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	<title>Arquivos saudade em fotografia - Revista Trama</title>
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	<description>Arte, Cultura e Criatividade</description>
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		<title>MICRO CRATERAS, SEU MEDINHO</title>
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		<pubDate>Sun, 27 Jun 2021 21:29:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 097]]></category>
		<category><![CDATA[saudade em fotografia]]></category>
		<category><![CDATA[Talisson Melo]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Tálisson Melo</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Minha missão junto à TRAMA é, de alguma forma, um pacto comigo mesmo, de que vou encontrar tempo, espaço e meios de concentração para traduzir em palavras algo que me fisgue ao longo do mês, geralmente em associação com outras produções artísticas. Dessa vez, me perdi mais do que de costume; foram tantas coisas que não pude parar, muitas fisgadas, e a mente centrífuga. Então trago algo de uma fisgada bem grande, que acaba absorvendo muitas outras, como um buraco negro.</p>



<div style="height:20px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/87ff7-n12-media.jpg?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-16674" data-recalc-dims="1" /><figcaption>N.12 da série “micro crateras, seu medinho” – Tálisson Melo, 2021</figcaption></figure>



<div style="height:20px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<p>Acontece que escrevo vivendo dentro dum cenário real que exala desespero, desamparo, e desvela toda uma máquina de moer carne que já conhecíamos, pois nenhum corte foi de fato tão silencioso que não fosse gerando, mesmo que numa ressonância acumulativa, uma série de traumas – chamamos Brasil. Agora tudo tomou proporções gigantescas que marcam frações de segundo do cotidiano, no mais íntimo e mínimo de tudo – imagens e dinâmicas de escalas globais e microscópicas colidindo com as desigualdades entre continentes, países, regiões, cidades, bairros&#8230; as maneiras como seres humanos vão se juntando, separando, agrupando&#8230; para viver e morrer.&nbsp;</p>



<p>A pandemia embrulha o planeta com a dispersão de um vírus através das conexões sociais de seres humanos no espaço e acaba por fornecer uma série de armas simbólicas para a visão dessa espécie atingida de seres vivos, a humana, criando um outro, um inimigo, que talvez nem seja vivo, mas “intruso” entre nós e “astuto” para “se aproveitar” dessa necessidade vital que temos de respirar, expirar e inspirar. Para existir, temos de borrar todas as fronteiras entre dentro e fora do corpo de cada um, tão constante que se torna algo involuntário, impensado, e acreditamos nesse universo separado do resto que é embrulhado pela pele e forma um corpo que é alguém.</p>



<p>Agora. Cobrindo narinas e a boca. A ideia é não expor as vias aéreas ao que vem de fora. Tapar esse buraco, filtrar o ar, evitar a contaminação por esse ser “infiltrado” entre nós. Isso já é muito pra cabeça. Soma aí um recorte territorial, um Estado, um governo, uma série de ações que estão para além do eu. Do que habita esse corpo a se fechar, num isolamento.</p>



<div style="height:20px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/fdba2-n2-media.jpg?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-16673" data-recalc-dims="1" /><figcaption>N.2 da série “micro crateras, seu medinho” – Tálisson Melo, 2021</figcaption></figure>



<div style="height:20px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<p>Se mesmo antes da pandemia eu já vinha dirigindo muita atenção para as frestas, brechas, fissuras, rachaduras, rugas, fendas, buracos, sulcos, poros, micro-crateras que fazem da pele esse órgão de contato e atrito, que nos isola, impermeabiliza e ao mesmo tempo permite tantas trocas entre dentro e fora, protege e impele, tensão e tesão, exalando odores, com texturas e cores, tantos elementos a carregar dimensões simbólicas, camadas de sentido, índices contraditórios de origens transcendentais e valores arbitrários&#8230;</p>



<p>Com a pandemia, ficou difícil – e acho que não só pra mim, muito pelo contrário – deparar com a latência das aberturas, dos vazios gigantescos que contemos em nós. A sensação de conviver com esses seres tão mínimos que circulam no ar entre corpos e escapam das ondas de luz com seus nano-corpinhos, parece colocar em xeque nossas membranas fronteiriças. Cada 0,1 milímetro de abertura – cerca do tamanho de uma única célula humana – já é suficiente para a passar, de uma só vez, um turbilhão desses vírus de ínfima estatura, seus 0,00015 milímetros munidos de um poder destrutivo para nós que respiramos.</p>



<div style="height:20px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/ad78a-n5-media.jpg?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-16671" data-recalc-dims="1" /><figcaption>N.5 da série “micro crateras, seu medinho” – Tálisson Melo, 2021</figcaption></figure>



<div style="height:20px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<p>O que fazer com esses enormes buracos tão diminutos? Com tanto vazio!&#8230; Há algo de medo. Não um medo banal, das coisas que são notícias, mas um medo que parece brotar no fígado e apertar os músculos quando menos posso esperar. E venho num exercício contínuo de revisar, encarar o vazio, fazer dele morada, condição criativa. Dessa dúvida aguda veio meu encontro psicanalítico com Seu Medinho.</p>



<p>O Senhor Arquimedes Tomas de Braga Velho é (porque sempre será) um oleiro do Vale do Jequitinhonha, tido como um mestre por seu trabalho com o barro. Algumas de suas falas foram registradas e renarradas pelo jornalista gaúcho Mauro Santanaya a partir de sua vivência no nordeste de Minas em vivo contato com Seu Medinho e seu saber-fazer. Fui tomar conhecimento da existência sábia de Seu Medinho por um texto de Mauro publicado na Ilustrada da Folha de S. Paulo, em 30 de Setembro de 1982, intitulado “A razão do oleiro”. Da fala de Seu Medinho me vieram imagens, busquei trabalha-las num processo poético e de autoanálise que também grita pra ser posto pra fora de mim. Usei imagens capturadas da internet, ilustrações de pretensão científica do espaço além do planeta Terra, de seu satélite, a lua, e do que a física chama de buraco negro – também o vazio-cheio que justifica tantas buscas. Misturei numa sequência de fotografias que tirei dum conjunto de impressões feitas com Carolina Cerqueira (durante residência artística na Casa de Cultura/UFJF, em 2012), quando decidimos escanear nossas próprias mãos fazendo diferentes gestos. Em 2021, juntei tudo isso num videopoema: “seu medinho”.</p>



<div style="height:20px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="seu medinho                    /// videopoema de Tálisson Melo, 2021" width="950" height="534" src="https://www.youtube.com/embed/FfipRnLtL7U?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<div style="height:20px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<p>Segue o trecho de “A razão do oleiro”, escrito por Santayana, que tratei de ler em voz alta e gravando para o vídeo:</p>



<pre class="wp-block-verse">Observei-lhe&nbsp;que,&nbsp;
sem gente, para que as coisas?

Medinho disse que Deus podia ter feito coisas para admirá-las,&nbsp;
em lugar de modelar o homem,

que deu no que deu.

- Você sabe que, na verdade, o que o oleiro faz é cobrir o vento, o nada,&nbsp;
porque uma peça de barro é isso: uma separação no vazio.

Eu&nbsp;
quando estou trabalhando,&nbsp;
não penso no vaso, na vasilha:&nbsp;
penso no espaço que eu estou tapando.

Não foi o que Deus fez?
O que ele fez foi isso,&nbsp;
mudar a forma do vazio.&nbsp;
Ou não foi mesmo?

Aí eu não penso no barro, mas&nbsp;
como vai ficar o canto do lugar que eu vou cobrir.</pre>



<p>(a quebra das frases em versos é minha culpa)</p>



<div style="height:50px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<hr class="wp-block-separator" />



<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:22% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/c1d2a-talisson-melo.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-13771 size-full" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p><strong>Tálisson Melo</strong> é Artista-pesquisador. Doutorando em Sociologia e Antropologia na UFRJ. Publicou o livro &#8220;Mesmo Sol Outro&#8221; com Carolina Cerqueira (2018). Atualmente trabalha em projetos curatoriais-editoriais e de pesquisa em Montevidéu, Juiz de Fora e Nova York – emaranhando artes visuais, poesia, design, arquitetura, cinema, história e ciências sociais. @talisson.melo @mesmosoloutro</p>
</div></div>



<div style="height:50px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-flow wp-block-group-is-layout-flow">
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<p></p>
</div></div>



<p></p>
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		<title>CONVERTER SAUDADES</title>
		<link>https://revistatrama.artebodoque.com/2021/05/16/converter-saudades/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 16 May 2021 21:29:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 091]]></category>
		<category><![CDATA[saudade em fotografia]]></category>
		<category><![CDATA[Talisson Melo]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Tálisson Melo</p>
<p>O post <a rel="nofollow" href="https://revistatrama.artebodoque.com/2021/05/16/converter-saudades/">CONVERTER SAUDADES</a> apareceu primeiro em <a rel="nofollow" href="https://revistatrama.artebodoque.com">Revista Trama</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>A saudade é um mundaréu de sensações e sentimentos.</p>



<p>E a palavra saudade é tão polissêmica, ao mesmo tempo vaga e precisa, abarca essa ampla toada que se desdobra em tantas metáforas – ensejo pra muitas letras em português, em poemas de nomes grandes como Clarice, Vinicius, Drummond, Quintana, Conceição Evaristo, Pessoa, Leminski, Paulina Chiziane, Sophia de Mello Breyner Andersen até Camões&#8230; e em canções, tantas que se confundem, como Candeia completado por Zeca Baleiro e Vital Farias e McTha e Jobim e Conká e Marília Mendonça – <a href="https://open.spotify.com/playlist/5EreBCIaLczgDAr8i5akTo?si=2c0007100e994d14">uma longa playlist</a> (bora ouvir num faxinão!).</p>



<p>É!&#8230; saudade evoca e mobiliza muitas vibrações de corpalma – dói, alegra, preenche, rasga, embriaga, é urgente&#8230;</p>



<p>também tantas escalas de distâncias – nos liga e separa do mundo de além morte, do útero, do tempo irremediavelmente passado, de poucos metros e milhares de quilômetros que espalham famílias, amores, amizades&#8230; de profundidades – a saudade que pode emergir tão do nada e igualmente sumir num estalido de qualquer coisa que puxa a atenção pra outra zona, ou ela pode fazer morada por uns dias em corpalma até ir se esvaindo como fio de fumaça do incenso, como nuvem pesada de fuligens de um incêndio em catedral e museu e aldeia e floresta, ou ela pode passar a envolver tudo e a gente que passa a habitar nela, vira casa, a paisagem dos dias&#8230;</p>



<div style="height:20px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<figure class="wp-block-image alignwide size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/f1f79-img1.jpg?w=950&#038;ssl=1" alt="Uma nuvem " class="wp-image-15840" data-recalc-dims="1" /></figure>



<div style="height:20px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<p>e materialidades-sensorialidades – de coisas, bichos, pessoas, lugares, momentos, condições; por cheiros, temperatura, texturas, sabores, formas, cores, agitações, presença, irradiações, projeções, representações, ilusões&#8230;</p>



<p>Longe de mim querer aqui definir a(s) saudade(s). Até porque prefiro manter as minhas um tanto resguardadas de bombardeios da intelectualização – <a href="https://www.youtube.com/watch?v=vCEYrxtlq4s&amp;ab_channel=AtmosferaBrasil"><em>a saudade engole a gente, menina</em></a> (o Chico de novo, oh). Das materializações da saudade, uma frequentíssima é a fotografia. Essa outra coisa que se desdobra em tantas tentativas de definições, mas sempre escorregadia, múltipla, entre presença e ausência indiciais para algo além da superfície matéria que a constitui em imagem. Viajei! Susan Sontag soprou no meu ouvido. Mas é que a imagem acaba passando mesmo por elocubrações mais sistemáticas, ainda mais quando noto nelas umas mil camadas de intenções, interesses, desejos de apreensão, filtrações&#8230;</p>



<div style="height:20px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<figure class="wp-block-image alignwide size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/d5ffe-img2.jpg?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-15844" data-recalc-dims="1" /></figure>



<div style="height:20px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<p>Com os distanciamentos impostos pela pandemia que já se arrasta por mais de um ano inteiro, a variedade de intensidades-escalas-profundidades-materialidades-sensorialidades das saudades parece se potencializar sobremaneira, em expansões e contrações que vem deixado a saudade louca. E no bojo de tanta distância &gt; saudade &gt; fotografia&#8230; fotos-relicário, fotos-recordação&#8230; não precisaram da pandemia nem das estratégias virtuais de sobrevivência artística para se tornarem conceitos.</p>



<div style="height:20px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<figure class="wp-block-image alignwide size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/30e09-img3.jpg?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-15847" data-recalc-dims="1" /></figure>



<div style="height:20px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<p>Na torrente de tanta arte entre sites, lives, meets, rooms&#8230;, me deparei com um conjunto que mexeu com uma saudade minha dum jeito bom que nem sei ainda explicar &#8211; só digo que foi criativo, e por isso é que escrevo disso aqui. O conjunto de cerca de 30 fotografias reunidas na exposição virtual <a href="https://www.asobrasprimas.com/exposi%C3%A7%C3%A3o">Obras primas: onde as saudades se encontram</a>, das artistas <a href="https://www.instagram.com/_barbaravie/">Bárbara Vieira</a> e <a href="https://www.laralima.com.br/">Lara Lima</a>. Pela simplicidade disso que é um afeto íntimo e tece fios ligando corpalmas&#8230;</p>



<div style="height:20px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<figure class="wp-block-image alignwide size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/e7bce-img4.jpg?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-15848" data-recalc-dims="1" /><figcaption>Obras Primas &#8211; 2021 &#8211; Lara Lima e Barbara Vieira</figcaption></figure>



<div style="height:20px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<p>Viu?! Duas primas morando longe uma da outra resolveram “conversar na saudade” através de imagens. E compartilham isso com o mundo, aguçam outras saudades&#8230;</p>



<p>A saudade inundando paisagens d’água, de folhas, do chão, da luz, do escuro, do céu, da parede, da pele, tudo mais que é banal e embala a vida. morada&gt;saudade&gt;encontro. mandei o link da expo pra minha irmã, <a href="https://www.instagram.com/thaismeloo/">Thaís Melo</a>, de quem mais sinto saudade atualmente, porque já fazem três anos que rumamos para cidades-países diferentes e usamos fusos-horários como álibis pra radicalizar o desencontro, com isso a saudade transborda silenciosa. No meio de 2018, fui do Rio para Montevidéu e emendei pra Nova York, ela foi de Juiz de Fora para Lisboa e por lá ficou, eu pra cá voltei. Na atual conjuntura, não tem sido possível nem manter videochamadas frequentes, menos ainda um encontro transatlântico para o <a href="https://vimeo.com/525627411">“fado tropical”</a>. Mas das minguadas interações nossas por whatsapp, ela também foi capturada pelos fios de saudade de Bárbara e Lara, e de algum jeito ficou claro pra mim que tricotamos algo quentinho e aconchegante embaralhando os fios delas com os nossos. Então, maninha me respondeu com essas palavras:</p>



<div style="height:20px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<div class="wp-block-image"><figure class="aligncenter size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/3c022-print-thais.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-15849" data-recalc-dims="1" /></figure></div>



<div style="height:20px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<p>Acho que foi o antropólogo Daniel Miller quem teorizou forte sobre a relação de interdependência ontológica entre pessoas e coisas, chamando atenção para a noção de que <strong>precisamos de coisas para sermos pessoas, assim como as coisas precisam de nós, pessoas, para serem coisas</strong>. Nesse jogo, as imagens, relicários e sensações (coisas?) nos modelam pessoas saudosas, viram pedaços de outras pessoas, um certa-presença, materialidade das relações.</p>



<div style="height:20px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/a1319-img6.jpg?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-15850" data-recalc-dims="1" /></figure>



<div style="height:20px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<p>Pra terminar o texto de um jeito menos cabeçudo e mais perdido em emoção poética, tentando de algum jeito responder minha irmã, que deixei no vácuo, trago um pedacinho já até batido de <em>Nenhum, nenhuma</em> do Guimarães Rosa em seu <em>Primeiras Estórias</em>, que dividi em versos:</p>



<p class="has-text-align-right"><em>“Então o fato se dissolve.<br>As lembranças são outras distâncias.<br>Eram coisas que paravam já à beira de um grande sono. <br>A gente cresce sempre, sem saber para onde.”</em></p>



<div style="height:20px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/af0b2-img5.jpg?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-15851" data-recalc-dims="1" /></figure>



<div style="height:50px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<hr class="wp-block-separator" />



<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:22% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/c1d2a-talisson-melo.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-13771 size-full" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p><strong>Tálisson Melo</strong> é Artista-pesquisador. Doutorando em Sociologia e Antropologia na UFRJ. Publicou o livro &#8220;Mesmo Sol Outro&#8221; com Carolina Cerqueira (2018). Atualmente trabalha em projetos curatoriais-editoriais e de pesquisa em Montevidéu, Juiz de Fora e Nova York – emaranhando artes visuais, poesia, design, arquitetura, cinema, história e ciências sociais. @talisson.melo @mesmosoloutro</p>
</div></div>



<div style="height:50px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-flow wp-block-group-is-layout-flow">
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