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	<title>Arquivos Dia de Finados - Revista Trama</title>
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	<description>Arte, Cultura e Criatividade</description>
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		<title>SÍMBOLOS DA NAÇÃO: A República do “Ordem e progresso”?</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 15 Nov 2020 21:27:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 071]]></category>
		<category><![CDATA[costumes]]></category>
		<category><![CDATA[Dia de Finados]]></category>
		<category><![CDATA[Memória]]></category>
		<category><![CDATA[Sérgio Augusto Vicente]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Sérgio Augusto Vicente</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Os símbolos desempenham importante papel no processo de legitimação dos regimes políticos ao longo da história. Na transição do regime monárquico para o republicano no Brasil, no final do século XIX, diversas disputas pautaram a redefinição do repertório simbólico da nação. O processo de escolha da nova bandeira oficial do país, destinada a substituir a bandeira do Império, envolveu intensas batalhas entre concepções políticas distintas.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="950" height="442" src="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2022/09/simbolos.png?resize=950%2C442&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-26174" srcset="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2022/09/simbolos.png?resize=1024%2C476&amp;ssl=1 1024w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2022/09/simbolos.png?resize=300%2C139&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2022/09/simbolos.png?resize=768%2C357&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2022/09/simbolos.png?resize=1536%2C714&amp;ssl=1 1536w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2022/09/simbolos.png?w=1920&amp;ssl=1 1920w" sizes="(max-width: 950px) 100vw, 950px" data-recalc-dims="1" /></figure>



<p>Na ocasião da Proclamação da República, em 15 de novembro de 1889, pelo menos duas versões de bandeira se inspiraram no modelo norte-americano. Uma dessas versões, atribuída aos sócios do Clube Republicano Lopes Trovão, conservava nas faixas horizontais as cores verde e amarela da bandeira imperial. Esta chegou a ser levada pelos republicanos civis às ruas no dia 15 de novembro e foi hasteada por José do Patrocínio na Câmara Municipal, onde permaneceu até o dia 19. Uma dessas versões também esteve içada a bordo do navio <em>Alagoas</em>, que levou a família imperial para o exílio na Europa, tão logo a monarquia foi derrubada.</p>



<p>Apesar do entusiasmo de muitos republicanos brasileiros pela república estadunidense, a opção por este modelo de bandeira despertou divergências dos republicanos que se orientavam, de um lado, pela experiência revolucionária francesa e, de outro, pela filosofia positivista de Auguste Comte. Entre esses, havia ainda os que defendiam uma bandeira republicana que dialogasse mais fortemente com a tradição monárquica. Segundo Clóvis Ribeiro, Marechal Deodoro “queria manter a bandeira do Império, com eliminação apenas da coroa”. Alguns estudos e projetos de bandeira elaborados nesse período apresentam poucas alterações em relação à bandeira do Império, como é o caso de um projeto de bandeira existente no acervo histórico do Museu Mariano Procópio, em que apenas a coroa imperial foi substituída pelo barrete frígio (vermelho), o famoso símbolo republicano da liberdade na Revolução Francesa.  </p>



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<figure class="wp-block-image"><img decoding="async" src="https://bodoqueonlineart.files.wordpress.com/2021/12/5e7e0-imagem-1-1.jpg?w=950" alt="O atributo alt desta imagem está vazio. O nome do arquivo é 5e7e0-imagem-1-1.jpg" data-recalc-dims="1"/></figure>
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<figure class="wp-block-image"><img decoding="async" src="https://bodoqueonlineart.files.wordpress.com/2021/12/dd736-imagem-2-2.jpg?w=950" alt="O atributo alt desta imagem está vazio. O nome do arquivo é dd736-imagem-2-2.jpg" data-recalc-dims="1"/></figure>
</div>
</div>



<p class="has-small-font-size"><em><strong>Imagens 1 e 2</strong> – Projeto de bandeira republicana encontrada no acervo do Museu Mariano Procópio (MG). Fotografia: Sérgio A. Vicente.</em></p>



<div style="height:32px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<p>Dentre os vários modelos de bandeira em disputa naquele contexto, o governo provisório adotou, em 19 de novembro de 1889, a versão que seria considerada a oficial. Trata-se da versão concebida pelos positivistas ortodoxos e desenhada por Décio Villares. Enviada ao governo provisório de Marechal Deodoro da Fonseca por intermédio de Benjamin Constant, a nova bandeira oficial apostou na permanência de elementos da bandeira do Império, como o retângulo verde, o losango amarelo e as estrelas. Da antiga bandeira, foram excluídos apenas os emblemas imperiais, como a cruz, a esfera armilar, a coroa, os ramos de café e tabaco.</p>



<p>Embora considerado um modelo hegemônico – tendo em vista a força política dos positivistas na ocasião – e permanecendo como a bandeira oficial do país até a atualidade, sua aceitação não foi unânime. O lema “Ordem e Progresso”, evocado na divisa que atravessa a esfera azul, dividiu políticos, autoridades e alguns segmentos da sociedade civil: para uns, contrariava o conceito de liberdade atrelado à República e, para outros, significava a imposição de uma doutrina cujos adeptos não compreendiam parte expressiva da sociedade brasileira. A divisa positivista despertava, inclusive, críticas de alguns católicos, que viam nela a exaltação de uma seita “dissidente”. Domício da Gama, por exemplo, chegou a declarar na <em>Gazeta de Notícias</em>, em 16 de março de 1890, que estariam propagando na Europa “o boato de haver o Brasil substituído a religião católica pela positivista”.</p>



<p>Outros críticos da época, como o famoso caricaturista Ângelo Agostini (1842-1910), por diversas vezes publicizaram aspectos da realidade brasileira que consideravam contraditórios e contrastantes ao lema “Ordem e Progresso”, como as velhas mazelas políticas, econômicas e sociais enfrentadas pelo recém-instaurado regime republicano. Uma charge de Agostini, veiculada pela revista <em>D. Quixote, </em>traz algumas impressões sobre essa fase inicial da República brasileira – como se vê na imagem a seguir:</p>



<figure class="wp-block-image"><img decoding="async" src="https://bodoqueonlineart.files.wordpress.com/2021/12/8e19f-imagem-3.jpg?w=950&#038;h=725" alt="O atributo alt desta imagem está vazio. O nome do arquivo é 8e19f-imagem-3.jpg" data-recalc-dims="1"/><figcaption><em><strong>Imagem 3 –</strong> Charge de autoria de Angelo Agostini. Revista D. Quixote, 25/11/1895. Acervo do Museu Mariano Procópio. Fotografia: Sérgio A. Vicente.</em></figcaption></figure>



<p>A charge representa a alegoria da República (Marianne) cabisbaixa, montada sobre um burro, em posição contrária à cabeça do animal, puxado por um cabresto, pelas mãos de autoridades brasileiras, em sentido oposto à “Estrada do Progresso”. Na mão esquerda de Marianne, a bandeira positivista “ostenta” em sua divisa o lema “Desordem e Retrocesso”.</p>



<p>Em 1896, o poeta Correia de Almeida (1820-1905) também não poupou sua verve satírica ao registrar sua “desilusão” com o curso do novo regime e o patriotismo estampado no manto cívico republicano. No livro <em>Produções da Caducidade</em>, o idoso padre-poeta de Barbacena satirizava os “iludidos” com o que entendia como a falsa marcha do Brasil para o progresso:</p>



<pre class="wp-block-verse has-text-align-right"><em>Inveja eu até que tive somente
de quem crê que o país vai caminhando
a passos de gigante, desde quando
a milícia nos trouxe o bom presente.</em></pre>



<p>O padre-poeta, valendo-se de sua auto-ironia, incorporava a persona de um “velhinho” para expressar todo seu humor cáustico. Não era ele um “sebastianista”, um saudosista da monarquia ou defensor de sua restauração. Padre Correia integrava aquele grupo intelectual que, depois de muita militância abolicionista e críticas às mazelas do Brasil-Império na imprensa, assistia a tudo como um ancião que não “acompanha a brava gente” nem “atende às vozes do comando”, limitando-se a assistir ao “espetáculo” da política brasileira:</p>



<pre class="wp-block-verse has-text-align-right"><em>Agora vem tentar-me de repente
outra inveja maior, e estou banzando,
sem atender às vozes do comando,
e sem acompanhar a brava gente.</em></pre>



<p>A persona do padre-poeta e a Marianne de Agostini, descontentes e desiludidos, parecem arrastados pelas forças do retrocesso, percebendo-se impotentes no empreendimento de qualquer luta ou resistência capaz de transformar a realidade. No entanto, escrevendo ou desenhando, Almeida e Agostini tinham à sua disposição uma única arma: a quixotesca linguagem do humor. Assim como ambos, muitos intelectuais “inconformados” e “desajustados” se valiam do humor como verdadeiro refúgio. E mais do que isso: como chave interpretativa e identitária da nação.</p>



<p>Ironizar, debochar e carnavalizar o ridículo levado a sério poderia parecer para muitos humoristas a arte de parafrasear piadas prontas, em que a “desordem” simula a “ordem”; e o “retrocesso”, o “progresso”. Assim expressava <em>O Malho</em>, em 15 de novembro de 1913, por ocasião dos quatorze anos da Proclamação da República: “O nosso povo anda tão acabrunhado com as dificuldades da sua vida, tão indiferentes às preocupações e gentilezas do mundo oficial, tão enojado pela pressão constante das ratas e gafes de seus dirigentes, tão desesperado por se sentir cada vez mais banido de todos os seus direitos, que só se preocupa em reagir pelo único meio de que o não podem despojar: o riso, a chacota, a esmulambação de todas as <strong>seriedades caricatas</strong>!”</p>



<p>Uma charge de Storni acompanha esse texto da revista. Nessa charge, o autor representa o “Zé Povo” (versão brasileira do personagem “Zé Povinho”, bastante conhecido na revista humorística portuguesa <em>O Antonio Maria</em>), apreensivamente posicionado sobre a esfera azul da bandeira do Brasil, que, não obstante o lema que carrega (“Ordem e Progresso”), encontra-se prestes a rolar ladeira a baixo. Duas mãos misteriosas, porém, seguram-na, impedindo que o desastre aconteça. E, logo abaixo da charge, o texto prossegue: “Embora o Brasil esteja sempre à beira do clássico abismo, não se precipita nele – ou não cai – porque há uma Divina Providência, que sempre o ampara&#8230;” À mercê das forças do imponderável, o “povo” (“Zé Povo”, melhor dizendo) figura no limiar do precipício, desprovido de amparo e assistência em um regime que se auto intitula ancorado nos princípios da ordem e do progresso.</p>



<figure class="wp-block-image"><img decoding="async" src="https://bodoqueonlineart.files.wordpress.com/2021/12/4817c-imagem-4.jpg?w=950" alt="" class="wp-image-12698" data-recalc-dims="1"/><figcaption>Charge de Storni.&nbsp;<em>O Malho</em>, Rio de Janeiro, ano 12, 15/11/1913. Acesso em:&nbsp;<a href="http://memoria.bn.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=116300&amp;pagfis=25942">Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional</a>. Acesso em: 13/11/20.</figcaption></figure>



<p>Essas não foram, certamente, as únicas representações satíricas das paradoxais relações entre o lema positivista de uma bandeira, seu discurso cívico-pedagógico e a realidade brasileira. Estamos novamente à mercê da própria sorte (ou azar) nesse país. Porém, continuamos “arrotando”, hipocritamente, um lema positivista do século XIX, sem sabermos sua origem e muito menos as divergências e dificuldades de se “costurar” consenso a partir dele, num país tão diverso e plural como o Brasil.</p>



<p>O “patriótico” lema sempre reaparece ao menor sintoma de imunodepressão da democracia. Talvez “reaparecer” não seja o termo mais apropriado, tendo em vista que, desde o momento em que passou a ser professado no Brasil, não apresentou indícios de desaparecimento. Pelo contrário, em circunstâncias específicas, como as que estamos vivendo atualmente, ele tem ganhado maior vitalidade, embora continue não convencendo diversos setores progressistas da política brasileira.</p>



<p>O fato é que, atualmente, o famoso lema se transformou em dilema, estando em alta entre representantes da extrema direita, que não apenas arrogam para si o papel de legítimos patriotas e guardiões da nação, como também monopolizam os símbolos nacionais. Continuamos caminhando sem ordem nem progresso, mas insistindo na permanência de simulacros em meio ao caos: “escolas militares são melhores”; “na ditadura que era bom”; “intervenção militar já”; “a culpa é dos direitos humanos”; etc. Continuamos nos comportando como o “Zé Povo” das páginas da revista <em>O Malho</em>, sonhando com o “fantástico” resgate de uma “ordem” e de um “progresso” que nunca existiram. É esta República que temos a comemorar? Até quando exaltaremos lemas, mitos e messias?</p>



<p>Enquanto isso, a esfera azul não para de rolar. A cada giro, maior o massacre e o nível de tontura&#8230;</p>



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<p><strong>REFERÊNCIAS</strong></p>



<p>ARAÚJO, Maria Marta. <em>Com quantos tolos se faz uma república?</em> Padre Correia de Almeida e sua sátira ao Brasil oitocentista. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2007.</p>



<p>CARVALHO, José Murilo de. <em>A Formação das Almas:</em> o imaginário da República no Brasil. São Paulo: Cia. das Letras, 1990.</p>



<p>RIBEIRO, Clóvis. <em>Brasões e bandeiras do Brasil.</em> São Paulo: São Paulo Ed., 1933.</p>



<p>SALIBA, Elias Thomé. <em>Raízes do Riso: </em>a representação humorística na história brasileira – da Belle Époque aos primeiros tempos do rádio. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.</p>



<p>VELLOSO, Monica Pimenta. <em>Modernismo no Rio de Janeiro:</em> turunas e quixotes. Rio de Janeiro: Editora Fundação Getúlio Vargas, 1996.</p>



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<p><strong>Sérgio Augusto Vicente</strong> é bacharel, licenciado, mestre e doutorando em História pela UFJF. Dedica-se ao estudo da história social da cultura no Brasil, abrangendo temas como trajetórias individuais e de grupos, sociabilidades, associativismo, história intelectual, história social da literatura, acervos documental e bibliográfico, patrimônio cultural, memória e educação. Professor de História e historiador. Atualmente, trabalha no Museu Mariano Procópio (Juiz de Fora – MG).</p>



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<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-medium-font-size"><em>Apoie pautas identitárias. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>
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		<title>No cemitério, uma flor: sobre lembranças e esquecimentos</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 01 Nov 2020 21:23:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 069]]></category>
		<category><![CDATA[costumes]]></category>
		<category><![CDATA[Dia de Finados]]></category>
		<category><![CDATA[Memória]]></category>
		<category><![CDATA[Sérgio Augusto Vicente]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Sérgio Augusto Vicente</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Desde criança, tenho o hábito de visitar cemitério no dia de Finados. Lá em casa, sempre nutrimos carinho pela memória dos mortos, hábito herdado de nossos antepassados. Guardo em um “doce” lugar da memória a minha empolgação para auxiliar minha tia na pintura dos túmulos da família, em Simão Pereira (MG). A cor escolhida era sempre o “azul cor de céu”, apesar da atmosfera tipicamente cinzenta e chuvosa dessa data. Aquela chuva fina e persistente, que cai como lágrimas de Deus a abençoar as almas dos que não mais habitam esse plano, confortando as mentes dos vivos que convivem com as eternas cicatrizes da perda. &#8220;Hoje, o dia está chuvoso como se fosse Finados&#8221;. Até hoje ouço comentários do tipo, sobretudo das pessoas mais velhas.</p>



<p>No entanto, se nesse dia o céu poucas vezes nos sorria com seu azul exuberante, por outro lado, nunca o encaramos como um dia pesado, fúnebre e de tristezas medonhas. A alegria da família reunida, o carinho de minha mãe na colheita das flores no jardim, o prometido picolé comprado no bar ao lado da pracinha após a missão cumprida no cemitério, tudo isso alegrava nossos corações, não obstante a dor da lembrança dos entes queridos que não mais se encontram entre nós.</p>



<p>Hoje, não foi diferente. Apesar de mais rápida, a visita ao cemitério foi regada de flores de todos os tipos. Primeiro, enfeitamos os túmulos dos parentes. Depois, como de costume, passamos por cada sepultura anônima, enferrujada e esquecida pelo tempo, perdida no meio da grama, e depositamos em cada uma delas uma pequena e singela flor. Sempre encarei esse hábito como um pequeno gesto de carinho com a memória alheia, de quem nunca vimos e não sabemos quem foi. Mas, como costume é costume, e desse não abro mão, simplesmente o faço sem muito auxílio da razão. Outro costume, esse sim uma sensibilidade de historiador, é o de ficar contemplando as artes tumulares e lendo epitáfios. A cada ano, uma nova descoberta. Uma poesia aqui, um versículo bíblico ali&#8230;</p>



<p>Algumas sepulturas só conseguem ser contempladas de cabeça erguida. Túmulos arranha-céus, imponentes e pretensamente feitos para a eternidade; outros, por sua vez, só podem ser observados olhando para o chão. Depende do status do cidadão. Afinal, até as necrópoles possuem símbolos de distinção. Hoje, um detalhe me chamou especial atenção: um fragmento de túmulo, uma foto caída ao chão, colada num frio pedaço de mármore. Um suspiro final da memória de um homem. De um homem negro, trajado de terno e chapéu, falecido cem anos atrás (talvez), cujo nome não mais se conhece. Que nome era o seu? Onde nasceu? Que trajetória percorreu? Por que morreu?</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/ba84a-finados-2017-tumulo_foto.jpg?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12597" data-recalc-dims="1" /></figure>



<p>A vida é assim: não sabemos por que nascemos, quando partiremos e nem para onde iremos. Desconhecemos até mesmo os destinos e usos que farão de nossas memórias. Seremos lembrados ou esquecidos? Condenados ou exaltados?</p>



<p>O defunto-autor Brás Cubas, narrador-personagem do clássico livro de Machado de Assis (1839-1908), &#8220;Memórias Póstumas de Brás Cubas”, diz que &#8220;<em>cada estação da vida é uma edição, que corrige a anterior, e que será corrigida também, até a edição definitiva, que o editor dá de graça aos vermes.</em>&#8221; A única certeza que temos é de que a vida só vale a pena quando elegemos o amor como o grande guia dos lugares por onde passamos e de tudo o que fazemos e realizamos. Por isso, depositei essa flor ao lado desse pequeno e pouco notado resquício de tempos pretéritos&#8230; Uma homenagem às memórias de indivíduos que, pelos mais diversos motivos, não são mais consagradas ou celebradas no tempo presente.</p>



<p>Independente da fé e da religião, celebremos nesse dia especial a memória de todos os que pela experiência terrena passaram e agora habitam, quem sabe, o campo imponderável do transcendente.</p>



<p class="has-text-align-right"><em>Simão Pereira, 02 de novembro de 2017.</em></p>



<hr class="wp-block-separator" />



<p><strong>Sérgio Augusto Vicente</strong> é bacharel, licenciado, mestre e doutorando em História pela UFJF. Dedica-se ao estudo da história social da cultura no Brasil, abrangendo temas como trajetórias individuais e de grupos, sociabilidades, associativismo, história intelectual, história social da literatura, acervos documental e bibliográfico, patrimônio cultural, memória e educação. Professor de História e historiador. Atualmente, trabalha no Museu Mariano Procópio (Juiz de Fora – MG).</p>



<hr class="wp-block-separator" />



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/fdf84-assinatura-4.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-11677" data-recalc-dims="1" /></figure>





<hr class="wp-block-separator is-style-wide" />



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<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.artebodoque.com/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/4d2c9-loja-3.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-11599" data-recalc-dims="1" /></a></figure>
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<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/82f24-impressa-2.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-11600" data-recalc-dims="1" /></figure>
</div>
</div>



<hr class="wp-block-separator is-style-wide" />



<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-large-font-size">Galeria: artistas para seguir na quarentena</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/b6aad-fotos-carol.jpg19.jpg?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-6960" data-recalc-dims="1" /></figure>



<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-medium-font-size"><em>Apoie pautas identitárias. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>
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