantes, indígenas e grupos LGBTQIAP+. Em alguns casos, o nacionalismo e o racismo xenófobo prevalecem, enquanto em outros o fundamentalismo religioso é a base ideológica.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>No caso brasileiro, uma das teses centrais para compreender as características da extrema direita atual reside no fundamentalismo religioso, ancorado em um debate moral-conservador. Esses grupos operam de forma orquestrada nas redes, nutrem e defendem a intolerância, além de disseminar notícias falsas em vários grupos virtuais. Segundo a jornalista e doutora em comunicação Magali Cunha, “os grupos conservadores e fundamentalistas fazem uso disso e usam muito bem, instrumentalizando de forma política essa dimensão religiosa”. A religião instrumentalizada serve como alicerce fundamental para a construção da ideologia da extrema direita, conferindo-lhe poder e influência. Essa instrumentalização da fé se intensifica no debate sobre gênero, em que a ultradireita constrói uma falsa dicotomia entre &#8220;ideologia de gênero&#8221; e &#8220;valores tradicionais&#8221;, utilizando a religião para embasar sua oposição conservadora-reacionária.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>A expressão &#8220;ideologia de gênero&#8221; surgiu como um termo pejorativo para desqualificar os estudos de gênero, um campo interdisciplinar que estuda, investiga e produz conhecimento e reflexão, buscando contribuir para a superação das desigualdades de raça, classe e gênero, além de combater violências e discriminações. Essa expressão ganhou força no debate político e, ao longo da atual conjuntura, vem sendo utilizada de forma estratégica por grupos, indivíduos e movimentos da extrema direita atual. Segundo Peniche (2021), “de um ponto de vista conceitual, a expressão representa uma tentativa de ressignificação assente na menorização e deturpação — consciente e deliberada — de uma teoria (e não ideologia) que, dito de forma breve e simplificada, procura explicar que as desigualdades não são naturais, mas o resultado de processos sociais, culturais e econômicos que estruturam relações sociais de poder desiguais, ocupando nelas as mulheres um lugar subalterno e depreciado”. Nessa perspectiva, o debate teórico de gênero surge como um elemento disruptivo da ordem social vigente, na medida em que questiona a naturalização das desigualdades de gênero. Ao desmantelar o caráter essencialista das disparidades entre homens e mulheres, esse debate expõe a dominação masculina como uma construção social, e não como um determinismo seja entendida como natural.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>No contexto brasileiro, a expressão &#8220;ideologia de gênero&#8221; tornou-se apropriada por grupos de direita radical como elemento central do discurso denominado &#8220;marxismo cultural&#8221;, configurando-se como mais uma importação das estratégias discursivas da direita atual. Conforme Mirrlees (2019), o “marxismo cultural” é um dispositivo político de produção de “ódio interseccional” dentro do discurso da Alt-Right (a nova extrema direita). Enraizados em uma perspectiva patriarcal, branca e cristã, esses grupos extremistas se erguem contra um mundo que, segundo eles, é deturpado pela esquerda, pelo feminismo, pelos movimentos LGBTQIAP+, pelos povos indígenas e por outras correntes de movimentos sociais progressistas. Esse cenário atual lembra muito a série &#8220;<em>The Handmaid&#8217;s Tale</em>&#8221; (&#8220;O Conto da Aia&#8221; ou &#8220;A História de Uma Serva&#8221;), da autora canadense Margaret Atwood, no qual esses grupos imaginam e criam um futuro distópico onde a opressão e a privação reinam.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Em Gilead, uma sociedade distópica moldada por uma rigorosa interpretação da fé cristã, a lei suprema é a &#8220;lei divina&#8221;. As escrituras, inclusive as leis punitivas do Antigo Testamento, são seguidas à risca, normalizando castigos como mutilações e torturas. Nessa realidade &#8220;imaginária&#8221;, os direitos humanos são drasticamente reprimidos, com as mulheres suportando o peso da opressão. A República de Gilead floresceu a partir da coalescência de grupos extremistas religiosos. Unidos pela crença de que a América precisava ser &#8220;purificada&#8221; do pecado e da corrupção, esses grupos formaram uma conspiração sob o nome de &#8220;Os Filhos de Jacó&#8221;. Movidos por um fervor messiânico, Os Filhos de Jacó orquestraram um audacioso golpe de Estado, atacando simultaneamente a Casa Branca e o Congresso, derrubando o governo dos Estados Unidos e estabelecendo Gilead como sua nova ordem. A história se desenrola na perspectiva de Offred, uma mulher aprisionada na realidade brutal de Gilead. Como parte da classe das &#8220;aias&#8221;, ela é considerada propriedade do Estado e serva sexual, cobiçada por sua fertilidade em meio a uma sociedade assolada pela esterilidade.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Embora a ficção transcenda a realidade, frequentemente se inspira em eventos históricos e sociais para escrever sua narrativa. Esse é o caso de &#8220;O Conto da Aia&#8221;, de Margaret Atwood, que encontra raízes em acontecimentos perturbadores do passado, tecendo um futuro distópico que ressoa com inquietante familiaridade em nosso presente, especialmente no Brasil. No Brasil, a recente tramitação do PL 1904/2024, que visa equiparar o aborto ao homicídio após a 22ª semana de gestação, acende um debate acalorado sobre os direitos reprodutivos das mulheres. Essa proposta, assim como outras como o PL da Gravidez Infantil e o PL do Estupro, evocam imagens da sociedade distópica de Gilead, onde o controle do corpo feminino se torna um instrumento de opressão.&nbsp;</p>



<p>E é sob essa constatação, que mantemos o alerta ao pluralizar o debate evocando novas figuras que confrontam, diretamente, noções vendidas como comuns pela extrema direita religiosa e fundamentalista — como exemplo dessa leitura alternativa à fundamentalista, o livro e estudo bíblico <em>Juízes 19: violência contra a mulher por questão de gênero. Uma abordagem a partir da interpretação teológica e histórica</em>, de Areli Cortez (2024) —. Nesse sentido, lançaremos mão de reflexões acerca de leituras teológicas alternativas da bíblia, os usos políticos da religião e tantos outros confrontos que buscam desconstruir o que, como estratégia, tem sido disseminado como denominador comum para identificação dos que são “cidadãos do bem”, logo, “tradicionais”, “conservadores”, “cristãos”, entre outros. Não somente, fez se necessário também recorrer a outros planos discursivos, como as relações de gênero percebidas internamente nesses grupos, como são pautadas, orientadas e se há correlação histórica, portanto, um peso para além de ações palpáveis, em suas mobilizações. Por isso, os leitores também encontrarão reflexões que se subsidiam em comparações acerca do corpo feminino e os contos nos quais se desenvolveu e/ou desenvolve uma noção de repulsa a ele, bem como poderão acessar outras frentes de ataque desses grupos extremistas que já estão em campo, mobilizadas contra mulheres e os seus direitos.&nbsp;</p>



<p>Uma vez apontado enquanto parte de um projeto político, econômico e social de domínio e subjugação maior, o PL 1904 é visto como uma das muitas ondas que quebram na areia. Uma vez que a sua disseminação mostra um determinado rosto, com características e contornos, há a possibilidade de o identificarmos em outros lugares e frentes de mobilização política, ou seja, a pauta antiaborto não se restringe ao PL mencionado, mas a um conjunto de defesas redesenhadas em instâncias e camadas da sociedade, no plano de tomada de decisões políticas, nos consultórios médicos, nas celas de prisões, nos púlpitos religiosos e, em última instância, nos notórios terminais da vida de meninas e mulheres que não acessam o aborto de maneira segura: uma terra, uma caixa de madeira e a somente da memória do que se poderia ter sido.&nbsp;</p>



<p>&nbsp;A sua imagem e semelhança criou,&nbsp;</p>



<p>&nbsp;o PL 1904,&nbsp;&nbsp;</p>



<p>criou.&nbsp;</p>



<p>Mas não haverá nenhuma a menos.&nbsp;</p>



<p><strong>Referências:</strong>&nbsp;</p>



<p>MIRRLEES, Tanner. <strong>The Alt-Right’s discourse of “cultural Marxism”:</strong> a political instrument of intersectional hate. <em>Atlantis Journal</em>, v. 39, n. 1, 2019.&nbsp;&nbsp;</p>



<p><strong>PENICHE, Andrea.</strong> Belas, Recatadas e do Lar: O antifeminismo como arma de deslegitimação da democracia. In: <strong>HONÓRIO, Cécilia; MINEIRO, João</strong> (Orgs.). Novas e Velhas Extremas-Direitas. 1ª ed. Lisboa: Edições Parsifal, 2021.&nbsp;</p>



<p><strong>NÓS MULHERES DA PERIFERIA.</strong> Como o conservadorismo e o fundamentalismo operam no Brasil. São Paulo, 2021. Disponível em:<a href="https://nosmulheresdaperiferia.com.br/como-o-conservadorismo-e-o-fundamentalismo-operam-no-brasil/" target="_blank" rel="noreferrer noopener"> https://nosmulheresdaperiferia.com.br/como-o-conservadorismo-e-o-fundamentalismo-operam-no-brasil/</a>. Acesso em: 20 jun. 2024.&nbsp;</p>



<p></p>



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<div class="wp-block-column is-vertically-aligned-center is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow" style="flex-basis:66.66%">
<p><strong>Gyovana Machado</strong> &#8211; Doutoranda em História pela Universidade Federal de Juiz de Fora e Mestre em História. Pesquisadora associada ao Laboratório de História Econômica e Social com trajetória e experiência nos espaços de confissão protestante. Formada em Seminário Teológico e curiosa nas leituras sobre Teologia Feminista, Teologia da Libertação, Missão Integral e demais veias decoloniais de leitura teológica. Atualmente, pesquisa capelães e capelanias em Minas Gerais colonial.&nbsp;</p>
</div>
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<p><strong>Mayara Balestro</strong> &#8211; Doutoranda em História pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Mestra em História pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná (2021). Pesquisadora associada ao Observatório da Extrema Direita (OED) &#8211; Brasil e ligado ao grupo de pesquisa Direitas, História e Memória (DHM), ambos credenciados no CNPq. Tem experiência na área de história, com ênfase em História Contemporânea e História do Tempo Presente, atuando principalmente nos seguintes temas: Nova Direita, Extrema-Direita, Direita Radical, Bolsonarismo e Brasil Paralelo.&nbsp;&nbsp;</p>
</div>



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