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	<title>Arquivos Ano 002, N 059 - Revista Trama</title>
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	<description>Arte, Cultura e Criatividade</description>
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		<title>I can´t breath! Je suis “Mineirinho”!</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 23 Aug 2020 21:29:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 059]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Luciano Nascimento]]></category>
		<category><![CDATA[resistência]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Luciano Nascimento</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<h2 class="wp-block-heading"><strong>Procurar em nós</strong></h2>



<p><em>Mineirinho</em><strong>-1 </strong>é uma crônica de Clarice Lispector; tem por mote o assassinato do assaltante José Miranda Rosa – o tal Mineirinho – em 1962. A professora e psicóloga Yudith Rosenbaum já produziu uma excelente crítica<strong>-2</strong> sobre essa crônica, situando-a no tempo e no contexto social do fato, bem como na produção literária da autora. Isso me dispensa da repetição.&nbsp;</p>



<p>Quero aqui, então, convidar o leitor fazer um exercício de reflexão parecido com o declarado por Clarice logo no começo de sua narrativa: “É, suponho que é em mim, como um dos representantes do nós, que devo procurar por que está doendo a morte de um facínora”. Era a década de 60 do século passado e a autora sente a dor da morte de um marginal. Proponho pensarmos no seguinte: em 2020, mais de 50 anos depois do extermínio de José Miranda, por que em tantos de nós a dor do Outro, quando não alegra, já não dói? Onde foi parar a nossa empatia?</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>A busca</strong></h2>



<p>A década de 1960 foi bastante agitada, para dizer o mínimo. Guerra Fria corrida espacial, surgimento dos Beatles, golpes militares em vários países da América Latina, revolução sexual, desaparecimento de Luther King, grandes festivais de música&#8230; Em meio a tudo isso, uma literata brasileira se ocupa com o fuzilamento de um assaltante na Zona Norte da cidade do Rio de Janeiro. Porque, segundo ela, “[&#8230;] essa coisa, que em Mineirinho se tornou punhal, é a mesma que em mim faz com que eu dê água a outro homem, não porque eu tenha água, mas porque, também eu, sei o que é sede; [&#8230;]”.&nbsp;</p>



<p>É isso a empatia: eu também sei o que é sede, sei que ela pode desnortear, desesperar, torturar e até matar. Se eu não quero lidar com ela, e entendo que&nbsp;</p>



<p>quem está ao meu lado também não queira, isso me ajuda a compreender as ações de qualquer um no sentido de evitar a própria sede (esperto jogo semântico clariceano: “sensação física gerada pela necessidade de ingerir líquido”, ou “ânsia, desejo forte por algo”?).</p>



<p>Tomando por referência aquilo que nos garante vida e confere Humanidade – acolhida, alimento, saúde, instrução, dignidade&#8230; ou, em uma palavra, cuidado – fica relativamente fácil entender que as necessidades de alguém ao meu lado (o <em>Outro</em> com quem eu convivo e interajo a maior ou menor distância) tendem a não ser tão diferentes assim das minhas. Para além de todos os argumentos racionais de base filosófica e/ou sociológica que sempre se podem invocar, a experiência prática, concreta e cotidiana mostra de maneira evidente que cada indivíduo <em>Homo sapiens</em>, desde o nascimento, é dependente da interação com outro(s) indivíduo(s) da espécie: um recém-nascido é absolutamente incapaz de sobreviver sozinho, e é mais ou menos desse jeito que se manterá até os dois ou três anos de idade. É um dos maiores períodos de vulnerabilidade extrema do reino animal. O amadurecimento neuronal pleno, que, grosso modo, garante total capacidade cognitiva, só chega para nós em torno dos nossos vinte anos de idade!</p>



<p>Ter consciência desse fato cientificamente comprovado nos conduz a uma conclusão lógica necessária: o cuidado (o amparo, a guarda, a alimentação, o remédio&#8230;) que nos ofertam é, em sentido estrito e literal, fator condicionante da nossa sobrevivência física. Por extensão, pode-se aventar que a ampliação deliberada desse cuidado (traduzida na garantia de boa moradia, boa alimentação, pronto atendimento médico, educação formal de qualidade, balizamento moral e ético, carinho e respeito manifestos) seja determinante para o desenvolvimento afetivo, efetivamente humano, de qualquer pessoa. Ao ponto mesmo de a ausência desse tipo de cuidado também se configurar um tipo específico de sede: uma carência psicoemocional que, mesmo se não sinto, posso, com boa vontade, supor e estimar no <em>Outro</em>.</p>



<p>Em síntese, penso que o fator distintivo entre a Humanidade (faculdade daqueles cujas ações e reações são mediadas pela razão e pelo afeto) e a Animalidade (condição preponderante naqueles governados, sobretudo, pelo bruto instinto de autopreservação) seja precisamente a medida entre o cuidado que nos dedicaram/dedicam e o que fomos/somos capazes de dedicar aos <em>Outros</em>. Numa palavra: defendo que um dos componentes primordiais de nossa Humanidade é a empatia: “[&#8230;] – porque eu sou o outro. [&#8230;]”, como diz Clarice.</p>



<p>Quem atira 13 vezes num ser vivo não tem empatia; tampouco a tem quem aplaude tal violência; e quem se beneficia dela ou finge não a ver pertence à categoria dos “sonsos essenciais”, na qual Clarice duramente inclui a si mesma para depois a rechaçar. São eles, os sonsos essenciais, os apáticos que cegam os olhos para toda a falta de que Mineirinho é produto e nele grita na única linguagem que lhe é franqueada: a brutalidade, a violência. Aí os sonsos essenciais se espantam e fingem que é dor a dor que de fato não sentem.</p>



<p>Contudo, a resposta a essa mensagem de indiferença nem tão cifrada vem na mesma clave, mas muitos tons mais alta: treze tiros disparados pelo Estado, endossados pela imprensa, aplaudidos pela “gente de bem” que nos anos 60 decerto&nbsp; já entoava alguma protoforma do bordão “bandido bom é bandido morto”. Afinal, a existência, em si mesma, tanto de <em>Mineirinhos</em> quanto de “gente de bem” é, sim, sobretudo, uma questão de linguagem. Clarice denunciou isso na ocasião do crime e, anos mais tarde, no romance <em>Cidade de Deus</em>, Paulo Lins foi cirúrgico na lapidação do postulado: “Falha a fala. Fala a bala”. Hoje, sem dúvida, podemos acrescentar: falha a fala, falam as <em>fake news</em>, o terraplanismo, o anticientificismo, a escravidão, a necropolítica&#8230;</p>



<p>Esse intrincado novelo dialético suscitado pelo texto clariceano foi indiciado por Rosenbaum (2010): “Por situar-se, portanto, nessa dupla face &#8211; psicológica/existencial e ético/política -, ‘Mineirinho’ demanda um olhar abrangente, capaz de acompanhar sua múltipla significação”. O “olhar abrangente” necessário para se compreender tanto a “dupla face” de <em>Mineirinho</em> quanto as múltiplas facetas do macabro cotidiano que re-vivemos hoje (triste farsa&#8230;) só se construirá exatamente no campo e com as ferramentas da linguagem, como antídoto a “tudo isso que tá aí”.&nbsp;</p>



<p>Essa construção é urgente e inescapável: estamos morrendo. Literalmente. Muitos de nós sem nem se darem conta. É preciso lutar para mudar isso. Por empatia e justiça. Ou “Só depois que um homem é encontrado inerte no chão, sem o gorro e sem os sapatos, vejo que esqueci de lhe ter dito: também eu”.</p>



<p>Não. Basta!<em> I can´t breath! Je suis Mineirinho!</em> Também eu!</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>O encontro</strong></h2>



<p>Clarice comenta a morte de Mineirinho a partir de uma perspectiva lírica que provoca nossa empatia, ao mesmo tempo que nos convoca à busca por um novo modelo de justiça: “Uma que levasse em conta que todos temos que falar por um homem que se desesperou porque neste a fala humana já falhou, ele já é tão mudo que só o bruto grito desarticulado serve de sinalização”. É, portanto, um forte apelo ético, social e político, que contraria de certa forma a autodeclarada inabilidade da autora para tratar desses temas.</p>



<p>Não acredito, contudo, num caráter epifânico no texto. Aliás, eu não sou pessoalmente afeito à crença em epifanias, menos ainda nas ordinárias, fortuitas, cotidianas – a despeito de saber que algumas dessas grandes-pequenas revelações apareçam aqui e ali, liricamente, na ficção clariceana. Na vida prática, corriqueira, concreta e meio acinzentada de todo dia, costumo acreditar antes na eficácia da reflexão metódica e lastreada na observação atenta dos fenômenos, sejam eles naturais, artificiais, sociais, políticos&#8230; quaisquer. Me acostumei a me mover no mundo mais com a razão do que com a emoção (sem ver muita vantagem nisso, admito). Mas ouso supor que talvez – apenas talvez! – Clarice também tirasse justamente desse exercício de reflexão metódica e observação atenta da realidade muito do lirismo impactante de seus textos.&nbsp;</p>



<p>É que tanto faz se na Idade da Pedra, Média, em meados do século passado ou hoje: o cotidiano cronicamente exige da gente “Tórax de super[wo]man e coração de poeta” – sábios Chico Buarque e Edu Lobo! Por isso mesmo a Humanidade (acima de tudo empática) que podemos e precisamos desenvolver depende sempre e cada vez mais da assunção e do compartilhamento deliberado da consciência de que cada um de nós traz<em> bela e fera</em> dentro de si. Clarice sabia que eles também estavam em Mineirinho. Nele assim como nela própria, Clarice. E em cada um de nós. Sempre.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>NOTAS:</strong></h3>



<p><strong>-1 </strong>Disponível em &lt;<a href="https://www.geledes.org.br/mineirinho-por-clarice-lispector/amp/">https://www.geledes.org.br/mineirinho-por-clarice-lispector/amp/</a>&gt;. Acesso em 15AGO2020.</p>



<p><strong>&#8211;</strong>2 Disponível em &lt;<a href="https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0103-40142010000200011">https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0103-40142010000200011</a>&gt;. Acesso em 15AGO2020.</p>



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<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:33% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/1a42c-luciano-19.23.45.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-11365" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p><strong><strong>Luciano Nascimento</strong></strong> é mangueirense, filho, marido, pai, professor, flamenguista, psicopedagogo&#8230; mais ou menos nessa ordem. É, também, idealizador do projeto Dê Efiência.(<a rel="noreferrer noopener" href="http://www.deeficiencia.com.br/" target="_blank">www.deeficiencia.com.br</a>) E-mail: <a href="mailto:prof.lcnascimento@gmail.com">prof.lcnascimento@gmail.com</a></p>
</div></div>



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<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-large-font-size">Galeria: artistas para seguir na quarentena</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.instagram.com/tuncaliozge"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/43ef4-fotos-carol-copy.jpg4_-1021x1024.jpg?resize=950%2C953&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-11385" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-medium-font-size"><em>Apoie pautas identitárias. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>
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		<title>[Arredores] Memórias afetivas, com Igor Silveira</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 23 Aug 2020 21:28:03 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 059]]></category>
		<category><![CDATA[Arredores]]></category>
		<category><![CDATA[Entrevista]]></category>
		<category><![CDATA[Igor Silveira]]></category>
		<category><![CDATA[MÚSICA]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: Carol Cadinelli</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="has-drop-cap">No processo de todo artista, a memória está lá, presente. É impossível eliminá-la. Alguns até fazem a sua arte sobre o ato de se lembrar. E com a quarentena já chegando ao seu sexto mês de duração, um artista dos nossos arredores questiona: &#8220;Lembra como é bom andar na rua?&#8221;.</p>



<p>Muita gente, acho, ainda se lembra, e sente saudades. Bom, o Igor também.</p>



<p>Natural de Santos Dumont, Igor Silveira é músico faz uma pá de tempo, com um EP e dois singles no currículo, além de uma independência musical invejável. Carinhoso de suas memórias, ele relembra  não só &#8220;como é bom andar na rua&#8221; em seu novo single, mas também sua trajetória na música, experiências importantes para sua construção como músico e referências atuais que o inspiram.</p>



<p>Rola pra baixo para ler!</p>



<div class="wp-block-image"><figure class="aligncenter size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/4cf47-img_0865.jpg?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-11714" data-recalc-dims="1" /><figcaption>O músico Igor Silveira em seu estúdio.</figcaption></figure></div>



<p><strong>Trama: Como você começou sua carreira na música? E quanto tempo levou para que você passasse a considerar a música como uma possibilidade real de carreira?</strong></p>



<p><strong>Igor:</strong> A minha primeira experiência mais profissional dentro da música foi aos 16 anos, quando fui convidado para entrar na banda Jane, aqui em Santos Dumont, cidade onde nasci. Na banda, eu tocava teclado, guitarra, cantava&#8230; e o período de 5 anos em que lá estive foram preciosos para me formar, tanto musicalmente quanto no sentido de entender outras dimensões que permeiam o mundo da carreira musical. Foi nesse intervalo de tempo que tive meu primeiros contatos com o processo de produção musical: escrevi muita música, estudei piano na Bituca, Universidade de Música Popular (lá em Barbacena), e foi também quando fiz minhas primeiras apresentações sozinho com meu violão na noite sandumonense. Apesar de tantas experiências, foi em 2017 que de fato decidi me aventurar em um show solo com músicas minhas, a convite de uma amiga. O show aconteceu no IAD (Instituto de Artes e Design) da UFJF em um início de tarde, bem na hora do almoço, quando me deparei com um público interessadíssimo em ouvir o que eu tinha pra tocar. Ali, eu me senti capaz e fiquei mega motivado a continuar fazendo aquilo de tocar música pras pessoas e desde então não parei mais.</p>



<p><strong>T: Por que a opção por fazer tudo &#8216;sozin&#8217;? Se você pudesse, contaria com um aparato de gravadora para o seu trabalho?</strong></p>



<p><strong>I:</strong> A opção é quase que, na verdade, um processo involuntário de aceitação de ou fazer sozinho, ou não fazer. No âmbito da performance, acho que o “sozin” basicamente se deu por não encontrar outras pessoas no momento que compartilhassem os mesmos interesses e vontades musicais que eu, o que significa que achar uma banda que quisesse tocar minhas músicas seria algo muito difícil. Então optei por começar a me apresentar com um pedal de loop, inspirado no Ed Sheeran, artista que conheci em 2017, mesmo ano em que comecei meus shows. Eu sempre tive uma vontade imensurável de gravar as músicas que compunha e lançá-las, mas não encontrei o espaço para tal, por exemplo, quando estava na Jane. Não mais na banda, eu sabia que não conseguiria bancar financeiramente um estúdio de gravação, por conta disso o “sozin” no âmbito da produção se deu aí, quando decidi iria gravar eu mesmo minhas músicas. Os anos de 2017 e 2018, eu passei tocando em Santos Dumont e Juiz de Fora, principalmente na noite, em bares e restaurantes. Juntei toda essa grana, comprei um material de gravação muito simples e coloquei no meu quarto. Ali, eu passava as madrugadas gravando e regravando instrumentos e vozes. Fuçando e assistindo muito tutorial de YouTube, eu fui aprendendo aos poucos como funcionava esse universo e consegui lançar, em janeiro de 2019, meu primeiro trabalho autoral, o EP <em><a href="https://open.spotify.com/album/4XSaf0sv1ZQ5SI45N7HRJ0?si=6k0gOZiXTXKA6EM2LM2lrA">Sozin</a></em>, cujo nome é bem sugestivo (risos).</p>



<p>Faço minhas músicas assim até hoje e, apesar dos muitos pontos positivos de se produzir sozinho, acho que qualquer artista na possibilidade de contar com os confortos de uma gravadora toparia a parceria, pois isso acaba gerando uma facilitação de todo o processo. Eu me incluo aqui, mas claramente apenas num cenário em que esta gravadora não tomasse as rédeas do processo artístico, coisa que rola muito, e a mim fosse dada a liberdade de produzir a arte que quisesse.</p>



<p><strong>T: Além de ser músico, você também cursa Letras. Como essas duas vivências profissionais se complementam para você?</strong></p>



<p><strong>I:</strong> A escolha de cursar Letras veio muito a partir de algumas convergências de interesses. Por exemplo, desde os 17 anos, eu trabalho como professor de Inglês. Sempre me considerei (e ainda hoje me considero) um péssimo leitor, mas, nessa altura, eu já adorava escrever, e achei que Letras poderia ser útil de alguma forma na soma dos conhecimentos e habilidades que eu buscava para me tornar o artista que queria ser. Eu creio que não estava errado, pois, no curso, eu tive contato com autores incríveis e muito inspiradores, além de conhecer, dentro dos estudos de literatura, a profunda conexão que existe entre poesia e música. Fiquei fascinado, por exemplo, pela literatura grega antiga, cuja poesia era, na sua maioria feita, a partir do canto e do acompanhamento de instrumentos. Nela, eu encontrei identificação comigo e desde então acho incrível, sério!</p>



<p><strong>T: Após ter gravado um EP e dois singles, você já tem uma experiência com mixagem e produção, certo? Você cogitaria fazer isso para outros artistas?</strong></p>



<p><strong>I:</strong> Após o lançamento de “Lembra Como é Bom”, chegaram propostas de algumas pessoas para (eu) trabalhar como produtor, e isso é definitivamente algo no meu horizonte. A grande questão é ter a organização e achar o tempo e jeito certo de se fazer isso, pois produção musical como um todo &#8211; incluído arranjo, gravação, mixagem &#8211; é um processo muito trabalhoso. Assim, penso muito em encontrar um jeito de incluir isso em meu cronograma sem interferir, no entanto, nos processos de produção da minha carreira, que é meu projeto principal.</p>



<p><strong>T:</strong> <strong>Recentemente, você gravou o single &#8216;<a href="https://open.spotify.com/track/5VqQSDeWOyogyUh4DUdyLO?si=l_PHGJtOQT20f4PmlCRifg">Pisa na Terra</a>&#8216;, em parceria com o <a href="https://open.spotify.com/artist/4jp6QwVtELs7pUcFfb9d1z?si=ZuJPe_yoTHWhh_BkaRlL0w">Arcanjos Duo</a>. Como foi a experiência de dividir o espaço de gravação pela primeira vez? Você tem outras parcerias em mente que gostaria de fazer com outros artistas de JF e região?</strong></p>



<p><strong>I:</strong> Conheço o Gabriel e a Amanda desde adolescente, pois somos todos de Santos Dumont. Quando eles se lançaram como duo, eu fiquei muito animado, pois percebi na proposta deles algo de similar com a minha e de certa forma, me fez sentir menos “sozin” no que estava fazendo; me senti pertencido a um movimento de criação que estava rolando por aí. Nós produzimos um show em Santos Dumont em maio de 2019 e dividimos o palco numa noite de dobradinha, até que, no fim de tudo, comentei com eles que tinha feito essa música, “Pisa na Terra”, muito pensando nos dois. Eles se animaram bastante e toparam na hora o meu convite pra gravarmos juntos. Com isso, eles vieram de São João Del Rey passar comigo um domingo na Ponte Preta (área da zona rural de Santos Dumont), onde gravamos suas vozes em cima do instrumental que eu tinha construído. Ali, de alguma maneira, caiu a ficha pra mim que eu estava na posição de produtor musical daquela faixa. Era isso realmente o que eu estava fazendo, e essa autodescoberta foi massa. Pra além disso, o mais legal de tudo foi desfrutar a companhia musical deles e poder passar um tempo juntos conversando.  </p>



<p>Tenho buscado, desde o início de 2020, me aventurar em parcerias. Estou buscando escrever com outros amigos compositores e compositoras, e faço isso como um exercício criativo desse ofício de fazer música. Essa experiência tá sendo muito enriquecedora e, inclusive, com o Gabriel, já andei escrevendo algumas coisinhas à distância, mandando coisas um pro outro pelo WhatsApp ou fazendo chamada de vídeo.</p>



<p><strong>T: &#8220;<a href="https://open.spotify.com/album/4dIXusN4YI55x5P4PJsBE4?si=YVeYZP0-RX-Ri0TC03FywA">Lembra Como é Bom</a>&#8221; é o seu trabalho mais recente, também totalmente produzido por você, e que tematiza toda essa vivência de quarentena. Você sempre fez todo o seu trabalho sozinho; mas foi diferente com a situação de quarentena? Diferente como?</strong></p>



<p><strong>I:</strong> A diferença de produzir “Lembra Como é bom”, em relação às outras coisas que já havia feito, está muito na rapidez em como tudo aconteceu. A música surgiu logo no primeiro mês de quarentena, em uma noite, e quando foi fim de abril, a faixa já estava pronta para ser lançada. Acredito que isso se deu muito pela forma como sentimentos contidos precisavam urgentemente achar um caminho para se expressar sobre essa necessidade repentina de não poder sair na rua, encontrar pessoas, viver o mundo com família, amigos, amores&#8230; Outra coisa que se destacou nesse lançamento foi o clipe colaborativo, que foi produzido a partir de vídeos enviados por pessoas queridas de vários lugares. Nele, está representada uma memória afetiva de situações muito particulares de cada pessoa que enviou um vídeo, ao mesmo tempo que ele ecoa uma energia muito coletiva, uma nostalgia, que faz a gente se sentir parte daquilo ali.</p>



<p><strong>T: Você tem outras composições já escritas, ou em fase de produção? O que vem de novidade por aí?</strong></p>



<p><strong>I:</strong> Desde que comecei a escrever minhas músicas, nunca mais parei; então sempre tenho algo que estou criando, apesar de que muitas destas músicas nem sempre chegam a ser gravadas. Logo depois de lançar o <em>Sozin,</em> já iniciei o processo de produção de músicas novas que vem desde então passando pelo processo de feitio. Uma delas, uma música que escrevi com 17 anos, será o meu próximo single, com lançamento que está programado pra acontecer agora no mês de setembro.</p>



<p><strong>T: Nesse momento, quem são as suas principais referências no cenário musical local?</strong></p>



<p><strong>I:</strong> Além do duo <a href="https://open.spotify.com/artist/4jp6QwVtELs7pUcFfb9d1z?si=Rq0cEtqYQCucBDxA1DH_kg">Arcanjos</a>, um outro conterrâneo e amigo meu que sempre me influenciou é o <a href="https://open.spotify.com/artist/5H48by2g1Jsk99AcdyH5yF?si=b1YxkIxXS86ApFsgic0DQQ">Siloé Claus</a>, um dos maiores cantores e compositores que conheço. Da galera de Juiz de Fora, eu curto muito o trabalho do <a href="https://open.spotify.com/artist/5TWz9SVdCuWZCnzB7UAeQn?si=xG1ZkmWoR562nitlPCnQ2w">Guido Del&#8217; Duca</a>, o da <a href="https://open.spotify.com/artist/1DXnEMg5F1rqTqHk2rvb90?si=NUoFqnBBQKqGfvd1n-bYjQ">Tatá Chama e as Inflamáveis</a>, e o da <a href="https://open.spotify.com/artist/6GROJ0QyMbOu12UbxwPmKN?si=EGKrMWY7TUmrmNXjV2lKNQ">Cravo</a>. Tem também o disco novo do <a href="https://open.spotify.com/artist/5rxCy7FjonxMSXV2XwVGlB?si=SXe0fgDKQaCNzT9yq_ddKg">Nathan Itaborahy </a>que tá sensacional, tava ouvindo há pouco e achei uma obra de arte. Mas acho que talvez a coisa mais importante e poética que tá rolando hoje por aqui é a <a href="https://open.spotify.com/artist/3GwHMJksRHmGDFCae0Mqs9?si=Uof0wLSmS6ame1tVqPCyoQ">Laura Conceição</a>. Conheci ela esse ano, e ela é uma mina mega simpática que faz uma arte cheia de paixão. Ver ela ao vivo é catártico!</p>



<p><strong>T: O que você gostaria que eu tivesse perguntado que eu não perguntei? E qual a resposta a essa pergunta que eu não fiz?</strong></p>



<p><strong>I:</strong> Talvez uma boa pergunta aqui fosse “o que é a vida?” (risos); coisa que eu não sei se saberia responder. Eu estava brincando outro dia com uma amiga justamente que se fosse responder a essa pergunta, diria “a vida é aquela coceirinha no fundo da garganta. Vem sem avisar e vai embora quando quer, não importa o quanto você arranhe”. Mas isso é meio pessimista né? Então, sei lá. Uma versão otimista dessa pode ser: a vida é aquele barulhinho de chuva na hora de dormir. </p>



<p>Assista ao clipe colaborativo de <strong>&#8220;Lembra como é bom&#8221;:</strong></p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Igor Silveira - LEMBRA COMO É BOM (Clipe Oficial)" width="950" height="534" src="https://www.youtube.com/embed/LLpGbJzzIXA?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture" allowfullscreen></iframe>
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<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-flow wp-block-group-is-layout-flow">
<p class="has-text-align-right has-normal-font-size"><strong>Sobre a Entrevistadora</strong></p>



<p><strong>Carol Cadinelli</strong> é jornalista, apaixonada por palavras. Escreve, edita, revisa, traduz e, vez ou outra, fotografa. Atua como Social Media na Peregrina Digital, assistente de edição na Trama e escritora nas horas vagas.</p>
</div></div>



<hr class="wp-block-separator" />



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-flow wp-block-group-is-layout-flow">
<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/fdf84-assinatura-4.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-11677" data-recalc-dims="1" /></figure>





<hr class="wp-block-separator is-style-wide" />



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<div class="wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow">
<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.artebodoque.com/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/073d7-loja-1.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-11574" data-recalc-dims="1" /></a></figure>
</div>



<div class="wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow">
<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.artebodoque.com/revista-trama-edicao-impressa-edicao-001"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/72b80-impressa-3.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-11608" data-recalc-dims="1" /></a></figure>
</div>
</div>



<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-large-font-size">Galeria: artistas pra seguir na quarentena</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.instagram.com/affnana/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/43ef4-fotos-carol-copy.jpg8_-1021x1024.jpg?resize=950%2C953&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-11314" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-medium-font-size"><em>Apoie artistas nessa quarentena. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>
</div></div>
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		<title>O Livro que o Imperador corrigiu</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 23 Aug 2020 21:28:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 059]]></category>
		<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[História do Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[juiz de fora]]></category>
		<category><![CDATA[Museu Mariano Procópio]]></category>
		<category><![CDATA[Sérgio Augusto Vicente]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Sérgio Augusto Vicente</p>
<p>O post <a rel="nofollow" href="https://revistatrama.artebodoque.com/2020/08/23/o-livro-que-o-imperador-corrigiu/">O Livro que o Imperador corrigiu</a> apareceu primeiro em <a rel="nofollow" href="https://revistatrama.artebodoque.com">Revista Trama</a>.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="has-drop-cap">As pesquisas realizadas com o acervo da Biblioteca e do Arquivo Histórico do Museu Mariano Procópio me colocaram em contato com agradáveis surpresas. A descoberta do livro <em>Império do Brasil na Exposição Universal de 1873 em Viena d’Áustria </em>foi uma delas. Atento às características que tornam as obras únicas, raras e especiais, um dos aspectos que me saltaram aos olhos foi a presença de significativo número de anotações nas margens das páginas e no corpo do texto. Logo de início, deparo-me também com um manuscrito a caneta, datado de 1874, informando que as anotações a lápis são “de próprio punho de S. Majestade O Imperador”. Isso mesmo: de D. Pedro II. Antonio Martins Pinheiro era o autor dessa declaração. Considerando-se admirador do segundo imperador do Brasil, este informa ter recebido o referido exemplar pelas mãos da viúva de um amigo, Marcos Antonio Ribeiro Monteiro de Barros, o “primeiro oficial da Secretaria de Estado dos Negócios da Agricultura, Comércio e Obras Públicas” que teria sido um dos colaboradores dessa publicação: “a viúva fez-me o presente [&#8230;] em sinal de lembrança do amigo e por saber quanto eu apreciava este manuscrito.” </p>



<p>Corroborando a autenticidade das correções feitas pelo imperador, logo abaixo do manuscrito de Antonio Martins consta outra declaração, de próprio punho, redigida por Cândido José de Araújo Viana (1793-1875), o Marquês de Sapucahy: “Atesto que as correções feitas a lápis são do punho de S. Majestade O Imperador, do que tenho pleno conhecimento. Rio de Janeiro, 3 de dezembro de 1874. / Marquês de Sapucahy”.&nbsp;</p>



<p>Marquês de Sapucahy (título de nobreza recebido em 1872) era, sem dúvida, um dos melhores nomes para atestar a autoria e autenticidade daquelas correções. Além de já ter ocupado vários cargos públicos de grande destaque no Império, como o de conselheiro de Estado – cuja função era auxiliar o imperador nas tomadas de decisão –, Sapucahy participou diretamente da formação intelectual do jovem Pedro, sendo seu mestre de literatura quando este ainda se preparava para assumir o trono brasileiro. E, anos mais tarde, também foi mestre de suas futuras filhas, as princesas Isabel e Leopoldina.</p>



<figure class="wp-block-image"><img decoding="async" src="https://bodoqueonlineart.files.wordpress.com/2021/12/6ed87-1-2.jpg?w=950&#038;h=288" alt="" class="wp-image-11684" data-recalc-dims="1"/><figcaption>Declaração de Marquês de Sapucahy sobre a autenticidade das anotações de D. Pedro II. Foto: Sérgio A. Vicente.</figcaption></figure>



<figure class="wp-block-image"><img decoding="async" src="https://bodoqueonlineart.files.wordpress.com/2021/12/cf583-2-1.jpg?w=950&#038;h=1024" alt="" class="wp-image-11685" data-recalc-dims="1"/><figcaption>Manuscrito de autoria de Antonio Martins Pinheiro, datado de 1874, que apresenta as “provas corrigidas” pelo imperador. Foto: Vinicius Ribeiro.</figcaption></figure>



<p>Mas, afinal de contas, que tipos de correções teria feito o segundo imperador do Brasil nessa obra? Por que o fez? Com que propósito? São muitas perguntas&#8230; Primeiramente, é preciso tomar conhecimento do tema contemplado pela publicação: conforme o próprio título já diz, trata-se da Exposição Universal de 1873, realizada em Viena, na Áustria. Como de praxe, esse tipo de publicação tinha a função de apresentar/ representar o Brasil nesse evento internacional. Além disso, propunha-se a estimular e promover a imigração para o Império.</p>



<p>Essa não era a primeira vez em que o Brasil participava de uma exposição universal. Bastante famosas no século XIX, período marcado pelo advento das grandes novidades tecnológicas, as exposições universais eram realizadas periodicamente, sendo concebidas como uma espécie de “vitrines do progresso”. Através delas, o visitante se inteirava do que havia de mais moderno no mundo da ciência. Cada país participante desse evento fazia sua exposição em pavilhões. Apesar de ser um Estado-nação ainda muito jovem, em franco processo de consolidação, o Brasil não deixou de marcar frequência e até mesmo certo espaço nesses eventos, divulgando sua imagem para o mundo, ainda que uma imagem indissociavelmente ligada à natureza e ao exótico.</p>



<p>A cada exposição, formava-se uma delegação “composta de homens ilustrados e científicos” responsáveis por organizar a participação do Brasil no evento. Mariano Procópio Ferreira Lage (1821-1872) chegou, inclusive, a integrar a delegação brasileira na Exposição Universal de 1867, em Paris. Dentre as atribuições dessa delegação, estava a tarefa de reunir dados e informações sobre o Brasil, como suas características geográficas, climáticas, relevo, aspectos da flora, fauna, progressos científicos e tecnológicos, número de escolas, associações científicas, literárias e de instrução, percentual de alfabetizados, aparato militar, organização política, principais periódicos em circulação no território nacional, estatísticas em geral e outras informações julgadas relevantes.</p>



<p>Acontece, porém, que a precisão dessas informações nem sempre era garantida, devido à precariedade das instituições em uma incipiente nação. Antonio Martins Pinheiro lamentava que o amigo ressentisse da falta de vários “dados positivos” no texto, atribuindo a isso o desinteresse de muitos administradores. Segundo ele, se não fossem os esforços pessoais do próprio “Chefe do Estado” [D. Pedro II], o Brasil não teria conseguido figurar “entre as nações civilizadas”, demonstrando “quão rico solo e natureza possui, e que brilhante futuro o espera.”&nbsp;</p>



<p>Exaltando a imagem de D. Pedro II como um monarca ilustrado, Antonio o considerava “infatigável”, admirando-o pela dedicação empregada nesse trabalho de correção do texto. E prosseguia citando as palavras do amigo Marcos Antonio: “[&#8230;] uma vez mandei à S. Cristóvão as provas a corrigir; nessa noite fui ao teatro lírico e lá encontrei S. Majestade que se demorou até perto de uma hora; no dia seguinte chegando à Secretaria, surpreendeu-me saber antes das nove horas da manhã, uma ordenança entregara as ditas provas (são duzentas folhas) corrigidas e anotadas com observações concernentes à história, geografia, estatística&#8230; Basta analisar estas anotações para se ajuizar da variedade dos conhecimentos do Sr. D. Pedro 2º, sua imparcialidade e o minucioso cuidado que empregou para que este trabalho fosse o mais perfeito possível.”</p>



<p>Sabe-se que D. Pedro II, conhecido como “amante das letras, das artes e da ciência”, tinha particular interesse pela chamada inserção do Brasil na modernidade europeia. Não surpreende, portanto, que ele fosse um dos maiores entusiastas da participação do país nas exposições universais. No livro da Exposição de 1873, observamos grande número de correções que abrangem um universo bastante amplo do conhecimento, como a recomendação de “todo cuidado nos nomes científicos e sua ortografia”, unidades de medida, estrutura sintática das frases e até mesmo comentários acerca da diagramação do texto – como o espaçamento entre as linhas, de modo a tornar a leitura mais agradável. Uma característica dos homens eruditos e detentores de conhecimentos enciclopédicos no século XIX.</p>



<figure class="wp-block-image"><img decoding="async" src="https://bodoqueonlineart.files.wordpress.com/2021/12/7b387-6-2.jpg?w=950&#038;h=591" alt="" class="wp-image-11687" data-recalc-dims="1"/></figure>



<figure class="wp-block-image"><img decoding="async" src="https://bodoqueonlineart.files.wordpress.com/2021/12/d3119-5-1.jpg?w=950" alt="" class="wp-image-11688" data-recalc-dims="1"/><figcaption>Anotações feitas por D. Pedro II. Vale destacar que são atribuídas a ele apenas as anotações a lápis. Os trechos a caneta são transcrições possivelmente realizadas pelo antigo proprietário da obra.&nbsp;<br>Fotos: Vinicius Ribeiro.</figcaption></figure>



<p>A comparação do conteúdo desse exemplar (chamado de “provas corrigidas”) com a versão definitiva publicada pela Tipografia Nacional, permite-nos fazer uma espécie de “genealogia” do texto, verificando até que ponto as sugestões de mudanças atribuídas a D. Pedro II foram acatadas ou incorporadas.&nbsp;</p>



<p>A partir da análise do material, verificamos que muitas dessas correções ou sugestões foram adotadas, como podemos verificar, a título de exemplo, em algumas situações apresentadas a seguir. No trecho em que se afirma que o Conselho de Estado era um órgão consultivo no qual se tinha assento “o Príncipe Imperial”, D. Pedro II acrescenta: “ou Princesa Imperial”, destacando o papel de sua filha, Princesa Isabel, como sucessora e regente, incumbida de substituí-lo em suas ausências, como aconteceu em sua primeira viagem à Europa, em 1871, e viria acontecer outras vezes, em um futuro não muito distante.&nbsp;</p>



<p>Quando se descreve o clima da “zona intertropical” do país, caracterizado como muito “suave e modificado pela arborização do terreno”, D. Pedro II solicita que se substitua a palavra “arborização” por “vegetação”, com o receio de que esta pudesse ser confundida com “plantação”, ou seja, fruto da ação humana. Em outros trechos, porém, não se esquece de demonstrar a ação transformadora do homem sobre a natureza, considerada pré-requisito para um movimento “civilizatório”: nesse sentido, não bastava afirmar, por exemplo, que havia enxofre em terras brasileiras, mas acrescentar que este era “[&#8230;] experimentado, com excelente êxito, no fabrico da pólvora”. Da mesma forma, fazia questão de atualizar algumas informações para demonstrar certo avanço do Império no campo tecnológico: “Cumpre falar da estrada de ferro que abriu-se o mês passado para esta exploração”.</p>



<p>Em outra passagem, que apresenta um levantamento dos principais periódicos circulantes no Império, D. Pedro II se dá conta da ausência do jornal <em>República,</em> e logo adverte: “Falta o República”, sugestão prontamente incorporada na publicação final.</p>



<figure class="wp-block-image"><img decoding="async" src="https://bodoqueonlineart.files.wordpress.com/2021/12/28c93-3-2.jpg?w=950&#038;h=229" alt="" class="wp-image-11690" data-recalc-dims="1"/><figcaption>Anotações feitas por D. Pedro II. Vale destacar que são atribuídas a ele apenas as anotações a lápis. Os trechos a caneta são transcrições possivelmente realizadas pelo antigo proprietário da obra.&nbsp;<br>Foto: Vinicius Ribeiro.</figcaption></figure>



<p>O esforço em representar a imagem de um país que caminhava nos “trilhos do progresso e da civilização” não prescindia da preocupação com a idoneidade das informações e com os exageros discursivos que pudessem comprometer a credibilidade do texto. No trecho em que se afirma: “No louvável intento de facilitar e desenvolver as transações comerciais, o Brasil tem ido além dos países mais adiantados, dando um exemplo fecundo e de grande proveito a todos os povos do mundo”, o imperador prontamente ordena a supressão dessas palavras, com base na seguinte justificativa: “porque ainda não concorreram tais riquezas para o progresso do Brasil.&#8221;</p>



<figure class="wp-block-image"><img decoding="async" src="https://bodoqueonlineart.files.wordpress.com/2021/12/f1201-4-1.jpg?w=950&#038;h=293" alt="" class="wp-image-11691" data-recalc-dims="1"/><figcaption>Anotações feitas por D. Pedro II. Vale destacar que são atribuídas a ele apenas as anotações a lápis. Os trechos a caneta são transcrições possivelmente realizadas pelo antigo proprietário da obra.&nbsp;<br>Foto: Vinicius Ribeiro.</figcaption></figure>



<p>Devido à inconsistência de alguns dados ainda não suficientemente apurados para serem publicados com maior segurança, o imperador por vezes recorre à estratégia de modalização do discurso, sugerindo a exclusão de palavras como “constantemente”, “frequentemente”, “todo”, etc.&nbsp; Ou simplesmente dizendo: “Ainda não existe [tal coisa], e portanto cumpre redigir de outra forma”.</p>



<p>É curioso que, na publicação definitiva da obra, foi incluída uma espécie de apresentação prévia ou introdução, denominada “Advertência”, em que se promete ao leitor “obra mais completa nas futuras exposições universais” e se valoriza a colaboração de “informantes particulares”. Ademais, enfatiza-se o objetivo de não manifestar um “falso patriotismo” através de palavras que exageram nas “vantagens” e “ocultam defeitos”, mas sim o de “tornar bem conhecido o Império do Brasil [&#8230;], procurando com todo cuidado dizer somente a verdade”.</p>



<p>De fato, o contato com a escrita oitocentista nos permite perceber que a preocupação com a “verdade” das informações publicadas possuía uma tônica no discurso dos homens de letras e ciência. Eduardo de Faria, autor do <em>Novo Dicionário da Língua Portuguesa</em>, datado de 1859, pode ser um bom exemplo do que se entendia como informação passível de ser publicada naquele contexto. Para o autor, o ato de publicar um conteúdo ou informação “recai sempre sobre uma coisa que realmente existe. Divulgar pode recair sobre uma coisa falsa, que se inventa com algum fim. Um caloteiro, que vive de ostentação, divulga que é rico, e teme que se publique que é pobre.” Portanto, ao menos no âmbito do discurso, os verbos “publicar” e “divulgar” ocupavam campos semânticos distintos, estando o primeiro mais associado ao que se concebia como “verdade”.&nbsp;</p>



<p>Obviamente, é mais do que sabido que o conceito de “verdade” precisa ser constantemente avaliado de maneira crítica. Por esse motivo, entendemos a ideia de “verdade” como representação do real, com as intencionalidades, disputas e lugares de fala presentes no jogo social. Se as “imperiais” correções e/ou sugestões tinham o intuito de conseguir, da melhor maneira possível, transmitir credibilidade nas representações sobre o Estado-nação e os diversos aspectos que o compunham, nem todas elas eram aceitas. É o que acontece, por exemplo, no trecho em que são citados seus filhos com a imperatriz Teresa Cristina. Ressentindo da ausência dos nomes de D. Afonso e D. Pedro Afonso (respectivamente, o primeiro e o quarto filhos do casal), falecidos na primeira infância, o monarca logo interroga: “E meus filhos?” Mesmo com a “imperial advertência”, ambos os nomes não chegaram a figurar no texto final, ao lado das princesas Isabel e Leolpoldina.</p>



<figure class="wp-block-image"><img decoding="async" src="https://bodoqueonlineart.files.wordpress.com/2021/12/4eb2b-7-1.jpg?w=950" alt="" class="wp-image-11692" data-recalc-dims="1"/><figcaption>Questionamento do imperador acerca da ausência dos nomes dos filhos D. Afonso e D. Pedro Afonso, falecidos na primeira infância. Foto: Sérgio A. Vicente.</figcaption></figure>



<p>O mesmo acontece no parágrafo em que se descreve o jornal <em>O Apóstolo</em>.  Apresentado como um periódico que “publica os atos oficiais do bispado, e discute os interesses da religião do Estado”, este trecho aparece riscado a lápis, sugerindo uma possível indicação de supressão do conteúdo, que permaneceu incólume na publicação final. Caberia, aqui, fazermos um duplo questionamento: O que teria motivado o imperador a sugerir tal exclusão? Por que a sugestão não foi acatada? </p>



<figure class="wp-block-image"><img decoding="async" src="https://bodoqueonlineart.files.wordpress.com/2021/12/5e4ae-8-1.jpg?w=950&#038;h=220" alt="" class="wp-image-11693" data-recalc-dims="1"/><figcaption>Trecho rabiscado a lápis. Possível sugestão de supressão. Foto: Vinicius Ribeiro.</figcaption></figure>



<p>Conhecido por sua postura conciliadora nos conflitos envolvendo religião e Estado no século XIX, estaria o imperador tentando evitar as polêmicas que esse tipo de discussão costumava gerar? Afinal, a Constituição de 1824, ainda em vigor nesse período, propugnava a união entre Igreja Católica e o Estado. Nesse contexto (década de 1870), o país vivia o acirramento de embates entre as jurisdições civil e eclesiástica, por conta da chamada Reforma Ultramontana e do processo de romanização da Igreja Católica. Tais embates resultaram em discussões acaloradas, como as relacionadas ao casamento e ao sepultamento de não católicos nos cemitérios públicos, ao fechamento de irmandades religiosas que contavam com a presença de maçons em seu quadro social e às recentes prisões dos bispos de Olinda e Pará.</p>



<p>Poderiam ser citadas aqui diversas outras passagens curiosas, em que as correções, acréscimos, supressões ou mudanças foram ou não incorporadas à publicação definitiva. Especulações a parte, a “verdade” é que não é possível saber exatamente o que teria motivado o imperador em suas várias intervenções textuais. Tais informações, talvez, nem sejam tão relevantes assim. Por enquanto, contento-me em apenas abrir uma “janela” para futuras investigações mais aprofundadas sobre o assunto.&nbsp;</p>



<p>Podemos analisar esse livro de diversas maneiras. Tudo depende das perguntas que lhe forem direcionadas. Afinal de contas, a cada pergunta, uma nova abordagem. E, a cada nova abordagem, uma nova descoberta. Este, ao meu ver, constitui um dos mais cruciais aspectos da pesquisa histórica. O importante é que nos esquivemos das armadilhas das memórias e do mero “fetiche” do objeto, de modo a estimular uma análise crítica do discurso dos atores, tendo por base as questões formuladas no momento presente. Tudo isso sem, é claro, incorrer em julgamentos anacrônicos, considerando que todo personagem histórico é “filho” de seu tempo, inserido numa rede de relações e interlocuções repleta de influências, sentidos e significados em trânsito, com suas confluências e divergências.</p>



<p>Se, até aqui, pudemos constatar que muitas reflexões podem ser feitas a partir dos vestígios humanos presentes na versão preliminar de um livro guardado como objeto simbólico, de memória, é importante destacar que tais reflexões não “nascem” do vazio, mas de uma série de comparações com a versão final da obra, que chegou ao público através da Tipografia Nacional. Seria muito pouco nos atermos ao significado aurático que justificou a preservação de uma peça marcada pelas mãos de um “monarca ilustrado”, quando temos a possibilidade de também sinalizar para as variadas camadas de discurso, intenções, leituras e interpretações pouco sedimentadas sobre o Brasil que se pretendia representar na segunda metade do século XIX. Não é possível ignorar que, entre redator e corretor, havia uma multiplicidade de aspectos que nem mesmo um suposto esforço uniformizador do discurso oficial conseguiria encobrir. &nbsp;</p>



<p>Através dos vários indícios que a primeira versão do texto nos permite ter acesso, uma boa “escavação arqueológica” feita com as palavras é capaz de colocar em prática aquilo que Carlo Ginzburg chama de “leitura em contraponto”. Dessa forma, pode-se trazer à tona as ambiguidades, tensões, disputas, contradições, vicissitudes, silêncios ou silenciamentos implícitos nas representações ou reapresentações da realidade brasileira daquele contexto. Entre riscos e rabiscos, é possível entrever o que foi dito e o que ficou por dizer, o que era e o que deixou de ser, o que se fez e o que ficou por fazer&#8230; E, assim, podemos realizar, ainda por muitos anos, diversas (re)descobertas no “livro que o imperador corrigiu”.</p>



<div style="height:69px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Saiba mais!</strong></h3>



<p>GINZBURG, Carlo. <em>Mitos, emblemas, sinais:</em> morfologia da história. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.</p>



<p>GINZBURG, Carlo. <em>O fio e os rastros:</em>verdadeiro, falso, fictício. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.</p>



<p>PINHEIRO, Priscila da Costa; VICENTE, Sérgio Augusto Vicente. <em>Aprendiz de Imperador.</em> Revista de História da Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro, ano 10, n. 110, novembro de 2014, p. 68-71.</p>



<p>SCHWARCZ, Lilia Moritz. <em>Exposições Universais:</em> festas do trabalho, festas do progresso. In: As barbas do Imperador: D. Pedro II, um monarca nos trópicos. São Paulo: Cia. Das Letras, 1998. p. 385-407.</p>



<p>VICENTE, Sérgio Augusto. <em>Segregação dos mortos.</em> Revista de História da Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro, ano 10, n. 113, fevereiro de 2015, p. 80-83.</p>



<p>VICENTE, Sérgio Augusto. <em>Sociedades científicas, literárias e de instrução: </em>dimensões da prática associativa dos homens de letras e <em>sciencia </em>na Corte (1860-1882). Dissertação de mestrado – Programa de Pós-Graduação em História da UFJF, Juiz de Fora – MG, 2012.</p>



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<p><strong>Sérgio Augusto Vicente</strong> é Bacharel, licenciado, mestre e doutorando em História pela UFJF. Dedica-se ao estudo da história social da cultura no Brasil, abrangendo temas como trajetórias individuais e de grupos, sociabilidades, associativismo, história intelectual, história social da literatura, acervos documental e bibliográfico, patrimônio cultural, memória e educação. É Professor de História e historiador. Atualmente, trabalha no Museu Mariano Procópio (Juiz de Fora – MG).</p>



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<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-large-font-size">Galeria: artistas para seguir na quarentena</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/b6aad-fotos-carol.jpg19.jpg?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-6960" data-recalc-dims="1"/></figure>



<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-medium-font-size"><em>Apoie pautas identitárias. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>
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		<title>Aos que odeiam</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 23 Aug 2020 21:27:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 059]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Vinícius Lara]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: Deborah Silva</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>“Discurso de ódio”: expressão que aparece cada vez mais nos jornais ao redor do mundo. É o racismo da supremacia branca estadunidense, o nazismo desde a Alemanha do século XX, a homofobia na Rússia, a xenofobia, o machismo, o extermínio dos povos indígenas&#8230;</p>



<p>A título de conceituação, o “<em>hate speech”</em> corresponde às manifestações de ódio, intolerância, ou até desprezo contra um grupo, uma comunidade, uma minoria, seja em razão de religião, gênero, etnia, deficiência física ou mental, entre outros.&nbsp;</p>



<p>“E o direito à liberdade de expressão?” Ele existe e é protegido de inúmeras formas, mas o ordenamento jurídico não admite direitos absolutos, e a liberdade de expressão não pode ser utilizada de forma inadequada gerando lesões a outros direitos igualmente importantes, ou até mesmo práticas ilícitas.&nbsp;</p>



<p>No Brasil, essa questão foi levada ao Supremo Tribunal Federal pela primeira vez em 2003, em um habeas corpus que discutia a publicação de livros de caráter antissemita. Já na ocasião, entendeu-se que a prática configuraria crime de racismo e, portanto, a proteção da igualdade e da dignidade dos judeus prevaleceu em relação à liberdade de expressão.</p>



<p>Dezessete anos se passaram e para alguns estudiosos o discurso de ódio no país já está em nível epidêmico, e além de se exteriorizar através de palavras, muitos casos de violência física já foram registrados.&nbsp;</p>



<p>Observe que não se trata de mera antipatia, e sim da escolha de inimigos, da formação de estigmas com fins segregacionistas.&nbsp; A fala é marcada pela hostilidade e apresenta meios de opressão e perspectivas de inferioridade, por meio de palavras com o poder de intimidar, insultar uma coletividade de pessoas.</p>



<p>O fenômeno é grave, e além de gerar danos imensuráveis às vítimas (sentimentos de vergonha, medo, angústia, revolta), sua consequência imediata é incitar e disseminar a cultura da discriminação e intolerância para mais e mais pessoas.&nbsp;</p>



<p>Ora, é evidente que as pessoas que odeiam, assim como todas as outras, não querem estar sozinhas. Sempre se tenta recrutar mais apoiadores, pois o sentimento de validação pelo outro reforça o ego, a autoestima, e compõe o anseio de pertencimento que é inerente no cenário social.</p>



<p>Os grupos de ódio formam verdadeiros clubes, identidades coletivas com suas manifestações. As redes sociais são a prova disso: motivados por um senso de anonimato e impunidade, as pessoas perdem a inibição para insultar o que lhes incomoda, e fazem isso de forma conjunta.&nbsp;</p>



<p>Não bastasse a facilidade de se espalhar o preconceito por meios digitais, muitas das posturas adotadas pelos agentes do discurso de ódio se coadunam com aquelas defendidas por autoridades e figuras públicas, como alguns parlamentares.&nbsp;</p>



<p>É natural que o cidadão, componente do corpo titular do poder (o povo), ao se identificar e eleger um parlamentar com ideais e políticas discriminatórias, venha a acreditar que está sendo devidamente representado e que por isso possui voz na democracia na qual se insere.&nbsp;</p>



<p>São incontáveis as manifestações que criam inimigos e buscam formas de combate contra eles nos debates políticos. Muitas&nbsp;autoridades pregam a redução das liberdades para determinados grupos, o extermínio de outros e a ampliação do poder punitivo do Estado como formas de solucionar os problemas sociais e construir uma coletividade ideal.</p>



<p>A partir daí é fácil entender porque os discursos se alinham, por exemplo, com a perseguição indígena no Maranhão, com a máxima do “bandido bom é bandido morto” no Rio de Janeiro, com os casos de violência contra homossexuais em São Paulo, e tantos outros.&nbsp;</p>



<p>Mas de onde surge esse ódio? Por que se odeia e como lidar com essas manifestações?</p>



<p>Em uma análise biopsicológica (ou química), o ódio é um estado de excitação, de fixação com o odiado, e o sentimento coincide com a mesma ativação do cérebro responsável pela percepção do desdém e do nojo.&nbsp;</p>



<p>O ódio pode surgir de várias formas, dependendo do parâmetro escolhido. Pode surgir de conflitos históricos, culturais, religiosos; de confrontos políticos e tensões econômicas; ou ainda de crenças e preconceitos pessoais que cada um de nós sustenta.</p>



<p>Historicamente, pode se exemplificar as raízes do ódio com os conflitos tribais na África entre os tutsis e os hutus, ou a guerra religiosa entre fundamentalistas radicais muçulmanos e não muçulmanos.&nbsp;</p>



<p>De forma política, são a ambição pelo poder e a desigualdade social os principais fatores que levam à drástica polarização e ao fanatismo, muitas vezes responsáveis pela doutrinação ideológica que comina em ditaduras e golpes de estado.&nbsp;</p>



<p>Em uma perspectiva individual, para Hermann Hesse, “se você odeia alguém, é porque odeia alguma coisa nele que faz parte de você. O que não faz parte de nós não nos perturba”. De fato, lidar com suas frustrações pessoais e “conhecer-te a ti mesmo” pode parecer mais difícil que entender, ou pelo menos respeitar, as escolhas dos outros.</p>



<p>Muitos consideram ainda que odiar é não suportar as diferenças, é combater o que não se quer ou aquilo que não se pode impedir. Mas o que há de errado com o dessemelhante? Nas palavras de Drummond: “o homem não é igual a nenhum outro homem, bicho ou coisa. Não é igual a nada. Todos o ser humano é um estranho ímpar.”.&nbsp;</p>



<p>Fato é que não temos respostas suficientes para explicar ou justificar o fenômeno. O que sabemos é que o ódio enquanto discurso pode ter consequências irreversíveis, e por isso deve ser cautelosamente analisado.</p>



<p>Os primeiros passos são a compreensão e a ação, e isso significa reconhecer sua existência – muitas vezes velada – e perceber como é fomentado na história, nas conversas das pessoas e na propaganda, denunciando e explicando as consequências àqueles que o difunde.&nbsp;</p>



<p>É certo que a proibição do discurso de ódio, por si só, não resolveria os problemas de injustiça estrutural e da ausência de reconhecimento social que atingem as minorias. Para tanto é essencial que sejam implantadas ações afirmativas, ações públicas eficientes para reduzir as desigualdades que penalizam esses grupos, e paralelamente incentivem a tolerância e a valorização das diversidades.</p>



<p>Todas as estratégias, contudo, têm um denominador comum: a necessidade de posicionamento estatal pela primazia da dignidade da pessoa humana, da igualdade e dos direitos fundamentais. É óbvio que se o Estado se omite diante das públicas e crescentes manifestações de ódio, ou ele mostra que não se importa com a conduta do ofensor, ou pior: que concorda com ela!</p>



<p>A dor e a sensação de inferioridade dos alvos destes discursos fortalece a simbologia de que o Estado brasileiro tem se tornado cúmplice da barbárie, o que só se intensifica com as recentes notícias envolvendo o Presidente da Republica, juízes, deputados, senadores e tantos outros nomes do primeiro escalão.&nbsp;</p>



<p>Um ditado já dizia que as pessoas inteligentes podem odiar, mas nunca as sábias. Estas lutam contra o ódio, como sabemos de Martin Luther King, Madre Teresa, e tantos outros.</p>



<p>Aos que odeiam deixamos apenas um conselho: o caminho é longo para a sabedoria, mas para a ignorância, basta ficar parado.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>REFERÊNCIAS:</strong></h3>



<p>SILVA, D. C. P.; MARTINS, G. R.. <strong>O Discurso Parlamentar de Ódio: um estudo à luz do estado democrático de direito e das tendências jurisprudenciais</strong>. (2017).</p>



<p>EL PAIS. <strong>O que é o ódio? Por acaso tem cura?</strong> Por Ignacio Morgado Bernal. 16/12/2017. Disponível em: &lt;<a href="https://brasil.elpais.com/brasil/2017/12/12/ciencia/1513073061_342064.html">https://brasil.elpais.com/brasil/2017/12/12/ciencia/1513073061_342064.html</a>&gt;.</p>



<p>ESTADÃO. <strong>“Discurso de ódio surge nas fissuras da democracia”, diz pesquisadora.</strong> Por Paulo Beraldo. 06/11/2019. Disponível em: &lt;<a href="https://politica.estadao.com.br/noticias/geral,discurso-de-odio-surge-em-fissuras-da-democracia-diz-pesquisadora,70003078090">https://politica.estadao.com.br/noticias/geral,discurso-de-odio-surge-em-fissuras-da-democracia-diz-pesquisadora,70003078090</a>&gt;.&nbsp;</p>



<p>JORNAL NH<strong>. Intolerância e discriminação: reflexos do medo despertado pelas diferenças</strong>. Por Gabriela da Silva e Kelly Betina. Disponível em:&lt;<a href="https://www.jornalnh.com.br/_conteudo/2016/07/noticias/358042-intolerancia-e-discriminacao-reflexos-do-medo-despertado-pelas-diferencas.html">https://www.jornalnh.com.br/_conteudo/2016/07/noticias/358042-intolerancia-e-discriminacao-reflexos-do-medo-despertado-pelas-diferencas.html</a>&gt;.</p>



<p>O GLOBO. <strong>Cientista político americano alerta para os perigos da polarização. </strong>Por Bolivar Torres. 25/08/2019. Disponível em: &lt;<a href="https://oglobo.globo.com/cultura/livros/cientista-politico-americano-alerta-para-os-perigos-da-polarizacao-23900377">https://oglobo.globo.com/cultura/livros/cientista-politico-americano-alerta-para-os-perigos-da-polarizacao-23900377</a>&gt;.</p>



<p><strong>Arte da capa:</strong> Lucas Lacerda</p>



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<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:27% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/17081-debra-1.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-11621" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p><strong><strong>Deborah Silva</strong></strong> é pós graduanda em Direito Constitucional.&nbsp;</p>
</div></div>



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<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-flow wp-block-group-is-layout-flow">
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<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-large-font-size">Galeria: Artistas pra seguir na quarentena</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.instagram.com/viajeronima/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/43ef4-fotos-carol-copy.jpg8_-1021x1024.jpg?resize=950%2C953&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-11314" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-medium-font-size"><em>Apoie os artistas nessa quarentena. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>
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		<title>O que posso acreditar</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 23 Aug 2020 21:26:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 059]]></category>
		<category><![CDATA[Gyovana Machado]]></category>
		<category><![CDATA[O que posso acreditar]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Gyovana Machado</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>&#8220;<em>Nada está acima do amor. O amor é o que dá coesão à virtude, gerando harmonia entre suas expressões. É o amor que concede espontaneidade ao comportamento, desneurotizando a obediência. Sem amor, desempenho religioso algum agradará ao Deus preocupado tanto com o que fazemos quanto com o que somos</em>.&#8221;&nbsp;<strong>-1</strong></p>



<p class="has-drop-cap">O nosso pantanal queima, a criança dos 6 aos 10 foi estuprada &#8211; e outras são submetidas a mesma violência a cada 4 horas -, os livros entram em boca dos homens maus como &#8220;artigos de luxo&#8221; na prerrogativa de taxação (trazendo obstáculo para o acesso das classes mais pobres), o homem morto foi coberto por guarda-sóis num supermercado que optou por permanecer em funcionamento enquanto o corpo estava lá, estirado; enfim, existe um mundo acontecendo nesse instante e eu não posso -nem consigo- citar todas as notícias do globo, do Brasil, de Minas e Juiz de fora. Percebe? O olhar em escala diminui, as notícias também, no entanto, a complexidade sempre aumenta quando olhamos para uma situação em específico.&nbsp;</p>



<p>Li há pouco uma frase que expressa a nossa condição subjetiva de humanidade, ela dizia: &#8220;Escolher suas batalhas é saber escolher suas ignorâncias.&#8221;; quem a disse? Um músico e compositor que, segundo consta em sua biografia, faz &#8220;música tecida na esperança&#8221;. Marcos Almeida é um dos nomes nacionais de maior coesão em sua produção artística. Ele anela sua fé a produção da letra, uma fé que, cabe destacar, diz dos feitos da e na vida, da experiência, do cheiro da terra, do convívio entre os indivíduos. É sobre o tráfego que encontramos no cotidiano, sobre o que é visível e invisível aos olhos, sobre o que nos marca e o que nos embala nesse breve espaço de tempo em que exploramos o novo e o velho. É preciso o exercício de se esperançar quando as notícias tendem a sufocar, sobretudo quando essas são de natureza plural e te pedem uma resposta que você não tem.&nbsp;</p>



<p>Quando se encara uma angústia existencial ela, normalmente, está atrelada a fatores que funcionam como combustíveis a experimentação da vida. A mesma angústia que surge quando enxergo uma <em>necropolítica</em><strong>-2 </strong>se desenvolvendo e ganhando fôlego nos trâmites e pressões nas grandes áreas que organizam o Estado &#8211; executivo, legislativo e judiciário-, é a angústia que me faz olhar para o caso da criança que, por 4 anos, foi estuprada e aos 10 engravidada, é a angústia ao ver o fundamentalismo religioso se desenvolvendo como uma doutrina moral, preocupado com <em>o legislar </em>numa ordem pré estabelecida sobre o que concebem como certo e errado. Assim como pontua Focault (1999), o poder opera de forma difusa e multilateral, portanto, disponho de uma lente que enxerga essa doutrina moral entranhada não apenas no discurso assumidamente religioso, mas também na reutilização desse na política, o que em muito nos revela mediante a análise dos indivíduos que compõe as pastas do atual governo.&nbsp;</p>



<p>Nesse sentido, consigo vislumbrar essa tal angústia que, em menor ou maior escala, provoca a aflição de ser e estar. O que em muito delibera o incômodo, é também o afago e a benesse. Por esse motivo iniciei o texto com uma citação que não é sobre o amor enquanto uma abstração ou um discurso de -apenas- coerência dentre incoerências. É sobre um desempenho religioso como prática dO Amor. Isso envolve uma responsabilidade que neutraliza o egoísmo e o fanatismo, a medida que ressignifica a militância daqueles que, de fé, se movem. Não é por caridade meramente, deve ser por justiça social. Digo assim que, o que me trouxe angústia, é o que dá cabo a esperança. Cabe apenas questionar, como num exercício diário, a natureza e simetria da tal fé que, ainda no século XXI, gesta no outro um mensagem que, dentre muitas coisas, diz: &#8220;(&#8230;) corra a retidão como um rio, a justiça como um ribeiro perene!&#8221; Amós 5:24. E, enquanto isso, canto:</p>



<p>&#8220;Deus, onde estás?</p>



<p>A igreja arrancou o sino</p>



<p>O homem esqueceu o menino</p>



<p>Fez castelo de ouro e prata e perdeu a vida</p>



<p>Ah! Acende toda luz</p>



<p>Iluminando a terra que convive com a dor</p>



<p>Sem esperança&#8221;</p>



<p>Marcos Almeida &#8211; Deus, onde estás?</p>



<p>Nisso, continuo a caminhar &#8211; e a acreditar.&nbsp;</p>



<div style="height:100px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<p><strong>NOTAS</strong>:</p>



<p><strong>-1</strong> &nbsp;COSTA, Antônio Carlos.&nbsp;<strong>Teologia da Trincheira</strong>: Reflexões e provocações sobre o indivíduo, a sociedade e o cristianismo. 1. ed. São Paulo: Mundo Cristão, 2017. p. 98</p>



<p><strong>-2</strong> Para maiores informações, ver:&nbsp; Mbembe, Achille.&nbsp;<strong>Necropolítica</strong>. 3. ed. São Paulo: N-1 Edições, 2018.</p>



<p><strong>Imagem: </strong><em>Photograph by KangHee Kim.&nbsp;</em></p>



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<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:31% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2020/04/c748b-biogyo.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-8843" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p><strong><strong>Gyovana Machado </strong></strong>é Cristã, graduanda em História pela UFJF e formada no Seminário Teológico Rhema Brasil.&nbsp;</p>
</div></div>



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<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/fdf84-assinatura-4.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-11677" data-recalc-dims="1" /></figure>





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</div>



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<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.artebodoque.com/revista-trama-edicao-impressa-edicao-001"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/82f24-impressa-2.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-11600" data-recalc-dims="1" /></a></figure>
</div>
</div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-flow wp-block-group-is-layout-flow">
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<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-large-font-size">Galeria: Artistas pra seguir nessa quarentena</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.instagram.com/iuryborel/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2020/08/443e6-galeriaiury3-1021x1024-1.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-10527" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-medium-font-size"><em>Apoie artistas nessa quarentena. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>
</div></div>
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		<title>Inventário</title>
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		<pubDate>Sun, 23 Aug 2020 21:26:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 059]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Vinícius Lara]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: Marlon Diego</p>
<p>O post <a rel="nofollow" href="https://revistatrama.artebodoque.com/2020/08/23/inventario/">Inventário</a> apareceu primeiro em <a rel="nofollow" href="https://revistatrama.artebodoque.com">Revista Trama</a>.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong><em>Inventário</em></strong><em> é uma série documental produzida nos dias 21, 22 e 23 março de 2019, três últimos dias de desocupação do famoso Edifício Holiday, no bairro de Boa Viagem, no Recife. A ideia do trabalho é documentar a despedida do espaço físico, mas lembrar que, muito além de objetos não fixos, como móveis e decoração, o prédio é permeado pelas histórias documentadas nas paredes, portas, piso e em tudo que pôde ser modificado de acordo com cada morador. São espaços que simplesmente não se esvaziam com a desocupação.&nbsp;</em></p>



<p>Construído em 1956, no bairro de Boa Viagem, o Edifício Holiday foi um dos principais responsáveis pela mudança na paisagem da cidade em sua época. Modernista, com seus imponentes 17 andares e 476 apartamentos, foi um dos primeiros arranha-céus do Recife. A falta de cuidados trouxe consequências: Instalações elétricas sobrecarregadas, vazamentos e infiltrações, elevadores sem condições de uso e uma estrutura castigada pela soma cruel de tempo e maus cuidados. No dia 12 de março de 2019, a oficialização de um pesadelo. O Tribunal de Justiça de Pernambuco solicitou a imediata interdição do prédio. Poucos dias depois encerrou-se o prazo de desocupação voluntária das mais de 3 mil pessoas que viviam nos apartamentos. São histórias deixadas para trás, bens materiais e imateriais perdidos, e a constante preocupação com o futuro de suas casas.&nbsp;</p>



<p>Na época, recordo perder as contas de quantas vezes li e ouvi perguntas sobre o futuro do Holiday e de quem ali morava. Um ano depois, não há resposta, muito menos previsão para tal. O projeto de recuperação estrutural e demais reparos no edifício segue inacabado e desconhecido por quem mais se interessa por uma solução.&nbsp;</p>



<p>São 476 peças de um quebra-cabeça, agora com 63 anos de idade. Dentro de cada um desses apartamentos, uma ou várias histórias desconhecidas, sem dono declarado, com decoração minimalista ou sala abarrotada de objetos comuns. Em outros casos, amontoados formando pilhas de caixas e pertences indecifráveis. Depois da porta de cada número, centenas de interrogações: Quem morava aqui? O que pensou quando chegou e o que sentiu quando saiu?&nbsp;</p>



<p>As paredes e portas dos apartamentos do Edifício Holiday sustentem histórias de fé, derrotas, superações, amores possíveis ou não. É um livro de concreto e ferro, possível berço ou lápide da memória de muitos que ali viveram ou visitaram. As imagens aqui tentam formar um<strong> Inventário</strong> das lembranças que antes preencheram esses densos vazios. &nbsp;</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/11629-holyday270319final-1.jpg?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-11629" data-recalc-dims="1" /></figure>



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<div class="wp-block-jetpack-tiled-gallery aligncenter is-style-rectangular has-rounded-corners-3"><div class="tiled-gallery__gallery"><div class="tiled-gallery__row"><div class="tiled-gallery__col" style="flex-basis:66.800356506239%"><figure class="tiled-gallery__item"><img decoding="async" srcset="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2020/08/011f2-holyday270319final-52.jpg?w=950?strip=info&#038;w=600 600w,https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2020/08/011f2-holyday270319final-52.jpg?w=950?strip=info&#038;w=900 900w,https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2020/08/011f2-holyday270319final-52.jpg?w=950?strip=info&#038;w=1200 1200w,https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2020/08/011f2-holyday270319final-52.jpg?w=950?strip=info&#038;w=1500 1500w,https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2020/08/011f2-holyday270319final-52.jpg?w=950?strip=info&#038;w=1800 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<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/434e9-holydayfinal-81.jpg?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-11668" data-recalc-dims="1" /></figure>



<div class="wp-block-jetpack-tiled-gallery aligncenter is-style-rectangular"><div class="tiled-gallery__gallery"><div class="tiled-gallery__row"><div class="tiled-gallery__col" style="flex-basis:50%"><figure class="tiled-gallery__item"><img decoding="async" srcset="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2020/08/bd23c-holydayfinal-119.jpg?w=950?strip=info&#038;w=600 600w,https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2020/08/bd23c-holydayfinal-119.jpg?w=950?strip=info&#038;w=900 900w,https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2020/08/bd23c-holydayfinal-119.jpg?w=950?strip=info&#038;w=1200 1200w,https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2020/08/bd23c-holydayfinal-119.jpg?w=950?strip=info&#038;w=1500 1500w,https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2020/08/bd23c-holydayfinal-119.jpg?w=950?strip=info&#038;w=1800 1800w,https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2020/08/bd23c-holydayfinal-119.jpg?w=950?strip=info&#038;w=2000 2000w" alt="" data-height="3000" data-id="11669" data-link="https://atomic-temporary-162935141.wpcomstaging.com/?attachment_id=11669#main" data-url="https://tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/9e2d8-holydayfinal-119.jpg" data-width="4500" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2020/08/bd23c-holydayfinal-119.jpg?w=950" data-recalc-dims="1" /></figure></div><div class="tiled-gallery__col" style="flex-basis:50%"><figure class="tiled-gallery__item"><img decoding="async" srcset="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2020/08/e2ed6-holydayfinal-183.jpg?w=950?strip=info&#038;w=600 600w,https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2020/08/e2ed6-holydayfinal-183.jpg?w=950?strip=info&#038;w=900 900w,https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2020/08/e2ed6-holydayfinal-183.jpg?w=950?strip=info&#038;w=1200 1200w,https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2020/08/e2ed6-holydayfinal-183.jpg?w=950?strip=info&#038;w=1500 1500w,https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2020/08/e2ed6-holydayfinal-183.jpg?w=950?strip=info&#038;w=1800 1800w,https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2020/08/e2ed6-holydayfinal-183.jpg?w=950?strip=info&#038;w=2000 2000w" alt="" data-height="3000" data-id="11670" data-link="https://atomic-temporary-162935141.wpcomstaging.com/?attachment_id=11670#main" data-url="https://tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/fa56d-holydayfinal-183.jpg" data-width="4500" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2020/08/e2ed6-holydayfinal-183.jpg?w=950" data-recalc-dims="1" /></figure></div></div></div></div>



<hr class="wp-block-separator" />



<p><strong>Marlon Diego</strong> tem 26 anos e é jornalista formado pela Universidade Federal de Pernambuco. Fotógrafo desde 2016, gosta de documentar manifestações religiosas de matrizes africanas, cultura local e temas voltados à política, sociedade e cotidiano nas periferias.&nbsp;</p>



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<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-flow wp-block-group-is-layout-flow">
<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/c9259-assinatura-3.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-11671" data-recalc-dims="1" /></figure>





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<div class="wp-block-columns is-layout-flex wp-container-core-columns-is-layout-6 wp-block-columns-is-layout-flex">
<div class="wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow">
<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.artebodoque.com/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/68661-loja-2.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-11586" data-recalc-dims="1" /></a></figure>
</div>



<div class="wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow">
<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.artebodoque.com/revista-trama-edicao-impressa-edicao-001"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/72b80-impressa-3.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-11608" data-recalc-dims="1" /></a></figure>
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</div>



<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-large-font-size">Galeria: Artistas pra seguir na quarentena</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.instagram.com/viajeronima/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/43ef4-fotos-carol-copy.jpg8_-1021x1024.jpg?resize=950%2C953&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-11314" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-medium-font-size"><em>Apoie os artistas nessa quarentena. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>
</div></div>
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		<title>Plataforma de streaming usa cenas de filmes para alertar sobre violência de gênero</title>
		<link>https://revistatrama.artebodoque.com/2020/08/23/plataforma-de-streaming-usa-cenas-de-filmes-para-alertar-sobre-violencia-de-genero/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 23 Aug 2020 21:25:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 059]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[ONU Brasil]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: ONU Brasil</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="has-drop-cap">A agência de comunicação F.biz criou para o Instituto Maria da Penha o “<a href="http://www.180play.com.br/">180Play</a>”, uma&nbsp; plataforma gratuita de streaming que&nbsp;reúne cenas de filmes, séries e novelas para conscientizar sobre as formas de violência doméstica e familiar contra as mulheres. A iniciativa tem o apoio institucional da&nbsp;<a href="http://www.onumulheres.org.br/noticias/com-apoio-da-onu-mulheres-f-biz-cria-streaming-para-instituto-maria-da-penha-que-ajuda-a-identificar-os-tipos-de-violencia-contra-as-mulheres/">ONU Mulheres Brasil</a>.</p>



<p>O lançamento da plataforma ocorre no aniversário de 14 anos da&nbsp;Lei Maria da Penha (Lei n. 11.340/2006). Considerada pela ONU uma das mais avançadas no mundo na defesa dos direitos das mulheres, a lei vai além da responsabilização dos agressores e traz em seu texto outros dispositivos, como a definição dos cinco tipos de violência: física, psicológica, sexual, patrimonial e sexual.</p>



<p>Seja na vida real ou na ficção, milhares de pessoas presenciam atos de violência doméstica todos os dias, mas nem sempre conseguem identificá-los. Apesar de saberem da existência da lei, 68% das mulheres alegam conhecê-la pouco e 11% delas afirmam não conhecer nada.</p>



<p>“O consumo dos conteúdos das plataformas de streaming já vinha crescendo, e o isolamento social fez com que isso se potencializasse. Hackear esse comportamento para dar visibilidade à violência, que nem sempre é visível, foi o ponto de partida deste trabalho. Afinal, quanto mais pessoas souberem identificar essas agressões, maiores são as chances de denúncias”, afirma o co-CEO da F.biz, Fernand Alphen.</p>



<p>Para a cofundadora e superintendente-geral do Instituto Maria da Penha, Conceição de Maria, a informação é uma grande aliada na prevenção e combate à violência doméstica, além de ajudar a desnaturalizá-la.</p>



<p>Por isso, segundo ela, é fundamental ampliar o acesso à Lei Maria da Penha, principalmente nesse contexto de isolamento social, em que o número de casos aumentou de maneira significativa.</p>



<p>Reconhecer que está em uma situação de violência é um passo importante para a mulher buscar ajuda e quebrar o ciclo da violência, lembrou a ONU Mulheres. Depois de acessar as informações sobre o assunto, o usuário ou a usuária da plataforma pode realizar denúncias&nbsp;<a href="http://www.180play.com.br/">dentro do próprio ambiente do site</a>: basta apertar um botão e ligar para o número 180.</p>



<p>“A violência contra as mulheres e meninas é uma grave violação dos direitos humanos das mulheres e nos chama a inovar para exemplificar as suas distintas formas de manifestação e enfrentamento. As artes — e aqui, especificamente, o audiovisual — são uma importante ferramenta para promover a sensibilização e engajamento de um público mais abrangente sobre o tema e ampliar o conhecimento sobre a Lei Maria da Penha e seus respectivos mecanismos para prevenir e coibir a violência doméstica e familiar”, disse Anastasia Divinskaya, representante da ONU Mulheres Brasil.</p>



<p>Durante o desenvolvimento da plataforma, foram tomados todos os cuidados necessários para garantir os direitos autorais e de personalidade, incluindo também a classificação indicativa dos conteúdos. As cenas extraídas e utilizadas no 180Play não representam opiniões ou ações dos criadores, atores ou pessoas nelas retratadas, bem como não relaciona esses conteúdos a qualquer tipo de apologia à violência.</p>



<p><strong>Telefones importantes</strong><br>· Para denúncias: Ligue 180 – Central de Atendimento à Mulher<br>· Para emergências: Disque 190 – Polícia Militar<br>Link do 180Play:&nbsp;<a href="http://www.180play.com.br/">www.180play.com.br</a></p>



<p><strong>Sobre o Instituto Maria da Penha</strong>&nbsp;–&nbsp;Fundado em 2009, o Instituto Maria da Penha (IMP) é uma organização não governamental sem fins lucrativos. A sua missão é enfrentar, por meio de mecanismos de conscientização e empoderamento, a violência doméstica e familiar contra a mulher.</p>



<p>Assim, o IMP estimula e contribui para a aplicação integral da Lei Maria da Penha (Lei n. 11.340/2006), bem como monitora a implementação e o desenvolvimento de políticas públicas, além de promover ações para construir uma sociedade mais justa, livre de discriminação e violência. Mais informações em:&nbsp;<a href="http://www.institutomariadapenha.org.br/">www.institutomariadapenha.org.br</a></p>



<p><strong>Sobre a ONU Mulheres</strong>&nbsp;– A ONU Mulheres é a organização das Nações Unidas dedicada a promover a igualdade de gênero e o empoderamento das mulheres. Como defensora mundial para mulheres e meninas, foi estabelecida para acelerar o progresso em favor da melhoria das condições de vida e responder às necessidades de mulheres e meninas no mundo.</p>



<p>A ONU Mulheres apoia os Estados-membros das Nações Unidas no estabelecimento de normas internacionais para alcançar a igualdade de gênero e trabalha com os governos e a sociedade civil na criação de leis, políticas, programas e serviços necessários para implementar tais normas.</p>



<p>Também apoia a participação igualitária de mulheres em todos os aspectos da vida, principalmente em cinco áreas prioritárias: liderança e participação política das mulheres; empoderamento econômico das mulheres; fim da violência contra mulheres e meninas; a participação das mulheres em todos os processos de paz, segurança e emergências humanitárias; e a incorporação da igualdade de gênero como elemento central de governança e planejamento para o desenvolvimento.</p>



<p>A organização coordena e promove o trabalho do Sistema das Nações Unidas para alcançar a igualdade de gênero.</p>



<p><strong>Sobre a F.biz –</strong>&nbsp;A F.biz é nasceu em julho de 1999 e logo se colocou entre as principais agências digitais independentes do Brasil. Em 2011, passou a fazer parte do WPP Group, o maior grupo de comunicação do mundo.</p>



<p>A agência possui uma visão agnóstica de distribuição de conteúdos (mídia) e um foco que conjuga análise de dados e criatividade. Jeep, Rico, Samsung e várias marcas da Unilever são alguns de seus clientes.</p>



<p><strong><em>Matéria originalmente publicada em <a href="https://nacoesunidas.org/plataforma-de-streaming-usa-cenas-de-filmes-para-alertar-sobre-violencia-genero/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Nações Unidas Brasil</a></em> <em>em 23/08/2020 &#8211; Atualizado em 23/08/2020.</em></strong></p>



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<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:27% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/982c5-onubio.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-8891" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p><strong><strong>A ONU (Organização das Nações Unidas) </strong></strong>é uma organização internacional formada por países que se reuniram voluntariamente para trabalhar pela paz e o desenvolvimento mundiais.</p>
</div></div>



<hr class="wp-block-separator" />



<figure class="wp-block-image size-large is-style-default"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/fdf84-assinatura-4.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-11677" data-recalc-dims="1" /></figure>





<hr class="wp-block-separator is-style-wide" />



<div class="wp-block-columns is-layout-flex wp-container-core-columns-is-layout-7 wp-block-columns-is-layout-flex">
<div class="wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow">
<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.artebodoque.com"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/68661-loja-2.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-11586" data-recalc-dims="1" /></a></figure>
</div>



<div class="wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow">
<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.artebodoque.com/revista-trama-edicao-impressa-edicao-001"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/dae20-impressa-1.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-11587" data-recalc-dims="1" /></a></figure>
</div>
</div>



<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-large-font-size">Galeria: artistas para seguir nessa quarentena</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.instagram.com/tuncaliozge"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/43ef4-fotos-carol-copy.jpg9_-1021x1024.jpg?resize=950%2C953&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-11393" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-medium-font-size"><em>Apoie artistas nessa quarentena. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>
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		<title>Editorial &#8211; Black Friday (vidas a R$9,99)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 23 Aug 2020 21:25:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 059]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Kariston França]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Kariston França</p>
<p>O post <a rel="nofollow" href="https://revistatrama.artebodoque.com/2020/08/23/black-friday-vidas-a-r999/">Editorial – Black Friday (vidas a R$9,99)</a> apareceu primeiro em <a rel="nofollow" href="https://revistatrama.artebodoque.com">Revista Trama</a>.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<hr class="wp-block-separator" />



<p class="has-drop-cap">Exatamente três semanas atrás, eu estava com alguns sintomas da Covid-19 &#8211; desesperado, com medo, mas também com uma certa possibilidade de apenas uma garganta inflamada nessa mudança de tempo drástica na cidade.</p>



<p>A suspeita foi confirmada em consulta médica: não era covid!</p>



<p>Então fui comprar os medicamentos para me cuidar; era início da flexibilização do &#8220;isolamento&#8221; e, à caminho da farmácia no centro da cidade, eu tive pânico: a rua estava cheia como em uma semana de Natal!?</p>



<p>Eu fiquei com medo de olhar as pessoas, encostar. Eu queria correr para casa, mas precisava me cuidar; fui, com mais medo do que uma criança andando em uma escada escura após ver um filme de terror.</p>



<p>Fazia tempo que não me sentia assim, mas logo o sentimento mudou: eu tive raiva, ódio; pois avistei panfletos de propaganda eleitoral.</p>



<p>O Brasil faliu. Nossas vidas são dívidas compradas pelos novos credores em ano eleitoral.</p>



<p>Não estou fazendo drama, mas percebi que nem tudo mudou no mundo em pandemia. O oportunismo dos candidatos a vereador e à prefeitura segue um rumo absurdo, sem compaixão com as pessoas &#8211; apenas com o dinheiro/poder.</p>



<p>Em minhas redes sociais, começaram a aparecer posts patrocinados com o que foi feito; e convenhamos, é bizarro ver alguém se gabar de tornar academias e igrejas um serviço essencial durante a pandemia.</p>



<p>É um absurdo embasar uma candidatura nisso; mas não tão absurdo se levarmos em conta que isso é fruto da normalização da morte.</p>



<p>A construção social tem filmes e jogos explorando a morte, as guerras, o caos global, e isso causa uma certa normalização da morte, da perda de uma vida.</p>



<p>Uma notícia de bala perdida não nos choca por mais de uma ou duas semanas (quando muito); uma denúncia de agressão pela força policial não nos causa revolta por mais que alguns dias; afinal, poucos dias depois, virão outras denúncias.</p>



<p>Os jornais e programas investigativos nos mostram crimes hediondos, mas parece que por sabermos se passar na tela mágica, nada é real. Só que no jornal das 8, isso é real: uma criança foi abusada e engravidou; uma vereadora foi assassinada; uma mãe e seus filhos foram agredidos pelo pai.</p>



<p>&#8220;Contar uma mentira tantas vezes não a torna uma verdade&#8221;. Será?!</p>



<p>Contar tragédias por balas perdidas, então, torna isso natural?</p>



<p>O problema é que nos chocamos com o que é extraordinário, mas o incomum não sustenta a vida; o comum sim, este serve como base para toda a trajetória da humanidade.</p>



<p>Então porque parece que mais de 100 mil mortos não constrangem um vereador a lamentar isso em seu POST publicitário?</p>



<p>A pandemia nos dá uma chance de ver a <em>pólis </em>no ápice de sua destruição e domínio sobre o indivíduo. Contemplamos olhares frios diante da barbárie do descaso governamental.</p>



<p>Mas pior do que isso, ela nos mostrou que nós também somos culpados da indiferença, de um envolvimento raso.</p>



<p>A culpa ainda é desigual, mas parece que nossos governantes nos ensinaram bem, e hoje nos permitem &#8220;andar com as próprias pernas&#8221; na perpetuação de um discurso de ódio, frio, e que se preocupa com arrecadações ao invés de cuidar de vidas.</p>



<p>Hoje morrem 6. Daqui a nove meses, temos no mínimo 12 novos indivíduos a futuramente abastecer a força de trabalho necessário para que a exploração continue.</p>



<p>Entramos na Black Friday das vidas?</p>



<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:25% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2020/04/b5310-bio-ka.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-8637" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p><strong><strong><strong>Kariston França</strong> </strong></strong>é apaixonado por pizza, e nas horas vagas atua como entusiasta da teologia pública.</p>
</div></div>



<hr class="wp-block-separator" />



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/fdf84-assinatura-4.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-11677" data-recalc-dims="1" /></figure>





<hr class="wp-block-separator is-style-wide" />



<div class="wp-block-columns is-layout-flex wp-container-core-columns-is-layout-8 wp-block-columns-is-layout-flex">
<div class="wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow">
<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.artebodoque.com/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/073d7-loja-1.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-11574" data-recalc-dims="1" /></a></figure>
</div>



<div class="wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow">
<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.artebodoque.com/revista-trama-edicao-impressa-edicao-001"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/72b80-impressa-3.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-11608" data-recalc-dims="1" /></a></figure>
</div>
</div>



<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-large-font-size">Galeria: artistas pra seguir na quarentena</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.instagram.com/tuncaliozge"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/1f607-fotos-carol-copy.psd2_.jpg?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-11391" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-medium-font-size"><em>Apoie pautas identitárias. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>
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		<title>O guarda-chuva que pariu o mundo</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 23 Aug 2020 21:24:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 059]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Vinícius Lara]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Vinícius Lara</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="has-drop-cap">A sala era pequena, apertada, onde ficavam quatro cadeiras, a mesa, algumas fotografias na parede e uma poltrona reclinável. Fora isso apenas a cozinha &#8211; espremida entre o fogão de quatro bocas Dako, a geladeira e a coifa que evitava gordura nos cômodos -, um quarto onde se empilhavam livros e roupas-de-cama e o banheiro. Como em um apartamento popular, o lugar era pequeno. Seriam pouco mais de quarenta metros quadrados para bem mais de quarenta dias.</p>



<p>Depois da primeira semana foi que percebeu que estava só. Não que notasse muito as outras pessoas no caminho em que fazia de casa para o trabalho diariamente, sempre saindo cedo e voltando tarde. Havia muita gente no trem, mas como estavam também em trânsito, não tinham rosto. Produziam o ruído dos seres humanos, o que já seria suficiente para notar que existem, mas sem a proximidade necessária, capaz de mostrar que eram importantes. Agora estava só. As salas de aula estavam fechadas para que lecionasse, seus alunos também estavam de quarentena. Ser só, entretanto, não é algo sobre o que se fale normalmente nas universidades, nas igrejas, nos botecos ou nos grupos de Whatsapp. Se sentia só, não sabia o que fazer e isso era grande.</p>



<p>Nunca alguém lhe disse que poderia criar coisas, deveria produzi-las, o que é bem diferente. Os prazos merecem ser cumpridos, é preciso visitar a igreja uma vez na semana, dois ou três dias no mês podem ser dedicados ao descanso. Esteja lá, ame o Brasil, repasse a notícia, role a pedra. Acima de tudo, role a pedra todos os dias. Trabalhando muito você terá repouso no final da vida, mesmo que sua vida não tenha começado, portanto, role a pedra. Mas e agora que não se pode mais rolar a pedra livremente? Não sabia o que fazer quando isso chegou, porque nos planos que tinha, apenas teria tempo livre o suficiente quando se aposentasse.</p>



<p>Da cadeira da sala apanhou as fotografias da parede com a intenção de escrever no verso de cada uma o lugar onde foram tiradas. Não eram muitas, talvez vinte. De três não se lembrou de jeito nenhum, e isso incomodou. A primeira era de um barco onde se lia “<em>Princesa do Mar</em>” sobre as águas azul-claras de um porto. Ao fundo uma montanha coberta de mato verde e dentro do barco um homem com boné de capitão levantava uma placa onde se lia “passeio de escuna”. Não tinha ideia se tirou a fotografia no Espírito Santo quando viajou com a mãe e o pai, ou se foi da região de Arraial do Cabo; talvez naquela vez em que foi a Porto Seguro. Fato é que nunca havia andado de escuna na vida.</p>



<p>A segunda fotografia mostrava uma rua com pessoas passando e um homem caído debaixo da marquise das Lojas Americanas. Não parecia sua cidade, mas onde seria? São tantos homens debaixo de marquises por aí afora, tantas Lojas Americanas. Quase infinitas possibilidades de imagens impactantes revelando as estéticas dessa pobreza urbana brasileira. Não era possível saber qualquer coisa sobre aquele retrato que estava na sua sala já há algum tempo. Isso chateava também, mas não tanto quanto a terceira.</p>



<p>Nesta última estava ao lado de um amor que teve e durou perto de uma década. Os dois posavam com jeito descontraído, um sobre as costas do outro. Numa mão uma garrafa de cerveja enquanto a outra enlaçava o pescoço do que estava no chão para não cair. Os dois faziam careta, estavam felizes. Ao fundo uma praça que parecia o parque da Redenção, em Porto Alegre, mas não dava pra ter certeza. Esse caso já tinha se acabado há mais de dois anos. Aquelas imagens lhe pertenciam, mas não eram mais suas. Foram esquecidas na parede como se esquece tanta coisa no pensamento. O isolamento mostrava: embora seu rosto estivesse ali, não existiam na memória. Eram papéis. As três desconhecidas jogou no lixo.</p>



<p>Quanto às outras relembrou, anotou e voltou a pregar no mural de cortiça já russo ao lado da porta. Estava só, e a não ser pelas poucas vezes em que saía para comprar comida e cerveja, ou nos momentos em que se revezava entre&nbsp; livros e a internet, o mural de fotografia foi sua companhia. Levava dias para anotar as descrições de uma foto. Aos poucos elas foram se transformando num fio de Ariadne que era puxado, e cada pose trazia à superfície uma música, outra imagem, um poema, a vontade de ligar para alguém. Curiosamente se sentiu alegre. Na sua cabeça era como se a sua vida fosse um grande cigarro que fumava compulsivamente e lhe tirava o paladar. Enquanto vivia a abstinência, ia se descobrindo um pouco mais; gostava do que encontrou. Se sentiu como se fosse deus criando águas, terra, animais, homens. “ <em>… viu que era bom</em>.”</p>



<p>Propositalmente deixou uma por último, de quando visitou Ouro Preto no feriado do dia dos professores no ano passado. De supetão e para evitar uma estafa entrou no ônibus e partiu para passar um dia e meio na cidade. Já tinha ido até lá outras vezes, e sempre, cada vez mais, se apaixonava pelas casas tortas e as ruas de pedra; o frio da noite e uma atmosfera estranha que transpira ao mesmo tempo cultura e mágoa de tanta mistura de gentes e tanto tempo de escravidão. Ouro Preto era sua cidade imaginária.&nbsp;</p>



<p>A fotografia em si era péssima, tremida, levemente desfocada. Estava de pé, diante da entrada daquele café quase na esquina da Rua Cláudio Manoel com a praça do obelisco. Chovia um pouco no final da tarde, e por isso segurava um guarda-chuva. Calça jeans, casaco de moletom escuro, nas mãos a bolsa onde estava a recém comprada nova edição de <em>O Homem que Ri</em>, de Victor Hugo. Um sorriso de contentamento no rosto. Em volta chuva e pedras ensaboadas. Não deveria ser mesmo uma boa fotografia. Quando pediu a uma moça que passava para fotografar ela fez cara de susto primeiro, e depois de preguiça. Pegou o celular e, de modo mal enquadrado, que cortava das canelas para cima fez o registro. A foto feia foi revelada porque era mais do que fotografia: qualquer um reconhecia ali alguém desarmado e satisfeito.</p>



<p>No verso da impressão anotou: “<em>15 de outubro de 2019, fui feliz em Ouro Preto</em>”. Depois riscou a palavra “fui” e escreveu “estava” no lugar. Por esses mistérios psicanalíticos se apaixonou pelo guarda-chuva que se tornou símbolo de pessoa. Resolveu, então, escrever sobre suas memórias na forma de pequenos poemas &#8211; quase todos rimas pobres que enfiavam amor no meio da história, porque ainda estava se desintoxicando daquilo que dizia de que toda poesia deve ser de amor. Continuava só, mas isso não parecia mais tão grande.</p>



<p>Abandonou a poesia e se aventurou em alguns pequenos ensaios. Será que todas as pessoas tinham alguma fotografia em casa para ver e recordar? Escreveu, então, sobre a fotografia. Leu pela internet coisas de Roland Barthes e teorizou de modo categórico sobre o que deveria ser uma “foto ideal”. Era como a criança que aprende a falar. Só que depois pensou que hoje em dia pouca gente sabia o que era uma foto impressa que não fosse panfleto de culto ou santinho eleitoral. Seus alunos precisavam descobrir como as imagens conversam com as pessoas! Foi quando se condoeu, porque em pleno século XXI parte deles não faziam sequer três refeições no dia, que dirá gastar tempo com essas bobagens de arte. Se indignou e escreveu sobre o Estado. Defendeu a renda básica universal e o fim do obscurantismo. Para isso criou uma situação distópica na qual o Brasil era governado por um homem-caricatura &#8211; um pai de horda &#8211; sem a menor noção do que seria o ritual do governo ou da razoabilidade. Uns diziam que tinha pacto com milicianos, outros que pretendia um golpe, mas a maioria apenas concordava que era um estúpido motivado. Estúpidos empoderados são perigosos. As consequências de toda essa distopia eram as piores, com prognósticos capazes de assustar os esperançosos. “Que fazer para evitar a catástrofe?” &#8211; perguntava aos leitores &#8211; “dar voz e vez a pessoas!”&nbsp;</p>



<p>Se vestia de palavras para dizer coisas, não para enfeitar.</p>



<p>Lendo seus textos começaram a lhe pedir sugestões do que criar também. Uns faziam pinturas, outros, desenhos; fotógrafos &#8211; veja a ironia &#8211; e até escritores. A princípio sem se percebia capaz de ajudar, sentiu vergonha. Passou. Perdeu a conta de em qual dia dessa longa quarentena estava, mas sentiu como se, pela primeira vez desde os doze anos estivesse em contato consigo. Seu espírito era isolamento reverso. Uma revolução estava acontecendo naquela sala pequena, e imaginou que também em milhares de outras por aí. Parte das máquinas da engrenagem-mundo se tornava gente.</p>



<p>Quando pensou assim se sentou para escrever mais. Definitivamente não estava só. Desta vez pensou em um pequeno conto sobre tornar-se pessoa. Escreveu e se emocionou, porque escreveu com a intimidade de quem reencontra um amor proibido do passado. Por último o título: <em>O guarda-chuva que pariu o mundo</em>. Mas ainda faltava uma coisa a fazer. Voltou ao mural, rasurou mais uma vez o verso daquela fotografia de Ouro Preto e substituiu “estava” pela palavra “sou”. Nasceu alguém que sabe de si</p>



<hr class="wp-block-separator" />



<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:27% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2020/04/41684-bio-vin-lara.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-8647" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p><strong><strong>Vinícius Lara </strong></strong>é historiador, fotógrafo amador e um apaixonado pelo absurdo.</p>
</div></div>



<hr class="wp-block-separator" />



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-flow wp-block-group-is-layout-flow">
<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/fdf84-assinatura-4.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-11677" data-recalc-dims="1" /></figure>





<hr class="wp-block-separator is-style-wide" />



<div class="wp-block-columns is-layout-flex wp-container-core-columns-is-layout-9 wp-block-columns-is-layout-flex">
<div class="wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow">
<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.artebodoque.com/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/68661-loja-2.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-11586" data-recalc-dims="1" /></a></figure>
</div>



<div class="wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow">
<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.artebodoque.com/revista-trama-edicao-impressa-edicao-001"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/72b80-impressa-3.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-11608" data-recalc-dims="1" /></a></figure>
</div>
</div>



<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-large-font-size">Galeria: Artistas pra seguir na quarentena</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.instagram.com/viajeronima/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/43ef4-fotos-carol-copy.jpg8_-1021x1024.jpg?resize=950%2C953&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-11314" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-medium-font-size"><em>Apoie os artistas nessa quarentena. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>
</div></div>
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		<title>Felicidade Amarela</title>
		<link>https://revistatrama.artebodoque.com/2020/08/23/felicidade-amarela/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 23 Aug 2020 21:21:48 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 059]]></category>
		<category><![CDATA[Geara Franco]]></category>
		<category><![CDATA[poema]]></category>
		<category><![CDATA[poesia]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Geara Franco</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<pre class="wp-block-verse">Você é meu ninho,
Não me impede de voar.
Eu só conhecia gaiola,
Grades a me aprisionar.

Quem gostava do meu canto,
Me feria e não deixava,
Eu só cantava dor e pranto.
Ao invés de voar, chorava.

Asa quebrada,
Voz calada,
Presa eu acreditava
No que ele falava:
Eu era amada.

Voar era desejo,
Partir me amedrontava.
Mas hoje eu vejo
O tempo que perdi
Enquanto não voava.

Eu refiz meu ninho
De galho em galho.
Eu me dei carinho
Felicidade amarela,
Cor de canário.

Daí um dia voando em bando
Achei um pássaro sozinho
Que já chegou cantando,
Ofegante e suando,
Mas com todo carinho.

Nome passado,
Eu já estava saindo.
Tudo anotado,
Fui embora sorrindo.

Dali em diante
A conversa fluía,
Eu era feliz,
Ali, eu sabia.

Hoje voo com ele,
Me sinto segura.
Pele na pele
E eu vou à loucura.
Se me sinto mal,
Seu ninho me cura.

Hoje eu canto feliz,
Mas também de saudade.
Eu voo alto quando ele diz
Que sou sua felicidade.

No coração dele
Me sinto em casa.
Hoje canto pra ele,
Mas não presa,
Ele curou minha asa.

Eu voo em paz
E de asas bem dadas.
Se lembrança ruim me traz,
São águas passadas.

Canto felicidade,
No centro dessa cidade,
Meu ninho, com todo carinho
Me espera sem alarde.
Me espera com a certeza,
De que não volto muito tarde.
</pre>



<hr class="wp-block-separator" />



<p><strong>Geara Franco</strong> é jornalista, macramística e poetisa nas horas vagas. </p>



<hr class="wp-block-separator" />



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/fdf84-assinatura-4.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-11677" data-recalc-dims="1" /></figure>





<hr class="wp-block-separator is-style-wide" />



<div class="wp-block-columns is-layout-flex wp-container-core-columns-is-layout-10 wp-block-columns-is-layout-flex">
<div class="wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow">
<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.artebodoque.com/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/073d7-loja-1.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-11574" data-recalc-dims="1" /></a></figure>
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<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.artebodoque.com/revista-trama-edicao-impressa-edicao-001"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/82f24-impressa-2.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-11600" data-recalc-dims="1" /></a></figure>
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<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-large-font-size">Galeria: artistas pra seguir na quarentena</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.instagram.com/iuryborel/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2020/10/4079c-sketch-brasil-1.png2_.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-9943" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-medium-font-size"><em>Apoie pautas identitárias. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>
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