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	<title>Arquivos saúde mental - Revista Trama</title>
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	<description>Arte, Cultura e Criatividade</description>
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		<title>O DUPLO</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 04 Apr 2021 21:21:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 085]]></category>
		<category><![CDATA[crônica]]></category>
		<category><![CDATA[saúde mental]]></category>
		<category><![CDATA[Vinícius Lara]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Vinícius Lara</p>
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<p>Era quarta-feira de uma semana banal, dessas muitas desde que entramos em isolamento. No Brasil, sempre foi banal essa história de morte e de falta de governo desde que Bolsonaro assumiu. Por mais que seja mórbido, tem sido nosso &#8220;novo normal&#8221;. Presos em casa e separados de quem faz bem ao pensamento. Salvar vidas é melhor, mesmo que com isso derretam as mentes; afinal, o paraíso vem depois, bem depois disso aqui.</p>



<p>Era quarta-feira à noite, para ser mais preciso. Eu tinha chegado em casa depois do dia inteiro na rua, resolvendo questões de menor importância. Me sentei à mesa para ler as notícias pelo computador quando ele puxou a cadeira que fica na cabeceira, perto de onde o gato cochilava. Pensei que fosse dizer sobre o aniversário que se aproxima na semana seguinte ou que fosse me demover do Tempranillo. Não fez. Acendeu um cigarro. Olhava pra mim sem piscar. A impressão é de que lia pelo reflexo nos meus óculos as mesmas coisas que eu via na tela. Vestia um blusão rosa, calça cáqui; estava descalço, mas de meias. Eu podia ver a borda de uma tatuagem debaixo da manga da camisa. Exceção era o relógio analógico que usava. Um relógio preto, Boss. Eu moro sozinho.</p>



<p>O apartamento é pequeno, embora seja bem dividido. Um quadrado quase perfeito com janelas grandes, de fundos. Nunca vi um vizinho sequer. Desci os nove andares de escada uma ou duas vezes sem usar o elevador, e, depois do clonazepam, não houve uma noite sequer que eu não tenha dormido inteira, e sozinho. Mesmo assim, ele estava sentado ali fumando, me lendo. O duplo.</p>



<p>Particularmente, não gosto de relógios senão como peças estéticas. Comprei um desses smart e foi a grande frustração dos meus quase trezentos reais. Mas ele, ele não usava como enfeite. Ele usava como fita métrica. Naquela cabeceira, eu escutava o ponteiro dos segundos gemendo. Gemia de prazer por passar, e gemia também de desprezo, porque eu não passava com ele. São mais de trinta anos vividos &#8211; dos quais, talvez, cinco ou seis tenham sido icônicos. O corpo, sozinho, não dormia mais. Comia duas vezes ao dia uma comida que, fosse qual fosse, tinha o mesmo gosto de sal e alho. Amava uma mulher que não confiava nele. O duplo era meu tempo ruminando sem glamour na noite desta quarta-feira qualquer.</p>



<p>É esse o muro? Aquele lugar onde se chega, respirando fundo, para dizer amanhã que ontem tudo aconteceu do melhor jeito possível? E assim se repetindo semanalmente, até que uma ponte de safena precise ser feita ou que a próstata inflame? O cigarro do duplo apagou; foi quando acendi o meu. O gato resolveu se deitar no teclado do computador, ronronando. Agora eram dois metrônomos: o felino e o mecânico. Eu, o mesmo.</p>



<p>&#8211; Rapaz, vai acabar isso tudo &#8211; ele me disse, mas a voz não era a minha. Era a voz de um homem velho &#8211; É uma questão de linguagem de amor. Não existe interruptor de afeto. Quem ama, ama o amor, seja lá o que isso for. O que muda é a palavra. Da palavra, a gente duvida; e quando ela fica em falso, os relógios comem pessoas.</p>



<p>Ele dizia isso batendo com o indicador no vidro da mesa, com uma força tão grande que eu cheguei a pensar que poderia quebrar. Por um minuto, tive a sensação de que deveria sentir medo daquilo tudo. Não tinha bebido, nem usado outra droga, mas era eu ali. Medo de mim, em que medida? Estava estranhamente confortável com aquilo.</p>



<p>&#8211; Esquece, já deu. &#8211; De onde estava, ele apanhou meu celular e o levantou na altura da cabeça &#8211; É por você que vai fazer isso. É assim que vai deixar de se distrair. Você está morrendo, menino; está 33 anos mais cadavérico. Quando se muda de cidade? Com quem deseja viver o restante da vida? Desistiu de ir para fora do país? Isso aqui, esquece. Transgrida pelo que e por quem valha a pena.</p>



<p>O gato se levantou do teclado. A quinta temporada de Rick and Morty ganhou um trailer e uma data de estreia. Ainda é quarta-feira à noite, e eu estou com fome agora. Na cadeira que fica na cabeceira, uma camisa cinza pendurada. No celular, uma mensagem que me diz: “<em>uma boa realmente, sempre foi o seu sonho</em>”. Mas, no meu maço de cigarros, estão faltando dois. Não tenho ideia do que aconteceu aqui. Eu moro sozinho?</p>



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<p><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong>Vinícius Lara&nbsp;</strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong>é psicanalista, historiador, fotógrafo amador e um apaixonado pelo absurdo.</p>
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		<title>Quantas vidas vale um corpo perfeito?</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 21 Feb 2021 21:28:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 079]]></category>
		<category><![CDATA[corpo perfeito]]></category>
		<category><![CDATA[Leiliane Germano]]></category>
		<category><![CDATA[opressão de gênero]]></category>
		<category><![CDATA[pressão estética]]></category>
		<category><![CDATA[saúde física]]></category>
		<category><![CDATA[saúde mental]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Leiliane Germano</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Qual o peso de um corpo perfeito na sua vida? Para muitas mulheres, isso custa a própria saúde. Um triste exemplo é a morte de Liliane Amorim, influenciadora digital de 26 anos, ocorrida em janeiro de 2021. A jovem morreu devido às complicações de uma cirurgia de lipoaspiração. Mas esse texto não é apenas sobre a Liliane; é também sobre padrões e dores causadas a tantas mulheres por uma sociedade que propaga o conceito de “corpo perfeito”.</p>



<p>Se você é uma mulher de quase trinta anos como eu, é certeza: você já achou alguma estria, celulite ou curvas pelo corpo em uma das suas visitas ao espelho. E isso é normal e não tem nada de feio &#8211; ainda que, diariamente, você ouça que não é normal e que é feio sim. Esse é seu corpo, suas marcas e suas histórias. Mas então, por que somos ensinadas a todo momento, desde a infância, a odiar nosso corpo? Por que vivemos em constante insatisfação com ele?&nbsp;</p>



<p>Uma pesquisa internacional da Pretty Foundation mostra que 38% das meninas de 4 anos estão insatisfeitas com seus corpos e 34% das crianças com 5 anos pretendem fazer dietas. E não para por aí! No Brasil, um estudo realizado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul com crianças de 8 a 10 anos aponta que 82% das&nbsp;crianças ouvidas desejavam uma silhueta diferente da sua. Entre os principais fatores associados a essa insatisfação estão baixa autoestima e percepção da criança de que havia a expectativa por parte dos pais e dos amigos para que ela fosse mais magra. A Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP) aponta que nos últimos dez anos houve um aumento de 141% nos procedimentos estéticos realizados em jovens de 13 a 18 anos. Além disso, devido à essa alta busca por uma “estética perfeita”, o Brasil também é o quarto maior mercado de produtos de beleza.&nbsp;</p>



<p>Em 2020, a Organização Mundial da Saúde (OMS) chamou a atenção para o fato de que 10% dos jovens brasileiros sofriam com algum distúrbio alimentar. Muitos desses distúrbios ocorrem justamente pela insegurança e a busca por um padrão de beleza que na maioria das vezes é inalcançável. Começamos desde cedo a ver crianças magras e com padrões corporais europeus protagonizando novelas infantis, enquanto meninas gordas são tratadas como tristes e rejeitadas entre os colegas de escola. Meninas que só se tornam pessoas felizes quando passam por dietas e uma transformação corporal drástica. É a partir daí, no período da vida em que formamos toda a nossa base de valores e entendimento do mundo, que recebemos imagens e conceitos que nos fazem acreditar que existe um corpo ideal. Um perfil aceito por todos, onde devemos nos encaixar para sermos aceitas na sociedade.</p>



<p>A jornalista Agnes Arruda desenvolveu a pesquisa “O peso e a mídia: uma autoetnografia da gordofobia sob o olhar da complexidade”, a primeira tese da área da Comunicação no Brasil que aborda o tema gordofobia por esse viés. Através desse estudo, a pesquisadora aponta como a reprodução de produtos midiáticos baseados em padrões de beleza servem de exemplo para as futuras gerações gordofóbicas. Enquanto um mercado midiático e de produção de cosméticos cresce de forma disparada, lucrando com toda uma construção corporal baseada em um padrão que é sempre inalcançável, adquirimos uma visão deturbada sobre nossos corpos desde cedo. Somos ensinadas a nos odiar, a achar que sempre estamos precisando melhorar algo, esconder falhas, emagrecer mais e buscar uma beleza que muda diariamente conforme os lucros da indústria da moda e estética. Somos ensinadas a odiar o espelho e brigar com nosso próprio &#8220;eu”, adoecendo por não nos se encaixarmos em tantos moldes. Quantas de nós precisarão morrer até que os padrões sejam jogados por terra? Precisamos quebrar o preconceito ao redor do corpo gordo e entender que padrões discriminam, violentam e adoecem.</p>



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<p><strong><strong> Leiliane Germano </strong></strong>é jornalista, social media, fundadora do projeto <a href="https://www.instagram.com/papodeminas/">Papo de Minas</a>, feminista, ecossocialista, pesquisadora do tema &#8220;Cultura do Estupro&#8221; e integrante do <a href="https://www.instagram.com/movimentoolga.mg/">Movimento Olga Benário</a> e do <a href="https://www.instagram.com/8mjuizdefora/">Fórum 8M Juiz de Fora</a>. </p>
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