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	<title>Arquivos Territorialização da educação - Revista Trama</title>
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	<description>Arte, Cultura e Criatividade</description>
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		<title>PARA QUE(M) GRADUAMOS?</title>
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		<pubDate>Sun, 07 Mar 2021 21:27:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 081]]></category>
		<category><![CDATA[Fernanda Zeloschi]]></category>
		<category><![CDATA[Formação Acadêmica]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura Teórica]]></category>
		<category><![CDATA[Territorialização da educação]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Fernanda Zeloschi</p>
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<p>Antes de ingressar na graduação de Psicologia, eu já tinha feito algumas escolhas. Dentre elas, a minha preferida: sabia exatamente qual era o tipo de sapato que eu usaria no meu dia-a-dia de trabalho. Saltos altos e grossos. Nos primeiros dias de aula, descobri que outros pés também pareciam ter sonhado o mesmo que eu. Os corredores ecoavam os <em>tec-tec-tec</em>, anunciando o início do turno. Saltos finos, saltos mais altos e saltos plataforma mapeavam o chão até as salas e silenciavam até o horário do intervalo.</p>



<p>Uns tempos depois, já exausta da rotina acadêmica, comecei a me incomodar com as sonoras pisadas da Psicologia. Passei alguns minutos sentada ali, ao lado da porta da sala, após o esvaziamento auditivo. Observando o chão recém encerado, percebi que <em>scarpins</em> não andam em qualquer piso. Provavelmente estão bastante habituados aos prédios modernos do centro da cidade e não chegam a apertar calcanhares porque não percorrem mais do que o caminho até as garagens. Certamente não conhecem os ônibus no horário das seis ou as calçadas das periferias.</p>



<p>Grande parte da literatura da graduação também anda a passadas sonoras, caríssimas e europeias. São teorias que dizem de pessoas que também fazem <em>tec-tec-tec</em> quando caminham. É para elas que aprendemos o que aprendemos, que nos formamos e que prestamos nossos serviços a alto custo. Porque mesmo que esses caminhares não sejam conteúdo nos slides, são ensinados. Não é à toa que os saltos nunca saem de moda entre as pessoas recém formadas. Pelo contrário: estão em alta no mercado. É um projeto quase perfeito.</p>



<p>Do mesmo corredor barulhento e bem encerado, por entre as caminhadas, ao primeiro sinal de silêncio, questiono: para quê essa graduação? O que chega onde esses sapatos não conseguem chegar<em>? Veja você mesma</em>, me sussurram as paredes. Enquanto ainda não estamos em cima dos saltos — ou caso ainda consigamos descer deles —, podemos ir até lá para ouvir e ver com os próprios pés. É possível e preciso sair pela cidade, pedir licença para chegar nos bairros, nas ruas e nas vilas, para deixar as solas aprenderem. É preciso <em>territorializar</em> a formação: porque é o chão que caminharmos durante esses anos que trilharão os caminhos adiante.</p>



<p>Para falar das outras realidades — aquelas que Freud não conheceu — é preciso ir do centro à margem, dos consultórios aos postos de saúde, das avenidas às varandas das casas. É matéria obrigatória observar as praças, os bares e as escolas das regiões que não aparecem nos livros. O que se aprende na faculdade é uma parte das possibilidades.</p>



<p>Por vezes, a Academia <em>glamouriza</em> o saber. Enfeita de saltos altos, anda em carros importados e ocupa os melhores bairros da região. Mas, se fizermos silêncio o suficiente, talvez ouçamos as fissuras convidarem a outras maneiras de caminhar. Para que seja o andar da emancipação, é preciso escuta: Alguns conhecimentos não estão escritos de acordo com as normas ABNT e não são submetidos às revistas científicas. Entretanto, seguem curando, cuidando e transformando. Quase passa despercebido o quanto o saber popular é potência ativa de mudança social. E para conhecê-lo, articulá-lo e facilitá-lo, é preciso aprender a andar com pés descalços. A terra dirá o caminho.</p>



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<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:22% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/73656-fernanda-zeloschi.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-14057 size-full" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p><strong><strong>Fernanda Zeloschi </strong></strong>é estudante de Psicologia e, quando ninguém está olhando, escreve e compartilha seus questionamentos e descobertas na página @<a href="https://www.instagram.com/fazerafetar/">fazerafetar</a>.</p>
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