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	<title>Arquivos Ano 003, N 109 - Revista Trama</title>
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	<description>Arte, Cultura e Criatividade</description>
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		<title>COMO E POR QUE A ARTE DEVE TIRAR A FANTASIA DA MEMÓRIA</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 19 Sep 2021 22:30:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 109]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: Rosane Carmanini Ferraz e Sérgio Augusto Vicente</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="has-text-align-right"><em>Capa: Revista Exame</em></p>



<p>Em 27 A.C., quem subisse as escadarias de um dos templos de Meroé, na capital do Reino de Cuxe (no atual Sudão) passava por uma espécie de catarse: era possível caminhar sobre a cabeça de Augusto, o imperador romano à época. Não a cabeça real, claro, mas uma de bronze de uma das várias estátuas distribuídas nas fronteiras do Império a mando de Amaríneas, a rainha de Cuxe. Um souvenir simbólico para não apenas ser pisado, mas também, provavelmente, para somar numa mágica defesa territorial e identitária.</p>



<p>O foco desse texto não são impérios que hoje tem seus restos presos em museus (o British Museum, para variar, levou a cabeça de Augusto). O episódio só serve para engrossar um caldo que nós provamos recentemente: a comprovação que artefatos, entre estátuas e templos, constroem um senso de memória coletiva, bem como carregam discursos de representatividade. Não à toa, são eles os primeiros alvos quando bate a ressaca naqueles que têm suas lembranças e vivências esquecidas ou violentadas pela imponência simbólica dos corpos de pedra e metal.</p>



<div style="height:20px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<figure class="wp-block-image size-large"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="950" height="496" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/86d0b-1.png?resize=950%2C496&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-18139" srcset="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/86d0b-1.png?w=1200&amp;ssl=1 1200w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/86d0b-1.png?resize=300%2C157&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/86d0b-1.png?resize=1024%2C535&amp;ssl=1 1024w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/86d0b-1.png?resize=768%2C401&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/86d0b-1.png?resize=184%2C96&amp;ssl=1 184w" sizes="(max-width: 950px) 100vw, 950px" data-recalc-dims="1" /><figcaption>A cabeça de bronze extraída da estátua de Augusto, encontrada em Meroé, hoje exposta no Brittish Museum (Inglaterra). <br>Fonte: WorldHistory.org. </figcaption></figure>



<div style="height:20px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<p><strong>Borba-gato e nossa iconoclastia colonial</strong></p>



<p>A estátua de Borba-Gato é o caso mais recente para nós dessa constatação. Um pedaço (meio brega) de uma memória vergonhosa de 4 toneladas e 13 metros de altura localizado no bairro de Santo Amaro, em São Paulo. A estátua de Júlio Guerra (1912-2001) foi inaugurada em 1963 para marcar a comemoração de IX centenário do bairro (que antes era cidade). Na escolha de um símbolo forte para representar a história local, foi escolhido um personagem daquelas terras, o Manuel de Borba-Gato (1649-1718). O bandeirante, caçador de riquezas minerais e escravizador de indígenas e negros, é colocado como um corajoso e altivo desbravador na escultura de pedras, basalto e mármore. No mês de Julho, foi engolido em chamas em um ato assumido pelo grupo <a href="https://www.instagram.com/revolucaoperiferica/?hl=en">Revolução Periférica.</a></p>



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<figure class="wp-block-image size-full is-resized"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/c9ec4-2.png?resize=950%2C633&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-18141" width="950" height="633" srcset="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/c9ec4-2.png?w=984&amp;ssl=1 984w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/c9ec4-2.png?resize=300%2C200&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/c9ec4-2.png?resize=768%2C512&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/c9ec4-2.png?resize=144%2C96&amp;ssl=1 144w" sizes="(max-width: 950px) 100vw, 950px" data-recalc-dims="1" /><figcaption>Ato do Revolução  Legenda: Ato do Revolução Periférica contra o monumento de Borba-Gato, em São Paulo.<br>Fonte: G1. </figcaption></figure>



<div style="height:20px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<p>Monumentos como o de Borba-Gato e o Às Bandeiras de Victor Brecheret (com quem Júlio Guerra estudou, inclusive) fazem parte de uma narrativa de construção identitária paulista que é fantasiosa. <a href="https://www.bbc.com/portuguese/brasil-53116270">Como conta o historiador Paulo César Garcez Martins</a>, foi graças ao Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo (IHGSP), criou-se no fim do século XIX um heroísmo bandeirante onde esses personagens alimentaram um imaginário de união e coragem que foi bastante conveniente durante a Revolução de 1932. No caminho, impulsionou uma memória coletiva repleta de omissão: os centenas de milhares de negros e indígenas vitimados pelos “desbravadores” ficaram de fora da história de sucesso que fundou monumentos como o de Santo Amaro.</p>



<p>O curioso é que a estátua de Borba-Gato já nasceu criticada, mas só pela estética duvidosa. Chamavam de “monstrumento”. <a href="https://acervo.estadao.com.br/noticias/acervo,autor-de-estatua-de-borba-gato-defendeu-sua-criacao-o-povo-ama-minha-obra,70003791608,0.htm">Júlio Guerra defendia </a><a href="https://acervo.estadao.com.br/noticias/acervo,autor-de-estatua-de-borba-gato-defendeu-sua-criacao-o-povo-ama-minha-obra,70003791608,0.htm">&nbsp;</a><a href="https://acervo.estadao.com.br/noticias/acervo,autor-de-estatua-de-borba-gato-defendeu-sua-criacao-o-povo-ama-minha-obra,70003791608,0.htm">s</a>ua criação como um tipo de arte popular, como algo fácil de entender, de abraçar. Em 1972, ele se defendia das críticas no “Jornal da Tarde”:</p>



<p><em>“Detesto cemitério e os monumentos que parecem túmulos em praça pública. O meu Borba Gato não é isso, porque é colorido, alegre, folclórico. Ele se harmoniza com a paisagem que o cerca. Falam que suas linhas são muito retas. Ora, um bandeirante tem que ser austero, tem que ter dignidade.”</em></p>



<p>Em um tempo histórico que consegue ouvir melhor e entender aqueles que tiveram sua história violentada, é fácil perceber o quão problemático é a imagem do Borba-Gato. Num país onde a esmagadora maioria das elites é descendente de colonizadores europeus, que impuseram – entre outras tragédias &#8211; seus hábitos culturais, manter a imagem monumental desses personagens é contribuir para a narrativa da história que privilegia, como faz desde a década de 30 pelo menos, o lado vitorioso e “bom” dessas figuras. Jurandir Augusto Martim, indígena e professor na Escola Estadual Indígena Djekupe Amba Arandu, comentou em <a href="https://brasil.elpais.com/brasil/2017/09/02/politica/1504310652_774711.html">entrevista ao El País</a>: “Essa é a parte mais difícil do ensino de história: explicar para crianças por que homens que foram responsáveis por massacres e escravidão de indígenas ainda serem homenageados em todas as partes”.</p>



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<figure class="wp-block-image size-full"><img decoding="async" width="950" height="634" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/136c4-3.png?resize=950%2C634&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-18143" srcset="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/136c4-3.png?w=1024&amp;ssl=1 1024w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/136c4-3.png?resize=300%2C200&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/136c4-3.png?resize=768%2C512&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/136c4-3.png?resize=144%2C96&amp;ssl=1 144w" sizes="(max-width: 950px) 100vw, 950px" data-recalc-dims="1" /><figcaption>“Monumento às bandeiras”, de Victor Brecheret (1953), pichado em 2016. Fonte: Veja. </figcaption></figure>



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<p>Mas então, como explicar? O problema, penso eu, não é exibir o nome ou rosto desses personagens problemáticos, mas expô-los assim, como gigantescos cartazes de boas-vindas, elementos permanentes da paisagem que resistem ao tempo e às contestações. O Revolução Periférica abriu o debate não apenas sobre a relevância de Borba-Gato, mas do espaço dado à sua memória atualmente. Como resposta, a polícia prendeu Danilo de Oliveira, Thiago Vieira Zem e Paulo Roberto da Silva Lima, criador do Revolução Periférica.</p>



<p><strong>Os problemas da memória coletiva</strong></p>



<p>Nesse caldo de situações e discursos, também provamos um debate entorno da memória e seu valor social. Para o antropólogo Joel Candau, uma memória completa só pode ser individual, porque assume valores muito íntimos, mesmo que seja nos pequenos detalhes. Em seu livro “Memórias e identidade: do indivíduo às práticas holísticas”, Candau comenta que toda experiência vivida ou comunicada sempre se grava subjetivamente em nós, se misturando ao repertório de cada um. Isso inviabiliza uma memória coletiva integral (todo mundo pensando e lembrando igual das mesmas coisas). Em pesquisas de campo, o antropólogo francês acompanhou a transmissão oral de histórias entre moradores de comunidades pequenas na França. Percebeu que, de uma geração para a outra, as memórias iam se transformando a partir das experiências de cada um.</p>



<p>São nos monumentos públicos, que Candau chama de “marcos memoriais”, que as diferentes formas de lembrar são colocadas em choque, já que suscitam memórias distintas em cada indivíduo sobre aquilo que procura comemorar. Por isso, eles são alvos quando as disparidades vêm à tona.</p>



<p>Buscando um termo mais preciso e justo que “vandalismo” para o que aconteceu com a estátua do bandeirante em São Paulo, podemos falar em “Iconoclastia vinda de baixo”, <a href="https://www.artnews.com/art-in-america/features/beheading-monumental-statues-protest-history-1202691924/">cunhado pelo historiador da arte</a><a href="https://www.artnews.com/art-in-america/features/beheading-monumental-statues-protest-history-1202691924/"> </a><a href="https://www.artnews.com/art-in-america/features/beheading-monumental-statues-protest-history-1202691924/">Martin Warnke</a>. Foi usado para descrever ações como as retiradas de estátuas do Black Lives Matter, no ano passado, descrevendo como uma maneira simbólica de lutar contra um tipo de opressão cultural que é reforçada por uma narrativa hegemônica. O oposto dela, a “iconoclastia vinda de cima”, é o que já conhecemos e pouco foi problematizado no passado: a destruição de valores culturais dos povos marginalizados por parte dos dominadores, com práticas violentas pouco lembradas nas comemorações oficiais.&nbsp;</p>



<p><strong>Retrabalhar traumas é também um trabalho estético</strong></p>



<p>Então, a única forma de lidar com categorias de monumentos como Borba-Gato e outros que celebram memórias problemáticas é através de sua destruição? Não necessariamente. A memória ainda vai existir e um passado em que essas figuras foram celebradas não vai ser apagado. Essa memória tem que ser retrabalhada, reinterpretada e apresentada na forma que melhor represente nosso pensamento atual.</p>



<p>Em entrevista à <a href="https://gamarevista.uol.com.br/podcast/podcast-da-semana/lilia-schwarcz-o-que-voce-lembra/">Revista Gama</a>, a antropóloga e professora Lilia Schwarcz fala da necessidade de uma “contramemória”, em que monumentos do “imaginação colonial” não seriam distribuídos, mas teriam sua história contada de forma justa e atualizado, com caráter traumático evidenciado. As soluções poderiam ir desde a colocação de legendas e textos explicativos até a deslocação dos monumentos dos locais originais para museus. Passariam por nova consideração, um retrabalho da memória.</p>



<p>Uma maneira de produzir materialmente essa “contramemória” e ocupar o espaço público com imagens que problematizem os discursos e memórias problemáticas são os contra-monumentos, uma forma “alternativa” arte pública dita comemorativa questiona os típicos monumentos tradicionais. Eles renegociam o papel tipicamente atribuído a determinadas temáticas no ambiente público, com frequência voltando-se para episódios trágicos, sensíveis e ignorados, ou, para memórias que precisam de novas representações.&nbsp;A prática é recente, da segunda metade do século XX.</p>



<p>James E. Young, um dos primeiros autores sobre o assunto, publicou em 1992 o texto “O contra-monumento: a memória contra si mesma na Alemanha hoje” olhando sobretudo para a maneira com que artistas contemporâneas trataram o envolvimento alemão na 2ª Guerra Mundial depois do conflito. Um bom exemplo vem de lá, em 1982, quando a cidade de Hamburgo fez um concurso público para construir um contra-monumento em oposição a um já existente, uma escultura de 1936 de Richard Kuöhl’s em homenagem à uma infantaria alemã da 1ª Guerra Mundial. A percepção no fim do século era de que a obra glorificava a guerra e produzia uma visão problemática da participação alemã na escalada fascista da Europa. Em vez de destruir o que lá estava e apagar a história, a cidade realizou um concurso para um contra-monumento, surgindo o “Memorial contra Guerra e o Fascismo” de Alfred Hrdlicka’s em 1985–6, que era muito mais objetivo em tratar do terror do tema.</p>



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<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="950" height="633" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/6253a-4.png?resize=950%2C633&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-18145" srcset="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/6253a-4.png?w=1920&amp;ssl=1 1920w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/6253a-4.png?resize=300%2C200&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/6253a-4.png?resize=1024%2C682&amp;ssl=1 1024w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/6253a-4.png?resize=768%2C512&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/6253a-4.png?resize=1536%2C1023&amp;ssl=1 1536w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/6253a-4.png?resize=144%2C96&amp;ssl=1 144w" sizes="(max-width: 950px) 100vw, 950px" data-recalc-dims="1" /><figcaption>&#8220;Memorial contra a Guerra e o Fascismo&#8221;, de Alfred Hrdlick&#8217;s, hoje instalado em Viena (Áustria).<br>Foto: UOL</figcaption></figure>



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<p>Um contra-monumento pode surgir como resposta a um monumento específico já existente ou através da leitura de discursos e temas que precisam de uma oxigenação. Quando é “bem-sucedido”, digamos assim, consegue preencher lacunas de discussões que narrativas oficiais desconsideram, bem como indicar feridas ainda não tratadas no imaginário social. Um dos horizontes possíveis é justamente a problematização e atualização do espaço dado à memória de personagens problemáticos na construção de uma suposta identidade coletiva.</p>



<p>O debate também é estético, pois um monumento tradicional trabalha memórias oficiais de uma forma específica – no estilo típico das esculturas de praça, por exemplo. Em vez de naturalismo, materiais duráveis, autoridade e espaços reclusos atribuídos aos monumentos tradicionais, os contra-monumentos geralmente encontram uma materialização mais subjetiva, abstrata e aberta às interpretações. Nossas identidades materializam-se em monumentos e imagens, e essas criações carregam os conflitos e incoerências que também compõem o mundo real. Os traumas não vão ser apagados e suas memórias ainda vão permanecer, mesmo que as pedras se desgastem. Nosso trabalho atual parece ser tirar a fantasia da memória, colocá-la no presente. Que nosso passado foi escrito com muito malabarismo romântico e apagamento étnico já é claro para nós (não ainda para todos). Precisam contar também às estátuas ou construir novas que já saibam de cor.</p>



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<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:22% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img loading="lazy" decoding="async" width="563" height="563" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/a0404-renan-archer.png?resize=563%2C563&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-18138 size-full" srcset="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/a0404-renan-archer.png?w=563&amp;ssl=1 563w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/a0404-renan-archer.png?resize=300%2C300&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/a0404-renan-archer.png?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/a0404-renan-archer.png?resize=96%2C96&amp;ssl=1 96w" sizes="(max-width: 563px) 100vw, 563px" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p><strong><strong><strong><strong>Renan Archer</strong></strong></strong></strong> é graduado em Artes Visuais pela Universidade Federal do Paraná e mestrando em História pela mesma instituição. Atua enquanto redator, curador e pesquisador, com principal interesse nos debates em história e crítica da arte contemporânea em espaços públicos. Já escreveu para o Curitiba Cult, A Escotilha e hoje colabora também com o jornal Plural.</p>
</div></div>



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		<title>PATRIMÔNIO CINEMATOGRÁFICO DA CARRIÇO FILM: UMA LONGA &#8220;SAGA&#8221; DE PERDAS E RECOMEÇOS</title>
		<link>https://revistatrama.artebodoque.com/2021/09/19/patrimonio-cinematografico-da-carrico-film-uma-longa-saga-de-perdas-e-recomecos/</link>
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		<pubDate>Sun, 19 Sep 2021 22:29:00 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>por: Rosane Carmanini Ferraz e Sérgio Augusto Vicente</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Conhecida pelo <em>slogan</em> “tudo vê, tudo sabe, tudo informa&#8221;, a <em>Carriço Film </em>produziu imagens que permeiam o imaginário coletivo do município de Juiz de Fora e região. A empresa cinematográfica foi fundada pelo cineasta, fotógrafo, pintor e exibidor de filmes, João Gonçalves Carriço (1886-1959). Através da produção dos cinejornais e do registro fotográfico em <em>still </em>(fotógrafos de cena), diversos eventos de caráter político, econômico, cultural, social, esportivo e religioso foram registrados entre 1933 e 1956.</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; João Carriço é considerado um dos pioneiros do cinema mineiro e brasileiro. O cineasta era filho do imigrante português Manoel Gonçalves Carriço, proprietário de uma empresa de carruagens e de serviços funerários na cidade. Com duração média de seis a dez minutos, seus cinejornais eram exibidos no <em>Cine Teatro Popular</em>, de sua propriedade, inaugurado em 1927.</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O <em>Cine Teatro Popular</em> era denominado pelo próprio fundador como “o amigo do povo”, devido à exibição de filmes a preços módicos, que favoreciam o acesso pelas classes populares. Mesmo com o encerramento das atividades da empresa, em função de dificuldades financeiras, o <em>Cine Popular</em> continuou em atividade até 1966.</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A partir de então, iniciou-se uma verdadeira saga no processo de preservação do material audiovisual produzido pela empresa. Já no final da década de 1960, a família Carriço doou ao Museu Mariano Procópio (MG) alguns objetos (câmera e projetor de filmes), documentos (retrato a carvão, certificados de censura, panfletos publicitários e outros itens avulsos), bem como parte da produção audiovisual da empresa (rolos de filme e cerca de 3000 fotografias).</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Atualmente, parte dessa produção cinematográfica encontra-se depositada na Cinemateca Brasileira, em São Paulo. Mediante o cenário de abandono e descaso enfrentado pelo patrimônio cultural brasileiro – inclusive o cinematográfico –, os trabalhadores da área de cultura de Juiz de Fora manifestam grande preocupação com a salvaguarda e preservação desse acervo.</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Quem não conhece a trajetória dos rolos de filme da empresa pode estar se perguntando: afinal de contas, por quais razões esse acervo não se encontra depositado no Museu Mariano Procópio ou em alguma outra instituição cultural juizforana?</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Para responder a essa pergunta, fez-se necessário investigar a trajetória desse material nos arquivos do Museu Mariano Procópio. Nos registros institucionais da gestão de Geralda Armond, verifica-se que parte dos rolos já se encontrava sob a guarda da instituição em 1966. Também foi possível constatar preocupação por parte da administração municipal e da então diretora do museu com a preservação desse material e o risco oferecido às demais coleções da instituição. A composição química do material – à base de nitrato – é geradora de potenciais riscos de autocombustão, quando não submetido às condições adequadas de climatização.</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; No relatório de 1976, consta que, em caráter provisório, “a municipalidade determinou que fossem depositados os filmes da <em>Carriço</em> numa pequena sala ao lado do orquidário no parque do museu, adaptando-a com ar condicionado”. Nas palavras de Geralda Armond, “fui muito objetiva e clara no meu despacho quando, da aquisição dos filmes para o Museu Mariano Procópio, não permitindo fosse esse material levado para o interior do museu, visto ser ele auto-inflamável”. A diretora, reconhecendo o material como “altamente cultural”, considerava louvável que este fosse adquirido pela instituição, mas, ao mesmo tempo, lembrava às autoridades municipais competentes da época o perigo que representava aquele material celulóide dentro de um museu”. Destacava, ainda, a necessidade de se converter os filmes em “material moderno, que não oferecesse perigos à Casa”.</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ao longo do ano de 1976, verificam-se algumas cartas trocadas entre Geralda Armond e o então secretário municipal de cultura de Juiz de Fora, Joel Neves, nas quais manifestavam preocupações com a preservação do referido acervo. Ambos tratavam, por exemplo, da confecção de prateleiras para acondicionamento dos filmes e do monitoramento de temperatura da “saleta da Sociedade de Orquidófilos de Juiz de Fora”.</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Em 1977, Geralda Armond escreve a Francisco Antonio de Mello Reis, então prefeito de Juiz de Fora, solicitando a retirada e transferência dos filmes da referida “saleta”, para um local mais adequado à sua conservação. Foi assim que, nesse mesmo ano, o acervo foi remanejado para São Paulo, onde permanece até hoje: “[…] Esses filmes foram encaminhados para São Paulo, pelo Sr. secretário de Cultura, Dr. Mauro Marsicano Ribeiro, onde sofrerão tratamento técnico, invertendo-os, inclusive, em material não perigoso”.</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Passadas várias décadas dessa transferência, a saga se reinicia, com o recente incêndio ocorrido na Cinemateca Brasileira, que apagou parte importante da memória audiovisual do país. Tendo em vista o atual cenário caótico, faz-se urgente discutir possibilidades e alternativas para salvaguardar esse acervo da <em>Carriço Film. </em>Como uma estratégia de conscientização acerca da relevância histórico-cultural dessa produção cinematográfica, torna-se fundamental a ampla divulgação do acervo da empresa como um todo.</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Nesse sentido, o Departamento de Acervo Técnico e Ações Culturais da Fundação Museu Mariano Procópio procedeu à realização de pesquisa na documentação institucional – como relatórios e outros documentos administrativos. Efetuou-se, ainda, o levantamento de itens nos diversos setores da instituição.</p>



<p>            Em seguida, elaborou-se um inventário da coleção <em>Carriço Film, </em>depositada no Arquivo Histórico do Museu. Essa coleção, como outras, foi submetida às ações de preservação, investigação e comunicação, constitutivas do chamado “tripé da museologia”. Esse instrumento de busca, que visa a qualificar a coleção através da sistematização dos itens documentais e de pesquisas sobre seu contexto de produção, subsidia e favorece o atendimento às demandas internas e externas de pesquisa. Além disso, o acervo foi higienizado, acondicionado e digitalizado. Os dois últimos procedimentos, particularmente, também contribuem para a sua conservação, uma vez que minimizam o contato físico direto com os originais.</p>



<p>A pesquisa e a organização desse acervo também possibilitaram a sua requalificação e, consequentemente, maior divulgação ao público, através de publicação de textos, produção de <em>live</em> e vídeos. Acredita-se que essa iniciativa, ainda que não seja suficiente para transformar o atual cenário e superar os inúmeros desafios enfrentados diante do abandono da Cinemateca Brasileira, possa mobilizar, de alguma maneira, ações emergenciais para proteção do patrimônio audiovisual legado ao país pela <em>Carriço Film</em>. E não apenas isso: é urgente que se reafirme no Brasil a necessidade de políticas de Estado que garantam a preservação e o acesso a esse bem cultural pelas próximas gerações.</p>



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<p><strong>REFERÊNCIAS</strong></p>



<p>FUNDAÇÃO MUSEU MARIANO PROCÓPIO – Departamento de Acervo Técnico e Ações Culturais – Arquivo Histórico. <em>Inventário da Coleção Carriço Film</em>. Juiz de Fora: Mapro, 2020. E-mail para solicitação de consulta: mapro.dep.acervo@pjf.mg.gov.br</p>



<p>MEDEIROS, Adriano. <em>Cinejornalismo Brasileiro:</em> uma visão através das lentes da Carriço Film. Juiz de Fora: Funalfa, 2008.</p>



<p>SIRIMARCO, MartHa. <em>Carriço:</em> o amigo do povo. Juiz de Fora: Funalfa, 2005.</p>



<p>VARGAS, Renata. A prática esportiva nas telas de João Carriço. Revista Trama: Arte, Cultura e Criatividade, Juiz de Fora, ano 3, n. 80, 28 fev. 2021. ISSN: 2764-0639. Disponível em:</p>



<p>&nbsp;<a href="https://bodoqueonline.art.blog/2021/02/28/a-pratica-esportiva-nas-telas-de-joao-carrico/">https://bodoqueonline.art.blog/2021/02/28/a-pratica-esportiva-nas-telas-de-joao-carrico/</a>. Acesso: 15/09/21.</p>



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<div class="wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow" style="flex-basis:66.66%">
<p class="has-text-align-right"><br><strong>Rosane Carmanini Ferraz</strong> é professora de História e historiadora. Trabalha no Museu Mariano Procópio e na Fundação Caed/UFJF. Possui graduação em História, especialização e mestrado em Ciência da Religião (PPCIR/UFJF) e doutorado em História (PPGHIS/UFJF).</p>
</div>



<div class="wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow" style="flex-basis:30%">
<div class="wp-block-image"><figure class="alignright size-large is-resized"><img loading="lazy" decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/8ef28-rosane-carmanini.png?resize=260%2C260&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-14044" width="260" height="260" data-recalc-dims="1" /></figure></div>
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<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:22% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img loading="lazy" decoding="async" width="599" height="601" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/ed01b-sergio.png?resize=599%2C601&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-13196 size-full" srcset="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/ed01b-sergio.png?w=599&amp;ssl=1 599w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/ed01b-sergio.png?resize=300%2C300&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/ed01b-sergio.png?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w" sizes="(max-width: 599px) 100vw, 599px" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p><strong><strong><strong><strong>Sérgio Augusto Vicente</strong></strong></strong></strong> é Professor de História e historiador. Graduado, mestre e doutorando em História pelo PPGHIS/UFJF. Atualmente, trabalha no Museu Mariano Procópio – Juiz de Fora – MG. Dedica-se a pesquisas relativas ao campo da história social da cultura/literatura, sociabilidades, trajetórias e memórias.</p>
</div></div>



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		<title>NOVOS SIGNIFICADOS ATRAVÉS DA PLURALIDADE QUE CONSTITUI O &#8216;NÓS&#8217;: A QUEM SERVE ISTO QUE CHAMO DE SER HUMANO?</title>
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		<pubDate>Sun, 19 Sep 2021 22:28:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 109]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: Cyndi Lauper S. de Freitas</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Caetano Veloso, em sua música “Divino maravilhoso” nos diz: “É preciso estar atento e forte! Não temos tempo de temer a morte”. Contudo, observo ao meu entorno e antes da brecha de conseguir contemplar seres humanos com o “seu telencéfalo altamente desenvolvido e polegar opositor” (Ilha das Flores, 1989)[1], vejo Frankensteins ambulantes moendo a si e gastando outros por uma vida que se findará em<br>si mesma e que em pouco expressa as suas paixões mais entranhadas. Se fala muito sobre morte física, mas, quem ousará dizer sobre os golpes fatais que matam a alma? Proseiam amor e em amor ao próprio ego: escarram ódio, distorcem ofícios, assaltam esperanças, deturpam um futuro que não era, mas já se foi. Com um discurso galante, prometem “pão”, enquanto o “circo” somos nós mesmos e toda a construção arquitetada para roubar nós de nós. Como, então, viveremos?</p>



<p>Optar por ser alguém de alma e rosto, ainda que trincada e costurada, marginalizada e caluniada; para mim, é a mais heroica das escolhas e, também, a mais inclemente. Uma vez descobrindo seu eu real, por além das expectativas lhe imputadas e/ou superestrutura que controla os corpos e forma subjetividades, jamais conseguirá se amesquinhar em tentar ser outros que não você mesma e/ou se reduzir a caixas formatadas e discursos monopolizados que em pouco ou nada te representam. Talvez essa escolha e<br>não rendição lhe custe algo, senão tudo. Até lá, “na calmaria que antecede a dor” (Arrais, 2015) [2] , o autoconhecimento te introduzirá na escalada de uma íngreme montanha, que antes de bússola, irá te dilacerar e exigir a criativa capacidade de reconstruir a partir do não pronto. Neste ponto de partida, “tudo, tudo, tudo, tudo o que nóis tem é nóis” (Emicida, 2019) [3] sendo convidadas a refletir: Quem, de fato, somos? O que nos importa? Quais caminhos queremos (ou não) seguir?</p>



<p>Calar. Observar. Sentir. Ser rasgada pelo não dito até inundar, transbordar, transformar. Embora o silêncio possa parecer inócuo aos que de foram observam, é, na verdade, possibilidade de reexistência. Descoberta e encontro com os tons de si que se perderam, lhes foram furtados e/ou apagados pela muita performance do ideal que rouba o real, restando apenas o que poderia ser, mas não é.</p>



<p>René Descartes (1596-1650) enunciou o seu postulado central: “Penso, logo existo”. Mas, seria a razão capaz de iluminar aquilo que o ser ainda não soube nomear? É preciso se haver com a inquietude e aprender a bailar com o que até então é mistério a ser descortinado. Mais do que verdades já acabadas, dualidades que cerceiam e/ou instrumentalização do discurso, ser humano é ser processo inacabado, real incompleto, muitos para continuar um. Nada pode nos conter! Somos este mundo vasto e imenso, então, “esteja preparada para si e pro tamanho do universo que habita em você. Por vezes ele explode e escapa. E, faz vítimas. Ou melhor: humanos” (Silva, 2018).</p>



<p>E, neste lugar, sempre múltiplo e heterogêneo, subvertermos a nós mesmas em um intervalo de ouvir a própria voz e erguê-la em favor daquilo que nos importa. Seguimos no silêncio das dores ainda a desembaraçar, buscando fôlego entre frestas que, por vezes, nenhum consolo permanente parece nos dar. Nos forjamos resistência sob ombros de promessas não cumpridas, enquanto os pés se encontram calejados, mas a alma sempre disposta a sonhar, gritar, esperançar.</p>



<p>Aliás, as correntes que outrora aprisionaram as nossos ancestrais nos lembram que a utopia nos faz caminhar (Galeano, 1994) em busca da liberdade de ser, estar e se constituir enquanto sujeito, sociedade e nação que reverbera o som ignorado, mas que jamais poderá ser calado: somos potência! “Somos o que mataram e não morreu, o que dança sobre os cactos e a pedra bruta – somos a luta” (Santos et al, 2005, p. 93). </p>



<p>Por fim, evoco o espírito de denúncia e confronto da filósofa existencialista e escritora francesa Simone de Beauvoir (1908-1986) que ao afirmar que nada deve nos definir, que nada deve nos sujeitar, que a liberdade deve ser a nossa própria substância, nos lembra que, antes de qualquer meia verdade, somos porque somos e não porque nos idealizaram para então “sermos” artigo de luxo que supre a falta que a falta faz no outro.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-default is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p><br>Pode ser que eu nem veja, nem perceba<br>Que tinha uma cerca ali me impedindo apenas de ser<br>Se tiver mais alguma, eu atravesso, eu me rasgo todo<br>Eu sangro, eu morro sem medo de ver<br>Que no meio da relva, brotou a semente daquela canção<br>Vento derruba as folhas, dos galhos já secos do meu coração<br>Não há como ficar inteiro nesse roçado<br>Arar a terra e não trazer nos dedos os calos<br>Plantar suas sementes sem pegar na enxada</p><p>Sem enfiar a mão na terra, sem chorar sangue e água<br>Ser humano é estar entre o imediato e o imortal<br>É a luta interna e bruta do bem para vencer o mal<br>É desatar os nós entre o eu e nós<br>Entre o pré e o pós<br>Entre a multidão, mas a sós<br>(Atravesso, Rico Ayade)</p></blockquote>



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<p>[1] Curta metragem brasileiro, do gênero documentário, escrito e dirigido pelo cineasta Jorge Furtado em 1989, com produção da Casa de Cinema de Porto Alegre. Disponível em: https://youtu.be/eUEfBLRT37k</p>



<p>[2] Música “O Bilhete e o Trovão”, do EP “As Paisagens Conhecidas” – 2015. Composição por “Os Arrais”. Disponível em: https://youtu.be/xAUjCOGBQs8</p>



<p>[3] Música “Emicida- Principia part. Pastor Henrique Vieira, Fabiana Cozza, Pastores do Rosário”, do álbum AmarElo – 2019. Disponível em: https://youtu.be/kjggvv0xM8QC</p>



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<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:22% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img loading="lazy" decoding="async" width="720" height="714" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/76ef4-cyndi-lauper-de-freitas.png?resize=720%2C714&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-18169 size-full" srcset="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/76ef4-cyndi-lauper-de-freitas.png?w=720&amp;ssl=1 720w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/76ef4-cyndi-lauper-de-freitas.png?resize=300%2C298&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/76ef4-cyndi-lauper-de-freitas.png?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/76ef4-cyndi-lauper-de-freitas.png?resize=97%2C96&amp;ssl=1 97w" sizes="(max-width: 720px) 100vw, 720px" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p><strong><strong><strong><strong>Cyndi Lauper S. de Freitas </strong></strong></strong></strong>é mulher latino americana, seguidora do favelado preto de Nazaré. Discente de Psicologia pela Faculdade Machado Sobrinho (FMS), de Juiz de Fora &#8211; Minas Gerais. Membra da Associação Brasileira de Psicologia Social (ABRAPSO). Atual diretora presidenta da MASCI Consultoria, primeira empresa júnior de Minas Gerais. Realiza divulgação científica na Eurekka, maior clínica de terapia online do Brasil. Membra do Grupo de Estudo e Pesquisa em Psicologia, Espiritualidade e Saúde (GEPPES), com interesse na relação entre violência, religião e formação de identidades.</p>
</div></div>



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		<title>DOIS ESTRANHOS</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 19 Sep 2021 22:27:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 109]]></category>
		<category><![CDATA[Criatividade]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: Iverson Silva</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Música suave, diálogo ameno, apartamento descolado, o ar romântico é rompido por um esbarrão na calçada. A chegada do policial Merk com uma abordagem sem justificativa, uso da força, a câmera focada no rosto de Carter só muda de cenário quando ele, enfim, morre.</p>



<p>A associação com o caso George <em>Floyd</em> x Derek Chauvin é inevitável.</p>



<p>Esse é o intuito do premiado filme de Travon Free e Martin Desmond Roe apresenta: uma rotina em que ser negro é o quesito sine qua non para a “presunção de culpa”. São 32 minutos presos em um looping temporal em que o drama ficcional se mostra real.<br><br>E se Carter: mudar o dinheiro de lugar? Não tiver dinheiro? Não for embora? Tomar café? Não encostar em alguém? Não importa. Merk sempre o aborda porque: o cigarro não parece cigarro; tem mais dinheiro do que o “normal”; correu; reagiu&#8230;</p>



<p>O encontro entre dois estranhos continua sendo marcado por uma arma em punho, gritos de ordem, violência excessiva e&#8230; morte!<br><br>Nada adianta.<br><br>Antecipando ações e reações, Carter chama Merk para uma conversa: é a tentativa de chegar em casa, manter-se vivo. A roda em movimento é a nova cena: Merk no banco da frente e Carter no banco traseiro. O dialogo improvável é a tentativa de criar empatia, vínculo, sensibilização.<br><br>Por um instante sou convencido que será diferente. O carro estaciona, é o fim: aperto de mãos, olho no olho. O alívio é rompido por palmas irônicas e gritos de Merk que, com arma em punho e Carter na mira, questiona todo diálogo:<br><br>&#8220;As vezes, você corre, as vezes você luta quando alguém o estrangula com força&#8230;&#8221;<br><br>Tudo volta do início.<br><br>Carter é um que representa muitos, mortos pelo único “crime”: ser negro! Podia ser “só” sobre o EUA, mas é sobre uma chaga mais profunda: RACISMO. Institucionalizado, cria distorções como o “curta” Dois Estranhos evidencia: não importa o motivo, o contexto, as reações… alguns encontros sempre resultarão em tragédias.</p>



<p>No Brasil em que Negros representam 56,7% da população, mas 74,4% das vítimas da violência letal e 66,7% da população carcerária, percebemos que temos o mesmo problema estrutural permeando as relações de poder. </p>



<p>#vidasnegrasimportam</p>



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<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:22% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img loading="lazy" decoding="async" width="256" height="256" src="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/9ad8f-iverson-silva.png?resize=256%2C256" alt="" class="wp-image-17619 size-full" srcset="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/9ad8f-iverson-silva.png?w=256&amp;ssl=1 256w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/9ad8f-iverson-silva.png?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/9ad8f-iverson-silva.png?resize=96%2C96&amp;ssl=1 96w" sizes="(max-width: 256px) 100vw, 256px" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p><strong><strong><strong><strong><strong>Iverson Silva </strong></strong></strong></strong></strong>é professor de História da Rede Pública, Historiador e Escritor.</p>
</div></div>



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		<title>[PODCAST] Millenials x Zennials</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 19 Sep 2021 22:26:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 109]]></category>
		<category><![CDATA[Trama Podcast]]></category>
		<category><![CDATA[arte]]></category>
		<category><![CDATA[pessoas medíocres]]></category>
		<category><![CDATA[PodCast]]></category>
		<category><![CDATA[pseudo celebridades]]></category>
		<category><![CDATA[redes sociais]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  ARTEcast Bodoque</p>
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<p>Sejam bem-vindas e bem-vindos ao nosso podcast!</p>



<p>No episódio de hoje, nossos queridos amigos Kariston e Fred vão bater um papo sobre o polêmico choque de gerações entre Millenials e a geração Z, também chamada de Zennials. O bate-papo descontraído levanta questões que possam motivar o atrito, sobretudo pela já consolidada rede mundial de computadores.</p>



<p>Siga o nosso ARTECAST através do perfil da Trama (tramabodoque) no Instagram, da Bodoque (artebodoque) e aproveite para seguir o Kariston (karistonfm) e o Fred (fredslopes), nossos dois hosts de respeito!</p>



<p>Então já sabe, coloque os fones de ouvido e boa audição!</p>



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<p>Ouça no Spotify:</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-rich is-provider-spotify wp-block-embed-spotify wp-embed-aspect-21-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe loading="lazy" title="Spotify Embed: Millenials x Zennials" style="border-radius: 12px" width="100%" height="152" frameborder="0" allowfullscreen allow="autoplay; clipboard-write; encrypted-media; fullscreen; picture-in-picture" src="https://open.spotify.com/embed/episode/06I8DNYsc1Z6PHy8TYmqJt?si=JHAqfbd1Qy-RwOEDQ76G5g&#038;dl_branch=1&#038;utm_source=oembed"></iframe>
</div></figure>



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<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:22% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img loading="lazy" decoding="async" width="950" height="950" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/7172f-podcast.png?resize=950%2C950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-13420 size-full" srcset="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/7172f-podcast.png?w=1080&amp;ssl=1 1080w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/7172f-podcast.png?resize=300%2C300&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/7172f-podcast.png?resize=1024%2C1024&amp;ssl=1 1024w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/7172f-podcast.png?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/7172f-podcast.png?resize=768%2C768&amp;ssl=1 768w" sizes="(max-width: 950px) 100vw, 950px" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p><strong><strong>O ARTECAST Bodoque</strong></strong> é um canal de aprofundamento das discussões levantas aqui na revista Trama. Nosso objetivo é fomentar o pensamento crítico e a valorização do conhecimento da arte e da cultura como ferramentas capazes de promover mudanças de olhar.</p>
</div></div>



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		<title>COM APOIO  DO UNFPA, EDITAL &#8221; DOCUMENTÁRIOS TRANSFORMAM&#8221; PREMIA OBRAS AUDIOVISUAIS BRASILEIRAS</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 19 Sep 2021 22:25:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 109]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Editais]]></category>
		<category><![CDATA[Mulheres indígenas na pandemia]]></category>
		<category><![CDATA[ONU Brasil]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: ONU Brasil</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="has-text-align-center"><em>O evento on-line de lançamento do Edital Documentários Transformam é uma Iniciativa da Fundação CSN e do DOCSP e selecionará cinco projetos que participarão de três processos formativos entre dezembro de 2021 e maio de 2022.</em></p>



<p class="has-text-align-center"><em>O edital tem apoio do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) e fomenta a discussão de temas relevantes para a sociedade, além de capacitar profissionais e produtoras do meio audiovisual no desenvolvimento de campanhas de impacto.</em></p>



<p class="has-text-align-center">E<em>ntre os prêmios a que os selecionados concorrerão durante o processo, dois são concedidos pelo programa Histórias que Ficam, da Fundação CSN. Em 2021 será entregue o prêmio Work in Progress no valor de até R$ 100 mil. </em></p>



<p class="has-text-align-center"><em>Em 2022, durante a realização do Good Pitch Brasil, acontece a entrega dos prêmios Campanha de Impacto, no valor de até R$ 108 mil. </em></p>



<p class="has-text-align-center"><em>As inscrições para o edital poderão ser realizadas no site <a href="http://www.documentariostransformam.org.br/">www.documentariostransformam.org.br</a> , entre 17 de setembro e 15 de outubro.</em></p>



<div style="height:20px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<figure class="wp-block-image alignwide size-full"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/93ca2-unfpa2.jpeg?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-18131" data-recalc-dims="1" /><figcaption>O edital é direcionado preferencialmente para documentários em processo de produção ou finalização.<br>Foto: © Divulgação</figcaption></figure>



<div style="height:20px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<p>A <a href="https://www.fundacaocsn.org.br/">Fundação CSN</a>, por meio de seu programa de fomento ao documentário brasileiro, Histórias que Ficam, e o <a href="https://www.docsp.com/">DOCSP</a>, através da plataforma internacional Good Pitch Brasil, realizaram no dia 17 de setembro, às 19h, o evento on-line de lançamento do Edital Documentários Transformam, fruto de uma parceria estratégica cujo objetivo é fomentar discussão de temas relevantes para a sociedade e capacitar profissionais e produtoras do meio audiovisual no desenvolvimento de campanhas de impacto. O edital tem apoio do <a href="https://brazil.unfpa.org/pt-br/news/com-apoio-do-unfpa-edital-document%C3%A1rios-transformam-tem-lan%C3%A7amento-line-nesta-sexta">Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA)</a>.</p>



<p>O evento foi transmitido no canal do YouTube da<a href="https://www.youtube.com/Funda%C3%A7%C3%A3oCSN"> Fundação CSN </a>e também nos perfis no Facebook da FCSN e DocSP.</p>



<p>A discussão marca o lançamento do Edital Documentários Transformam. A programação teve a presença dos porta-vozes das instituições organizadoras, de especialistas e da atriz e embaixadora do projeto, Leandra Leal. Também foram apresentados dois cases de campanhas de impacto:<a href="https://youtu.be/54msc18xQ7w"> Limiar (2020)</a>, de Coraci Ruiz e Rodrigo Diaz, um retrato da experiência de transição de gênero a partir do olhar de uma mãe e, <a href="https://www.youtube.com/watch?v=S_pLFRBVDYA">Documentário 9.70 (2012)</a>, uma produção colombiana dirigida por Victoria Solano, cuja campanha exerceu papel fundamental no movimento contra a resolução 9.70, contando a história de um grupo de camponeses de quem o Governo da Colômbia apreendeu e destruiu 70 toneladas de arroz. </p>



<p>Direcionado preferencialmente para documentários em processo de produção ou finalização, o Edital Documentários Transformam selecionará cinco projetos que participarão de três processos formativos entre dezembro de 2021 e maio de 2022: um laboratório de distribuição de impacto, consultorias para o desenvolvimento de campanhas e um laboratório de pitching.&nbsp;</p>



<p>O Fundo de População da ONU promoverá, entre os selecionados e selecionadas, formações sobre enfrentamento ao racismo. Ao final, todos participarão do Good Pitch Brasil, evento criado pela Doc Society, que acontece no primeiro semestre do ano que vem. A edição brasileira do evento é uma co-realização do DOCSP e da Fundação CSN que organizam e fazem a curadoria de todo o processo.&nbsp;</p>



<p>Entre os prêmios a que os selecionados concorrerão durante o processo, dois são concedidos pelo programa Histórias que Ficam, da Fundação CSN. Em 2021 será entregue o prêmio Work in Progress no valor de até R$ 100 mil. Em 2022, durante a realização do Good Pitch Brasil, acontece a entrega dos prêmios Campanha de Impacto, no valor de até R$ 108 mil.&nbsp;</p>



<p>Todos os projetos concorrem aos dois prêmios de forma independente.&nbsp;</p>



<p>As inscrições para o edital poderão ser realizadas no site&nbsp;<a href="http://www.documentariostransformam.org.br/">www.documentariostransformam.org.br</a>, entre 17 de setembro e 15 de outubro.</p>



<div style="height:20px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<p><strong><em>Matéria originalmente publicada em <a href="https://brasil.un.org/pt-br/144868-com-apoio-do-unfpa-edital-documentarios-transformam-premia-obras-audiovisuais-brasileiras">Nações Unidas Brasil</a></em> <em>em 17/09/2021 – Atualizado em 19/09/2021.</em></strong></p>



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<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:22% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img loading="lazy" decoding="async" width="768" height="768" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/3a58a-onu-brasil.png?resize=768%2C768&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-13654 size-full" srcset="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/3a58a-onu-brasil.png?w=768&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/3a58a-onu-brasil.png?resize=300%2C300&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/3a58a-onu-brasil.png?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w" sizes="(max-width: 768px) 100vw, 768px" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong>A ONU (Organização das Nações Unidas)</strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong>&nbsp;é uma organização internacional formada por países que se reuniram voluntariamente para trabalhar pela paz e o desenvolvimento mundiais.</p>
</div></div>



<div style="height:50px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-flow wp-block-group-is-layout-flow">
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<p></p>
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		<title>VERSAILLES</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 19 Sep 2021 22:24:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 109]]></category>
		<category><![CDATA[Criatividade]]></category>
		<category><![CDATA[Vinícius Lara]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Marina Alexiou</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<pre class="wp-block-verse">“Criaturas dos meus sonhos despertam e dançam
Construtoras do meu reino, mágico e inacabado”

Venha sonhar, 
E conhecer os parceiros dos seus sonhos.
Gentis e silentes, curiosos dos seus pensamentos.
Sussurrantes entes que observam o seu coração e ordenam,
As imprevisíveis vontades.
Imperiosos comandos...
Companheiros de Hypnos, desenhem um belo caminho a ser vivido.
No abrir dos olhos desses que te seguem
Sem se perturbar e sem se amendrontar.
És como um rio que corre placidamente 
Mirando-nos desde a sua morada. 
Eternamente próxima
Eternamente invertida...</pre>



<div style="height:50px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



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<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:22% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img loading="lazy" decoding="async" width="685" height="685" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/255de-marina-alexiou.png?resize=685%2C685&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-18178 size-full" srcset="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/255de-marina-alexiou.png?w=685&amp;ssl=1 685w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/255de-marina-alexiou.png?resize=300%2C300&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/255de-marina-alexiou.png?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/255de-marina-alexiou.png?resize=96%2C96&amp;ssl=1 96w" sizes="(max-width: 685px) 100vw, 685px" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p><strong>Marina Alexiou</strong> é mestre em Filosofia pela PUC/SP e estudiosa das Artes. Escritora de prosas poéticas desde 2009, participou do livro “Coimbra em Palavras,  lançado em Portugal em 2018. Gosta de colecionar belas imagens, pois elas a levam para o seu mundo simbólico inspirando a sua escrita.</p>
</div></div>



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		<title>[FOTOPERFORMANCE] Vênus Willendorf Adesivada</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 19 Sep 2021 22:23:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 109]]></category>
		<category><![CDATA[arte]]></category>
		<category><![CDATA[Criatividade]]></category>
		<category><![CDATA[Marco Bulhões]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: Paula Brito</p>
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<div class="wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow">
<p>Na nossa sociedade, o corpo feminino é extremamente cobrado partindo de padrões socialmente estabelecidos desde os primórdios da humanidade, mulheres são confrontadas diariamente, com isso, acabam desencadeando tensões que contribuem para uma crise de identidade, e neste sistema de opressão, o que se deseja ao longo dos anos, é formar um individuo perdido em suas incertezas e vulnerabilidade. Diante disso, quando se pensa o corpo da mulher, são adaptados ou elaborados modelos, em que se busca um corpo específico, que atenda aos interesses de um mercado, enquadrando indivíduos, a um corpo modelado e midiático, sem nenhuma reflexão, construindo verdades, que irão justificar os preconceitos, para isso se faz necessário ampliar o olhar e modificar comportamentos. Para GONÇALVES (1997) e GOELLNER (2008): “o corpo não é algo dado a priori, ele é provisório, mutável e mutante, estando suscetível a várias interferências com relação ao contexto em que ele está inserido”. Contudo, é interessante ressaltar que não se pode pensar o corpo partindo de uma referência, é preciso compreendê-lo como uma construção histórica, social, política, cultural, que se inicia nas relações e instituições sociais.</p>



<p>Ao trazer a obra &#8220;Vênus Willendorf Adesivada&#8221; para contemplação, reflexão, discussão, compartilhando com o público espectador, trago uma reflexão ao passado, partindo da obra Vênus Wilendorf, do período pré-histórico, com seus contornos femininos salientados, seios avantajados e nádegas volumosas, a imagem da mulher relacionada a fertilidade, procriação. A proposta é traçar novos paradigmas para essa mulher, compreendendo-a como um ser plural, heterogêneo, pertencente a um lugar que ela desejar estar. E nesse território de existência, identidade, pertencimento, se precisa desmistificar olhares, ressignificando paradigmas, e a despotencialização de novos territórios de existência, nos reapropiando politicamente do corpo, experimentando possibilidades de relações entre o individuo, a sociedade, fazendo parte de um coletivo.</p>
</div>
</div>



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<div class="wp-block-jetpack-tiled-gallery aligncenter is-style-rectangular"><div class="tiled-gallery__gallery"><div class="tiled-gallery__row"><div class="tiled-gallery__col" style="flex-basis:55.53565%"><figure class="tiled-gallery__item"><img decoding="async" srcset="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/09/4ca49-arteculturasociedade_20210329_095823-1024x1024-1.png?w=950?strip=info&#038;w=600 600w,https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/09/4ca49-arteculturasociedade_20210329_095823-1024x1024-1.png?w=950?strip=info&#038;w=900 900w,https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/09/4ca49-arteculturasociedade_20210329_095823-1024x1024-1.png?w=950?strip=info&#038;w=1080 1080w" alt="" data-height="1080" data-id="18156" data-link="https://atomic-temporary-162935141.wpcomstaging.com/?attachment_id=18156" data-url="https://tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/1a62e-arteculturasociedade_20210329_095823.jpg?w=1024&amp;h=1024" data-width="1080" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/09/4ca49-arteculturasociedade_20210329_095823-1024x1024-1.png?w=950" data-amp-layout="responsive" data-recalc-dims="1" /></figure></div><div class="tiled-gallery__col" style="flex-basis:44.46435%"><figure class="tiled-gallery__item"><img decoding="async" srcset="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/09/a78ee-img_20201202_111402_549-820x1024-1.jpg?w=950?strip=info&#038;w=600 600w,https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/09/a78ee-img_20201202_111402_549-820x1024-1.jpg?w=950?strip=info&#038;w=900 900w,https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/09/a78ee-img_20201202_111402_549-820x1024-1.jpg?w=950?strip=info&#038;w=1042 1042w" alt="" data-height="1302" data-id="18158" data-link="https://atomic-temporary-162935141.wpcomstaging.com/?attachment_id=18158" data-url="https://tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/a18e8-img_20201202_111402_549.jpg?w=820&amp;h=1024" data-width="1042" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/09/a78ee-img_20201202_111402_549-820x1024-1.jpg?w=950" data-amp-layout="responsive" data-recalc-dims="1" /></figure></div></div></div></div>



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<p><strong>Paula Brito</strong> é professora de Artes, artista visual, escritora com dois livros Infantojuvenis publicados, e crônicas, natural de Santo Amaro da Purificação, Recôncavo baiano, atualmente morando em Salvador. Formada em Licenciatura em Desenho e Plástica, pela UFBA, na Escola de Belas Artes, Especialista em Arte, Educação: Cultura Brasileira e Linguagens Artísticas Contemporâneas; Membro da Academia Internacional da Literatura Brasileira. </p>
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		<title>ESTAMOS NO VESTÍBULO, CARO AMIGO</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 19 Sep 2021 22:22:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 109]]></category>
		<category><![CDATA[Criatividade]]></category>
		<category><![CDATA[Vinícius Lara]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Vinícius Lara</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Aconteceu exatamente desse jeito que vou contar. Quando ainda não havia mundo do jeito que o conhecemos, no momento em que Lúcifer sentiu inveja de deus e toda criação foi fendida, algo mais relevante do que a própria queda se passou. É fácil compreender que o criador não pudesse tolerar um assessor invejoso entre os seus, sob o risco de que assim colocasse a perder o respeito dos demais. Era preciso, mesmo necessário, que no teatro daquela ruptura, o Opositor fosse exemplarmente punido. Deus sempre soube que no seu universo existiam defeitos, mas era melhor não dizê-los, sobretudo porque ele sabia bem que era capaz de criar dizendo palavras. Ele sentiu medo de estar nu, sabia que a um deus nunca é dada beleza genuína, senão aos olhos de quem o cultua. Nu e se sentindo pouco atraente, ele traçou uma linha no chão e pediu para que todos da firma se reunissem e escolhessem um lado. Quem concordasse com Jeová, ficasse à direita, e quem escutasse o Outro, fosse à esquerda. Debates ocorreram, e todos eles muito calorosos. Não estava clara a punição para o galante causador da cisão. Deus, por ser deus, não poderia punir efetivamente, afinal, não seria racional que uma infinita bondade criasse de si a maldade sem fim. O mais baixo que poderia lançar seu adversário era na condição de ser humano, e sabendo que Ele esculpiu as pessoas à sua imagem e semelhança, o tribunal era de mentirinha. Um giro de 360 graus.</p>



<p>Seria isso, se o fato de tornar-se ofendido não fizesse dali surgir uma categoria não imaginada: a dos indecisos, dos indiferentes. Alguns daqueles anjos não se importavam com a briga do patrão e do gerente. A eles mudaria pouco. Sabiam das falhas, mas gostavam de estar ali, usufruindo do que podia ser gozado. Entretanto, se há uma linha, há dois lados, não três. Os indiferentes foram a genuína criação de Deus, porque estavam no meio. Nem tinham a energia do mal, nem a do bem. Eram anjos indiferentes, nem à imagem de deus, nem à do diabo, talvez à imagem dos homens, porém com um defeito. Os indiferentes formam bandos, sem jamais criarem laços. Por uma estética contabilística estavam ali, naquele lugar onde não se é nem de um, nem de outro, possivelmente dos dois, provavelmente de ninguém. Onde colocar esses?</p>



<p>Após a contagem dos votos a sentença: os questionadores seriam deportados para o mundo humano onde criariam um reino próprio, o inferno &#8211; a ironia está aí, deus pune seus anjos como a justiça brasileira pune seus juízes corruptos, ou seja, oferecendo aposentadoria, mantendo-se o salário. Os indecisos constrangiam o Pai. Não eram próximos o suficiente de deus para permanecer no céu, ou distantes o necessário para construir o reino do hades. Foi daí que surgiu a ideia vaga, de alocar os indecisos em um vestíbulo do submundo. Ali, sobre o portão dos infernos, antes que se desça aos círculos do pecado voluntário. Como indiferentes e sem laços, não sei dizer se gostaram da decisão, mas é fato que não tinham capacidade de discordar. Gostavam igual dos pelejadores. Dizem que eles habitam ainda hoje sobre os muros do reino inferior. Anjos, bons amigos, folgadores, retos, mas condescendentes. Nem quentes, nem frios o suficiente. Se quiser conferir está no texto de Dante, não com os mesmos detalhes, mas está lá.</p>



<p>O que quero com isso? Ora meu amigo, quero acusar todos eles. Se falo de política? Claro que não, te pareceu? Acredito que a política é feita pelos indivíduos à imagem de deus, cheios de linhas e de suscetibilidades. É a terra dos homens, semelhantes a anjos, que por sua vez são semelhantes a deus. Uma sucessão ininterrupta de tradição. Eu não falo da política te contando como surgiu tudo isso. Estou falando sobre a sina de ser esse sujeito do meio. Quanto mais o tempo escorre dos relógios, tenho certeza maior de que a nossa geração não é descendente de Adão, mas de Pedro.</p>



<p>A mulher não goza porque teme o amor. Ao mesmo tempo, o homem não deseja vínculos, porque receia a liberdade. Diante de um divórcio, os amigos todos sobem no muro, se vestem de vento, enviam mensagens motivadoras à distância. Nada que interrompa um passeio, uma novela, a ida ao circo. Tente o sujeito se matar, então, para ver se os amigos aparecem ou não. Quase sempre batem na porta, implicam com o cigarro, apontam os dedos, conferem os argumentos e depois sobem no muro outra vez. É assim com a amante, e com os filhos em certa idade. Cobram o tempo inteiro honestidade, quando gostariam de pedir, se não corassem de vergonha, mais tempo sem notícias, independência emocional, poliamor, e menos intensidade.</p>



<p>Deus opera no campo da propaganda, e por isso a imagem é importante. “<em>Que tudo corra bem</em>”, “<em>tenha paciência, já vai passar</em>”, “<em>você é forte</em>”, “<em>seja você mesmo</em>”. Pessoas compram esse produto como água, e ele é bom para quem tem gosto de água. Uma vez uma editora de vídeos com quem trabalhei numa campanha eleitoral me chamou de blasé. Logo eu, sardônico e autoproclamado nudista moral? Blasé é não se magoar, é a propaganda de margarina assistida na casa de um espancador de mulheres. deus é blasé.</p>



<p>O diabo é prático, é a formiga da fábula. Te diz: “<em>olha, faz o que quiser, tem refrigerante na geladeira e às quartas é quintes o ifood não cobra taxa de entrega.</em>” Claro que existe uma espécie de troca, a corvéia do desejo. Se não te irrita, te chamam de sem gosto; mas se deixa que as veias dos olhos saltem e a respiração ofegue, é óbvio que está perdendo o controle. Nunca se é suficiente, mesmo que por algum milagre ou sorte consiga transar por horas, ou seja capaz de encostar a língua no cotovelo. Vivemos no tempo do insuficiente, meu caro. Estamos no vestíbulo, vivemos ali.</p>



<p>Você entendeu errado, em nenhum momento eu disse que a vida é ruim. Receio que em algum momento a minha explicação foi deficiente. Penso exatamente o contrário. Deus criou Júlio Cesar, que por sua vez, aprendeu que a melhor forma de conquistar é dividindo. Deus dividiu seu reino em dois, criou três, e hoje sofre na inadimplência de seus fiéis. O Outro, por sua vez, não é necessário. Foram os homens que colocaram pedras debaixo das pontes, para evitar que mendigos durmam ali. Também foram eles os criadores dos campos de concentração, da inquisição, do apetite maior que a fome. Na melhor das hipóteses o diabo é irrelevante, na pior, já cometeu suicídio.</p>



<p>O império da realidade é o capital anônimo. Limpo. Irrastreável. A indiferença solene e caprichosa daquele tanto faz que oscila sendo cinza desde o pior crime até a bolada lotérica. Nem o céu nem o inferno estão aqui, a Terra é o muro. Mas ele é vasto, ele é colorido. Se dança sobre o muro, sem a necessidade de ter um lado, compreende? De tempos em tempos surgem acusados e condenados, no entanto, sem laços, nunca somos nós os culpados. Melhor ainda, não existem culpados. Corrijo mais uma vez, somos todos culpados. Vê aqui a ironia? Não faz a menor diferença! O ser humano é a secreção da falta de gosto angelical. </p>



<p>Não me lembro exatamente porque comecei essa história, na verdade… Acho que me lembrei de certa amiga adúltera que julgava meu divórcio enquanto sugeria frases motivacionais. Lembrei com afeto dela. O vestíbulo é isso. A indiferença, meu caro, é o novo Jeová destronando Júpiter.</p>



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<p><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong>Vinícius Lara&nbsp;</strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong>é psicanalista, historiador, fotógrafo amador e um apaixonado pelo absurdo.</p>
</div></div>



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		<title>[EXPOSIÇÃO VIRTUAL] PURIFICAÇÃO</title>
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		<pubDate>Sun, 19 Sep 2021 22:21:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 109]]></category>
		<category><![CDATA[arte]]></category>
		<category><![CDATA[Criatividade]]></category>
		<category><![CDATA[Marco Bulhões]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: Marcelo Rodrigo</p>
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<p>A pandemia de covid-19 nos impôs a realidade de uma vida em isolamento inédita. Exigiu de todos a adoção de métodos de sobrevivência e manutenção da saúde física e mental. Para algumas pessoas, como eu, os momentos contemplativos do mundo exterior pelas molduras das portas e janelas tornaram-se uma válvula de escape contra a ansiedade e a loucura. Uma contemplação que me fez conseguir ver os vizinhos alados – para além de simbologias e arquétipos associados à morte – como mensageiros de esperança e renovação. Uma legião de urubus.</p>



<p>Enquanto nos abrigamos da pandemia de covid-19 no enclausuramento dos nossos isolamentos em Parintins, nós, habitantes da ilha fluvial no interior do Amazonas, testemunhamos os voos, pousos e planagens cotidianas desses moradores nativos, populosos e adaptados à vida urbana. Fotografei por alguns meses, diariamente, o modo arredio com que eles correspondem aos olhares contemplativos entre as frestas das residências. Instantes que tensionaram minhas percepções e construções simbólicas sobre as mórbidas relações associativas com a imagem das aves.</p>



<p>No cotidiano pandêmico, entretanto, fotografando e pesquisando sobre a vida desses animais, minha percepção diante dos urubus se transformou. No Xamanismo, essas aves são consideradas animais de poder, símbolos da purificação e renascimento. Distante daquela imagem de animais que vivem à espreita da morte como alimento, passei a reconhecê-los como agentes, sempre vigilantes, de transmutação da morte em vida.</p>



<p>Passei a avistar não mais o prenúncio da finitude iminente, mas a natureza em vigília ensinando sobre o tempo. O tempo de espera. A espera da morte do que já não é, para o nascimento do que virá a ser. O tempo da vida que seguirá sempre em renascimento. De sentinelas do mal agouro a totens de expurgação. Do medo à resignação.</p>
</div>
</div>



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<div class="wp-block-jetpack-tiled-gallery aligncenter is-style-rectangular"><div class="tiled-gallery__gallery"><div class="tiled-gallery__row"><div class="tiled-gallery__col" style="flex-basis:66.77105%"><figure class="tiled-gallery__item"><img decoding="async" srcset="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/09/7421a-01-1024x683-1.jpg?w=950?strip=info&#038;w=600 600w,https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/09/7421a-01-1024x683-1.jpg?w=950?strip=info&#038;w=900 900w,https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/09/7421a-01-1024x683-1.jpg?w=950?strip=info&#038;w=1200 1200w,https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/09/7421a-01-1024x683-1.jpg?w=950?strip=info&#038;w=1500 1500w,https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/09/7421a-01-1024x683-1.jpg?w=950?strip=info&#038;w=1800 1800w,https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/09/7421a-01-1024x683-1.jpg?w=950?strip=info&#038;w=2000 2000w" 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<p><strong>Marcelo Rodrigo<em> </em></strong>é jornalista, ilustrador e fotógrafo. É coordenador e professor adjunto do curso de Jornalismo da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), em Parintins (Icsez), e doutor em Estudos da Mídia. É líder do grupo de pesquisa Visualidades Amazônicas (VIA/CNPq) e coordenador dos projetos de extensão Panorama Ribeirinho (<a rel="noreferrer noopener" href="http://www.panoramaribeirinho.com.br/" target="_blank">www.panoramaribeirinho.com.br</a>) e Coletivo TABA (<a rel="noreferrer noopener" href="http://www.coletivotaba.com.br/" target="_blank">www.coletivotaba.com.br</a>).&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;</p>
</div></div>



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