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	<title>Arquivos Sartre - Revista Trama</title>
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	<description>Arte, Cultura e Criatividade</description>
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		<title>Que tipo de inferno são os outros?</title>
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		<pubDate>Sun, 29 Mar 2020 21:30:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 038]]></category>
		<category><![CDATA[confinamento]]></category>
		<category><![CDATA[COVID-19]]></category>
		<category><![CDATA[Sartre]]></category>
		<category><![CDATA[Vinícius Lara]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Vinícius Lara</p>
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<p>“<strong><em>É importantíssimo que todos continuem em casa pelas próximas semanas para que a curva do contágio do COVID-19 seja achatada</em></strong><em>. ”</em> Esta é uma voz quase universal nos últimos dias e, a trancos e barrancos, as pessoas têm aderido. Em isolamento, no entanto, existem pelo menos dois desafios a superar: a solidão para alguns, e a convivência, para a maioria.</p>



<p class="has-drop-cap">Não quero diminuir o problema de sentir-se só, inclusive porque é ele que diz da grande quantidade de idosos que insistem em manter suas rotinas em praças, armazéns, supermercados. A sensação de encontrar companhia alimenta o pensamento produzindo ânimo, e, se observarmos o grau de atomização social que vimos construindo ao longo do último século, não deveria ser estranho o fenômeno dos “velhinhos indisciplinados”.&nbsp;</p>



<p>Neste texto gostaria de pensar o potencial do confinamento.&nbsp;</p>



<p>Saindo da leitura de <strong>Albert Camus</strong> em torno do problema da <strong>Peste </strong>é ainda um seu contemporâneo, <strong>Jean-Paul Sartre</strong>, que ajuda a perceber esse espaço de relação tão difícil em que somos obrigados a esbarrar com os <strong>Outros</strong>. Pode parecer estranho escrever com letra maiúscula um conceito que vai remeter a pais, filhos, esposa, marido, familiares, enfim, pessoas conhecidas. Claro que são conhecidas, mas à distância, com espaço para ir, vir; sair, voltar. Em troca da manutenção da vida a pandemia nos tira a mobilidade no espaço. Confinados sob um mesmo teto vinte e quatro horas por dia ao longo de semanas, quanto desse conhecimento se mantém?</p>



<p>No ano de 1944, ainda durante os conflitos da Segunda Guerra Mundial, Sartre atende ao pedido do editor Marc Barbézat para escrever uma peça capaz de reduzir ao máximo os elementos cênicos, e que fosse curta o suficiente para ser encenada com facilidade de maneira itinerante. Vindo de uma última obra teatral de caráter político (As Moscas, 1943) ele escreveu “<strong><em>Huis Clos”</em></strong>, traduzido para o português com o título <strong><em>“Entre quatro paredes”</em></strong>, um espetáculo com apenas 4 personagens, e que se desenrola num único cenário.</p>



<p>Famosa pela frase “<em>O inferno são os outros</em>” a peça é carregada pelo existencialismo e se desenvolve sobre a premissa original de três pessoas que não se conhecem, mas, após a morte, são levadas para cumprir suas penas eternas num cômodo em estilo do Segundo Império francês que seria nada mais nada menos que o inferno. Nenhum fogo, carrasco, corrente, tortura física, violência. Apenas um ambiente sem janelas, quatro paredes, três poltronas, uma porta que permanece quase sempre trancada por fora &#8211; mas que poderia ser aberta pelo mordomo caso uma campainha fosse tocada e funcionasse. Além disso nada de escova de dentes, nem espelhos. Lá as pálpebras não se fecham, lágrimas não escorrem, a luz não se apaga. Impossível sair e impossível morrer. Eis o inferno.</p>



<p>Ao longo da curta história nós acompanhamos a convivência de três personagens bem diferentes neste quarto. <strong>Garcin </strong>é um jornalista covarde que torturava emocionalmente sua esposa e desertou quando foi chamado a defender a bandeira pacifista durante a guerra. <strong>Inês </strong>se ressente da tragédia que aconteceu a partir de um triângulo amoroso no qual estava envolvida. Ela odeia os homens e ama mulheres. Por fim, conhecemos <strong>Estelle</strong>, uma mulher ardente em desejo e que ao engravidar de seu amante dá à luz um bebê que logo em seguida é assassinado por ela. Aparentemente nenhuma relação entre os três. É daí que surgem os atritos.</p>



<p>Não suponha que ao contar os crimes cometidos pelas personagens e que as levou para o sofrimento eterno eu tenha estragado alguma parte da fruição da obra. Absolutamente. Não são as efemérides individuais que compõem o quadro de desconforto por lá, é o que cada um passa a representar para o Outro, a maneira como têm seus desejos atendidos ou negados, em síntese, são as expectativas particulares que constroem o <strong><em>plot</em></strong> da narrativa.</p>



<p>A análise existencialista da vida se volta para as situações mais comuns ou fundamentais do cotidiano, nas quais o homem pode encontrar a si mesmo. Em oposição ao romantismo oitocentista, o existencialismo defende que nossa liberdade é condicionada, finita e obstada por muitas limitações que a todo momento podem torná-la estéril. Não existiria, portanto, uma liberdade essencial garantida aos indivíduos, nem mesmo uma noção de progresso, já que não se pode observar nenhuma garantia de que ele venha a acontecer. A convivência seria a única possibilidade, mas possibilidade de que? De qualquer coisa, eis a solução! Ou o problema!</p>



<p>Os desejos dos três, suas fixações, seus apelos, tudo é diferente, sem que sejam, porém, intocáveis. Nas fronteiras de cada uma das ambições particulares há pontos de contato nos quais, aparentemente, se poderia satisfazer a todos, mas isso jamais acontece. Para Sartre a condenação está aí. Pela voz de Garcin é que ouvimos a famosa expressão já quase no final do texto: <strong><em>“O bronze&#8230; Pois bem, é agora! O bronze aí está, eu o contemplo e compreendo que estou no inferno. Digo a vocês que tudo estava previsto. Eles previram que eu haveria de parar em frente deste bronze, tocando-o com minhas mãos, com todos esses olhares sobre mim. Todos esses olhares que me comem! Ah, vocês são só duas? Pensei que fossem muitas, muitas mais! Então, é isso que é o inferno! Nunca imaginei&#8230;. Não se lembram? O enxofre, a fogueira, a grelha&#8230;. Que brincadeira! Nada de grelha. O inferno… O inferno são os outros! ”</em></strong></p>



<p><em></em>Não penso que estejamos vivendo uma condenação eterna no estilo <strong><em>The Good Place</em></strong>, mas o que Sartre aponta, e hoje somos de alguma maneira forçados a contemplar, são os desafios da convivência forçada, sob o mesmo teto, de pessoas que caso tivessem a menor possibilidade de fazer diferente, com certeza estariam fazendo. Existe uma certa ironia em tudo isso. Enquanto indivíduos podemos traçar estratégias de aproveitamento do tempo que satisfaçam nossos desejos particulares, porém, basta que precisemos conviver para que o caldo desande.</p>



<p>Talvez a convivência seja o inferno! Não precisa ser, óbvio, e pode estar aí o aprendizado mais relevante para depois do COVID-19. Quando momentos de calamidade pública passam é natural que o sentimento de solidariedade venha à superfície, só que não é disso que precisamos enquanto sociedade, solidariedade é pouco. É urgente resgatar a dignidade da <strong>condição humana</strong> que se reconhece e é capaz de interagir com a pluralidade de suas expressões.&nbsp;</p>



<p>Não sou médico, mas suspeito que a pandemia não seja uma <em>“gripezinha de nada”.</em> Também não sou economista, mas suspender salários por até quatro meses ou obrigar pessoas a se exporem ao vírus em ônibus, metrôs e trens, neste momento, não é lá muito racional. Humano eu sou, e ouvir que cinco ou seis mil mortes são aceitáveis, isso é uma abominação!&nbsp;</p>



<p>Aprendemos a tolerar todo esse absurdo porque fomos alienados e nos esquecemos de que outras pessoas existem bem pertinho, e que, diante da morte, a régua é sempre horizontal. Viver em confinamento, hoje, pode ser fundamental para que a sociedade repense a si mesma. Não se trata de esperar que tudo volte ao normal, porque o que chamamos de normal vem se mostrando insustentável para a vida coletiva.&nbsp;</p>



<p>Alguns meses de condenação entre quatro paredes podem gerar a escolha de uma liberdade maior. Será que é possível mesmo, descobrir que existem outras pessoas como nós vivendo no mundo? Já pensou como seria&#8230; Vivemos uma potencial revolução, de pijamas, quase sem perceber.</p>



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<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:26% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2020/03/24652-bio-vinicius.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-8533" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p><strong><strong>Vinícius Lara </strong></strong>é historiador, fotógrafo amador e um apaixonado pelo absurdo.</p>
</div></div>



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<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/9acee-publi-ediccca7acc83o-impressa-1.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-5668" data-recalc-dims="1" /></figure>





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<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.artebodoque.com/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/747d3-publi-bodoque3.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-5017" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



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<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-large-font-size has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color">Galeria</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/b6aad-fotos-carol.jpg19.jpg?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-6960" data-recalc-dims="1" /></figure>



<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-medium-font-size has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color"><em>Apoie pautas identitárias. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>
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		<title>Arte, Angústia e Espiritualidade</title>
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		<pubDate>Sun, 25 Aug 2019 21:13:04 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 001, N 011]]></category>
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		<category><![CDATA[Gustavo da S. Lima]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: Gustavo da S. Lima</p>
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<p class="has-drop-cap">Na criança, ainda recente de nascimento, que chora a ausência do leite materno, no jovem que se arde em decepção pelo término amoroso e no velho que teme a proximidade da morte, o ser humano experimenta, todos os dias de sua vida, a angústia. Esta, por sua vez, alvo das atenções e intensas palavras de Kierkegaard e Sartre  ́e, para mim, ponto crucial na vida humana.</p>



<p>Segundo Sartre, <em><strong>escolher ser isto ou aquilo  é afirmar, ao mesmo tempo<br> o valor do que escolhemos, porque nunca podemos escolher o mal, o que escolhemos é sempre o bem, e nada pode ser bom para nós sem que o seja para todos</strong></em>. Portanto, para ele, o homem angustia-se em sua própria liberdade, carregada de responsabilidade, uma vez que escolhe sempre o que é bom, num sentido pessoal e que se estende ao coletivo. De forma distinta, penso que a angústia reside na ausência da liberdade e na impossibilidade humana em escolher o que é bom. A criança chora ante a impossibilidade de saciar sua fome, o adolescente se angustia ante a impossibilidade do amor, e o velho ante a incerteza de sua própria vida.</p>



<p>Para Kierkegaard, <em><strong>a angústia é a liberdade como possibilidade antes da<br> possibilidade</strong></em>, é o conflito entre o desejo e o medo, a permissão e a proibição, e a proibição produz angústia, pois desperta a possibilidade da liberdade. É a luta entre o hermetismo e a revelação,entre o silêncio e a comunicação.</p>



<p class="has-text-color has-background has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color">E indiscutível que a comunicação da angústia tem efeito curativo não só na vida de quem comunica, mas também na de quem escuta, e, nesse aspecto, a arte é ferramenta poderosa. No entanto, pode-se perguntar que efeito a arte, por si só, produz no indivíduo angustiado?</p>



<p>Certa vez um profeta disse: <em><strong>Ah, minha angústia, minha angústia! Eu me contorço de dor</strong></em>; <strong><em>O meu coração dispara dentro de mim; não posso ficar calado</em></strong>; contudo também constata que, <em><strong>enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e desesperadamente corrupto</strong></em>. Ouço as palavras do profeta e as traduzo como sensatas e perfeitamente ajustadas à mim e ao mundo que me cerca. Como pode emanar, do coração corrupto, inspiração para partilhar a angústia com o outro e esperar que se enxergue seu efeito curativo? Concluo que a arte por si só é ineficaz para esse propósito.</p>



<p>Para que a arte seja eficaz como instrumento da comunicação, e para que a comunicação cumpra seu papel curativo na vida do indivíduo, penso que é necessário submeter o processo criativo à lente da espiritualidade, como um ourives que precisa gravar detalhes sutis numa peça e, para isso, lança mão de um olhar mais sofisticado sobre a mesma.</p>



<p>No entanto, é necessário que essa espiritualidade seja subversiva ao coração humano e vá de encontro às suas concepções e percepções da vida, pois, se a mesma assemelha-se, minimamente que seja, ao coração e às percepções humanas, então, lá estarão a angústia e o sofrimento, e a arte não cumpre seu papel na comunicação curativa. Pelo contrário, conduz ao enclausuramento.</p>



<hr class="wp-block-separator" />



<p><strong>Gustavo da S. Lima</strong> é estudante de engenharia elétrica pela UFJF, cristão reformado, músico, ama teologia, filosofia, churrasco e ”The Creation”de Joseph Haydn.</p>



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<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.artebodoque.com/caderno-artesanal-capa-dura-serie-lacunas-vermelho-frederico-lopes"><img decoding="async" src="https://i2.wp.com/blog.artebodoque.com/wp-content/uploads/2019/08/LACUNAS.png?fit=606%2C606&amp;ssl=1" alt="" class="wp-image-1764" /></a></figure>



<p style="text-align:center" class="has-text-color has-background has-large-font-size has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color">GALERIA</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://twitter.com/NASAEarth/status/1165038267865190401?ref_src=twsrc%5Etfw%7Ctwcamp%5Etweetembed%7Ctwterm%5E1165038267865190401&amp;ref_url=https%3A%2F%2Fg1.globo.com%2Fnatureza%2Fnoticia%2F2019%2F08%2F23%2Fnasa-diz-que-2019-e-o-pior-ano-de-queimadas-na-amazonia-brasileira-desde-2010.ghtml"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/blog.artebodoque.com/wp-content/uploads/2019/08/FOTO-RAFAEL.png?fit=606%2C793&amp;ssl=1" alt="" class="wp-image-1766" /></a></figure>



<p class="has-text-color has-background has-small-font-size has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color"><em>August 2019 is continuing an active Amazon fire season, with large and intense fires burning in the region. <a href="https://twitter.com/NASA">@NASA</a> satellites tracked actively burning fires across South America and captured images of smoke in the last week.</em></p>
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