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	<title>Arquivos Espaço Urbano - Revista Trama</title>
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	<description>Arte, Cultura e Criatividade</description>
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		<title>ENSAIO SOBRE O FUTURO DA CIDADE</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 04 Jul 2021 21:29:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 098]]></category>
		<category><![CDATA[Espaço Urbano]]></category>
		<category><![CDATA[Micael Correia]]></category>
		<category><![CDATA[Vivência do espaço]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Micael Correia</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="has-text-align-right"><em>Entre o homem e a mulher, há o amor.</em><br><em>Entre o homem e o amor, há um mundo.</em><br><em>Entre o homem e o mundo, há o muro.</em></p>



<p class="has-text-align-right"><em><strong>Jacques Lacan</strong></em></p>



<div style="height:46px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<p>O psicanalista Gabriel Tupinambá faz uma observação clínica que conduz a uma intuição oportuna sobre o sofrimento contemporâneo: enquanto na experiência clínica narrada por Freud os pacientes se viam deslocados quando interpelados sobre o próprio passado &#8211; este sempre obscuro e traumático -, atualmente, deitados no divã, as pessoas tomariam o próprio passado como algo interpretado, transparente e inequívoco. O que acontece é que, em vez de o desconforto aparecer nas memórias sobre o passado, as principais angústias e incertezas apareceriam nas questões relativas ao futuro. Falar sobre as expectativas tornou-se algo pavoroso, indesejável, cheio de defesas – aliás, uma boa demonstração disso são as <em>patologias do tempo </em>como ansiedade e depressão, tão características dos tempos atuais. Da mesma forma, falar da sexualidade cedeu o lugar privilegiado sobre <em>aquilo que não se pode falar</em> com segurança para o aspecto econômico: paradoxalmente, embora rodeados de propagandas e anúncios sobre dinheiro, o que realmente fazemos com nosso dinheiro no mercado capitalista virou assunto da ordem do <em>tabu</em>.</p>



<p>Penso que esse tipo de intuição (“antecipar o porvir virou problemático”) pode ser muito útil para descrever uma certa resistência de figurabilidade que podemos estar enfrentando. Parece não ser de bom grado conjecturar saídas, planejar ocupações, materializar condições <em>insurgentes</em>, ou até mesmo ousar a reconfiguração dos valores indexados nas estruturas simbólicas da cidade, a fim de ensaiar um futuro retorno ao convívio social. Tudo isso nos coloca numa posição ameaçada, já que o próprio contexto (econômico, cultural, sanitário) busca reprimir as imaginações. Se não mais o passado, e sim o futuro que trata de nos apresentar a castração, <em>não é mero sintoma individual que permeia a aliança entre desejo e expectativa, obstruindo suas montagens possíveis, mas algo de um traumático da civilização que retorna</em>. Para citar uma frase (de mau gosto) frequentemente repetida por Slavoj Zizek: é mais provável que a luz do fim do túnel não seja uma saída, mas um outro trem vindo em nossa direção.</p>



<p>Já comentei em outro momento sobre a questão ontológica da presença urbana dos manifestantes brasileiros<a href="#_ftn1">[1]</a>, que ultimamente têm reunido esforços políticos e sociais em favor da deposição do presente governo e da contenção de suas práticas anticivilizatórias. Mas preferi, neste ensaio, deslocar um pouco do instante metafísico para lançar um olhar sobre o espaço concreto em que esses acontecimentos se dão: a cidade. É importante lembrar que a cidade é um sistema de representações que serve como condição material para o reconhecimento de determinadas formas de vida. A cidade faz reconhecer os esquemas de habitação na linguagem, as formas de trabalho e, finalmente, seus modos de desejar<a href="#_ftn2">[2]</a>. É nessa articulação que a cidade é uma extensão de nós mesmos, ao mesmo tempo em que é a metáfora que condensa nosso -estar social. Sendo assim, me parece estranhamente próxima a discussão a respeito do que esse lugar pode frente à estação nebulosa que vivemos e que não teme dizer seu nome. Afinal, sem querer repetir o óbvio, a pandemia instaurou um estado politicamente absorto com relação às topologias que norteiam o espaço comum. Confinados em perene virtualização, as imagens urbanas desapareceram de nossa imaginação, cedendo a pressões que se tipificam em demandas de trabalho, ausência de tempo e cansaço eximidas da espacialidade dos possíveis – pois agora os espaços parecem impenetráveis e contaminadores, e manter uma relação com eles só é permitido através da negociação com a própria culpa.</p>



<p>Podemos afirmar que a dificuldade de pensar o futuro está ajambrada com o problema de esvaziamento da significação de que as formas urbanas parecem sofrer, pois justamente nesse tempo em que as manifestações de rua parecem imprescindíveis para o enfrentamento daquilo que nos isola uns dos outros, uma força que vem da antecipação nos desestabiliza. É como se a própria cidade estivesse diferente. Há de reconhecer essa estranheza, mas não do fato de que a cidade esteja diferente, no sentido de produzindo ícones e símbolos inéditos sob os quais podemos nos apoiar para revivescer o apelo transformador – e é nesse ponto que eu queria chegar: este <em>símbolo</em> está ausente. Talvez falte uma figura que ilustre o levante popular em torno de uma causa, que faça uma interrupção revolucionária do estado de coisas. Recorrendo a uma imagem bastante admirada por Walter Benjamin do cenário parisiense do século XIX, falta-nos algo como as barricadas, no seu sentido mais metafórico, como um “lugar atraente”, que materialize a insurreição e a revolta dos oprimidos. Como alude Michael Lowy a respeito do significado das barricadas: “a barricada é uma espécie de lugar utópico que antecipa as relações sociais futuras”<a href="#_ftn3">[3]</a>. Ou seja, os efeitos da barricada não são meramente materiais. São efeitos alusivos, antecipatórios.</p>



<p>Sendo assim, o que realmente quero esboçar nesse texto é essa tentativa meio hegeliana de procurar nessa ausência algo que libere nossa possibilidade de ação. Pode-se dizer que a impotência que sentimos, não deve ser percebido somente como aquilo que nos afasta de agir a realidade em-si, mas como algo que, visto em sua maximização, toca o polo do que a realidade verdadeiramente é – algo impenetrável. Para dizer de maneira psicanalítica, ali onde pensamos obter o “não” da castração é onde se encontra a abertura para a constituição do nosso desejo, a superação da impossibilidade. No nosso problema, se trata de recolocar a cidade enquanto lugar propício de ocupação e arranjo simbólico, apesar das limitações e resistências impostas pela pandemia. Fazê-la abrir nossa imaginação para produzir novos arranjos simbólicos. Para induzir a essa ousada ambição, gostaria de indicar uma lógica formulada por Lacan.</p>



<p>Lacan cunha uma frase para descrever o ato amoroso: “amar é dar o que não se tem a quem não o pediu”. Essa frase é melhor compreendida se tomada como homóloga à estrutura da demanda do Outro, que diz “peço que recuses o que te ofereço pois não é isso”. Ou seja, o amor é aquilo que aparece como desencaixe no <em>dar</em> e <em>receber</em>, <em>aceitar</em> e <em>recusar</em>. A demanda (de amor) do sujeito e do Outro estão em eterno descompasso, criando uma espécie de <em>gap </em>no qual o sujeito pode doar algo singular. Retomando nossa questão: será se é nesse gap entre a cidade não-imaginada e a ausência de futuro que podemos enfim introduzir uma fantasia que realize simbolicamente nossa relação impotente, de que nós somos a própria barricada (?).</p>



<div style="height:50px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<hr class="wp-block-separator" />



<p><a href="#_ftnref1">[1]</a> Ler mais em “A política dos espectros”, na edição n. 94 da Revista Trama.</p>



<p><a href="#_ftnref2">[2]</a> A noção de “forma de vida” pode ser melhor estudada a partir dos trabalhos desenvolvidos no Latesfip (USP).</p>



<p><a href="#_ftnref3">[3]</a> LOWY, Michael. A revolução é o freio de emergência: ensaios sobre Walter Benjamin, 2019.</p>



<div style="height:50px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<hr class="wp-block-separator" />



<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:22% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/9d309-micael-correia.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-14286 size-full" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p><strong><strong><strong>Micael Correia&nbsp;</strong></strong></strong>tem 22 anos e é um escritor não-autorizado. Faz graduação em Psicologia e nutre interesse por Psicanálise, Cultura e Religião.</p>
</div></div>



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<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-flow wp-block-group-is-layout-flow">
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<p></p>
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