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	<title>Arquivos Ano 002, N 072 - Revista Trama</title>
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	<description>Arte, Cultura e Criatividade</description>
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		<title>A ditadura militar e os povos originários</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 22 Nov 2020 21:29:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 072]]></category>
		<category><![CDATA[Déborah Silva]]></category>
		<category><![CDATA[Ditadura Militar no Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[Índios do Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[Povos Indígenas e a Ditadura Militar]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Deborah Silva</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Apesar de muitos estudos e dados relacionados ao período da ditadura no Brasil, ainda hoje se sabe muito pouco sobre os crimes cometidos contra as populações indígenas. A história desses povos, a partir de 1500, tornou-se frequentemente ligada à brutalidade, genocídios e perseguição, mas o que ocorreu durante o período ditatorial ainda pode ser considerado um “massacre silencioso”.</p>



<p>O documento mais importante que denuncia algumas das atrocidades é o chamado “Relatório Figueiredo”. Em 1967, o procurador federal Jader Figueiredo publicou um relatório de 7.000 páginas que catalogou inúmeros crimes cometidos contra os indígenas, principalmente por parte de grandes proprietários de terra e agentes do Estado, dentre os quais destacamos: escravidão, tortura, prostituição de índias, usurpação de terra e assassinatos. Entretanto, este relatório ficou desaparecido por 44 anos sob a alegação de que teria sido destruído em um incêndio, mas felizmente foi encontrado praticamente intacto por pesquisadores em 2013.</p>



<p>Dentre as apurações do relatório, algumas parecem tiradas de um filme de terror ou uma ficção bizarra demais para acreditar. Ao percorrer mais de 16.000 km com sua equipe, o procurador soube da existência de caçadas humanas de indígenas feitas por meio de metralhadoras e dinamite atiradas de aviões, inoculações propositais de varíola em tribos isoladas e até doações de açúcar misturado a estricnina – um ácido proibido em vários países em razão de sua toxicidade.</p>



<p>Um famoso caso ficou conhecido como “o massacre do paralelo 11”, em que um barão do setor de borracha ordenou que fossem arremessadas dinamites em uma aldeia indígena do povo “Cinta Larga”, e os que sobreviveram ao atentado acabaram assassinados por seringueiros que os atacaram com facões.</p>



<p>Outra denúncia conhecida envolve o “Reformatório Krenak”, um verdadeiro presídio que serviu como centro de detenção arbitrária para indígenas dessa etnia. O objetivo era a destruição do grupo, e prova disso foram os deslocamentos forçados que levaram ao adoecimento psíquico de vários membros dos Krenak a partir de um processo de traumatização coletiva, além da violação explícita de direitos culturais e reprodutivos, como obstáculos para que os nascimentos ocorressem no seio do grupo, contrariando os sistemas tradicionais.</p>



<p>Mas voltemos um pouco no contexto brasileiro da época. Exista a pretensão, por parte dos militares, de uma integração do território nacional ao mesmo tempo em que se buscava expandir suas fronteiras internas. Desde o governo Castelo Branco de 1964, as diretrizes de segurança e de desenvolvimento econômico buscadas pelo Estado deixaram evidente o ambicioso plano de deslocamento de populações para exploração estratégica do território, principalmente na região amazônica.</p>



<p>Assim, as populações indígenas estavam diretamente posicionadas entre os militares e a realização de um projeto desenvolvimentista que não se alinhava com demarcação de territórios ou puramente a proteção aos direitos humanos. O preço pago foi altíssimo: perseguições, prisões, ataques que iam de envenenamento por alimentos misturados com arsênico, a aviões que atiravam brinquedos contaminados com vírus de sarampo ou varíola para as crianças das aldeias.</p>



<p>Segundo relatório da Comissão Nacional da Verdade, entre 1964 e 1985, ao menos 8.350 indígenas foram mortos em algum desses atentados, o que corresponde a, no mínimo, 10 etnias diferentes. A abertura da Rodovia Transamazônica – possivelmente o maior ideal faraônico da ditadura, que pretendia cruzar o país através da Amazônia – também contribuiu para os números, sendo que 29 grupos indígenas foram afetados de forma trágica, incluindo 11 etnias isoladas.</p>



<p>Felizmente, vem sendo realizado um trabalho por parte do Ministério Público Federal, no âmbito da Justiça de Transição, que além de denunciar e dar voz a muitas tribos busca também reparações e respostas para o que ocorreu durante o esse período sombrio. Em fevereiro de 2014, o Grupo de Trabalho “Violações dos Direitos dos Povos Indígenas e o Regime Militar” obteve a primeira decisão judicial favorável: a determinação para que a União e a FUNAI adotassem medidas visando reparar os danos permanentes causados aos povos indígenas Tenharim e Jiahui em decorrência da construção da rodovia Transamazônica (BR-230) em seus territórios.</p>



<p>Inicialmente, as atividades do projeto deram foco a três grandes casos: as violações aos direitos do Povo Waimiri-Atroari, no Amazonas; o caso do Reformatório Krenak; e as atividades da Guarda Rural Indígena (GRIN), em Minas Gerais.</p>



<p>“Helicópteros que sobrevoavam as aldeias derramando veneno e detonando explosivos sobre centenas de indígenas reunidos para celebração de rituais de passagem. Ataques a tiros, esfaqueamentos e degolações contra os sobreviventes. Tratores que passavam destruindo roçados, locais de passagem e antigas capoeiras de aldeias centenárias.”</p>



<p>Essas foram algumas das cenas descritas por indígenas Waimiri-Atroari (autodenominados Kinja), que falaram em público pela primeira vez durante a audiência da ação civil pública que buscava a reparação e indenizações pelas violações que vivenciaram entre a década de 70 e 80. Apesar da ação reparatória contra o Estado brasileiro, nada apagará o fato de que o terror quase levou o grupo à extinção, e tudo isso em nome da abertura da BR-174.</p>



<p>Apesar de algumas das descobertas serem recentes, o reflexo da ditadura militar em relação aos povos indígenas é um tema ainda muito pouco abordado, mesmo que essas populações historicamente já fossem vítimas da ação repressiva do Estado. Além disso, trata-se de uma população que precisa e sempre precisou ser ouvida, e prova disso é como a violação dos seus direitos durante a ditadura não teve a mesma visibilidade de outras violações a direitos humanos.</p>



<p>As dificuldades eram tantas, que a própria Comissão Nacional da Verdade não conseguiu identificar todas as vítimas fatais no período investigado, tanto por questões geográficas quanto linguísticas. Por isso falamos em morticínio silencioso, já que até hoje esse lado da ditadura é praticamente ignorado.</p>



<p>Muito do que o governo atual tem feito é fruto de uma consciência militar, e não podemos esquecer que a ditadura acabou, relativamente, há pouco tempo. É importante olhar para trás para traçarmos um paralelo com a política indigenista de hoje, e vemos muitas simetrias. Há, por exemplo, uma tendência de distorção e até mesmo ocultação de dados, e se ocorria um negacionismo naquela época com afirmações de que os números não eram tão altos ou que os indígenas não estavam sendo perseguidos, hoje vemos praticamente a mesma coisa, ainda mais no contexto da pandemia do novo Coronavírus.</p>



<p>Hoje no Brasil, novamente, existem elementos que comprovam a ocorrência de crimes contra a humanidade na resposta do governo à pandemia, quais sejam: intenção, plano e ataque sistemático (por ação e omissão).</p>



<p>Entendemos que os povos indígenas sempre foram colocados em uma agenda de extermínio. Nossa esperança é que as atuais denúncias sejam capazes de parar esse projeto, e que a violência não seja patrocinada e incentivada por aqueles que devem combatê-la.</p>



<hr class="wp-block-separator" />



<p><strong>Notas</strong></p>



<p>(1) o Relatório Figueiredo, apesar de muito importante, apresentava problemas e não catalogou todos os casos da época, inclusive o procurador chegou a afirmar que não estaria ocorrendo um genocídio. Como sabemos hoje, a ditadura estava apenas no começo, e as pesquisas apontam que o genocídio já havia começado.</p>



<p>(2) o presente texto objetivou o levantamento de informações sobre o tema e a exposição dos mesmos, correlacionando a matéria ao Direito. Naturalmente não se pretendia a discussão sobre o ponto de vista daqueles que realmente sofreram e sofrem opressões e ataques. Aos que se interessarem em saber mais da história pela voz dos indígenas, deixo abaixo alguns documentários e vídeos de acesso gratuito no Youtube:</p>



<ul><li><a href="https://www.youtube.com/watch?v=DfkGVfkJpAM"><strong>GUERRA SEM FIM</strong> &#8211; Resistência e Luta do Povo Krenak (Endless War &#8211; 2016) </a></li><li><a href="https://www.youtube.com/watch?v=TVeVsfvOW4g">MARAWATSEDE &#8211; O RESGATE DA TERRA</a></li><li><a href="https://www.youtube.com/watch?v=FwSoU3r1O-Q&amp;feature=emb_title">Ditadura criou cadeias para índios com trabalhos forçados e torturas</a> <br></li></ul>



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<p><strong>REFERÊNCIAS</strong></p>



<p>MPF. <strong>Audiência na Terra Indígena dos Kinja. </strong>Disponível em: &lt;<a href="http://www.justicadetransicao.mpf.mp.br/eventos/audiencia-na-ti-dos-kinja">http://www.justicadetransicao.mpf.mp.br/eventos/audiencia-na-ti-dos-kinja</a>&gt;</p>



<p>MPF. <strong>Justiça de Transição – Povos Indígenas</strong>. Disponível em: &lt;<a href="http://www.justicadetransicao.mpf.mp.br/povos-indigenas">http://www.justicadetransicao.mpf.mp.br/povos-indigenas</a>&gt;.</p>



<p>UOL. <strong>Conheça o capítulo pouco lembrado da ditadura milita brasileira</strong>. Disponível em: &lt;<a href="https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/indigenas-conheca-o-capitulo-pouco-lembrado-da-ditadura-militar-brasileira.phtml">https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/indigenas-conheca-o-capitulo-pouco-lembrado-da-ditadura-militar-brasileira.phtml</a>&gt;. UFMG. <strong>Ditadura militar e populações indígenas</strong>. Disponível em: &lt;<a href="https://www.ufmg.br/brasildoc/temas/5-ditadura-militar-e-populacoes-indigenas/">https://www.ufmg.br/brasildoc/temas/5-ditadura-militar-e-populacoes-indigenas/</a>&gt;.</p>



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<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:20% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/17081-debra-1.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-11621" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p><strong><strong><strong><strong>Déborah Silva</strong></strong>&nbsp;</strong></strong>é pós graduanda em Direito Constitucional.&nbsp;</p>
</div></div>



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<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-large-font-size">Galeria: artistas pra seguir na quarentena</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.instagram.com/iuryborel/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2020/10/4079c-sketch-brasil-1.png2_.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-9943" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-medium-font-size"><em>Apoie pautas identitárias. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>



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<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/9acee-publi-ediccca7acc83o-impressa-1.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-5668" data-recalc-dims="1" /></figure>





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<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.artebodoque.com/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/747d3-publi-bodoque3.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-5017" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



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		<title>[Arredores] Deslembrar a Realidade, com Vinícius Lara</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 22 Nov 2020 21:28:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 072]]></category>
		<category><![CDATA[Arredores]]></category>
		<category><![CDATA[Carol Cadinelli]]></category>
		<category><![CDATA[Entrevista]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Vinícius Lara]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: Trama Bodoque</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>A distância entre escrever, publicar um livro e ser um autor, um artista. Quantos de vocês, que escrevem em revistas como a Trama, ou que mantém cadernos de poemas, já não pensaram sobre isso? </p>



<p>Muitos medos e dúvidas e angústias assolam o jovem escritor, que se questiona sobre fazer certo, ser repetitivo, não ser bom o suficiente, ter travas de criatividade. Porém, chegar ao ponto de reivindicar para si o título de autor, de artista, passa por tudo isso e muito mais.</p>



<p>Essa semana, a Trama conversou com o Vinícius Lara, nosso queridíssimo autor fixo da Trama, sobre o fazer literatura, as memórias e outras devaneios &#8211; além de, claro, sobre o seu primeiro livro de poemas, Deslembrar. Rola pra baixo pra conferir a entrevista!</p>



<div class="wp-block-image"><figure class="aligncenter size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/aa628-whatsapp-image-2020-11-17-at-23.16.41-edited.jpeg?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12764" data-recalc-dims="1" /><figcaption>Vinícius Lara, autor de &#8216;Deslembrar&#8217;<br>Foto: Acervo Pessoal</figcaption></figure></div>



<p><strong>Trama: O Deslembrar é a sua estreia no mercado editorial. Você escreve desde crônicas até reflexões; por que estrear justamente com poesia?</strong></p>



<p><strong>V:</strong> Eu comecei publicando o Deslembrar porque eu não sabia que eu escrevia crônicas. Sabia que escrevia alguns ensaios, alguns artigos de opinião; mas como eu acho seco demais, e eu sou racional demais, eu preferi brincar com a poesia. </p>



<p>A minha escrita nas crônicas, ou das crônicas, dos contos, e de outros gêneros, ela vem depois da poesia. Então é como se a poesia, a prosa poética, tivessem aberto caminho para os demais textos &#8211; o que faz com que hoje eu esteja até trabalhando na organização de uma coletânea de crônicas. Mas o Deslembrar vem primeiro porque ele nasceu primeiro. A poesia foi a primeira forma de me expressar, no campo da literatura, que eu encontrei.</p>



<p><strong>T:  E me conta um pouquinho sobre esse nascimento do Deslembrar?</strong></p>



<p><strong>V:</strong>  2019 foi um ano marcado por muita coisa. Eu vivi experiências muito intensas, dores muito grandes, alegrias maiores do que eu imaginava, e de alguma forma o Deslembrar é uma forma, uma maneira que eu encontrei para dar um lugar diferente para essas memórias, todas muito intensas. E me incomodava a ideia do esquecimento. E por isso eu fui permitindo que a mente transbordasse na poesia aquilo que o coração conseguia elaborar.</p>



<p>Essa coletânea ocupa o espaço de uma memória revisitada. &#8220;Deslembrar&#8221; não significa esquecer; &#8220;deslembrar&#8221; é lembrar de uma forma diferente. Então, o livro, ele é, em última análise, uma impressão das minhas memórias fora de mim.</p>



<p><strong>T: Você comentou, na sua resposta, que o livro tem muito a ver com as suas memórias e vivências de 2019; porém, você escreve muito muito antes disso. Você teve ocasiões outras em que pensou em lançar um livro? Se sim, por que só o fez agora?</strong></p>



<p><strong>V:</strong>  Não, não tive. Eu acho que, antes, eu não estava em paz comigo mesmo. E claro que isso não é uma regra, mas o Vinícius, quando não está em paz, ele queria ser professor do mundo. Eu escrevi muitos artigos de opinião, textões pra mídia social, e vai uma grande distância disso para a literatura. Porque a literatura é um brincar de ser que se é.</p>



<p>Eu gosto muito de um texto do Camus em que ele faz um análise sobre o escrito literário francês, e ele vai dizer que os autores bons escrevem sempre sobre uma mesma coisa &#8211; e eles escrevem sobre uma mesma coisa de formas tão diferentes, tão bem camufladas, que o leitor vai achar que são coisas distintas, mas é a mesma história. E, para isso, é preciso paz; pelo menos, para encarar a sua angústia. </p>



<p>Antes, eu não pensava em publicar, porque eu não tinha coragem de olhar para as minhas angústias. E eu acho que foi no ano passado que essa parte do Vinícius conseguiu ficar tranquila, e por isso deu à luz a textos. Então, hoje, dificilmente eu vou publicar um artigo de opinião, uma crítica; eu gosto de transitar pelo texto tentando dizer quase sempre a mesma coisa, com métricas diferentes, formas diferentes, estilos diferentes. Brincar de criar a realidade.</p>



<p><strong>T: </strong> <strong>E nesse processo de dizer &#8220;as mesmas coisas&#8221;, você não se sente repetitivo? Enfadonho?</strong></p>



<p><strong>V:</strong> Essa pergunta é boa, se eu não me sinto repetitivo. Mas é aí que eu acho que acontece a escrita. Porque falar da mesma coisa não é igual a falar do mesmo jeito. Escrever, pra mim, tem essa capacidade de olhar para a realidade de uma forma muito pessoal; então talvez, alguém, lendo os poemas, ou colocando em série as crônicas que são publicadas na Trama, pode dizer que não tem absolutamente nada a ver uma coisa com a outra.</p>



<p>Na semana passada, você publicou o texto de um tal Vinícius que comete suicídio, e há duas semanas, era uma menina que se de repente se tornou um balão, uma pipa. Não tem relação, uma coisa com a outra. Mas os textos estão dizendo do mesmo. A literatura, para mim, mora aí. Repetir não necessariamente é fazer igual, mas é deixar uma parte do texto, um núcleo duro, uma espinha dorsal, que está sempre tocando naquilo que o autor entende enquanto sendo sua questão existencial, ou uma questão existencial mais ampla.</p>



<p><strong>T: Pensando no sentido de que você tem essa percepção sobre o que é literatura hoje, e sobre o caminho que te levou até ela</strong>; <strong>quando você olha pra trás, como você percebe que as angústias do Vinícius autor mudaram?</strong></p>



<p><strong>V:</strong> Eu não sei se elas mudaram. Elas apareceram. Durante bastante tempo, eu acreditei que existia um sentido existencial finalístico, e que era muito coletivo, e então que quase todos nós buscávamos o mesmo fim; mas hoje, eu não concordo com isso, mais. Meu contato com a psicanálise e com a filosofia existencialista me fizeram pensar que, por mais que a gente conquiste coisas, há sempre um resíduo de desamparo. Que é o desamparo de existir, de viver em um mundo como o nosso. Mas, por muito tempo, eu não percebi isso. E eu ficava pulando de experiência em experiência tentando dar sentido a coisas que são naturalmente erráticas, naturalmente impermanentes, transitórias. Daí vem a angústia do autor.</p>



<p><strong>T: &nbsp;Você tem formação em Psicanálise e em História, além de uma vivência religiosa aprofundada. Você consegue elaborar a influência que você vê de cada uma dessas coisas &#8211; e/ou de outras que você achar relevantes &#8211; dentro da sua percepção dessa angústia de &#8220;viver no mundo&#8221; que você comentou?</strong></p>



<p><strong>V:</strong> Pois é. Eu acho que aí aparece uma costura muito sutil. Porque eu tive uma experiência religiosa muito marcante, desde pequeno; depois fiz a faculdade de História, e fiz o mestrado; depois tive outra experiência religiosa intensa, agora mais próxima ao Budismo Tibetano; e a última coisa que aparece é a psicanálise, nessa linha temporal. Mas curiosamente, é ela que costura todas as coisas. </p>



<p>É muito difícil a gente pensar que existir é inseguro; mas é. E é exatamente quando a gente percebe isso que nós vamos buscando verdades universalizantes, que sejam capazes de anestesiar um pouquinho o nosso desamparo. Então eu vejo que a minha caminhada, num processo de pensar a vida, parte de um polo, de uma noção universalizante da existência, e chega na contemplação desse drama existencial. Eu não considero que eu tenha aberto mão de princípios espirituais, nada assim; é como se eu viesse, ao longo desses anos, ajustando uma lente, para conseguir ver a realidade de formas mais detalhadas, mais específicas.</p>



<p><strong>T: E na busca dessas &#8220;verdade universalizantes&#8221;, você tem planos para mais livros?</strong></p>



<p><strong>V:</strong> Pra buscá-las, de jeito nenhum (risos). Hoje, a minha meta é destruí-las todas, colocar tudo abaixo. É perceber justamente esse espaço da incerteza, da experiência, da subjetividades. Então, nessa perspectiva, de jeito nenhum.</p>



<p>Agora, penso sim, em publicar a coletânea de crônicas. Agora, quando, como vai vir? Isso, eu já não tenho ideia.</p>



<p><strong>T:  &nbsp;E a gente falando de todas essas questões e angústias, e pensamentos filosóficos, eu queria que você fizesse o movimento oposto: me conta um pouco do Vinícius cotidiano, que usa referências de desenhos animados nas crônicas e gosta de ir pra Ouro Preto…</strong></p>



<p><strong>V:</strong>  (risos) o Vinícius cotidiano é bem isso o que você coloca. Minha rotina é muito tranquila; eu sou professor, ministro aulas de Sociologia e História; termino um Doutorado em Sociologia da Religião; e tenho meu consultório, onde trabalho como psicanalista. Gosto bastante de ler; adoro algumas sacadas de alguns memes; tenho pouca paciência para séries, acho que nunca assisti a uma inteira a não ser Rick e Morty; mas uma vida bem comum. E eu acho que usar essas referências, como o Marsupilami e Ouro Preto, é falar um pouquinho dessa realidade, né?, comum. Porque eu tenho medo de descolar demais o texto da realidade, e o texto fica longo, distante, estranho, quase elitista. Eu fico sempre pensando que eu gostaria que as pessoas, e praticamente todas, ou todas que leem aquilo o que eu escrevo pudessem ter pelo menos uma referência com a qual se identifiquem.</p>



<p><strong>T: &nbsp;Você comentou sobre essa questão da acessibilidade da sua literatura, sendo que você desenvolve pensamentos muito complexos. Nesse sentido, qual é o valor que essa acessibilidade tem para você, enquanto produtor de conhecimento na academia e enquanto autor de literatura?</strong></p>



<p><strong>V:</strong> Essa acessibilidade, para mim, é a razão de existir toda e qualquer expressão artística. Eu não consigo conceber que exista algum sujeito que não seja complexo. E aí surge uma dicotomia interessante: o pensamento complexo não pede, necessariamente, um texto complexo. É claro que isso é uma tentativa e erro, mas eu imagino que alguns autores escrevam tendo como destino o próprio gozo, apenas; uma fruição estética. Eu não consigo compreender assim. O texto tem que dizer alguma coisa, para alguém. Ele existe para isso. Portanto, pensar que as pessoas lerão e que, quando lerem, terão uma identidade mínima que seja com ele, é o que me move a escrever.</p>



<p><strong>T: E pra que serve a literatura, afinal?</strong></p>



<p><strong>V:</strong> Eu não tenho a menor ideia. Mas, para mim, literatura é incômodo. É revolta. É resistência. O texto serve para demarcar a nossa insatisfação com o real. Por isso, pelo texto da prosa ou da poesia, a gente dá um contorno diferente para o real; musical, quase; ritmado. E, na prosa, a gente cria uma realidade. E criar realidade, para mim, é a maior expressão de resistência, porque é quando uma pessoa decide dizer que a realidade não basta, é preciso criar. Por isso, para mim, a literatura é resistir à insensibilidade. </p>



<p><strong>T: &nbsp;Qual pergunta você gostaria que eu tivesse feito e não fiz? E qual a resposta para ela?</strong></p>



<p><strong>V: </strong> Gostaria que você tivesse me perguntado qual é o tema sobre o qual eu sempre escrevo. E a minha resposta seria: &#8220;infelizmente, isso não é da conta de ninguém&#8221;. É um segredo que eu guardo só pra mim.</p>



<p>&nbsp;</p>



<p>&#8216;Deslembrar&#8217;, título de estreia de Vinícius Lara, foi publicado pela editora Kotter e já está à venda na <a href="https://www.instagram.com/atenabookstore/">Atena Bookstore</a>.</p>



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<p class="has-text-align-right has-normal-font-size"><strong>Sobre a Entrevistadora:</strong></p>



<p><strong>Carol Cadinelli</strong> é jornalista, apaixonada por palavras. Escreve, edita, revisa, traduz e, vez ou outra, fotografa. Atualmente, é editora na Trama, Social Media na Peregrina Digital e escritora nas horas vagas.</p>
</div></div>



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<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-flow wp-block-group-is-layout-flow">
<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/fdf84-assinatura-4.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-11677" data-recalc-dims="1" /></figure>





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<div class="wp-block-columns is-layout-flex wp-container-core-columns-is-layout-1 wp-block-columns-is-layout-flex">
<div class="wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow">
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</div>



<div class="wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow">
<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.artebodoque.com/revista-trama-edicao-impressa-edicao-001"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/72b80-impressa-3.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-11608" data-recalc-dims="1" /></a></figure>
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<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-large-font-size">Galeria: artistas pra seguir na quarentena</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.instagram.com/affnana/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/43ef4-fotos-carol-copy.jpg8_-1021x1024.jpg?resize=950%2C953&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-11314" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-medium-font-size"><em>Apoie artistas nessa quarentena. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>
</div></div>
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		<title>CAÇADORA DE HISTÓRIAS: EXISTO, RESISTO E REVOLUCIONO</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 22 Nov 2020 21:27:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 072]]></category>
		<category><![CDATA[Caçadora de Histórias]]></category>
		<category><![CDATA[Mateus Guidinho]]></category>
		<category><![CDATA[Negritude]]></category>
		<category><![CDATA[Privilégio Social]]></category>
		<category><![CDATA[Victória Vieira]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: Victória Vieira</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="has-text-align-center"><em>“Me empresta o lápis cor de pele?”</em></p>



<p><em>Nessa frase aparentemente simples, formada por apenas sete palavras, há muita dor e problemas de profundidade imensurável.</em></p>



<p><em>Eu era muito pequena quando escutei esse pedido de uma colega, ainda no jardim de infância. Me soou estranho. Lembrei da cor que minha avó paterna Dair carregava em seu corpo. Da Vera, preciosidade da minha família. Do meu primo Thomas. Todas essas pessoas possuíam as mais diferentes e ricas tonalidades em suas peles e faziam parte de minha rotina e vida. Olhei pro meu estojo e tinha lápis branco, marrom, preto, vermelho. Então ela pegou o rosa claro. Não entendi.</em></p>



<p><em>Essa criança não nasceu com essa perspectiva, alguém a ensinou.</em></p>



<p><em>Pois bem: Sou Victória, brasileira, escritora, criadora e idealizadora do Caçadora de Histórias – O Projeto que tem como essência contar histórias de gente real, ajudando-as a ter um novo olhar sobre si e ver o que são protagonistas de suas jornadas. Mas hoje não vou contar a história de ninguém, não é meu lugar de fala. Saio cena e o holofote brilha em Mateus.</em></p>



<p><em>Mateus é gente de verdade, cheio de beleza e graça, tem arte pulsando em suas veias. Mateus é dono de uma voz potente e terna. Mateus é narrador. Mateus é brasileiro. Mateus é preto. Mateus é humano. E agora vai te contar a própria história. Vamos com ele?</em></p>



<div style="height:20px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<p>&#8220;Sabe, eu nem sempre fui preto. Quer dizer, eu sei que não fui uma criança preta. Na verdade, até hoje me pego questionando se sou mesmo preto. Seria mais fácil se isso dependesse só do que o espelho me diz.</p>



<p>Vamos do início:</p>



<p>O fato é que meus pais sempre trabalharam dobrado para que eu e minha irmã tivéssemos um ensino de boa qualidade. E, dentro de casa, os princípios eram de ouro. Cresci ouvindo e sabendo que eu não era pior que ninguém, e que tinha condições de ser bom, no que quer que fosse.</p>



<p>O trabalho sempre duro dos meus pais era pra pagar uma boa escola. Eu nunca notei que, por conta disso, sempre tive mais colegas e amigos brancos. Mesmo sem perceber, era bem comum eu ser o único preto no grupo. De fato, nunca estranhei essa desproporção das cores de pele. Éramos iguais em tudo &#8211; pelo menos para mim -, e essa visão se estendeu até a juventude.</p>



<p>Por fim, o esforço dos meus pais por educação funcionou. Isso porque hoje consigo ver o que faltou eles me ensinarem. Me ensinaram valor do trabalho, mas não que um preto como meu pai teria menos chances de emprego do que pessoas brancas como minha mãe. Me ensinaram que existe a violência lá fora, mas nunca me chamaram atenção para a cor da maioria das pessoas que viram notícia &#8211; ou das que não viram, melhor dizendo.</p>



<p>Sabe, eu nem sempre fui preto. Poxa, eu tive até uma adolescência, ou quase isso. Sem saber que gente como eu geralmente vira adulto mais cedo.&nbsp;</p>



<p>Sempre andei de cabeça erguida; às vezes, até demais. Sem saber da ferida que cada preta e cada preto como eu leva na autoestima.</p>



<p>Eu nem sempre fui preto. Fui para a universidade federal, estudei arte, filosofia; nunca apanhei da polícia, nem fui confundido com assaltante. Ainda.</p>



<p>Não, eu nem sempre fui preto. Preto é sinônimo de luta, luta que só mais tarde fui descobrir que existe e que mata.&nbsp;</p>



<p>Realmente, eu nem sempre fui preto. Preto é sinônimo de resistência.</p>



<p>Hoje, eu recupero o tempo perdido.&#8221;</p>



<div style="height:20px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<p><em>Eu e toda a equipe da Revista TRAMA agradecemos Mateus Guidinho pela honesta, íntegra, necessária e urgente participação na coluna “Caçadora de Histórias”, sentimos profundamente pela perda de João Alberto Freitas e nos solidarizamos á família.</em></p>



<p class="has-text-align-center"><em><strong>Vidas negras importam.</strong></em></p>



<div style="height:50px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



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<p><strong>Victória Vieira</strong> é escritora e idealizadora do projeto Caçadora de Histórias. Caçando e ouvindo histórias, vou escrevendo a tua com minhas palavras e te ajudando a ter um novo olhar sobre ela. Siga o projeto no <a href="http://instagram.com/cacadora.de.historias">Instagram</a>.</p>



<div style="height:50px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



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<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.artebodoque.com/revista-trama-edicao-impressa-edicao-001"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/82f24-impressa-2.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-11600" data-recalc-dims="1" /></a></figure>
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<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-large-font-size">Galeria: artistas pra seguir na quarentena</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.instagram.com/iuryborel/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2020/10/4079c-sketch-brasil-1.png2_.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-9943" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-medium-font-size"><em>Apoie pautas identitárias. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>
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		<title>QUANDO A FICÇÃO ENCONTRA A HISTÓRIA: ALIENS (1986) E A GUERRA DO VIETNÃ</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 22 Nov 2020 21:26:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 072]]></category>
		<category><![CDATA[Cinema de Ficção Científica]]></category>
		<category><![CDATA[Cinema dos anos 80]]></category>
		<category><![CDATA[Ficção e História]]></category>
		<category><![CDATA[Guerra do Vietnã]]></category>
		<category><![CDATA[Lucas Modaneze]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Lucas Modaneze</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-flow wp-block-group-is-layout-flow">
<p class="has-text-align-right"><em>“It’s game over, man! It&#8217;s game over!”</em><br><em>&#8211; Hudson (Bill Paxton),&nbsp; Aliens, 1986</em></p>



<p class="has-text-align-right"><em>“Wrong, terribly wrong”</em><br><em>&#8211; Robert McNamara (Secretário de Defesa dos EUA, 1961-67)</em></p>



<p>Para quem gosta de cinema ou aprecia ficção científica, não é muito difícil lembrar-se dos anos 1980 como uma era particularmente prolífica para o gênero. Naquela década, foram lançados vários filmes que ascenderam ao panteão de clássicos absolutos (como <em>E.T, O Extraterrestre</em> ou <em>De Volta Para o Futuro</em>) e vimos o nascimento de algumas franquias que até hoje &#8211; pra bem ou para mal &#8211; continuam a ser produzidas e chegam a render alguns milhões de bilheteria, como <em>Star Wars</em> (cujo primeiro filme é de 1977) e <em>Exterminador do Futuro</em>. Foi nessa década, também, que surgiram os dois filmes mais apreciados de uma das mais aclamadas franquias de <em>sci-fi</em>: <em>Alien, </em>de Ridley Scott (1979), e sua continuação, <em>Aliens</em>, de James Cameron (1986).</p>



<p>É comum &#8211; e até mesmo involuntário &#8211; classificarmos coisas entre boas e ruins, ainda que isso seja algo completamente subjetivo. As bandas que mais gostamos sempre são as melhores, os nossos autores favoritos são infalíveis, e somos tentados a nomear algo como “um clássico” muitas vezes baseados unicamente em nossa relação pessoal com a obra. Porém, por vezes, o “clássico” em questão realmente faz jus a esse título por seus próprios méritos; e <em>Aliens</em> é facilmente um desses exemplos. Indicado em sete categorias do <em>Academy Awards</em> &#8211; incluindo de melhor atriz para Sigourney Weaver &#8211; e levando duas estatuetas por sua edição sonora e efeitos especiais, o filme é considerado por muitos uma das melhores sequências de todos os tempos (sendo, em muitos casos, considerado superior ao original).</p>



<p><em>Alien</em>, de 1979, é uma obra de horror psicológico &#8211; uma pequena tripulação num ambiente escuro e claustrofóbico junto a um ser alienígena extremamente violento e mortal (que se tornou um dos maiores ícones da ficção científica e do horror); <em>Aliens</em> retém parte do marcante suspense do primeiro filme, mas Cameron leva sua obra a um outro patamar: um filme de ação construído com maestria (sendo considerado como um dos exemplos máximos de “como se fazer um filme de ação &#8211; e uma sequência”) que, apesar de possuir um tom completamente distinto do original, traz uma narrativa que complementa muito bem a obra anterior.</p>



<p>Ora, falar de cinema é complexo; ainda mais quando o autor em questão não é, nem de longe, nenhum especialista no assunto. Por essas e outras, não tenho a mínima intenção de me ater a aspectos técnicos. Pois bem, eu sou um historiador. E o que História tem a ver com um filme de ficção científica dos anos 1980? Muitas coisas &#8211; e nenhuma delas tem a ver com o fato de o filme ser “antigo”.</p>



<p>Por baixo da superfície da premissa de<em> Aliens</em>, existe muito mais do que um simples filme de ação/ficção científica com um toque de terror. Sua estrutura, sob muitos aspectos, é a de um filme de guerra &#8211; e inspirado em uma guerra bem específica.</p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong>“This time, it’s war”</strong>.</h4>



<p>Assim era anunciada a esperada sequência de <em>Alien, </em>que levou sete longos anos para chegar aos cinemas. Essa frase, presente em diversos posters promocionais, deixava no ar (assim como o título, no plural), que <em>Aliens </em>seria um tanto diferente da obra de Ridley Scott, e já dava uma dica sobre alguns dos principais aspectos do filme.</p>



<p><strong>Em virtualmente tudo, há um discurso.</strong></p>



<p>Pode ser bem óbvio, às vezes; em outras, nem tanto. Mas ele existe, e filmes são carregados de simbologias e discursos explícitos e implícitos.</p>



<p>Se você nunca assistiu <em>Aliens</em>, fique tranquilo. A sinopse é mais ou menos essa: depois de passar anos vagando pelo espaço após os eventos do primeiro filme, a protagonista Ellen Ripley (Sigourney Weaver) é encontrada, e o relato de sua história é completamente desacreditado. No entanto, a situação muda quando o contato com a colônia Hadley’s Hope, localizada no planetoide LV-426, visitado pela tripulação de Ripley anos antes, é perdido. Seria uma falha do transmissor? Ou algo mais sério, ligado à estranha e mortal forma de vida alienígena encontrada naquele planeta por Ripley e sua tripulação? Visando esclarecer a situação, um destacamento de “Fuzileiros Coloniais” (<em>Colonial Marines</em>) é enviado à colônia, fortemente armado e bem equipado, acompanhados por Ripley e por Peter Burke (Paul Reiser), um representante da megacorporação responsável pela construção de Hadley’s Hope, a Weyland-Yutani. Chegando lá, o grupo encontra as instalações externamente intactas; porém, não há nenhum sinal da população da colônia exceto por uma garota de 10 anos chamada Newt, que, visivelmente em choque, pouco revela sobre o que aconteceu &#8211; ainda que os corredores internos, cheios de barricadas, mostrem indícios de um intenso confronto. É aqui que a narrativa começa a crescer gradualmente até o clímax do filme.</p>



<p>Agora, vejamos alguns pontos.</p>



<p>Como dito anteriormente, aqui já é possível notar um rompimento considerável da sequência em relação a <em>Alien</em>: enquanto naquele filme a tripulação da nave&nbsp;Nostromo mal possui armas (seu arsenal é limitado a alguns lança chamas improvisados), aqui temos um pelotão de elite, fortemente armado e teoricamente preparado para lidar com qualquer situação como peça central da narrativa. O suspense, ainda presente em <em>Aliens, </em>é deixado em segundo plano dando lugar a tiros e explosões.</p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong>Certo, mas&#8230; E daí?</strong></h4>



<p>Vamos refletir um pouco sobre os <em>Colonial Marines.</em> Sua linguagem e sua postura remetem diretamente ao comportamento das tropas norte-americanas que lutaram na Guerra do Vietnã (1955-1975). E não somente sua linguagem faz alusão ao Vietnã: seu discurso também. Na primeira metade do filme, vemos uma tropa extremamente confiante, com um moral elevado, muitas vezes gabando-se das suas qualidades e dos seus armamentos ultra modernos, dispostos a enfrentar qualquer situação. Essa postura faz eco aos ideais da elite conservadora e dos setores militaristas da sociedade norte-americana, ideais que eram expressos nas políticas do então presidente republicano Ronald Reagan, que governava os Estados Unidos na época em que <em>Aliens</em> foi produzido. De acordo com o diretor, James Cameron:</p>



<p class="has-text-align-right"><em>“O próprio diálogo, o idioma, é basicamente a era do Vietnã. É o &#8220;discurso de guerra&#8221; americano mais contemporâneo a que eu tive acesso. Eu estudei como os soldados falavam no Vietnã, peguei certas partes específicas da terminologia e uma noção geral de como eles se expressam, e usei isso para o diálogo, para tentar fazer com que pareça um tipo realista de expedição militar, como oposto a uma alta tecnologia, futurista”</em></p>



<p>Por sua vez, os atores que interpretaram os soldados em <em>Aliens</em> foram submetidos a intensos treinamentos militares em preparação para as filmagens, sendo que seu líder tático (o sargento Apone), foi interpretado por Al Matthews &#8211; ele próprio um veterano desse conflito. Sua atuação, segundo os produtores do filme, foi muito baseada no improviso do ator baseado em sua experiência prévia em combate com o Corpo de Fuzileiros Navais. Interessante, não?</p>



<p>E essa é somente a ponta do iceberg (perdão, James Cameron).<a href="#_ftn1"><sup>[1]</sup></a></p>



<div style="height:20px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/6167e-luc2.jpg?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12787" data-recalc-dims="1" /><figcaption>O design visual dos <em>Colonial Marines</em> bem como sua postura e sua linguagem foram diretamente inspiradas pelas tropas norte-americanas no Vietnã (1965-73). No centro da imagem, o capitão Dwayne Hicks (Michael Biehn), um dos protagonistas do filme.</figcaption></figure>



<div style="height:20px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<h4 class="wp-block-heading"><strong>“We gotta nukes!”</strong></h4>



<p>Os ideais expressos pelos <em>Colonial Marines</em> são muito similares ao da elite militar dos Estados Unidos quando a escalada militar no Vietnã levou ao envio das primeiras tropas de combate em 1965 &#8211; ainda que envolvimento norte-americano na região da Indochina (composta pelo Vietnã, Laos e Camboja) tenha se iniciado ainda nos anos 1950, após a expulsão dos franceses em sua fracassada tentativa de reaver seu domínio colonial.</p>



<p>Lutando em maior parte contra guerrilhas (os Vietcong), cujo treinamento militar era básico e cujas armas eram limitadas a equipamentos leves (os embates com exército regular do Vietnã do Norte, uma força profissional, estava limitada nesse momento a escaramuças na fronteira), era fácil de entender a razão do otimismo de Washington. A crença generalizada era a de que a imensurável superioridade de poder de fogo e de recursos econômicos levariam, invariavelmente, a uma rápida vitória contra um inimigo tido como “inferior”. Não foi exatamente o que aconteceu, uma vez que tanto as guerrilhas comunistas quanto as forças regulares do Vietnã do Norte provaram ter uma imensa capacidade de adaptação e um dinamismo excepcional no campo de batalha, utilizando-se de táticas que anularam a superioridade material de destruição empregadas por norte-americanos e seus aliados (ainda que suas baixas tenham sido consideravelmente superiores). Apesar da opinião pública &#8211; que, em sua maioria, apoiou a intervenção a princípio -, a incapacidade de desferir golpes decisivos contra as forças comunistas e o fracasso em obter resultados práticos fez com que a insatisfação com a guerra atingisse níveis explosivos a partir de 1968. Esses fatores contribuíram para a retirada das tropas norte-americanas em 1973, e, dois anos, depois o Vietnã era reunificado sob um regime comunista.</p>



<p>Mas, afinal, o que <em>Aliens </em>tem a ver com isso &#8211; além da linguagem empregada por seus atores?</p>



<p>Assim como nas selvas do Vietnã, os todo-poderosos <em>Marines </em>se veem numa situação inexplicável: enfrentando um inimigo muito determinado e que não compreendem, num território hostil que desconhecem e com um comandante inexperiente (Gorman), eles são atacados &#8211; e praticamente dizimados. Durante toda a duração do filme, se constroi a tensão diante do inesperado: nunca se sabe quando ou onde os aliens irão surgir e atacar &#8211; num ambiente onde <em>eles </em>possuem conhecimento do território e não os soldados, de modo muito similar  luta no Vietnã, cujas tropas combatentes se viam numa situação semelhante. O próprio <em>modus operandi</em> dos aliens, avançando furtivamente, sempre em silêncio e apostando no elemento surpresa, também faz uma alusão às táticas empregadas pelos Vietcongs, fora o fato de utilizarem túneis de ventilação para se locomoverem (os guerrilheiros vietnamitas eram notadamente conhecidos por sua extensa e complexa rede de túneis).</p>



<div style="height:20px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<figure class="wp-block-gallery columns-2 is-cropped wp-block-gallery-1 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex"><ul class="blocks-gallery-grid"><li class="blocks-gallery-item"><figure><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/62922-luc3.jpg?w=950&#038;ssl=1" alt="" data-id="12788" data-link="https://bodoqueonline.art.blog/2020/11/22/quando-a-ficcao-encontra-a-historia-aliens-1986-e-a-guerra-do-vietna/luc3/#main" class="wp-image-12788" data-recalc-dims="1" /></figure></li><li class="blocks-gallery-item"><figure><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/9f975-luc4.jpg?w=950&#038;ssl=1" alt="" data-id="12789" data-link="https://bodoqueonline.art.blog/2020/11/22/quando-a-ficcao-encontra-a-historia-aliens-1986-e-a-guerra-do-vietna/luc4/#main" class="wp-image-12789" data-recalc-dims="1" /></figure></li></ul><figcaption class="blocks-gallery-caption">As referências ao Vietnã não param por aí: o design do&nbsp; “Dropship” (à direita) foi fortemente influenciado pelo AH-1 Cobra (esquerda) e pelo caça F-4 Phantom, ambos utilizados durante a Guerra do Vietnã; Detalhe para o cockpit de ambos os veículos.</figcaption></figure>



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<p>Toda a postura de “durões”, expressa pelas tropas no início do filme, caem por terra no primeiro encontro com os alienígenas (que vale ressaltar: <em>não são seres inteligentes e agem por instinto</em> &#8211; sendo, teoricamente, “inferiores” aos humanos). Diante dessa situação inesperada, incapazes de atingir o inimigo e com as perspectivas de vitória se esvaindo, os <em>marines</em> cogitam&nbsp;o uso de armas nucleares contra as criaturas &#8211; assim como Nixon ameaçou fazer (certamente, sem nenhuma intenção de cumprir) com o Vietnã.</p>



<p>&nbsp;Cameron afirma, a respeito dos <em>Colonial Marines</em>:</p>



<p class="has-text-align-right"><em>“Seu treinamento e tecnologia são inadequados para a situação, e isso pode ser visto como uma analogia à incapacidade do poder de fogo superior norte-americano em conquistar o inimigo invisível no Vietnã: muito poder de fogo e muito pouca sabedoria, não funcionou.”</em></p>



<p>O próprio envio dos Fuzileiros Coloniais, como o próprio nome diz, também remete a um “neoimperialismo”, uma vez que essa tropa não está prestando um serviço direto a um Estado &#8211; e, sim, age em defesa dos interesses de uma corporação, que demonstra um enorme desdém pela vida humana diante das possibilidades de lucrar com as criaturas alienígenas ao longo de toda a franquia <em>Alien</em>. A intervenção norte-americana no Vietnã não está diretamente ligada a aspectos econômicos, e sim políticos (ainda que esses fatores claramente se relacionem entre si), uma vez que havia o infundado temor que uma ascensão dos comunistas na Indochina levaria a um “efeito dominó” na Ásia, com diversos outros países seguindo o mesmo caminho (previsão completamente equivocada). Apesar disso, como a maioria das intervenções promovidas pelas grandes potências (principalmente pelos Estados Unidos após a Segunda Guerra Mundial), podemos observar também os resquícios dessa mesma mentalidade imperialista, a partir da qual intervenções diretas e indiretas eram praticadas em locais onde os “interesses nacionais” (das potências) estavam “ameaçados”. No caso de <em>Aliens</em>, os interesses são da Weyland-Yutani, uma megacorporação multinacional que, além de ter construído a colônia em LV-426, deseja ansiosamente ter em mãos um espécime das criaturas alienígenas para que possam ser estudadas por sua divisão de armas biológicas, pouco importando o custo em vidas para atingir tal objetivo.&nbsp; Seu slogan, “Construindo Mundos Melhores”, também remete ao discurso dos Estados Unidos e do bloco capitalista, em si, durante a Guerra Fria, contexto no qual o “mundo livre” deveria defender seus ideais e levar “a democracia” para outras nações “oprimidas”, dessa forma &#8220;construindo um mundo melhor” &#8211; por sua vez, União Soviética utilizava um discurso semelhante, ainda que com uma ideologia oposta, igualmente praticando intervenções armadas, por vezes violentas, e exercendo um profundo controle sobre determinados países de acordo com seus próprios interesses, notadamente no leste europeu.</p>



<p>Há também uma alusão a um fenômeno comum ocorrido durante a guerra. Uma das principais perguntas que o espectador faria a si mesmo seria: por qual razão Ripley voltou ao planeta, depois de todo o horror que ela vivenciou no primeiro filme? James Cameron aponta que esse era um dos principais desafios com o qual ele precisou lidar. Nesse sentido, vemos, no início de <em>Aliens</em>, uma Ripley que luta para lidar com seus traumas psicológicos, com recorrentes pesadelos e sofrendo de estresse pós-traumático, de maneira similar a soldados que estiveram em combate. Pensando nisso, a Guerra do Vietnã continuou sendo uma das fontes de inspiração. Segundo o diretor:</p>



<p class="has-text-align-right"><em>“Acho que algumas pessoas não entenderam o ponto principal. Eles acham que ela vai porque assim poderá conseguir o seu emprego de volta, mas não é o caso. Não há quantia de dinheiro que possa fazer isso. Um dos meus maiores problemas ao escrever o filme foi encontrar um motivo para ela voltar. Tinha que ser psicológico. Uma das coisas que me interessou é que há muitos soldados do Vietnã, que estiveram em situações de intenso combate, que se alistaram para voltar novamente. Porque eles tinham esses problemas psicológicos que precisavam resolver. É como um demônio interior a ser exorcizado. Essa foi uma boa metáfora para seu personagem.”</em></p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong>“Can I Dream?”</strong></h4>



<p>Durante a Guerra do Vietnã, um ditado que sintetizava a futilidade daquele conflito se tornou comum: “foi preciso destruir a aldeia para salvá-la”. Em <em>Aliens</em>, algo similar acontece, uma vez que a colônia de Hadley’s Hope é completamente destruída diante da impossibilidade de vencer as criaturas alienígenas. Apesar de seu estilo remeter em muito a um filme de guerra, <em>Aliens </em>continua a ser uma obra de ficção científica, recheada de ação e com um toque de terror, cujos temas ultrapassam em muito a alegoria à Guerra do Vietnã. Pode-se dizer, por exemplo, que entre seus principais temas está a maternidade, representada pela óbvia relação entre Ripley e Newt, mas também entre os alienígenas e a “Rainha” (a criatura responsável pela reprodução dos aliens). No entanto, a influência do acontecimento histórico da Guerra do Vietnã como uma fonte de inspiração para a obra de James Cameron é, além de significativa, uma peça central da narrativa.</p>



<p>A década de 1980 foi marcada pelas diferentes percepções e sentimentos a respeito daquela guerra, terminada em 1975. Não a toa, nesse mesmo período temos o surgimento de diversos filmes relacionados ao Vietnã ou inspirados pela sua experiência:</p>



<p class="has-text-align-right"><em>“Como já dissemos, os anos oitenta testemunharam um projeto ostensivo de desmitificação em oposição à amnésia histórica dos anos 70, que tendia a mostrar a grandeza do mito da glória e heroísmo americano, bem como a visão do soldado americano como um “salvador” que preservaria a liberdade e democracia em todo o mundo” (LLÁCER, ENJUTO)</em></p>



<p>Nessa época, vão surgir os épicos de ação com a introdução dos “super soldados” como Rambo (Sylvester Stallone) e Braddock (Chuck Norris), cujas tramas estão direta ou indiretamente ligada ao Vietnã com um claro discurso pró-guerra. Surgem, também, outras obras que questionam a moralidade (ou a ausência dela) nas ações empreendidas naquele contexto. Na outra ponta, temos <em>Apocalypse Now, </em>de Francis Ford Coppola; <em>Platoon</em>, de Oliver Stone; e <em>Full Metal Jacket </em>(Nascido Para Matar), de Stanley Kubrick, lançados em 1979, 1986 e 1987 respectivamente, que tornaram-se grandes clássicos do gênero e que tinham como intuito mostrar a guerra de maneira mais “realista”.</p>



<p>Não é coincidência que <em>Aliens </em>tenha sido produzido nesse mesmo período, combinando o prolífico gênero da ficção científica oitentista com a temática e a linguagem dos filmes de guerra que também marcaram aquela década. Também não é coincidência que essas obras tenham surgido nesse momento, uma vez que, a partir da política externa agressiva colocada em prática por Ronald Reagan, os EUA voltaram a realizar sucessivas intervenções militares (Granada, Líbia, Panamá &#8211; o último já sob a era Bush) no mesmo período. O cinema, por sua vez, abre espaço para ambos os discursos: seja a legitimação de determinadas ações, ou a crítica às mesmas.</p>



<p>Aos que nunca assistiram <em>Aliens</em> (ou qualquer outro filme da franquia), vale a pena tirar um tempo para ver pelo menos os dois primeiros filmes. Aos que já assistiram, talvez seja o momento de rever essa obra, quem sabe com um olhar um pouco diferente, percebendo alguns detalhes que talvez tenham passado despercebidos. E a todos que leram esse texto, é sempre bom se lembrar que <em>todos </em>os filmes possuem discursos, muitos deles implícitos, e <strong>observar esses discursos nos ajuda a compreender não somente a obra em questão, mas também o período em que foi produzida, quem a produziu e com quais objetivos</strong>.<br><br>São essas algumas das perguntas que nós, historiadores, fazemos a “quase tudo” à nossa volta; inclusive quando se trata de cinema.</p>



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<p><a href="#_ftnref1"><sup>[1]</sup></a> “Titanic”, de 1997, também é uma obra de Cameron.</p>



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<p><strong>Referências</strong></p>



<p><strong>“Coping Strategies: Three Decades of Vietnam War in Hollywood”</strong> EUSEBIO V. LLÁCER; ESTHER ENJUTO</p>



<p><strong>“<a href="https://oxfordre.com/literature/view/10.1093/acrefore/9780190201098.001.0001/acrefore-9780190201098-e-785">The Vietnam War in Film</a>”</strong>. Acesso: 01/11/2020.</p>



<p><strong>“<a href="https://the-take.com/read/is-james-cameronas-aliens-really-an-allegory-of-the-vietnam-war">Is James Cameron’s “Aliens” Really An Allegory Of The Vietnam War?</a>”</strong>. Acesso: 01/11/2020.</p>



<p><strong>&#8220;<a href="https://www.lofficier.com/cameron.htm">James Cameron on Aliens</a>&#8220;</strong>. Acesso: 01/11/2020.</p>



<p><strong>“<a href="http://www2.iath.virginia.edu/sixties/HTML_docs/Texts/Reviews/Spark_Aliens.html">Science Fiction: This Time It’s War!</a>”. </strong>Acesso: 01/11/2020.</p>



<p><strong>“<a href="https://www.rogerebert.com/far-flung-correspondents/why-aliens-is-even-better-than-alien">Why Aliens&nbsp; is even better than Alien</a>”. </strong>Acesso: 07/11/2020.</p>



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<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:30% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/d8baa-auor.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-11223 size-full" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p><strong>Lucas Modaneze </strong>é graduado em História pela Universidade Cidade de São Paulo (UNICID) e tem como área de interesse a História Contemporânea, com ênfase nos estudos sobre as Guerras Mundiais. Atua no Laboratório de Estudos e Pesquisas em História (LEPH) da mesma instituição e é um dos organizadores do site <a href="http://atavernadobloch.wordpress.com">Taverna do Bloch</a>.</p>
</div></div>



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<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-large-font-size">Galeria: artistas pra seguir na quarentena</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.instagram.com/luis_vivanco/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/c3625-begaleria4.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-10720" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-medium-font-size"><em><em>Apoie os artistas nessa quarentena. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></em></p>
</div></div>



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<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.artebodoque.com/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/747d3-publi-bodoque3.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-5017" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



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		<title>ONU lança campanha nos 16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra as Mulheres</title>
		<link>https://revistatrama.artebodoque.com/2020/11/22/campanha-ativismo-fim-violencia-mulheres/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 22 Nov 2020 18:25:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 072]]></category>
		<category><![CDATA[ONU Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[Violência contra a Mulher]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: ONU Brasil</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="has-text-align-center"><em>A Organização das Nações Unidas no Brasil dará visibilidade às mulheres e meninas que enfrentaram a violência antes e durante a pandemia com o lançamento da campanha nacional&nbsp;Onde Você Está que Não me Vê?, com o conceito Somos Nossa Existência. A ação será implementada nos 16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra as Mulheres, entre 20 de novembro a 10 de dezembro.</em><br><em><br>Ao longo deste período, a ONU Brasil destacará o processo de invisibilização e violência que as mulheres e meninas têm enfrentado antes e durante a pandemia da COVID&nbsp;19. A campanha é inspirada na canção “O que se Cala”, composição de Douglas Germano e&nbsp;interpretação de Elza Soares.</em></p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/9af5d-banner-ilustracao-site-01-1.jpg?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12752" data-recalc-dims="1" /><figcaption>Campanha nacional pelo fim da violência contra as mulheres<br>Foto | ONU Mulheres</figcaption></figure>



<p>A Organização das Nações Unidas no Brasil dará visibilidade às mulheres e meninas que enfrentaram a violência antes e durante a pandemia com o lançamento da campanha nacional&nbsp;<em>Onde Você Está que Não me Vê?</em>, com o conceito Somos Nossa Existência. A<a href="http://www.onumulheres.org.br/noticias/nacoes-unidas-visibilizam-lideranca-das-mulheres-em-campanha-dos-16-dias-de-ativismo-pelo-fim-da-violencia-contra-as-mulheres/">&nbsp;ação&nbsp;</a>será implementada nos 16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra as Mulheres, entre 20 de novembro a 10 de dezembro.</p>



<p>Ao longo deste período, a ONU Brasil destacará o processo de invisibilização e violência que as mulheres e meninas têm enfrentado antes e durante a pandemia da COVID&nbsp;19. A campanha é inspirada na canção “O que se Cala”, composição de Douglas Germano e&nbsp;interpretação de Elza Soares.</p>



<p>Mulheres das cinco regiões do Brasil e que defendem diferentes causas sociais compõem a narrativa da campanha, que traz o foco para a diversidade das mulheres, seu lugar de fala, território, assim como a prevenção e eliminação de diferentes formas de violências, especialmente agravadas pela pandemia da COVID-19. São visibilizadas lideranças femininas de mobilizações sociais, mulheres ativistas, defensoras de direitos, que estão na linha de frente dos movimentos, nos sindicatos, nas organizações populares, nos espaços políticos, na academia, nos campos, nas florestas e nas águas. Mulheres que agem pelo direito de todas, que educam, cuidam e questionam:&nbsp;<em>Onde Você Está Que Não Me Vê?</em></p>



<p>Neste ano de 2020, muitos alertas sinalizaram que, por trás da emergência sanitária trazida pela COVID-19, estava se agravando uma antiga e silenciosa pandemia:&nbsp;a violência contra mulheres e meninas. Foi neste contexto que o secretário-geral da ONU, António Guterres, lançou a Estratégia de Engajamento Político sobre Violência Baseada em Gênero e COVID. Nela, Guterres convoca todas as instituições públicas e privadas, organizações da sociedade civil, movimento de mulheres, academia, mídia, pessoas comuns, para pensar e agir estrategicamente pelo fim da&nbsp;violência&nbsp;contra as mulheres e meninas.</p>



<p>A abordagem tática do documento vê como principais agentes as pessoas com poder de decisão, o público e a sociedade civil organizada, e as instituições capazes de produzir dados e evidências para compreender profundamente o fenômeno. A visão estratégica, por sua vez, busca convocar estes agentes para realizar quatro grandes objetivos: financiar,&nbsp;prevenir,&nbsp;responder e&nbsp;coletar dados. Financiar as políticas públicas e a sociedade civil especializada; prevenir a violência através de transformações nas normas sociais; oferecer respostas concretas para os casos de violência através de serviços, acolhimento e normas; e coletar e analisar dados de forma sistemática.</p>



<p>Os 16 dias de ativismo &#8211; de 20 de novembro a 10 de dezembro -, são o início de um processo mais longo, que se estenderá por todo 2021, para avançar nesta estratégia de engajamento social e de parcerias para fazer avançar as políticas de prevenção e de enfrentamento à violência contra as mulheres.&nbsp;A mobilização internacional foi reestruturada de forma a se alinhar e servir como ferramenta para concretizar a visão e implementar as linhas de ação compartilhadas com líderes globais por meio da Estratégia.</p>



<p><strong>Como participar:&nbsp;</strong>Junte-se à ONU! Compartilhe suas fotos, mensagens e vídeos mostrando como você está participando da campanha nas plataformas digitais, redes sociais e internet usando as hashtags&nbsp; #16dias #OndeVocêEstáQueNãoMeVê? #SomosNossaExistência #UNASE #PinteOMundoDeLaranja. Além disto, marque nas mídias sociais&nbsp;@ONUMulheresBR @SayNO_UNiTE @UNWomen.</p>



<p>Para facilitar a participação ativa na campanha, a ONU Mulheres disponibilizará o material para produção e difusão da campanha. Para acessá-lo, os contatos devem ser feitos pelo e-mail&nbsp;<a href="mailto:onumulheres@unwomen.org">onumulheres@unwomen.org</a></p>



<p><strong>Informações para a Imprensa:</strong>&nbsp;Assessoria de Comunicação da ONU Mulheres Brasil</p>



<p>Isabel Clavelin –&nbsp;<a href="mailto:isabel.clavelin@unwomen.org">isabel.clavelin@unwomen.org</a>&nbsp;(61) 98175 6315</p>



<p>Marcela Ribeiro –&nbsp;<a href="mailto:marcela.ribeiro@unwomen.org">marcela.ribeiro@unwomen.org</a>&nbsp;(61) 98162 0788</p>



<p></p>



<p><strong><em>Matéria originalmente publicada em <a href="https://brasil.un.org/pt-br/101669-onu-lanca-campanha-nos-16-dias-de-ativismo-pelo-fim-da-violencia-contra-mulheres">Nações Unidas Brasil</a></em> <em>em 20/11/2020 &#8211; Atualizado em 20/11/2020.</em></strong></p>



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<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:19% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/982c5-onubio.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-8891" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p><strong><strong>A ONU (Organização das Nações Unidas) </strong></strong>é uma organização internacional formada por países que se reuniram voluntariamente para trabalhar pela paz e o desenvolvimento mundiais.</p>
</div></div>



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<figure class="wp-block-image size-large is-style-default"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/fdf84-assinatura-4.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-11677" data-recalc-dims="1" /></figure>





<hr class="wp-block-separator is-style-wide" />



<div class="wp-block-columns is-layout-flex wp-container-core-columns-is-layout-3 wp-block-columns-is-layout-flex">
<div class="wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow">
<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.artebodoque.com"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/68661-loja-2.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-11586" data-recalc-dims="1" /></a></figure>
</div>



<div class="wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow">
<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.artebodoque.com/revista-trama-edicao-impressa-edicao-001"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/dae20-impressa-1.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-11587" data-recalc-dims="1" /></a></figure>
</div>
</div>



<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-large-font-size">Galeria: artistas para seguir nessa quarentena</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.instagram.com/tuncaliozge"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/43ef4-fotos-carol-copy.jpg9_-1021x1024.jpg?resize=950%2C953&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-11393" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-medium-font-size"><em>Apoie artistas nessa quarentena. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>
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		<title>Herança &#8211; Capítulo 8: A Proposta</title>
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		<pubDate>Sun, 22 Nov 2020 21:24:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 072]]></category>
		<category><![CDATA[Herança]]></category>
		<category><![CDATA[Darlan Lula]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Romance]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Darlan Lula</p>
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<p>Quando ele girou a chave na fechadura da porta, ela já estava na cama, de bruços, com <em>lingerie</em> provocante e cinta-liga, transformando aquele espaço em um depósito de especiaria rara. Sem deixar ao menos que ele atravessasse a cozinha do <em>flat</em> alugado pra ela, Alciléia já perguntava: “Quem é o meu cachorrão?” </p>



<p>Então ele parava, erguia o queixo para o alto e soltava um uivado estrondoso e grave, ecoando sua posse pelos cantos do apartamento. Ela estava especialmente radiante àquele dia: os cabelos volumosos na altura dos seios, loiros como os raios do Sol que serpenteavam na janela do quarto do lado de fora; as sobrancelhas firmes, bem delineadas e grossas, demonstrando personalidade de <em>femme</em> <em>fatale</em>; seios à proporção do corpo, auréolas rosadas e intumescidas por dentro do sutiã vermelho sangue meia-taça rendado e transparente; cintura como que esculpida por Rodin nas suas inspirações mais divinas; coxas torneadas e femininas; suaves pelos percorrendo suas carnes, como se cristais cobrissem seu corpo nas regiões mais provocantes e desejadas; e uma calcinha discreta deixava entrever seus glúteos num horizonte infinito de possibilidades.</p>



<p>&#8211; Nossa! Como você está linda.</p>



<p>&#8211; Vem cá, meu cachorrão. Estava morrendo de saudades.</p>



<p>Ele se debruçou sobre ela e começou a beijar o seu corpo, a começar pelos pés. Alciléia fechou os olhos de desejo e mordeu o canto inferior direito do lábio. Rubens sabia conquistar uma mulher, principalmente quando a enchia de mimos. Aquela, ele queria só para si &#8211; pelo menos, era o que pensava quando resolveu tirá-la da vida e alojá-la num <em>flat</em> localizado no centro da cidade. Iriam completar um ano naquela vida clandestina e cheia de luxúria. </p>



<p>Não era o tipo de cara que chamava atenção. Já com seus cabelos grisalhos, pose de galã, mas pinta de meia idade, ele se esforçava para evitar ainda o resquício de um abdômen saliente que insistia em não abandoná-lo. No entanto, na cama, compensava com seu jeito atrevido de ser e suas inúmeras fantasias que espalhava pelo corpo e pela mente de sua ninfeta insaciável.</p>



<p>&#8211; Que delícia, amor. Hoje você se superou. Me deixou louquinha.</p>



<p>Ela se jogou sobre o corpo nu do seu homem e lhe deu um beijo demorado. O quarto era um misto de suor e perfume, de líquidos cúmplices que escorreriam pelo lençol, misturando-se aos corpos jogados e cansados sobre o ponteiro daquela tarde de fevereiro.</p>



<p>&#8211; Minha linda – ele pousou a cabeça em seu peito –, você se lembra daquele papo que nós tivemos mês passado? Aquele sobre apimentarmos um pouco a relação?</p>



<p>&#8211; Sim&#8230; lembro, sim. O que foi? Achou quem procurava? – Ela ergueu a cabeça num sorriso discreto e lascivo.</p>



<p>Ele a puxou para si e disse sussurrando em seu ouvido: “Você vai achar o garoto uma delícia&#8230;”.</p>



<p>&#8211; Quantos anos, Cachorrão?</p>



<p>&#8211; 19 aninhos.</p>



<p>Ela se animou, ajoelhou-se na cama batendo palmas com as pontas dos dedos.</p>



<p>&#8211; E quando vamos brincar com ele?</p>



<p>&#8211; Calma, minha cadelinha. Você estava reclamando que não ia à festa alguma, que eu sempre a deixo trancada aqui! Agora surge uma oportunidade. Vocês dois irão juntos na festa de Carnaval do Clube, no sábado.</p>



<p>&#8211; Ai, que delícia. E como ele é, hein?</p>



<p>&#8211; Você verá. Garanto que irá gostar. Mas antes tem que ser uma boa e comportada menina.</p>



<p>Disparou um tapa na bunda de sua amante e passaram a tarde entre afagos e devassidões.</p>



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<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:30% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/94898-darlan_png.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-10407" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p><strong><strong>Darlan Lula </strong></strong>é doutor em Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense. Escritor, autor de cinco livros, entre prosa e poesia.&nbsp;<a href="http://www.darlanlula.com.br/">www.darlanlula.com.br</a></p>
</div></div>



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<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-flow wp-block-group-is-layout-flow">
<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-large-font-size">Galeria: artistas pra seguir na quarentena</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.instagram.com/luis_vivanco/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2020/08/75260-galerialuis1-1021x1024-1.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-10529" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-medium-font-size"><em><em><em>Apoie os artistas nessa quarentena. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></em></em></p>
</div></div>



<hr class="wp-block-separator" />



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		<title>Crônica de um hipocondríaco em meio à crise</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 22 Nov 2020 21:23:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 072]]></category>
		<category><![CDATA[Coronavírus]]></category>
		<category><![CDATA[crônica]]></category>
		<category><![CDATA[Hipocondria]]></category>
		<category><![CDATA[Matheus Mendes]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Matheus Mendes</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Antes de começar, seria preciso dizer que isso não é exatamente uma crônica, mas sim um diário &#8211; embora crônicas e diários íntimos tenham curiosamente se misturado nesses dias. Seria preciso dizer, também, que isso não é um diário de verdade, porque eu não escrevo diários. Sou preguiçoso e desinteressante. Meus dias se resumiriam a duas linhas: “hoje acordei cansado. Tomei café. Almocei e, depois de lavar as louças, liguei a tevê e assim fiquei até que meus olhos ardessem. Quando vi, já eram nove horas da noite.” Assim, se digo que se trata de um diário, é porque me falta a habilidade necessária para escrever uma crônica. A forma crua do diário, pelo menos, reduz as exigências de estilo e engenho, porque não se escreve para ninguém (pelo menos, não aparentemente). Um diário, nesse sentido, foi a forma que encontrei para reduzir as preocupações delirantes que envolvem normalmente a arte literária. E, ao final, acabei percebendo que escrevera uma crônica, o que não deixa de ser interessante. Enfim.</p>



<p> O fato mesmo é que, como muitos de nós, eu estou só há um mês. Ou melhor, estou trancado em casa, eu e minha mãe, sem a perspectiva de ver qualquer outra pessoa. Nem o resto da família, nem amigos, nem namorada (a qual vejo de mês em mês, pois moramos em cidades diferentes). Na realidade, estou assim há sete meses, agora me dou conta. O mundo lá fora parece apenas uma bela imagem para a proteção da tela de um computador.</p>



<p>Eventualmente, preciso sair e ir à rua. Mas, quando isso acontece, é de uma forma tão rápida que parece não ter ocorrido. Eu saio de casa, tomo o rumo de meu destino e não me ligo a nada que possa me interessar no meio do caminho. Assim, quando volto, parece que não saí; mas, sim, que me teletransportei de um ponto ao outro dessa cidade, e que a carga de nervosismo adquirida no caminho por ver que a maior parte da gente se lixa para o que ocorre é o efeito colateral da minha mágica locomoção. E é então que, depois de retirar a máscara, higienizar tudo o que comprei na rua com doses excessivas de álcool, lavar as mãos milimetricamente por vinte segundos, retirar a roupa e ir praticamente nu para o banheiro, ligo o chuveiro e posso tomar banho &#8211; o que é parte essencial para retirar os possíveis coronavírus instalados em meus cabelos (os quais, aliás, só crescem, porque a barbearia é um desses lugares terminantemente proibidos pra mim).</p>



<p>Então, aí, já percebo que minha respiração retorna a ritmos menos sincopados e se torna mais eficiente. Em pouco tempo, já me sinto melhor, porque me sinto protegido. Sinto-me melhor porque a casa se tornou o lugar mais seguro nesses últimos meses. A rua, que nós, brasileiros, tanto amamos, se antes era perigosa pela possibilidade sempre presente da violência urbana, agora representa o lugar dessa ameaça ominosa de um vírus desconhecido. Ele pode estar em qualquer lugar; logo, ele está em toda parte. Pelo menos é assim que enxergo, em parte por compartilhar dessa condição levemente situada entre a paranoia e a histeria a que chamamos de hipocondria e, em parte, por ser metade verdade. Porque se o vírus é algo que não se vê e se é algo de que não se tem conhecimento algum, a única forma de falar sobre isso é paranoicamente, não é mesmo? Caso o contrário, deve se calar até que a ciência supere o estado de paranoia que governa a sua iniciativa &#8211; o que, normalmente, ninguém faz. Mas confesso que a hipocondria agrava a minha situação.</p>



<p class="has-text-align-center">(Evidentemente)</p>



<p>Dois dias depois da minha saída, começo a manifestar exatamente todos os sintomas da covid e, por mais que eu tenha consciência de que tais sintomas são criações da minha cabeça (porque eu claramente havia tomado mais que todos os cuidados), não abro mão de me queixar com figuras que, ou representam uma autoridade médica, ou uma instância afetiva, como bem sabe minha namorada e família. Mas não é possível evitar, não consigo. Não se trata de uma escolha. De repente, quando vejo, já enviei dez mensagens pelo <em>whatsapp</em>.</p>



<p>No outro dia, como deve de ser, já não há mais sintomas, porque afortunadamente essas pessoas receberam-me bem. Às vezes com ceticismo, mas bem. E, no fundo, o que desejo como hipocondríaco é que alguém dê um contorno a esse sentimento difuso que sinto no corpo, esse sentimento patogenicamente prometeico que possui a estranha capacidade de se transformar nas mais exóticas doenças.</p>



<p>As pessoas costumam menosprezar as queixas dos hipocondríacos; muitas vezes, desconhecendo essa condição que é bem comum na maior parte da população, mas que não deixa de gerar sofrimento e de levar a ações realmente arriscadas, como tomar remédios sem receita, ou ir à hospitais sem necessidade – o que, hoje em dia, pode aumentar nossa exposição ao coronavírus. De qualquer forma, o menosprezo só acentua a queixa. Então, se o objetivo é se livrar de um hipocondríaco, apenas o ouça: é simples.</p>



<p>No meu caso, com sorte, ficarei mais um tempo sem sair &#8211; o que, se é ruim para minha saúde afetiva, livra-me por algum tempo da dúvida hipocondríaca. </p>



<p>(Quer dizer, isso se não começo a simular infartos por estar demasiadamente sedentário).</p>



<hr class="wp-block-separator" />



<p><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong>Matheus Mendes </strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong>é mestre em Ciência Política pelo Instituto de Estudos Sociais e Políticos da UERJ e leitor contumaz de ficção.</p>



<hr class="wp-block-separator" />



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/fdf84-assinatura-4.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-11677" data-recalc-dims="1" /></figure>





<hr class="wp-block-separator is-style-wide" />



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</div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-flow wp-block-group-is-layout-flow">
<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-large-font-size">Galeria: artistas para seguir na quarentena</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.instagram.com/iambrendamarques/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2020/10/8f5b0-begaleria8-1.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-10819" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-medium-font-size"><em>Apoie pautas identitárias. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>
</div></div>



<hr class="wp-block-separator" />



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/9acee-publi-ediccca7acc83o-impressa-1.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-5668" data-recalc-dims="1" /></figure>





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		<title>Cinética-Silêncio</title>
		<link>https://revistatrama.artebodoque.com/2020/11/22/cinetica-silencio/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 22 Nov 2020 21:22:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 072]]></category>
		<category><![CDATA[Carol Cadinelli]]></category>
		<category><![CDATA[Editorial]]></category>
		<category><![CDATA[Igreja Católica]]></category>
		<category><![CDATA[LGBT]]></category>
		<category><![CDATA[União Civil entre Homossexuais]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: Carol Cadinelli</p>
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<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-flow wp-block-group-is-layout-flow">
<p>São uma da manhã de uma quarta-feira. Quinta-feira. Eu me permiti uma taça de vinho que se tornaram seis (aqui eu troquei esse número algumas vezes por não ter certeza, mas talvez tenham sido mais. A garrafa estava pra cima da metade e não acabou, mas é que a gente aqui toma fundinho de taça). Eu cozinhei pra mim. Vi o piloto de uma série enquanto jantava, e revi enquanto recolhia as coisas porque achei que não tinha apreendido o suficiente. Em algum momento do meu estado ébrio, me percebi dançando no meio da cozinha. Um riff na cabeça, de uma das músicas que tocam no episódio. Trinta segundos repetidos vinte vezes, foram dez minutos rodando distraída com os meus pensamentos.</p>



<p>Eu me orgulho de ter uma memória impecável, e tendo a me gabar disso pras pessoas no meu entorno. Durante os dez minutos rodopiando na cozinha, apesar de sozinha, eu não estava realmente só, e foi no momento que percebi a solidão é que realmente saí do devaneio. Sabe, ter uma memória impecável é excelente, mas atiça saudades que às vezes a gente até esquece que tinha.&nbsp;</p>



<p>A data era vinte e oito de janeiro, dois anos atrás, pleno pré-carnaval. Foi a primeira vez na vida que eu dancei sem música. Eu, que canto desde que me entendo por gente, sempre botei som nos meus passos, e quando você me pegou pela mão naquele dia, confesso que me falhou o ritmo. Já tínhamos dançado antes, exatos vinte e oito dias antes, mas naquela vez tinha sido provocação minha. “Cajuína”, a música, escolha tua. Dessa vez, porém, só tinha chuva. E a gente debaixo dela. Um burburinho das pessoas que se escondiam por debaixo das poucas barracas espalhadas pela praça, o teu braço em torno da minha cintura e eu sem saber muito o que fazer. Eu sempre fui desafiante, apesar de me render fácil. Sempre confiei na música, no ritmo, na melodia, e não na pessoa que dançava comigo.</p>



<p>Pois bem, desta vez, nada de música. Nem um murmúrio sequer. Apenas a pressão do teu corpo contra o meu e a energia cinética que vinha dessa união. De alguma forma, a rádio que tocava em cada cabeça era a mesma. Nossa segunda dança foi orgânica e silenciosa, como flor que brota. Demos início a uma tradição, ali, que perdurou por muitos meses, até a sua partida.</p>



<p>Hoje, em minha embriaguez, fui levada de volta às nossas danças silenciosas. Em meio a tanto ruído entre nós nos últimos tempos, não tivemos oportunidade de fazer isso de novo. De toda forma, tenho na memória a sensação de estar nos teus braços, de te ter nos meus braços, e de confiarmos no universo guiando nossos passos. Por vezes, eles acabavam em tombos ou trombadas em móveis, mas mesmo assim, era divertido. Tudo era divertido. E que bom que tem voltado a ser.</p>



<p class="has-text-align-right"><br><em>5 de Junho de 2018</em><br></p>



<hr class="wp-block-separator" />



<p><strong>Carol Cadinelli</strong> é jornalista, apaixonada por palavras. Escreve, edita, revisa, traduz, atua e, vez ou outra, fotografa. Atualmente, é editora na Trama e escritora nas horas vagas.</p>
</div></div>



<hr class="wp-block-separator" />



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-flow wp-block-group-is-layout-flow">
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<hr class="wp-block-separator is-style-wide" />



<div class="wp-block-columns is-layout-flex wp-container-core-columns-is-layout-5 wp-block-columns-is-layout-flex">
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</div>



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</div>
</div>



<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-large-font-size">Galeria: artistas pra seguir na quarentena</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.instagram.com/affnana/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/43ef4-fotos-carol-copy.jpg8_-1021x1024.jpg?resize=950%2C953&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-11314" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-medium-font-size"><em>Apoie artistas nessa quarentena. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>
</div></div>
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		<title>Mulheres que correm com os bolos</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 22 Nov 2020 21:21:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 072]]></category>
		<category><![CDATA[crônica]]></category>
		<category><![CDATA[Ingryd Cordeiro]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Ingryd Cordeiro</p>
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<p id="47d9">Apesar de ter morado numa casa cheia de gente durante toda minha vida, desde cedo fui acostumada a fazer muitas coisas sozinha. Ainda criança, não media esforços para inventar minhas próprias brincadeiras e diálogos. Na escola, optava por fazer meus trabalhos individualmente e adorava ouvir minhas bandas favoritas com a liberdade de voltar as músicas sem me preocupar com o entretenimento alheio. Como esperado, agora já com um pézinho na vida adulta, não é diferente. Costumo viajar, ler e cozinhar na mais completa solidão e me divirto muito durante esses processos. Só existe uma tarefa que não consigo adaptar à minha sozinhez: fazer refeições.</p>



<p id="efe6">Isso porque alguma coisa acontece no meu coração que só quando sirvo o prato de almoço e me sento à mesa estranho a solidão. Quem me vê cantando a plenos pulmões “só, sozinhaAAa! Eu sou sozinha, sim. Eu mesma faço um par comigo” da Alice Caymmi na hora do banho, nem imagina que sempre que vou comer alguma coisa, tento dar um jeito de arranjar algo que me distraia e me faça companhia.</p>



<p id="978a">Hoje, a minha companhia é essa crônica. Escrevendo aqui na mesa da varanda enquanto lancho um pastel folhado e tomo suco de cupuaçu, resolvi deixar esse pequeno tutorial para que você consiga ludibriar o desconforto de se sentir só. Bem, se você for atrasado como eu, talvez nem perceba que está sozinho para tomar o seu café da manhã; imagino que usará todo esse tempo para mastigar o misto quente enquanto caminha pela casa e arruma coisas que precisavam ter sido feitas no dia anterior.</p>



<p id="5d5e">Porém, o almoço, esse sim é triste quando não há companhia para conversar amenidades e descansar a cabeça. Já que tenho experiência no assunto, sugiro que, quando esse evento lhe ocorrer, ligue uma música e, caso necessite de distração visual, dê o play em algum vídeo no YouTube, como o Lirinha declamando cordéis do Chico Pedrosa (poucas coisas nesse mundo são mais legais que isso).</p>



<p id="c8ae">Acredito que você também não terá tanto problema no lanche da tarde, já que ele não demanda um tempo considerável e logo você poderá voltar aos afazeres do dia &#8211; a não ser que seja um bolo de cenoura com bastante cobertura de chocolate e o clima esteja chuvoso. Nesse caso, você terá grandes chances de sentir saudade do seu avô. Tome cuidado. Por último, quando for jantar, recomendo que ouça algum podcast bem humorado para ter aquele momento em que a companhia está lhe contando como foi a semana ou o que aconteceu no mundo. E aí, mais tarde, já estará pronta para ir dormir sozinha.</p>



<hr class="wp-block-separator" />



<p><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong>Ingryd Cordeiro</strong></strong>&nbsp;</strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong>é paraense, estuda Direito e escreve crônicas para publicar em&nbsp;<a href="http://medium.com/@ingrydcordeiro_">seu perfil do Medium</a>.</p>



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<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/fdf84-assinatura-4.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-11677" data-recalc-dims="1" /></figure>





<hr class="wp-block-separator is-style-wide" />



<div class="wp-block-columns is-layout-flex wp-container-core-columns-is-layout-6 wp-block-columns-is-layout-flex">
<div class="wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow">
<figure class="wp-block-image size-large"><a href="www.artebodoque.com"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/073d7-loja-1.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-11574" data-recalc-dims="1" /></a></figure>
</div>



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<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.artebodoque.com/revista-trama-edicao-impressa-edicao-001"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/72b80-impressa-3.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-11608" data-recalc-dims="1" /></a></figure>
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<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-flow wp-block-group-is-layout-flow">
<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-large-font-size">Galeria: artistas para seguir na quarentena</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.instagram.com/iambrendamarques/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2020/10/ef7bc-begaleria8-1.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-10819" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-medium-font-size"><em>Apoie pautas identitárias. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>
</div></div>



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<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/9acee-publi-ediccca7acc83o-impressa-1.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-5668" data-recalc-dims="1" /></figure>





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<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.artebodoque.com/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/747d3-publi-bodoque3.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-5017" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background">Clique na imagem para acessar a loja virtual da Bodoque!</p>
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		<title>Escada</title>
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		<pubDate>Sun, 22 Nov 2020 21:20:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 072]]></category>
		<category><![CDATA[Poésis]]></category>
		<category><![CDATA[Gabriel Garcia]]></category>
		<category><![CDATA[poema]]></category>
		<category><![CDATA[poesia]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: Gabriel Garcia</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<pre class="wp-block-verse">Os anjos fluem céleres pela sua estrada
Consolam a Jacob em fuga da confrontação
O sonho angelical traz alívio ao coração
Prosperidade é a promessa que desce da escada

O bombeiro analisa a situação complicada
Arde a casa antiga em descontrolado fogo
As chamas prendem no alto o pedagogo
Para salvá-lo é preciso recorrer à escada

O cardiopata sobrevivia à terceira parada
Seu débil coração falhava constantemente
Resolvera por exercitar-se regularmente
Evitava o elevador e subia pela escada

A cada bênção pela sua neta conquistada
Paga o sacrifício com fervor incondicional
Cumpre todo o cortejo do sagrado ritual
Vai de joelhos a subir a íngreme escada</pre>



<hr class="wp-block-separator" />



<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:26% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/9fb03-gabriel_png.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-10484" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p><strong><strong>Gabriel Garcia </strong></strong>é poeta. Atua como professor de Física nas horas vagas.</p>
</div></div>



<hr class="wp-block-separator" />



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-flow wp-block-group-is-layout-flow">
<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-large-font-size">Galeria: artistas pra seguir na quarentena</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.instagram.com/affnana/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2020/11/49fbb-nana1.png?w=950" alt="" class="wp-image-10139" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-medium-font-size"><em>Apoie artistas nessa quarentena. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>
</div></div>



<hr class="wp-block-separator" />



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/9acee-publi-ediccca7acc83o-impressa-1.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-5668" data-recalc-dims="1" /></figure>





<hr class="wp-block-separator" />



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.artebodoque.com/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/747d3-publi-bodoque3.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-5017" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<p class="has-text-align-center"><p class="has-text-align-center has-text-color has-background" style="background-color:#2b2b2b;color:#ffffff">Clique na imagem para acessar a loja!</p></p>
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