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	<title>Arquivos Ano 002, N 050 - Revista Trama</title>
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	<description>Arte, Cultura e Criatividade</description>
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		<title>Editorial &#8211; O ano que tramamos</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 21 Jun 2020 21:40:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 050]]></category>
		<category><![CDATA[Bodoque artes e ofícios]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Editorial]]></category>
		<category><![CDATA[Frederico Lopes]]></category>
		<category><![CDATA[Trama]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Frederico Lopes</p>
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<p class="has-drop-cap">Hoje acordei pensativo e distante. Eu sei que, para quem se dedica à atividades intelectuais e criativas, isso poderia ser considerado uma terça-feira&#8230; no entanto, devo dizer que hoje é por um motivo especial.</p>



<p>Há exatamente um ano atrás, eu estava lançando a primeira edição da revista Trama: Arte, Cultura e Criatividade, pela Bodoque. Para falar a verdade, talvez tenha sido o início mais despretensioso de todas as iniciativas que já realizei pelo atelier (hoje, instituição cultural). Me lembro como se fosse hoje, das motivações iniciais que me inquietaram e me impeliram a implementar esse projeto. Na ocasião, uma frustração crescente acompanhava a escalada dos ataques à cultura na esfera política, sobretudo no que diz respeito a governança nacional. Posso dizer, com tranquilidade, que apesar do desânimo à época, sempre acreditei na mobilização e na integração social para conquistar força e coesão na defesa de suas pautas. No meu caso, a defesa da Cultura e das Artes como campo do conhecimento.&nbsp;</p>



<p>Essa motivação integradora sempre foi o combustível principal de minhas atividades. Desde o início de minha carreira como trabalhador da cultura, busquei encontrar caminhos para que essa mobilização encontrasse solo fértil para florescer. Por outro lado, devo dizer também que essa luta sempre me pareceu muito solitária, e que os esforços para unir os fios no campo das artes, aqui em Juiz de Fora, encontravam diversas barreiras. Confesso que, diante do ego artístico somado à dificuldade de alinhar objetivos em comum, o sonho de criar perspectivas mais solidárias e capazes de estabelecer estruturas mais colaborativas de trabalho, muitas vezes, me pareceu perda de tempo.&nbsp;</p>



<p>Mas nessa caminhada, conheci muitos artistas, intelectuais e trabalhadores da cultura comprometidos com seus projetos, que se doaram para iniciativas coletivas propostas por suas próprias instituições, pela Bodoque, ou por outras instituições culturais públicas da cidade, como o Museu de Arte Murilo Mendes ou Memorial da República Presidente Itamar Franco. Além disso, em tantas outras iniciativas também tive a oportunidade de acompanhar como observador, ou de atuar como coadjuvante, emprestando minha força de trabalho em prol do beneficio comum e da valorização da Cultura, como os demais integrantes.</p>



<p>Embora muitas dessas empreitadas tivessem logrado êxito, ainda me sentia frustrado com a falta de estruturas e movimentos que pudessem efetivamente criar uma rotina colaborativa de ações artísticas em prol da valoração da arte e dos profissionais da cultura em caráter permanente. E é por isso que acordei pensativo e distante no dia de hoje.&nbsp;</p>



<p>Passado um ano da primeira edição da revista que fundei os alicerces, fico impactado ao ver que uma construção suntuosa e imponente se ergueu. Não por minhas próprias mãos. Sua arquitetura só foi possível porque a proposta foi bem sucedida em sua missão de busca por integração. Logo, diferentemente das primeiras edições, (em que eu virava noites trabalhando para engajar artistas a cederem suas contribuições, editando, revisando, criando as artes e toda a identidade visual, bem como a questão técnica da plataforma digital), hoje, sete pessoas emprestam sua força de trabalho e suas identidades voluntariamente para a permanência do projeto, além de centenas de artistas, intelectuais e trabalhadores da cultura em geral que enviam suas contribuições para a revista fortalecer a revista.&nbsp;</p>



<p>Assim, diferente da perspectiva caseira e provinciana das primeiras prospecções, hoje podemos fazer contatos institucionais com a autoridade de quem faz um trabalho de excelência, dando o máximo de seu potencial. E essa determinação e suor do trabalho, ela é observável na delicadeza e no cuidado de cada nova edição que vai ao ar.&nbsp;</p>



<p>Hoje, com quase 500 contribuições disponíveis para consulta e pesquisa na plataforma da revista Trama, percebo que o meu sonho de integração nunca foi solitário. Percebo que nossa luta diária para proporcionar um espaço de diálogo acessível, democrático, inclusivo, representativo, e, sobretudo, comprometido com a defesa da importância da arte e da cultura, carrega muitas vitórias coletivas. Isso porque <strong>a arte e a cultura são sim responsáveis pela transformação de olhares, para a ascensão social e econômica e para construção de uma sociedade mais justa, mais digna, mais verdadeira e plural</strong>.</p>



<p>Agradeço com o coração cheio de alegria, meu irmão Henrique, o Kariston, à Carol Stabenow, o Pedro, a Carol Cadi, a Deborah e a Lorraine, por acreditarem na potência da revista e no cumprimento de sua missão através dos seus esforços de trabalho. Agradeço à minha esposa Poliana, por suportar os domingos em que estive e estarei ausente, comprometido com a empreitada. Quero agradecer a cada autor que se solidarizou com a nossa causa, e contribuiu pra construção do nosso acervo de edições. E agradeço a você leitor, que acolheu a Trama aos domingos como fonte de informação e conhecimento. É isso o que faz com que tenhamos a plena sensação de que estamos realmente fazendo alguma diferença através desse projeto, transformando vidas e olhares através da força da Cultura.</p>



<p>E por falar em mudança de olhar, gostaria de completar dizendo que eu também já não sou mais o mesmo. Estou 50 edições à frente de mim, porque, no ímpeto de transformar olhares através da Trama, quem teve o olhar transformado fui eu.&nbsp;</p>



<p>Que tenhamos mais cinquenta anos tramando! Que sejamos grandes, fortes e unidos pelo amor à vida, às artes e à liberdade!</p>



<p> <strong>Viva a Trama viva de nossas vidas!</strong></p>



<hr class="wp-block-separator" />



<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:28% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/e1ca7-autor-fred.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-8295" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p><p style="font-size:17px"><strong><strong><strong><strong>Frederico Lopes </strong></strong></strong></strong>é Artista, educador, encadernador e escritor. Trabalha no Memorial da República Presidente Itamar Franco, Museu de Arte Murilo Mendes e é fundador da Bodoque Artes e ofícios e da Revista Trama.</p></p>
</div></div>



<hr class="wp-block-separator" />



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-flow wp-block-group-is-layout-flow">
<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-large-font-size has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color">Galeria: Artistas para seguir na quarentena</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.twitter.com/stabenowcaroli"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/f4e77-galeriacarol4.jpg?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-10520" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-medium-font-size has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color"><em>Apoie artistas nessa quarentena. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>
</div></div>



<hr class="wp-block-separator" />



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/9acee-publi-ediccca7acc83o-impressa-1.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-5668" data-recalc-dims="1" /></figure>





<hr class="wp-block-separator" />



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.artebodoque.com/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/747d3-publi-bodoque3.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-5017" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color">Clique na imagem para acessar a loja virtual da Bodoque!</p>
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		<title>Tolkien: convite para lutar a boa luta</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 21 Jun 2020 21:39:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 050]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[Julio Cesar Conejo]]></category>
		<category><![CDATA[Memória]]></category>
		<category><![CDATA[tempo]]></category>
		<category><![CDATA[Tolkien]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: Júlio César Conejo</p>
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<h3 class="wp-block-heading"><strong>I &#8211; Tolkien, filho de seu tempo</strong></h3>



<p class="has-text-align-right"><em>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;“Que é que diz o farfal das folhas?”</em><br>Riobaldo, “Grande Sertão: Veredas”</p>



<p class="has-text-align-right"><em>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; &#8220;Descobri que minha arma é o que a memória guarda (&#8230;)&#8221;</em><br>Milton Nascimento e Fernando Brant – “Saudade dos Aviões da Pan-Air”</p>



<p>É comum usarmos irrefletidamente a expressão “aquela pessoa estava a frente de seu tempo”. Ora, ninguém pode estar a frente de seu próprio tempo, das condições materiais de seu tempo histórico. Toda obra, que não se separa da vida que a produz, recebe influências de sua época, das condições materiais dadas no tempo em que foi escrita. Tais influências existem ainda que o autor beba da própria história, ainda que o autor consiga <em>pensar no mesmo nível dos mitos</em>, como é o caso da vasta obra de J.R.R. Tolkien (1892-1973).</p>



<p>Como muitos jovens que habitaram o mesmo tempo que o dele, principalmente na Europa, Tolkien tomou parte na barbárie, olhou a escuridão de frente e voltou, transformado, profundamente marcado no corpo e, em simultâneo, na mente. Voltou, transformado como só como um soldado entrincheirado pode voltar, da terra da sombra, da visão da morte em escala industrial, filha da fé no progresso, na tecnologia, na busca por lucro. Mais próximo da verdade, então, seria dizer que <em>a época em que cada ser humano vive marca-o indelevelmente</em> e ele, <em>sujeito histórico</em>, também marca sua época.</p>



<p>Quando do nascimento do escritor, poeta e professor John Ronald Reuel Tolkien em janeiro de 1892, na África do Sul, o Império Britânico comandava metade da superfície terrestre e de suas gentes, tal como os mares, armados e guardados por sua Marinha Real, a maior então existente, para afiançar o julgo de suas colônias. Findava um século profundamente marcado por uma revolução dupla: a Revolução Industrial – que deu o tom para os rumos econômicos orientados pelo pensamento liberal burguês -, e a Revolução Francesa – determinante para o pensamento político daquele século (HOBSBAWM, 2007). Ao cabo das Guerras Napoleônicas, o continente europeu entrou em um período de ausências de grandes conflitos em seu território, acompanhado de uma profunda fé na ciência, no progresso, na razão instrumental, no modo de vida moderno e no fogo da indústria, em suma: fé na potência humana de “dobrar” a Natureza, que só seria interrompido em 1914 com a eclosão da Guerra. &nbsp;</p>



<p>Os detalhes sobre acontecimentos dispersos sobre a guerra e dos atos de heroísmo individuais precisam dar espaço para o <em>conhecimento das causas</em> das quais o conflito foi efeito, posto que conhecer algo é conhecer as causas. Nas raízes da guerra que determinou e deu início do longo século XX estão as rixas das grandes potências européias no decorrer do século anterior, estando no centro da questão a expansão colonial para obtenção de matéria-prima e para a ampliação do mercado consumidor das mercadorias produzidas nas metrópoles, matérias-primas e mercados para onde os produtos pudessem ser escorridas, sem o qual o próprio o capital &nbsp;não poderia continuar existindo. <a href="#_ftn1">[1]</a></p>



<p>A forte industrialização que deu sentido à economia britânica no século XIX marcou a ferro e fogo a região de Birmigham, ao norte da Inglaterra, onde a família de Tolkien viveu por quatro anos. Mudaram-se da África do Sul para a Inglaterra após a morte do pai, e a paisagem fabril da cidade causou forte impressão, agradando-o pouco. Com a morte da mãe, aos trinta e quatro anos, vitima de complicações ligadas à diabetes, passou a morar com o irmão na casa de uma benfeitora, Sra. Faulkner, onde conheceu Edith Bratt, sua futura esposa. Em Oxford, travou contato com uma paisagem onde a Natureza pôde ser vista, de perto e devagar, produzindo a si mesma.</p>



<p>Tal qual a maioria dos jovens dos quais era contemporâneo, Tolkien atendeu ao chamado às armas feito por Lord Kitchener (1850-1916), posto que “O País precisava deles” junto ao esforço de guerra. Embarcou para a França em junho de 1916 como segundo-tenente do IIº Corpo de fuzileiros de Lancashire para lutar nas trincheiras na região do Somme. Em novembro do mesmo ano retornou à Inglaterra, acometido de “febre das trincheiras” (CARPENTER, 2019: 358). Donde reside, então, a <em>liberdade</em>, a <em>ação</em> capaz de tornar um singular humano em sujeito histórico em uma época de barbárie? O que pode um corpo/mente defronte ao arado do horror e dos sulcos que ele abre em nós? O que pode nascer dali? A história, então, é apenas um acumulo de tragédias, declínio permanente de uma Idade de Ouro donde o passado sobrevive apenas porque presa em um finíssimo e fragilíssimo fio?&nbsp; Cumpre, como disse Pascal, “trabalhar pelo incerto, ir pelo mar, caminhar sobre uma prancha” (PASCAL, 2001: 36)</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>II &#8211; Decadência e história</strong></h3>



<p class="has-text-align-right"><em>“É triste que nos encontremos só agora, no final. Pois o mundo está mudando: sinto isso na água, sinto isso na terra, e farejo no ar. Não acho que nos encontraremos de novo.”</em><br>Barbárvore, “O Senhor dos Anéis”, p.1040</p>



<p class="has-text-align-right"><em>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; “O sertão está em toda parte.”</em><br>Riobaldo, “Grande Sertão: Veredas”</p>



<p>No prefácio d’O Senhor dos Anéis, Tolkien explicitou suas razões:</p>



<p class="has-text-align-right"><em>(&#8230;) para minha própria satisfação, e tinha alguma esperança de que outras pessoas ficassem interessadas nesse trabalho, especialmente por ser ele fruto de uma inspiração primordialmente linguística, e por ter sido iniciado a fim de fornecer o pano de fundo ‘histórico’ necessário para as línguas élficas. (TOLKIEN, 2014: XIII)</em></p>



<p>Embora o autor tenha, em sua vida e obra, elevado a produção de suas ideias ao nível dos mitos – que são caracterizados pela ausência de qualquer relação com a temporalidade e cuja mensagem dá-se <em>sub specie </em><em>æ</em><em>ternitatis<a href="#_ftn2"><strong>[2]</strong></a>, </em>isto é, aconteceu, acontece e acontecerá eternamente (e por eternidade entenda-se <em>aqui</em> e <em>agora</em>) -, o “fundo histórico” na obra de J.R.R. Tolkien que aparece supracitadamente tem um “sentido” que pode ser visto à distância. Para Tolkien, a motor história da Terra Média é a história da <em>decadência <a href="#_ftn3"><strong>[3]</strong></a></em>, por uma leitura vertical da história, de cima para baixo. A forma com que Tolkien enxerga o movimento da história em seus livros reflete a forma como o próprio autor vê a história da humanidade, da qual era, ele próprio, mestre das antigas tradições do norte da Europa.</p>



<p>Tolkien não era historiador de oficio, embora profundo conhecedor e amante da história. Portanto, não tomou parte das querelas teórico-metodológicas historiográficas. Uma figura que certamente influiu na concepção de história de Tolkien, tanto quanto da intelectualidade inglesa durante a primeira metade do século XX, foi a do historiador profissional Arnold J. Toynbee (1889-1975), também professor, autor do monumental <em>A Study of History</em>, de doze volumes. Para Toynbee, “o conceito de <em>declínio</em> é basilar na história, que se manifesta apenas por ações externas: justiça divina, agressão da natureza, assassinato por outras sociedades. As civilizações suicidam-se. Nesta fase, há uma perda de autodeterminação: rejeita do novo, idolatria do efêmero, autodestruição do militarismo, intoxicação da vitória” (LE GOFF, 2011).</p>



<p>Cronologicamente, a história de Arda, mundo da Terra Média, foi divida pelo autor em Eras, sendo relatados acontecimentos da Primeira à ao início da Quarta Era. A Primeira, narrada n’O Silmarillion, é palco da produção do mundo por <em>Eru</em>, o Único, que em Arda é chamado de <em>Iluvatar</em>, e a partir da criação da canção &#8211; donde surgiu o mundo &#8211; de seus filhos, os <em>Ainuir</em>, os Sagradas, <em>gerados por seu pensamento</em>, e do surgimento das raças dos elfos e dos anões e dos homens (TOLKIEN, 2006: 3). A história da <em>Grande Guerra do Anel</em>, narrada n’O Senhor dos Anéis, situa-se ao cabo da Terceira Era até o advento do retorno do Rei, marco do início da Quarta Era. No desenrolar dos eventos da obra, finíssimos fios que ligam as Eras ao longo tempo podem ser encontrados, dando continuidade e fornecendo causalidades.</p>



<p>Três exemplos destes linhames entre uma luz Idade de Ouro dos Dias Antigos que resiste à escuridão nos tempos da Guerra do Anel são emblemáticos. O primeiro, mencionado n’O Hobbit, são as espadas que a Companhia de Thorin Escudo-de-Carvalho, encontra na caverna dos trolls. São espadas forjadas na Primeira Era, na cidade <em>Gondolin</em> – descrita n’O Silmarillion, por ferreiros élficos guiados pela habilidade de Maeglin (TOLKIEN, 2006: cap. XVI), pensadas para causar horror à orcs com sua simples visão. A espada de Gandalf, <em>Glamdring</em>, tal como a espada de Bilbo, <em>Ferroada</em>, fizeram parte do espólio da Companhia (TOLKIEN, 2002: 42, 51). O segundo exemplo é ligado às figuras de Aragorn, ligados as histórias de Beren Maneta, quem retirou uma das três silmarils, com a ajuda de Luthien, da coroa de ferro de Melkor, o primeiro Senhor do Escuro. Tanto Aragorn quanto Arwen são descendentes diretos do Dias Antigos, dos Homens do Oeste, cuja linhagem parecia diminuir tal qual pequena chama no escuro<a href="#_ftn4">[4]</a>.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/cce15-julio1.jpg?w=950&#038;ssl=1" alt="TN-The_Two_Trees_Doom.jpg" class="wp-image-10415" data-recalc-dims="1" /><figcaption>&#8220;A Perdição das Duas Árvores&#8221;, Ted Nasmith</figcaption></figure>



<p>O terceiro exemplo, mais elucidativo de todos, justamente por relacionar-se à luz: a luz de uma estrela que salva Samwise Gamgi e Frodo na toca de Laracna. É aqui que a capacidade de continuidade em Tolkien é admiravelmente trabalhada. Quando da criação do mundo, duas árvores, as <em>Árvores de Valinor</em>, batizadas de <em>Teuperion</em> e <em>Laurelin</em>, são criadas. Dessas árvores emanam as luzes da Terra Média, correspondentes à luz do Sol e a luz da Lua, antes que esses fossem criados. Melkor, em sua ganância e inveja, destruiu as árvores com o auxílio de Ungoliant, de quem descende Laracna. Com a destruição das Árvores, a única coisa que emitia tal luz eram as gemas de Fëanor, maior de todos os noldor, os elfos-profundos. As gemas foram roubadas por Melkor, tenho assim Fëanor jurado, junto a seus filhos e demais noldor, dentre eles a Senhora Galadriel, que a recuperação das silmarils dar-se-ia a qualquer custo e ao enfrentamento de quem quer que fosse, mesmo que se preciso fosse, com os próprios criadores do mundo. Ao cabo da <em>Guerra da Ira</em>, onde se deu a queda de Melkor e sua expulsão do mundo, as silmarils foram separadas, uma foi lançada ao mar por Maglor, outra foi lançada nas entranhas da terra por Maedhros, e a terceira, utilizada por Eärendil, o Marinheiro<a href="#_ftn5">[5]</a>, foi transformada em estrela, ficando, assim, as gemas legadas separadamente ao mar, à terra e ao céu. Assim sendo, a única luz remanescente das luzes das Árvores de Valinor foi transposta em estrela, a Estrela Eärendil, a mais amada pelos elfos, de quem a Senhora Galadriel retira luz e entrega à Frodo como presente quando da partida, da sociedade do anel, de Lorien.</p>



<p>Assim sendo, a luz que o Samwise, o Corajoso, apresentou-a contra Laracna na escuridão de sua toca quando toda a esperança havia minguado, é a própria luz de uma silmaril, a de Eärendil, portadora da luz de Teuperion e Laurelin, revelando-se a si mesma.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2020/06/c1445-julio2.jpg?w=950" alt="TN-Shelobs_Retreat.jpg" class="wp-image-10416" data-recalc-dims="1" /><figcaption>&#8220;A Retirada de Laracna&#8221;, Ted Nasmith</figcaption></figure>



<p>Houve um tempo em que a ciência História levava em conta apenas documentos oficiais, produzidos por instituições governamentais, voltadas aos grandes feitos e à admiração dos vultos de grandes figuras; em suma: uma história exclusivamente política. Era tido como objeto da ciência História o que estava relacionado ao exercício do poder e do funcionamento da burocracia; logo, os documentos mais confiáveis eram os oficiais. Durante o século XX, a concepção do que pode ser considerado como documento, como indício da passagem do homem no tempo, transformou-se radicalmente: documento histórico é toda a produção humana no decorrer do tempo. Em Tolkien, a história parece ser a expressão da luta de uma chama para manter-se viva diante de uma tempestade e é da persistência da chama que depende a sobrevivência da luminosidade. Se é assim que a história de fato se desenvolve, não vem ao caso, aqui. Os enredos de Tolkien se passam, ao fim e ao cabo, dentro de nós, na realidade da mente, arquetipicamente, e nem por isso menos real. Enfrentar A Sombra é tarefa difícil e imprescindível. Coragem.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>III Imaginação, intuição, liberdade</strong></h3>



<p class="has-text-align-right"><em>“Voltar quase sempre é partir para outro lugar”</em><br>&#8211; Paulinho da Viola</p>



<p class="has-text-align-right"><em>&#8220;Literatura é o fragmento dos fragmentos;</em><br><em>Do que aconteceu e foi dito escreveu-se o mínimo,</em><br><em>e restou o mínimo do que se escreveu.&#8221;</em><br>&#8211; Goethe, “Os anos de aprendizado de Wilhem Meister”</p>



<p>Tudo começa por causa dos afetos. Não se é livre por suprimir os afetos, o que é impossível, mas é-se livre graças a eles. Tolkien não teria produzido “O Senhor dos Anéis”, tampouco Guimarães Rosa teria feito brotar “Grande Sertão: Veredas”, sem um profundo <em>amor</em> pela linguagem. Tudo começa pelos afetos: foi a <em>pena</em> que Bilbo sentiu por Gollum que impediu espada de matá-lo e tendo, com isso, ajudado “moldar o destino de todos” (TOLKIEN, 2014: 61).</p>



<p>Acerquemo-nos brevemente, a guisa de ilustração, de Winston Smith, protagonista do &#8220;1984&#8221; de George Orwell. No único ponto de sua casa que é livre da perspectiva do <em>Grande Irmão</em> que vigia todos os membros do Partido, 24h, Smith escreve em um caderno, de forma truncada, lenta e que vai, gradativamente, tomando forma e intensidade. Escreveu, mesmo com o constrangimento do Grande Irmão e das vicissitudes da vida; escreveu mesmo tendo clareza de que o simples fato dele possuir um caderno era perigosíssimo, que o desejo misturado com medo de escrever já era, por si só, um crime. O que importa é o instante preciso do aqui e agora em que se escreve, instante de fuga da esperança e do medo: aqui e agora. Se isso causará o fim do regime do Grande Irmão, não importa: o que importa é o <em>ato</em> de colocar no papel o descontentamento, o desamparo, dar forma ao desconforto que existe. &#8220;Manter-se firme e livre por dentro&#8221;, aconselhou Stephan Zweig; criar uma fortaleza dentro de si, nas palavras de Ralph Waldo Emerson. Cumpre comunicar o que quer que seja, da forma que seja, para alguém que não se sabe quem, o que há dentro, dar materialidade à ideia, não menos real por ser pensamento.</p>



<p>Não há entre nós, partes humanas da Natureza, quem não deseje viver mais, sem ser impedido nem constrangido, delimitado. E é aqui que reside a frustração maior de nosso tempo histórico: a aceitação da condição de seres que duram, que atravessam o tempo, por ele atravessados e significados. Não há o que possamos fazer para impedí-lo: vivia-se, envelhecia-se e morria-se antes de chegarmos aqui. Daí esse gosto amargo na boca, esse luto sempre, posto que há perda sempre. &nbsp;Bom mesmo é agir, aqui e agora. E só é possível agir aqui e agora. Mesmo o conhecimento das causas de um evento passado deve, necessariamente, partir do presente em direção a eles, ou seja, ao passado e ao evento para, enfim, voltar ao presente, onde sentimos e experimentamos seus efeitos. Não temos escolha e <em>liberdade não é livre-arbítrio</em>:</p>



<p class="has-text-align-right"><em>A liberdade humana é a aptidão ou potência para o múltiplo simultâneo que segue da necessidade da natureza da mente e do corpo na duração, e da potência do intelecto, na eternidade. (CHAUÍ, 2016: 600)</em></p>



<p><strong>Livre, então, é quem age, isto é, produz a própria vida a partir de si mesmo</strong>: a potência de quem age aqui e agora. Isso não nega o passado, posto que é algo feito graças a ele. A memória &#8211; individual e coletiva &#8211; é uma condição necessária, mas não suficiente, para o exercício da <em>ética</em>, ou seja, o <em>exercício da liberdade e da responsabilidade</em>. Memória que liberta, que é ferramenta da autonomia; memória que aprisiona, serve para que sirvamos. Marcas, em ambos os casos, e condições da nossa finitude. Posto de outra maneira: um agente histórico, aquele que produz e é produto do seu tempo histórico através da força com que deixa marcas no mundo ao mesmo tempo em que é marcado por ele, <em>tanto mais tem potência para mudar o rumo dos acontecimentos de seu contexto histórico quanto mais estiver na companhia de outros</em>, também agentes. Potência é não isolamento; potência é comunicar-se e <strong>a coisa mais preciosa do mundo é uma palavra verdadeira</strong>, quando temos força para dizê-la. Tal agir, inseparável da liberdade, é válido para a multidão &#8211; para a multiplicidade simultânea de corpos agindo em conjunto &#8211; quanto para a antiguidade e humildade de escrever à mão.</p>



<p>Seria leviano dizer que conduzir um diário, uma carta ou, no caso de Tolkien, a criação de uma língua &#8211; e para dar sustentação à ela, um mundo inteiro &#8211; possam derrubar um tirano. Cumpre dizer, entretanto, que podem , mesmo que de forma singela, não alimentar, ou alimentar um pouco menos, a <em>causa da tirania</em>, qual seja, a ignorância e o medo &#8211; sobre nós mesmos e sobre o mundo -, tão indistinguível do desejo triste de servir e ser servido. <strong>Tal ignorância não é causa, mas efeito de condições históricas específicas que, por sua vez, são alimentadas por essa ignorância e por esse medo que um diário e uma carta combatem, sem negá-lo</strong>.</p>



<p>Por muito tempo, escrever à mão foi a única maneira de conectar-se a outro vivente através da distância física e através do tempo. Hoje, nesta sociedade em rede, o corpo perde seus atributos: perde-se no espaço e na duração, ou seja, no tempo. Escrever à mão é exercitar, simultaneamente, <em>a</em> <em>potência da mente e do corpo</em>. Simultaneamente, já que são uma só e a mesma coisa. Tal <em>ato</em> não é, contudo, receita de felicidade. O que acontece é que ela nos liga ao único momento que realmente importa e, ao fazê-lo, a ansiedade quanto ao porvir perde um pouco de seu poder sobre nós, uma vez que respondemos a uma espera com uma ação, mesmo que fugaz, mesmo que pequena, mas que existe e que é bela apesar de tudo. Escrever à mão, então, é um pouco de nossa potência desejando aumentar, indefinidamente; <strong>escrever é viver mais, alivio do duro desejo de durar</strong>. Acontece que temos pouco tempo, temos pressa, e gostamos pouco da solidão, cada vez menos.</p>



<p>Escrever é a própria <em>vida em ato desejando desejar</em> mais vida, indefinidamente. “Quero dizer que te amo muito, e escrevo porque te amo, porque desejo que saiba disso”. Duro desejo de durar que nos define, que marca nossa finitude descontente consigo mesma. Escrever no papel para como ato de rebeldia às telas, ao que está longe, para ficar aqui perto: &#8220;Quanto mais longe se viaja, menos se sabe; menos <em>realmente</em> se sabe&#8221;, cantou George Harrison com sua belíssima luz interior. Mal sabem que algo em nós, que não é o <em>Eu</em> – mas o <em>Demo</em> roseano &#8211; pega em nossa mão, nos ensina sobre nós mesmos, sendo o melhor professor, combatente imanente em nós contra as vozes que deixaram marcas, que nos significaram, que se misturaram com nossa própria maneira de pensar.&nbsp;</p>



<p>Cumpre ver uma folha de papel em branco como um convite ao distanciamento das telas dos <em>gadgets</em>, porquanto durar o desejo de continuar ali, porquanto durar o tempo do desejo de se criar, de habitar uma fortaleza interior. &#8220;No diário eu não apenas exprimo a mim mesma de modo mais aberto possível do que poderia fazer com outra pessoa; eu me crio.”, revelam-se os diários de Susan Sontag (SONTAG, 2009: 179) Conduzir um diário é uma experiência de tornar mais claros os conteúdos produzidos pela mente e dá corpo às conversar que temos com nós mesmos. Isso, quando na companhia de outros corpos, sugere que há mais em nós do que um olhar rápido pode absorver.</p>



<p>A obra de Tolkien é um contra-discurso à tentativa de dobrar a Natureza: sábio mesmo é quem se alia a ela, um belíssimo exemplo das potencialidades da junção entre fantasia criadora e intuição, isto é, o conhecimento que a mente adquire ao saber-se como parte da Natureza inteira.</p>



<p>Além do mais, é um grande repositório de conselhos, de frases que, se tomadas isoladamente, transformam-se em proposições, válidas universalmente, posto que falam ao mais profundo em nós. As coisas têm seu próprio tempo e, como a sutileza com que a magia enche seu universo, tem seu próprio espírito: é o que Tolkien nos oferece, sob a perspectiva da Natureza, na fala de seus personagens. O que passamos a amar depois de terminar algum de livro seu são as pequenas coisas: uma boa refeição, um gole de cerveja, uma pedaço de pão com manteiga e um pedaço de queijo, um pouco de fumo, a presença dos amigos, as árvores&#8230; Pobres de nós, neste nosso tempo acelerado e acelerando, quase esquecendo que temos corpo.</p>



<p>Lembrar e esquecer<em>, </em>ambos são necessários, significando que escapam do reino do bem e do mal para <em>o mundo como ele é</em>, ou seja, para o que não pode deixar de ser nem pode ser de outra maneira, tais como nós, necessariamente finitos e frágeis, que desejamos perseverar, viver mais e melhor, fruir do corpo para fruir aqui e a agora. Marcar no papel &#8211; nessa banalidade bonita &#8211; que estivemos aqui, mesmo que rapidamente, mesmo que de forma pobre, cansativa e frustrante, igual toda a gente. Tolkien, pensando ao mesmo nível dos mitos, escrevendo gratuitamente, por prazer, por distração, nos momentos de solidão em que não havia ninguém por perto para conversar, <em>existiu em ato</em> em nos deixou algo belíssimo. Bom mesmo é desejar continuar e lutar a boa luta. <em>Carpe æternitatem.</em></p>



<hr class="wp-block-separator" />



<p><a href="#_ftnref1">[1]</a> No instante em que eu finalizava este texto, chegou-me a notícia, através da mais rápida de minhas bestas aladas, que a Universidade de Oxford, retirará de suas instalações a estátua de Cecil Rhodes (1853-1902), autor da célebre frase “Se pudesse, anexaria os planetas”, referindo-se ao processo de expansão colonial britânico na segunda metade do século XIX. O que é a vida, não o é?</p>



<p><a href="#_ftnref2">[2]</a> Sob a perspectiva da eternidade.</p>



<p><a href="#_ftnref3">[3]</a> Para uma abordagem da trajetória histórica do conceito de decadência, cf. LE GOFF, 2011.</p>



<p><a href="#_ftnref4">[4]</a> Cf. “O Senhor dos Anéis”, Apêndice A, Anais dos reis e governantes, V.</p>



<p><a href="#_ftnref5">[5]</a> A história e o papel de Eärendil, “Amante do Mar”, é digníssima de nota dentre as figuras heróicas de Tolkien, assim como a de Sam Gamgi. Eärendil, com o auxilio da potência de uma das silmarils, conseguiu navegar para o Oeste até Aman para pedir auxílio da hoste de Valinor contra Melkor. Depois saiu velejando pelos céus em sua nau Vingilot, portando a silmaril que Beren e Luthien haviam retirado de Angband, fortaleza de Melkor (TOLKIEN, 2006: 411)</p>



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<p><strong>Referências bibliográficas</strong></p>



<p>CARPENTER, Humphrey. <strong>J.R.R. Tolkien, uma biografia</strong>. Harper Collins: Rio de Janeiro, 2019</p>



<p>CHAUÍ, Marilena de Souza. <strong>Nervura do Real – Imanência e Liberdade em Espinosa. Vol. II: Liberdade</strong>. Companhia das Letras: São Paulo, 2016.</p>



<p>FONSTAD, Karen.Wynn. <strong>O Atlas da Terra-Média</strong>. Martins Fontes: São Paulo, 2004.</p>



<p>HOBSBAWM, Eric John Ernest. <strong>Era das Revoluções: 1789-1848</strong>. Paz e Terra: Rio de Janeiro, 2007</p>



<p>LE GOFF, Jacques. <strong>História e Memória</strong>. Editora Unicamp: Campinas, 2011</p>



<p>PASCAL, Blaise. <strong>Pensamentos</strong>. Martins Fontes: São Paulo, 2001.</p>



<p>ROSA, João Guimarães. <strong>Grande Sertão: Veredas</strong>. Companhia das Letras: São Paulo, 2019</p>



<p>SEMMELMANN, Cristina Casagrande de Figueiredo. <strong>Em boa companhia</strong><strong>: a amizade em O senhor dos Anéis.</strong> 2017. Dissertação (Mestrado em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa) &#8211; Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2017</p>



<p>SONTAG, S. <strong>Diários: 1947-1963</strong>. Companhia das Letras, 2009</p>



<p>TOLKIEN, J.R.R. <strong>O Hobbit</strong>. 2ª edição, 5ª tiragem. Martins Fontes: São Paulo, 2002</p>



<p><strong>_______________.O Senhor dos Anéis</strong>. Vol. Único. 1ª edição, 7ª reimpressão. Martins Fontes, 2014</p>



<p>_______________.<strong>O Silmarillion </strong>. 2ª edição. Martins Fontes: São Paulo, 2006</p>



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<p><strong>Júlio César Conejo de Souza</strong> é historiador. Às vezes professor; sempre aprendiz. Ambulante campo de batalha de afetos contraditórios, pai de plantas e de gatos. Mestre em Ciências pela FFLCH/USP.</p>



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<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.artebodoque.com/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/747d3-publi-bodoque3.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-5017" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color">Clique na imagem para acessar a loja virtual da Bodoque!</p>



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<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-large-font-size has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color">Galeria</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.instagram.com/d.nowicki/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/43194-galeriademetrio1.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-10521" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-medium-font-size has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color"><em>Apoie pautas identitárias. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>
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		<title>Um tratado sobre liberdade feminina no cristianismo</title>
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		<pubDate>Sun, 21 Jun 2020 21:38:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 050]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Gyovana Machado</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="has-drop-cap">Acredito que sempre quis escrever sobre os usos e significados do ideal de feminilidade dentro da esfera religiosa &#8211; do protestantismo, para ser mais exata &#8211; e, mais do que isso, sempre quis explorar a dinâmica na qual a mulher está submergida dentro das estruturas invisíveis que regem o corpo da comunhão mediante ao racional e ao institucional da Igreja enquanto tal que, historicamente, passou da marginalização a uma ascensão andando ao lado do Estado e guiando, por séculos, as decisões que concernem não só apenas à moral. No entanto, gostaria de enfatizar essa última abordagem para percebermos como isso desaguou na organização do espaço nas mais diversas sociedades. Trazendo a ideia de espaço, me refiro a lógica do <em>público/privado </em>como elemento revelador de uma reprodução à forma com que a mulher foi, e é absorvida nesse meio que, por força estrutural e histórica, desenvolve-se e estabelece os limites nos quais o ser feminino é subjugado as funções que lhe atribuem.</p>



<p>Em seu livro &#8220;Filosofia Feminista: uma breve introdução&#8221;, Ivone Gebara chamará a atenção para a construção da figura da mulher sempre assimilada ao espaço da casa, na gestão dos filhos e, ao fim e ao cabo, daquilo que se tratava do privado &#8211; o que, por séculos, trouxe um apagamento e silenciamento daquilo que era produzido por mulheres externo as preocupações nas quais essa era incumbida em seu nascimento. A figura masculina, por sua vez, era designada e associada a guerras e invasões, no intuito de se caracterizar por uma figura que controla sentidos e sentimentos em prol de desafios de &#8220;gente grande&#8221;, sabe? Aquele que defende território, que produz e absorve o ensino do abstrato (com muitas aspas, a filosofia) e que se preocupa com questões públicas, interpretadas como superiores. A racionalidade, assim sendo, foi usada como ferramenta de exclusão por não ser associada às questões privadas mantidas dentro da casa, tais como a gestão e a organização dessa. </p>



<p>Quando transportamos esse breve parecer para as realidades contemporâneas, sobretudo no espaço da igreja, da comunhão (que é o foco aqui), percebemos uma carência na crítica da reprodução de funções que se espelham na noção do que se considera ser a mulher. Veja bem, <em>ousamos</em> dizer que a mulher pode trabalhar fora (e, certa vez, participei de uma programação onde diziam que esse era um fator infeliz, mas necessário no presente, onde tudo é caro), mas ao mesmo tempo espelhamos, através das designações de liderança nesses espaços, o que consideramos fazer parte exclusiva da capacidade cognitiva da mulher; nesse sentido, concede-se a elas a liderança dos postos de cuidado das crianças e da cozinha e/ou cantina e a Igreja acaba por refletir o que, social e culturalmente, se entende como o &#8220;ser mulher&#8221; e mais: atribui, ao cumprimento dessas funções, a lógica daquilo que seria valoroso. Veja, atribuir valor a uma postura que sempre limitou as mulheres é um dos fatores que auxiliam na manutenção dessa lógica desigual e extremamente opressora. O cárcere invisível se mantém pela pressão da expectativa externa &#8211; que nem sempre é masculina, mas também tem adesão (consciente ou não) por parte de outras irmãs que se sentem ameaçadas na ideia de perda do posto que, na lógica religiosa, as legitimariam como &#8220;valorosas&#8221;. A percepção de que a reprodução desse mesmo cárcere parte de ações majoritariamente masculinas é enfraquecida quando analisamos a capilaridade do sistema patriarcal. Um exemplo: Gineceu Medieval; sendo um lugar composto por vassalas e uma &#8220;senhora&#8221; que as direciona, é possível suscitar algumas comparações e problemáticas com os desafios contemporâneos que nos obrigam a explicar que feminismo não é apenas opressão de homens sobre mulheres, e sim essa opressão perpetuada pelas próprias mulheres. Questiono: &#8220;A ótica da Senhora sobre poder e/ou empoderamento alcança a vassala?&#8221; Não! No entanto, essa mesma Senhora defenderá que o seu posto é uma prova cabal da participação feminina na dinâmica social e, portanto, não é necessário discutir sobre desigualdade de gênero. Lanço mão de uma variável: o poder concedido a Senhora foi dado por um homem. Pense. Concluo esse raciocínio com a seguinte afirmação: homens delegarão poderes a mulheres específicas e criarão a ilusão de &#8220;autonomia&#8221; como forma de perpetuar o seu domínio sobre outras milhares.</p>



<p>Gebara traz também em seu livro o mito das Amazonas; nele, mulheres assumiam postos de autenticidade e conveniência pública e, por serem mulheres, mutilavam um dos seus seios para melhor se adaptarem ao arco. Meu irmão, a reprodução dos ideais genuinamente masculinos de poder sobre o outro, ainda que reproduzidos por mulheres, as obriga a mutilação &#8211; e nesse sentido não me refiro apenas a uma mutilação física como conta o mito, mas a uma mutilação das diferenças de gênero, a ponto de ideias como &#8220;a mulher precisa satisfazer o seu marido sempre que esse quiser pois a atividade sexual para ela basta abrir as pernas&#8221; ganharem absorção social! Estupro anunciado! A objetificação de seu corpo quando o que importa, entre todas as reuniões religiosas, é o aconselhamento de como ser uma boa mãe e esposa. Ainda que atrelado à lógica de serviço inerente a todo cristão, isso se manifesta numa cadeia de poder sobre a mulher: essa passa a ser sua missão e objetivo sendo que, antes de esposa e mãe, ela é um ser humano, passível a diversos sentimentos, comportamentos, enfim. </p>



<p>Não pretendo, nesse brevíssimo ensaio, descaracterizar os elementos maternidade e casamento ou desassociá-los do cotidiano de muitas mulheres, mas sim anunciar, com muito respeito e amor, que o equilíbrio e a harmonia nas concepções e designações sobre ela trarão liberdade e tornarão sua caminhada mais leve; pois enquanto a sua experiência for essencialmente guiada por fatores que não partem de sua escolha, mas da escolha de terceiros que legitimam como &#8220;vontade biológica de Deus&#8221;, ainda haverá uma força invisível que mutila o seu potencial.</p>



<p>O tratado sobre liberdade parte, fundamentalmente, da ideia de que mulheres possuem potencial não apenas visível, mas também nas esferas espirituais. Eu amo todas as mulheres que passaram pela minha vida e liberaram o frescor de Deus, mas fico irada ao pensar que essas eram subjugadas por exceções divinas e, portanto, não poderiam tornar público o que Deus as deu. Pastoras, profetizas, mestras, evangelistas e apóstolas, muitas foram instrumentalizadas e jamais, jamais legitimadas como agentes ativos de Deus na Terra. O medo de que mulheres encontrem seu grito de liberdade &#8211; não apenas espiritual &#8211; é tanto que, quando encontramos na bíblia um relato sobre Júnia (Romanos 16:7), apóstola antes de Paulo, temos uma mobilização teológica que a caracteriza como sendo um HOMEM! Sim, o receio é tão profundo que, ao menor sinal de faísca nessa área, adaptam a narrativa e, eliminando a figura feminina, delegam seu sentido masculino &#8211; o que, no entanto, não se comprova, pois o uso do nome &#8220;Júnia&#8221;, aparece nos documentos do período para se tratar de mulheres. A mulher é chamada por homem para se adaptar a doutrinas criadas por força do masculino ao longo do tempo, mas que em nada contemplam o valor e amor de Deus pela mulher, pelos olhos daquela que foi escolhida a vê lo após a ressurreição. Mutilam Marias diariamente.</p>



<p>Além do apagamento, do silenciamento e da marginalização da atuação feminina na história primitiva do cristianismo, temos esse mesmo processo sendo absorvido e reproduzido, dada a sua respectiva contemporaneidade, ao longo da história. Veja <em>Priscilas, Fabíolas, o movimento das Beguinas, Von Boras, Schutz Zells, Sojourners, Grimkés</em> e todas as outras que utilizaram das brechas para liberar a chama que envolvia os seus corações, a saber, o amor pelo Cristo Nazareno que ressuscitou e liberou também sobre elas discernimento, dons e reconhecimento por parte do Pai. Maria, irmã de Marta, se sentou e foi aprender com o mestre; no entanto, a interpretação de seu ensino está impregnada nas pregações apenas como parte de uma exortação a Marta. Observe: uma mulher aprendeu aos pés de Jesus! Isso não te alegra? Isso me deixa em êxtase! Ela escolheu a melhor parte, segundo Jesus, pois ressignificou a experiência feminina do seu tempo e parou, o que externamente esperavam sobre ela, para renovar sua mente a partir da ótica do Pai e de Seu tempo, que move o espírito pelo fio da eternidade. Ouso dizer que Maria sentia o jugo das funções que lhe esperavam desde o nascimento perder a força! Encontrar e trabalhar com o nosso potencial produz novidade de vida, amplia a concepção de Boa Nova e nos traz a ideia revolucionária de que somos alvo dos planos de Deus (e não apenas figurantes em nossas próprias trajetórias).</p>



<p>Li um artigo do autor chamado Gustavo Alencar denominado &#8220;Evangélicos e a Nova Direita no Brasil: os Discursos conservadores do &#8216;Neocalvinismo&#8217; e as interlocuções com política&#8221;, o qual traz relatos e reflexões a partir de um trabalho de campo; ou seja, Alencar se dispôs a  presenciar e participar dos eventos de um determinado grupo cristão. Sua série de anotações me tirou o fôlego em dois pontos muito sensíveis: falar da igreja e da ignorância. Assimilando maternidade e missão feminina, o preletor do evento acompanhado se apropriou de uma narrativa onde o corpo feminino é plataforma de exploração. </p>



<p>A naturalização do que não é desígnio natural foi legitimada historicamente nas relações de poder não só entre os gêneros. Dessa forma, a caracterização das diferenças como forma de marginalização e opressão servem a um propósito e a uma teologia intencionalmente única &#8211; o que garanto não partir de uma simetria bíblica pois, ao reproduzirem tais sistemas, vão contra ao que, de fato, constitui a natureza do Criador que se estabelece de forma harmônica e igualitária. Por receio, assim creio, banalizam mulheres cristãs que já alertam sobre esse erro histórico no seio da igreja, não apenas nas delegações de funções mas também de interpretação bíblica.</p>



<p>No entanto, aviso que estes não precisam temer a perda do poder, pois o objetivo do feminismo (sobretudo na arena religiosa) é emancipar a mulher de um papel onde o homem se apresenta como seu mediador na relação com Deus e, portanto, superior na cognição espiritual. Concluindo, o movimento feminista na perspectiva cristã colabora para a abdicação de um poder soberano que, biblicamente, deve pertencer a Deus, apenas. Havendo um governo soberano para além Dele, o mesmo se caracteriza como tirania, em sendo disforme e opressor. Certamente, a consequência dessa mentalidade irá implodir os limites dos espaço religioso que dão à mulher lideranças apenas de setores como o cuidado com as crianças e cantina/cozinha (assim oro). Dito tudo isso, prefiro crer na teologia que serve e ampara, que parte de um Deus que não assume gênero, mas se compromete em ser TUDO em TODOS.</p>



<p>A seguir, relatos e reflexões de mulheres reais, falando de problemas reais em igrejas reais:</p>



<p class="has-text-align-center"><strong>Lorena</strong></p>



<p class="has-text-align-center"><em>&#8220;minha mãe é muito submissa, as vezes tenho raiva porque ela não questiona, ele&#8230; ela aceitou o lugar dela&#8221;</em></p>



<p class="has-text-align-center"><em>&#8220;eu fico full pistola quando vejo casos de mulheres na igreja que são agredidas e abusadas pelos seus maridos e a igreja é contra ela se separar, pois a mulher deve ser submissa e ela deve orar e fazer o homem, né (?) ele se comportar novamente como deveria e que a separação é uma vida em adultério. (&#8230;) Isso é machismo e totalmente contra as regras de bem estar, da vida&#8230; Se ela está apanhando é por que o marido tem autoridade sobre ela?&#8221;</em></p>



<p class="has-text-align-center"><em>&#8220;Na igreja, as mulheres sempre ficavam com as tarefas de organizar as coisas, enfim, falavam: &#8220;- ai, a gente gosta!&#8221;; mas assim, complicado ver o que você gosta e o que você aceitou por ser assim e não vai mudar, sabe?&#8221;</em></p>



<p class="has-text-align-center"><em>&#8220;Outra coisa que me incomodava.. em retiro, encontro de carnaval, enfim. Os meninos eram sempre aqueles que faziam bagunça e infernizavam todo mundo e ficavam com as meninas, e quem ficava com nome sujo eram as meninas. Era dito assim: homem é assim mesmo; e as meninas ficavam como erradas por ser a fulana que ficou com fulano no acampamento de carnaval&#8221; .</em></p>



<p class="has-text-align-center"><em>&#8220;Tem aquela coisa, embora eu e meu irmão tenhamos uma pressão por sermos filhos de pastores, ele ainda era visto de forma mais tranquila, sabe? Porque ele era um menino e poderia fazer o que quisesse. Mas, de mim, eles esperavam sempre muito mais, e eu sempre fui meio fora do padrão ali dentro e isso me custou muito&#8230; as pessoas não me ouviam, era muito difícil eu conseguir poder falar para jovens e tal pois não era ouvida, não só por ser mulher mas pela aparência, estilo, &#8230; era uma coisa muita complicada&#8221;</em></p>



<p class="has-text-align-center"><strong>Olívia</strong></p>



<p class="has-text-align-center"><em>(sobre tocar bateria) &#8220;Em vários momentos e em igrejas diferentes ao longo de quase uma década, eu experimentei algumas situações que no começo me faziam sentir envergonhada, como se eu tivesse feito algo de errado. Mas com o passar do tempo, percebi que tinha simplesmente a ver com o fato de eu ser menina. Tipo o fato de um líder de louvor nunca me escalar para tocar em um domingo, dia que a igreja fica mais cheia. E eu era a única a não ser escalada no domingo. Sempre só na quinta feira, dia que a igreja fica mais vazia&#8230; e quando eu cheguei a perguntar o porquê, me responderam que eu ainda era muito nova, ou que com o tempo eu ia ser escalada no domingo. Como se eu não fosse boa o bastante pra tocar no domingo&#8230;&#8221;</em></p>



<p class="has-text-align-center"><em>&#8220;Posso desabafar? Tipo, me dá bastante raiva quando alguém da igreja vira e fala: &#8216;nossa, até que você toca bem pra uma menina!&#8217; Ou&#8230; &#8216;Você bota muito marmanjo no chinelo&#8217;. Até os elogios são sexistas, sabe? E quando alguém que vai liderar no louvor me manda mensagem dizendo a música que quer tocar e me fala na mensagem: &#8216;Olívia, você sabe tocar essa música? Tudo bem pra você? Se você precisa trocar com alguém, me avisa&#8217;, essas coisas que tenho certeza que não perguntam pra nenhum outro baterista&#8230; E quando um outro menino chegou pra mim e disse que eu tocava muito baixo e que não precisava bater na bateria como uma menina&#8230; que dessa vez eu podia bater como menino.&#8221;</em></p>



<p class="has-text-align-center">&#8220;<em>Estranho como isso se torna comum nas atividades da igreja. Como se todas as atividades fossem masculinas, como se pregar fosse algo masculino, ou qualquer outra coisa. Também já vieram falar comigo sobre o jeito que eu me vestia na igreja&#8230;&#8221;</em></p>



<p class="has-text-align-center"><strong>Laura</strong></p>



<p class="has-text-align-center"><em>&#8221; A definição do termo machismo fornecido pelo dicionário Aurélio nos fala de &#8216;opiniões ou, atitudes que descriminam ou, recusam a ideia dos direitos entre homens e mulheres&#8230; Excesso de orgulho masculino, &#8220;macheza&#8221; &#8216; . Em dramáticas ocasiões, presenciei muitos fatores machistas, inconveniência dentro do ambiente que chamamos de casa de Deus! Muitas mulheres ainda se sentem domesticadas com o termo &#8220;mulheres e igrejas.&#8221; Jesus sempre será a maior inspiração para o feminino cristão. Enfrentava todas as estruturas machistas e o patriarcado presente, que tratavam as mulheres como um ser de segunda categoria. A Bíblia nos traz marcas dessa cultura patriarcal, mas o maior problema são interpretações machistas feita por homens com intenções de manter a ordem patriarcal da sociedade e da igreja. É importantíssimo uma leitura bíblica com a perspectiva feminina. Isso é muito importante no atual contexto, onde a Bíblia tem sido usada como arma de intolerância e violência contra a mulher; isso é uma apropriação do discurso religioso, fazendo usos e abusos da Bíblia como instrumento de legitimação de um poder. Os grupos privilegiados tentam voltar com a supremacia machista, branca e de classe média-alta, usam e abusam da palavra de Deus para colocar a mulher em lugar de submissão e inferioridade. Como cristã feminista que sou, discordo muito de certos posicionamentos no quesito pastoral; já ouvi discursos primordiais a respeito da conduta do feminino na igreja, &#8220;como devemos nos comportar&#8221;. Feridas em mim e em muitas mulheres como eu, que precisam ser saradas por sermos esmagadas psicologicamente por pensar diferente e defender o meu gênero, por entender a minha importância dentro da igreja como uma mulher feminista. Infelizmente, vejo igrejas reclinadas a desenvoltura do feminismo, e mulheres incríveis presas dentro de uma caixa chamada &#8220;submissão&#8221;, usando esses termos para nos aprisionar. Já vi situações de homens sendo deslanchados em ministérios por serem do gênero masculino. Quase nunca somos ouvidas; já passei por situações de assédios/abusos e ter que falar com meu pastor: &#8220;eu irei te provar que não estou mentindo&#8221;, justamente por não ter voz, não ser ouvida e ser mais uma vez tratada como inferior ou uma desqualificada. Vou deixar uma breve reflexão, quantas mulheres bateristas você já presenciou na sua igreja? Aliás, você conhece alguma? Por favor reflita. É nos mínimos detalhes que reparamos tais coisas e é por eles que vamos começar a fazer a diferença.&#8221;</em></p>



<p class="has-text-align-center"><strong>Manuella</strong></p>



<p class="has-text-align-center"><em>&#8220;A igreja tem um poder imenso sobre a sociedade, afinal é dela que são tirados os conceitos de moral que a sociedade segue, desse conceito vem as definições do que é certo e errado e, baseado nisso, vem a definição de quem é bom e quem é mau. No Brasil, temos a imagem do crente moldada em cima de uma figura pentecostal; levando a conversa pro feminino, a imagem que vem à mente das pessoas quando falamos de uma mulher crente é a de uma mulher com cabelos longos, saia longa, blusa tampando todo o corpo e, normalmente, raivosa; intrigante, já que o que o evangelho nos ensina é que primeiramente, Deus não se importa com aparência, e sim com nossos corações, e que o segundo maior mandamento é amar uns aos outros. Mas a imagem do crente é ligada a essa figura brava, conservadora e pronta pra te apedrejar diante do seu primeiro erro (completamente diferente do exemplo que Jesus nos deixou). Em contrapartida, temos o evangelho cool, que surgiu há pouco tempo no Brasil, seguindo um padrão estadunidense, que diz ter uma pegada mais liberal, onde “você pode usar a roupa que quiser”, “você é livre pra fazer suas escolhas”, “nós não te julgamos, somos uma família”, e, nas primeiras visitas a igrejas desse gênero, nós somos levadas a acreditar que finalmente surgiu um povo que entendeu a mensagem de Cristo e exerce o que é ser igreja. O design moderno, o pastor estiloso que usa gírias nas pregações e o liberalismo que permite o uso de bonés e calças rasgadas disfarçam o fato de que o conservadorismo patriarcal machista, que é extremamente preconceituoso em todos os aspectos, ainda domina essa estrutura RELIGIOSA, que segue os princípios de moral criados pelo homem, e não o coração de Deus. Eu sou uma jovem de dezoito anos, cristã, e frequento uma igreja há alguns anos; sou também feminista e líder de um projeto social que cuida de mulheres vítimas de abuso. Quando me converti, aos 15, me apaixonei pelo ministério de jovens da igreja, que tinha essa linha liberal de aceitação, onde pregavam com bonés e calças rasgadas, os adolescentes que frequentavam os cultos ouviam funk e rap, e existiam até células nas pistas de skate da cidade. Baseado nessas atitudes, eu me encantei por esse evangelho de liberdade que me foi apresentado. Comecei a ler a Bíblia, desenvolver um relacionamento sincero com Deus, e era discipulada por uma outra mulher jovem. Quando cheguei à igreja, antes da conversão, eu me relacionava com muitos meninos ao mesmo tempo, saía muito e usava as roupas mais curtas e decotadas possíveis &#8211; afinal ,esse era meu estilo de vida; e inicialmente fui bem aceita pela comunidade desse ministério, apesar dos toques de sempre como “meio sem noção essa roupa pro culto né”. Me lembro de algumas vezes onde eu queria muito orar e pular na presença do Senhor, mas me sentia incomodada com o julgamento alheio pela roupa que eu estava; inclusive, um episódio muito marcante pra mim foi quando fui a uma célula de mulheres e estava com a blusa da escola cortada na barriga (tinha transformado o uniforme em cropped); o tema da célula foi “vestimenta” e as líderes discursaram sobre como nós mulheres, não podíamos nos mostrar porque isso leva nossos irmãos homens a pecar. Uma das frases usadas foi: “imagina você de shortinho andando pela rua, um homem casado passa e te vê; é claro que ele vai te olhar, vai até virar o pescoço e vai te desejar. Ou seja, por causa da sua roupa, você está levando ele a pecar, e isso é um pecado seu também!”. Eu acreditei fielmente nessas palavras e me senti constantemente culpada por ter feito tantos homens pecarem, ó coitados, ingênuos! Depois de um tempo convertida, comecei a ministrar através de alguns ministérios da igreja, e essa pressão só aumentou. Uma das líderes comentava em todas as minhas fotos um aviso pra que eu as apagasse, fazendo com que, mesmo que fotografia seja algo que eu ame, seja um dom que Deus me deu, eu tenha deixado de fotografar e de usar minhas redes sociais por meses, por não me sentir confortável em publicar foto nenhuma &#8211; já que todas eram motivo de alguma crítica, indicando que era uma arma de sedução. Muitas vezes, fui impedida de atuar nos cultos pela minha roupa, muitas vezes! Não foram algumas, foram incontáveis vezes. Em uma das últimas que aceitei tal posicionamento, eu usava um body que tinha uma abertura nas costas, e a líder mandou que eu voltasse pra casa, pois, pra ela, eu não estava adequada para permanecer na casa do Senhor e tiraria o foco dos homens. É repugnante perceber como as pessoas realmente acreditam que os homens são crianças que precisam ser poupadas o tempo todo, às custas da pressão em cima das mulheres. Nós temos que nos privar pra facilitar a luta deles contra a carne, esse é o discurso! Não é preocupação de como o Espírito Santo se sente com nosso comportamento, nunca foi! É preocupação em defender os homens de sua própria fraqueza perante seus pecados cometidos contra Deus e suas irmãs.&#8221;</em></p>



<div style="height:100px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<p class="has-text-align-right"><em>&#8220;A filosofia feminista surge quando nós, mulheres tomamos consciência </em><br><em>que também nós somos convidadas á mesa do pensamento,</em><br><em>e temos todas as possibilidades de pensar a vida com maestria e sabedoria.&#8221; </em><br>(GEBARA, 2017, p 87)</p>



<div style="height:65px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<p>Para todas as minhas irmãs. Vocês não estão sozinhas.</p>



<hr class="wp-block-separator" />



<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:31% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2020/04/c748b-biogyo.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-8843" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p><strong><strong>Gyovana Machado </strong></strong>é Cristã, graduanda em História pela UFJF e formada no Seminário Teológico Rhema Brasil.&nbsp;</p>
</div></div>



<hr class="wp-block-separator" />



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-flow wp-block-group-is-layout-flow">
<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-large-font-size has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color">Galeria: Artistas pra seguir nessa quarentena</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.instagram.com/iuryborel/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2020/08/443e6-galeriaiury3-1021x1024-1.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-10527" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-medium-font-size has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color"><em>Apoie artistas nessa quarentena. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>
</div></div>



<hr class="wp-block-separator" />



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/9acee-publi-ediccca7acc83o-impressa-1.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-5668" data-recalc-dims="1" /></figure>





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<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.artebodoque.com/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/747d3-publi-bodoque3.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-5017" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



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		<title>Carta Aberta aos Meus Vizinhos</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 21 Jun 2020 21:37:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 050]]></category>
		<category><![CDATA[Carol Cadinelli]]></category>
		<category><![CDATA[confiança]]></category>
		<category><![CDATA[honestidade]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Carol Cadinelli</p>
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<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-flow wp-block-group-is-layout-flow">
<p>Pela primeira vez em semanas, desde que nomeamos o elefante na sala, eu tive a capacidade de tocar no assunto sem chorar. Eu disse:</p>



<p><em>“Você tem certeza que voltar é o melhor, agora? ”</em></p>



<p>A notícia é que as mortes por COVID lá aumentaram em 37% só na última semana. E a minha felicidade, que já temia encontrar sua ruína no momento em que ela saísse pela porta desse apartamento, se uniu ao receio. Mas não, não é o medo o assunto dessa carta; a felicidade é.</p>



<p>Hoje fazem três meses desde que nos casamos. Fazem quarenta dias desde que partimos de lá e aportamos aqui, neste apartamento, o de número duzentos e dois, que eu chamo de ‘casa’. Mesmo com os problemas diários, com os desequilíbrios de cada uma, com os estresses do trabalho e com algumas poucas discordâncias, a minha felicidade, a cada dia desses quarenta, cresceu exponencialmente.</p>



<p>A felicidade, amigos, é sonora. Ela traz consigo risadas, música, interjeições de prazer, de euforia. Ela tem, sim, seus momentos de silêncio; aqueles em que a gente se comunica só com o olhar, ou se compraz apenas com a existência, com a presença da outra, sem dizer meia palavra. Mas a felicidade é viva. Ela canta, dança, pula, ri.</p>



<p>A felicidade, ela também fala – e quando a palavra símbolo não é suficiente, ela complementa o significado com tons agudos e vozes volumosas. Vocês sabem disso. Não é por nada que “amar em silêncio” se tornou clichê de tristeza, e “gritar para todo mundo ouvir” consiste na epítome do orgulho, do sucesso, da felicidade. Não é algo que eu precise explicar, é convenção. Mas cá estou eu.</p>



<p>Os últimos quarenta dias foram, sem sobra de dúvidas, os melhores que o apartamento duzentos e dois já viveu. A cozinha, os quartos, os banheiros, o corredor e até mesmo as paredes brancas da sala emanam mais carinho. Porém, vocês sempre fazem questão de demonstrar que a nossa felicidade &#8211; a minha, a dela, a do cachorro e a de toda a estrutura concreta do apartamento – são um incômodo.</p>



<p>Antes, quando eu estava na escola, eu tinha mania de ouvir tudo o que acontecia nos apartamentos em volta. Bastavam dez minutos olhando o livro de biologia para os meus ouvidos passarem a receber atentamente o som ao redor: as risadas e brigas entre as três mulheres do apartamento de cima; as outras crianças jogando bola na área comum; os sertanejos que acompanhavam as faxinas dominicais da vizinha de porta; os gritos de gol do apartamento de baixo; as conversas animadas entre amigas. Eu reclamava, claro. Às portas do vestibular, toda aquela felicidade me atrapalhava a estudar genética. O tempo, porém, passou; e os livros de biologia já não faziam mais parte da minha rotina, assim como não faziam as rotinas dos apartamentos em volta. Acredito que essa época da minha vida me trouxe alguma compreensão sobre como vocês se sentem.</p>



<p>Adulta, adotei os versos de McCartney como prática; em sendo uma jovem de coração aberto, foram anos apenas “vivendo e deixando viver”. Apartamento é isso, ora: cumprimentar pessoas já na soleira de casa; trocar uma linha de prosa e perguntar como chama esse cachorrinho lindo; receber toques inesperados da campainha e encontrar alguém te alertando que a sua chave ficou para fora; ter paredes menos grossas do que gostaríamos, mas que fazem o wi-fi chegar a mais cômodos da casa; ouvir a vida, que vez ou outra, num fim de semana, toma umas e ri mais alto. E faz um tempo que já não consigo viver tão bem quanto eu costumo deixar viver. Bem, frente ao incômodo de vocês, em alguns dias desses quarenta, senti o agridoce na minha língua se tornar fel; e me vi, em alguns dias desses quarenta, me armando de escudos, prestes a trair a minha própria filosofia.</p>



<p class="has-text-align-center"><span style="text-decoration:underline">Relatório de 06.06.2020</span></p>



<ul><li>23h28 – Socos fortes em uma parede;</li><li>23h30 – Conversa em apartamento de cima, por mais de uma hora;</li><li>23h32 – Barulho de TV;</li><li>23h40 – Descarga;</li><li>23h41 – Secador;</li><li>23h47 – Motor de secador/microondas no apartamento de cima;</li><li>23h48 – Barulho de lata sendo aberta;</li><li>23h53 – Objeto metálico caindo no chão;</li><li>23h57 – Barulho de louça;</li><li>00h04 – Descarga;</li><li>00h11 – Bipe de despertador, por mais de um minuto;</li><li>01h01 – Descarga;</li></ul>



<p>Meus escudos provam que o duzentos e dois não é um apartamento à parte &#8211; é só um, entre os dezesseis do condomínio, que não se cala após as dez da noite. Ora, eu também escuto quando vocês resolvem cozinhar de madrugada, ou quando precisam tomar banho mais tarde, ou quando estão sem sono e decidem conversar. E a vida nos cubículos adjacentes, que nunca foi problema para mim, infelizmente precisou se tornar arsenal de defesa para a minha felicidade. Esse processo me exaure, honestamente. Limitar a vida de cada um de vocês está longe de ser um hobbie meu; inclusive, detesto. Mas é que em todo incômodo, é nítida a falta de empatia pelo que vocês nem cogitam conhecer. Pelas deusas, o quão difícil é imaginar que quem mora do seu lado teve um problema e se compadecer dele, ou perceber a alegria do outro e se comprazer com ela?</p>



<p>As primeiras vezes que ela disse sobre voltar, eu chorei, feito criança pequena que se perde na praia ou no supermercado. Eu já sabia que “se ela for, eu vou sentir saudade”, mas descobri recentemente que, como diz o pagode, “viver sem ela é o meu pior castigo”. Hoje, não chorei; meu receio racional de que ela adoeça foi maior do que o pavor psicológico de voltar a ter um cotidiano sem os sorrisos dela. Mas em todas as vezes, chorando ou não, pensei em vocês, e em como o ego de cada um ficaria satisfeito de poder se deitar às dez sem o receio de a nossa felicidade chegar para lhes incomodar às dez e cinco. Porque, bem, a descarga, o chuveiro, o micro-ondas, eles continuarão sendo acionados, mesmo que eu esteja triste, mesmo que eu esteja sozinha.</p>
</div></div>



<hr class="wp-block-separator" />



<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:30% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2020/04/5a704-carolcad-bio.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-8747" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p><strong>Carol Cadinelli</strong> é jornalista, apaixonada por palavras. Escreve, edita, revisa, traduz e, vez ou outra, fotografa. Atua como Social Media na Peregrina Digital, assistente de edição na Trama e escritora nas horas vagas.</p>
</div></div>



<hr class="wp-block-separator" />



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-flow wp-block-group-is-layout-flow">
<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-large-font-size has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color">Galeria: artistas pra seguir na quarentena</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.instagram.com/luis_vivanco/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2020/08/85183-galerialuis2-1021x1024-1.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-10530" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-medium-font-size has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color"><em><em>Apoie os artistas nessa quarentena. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></em></p>
</div></div>



<hr class="wp-block-separator" />



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/9acee-publi-ediccca7acc83o-impressa-1.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-5668" data-recalc-dims="1" /></figure>





<hr class="wp-block-separator" />



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.artebodoque.com/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/747d3-publi-bodoque3.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-5017" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



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		<title>A Quarta Parede do Som (e o que há além dela)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 21 Jun 2020 21:36:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 050]]></category>
		<category><![CDATA[mixagem]]></category>
		<category><![CDATA[robert anthony]]></category>
		<category><![CDATA[som]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Robert Anthony</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<pre class="wp-block-verse has-text-align-center">s
so
mos
som
os
s
*</pre>



<pre class="wp-block-verse has-text-align-right">Assim como já dito antes,
começo consciente da derrota que se sucederá
nas linhas que seguem.</pre>



<p>Certo dia, estava ouvindo música com meus fones – o que é uma prática bem comum. Acho que uso fones de ouvido desde os 15 anos, lembro que comprei um certo modelo de celular (não existia ainda os ‘smartphones’) por possibilitar ouvir músicas direto nele; bastava transferir os arquivos mp3, o que era inovador na época (para os nostálgicos, era um Sony Ericsson w200 Walkman, aquele preto e laranja. Um charme. Comprei de muitas vezes, numa dessas condições oferecidas pelas operadoras, com meu escasso salário). De fato, faz tempo&#8230; [pausa] quantas vezes já devo ter colocado e tirado os fones do ouvido desde então?</p>



<pre class="wp-block-verse has-text-align-right">O fato é que sempre sou
vencido,
na verdade acho que não tem como vencer.
Assim como muitas batalhas...</pre>



<p>Umas 900 mil vezes? Acho que sim. Mas enfim. Numa dessas, eu tive uma sensação estranha. Ok, essa sensação pode ter sido sugestionada pelas leituras que eu estava fazendo. Que eram sobre mixagem de sons. Em um estúdio, por exemplo, para que se possa trabalhar melhor na produção de uma música, muitas vezes, grava-se os instrumentos de uma banda em takes separados. Depois, é necessário fazer a mistura desse som para que tudo soe como uma coisa só, esse é o processo de mixagem. E um dos conceitos centrais desse processo é o de “acomodar” os instrumentos dentro de um ambiente.</p>



<pre class="wp-block-verse has-text-align-right">Talvez por isso os sons
me atraíram tanto
acho que há uma aliança
no reino dos sons.
Ou então, de tão sublime
Não tenha tido nem a primeira luta.
Seja o que for, encontrei paz quando
cheguei...</pre>



<p>Então, a função de um mixador é criar um ambiente que comporte todos aqueles instrumentos produzindo os mais diversos sons. Ou seja, enganou-se aquele que pensou que som era um fenômeno puramente mecânico. Não, é psíquico também. E a área que estuda isso é a psicoacústica, que é basicamente o estudo de como percebemos o som. Pois bem, como sei que um determinado som vem da direita? De acordo com o tempo de chegada desse som em cada uma de nossas orelhas. Nosso cérebro aprendeu, com isso, a nos dizer: “vem de lá”. E é claro que ele se engana. Por isso que, às vezes, quando vamos dobrar a esquina pra direita, sentimos na esquerda os sons vindo de lá: pois as construções rebatem o som, enganando nosso cérebro. E é isso que fazem os mixadores. Enganam nossos ouvidos. Criando os ambientes que esses vão conviver. Está criada aí a quarta parede do som.</p>



<pre class="wp-block-verse has-text-align-right">É como se eu explicasse algo.
sem dizer nada
e todos entendessem
sem a necessidade de entender,
entende?</pre>



<p>Então eu comecei a ouvir algumas músicas diferente de como eu ouvia antes; comecei a demolir aquela parede e tentar enxergar o ambiente que aqueles instrumentos estavam. Sugado numa velocidade incalculável para o interior [a música tocando] &#8211; Dei-me conta da invasão algumas semínimas depois [bonita essa parte]. Será que existe vida aqui? [movimento mais acelerado] Estou num lugar sem lugar, em um não-lugar? [um acorde tenso] Que lugar é esse? [pausa longa]</p>



<div style="height:100px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<pre class="wp-block-verse has-text-align-center">[resolução final]
.
Acho que a mágica está justamente aí
Nesse lugar sem lugar onde se entende sem entender.
Talvez por isso fora possível a paz. 
Pois ao mesmo tempo que há desejo em ser
Tudo é 
sem a necessidade de ser.

[som decrescendo]

Já que todos participam 
 - e cada um participa -
de acordo com sua própria acústica psíquica.

[silêncio]
</pre>



<hr class="wp-block-separator" />



<p><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong>Robert Anthony </strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong>é músico compositor experimental.</p>



<hr class="wp-block-separator" />



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-flow wp-block-group-is-layout-flow">
<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-large-font-size has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color">Galeria</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.instagram.com/viajeronima"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/9c974-galeriacadi4.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-10541" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-medium-font-size has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color"><em>Apoie pautas identitárias. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>
</div></div>



<hr class="wp-block-separator" />



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/9acee-publi-ediccca7acc83o-impressa-1.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-5668" data-recalc-dims="1" /></figure>





<hr class="wp-block-separator" />



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.artebodoque.com/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/747d3-publi-bodoque3.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-5017" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color">Clique na imagem para acessar a loja virtual da Bodoque!</p>
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]]></content:encoded>
					
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		<title>Letra Popular</title>
		<link>https://revistatrama.artebodoque.com/2020/06/21/letra-popular/</link>
					<comments>https://revistatrama.artebodoque.com/2020/06/21/letra-popular/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 21 Jun 2020 21:35:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 050]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[cultura popular]]></category>
		<category><![CDATA[Iury Borel]]></category>
		<category><![CDATA[letristas]]></category>
		<category><![CDATA[vernacular]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: Iury do Vale Borel</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p><a href="https://www.youtube.com/watch?v=_i0J6oMaf6g"></a><em><em><em>o&nbsp; terceiro da&nbsp; série de 3 textos sobre parte do movimento da cultura popular até a relação da produção vernacular brasileira. </em><strong><em>Essa é uma literatura interativa, clique nos links.</em></strong></em></em></p>



<p class="has-text-align-center">Pintura tipográfica popular urbana,mais um capítulo de resistência da arte.</p>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-flow wp-block-group-is-layout-flow">
<p class="has-drop-cap">A forma de expressão visual daquilo que podemos considerar uma das maiores obras da humanidade, a cidade, é repleta de pregnâncias em sua maioria acentuadas, tal como nosso contraste social. A economia,&nbsp;motor que movimenta essa obra,&nbsp;faz as cidades pulsarem, desenhando em cada período a identidade estética vigente &#8211; tanto nos estilos gráficos quanto nos meios de produção.</p>



<p>Na urgência desses espaços, o cidadão adapta sua necessidade ao recurso existente. Talvez você veja algum anúncio até terminar essa leitura; bom, essas peças gráficas fazem parte do seu dia-dia. Anúncios, como são chamados, são projetados cada vez mais para performar o conteúdo com o público certo. Uma bela estratégia de ser vista, mas que nem todo mundo pode pagar ou sequer sabe como funciona. Porém, o que não falta são postes com cartazes colados em lambe-lambe, de cartomantes a montadores de móveis, placas improvisadas, muros com&nbsp; letreiros ou pinturas  &#8211; das mais rudimentares a elaboradas obras gráficas. A realidade do borracheiro que usa de um conhecimento próprio para escrever em um pneu é a expressiva maioria na sociedade brasileira.</p>



<figure class="wp-block-gallery columns-3 is-cropped wp-block-gallery-1 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex"><ul class="blocks-gallery-grid"><li class="blocks-gallery-item"><figure><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/e4613-iury-1.jpg?w=950&#038;ssl=1" alt="" data-id="10383" data-link="https://atomic-temporary-162935141.wpcomstaging.com/?attachment_id=10383#main" class="wp-image-10383" data-recalc-dims="1" /></figure></li><li class="blocks-gallery-item"><figure><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/090a0-iury-2.jpg?w=950&#038;ssl=1" alt="" data-id="10384" data-link="https://atomic-temporary-162935141.wpcomstaging.com/?attachment_id=10384#main" class="wp-image-10384" data-recalc-dims="1" /></figure></li><li class="blocks-gallery-item"><figure><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2020/06/13664-iury3.jpg?w=950" alt="" data-id="10385" data-link="https://atomic-temporary-162935141.wpcomstaging.com/?attachment_id=10385#main" class="wp-image-10385" data-recalc-dims="1" /></figure></li></ul><figcaption class="blocks-gallery-caption">Cenas dos documentários <a href="https://www.youtube.com/watch?v=XbzG-YYdH0Y">Design Vernacular</a> (2018) e<a href="https://www.youtube.com/watch?v=uWT0-ZMdWTQ"> Praça da Sé (1976)</a>, disponíveis no youtube.</figcaption></figure>



<p>Algumas são as formas de ampliar essa ciência popular para outros negócios: o banner do salão pequeno de bairro, uma placa para no portão informando que ali há uma costureira, professor particular ou até mesmo Chup Chup. Na intenção de comunicar seja qual for sua demanda, o brasileiro “se vira como pode”. Segundo Walker (2001, p. 10), observa-se que as características da linguagem escrita são moldadas por variáveis sociais, econômicas, educacionais e tecnológicas, de acordo com determinada sociedade, linguagem ou tempo.</p>
</div></div>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>A sociedade se modifica e, assim, sua economia.</strong></h3>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/0ab1c-iury4.jpg?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-10388" data-recalc-dims="1" /><figcaption>Cena do documentário <a href="https://www.youtube.com/watch?v=uWT0-ZMdWTQ">Praça da Sé (1976)</a></figcaption></figure>



<p>Se tratando da mudança que a sociedade vem passando, as necessidades vão se tornando mais complexas &#8211; como a de se comunicar de forma visual no meio urbano. Assim surge o profissional letrista, ascendente de um conhecimento mais escolarizado sobre as técnicas da pintura, construindo uma hierarquia entre as pinturas de letras amadoras, com trabalhos elaborados que destacam no confronto visual das cidades. Nas regiões mais isoladas do Brasil se observa que as letras feitas por esse pintores também têm suas relevâncias e especificidades, como registra o projeto <a href="https://www.letrasqflutuam.com.br/">Letras que Flutuam</a>. Se você se interessar ver esse paralelo entre a pinturas de letras nos centros urbanos e de regiões isoladas, minhas sugestão é conhecer também os <a href="http://www.designvernacular.com.br/abridoresdeletras/">Abridores de Letras</a>.</p>



<figure class="wp-block-gallery columns-2 is-cropped wp-block-gallery-2 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex"><ul class="blocks-gallery-grid"><li class="blocks-gallery-item"><figure><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/8ca58-iury5.jpg?w=950&#038;ssl=1" alt="" data-id="10389" data-link="https://atomic-temporary-162935141.wpcomstaging.com/?attachment_id=10389#main" class="wp-image-10389" data-recalc-dims="1" /></figure></li><li class="blocks-gallery-item"><figure><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/aca8e-iury6.jpg?w=950&#038;ssl=1" alt="" data-id="10390" data-link="https://atomic-temporary-162935141.wpcomstaging.com/?attachment_id=10390#main" class="wp-image-10390" data-recalc-dims="1" /></figure></li></ul><figcaption class="blocks-gallery-caption">Abridores de Letras de Pernambuco</figcaption></figure>



<p>O esforço que o povo faz, especificamente a periferia, de disputar com o erudito, é o que gera a fagulha a de sua ascensão criativa sempre brilhante; em outras palavras, a necessidade de sobreviver. Observamos o que vem das ruas e encontramos o pulso de uma arte efêmera, que comunica e expressa por meio de técnicas e tática populares, passadas de forma humana para outras gerações, um ou grupo ensinando a outro, quando não autodidata. Tal fenômeno é&nbsp; praticamente resistir às pressões econômicas. Para Dohmann (2007), essa tipografia pode receber o adjetivo de <a href="https://www.instagram.com/cidadevernacular/?hl=pt-br">vernacular</a>.</p>



<p class="has-text-align-center"><em><img fetchpriority="high" decoding="async" width="293" height="354" src="https://lh4.googleusercontent.com/FVc-6ZRExH1jolXF1kGdpuhwNb2Eo9swE2pOuP7JO0GkZGFs-oJOWcOAu6xw20yZbC3Lyf1M7JPcc-WKSXheqXKSvmQz_voGvh56IaRRmW6wMgvtc0M5YBtP2kUs-D7UzmXnQuc7"></em></p>



<p class="has-text-align-right"><em>“aquele que surge do intermédio entre a necessidade de transmitir algo e uma carência de conhecimento mais apurado, construída a partir da restrita bagagem cultural de indivíduos que desconhecem os postulados das técnicas acadêmicas e escolarizadas.” Dohmann (2007, p. 38)</em></p>



<p>Depois desta leitura, sugiro que exercite seu olhar para a rua buscando reparar nas escritas populares que brigam pela sua atenção com a arquitetura, os outdoors e até mesmo com a tela do celular. Sendo tão disputada assim nossa atenção, o pobre de recurso e capital compensa no capricho, criatividade e na experimentação, transmitindo seu conhecimento adquirido em uma rede fraternal.</p>



<p>Tudo isso nos mostra uma beleza sem igual, em contrapartida de uma atmosfera de abandono existente nos grandes centros. Ainda sim, a arte vernacular se torna referência para muitos <a href="https://www.instagram.com/pintoresdeletras/?hl=pt-br">projetos de design</a><a href="https://www.instagram.com/cartelitopopular/?hl=pt-br">, coletivos</a>, <a href="https://www.instagram.com/letreros_cadena/?hl=pt-br">empresas</a>, estratégias de marketing, &nbsp;<a href="https://www.instagram.com/letrasqflutuam/?hl=pt-br">pesquisas acadêmicas</a>, textos para revistas, e, claro, para artistas:</p>



<p>Uma boa dica é: Valorize a arte popular, letristas populares, abridorxs de letras. Segue abaixo uma lista com alguns artistas que tem essa corrente como referência para sua pesquisa:</p>



<p class="has-text-align-center"><a href="https://www.instagram.com/mg_carteles/?hl=pt-br">MG Carteles</a></p>



<p class="has-text-align-center"><a href="https://www.instagram.com/dcargamaxima/?hl=pt-br">Carga Máxima</a></p>



<p class="has-text-align-center"><a href="https://www.instagram.com/cumbiayamor/?hl=pt-br">Cumbia&nbsp; Y Amor</a>&nbsp;</p>



<p class="has-text-align-center"><a href="https://www.instagram.com/k.kosugue/?hl=pt-br">k.kosugue</a></p>



<p class="has-text-align-center"><a href="https://www.instagram.com/thiago.nevs/?hl=pt-br">Thiago_nevs</a></p>



<p class="has-text-align-center"><a href="https://www.instagram.com/filipegrimaldi/?hl=pt-br">Filipe Grimaldi</a></p>



<p><a href="https://www.researchgate.net/profile/Fatima_Finizola">Fátima Finizola</a>, que enriquece muito esse assunto e foi a primeira pessoa que vi citar “Circularidade Cultural“, já proporciona reflexões sobre o fenômeno tipográfico vernacular:</p>



<p class="has-text-align-right"><em>“Como uma manifestação de design informal, surgida antes mesmo da oficialização da profissão do Brasil e no mundo, os registros dos primeiros artefatos de comunicação urbana elaboradas de forma manual remetem a períodos históricos distante, difíceis de precisar.” </em><br><em><a href="https://www.researchgate.net/publication/236647396_Alem_das_Letras_a_tipografia_vernacular_como_expressao_cultural">(Finizola, 2011)</a></em></p>



<p>“Circularidade Cultural“para Finizola é a troca de experiências permitindo que por vez o erudito se torne popular, e que o popular seja assimilado pela linguagem oficial, se tornando também erudito. Fluxos como esses fazem a humanidade expandir em suas percepções, conecta as experiências e assim seus agentes, caminhando para a unidade que coexista tantas distintas experiências. Eu mesmo me deleito com essa troca:</p>



<p class="has-text-align-center"><img decoding="async" width="164" height="164" src="https://lh5.googleusercontent.com/fIlaxBclcqRI4P0VrViJiXBWbb1GaCkSeV_X5YOBcgIjm4T7BE5X5q_mGm0HFkEJ5kQJBLfpDpj5LEZxliQ83f2hcYa8Vz5sp-fVX81r6t4XhZHuAgbs1QJoNJv0NSJ3BsfLurRd"><img decoding="async" width="164" height="163" src="https://lh5.googleusercontent.com/qqUAV8oLfwxqvD6nz9GVrw3iuVn5gES388aMWplYSNPF16epA4zMxkWwElK6vxThCFiWTTIX3kbnB5k5G_VYEepjDEMa0TWMEg9n90JAelU0fLYyy-8-2uvGG2pCRounLRhmu3WB"><img loading="lazy" decoding="async" width="164" height="163" src="https://lh6.googleusercontent.com/CDR9fLuWCvDVR_c7e3e-5FNciDa7yvYyc6J_3bmh67RMMH2baA98tk2FTLuQleOrxgd2yKBTpd77MJwsy7xX5etHoBgvICYixFfuRO75nfm34DrLhWVurJcLfMgM1X8HM-bWc2vn"></p>



<p><a href="https://www.youtube.com/watch?v=ZhjOb3JodCU">O Brasil </a>que a maioria dos brasileiros pode tangenciar certamente se fez em extrema criatividade, passada de gerações, em pontos distintos na sua imensidão. Empoderar o povo com tecnologia, conhecimento estratégico e fornecer recursos materiais necessários sejam talvez algumas das ações que as forças da arte vernacular devem buscar para o povo. Contribuir para que a periferia resista é, certamente, uma de suas grandes realizações e potências.</p>



<p class="has-text-align-center">Poder Para o Povo</p>



<p class="has-text-align-center">Viva a Cultura Popular</p>



<p class="has-text-align-center">Viva a Tipografia Popular</p>



<figure class="wp-block-embed-youtube wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
https://www.youtube.com/watch?v=TH4xNys97sg&#038;t=567s
</div></figure>



<hr class="wp-block-separator" />



<p><strong>Bibliografia de apoio</strong></p>



<p><a href="https://www.researchgate.net/publication/330912909_Sign_Painters_of_Pernambuco_A_Brief_History_of_the_Origins_Aesthetics_and_Techniques_of_their_Practice_in_the_Northeast_of_Brazil"><strong>Sign Painters of Pernambuco: A Brief History of the Origins, Aesthetics and Techniques of their Practice in the Northeast of Brazil</strong></a></p>



<p><a href="https://www.researchgate.net/publication/269163454_The_Iconography_of_Truck_Art_in_the_Brazilian_State_of_Pernambuco"><strong>The Iconography of Truck Art in the Brazilian State of Pernambuco</strong></a></p>



<p><a href="https://www.researchgate.net/publication/236213500_Identificacao_de_padroes_na_linguagem_grafica_verbal_pictorica_e_esquematica_dos_letreiramentos_populares_Identification_of_patterns_in_verbal_pictorial_and_schematic_graphic_language_of_popular_lette"><strong>Identificação de padrões na linguagem gráfica verbal, pictórica e esquemática dos letreiramentos populares Identification of patterns in verbal, pictorial and schematic graphic language of popular letterings</strong></a></p>



<p><a href="https://www.researchgate.net/publication/236647396_Alem_das_Letras_a_tipografia_vernacular_como_expressao_cultural"><strong>Além das Letras: a tipografia vernacular como expressão cultural</strong></a></p>



<p><a href="https://www.researchgate.net/publication/216776013_Tipografia_Vernacular_Urbana_Uma_analise_dos_letreiramentos_populares"><strong>Tipografia Vernacular Urbana | Uma análise dos letreiramentos populares</strong></a></p>



<p><a href="https://drive.google.com/file/d/1TOhwGOQMgZKDd7pHMz-xqRph0DbX8LSm/view?usp=sharing"><strong>Paisagens tipográficas &#8211; lendo as letras nas cidades.&nbsp; Anna Paula S. Gouveia, André Luiz T. Pereira, Priscila L. Farias, Gabriela G. Barreiros [Senac/SP]</strong></a></p>



<hr class="wp-block-separator" />



<p><strong>Iury Borel</strong> é mineiro com formação acadêmica que coexistiu o erudito e marginal, formou-se ativista gráfico pela Universidade Federal do Espírito Santo.  Propulsor e criador de ideias como CinePixo, Oficinas de Tobograffiti e Artefatos da Arte de Rua, que propõem uma visão empírica para mostrar as entrelinhas da arte urbana.<strong> Descriminalize a arte</strong>.</p>



<hr class="wp-block-separator" />



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-flow wp-block-group-is-layout-flow">
<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-large-font-size has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color">Galeria: artistas pra seguir na quarentena</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://twitter.com/stabenowcaroli"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/5bb86-galeriacarol3.jpg?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-10519" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-medium-font-size has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color"><em>Apoie pautas identitárias. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>
</div></div>



<hr class="wp-block-separator" />



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/9acee-publi-ediccca7acc83o-impressa-1.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-5668" data-recalc-dims="1" /></figure>





<hr class="wp-block-separator" />



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.artebodoque.com/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/747d3-publi-bodoque3.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-5017" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color">Clique na imagem para acessar a loja virtual da Bodoque!</p>
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		<title>A Memória, uma arte</title>
		<link>https://revistatrama.artebodoque.com/2020/06/21/a-memoria-uma-arte/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 21 Jun 2020 21:34:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 050]]></category>
		<category><![CDATA[Kariston França]]></category>
		<category><![CDATA[Memória]]></category>
		<category><![CDATA[ordinário]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://atomic-temporary-162935141.wpcomstaging.com/?p=10448</guid>

					<description><![CDATA[<p>por:  Kariston França</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>O ordinário é o novo extraordinário.</p>



<p>Quão relevante você pensou que fosse a vida do caixa operador da mercearia da Dona Rute aí na sua rua?</p>



<p>Em tempos de pandemia e de crises econômicas e políticas, o ordinário se prova extraordinário, mais uma vez.</p>



<p>No início da Pandemia, o Google colocou imagens agradecendo ao trabalho de pessoas dos setores de alimentação (em toda a sua trajetória da produção até as prateleiras), da saúde e da educação.</p>



<p>Mas desses três, dois acabam tendo maior destaque &#8211; a saúde e a educação -, mesmo que ambos também sofram com o descaso e uma certa desvalorização por parte dos governantes.</p>



<p>O que me motiva a escrever este texto, em uma pandemia, comemorando um ano de uma revista que mudou a minha vida, é o repositor das gôndolas do mercado, o prestador de serviços gerais que mantém a solução de cloro no tapete para que você possa acessar o estabelecimento com maior segurança.</p>



<p>Esse texto é de certa forma, uma homenagem aos meus colegas de trabalho e aos demais que vivem de modo extraordinário, pois vivem extraordinariamente no ordinário.</p>



<p>Eu tenho uma memória de quando fui trabalhar no supermercado; muito discurso de que isso não era o que estava relacionado à minha capacidade ou formação. Eu digo algo: quem aqui consegue trabalhar na sua formação?!</p>



<p>Poucos.</p>



<p>Mas este é um ponto.</p>



<p>O que eu quero ressaltar brevemente é a dualidade entre o essencial e o supérfluo tido como essencial por algumas pessoas.</p>



<p>A precarização do trabalho.</p>



<p>As histórias nos livros e filmes apresentam sempre o herói surgindo de uma tragédia, de um momento de desilusão, escassez. O herói vem como um baluarte de esperança de que se pode viver algo melhor, mais justo, em algum momento.</p>



<p>Enquanto hospitais, mercados e farmácias resistem &#8211; às vezes aos trancos e barrancos &#8211;&nbsp; para cuidar de seus funcionários e atender com segurança aos seus clientes, outras pessoas insistem em negar a periculosidade do vírus que nos aprisiona em nosso próprio canto de paz, refúgio em meio ao caos, nossas casas.</p>



<p>O que é essencial é a satisfação de nossos desejos, nossos delírios e o exercício do poder que tenho conquistado graças a estabilidade financeira que alcancei &#8211; <em>Deixo claro que eu, o autor deste texto, estou longe de afirmar este parágrafo, mas vejo isso navegando pelas redes</em> &#8211; ou seja, o essencial é que quem tem a possibilidade, continue dando festas, se reunindo com os amigos, fazendo churrasco e indo em seus bares favoritos que estão reabrindo, pois:</p>



<p class="has-text-align-right"><strong>&nbsp;“ a queda da economia vai </strong><br><strong>matar mais do que essa </strong><br><strong>gripezinha ” </strong><br>&#8211;&nbsp; síntese minha diante das ações do governo.</p>



<p>Verdade seja dita, a pandemia revelou mais sobre o quão destruída nossa sociedade está, e o quão sombrio é de fato o nosso futuro.</p>



<p>Mas isso não é o fim, parafraseando uma <a href="https://www.youtube.com/watch?v=5tHIRZgfWqE">banda muito boa</a>, porque &#8220;o fim é o começo&#8221;.</p>



<p>Talvez o fim de uma er seja o despertar de um novo senso de pertencimento, de cumplicidade, de compaixão. Afinal, o mundo está acabando, e ainda vemos gestos nobres de uns para com os outros, que nos despertam para um novo começo.</p>



<p>Vislumbrando a queda de estátuas que marcam opressores da história, exploradores das vidas inocentes, vemos &#8220;empresários de sucesso&#8221; se portando como abutres, justificando trabalho em meio a uma crise global de saúde.</p>



<p>A arte sobreviveu e contou histórias sobre resistência, dor e amor.</p>



<p>A resistência natural da vida diante das adversidades me remete a memória como a força que impulsiona a humanidade a se reinventar.</p>



<p>A memória nos ensina que não podemos colocar a mão no fogo ou na tomada; que não podemos nos entregar a algumas vontades porque essas mesmas vontades nos fizeram sofrer no passado.</p>



<p>A memória é extremamente importante.</p>



<p>Mas ela tem sido reprogramada, quando passa a ver números e não pessoas, ou quando olhamos comércios essenciais e não agradecemos ao sacrifício daqueles que estão ali se arriscando, se expondo.</p>



<p>Veja essa situação: o seu vizinho deu festa a quarentena inteira, saiu sem máscara e só colocou a máscara pra entrar no mercado e passar o cartão ou dar dinheiro pra levar os mantimentos da próxima festa. O contágio está ali, o problema está ali.</p>



<p>Quando a nossa memória deixa de ver um indivíduo e passa a ver números, ou mesmo não ver número nenhum, nós nos tornamos cúmplices da morte, do esquecimento, da opressão.</p>



<p>A memória de hoje que construo é a de pessoas, humanas, gente como você, que se coloca à disposição do combate a esse vírus, às vezes voluntariamente, outras vezes porque o seu trabalho é essencial para a sociedade.</p>



<p>A memória é dos que já morreram, na linha de frente, na porta da frente, na calçada do lado, e daqueles soldados desconhecidos lutando por <strong>igualdade</strong> e <strong>dignidade</strong>.</p>



<p>A memória é que esse vírus nos lembrou o que a tecnologia nos reprime constantemente; nos tornamos insensíveis quando mergulhamos nas relações tecnológicas: elas simulam, mas não são.</p>



<p>Insensíveis como no filme Equilibrium, onde a emoção é a causa da guerra, mas a ausência dela é a origem da morte do diferente, do inusitado, da surpresa, da aleatoriedade.<strong> A ausência de sentimento é a morte da vida</strong>.</p>



<p>Hoje então, com 50 edições, eu fico refletindo no tipo de memória que estou produzindo, e quero dizer: hoje eu quero construir um monumento aos soldados desconhecidos, aos amigos caídos no combate ao Covid (e ao governo fascista).</p>



<p>Hoje, ergo memorial aos mais de 50 mil conhecidos, mas também aos desconhecidos na subnotificação.</p>



<p>Hoje, ergo memorial aos meus amigos nas lojas, aos que estão nos hospitais, aos que protestam. Ergo memorial a vocês, soldados da democracia.</p>



<p>Não desistam. Resistam. Ocupem. Denunciem. Lembrem-se daqueles que estão nos oprimindo e sugando de nós o resto de sanidade e esperança.</p>



<p>Porque a terra não é plana; ela dá voltas. E na volta certa, a justiça recairá sobre os mandantes e seus carrascos.</p>



<hr class="wp-block-separator" />



<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:32% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2020/04/b5310-bio-ka.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-8637" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p><strong><strong><strong>Kariston França</strong> </strong></strong>é apaixonado por pizza, e nas horas vagas atua como entusiasta da teologia pública.</p>
</div></div>



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<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/9acee-publi-ediccca7acc83o-impressa-1.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-5668" data-recalc-dims="1" /></figure>





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<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.artebodoque.com/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/747d3-publi-bodoque3.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-5017" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



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<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-large-font-size has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color">Galeria</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.instagram.com/viajeronima/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2020/08/0a796-galeriacadi3-1021x1024-1.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-10540" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-medium-font-size has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color"><em>Apoie pautas identitárias. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>
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		<title>Um instante de dor, uma obra literária.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 21 Jun 2020 21:33:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 050]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Liz Goméz]]></category>
		<category><![CDATA[Salvador Elizondo]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Liz Gómez</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
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<p>Desde a adolescência, Salvador Elizondo capturou os momentos de sua vida &#8211; até 26 de março de 2006, apenas três dias antes de sua morte.</p>



<p>&#8220;Farabeuf ou A Crônica de Um Instante&#8221; é seu primeiro livro e é considerado um de seus grandes trabalhos por seu efeito cinematográfico e poético. Ele começou a escrevê-lo em 1963 e o publicou dois anos depois, sendo considerado uma obra em estilo romano nouveau. A inspiração para o trabalho foi uma fotografia do livro de George Bataille, &#8220;Les Larmes d&#8217;Eros&#8221;, que retrata o momento culminante da tortura chinesa chamada &#8220;lengchi&#8221;, aplicada a um homem que se assemelha a Xipe-Totec (divinidade azteca), o deus esfolado.</p>



<p>&#8220;O caráter inesquecível do rosto dos torturados, um ser andrógino que parecia extasiado com o céu enquanto os carrascos tentavam massacrá-lo, revelou algo como a essência mística da tortura&#8221;, disse ele em entrevista.&nbsp;</p>



<p>&#8220;Lembrar?&#8221; É uma pergunta constante feita pelos personagens do romance, uma pergunta para o leitor.&nbsp;</p>



<p>O texto retrata os relacionamentos amorosos de um homem e uma mulher com uma aura de aspectos da cultura chinesa, a qual o autor disse ser uma cultura que não havia se desvendado totalmente. Elizondo conhecia o mandarim e traçava constantemente os caracteres chineses em seus diários. Exatamente o &#8220;liu&#8221;, caractere chinês para o número seis, aparece na capa do livro e no volume que comemora o meio século de existência dessa obra.</p>



<p>&nbsp;&#8220;A ambiguidade da escrita chinesa é maravilhosa e, dessa forma, que se forma ali, na imagem da vítima, podemos deduzir todo o pensamento capaz de transformar essa tortura em um ato inesquecível&#8221;, escreveu ele em Farabeuf.&nbsp;</p>



<p>Elizondo se apaixonou por essa ideia quando viu a imagem no livro de Bataille, com o qual, ele disse, tinha um tipo estritamente formal de dívida por trazê-lo para mais perto de um &#8220;documento estético carregado de conteúdo psicológico capaz de ser convertido em efeito&#8221;.</p>



<p>Apenas um ano após a publicação, Elizondo escreveu em seu diário: &#8220;Tentei reler o Farabeuf e isso me aborrece. Alguém nos destruiu. Talvez nós mesmos &#8230; Visão negativa da foto do chinês que foi tirada à noite. Que horas eram quando as pessoas imploraram a ele?&#8221;.</p>



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<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:27% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/e5850-liz2.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-10322" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p class="has-normal-font-size"><strong><strong>Lizeth Goméz de Anda </strong></strong>é jornalista, apaixonada por letras, rádio e música. Atua como repórter no El Heraldo de Mexico. </p>
</div></div>



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<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-flow wp-block-group-is-layout-flow">
<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-large-font-size has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color">Galeria</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.instagram.com/d.nowicki/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/e74d5-galeriademetrio4.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-10524" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-medium-font-size has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color"><em>Apoie pautas identitárias. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>
</div></div>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/9acee-publi-ediccca7acc83o-impressa-1.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-5668" data-recalc-dims="1" /></figure>





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<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.artebodoque.com/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/747d3-publi-bodoque3.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-5017" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



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		<title>O desastre da “gestão CEO”</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 21 Jun 2020 21:32:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 050]]></category>
		<category><![CDATA[CEO]]></category>
		<category><![CDATA[gestão]]></category>
		<category><![CDATA[Hélio Rocha]]></category>
		<category><![CDATA[politica]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Hélio Rocha</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="has-drop-cap">Fosse a gestão pública tal qual a privada, há muito os Governos municipais, estaduais e federal teriam sido ocupados por gestores de sucesso em grandes empresas. O cenário atual que tivemos (e temos) no Brasil, ao menos até a conflagração da pandemia da Covid-19, é de hegemonia de um tipo de olhar para o Estado que legitima essa visão pouco abrangente dos problemas e deveres da gestão pública; que identifica nos empreendimentos privados o modelo de administração que deve ser levado ao Governo. Afinal, se dá lucro e, portanto, permite ampliação dos investimentos no campo empresarial, por que não seria assim no âmbito público, resultando na criação de escolas e hospitais e em melhorias na segurança?</p>



<p>A questão é tentadora e engana muitos brasileiros que, honestamente, buscam melhorar a eficiência do Estado (esta que lhe é princípio constitucional) e os serviços públicos. Recentemente, porém, o governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), o de São Paulo, João Dória (PSDB), além do ministro da Fazenda e o presidente da República, Jair Bolsonaro (sem partido), já tinham dado declarações que ofereciam pistas ao cidadão de que, mesmo no curto prazo, tal gestão pode se mostrar exemplarmente rejeitada. E aí está, com a falta de leitos no Sistema Único de Saúde (SUS), bem como a escassez de equipamentos adequados para o tratamento para o mais grave surto de doença respiratória dos últimos cem anos. Isso sem falar na pressão pela quebra do isolamento social, única medida comprovadamente eficaz para conter o espalhamento de seu vírus causador e, assim, desafogar o sistema de atendimento.</p>



<p>“Estado está mais para caridade que para empresa”; “Se o mercado precificar bem (a Cemig), por que esperar (para privatizar)?”; “É necessário rever direito adquirido dentro da realidade da sociedade (relativo à estabilidade do servidor público)”. As considerações sobre o perigo da “gestão CEO” sucedem-se nesta ordem.</p>



<p>Já alerta o economista e estrategista político Carlos Matus, consultor de gestões públicas latino-americanas de sucesso nos últimos 20 anos, à direita e à esquerda, que o administrador do Estado deve estar atento ao que chama de “cintos de gestão”, que ele ora aperta ora afrouxa, conforme as necessidades de sua administração. Para ser aprovado, ele precisa estar bem em ao menos dois deles: econômico, social, político. O primeiro, sim, diz respeito às contas públicas, à eficácia econômica do Estado e ao seu papel como intermediador de contratos privados (o que inclui eventuais privatizações e concessões). O segundo e o terceiro, porém, impõem limites àquele primeiro ponto de vista, assim como modera estes últimos. O administrador deve dar retorno à sua população quando o critério de avaliação são as oportunidades de trabalho, estudo, atendimento em saúde, tudo que lhe oferece qualidade de vida. Assim como, igualmente, deve conciliar esses dois campos com a plutocracia política, de modo a ter respaldo com as classes que lhe garantem, efetivamente, o poder de Governo: parlamentares, Ministério Público, Justiça, Forças Armadas.</p>



<p>Exemplos não faltam de gestões que malograram por conciliarem mal os três campos, permitindo escapar-lhes a autoridade pela falta de legitimidade. Embora derrubados por golpes (um militar, outro, parlamentar), os ex-presidentes João Goulart (PTB) e Dilma Rousseff (PT) caíram, em 1964 pelas mãos do Exército e em 2016 pelo Congresso Nacional, não por faltarem com os compromissos ante as necessidades sociais de seu povo, mas por carências nas relações com o poder econômico e a elite política. Michel Temer (MDB), por sua vez, manteve-se no cargo até o fim do mandato porque “municiou de satisfações pouco ortodoxas” a elite política, com dinheiro para deputados e poderes cedidos às Forças Armadas, mas tornou-se um fantasma nos corredores do poder por perder a mão do social e do econômico. O ex-presidente Lula (PT), ao contrário, manteve viável seu primeiro Governo e reelegeu-se em 2006, apesar da crise política do chamado “mensalão” em 2005, por estar bem social e economicamente à frente do Planalto.</p>



<p>Tal como se apresentaram nos últimos anos, os “novos gestores” como Bolsonaro, buscam tornar a administração eficaz pelo excessivo aperto do cinto econômico, tentando garantir o político e, assim, permitindo-lhes o afrouxo do social. A ideia é garantir lucro às empresas e, desta forma, no médio prazo tentar oferecer ao povo paliativos sociais como “mais empregos”, porém precarizados; “acesso facilitado a planos de saúde”, mas de qualidade e cobertura aquém daqueles usufruídos pela classe média e pela elite; “criação de &#8216;vale estudo&#8217; em escolas e universidades particulares”, para poucos, em detrimento da educação para todos.</p>



<p>O lucro como solução para os problemas de um país é resultado de uma visão simplista dos problemas da gestão pública. No longo prazo, a chance de que tais medidas perpetuem a desigualdade e, como desdobramento, a insatisfação popular, é considerável e pode afetar as relações com o campo político, fazendo desmoronar o tripé colocado por Matus para o sucesso da administração.</p>



<p>O Estado não existe para encher os cofres, assim como suas empresas ligadas a setores estratégicos existem para servir à população e à sua cadeia produtiva, bem como sua prestação de serviços essenciais como saúde, educação e segurança são o pilar para que a sociedade possa dar oportunidades o mais equânimes quanto possível para todos. Isto para que os cidadãos possam competir em condições razoáveis dentro da realidade do capitalismo, <em>a priori</em> desconsiderando a possibilidade de outros modelos de organização social e econômica.</p>



<p>Portanto, não é questão de estar mais para “caridade” do que para “empresa”. Não deve estar para nenhum dos dois. Deve, sim, servir ao povo em primeiro lugar. Principalmente o SUS, sistema entre os mais avançados do mundo por cumprir com os valores de atendimento universal e integram <a href="https://bodoqueonline.art.blog/2020/04/12/o-sus-e-os-valores-de-alma-ata/">aqui já explicados</a>. O servidor público, por fim, deve ser fiscalizado na eficácia de sua prestação de serviços, sendo considerável a possibilidade de acompanhamento de seu desempenho por órgãos independentes e especializados. Porém, sua demissibilidade permite a redução da prestação de serviços em razão de interesses econômicos (imaginem demissões no setor público em razão de finanças ruins, causadas por determinado governador ou prefeito?) ou, pior, coerção do servidor público por razões políticas, sob ameaça de desligamento.</p>



<p>A partir das afirmações de gestores como Doria, Guedes, Zema e Bolsonaro, estas são apenas três desconstruções sobre qual o perigo da “gestão CEO” no Estado brasileiro. No entanto, o que fala mais alto são os fatos, neste caso os terríveis 35 mil mortos que aproximam o Brasil da maior tragédia humanitária deste século.</p>



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<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:31% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/22e98-hecc81lio-bio.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-8888" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p class="has-normal-font-size"><strong><strong>Hélio de Mendonça Rocha </strong></strong>é jornalista. Atua como repórter de meio ambiente e direitos sociais para a revista Plurale e como analista político para o Brasil 247. Foi correspondente internacional na China em 2019.</p>
</div></div>



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<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-flow wp-block-group-is-layout-flow">
<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-large-font-size has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color">Galeria</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.instagram.com/iuryborel/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/1284e-galeriaiury1.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-10525" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-medium-font-size has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color"><em>Apoie pautas identitárias. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>
</div></div>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/9acee-publi-ediccca7acc83o-impressa-1.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-5668" data-recalc-dims="1" /></figure>





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<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.artebodoque.com/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/747d3-publi-bodoque3.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-5017" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



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		<title>Webinário Fórum Data Favela</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 21 Jun 2020 21:31:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 050]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[ONU Brasil]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: ONU Brasil</p>
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<p class="has-text-align-center has-medium-font-size"><strong><em>Nove em cada dez brasileiros dizem que negros têm mais chance de serem abordados de forma violenta pela polícia</em>.</strong></p>



<p class="has-drop-cap">O primeiro webinário Fórum Data Favela, com a organização da Central Única das Favelas (CUFA), do Instituto Locomotiva e da UNESCO no Brasil, apresentou na quarta-feira (17) dados inéditos da pesquisa “As Faces do Racismo”.</p>



<p>O levantamento aponta as desigualdades que os negros enfrentam para entrar no mercado de trabalho e para ter acesso e oportunidades de estudo. Também revela que nove em cada dez brasileiros reconhecem que pessoas negras têm mais chance de serem abordados de forma violenta pela polícia.&nbsp;<a href="https://app.workr.com.br/Download.aspx?arquivo=r48lS1mUpq1g9CCTbMc0Wg==">A pesquisa pode ser acessada aqui.</a></p>



<p>Participaram desse encontro virtual a diretora e representante da UNESCO no Brasil, Marlova Noleto; o presidente do Instituto Locomotiva, Renato Meirelles; o fundador da CUFA, Celso Athayde; o presidente da CUFA Global, Preto Zezé; a presidente e fundadora da Feira Preta, Adriana Barbosa; a representante do Frente Favela Brasil, Anna Karla Pereira; e os atores Bruno Gagliasso e Hélio de la Peña.</p>



<p>Neste primeiro webnário, os convidados debateram como o racismo tem se manifestado na sociedade e os principais desafios para superá-lo. Segundo a pesquisa apresentada, cerca de 76% dos entrevistados de cor negra afirmaram conhecer alguém que já sofreu preconceito ou algum tipo de discriminação dentro do ambiente de trabalho. O levantamento foi feito com 3.100 pessoas com idades entre 16 e 69 anos, de todos os estados do país, nos dias 4 e 5 de junho.</p>



<p>“É urgente promovermos esse debate, com dados concretos como os que nos traz o Instituto Locomotiva, que mostram a desigualdade e o racismo estrutural da sociedade brasileira. Precisamos investir em uma agenda de inclusão e da igualdade”, destacou Marlova Noleto, diretora e representante da UNESCO no Brasil.</p>



<p>“A educação e a cultura têm um papel transformador neste processo e podem contribuir para mudar significativamente a realidade. Precisamos fortalecer as políticas públicas de inclusão e combate ao racismo, inclusive com ações afirmativas. Temos o compromisso de construir uma sociedade inclusiva, onde ninguém seja deixado para trás.”</p>



<p>Dados da pesquisa mostram que 91% dos entrevistados entendem que uma pessoa branca tem mais chances de conseguir emprego que uma negra. A maioria dos entrevistados, cerca de 66%, diz ter chefes brancos e 46% da população reconhece ter pouca ou nenhuma diversidade em seu ambiente de trabalho. De acordo com o estudo, trabalhadores não negros ganham, em média, 76% a mais que os negros.</p>



<p>Ao apresentar a pesquisa, Renato Meirelles observou: “ganho mais do que um negro com 42 anos. Ganho muito mais do que uma mulher negra com 42 anos. Ganho mais porque na ‘corrida dos 100 metros’ eu queimei a largada. Isso significa que a cor da minha pele e o fato de ser homem, fez com que saísse na frente na luta do chamado ‘vencer na vida’. Isso reflete os dados apontados na pesquisa que escancaram a desigualdade racial no Brasil.”</p>



<p>Para Celso Athayde, “a primeira coisa que temos que reconhecer é que somos diferentes. Para que nós negros, que somos maioria, possamos tirar proveito dessas diferenças e equalizar o nosso lugar na sociedade. Para que um dia a gente possa então parar de largar em desvantagem nessa corrida”.</p>



<p><strong>Abaixo, a opinião de alguns dos convidados do Fórum Data Favela.</strong></p>



<p><strong>Adriana Barbosa, presidente e fundadora da Feira Preta.</strong></p>



<p>“Passo a me reconhecer negra pelo olhar do outro. Desde a época da escola. Então me engajei no movimento negro e na cultura negra, através do audiovisual, então a busca pela representação negra começou a pautar minha vida, fazendo com que eu me tornasse uma grande empreendedora da cultura e da representatividade negra. Com esse tipo de busca, vejo cada vez mais jovens negros, principalmente nos grandes centros urbanos, com uma maior autoestima em relação a sua cor de pele. Precisamos falar sobre o legado que essa juventude com consciência pode nos trazer. Como essa juventude vai reconstruir o nosso futuro”.</p>



<p><strong>Bruno Gagliasso, ator.</strong></p>



<p>“Quero colaborar para ampliar o debate sobre as questões que envolvem o racismo. Ao acompanhar os dados da pesquisa ‘As Faces do Racismo’, senti dor, raiva por notar que esses dados estão entre nós há muito tempo. Sinto que as pessoas ainda não acreditam nem notam o que continua acontecendo. Anseio por ações concretas contra o racismo. Quero ajudar nesse sentido. Hoje tenho dois filhos negros e em breve terei um filho branco. Quero propagar a todos os três que somos iguais”.</p>



<p><strong>Hélio de la Peña, ator.</strong></p>



<p>“Creio que a educação é a melhor ação concreta para que as pessoas passem a entender o racismo. Digo isso, porque minha mãe foi uma professora que me orientou a estudar e foi através da educação que conquistei aprendizado e tornei-me uma exceção no contexto do racismo. Mas, reforço que não precisamos pensar na exceção, mas sim no racismo como um todo”.</p>



<h3 class="wp-block-heading">Encontros Fórum Data Favela</h3>



<p>O Fórum Data Favela já tem programados outros três webinários, todos às quartas-feiras. Confira a agenda:</p>



<p>24/06 – “Tecnologia nas favelas e a colaboração das organizações diante dos impactos da pandemia”</p>



<p>01/07 – “Racismo e o desenvolvimento econômico”</p>



<p>08/07 – “Os desafios da favela após a COVID-19”</p>



<p><strong><em>Matéria originalmente publicada em <a rel="noreferrer noopener" href="https://nacoesunidas.org/nove-em-cada-dez-brasileiros-dizem-que-negros-tem-mais-chance-de-serem-abordados-de-forma-violenta-pela-policia/" target="_blank">Nações Unidas Brasil</a></em> <em>em 18/06/2020 &#8211; Atualizado em 18/06/2020.</em></strong></p>



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<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:31% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/982c5-onubio.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-8891" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p class="has-normal-font-size"><strong><strong>A ONU (Organização das Nações Unidas) </strong></strong>é uma organização internacional formada por países que se reuniram voluntariamente para trabalhar pela paz e o desenvolvimento mundiais.</p>
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<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-large-font-size has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color">Galeria: artistas para seguir nessa quarentena</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://twitter.com/stabenowcaroli"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/ac2a9-galeriacarol2.jpg?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-10518" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-medium-font-size has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color"><em>Apoie artistas nessa quarentena. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>



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<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.artebodoque.com/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/747d3-publi-bodoque3.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-5017" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color">Clique na imagem para acessar a loja virtual da Bodoque!</p>



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<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/9acee-publi-ediccca7acc83o-impressa-1.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-5668" data-recalc-dims="1" /></figure>


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