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	<title>Arquivos Fora Bolsonaro - Revista Trama</title>
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	<description>Arte, Cultura e Criatividade</description>
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		<title>COMERAM MINHA MAÇÃ</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 19 Dec 2021 21:22:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 122]]></category>
		<category><![CDATA[Criatividade]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Sérgio Augusto Vicente]]></category>
		<category><![CDATA[crônica]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: Sérgio Augusto Vicente</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Inacreditável! O dia começou assim hoje. Acordo pra trabalhar, tomo banho, escovo os dentes e vou à cozinha preparar o café matinal. Até aí, nada de extraordinário. Mas algo estranho me chama atenção. Sobre a pia, duas pequenas pelotas de coloração marrom e textura pastosa. Olho pro lado e vejo a porta da geladeira cheia de manchas pretas.</p>



<p>&#8220;Entrou gente no meu apartamento?!&#8221; Corri para averiguar a porta. Tudo intocável.</p>



<p>&#8220;Rato?!&#8221; Mas cocô de rato não tem esse formato&#8230;</p>



<p>&#8220;Hummm&#8230; O que pode ser?&#8221;</p>



<p>&#8220;Já está na hora de eu sair de casa. Chegarei muito atrasado ao trabalho.&#8221;</p>



<p>Vistorio embaixo da geladeira, dentro dos armários, guarda-roupa, banheiro, lixeira. Nada. Absolutamente nada. Volto para a cozinha. Observo a fruteira quase vazia em cima da geladeira. Lá está minha última maçã. Surpreendentemente, comida pela metade. Não é possível!</p>



<p>Vou para o quarto. Ouço um estrépito. O coração bate forte e descompassado.</p>



<p>Calma! É o vizinho de cima fazendo barulho.</p>



<p>Lembro de olhar o espaço entre a lateral da cama e a parede. Observo um vulto cinza. &#8220;Uma bola de meia caída ali&#8230;&#8221; Penso. Olho novamente.</p>



<p>Mas meia não se movimenta sozinha. Miro novamente o vulto cinza. Posso, agora, certificar-me do que se trata. É um ser de rabo comprido e peludo que me encara com seus pequenos olhos arregalados. Não posso acreditar no que vejo.</p>



<p>É um animal familiar. Quer dizer, tornou-se familiar depois de certo tempo em minha vida. A primeira vez que vi um representante dessa espécie foi na Urca, Rio de janeiro, na pista de caminhada Cláudio Coutinho, ao lado da Praia Vermelha. Achei um máximo. Devia ter uns 14 anos. Cheguei contando a novidade pra todo mundo lá em casa. Como a gente se encanta com o novo, o diferente, né?! Depois, encontrei vários deles no parque do Museu Mariano Procópio, onde trabalho há anos. Adoro observar seu comportamento nos muros e nas árvores. Já tirei várias fotos deles. Morria de vontade de segurá-los com as mãos por alguns instantes. Mas eles fogem. Sentem medo dos humanos. Depois de um tempo, eles começaram a aparecer também entre as árvores do quintal lá do sítio da minha família, em Simão Pereira. São tantos deles, que se tornaram banais. Todo ano se fartam de comer as nossas jabuticabas. Pulam de galho em galho com uma destreza sem igual. Meu pai sempre diz pra não lhes dar muita &#8220;trela&#8221;, pois ficam &#8220;sem vergonha&#8221; e invadem a casa pra roubar comida. Reinando livres, leves, soltos e alimentados com os frutos que as árvores têm pra lhes oferecer, nunca vi nenhum deles sequer dentro da minha casa, na roça. O desejo de pegar um deles e senti-los em minhas mãos nunca se concretizou, portanto.</p>



<p>O &#8220;ser&#8221; que me encara, acuado, no vão entre a parede e a lateral da minha cama, é um perfeito representante da espécie que conheci no Rio de Janeiro, depois no Museu Mariano Procópio e, finalmente, no quintal do sítio.</p>



<p>Acuado e com a cara suja pela prova do crime (migalhas de maçã), o bicho dá um pulo e se enfia atrás de minha mesa de estudo. Tento agarrá-lo, mas sua esperteza é bem maior do que a minha. Avanço. O bicho pula, sai correndo e se agarra na persiana da janela do meu quarto. E agora?</p>



<p>Abro a janela, que dá de frente para a Rio Branco. O bicho sai. Apoia-se na parte externa do parapeito. Em seguida, pula de janela em janela, descendo o prédio pela fachada frontal.</p>



<p>O bicho, pessoal, é um mico. Perdido e desterritorializado na selva de pedra que se tornou Juiz de Fora, ele adentrou minha cozinha pela janela que dá acesso à área de ventilação do prédio. Faminto e desesperado, atacou o fruto proibido. E ainda se alojou ao lado da minha cama. Depois, sai correndo pela janela, sem dar tempo de chamar algum profissional do meio ambiente para socorrê-lo e colocá-lo junto aos seus.</p>



<p>Alguma área verde do Granbery devia ser seu habitat natural. Alguma construtora, na sede voraz da especulação imobiliária, o colocou na sarjeta. Por acaso, dentre as centenas de apartamentos do centro da cidade, escolheu o meu para pedir abrigo. Talvez quisesse ir para o Museu ou para o sítio junto comigo, à procura de ar puro.</p>



<p>Saí de casa atrasado, preocupado com o destino do meu amigo mico. Gostaria muito de vê-lo de volta à natureza. O desespero, meu e dele, porém, levou-o a aventurar-se na selva habitada pela espécie mais mesquinha e perigosa do planeta, que vive sobre quatro rodas, dominada por uma plaquinha luminosa e imbecilizante, intoxicada/envenenada com o próprio veneno.</p>



<p>E, nessa briga contra a natureza, o ser humano nunca conseguirá fugir do mico. Quanto mais a invadimos e a ameaçamos, mais ela nos invade agressivamente. Não paguemos pra ver o triste fim dessa horrenda humanidade capitalista.</p>



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<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:22% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="599" height="601" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/ed01b-sergio.png?resize=599%2C601&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-13196 size-full" srcset="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/ed01b-sergio.png?w=599&amp;ssl=1 599w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/ed01b-sergio.png?resize=300%2C300&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/ed01b-sergio.png?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w" sizes="(max-width: 599px) 100vw, 599px" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p><strong><strong><strong><strong>Sérgio Augusto Vicente</strong></strong></strong></strong> é Professor de História e historiador. Graduado, mestre e doutorando em História pelo PPGHIS/UFJF. Atualmente, trabalha no Museu Mariano Procópio – Juiz de Fora – MG. Dedica-se a pesquisas relativas ao campo da história social da cultura/literatura, sociabilidades, trajetórias e memórias.</p>
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		<title>NOS TEMPOS DA CALIGRAFIA</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 05 Dec 2021 21:28:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 120]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: Sérgio Augusto Vicente</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>D. Pedro II, ou aquele quase sempre chamado – equivocadamente – de pai de Pedro I, teve uma educação bastante disciplinada e rígida na infância. Na sua rotina diária, muitos exercícios de caligrafia. Num deles, repetia a frase: &#8220;A felicidade é um hábito&#8221;.</p>



<p>Menino de infância simples e educado na roça, estive longe, é claro, de receber uma educação próxima àquela recebida pelo &#8220;Pedrinho&#8221; na infância. Mas lembro-me perfeitamente bem da professora da antiga primeira série do primário pegando no meu pé por causa dos meus garranchos: &#8220;Sua letra está uma negação&#8221;. Depois, vieram os carimbos &#8220;meigos&#8221;: um coração chorando e dizendo &#8220;Estou decepcionado&#8221;. Pra completar, não consegui me alfabetizar na primeira série. Consequência: fui reprovado. Um fato frustrante, mas que me impulsionou a caminhar depois, apesar de me cobrar demais em vários aspectos. E a primeira cobrança era a caligrafia, a famigerada caligrafia. Sempre ela. Cresci me cobrando pra ter uma letra elogiada. Mas, se de um lado, a professora me constrangia por talvez não saber lidar com a situação, por outro lado, eu tinha em casa uma pessoa que me inspirava a ser melhor naquilo que tanto me frustrava: mirava-me na linda letra da minha irmã mais velha, a Aninha, professora de Língua Portuguesa.</p>



<p>Depois de formado em História, quando comecei a trabalhar com documentos da Família Imperial no Museu Mariano Procópio, lembro-me de ter ficado impactado com a letra de d. Pedro II aos 7 anos de idade. Certa vez, numa palestra que proferi na Estácio, ao mostrar no datashow a reprodução de um exercício de caligrafia do futuro imperador do Brasil, um rapaz me perguntou: &#8220;isso é impressão?&#8221;, tamanha a simetria da letra. Na época em que ainda havia a <em>Revista de História da Biblioteca Nacional</em>, que até hoje é muito usada pelos professores de educação básica pelo país afora, resolvi publicar, em parceria com a minha amiga Priscila Pinheiro, um artigo sobre os exercícios de caligrafia de d. Pedro e sua rotina de estudos. Foi meu primeiro artigo pra essa revista, que chegou a ser utilizado, inclusive, por colegas professores pra tratar de aspectos relacionados à formação de um menino que se preparava para ser imperador.</p>



<p>Pode parecer algo fútil, mas a questão das caligrafias continuou me perseguindo. Em minhas pesquisas sobre literatos brasileiros da virada do século XIX para o XX, dentre eles o Belmiro Braga, seus comentários sobre a caligrafia continuaram me chamando atenção. Nas memórias de Belmiro, por exemplo, ele enfatiza os benefícios que o investimento na caligrafia lhe trouxe, fazendo-o conquistar o respeito dos professores na escola e abrir portas no comércio, na parte de escrituração mercantil. Detalhe: o vate se tornou tabelião. O tabelião que, inclusive, em 1910, lavrou a escrita do sítio que meus tataravós portugueses compraram no distrito de São Pedro de Alcântara (atual Simão Pereira). O contrário ocorreu com o colega Lima Barreto, que tinha fama de “ostentar” uma letra que mais parecia uma barata passeando sobre uma folha em branco, após mergulhar-se na lata de tinta. Letrinha complicada mesmo! Fiquei horas pra decifrar uma carta sua. Inclusive, a historiadora Lília Schwarcz afirma, no livro <em>Lima Barreto: triste visionário</em>, que Lima quase perdeu a vaga de amanuense no Ministério da Guerra por conta da nota ruim que tirou na prova de caligrafia. Se a prova de conteúdos foi um sucesso, a de caligrafia foi uma lástima.</p>



<p>Um amanuense com letra &#8220;disforme&#8221; e desarmônica é um paradoxo, assim como ter um Lima Barreto trabalhando no Ministério da Guerra. Mas está aí uma prova de que letra não é sinônimo de inteligência. Não mesmo! Mas que eu continuo sendo um cultor da &#8220;boa forma&#8221;. Ah! Continuo! Mesmo em tempos tecnológicos, continuo me esforçando pra ter uma letra, digamos, harmônica. Vixe! Talvez eu não tenha conseguido resolver o trauma da infância&#8230; Talvez esse seja um dos meus traços conservadores&#8230; Talvez seja essa uma habilidade dita &#8220;feminina&#8221; que eu tenho&#8230; Mas que comentário machista, hein?! Por que só se espera que as meninas tenham letra bonita? Talvez isso tenha a ver sobre o quanto as mulheres sofrem por serem mais cobradas do que os homens quando o assunto é estética. Mas, afinal, o que é o &#8220;belo&#8221;? Pergunta difícil, né?! Recuso-me a respondê-la nesse momento. Nem o teclado do computador, muito menos a velha e boa caneta deslizando sobre o papel me encorajam a verbalizar uma resposta. A letra me tem saído tremida ultimamente. Sempre desconfiei que a caneta é a impressora de nossa alma&#8230; O fato é que continuo sem saber se a felicidade é, realmente, um &#8220;hábito&#8221; – como repetia o “órfão da nação” num de seus monótonos exercícios caligráficos. Mesmo sendo traumático, ou exatamente por isso, o primeiro ano escolar habitou e habituou minha memória. E, de certa forma, talvez isso me tenha &#8211; para o bem ou para o mal &#8211; feito me cobrar na busca de uma utópica e ilusória perfeição, de uma beleza talvez inalcançável.</p>



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<p><strong><strong><strong><strong>Sérgio Augusto Vicente</strong></strong></strong></strong> é Professor de História e historiador. Graduado, mestre e doutorando em História pelo PPGHIS/UFJF. Atualmente, trabalha no Museu Mariano Procópio – Juiz de Fora – MG. Dedica-se a pesquisas relativas ao campo da história social da cultura/literatura, sociabilidades, trajetórias e memórias.</p>
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		<title>CONCEIÇÃO: VESTÍGIOS DE UMA TRAJETÓRIA</title>
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		<pubDate>Mon, 15 Nov 2021 21:28:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 117]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
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		<category><![CDATA[Fora Bolsonaro]]></category>
		<category><![CDATA[Lavou as mãos]]></category>
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		<category><![CDATA[Sérgio Augusto Vicente]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: Sérgio Augusto Vicente</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Taquara, Rio de Janeiro, manhã de domingo, 5 de maio de 2019. Eu e minha tia, Adélia Vicente, em seu novo apartamento. Habitar é preciso. Habituar-se também. Inevitável não sentir saudade dos tempos de outrora em Botafogo. Não é fácil desprender-se do local em que se viveu durante décadas. Mas outra saudade é mais forte: há praticamente quatro anos, Conceição nos deixara. Sobre a mesa da sala, resquícios materiais de sua existência. Um “montinho” de documentos indiscriminadamente guardados num envelope de papel pardo.</p>



<p>Naquela rápida visita à casa de minha tia, fui surpreendido pela doação daqueles papéis amarelecidos. Papéis que pertenceram àquela que foi a sua mais velha fiel escudeira e amiga em terras cariocas. Nascida em 13 de agosto de 1933, Conceição Costa tornara-se sua amiga na década de 1970, quando dividiram o aluguel de um apartamento na Visconde de Pirajá, em Ipanema, e, posteriormente, em Botafogo, na Rua São Clemente, onde acolheram o amigo Wilson e sua companheira, Zilá, grávida. Entre os anos 1980 e 2015, aquietaram-se naquele aconchegante cantinho da Vila Santa Clara, perto da Casa de Rui Barbosa. Solteiras, abraçaram de corpo e alma os filhos que a vida lhes deu: os filhos de Zilá e Wilson.</p>



<p>Em 2015, Conceição partiu desse plano. Por onde passou, deixou marcas de sua generosidade, sorriso espontâneo, simplicidade e espirituosidade, características que não anulavam a vaidade visível no cuidado com os cabelos, na escolha das roupas, nas bijuterias e na forma caprichosa com que mantinha em sigilo a idade. Católica confessa, mas também com grande afeição pela filosofia de vida <em>Seicho-No-Ie</em>, carregava no comportamento a leveza de espírito, o otimismo e a serenidade de quem passou por inúmeras experiências ao longo dessa longa e tortuosa estrada da vida.</p>



<p>Muito discreta, falava pouco sobre sua própria história. Entretanto, bisbilhotando aqueles papéis amarelecidos que herdei por intermédio de minha tia, fui capaz de descobrir sua faceta de bailarina na juventude, função que exerceu até o ano de 1973, oportunizando-lhe diversas viagens internacionais para Itália, Rússia, Japão, Chile, Argentina, etc. Assinou contrato com a antiga <em>TV Tupi</em>, colaborando com a fase inicial dos programas de auditório no Brasil. Nesse meio tempo, namorou um russo.</p>



<p>A partir de 1974, trabalhou como costureira. Depois, enveredou-se pelas profissões de balconista, ajudante de mesa e, finalmente, doméstica, tarefa que exerceu com afinco, responsabilidade, zelo, amor e dedicação. Não uma dedicação subserviente, mas respeitosa e elegante, de mulher que contornava as dificuldades, opressões e preconceitos com consciência e sabedoria, como um corpo que se equilibra, desafia e supera a materialidade do espaço e as leis da gravidade com a poesia dos movimentos. Talvez tenha sido este um dos grandes legados que a arte da dança lhe deixou&#8230;</p>



<p>Conceição partiu, mas mantendo em nossas mentes aquele sorriso jovial, calmo e generoso de quem sempre abraçou a mim e aos meus irmãos como “sobrinhos do coração”, adotando, inclusive, minha irmã, Aninha, como afilhada. Sua última visita à minha casa na roça, em Simão Pereira (MG), data de 1º de maio de 2015, por ocasião da ordenação sacerdotal de meu irmão, Fernandinho. A solenidade ocorreu no dia de São José e na Igreja de Nossa Senhora da Glória, ambos contemplados em sua singela coleção de santinhos, reunida naquele envelope de papel pardo que estivera sobre a mesa.</p>



<p>Gratidão! Não pode ser outra a palavra para designar o que senti ao ver minha tia confiar a mim aqueles papéis tão carregados de valor simbólico. Ao meu ver, um ato tão grandioso quanto os corações dessas duas aguerridas mulheres que tenho como referência em minha vida. Tratei logo de organizar aqueles documentos e acondicioná-los. Mais do que “objetos velhos”, eles são para mim “objetos biográficos”, um dos especiais “lugares de memória” que ajudei a constituir e conservar. Rememorar a existência de quem passou pela vida terrena, deixando um pouco mais de “alma” em nossas mentes e corações, é um prazer de valor inestimável.</p>



<p>Conceição representa a luta da mulher. Não a de qualquer mulher: a da mulher brasileira, negra, solteira, pobre e trabalhadora multifacetada, com suas qualidades, força, fraquezas, franquezas, contradições e complexidades, que abraçou com bravura a decisão de sair da terra de origem para enfrentar a vida na grande e desigual “Cidade Maravilhosa”. Como “bailarina viajada”, profissão que hoje carrega certo <em>glamour</em>, somos talvez levados a pensar que este tenha sido o momento mais confortável e exitoso de sua vida. Não podemos nos esquecer, porém, do preconceito que recaía sobre essa profissão em tempos de ditadura. Se, até hoje, a mulher brasileira – sobretudo negra – ainda é vista pelas suas “qualidades físicas” ou como o “produto de exportação” mais valioso do Brasil, imagina o quão difícil era, àquela época, para as artistas mulheres (no caso, as bailarinas) conquistar o respeito e o lugar social que tinham por direito. Artistas da “velha guarda”, que viveram na mesma época ou em tempos um pouco mais recuados – algumas delas ainda vivas e consagradas – têm muito a nos contar a esse respeito.</p>



<p>A “herança” que me legou, portanto, deixa-me entrever informações acerca de sua trajetória biográfica, como filiação, data de nascimento, atividades profissionais exercidas e fotos, individuais e em grupo, nas quais estão representados momentos importantes que vivenciou (talvez bons momentos), tanto no Rio de Janeiro como nas diversas viagens internacionais.</p>



<p>É possível observar nos documentos detalhes ricos historicamente, como a passagem de 1ª classe para a Europa, a bordo do navio <em>Itapage</em>; a intimidade com a câmera, revelada pela espontaneidade das fotos; sua preciosa coleção de selos postais, cuja maioria é oriunda da antiga União Soviética (atual Rússia), que fazem alusão a elementos bastante interessantes e emblemáticos em suas representações, como a “corrida espacial”, astronautas e satélite; o passaporte da década de 1970, contendo um carimbo proibindo viagens de cidadãos brasileiros à “Cuba comunista”. Em tempos de Guerra Fria, de polarizações, é sempre bom lembrar que o regime civil-militar e ditatorial brasileiro situava-se ao lado dos Estados Unidos, cujo capital financiou a ditadura que nos mergulhou em tempos sombrios e tenebrosos.</p>



<p>Conceição, portanto, tem arraigada à sua história de vida um pouco da luta de muitas mulheres negras e pobres nesse país. Nesse mês de novembro, em que se comemora o <em>Dia da Consciência Negra</em>, minha homenagem lhe é destinada, mas é extensiva a todas as “Conceições” desse país, em que as flores ainda precisam lutar pela sobrevivência e exalar sua beleza e perfume por entre as trincas de um concreto armado. Que sua força e energia venham a se somar à força e energia de vários “viveres” e “existires” que lutam pela sobrevivência numa sociedade recalcitrante na preservação de seu patriarcalismo, machismo, ideologia senhorial, racismo e exclusão.</p>



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<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:22% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img decoding="async" width="599" height="601" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/ed01b-sergio.png?resize=599%2C601&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-13196 size-full" srcset="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/ed01b-sergio.png?w=599&amp;ssl=1 599w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/ed01b-sergio.png?resize=300%2C300&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/ed01b-sergio.png?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w" sizes="(max-width: 599px) 100vw, 599px" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p><strong><strong><strong><strong>Sérgio Augusto Vicente</strong></strong></strong></strong> é Professor de História e historiador. Graduado, mestre e doutorando em História pelo PPGHIS/UFJF. Atualmente, trabalha no Museu Mariano Procópio – Juiz de Fora – MG. Dedica-se a pesquisas relativas ao campo da história social da cultura/literatura, sociabilidades, trajetórias e memórias.</p>
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		<title>A &#8216;INDECÊNCIA&#8217; DA AMIGA SANTA: BREVE MEMÓRIA DE UM ÁLBUM DE FAMÍLIA</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 01 Aug 2021 21:28:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 098]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[crônica]]></category>
		<category><![CDATA[Fora Bolsonaro]]></category>
		<category><![CDATA[Lavou as mãos]]></category>
		<category><![CDATA[política]]></category>
		<category><![CDATA[Sérgio Augusto Vicente]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: Sérgio Augusto Vicente</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Após o regresso ao sítio da família e à morte do pai, a jovem viúva Mariana tirava o sustento da terra. Ao lado da irmã solteira, Palmira, passaria a viver das vendas de hortaliças, queijos, ovos, leite e doces. Durante a semana, ambas se dedicavam à ordenha das vacas, à lida na roça e às vendas nos distritos. Aos domingos, não perdiam as missas, o sagrado compromisso religioso.</p>



<p>As esporádicas visitas a Juiz de Fora eram sempre motivadas pelo trabalho. De manhã bem cedo, organizavam as mercadorias nos cestos de bambu e seguiam a pé para a estação do trem. Na maioria das vezes, embarcavam na estação de Sobragy, distrito de Vargem Grande (atual município de Belmiro Braga – MG). Em outras ocasiões, seguiam para a estação de Cotegipe. Em Juiz de Fora, caminhavam pelas ruas entregando as encomendas nas casas dos fregueses.</p>



<p>Nessas idas à cidade na década de 1920, Mariana fez algumas amizades. Uma delas foi com uma moça da rua São Geraldo, de nome Santa, que todos chamavam Santinha. A amizade teria começado por intermédio de Serafim e Patrocínia, pais de Mariana e Palmira, antigos amigos do pai da moça, conhecido alfaiate da região. Dos vestígios dessa amizade restam, hoje, as duas fotos que Mariana recebeu da própria amiga, com direito à dedicatória e tudo mais. Posando em trajes carnavalescos, Santinha se permitia representar através das lentes do fotógrafo como legítima deusa carnavalesca, remetendo aos memoráveis carnavais de rua na cidade.</p>



<p>Certo dia, a moça, em visita ao sítio da amiga, foi logo pega de surpresa. Tão longo colocando os pés na varanda da casa, observou, há alguns passos de distância, a dita foto pendurada na parede principal da sala-de-estar. Lá estava ela, como a recepcionar as visitas que chegavam.</p>



<p>Não é estranho que Mariana tivesse reservado um lugar de destaque para aquela foto. Além do apreço pela retratada, os registros fotográficos eram ainda pouco acessíveis às famílias pobres. Os poucos momentos eternizados pelas lentes dos fotógrafos se transformavam, assim, em objeto de grande valor simbólico e afetivo.</p>



<p>Mas a surpresa teria constrangido e envergonhado Santinha, que confessou sentir-se desconfortável com a exposição de sua figura no principal cômodo da casa. Julgava aqueles trajes carnavalescos “indecentes”. Logo pediu à Mariana que devolvesse aquela recordação para o lugar de onde nunca deveria ter saído: seu recôndito baú de memórias pessoais. Com essa atitude, a moça talvez tentasse fazer jus ao próprio nome&#8230;</p>



<p>O fato é que, em seu íntimo, Santa demonstrava simpatia pela folia profana. Obstinada a saciar seu desejo, passou no estúdio do Centro da cidadepara ser fotografada com os tão sonhados trajes da moda, que não cansava de admirar nas páginas das revistas cariocas. Mas, como todo carnaval é sucedido pela quaresma, depois dessa “aventura”, Santa talvez preferisse contemplar aquela recordação apenas na intimidade.</p>



<p>O motivo da autocensura era o decote. Sempre ele, o decote, o tão amado e oprimido decote feminino, que, àquela época, muitas mulheres já começavam a usar sem grande peso na consciência. Essa mudança de comportamento, que, em 1928, Santinha parecia responder com algumas inseguranças, já motivara o poeta juiz-forano, Belmiro Braga, em 1923, a publicar, no livro <em>Tarde Florida</em>, um debochado soneto. Alguns dirão conter nele “pitadas” de profecia:</p>



<p class="has-text-align-center"><em>Para uns braços de moça ver, outrora</em><br><em>tinham os moços a maior tortura.</em><br><em>Que mangas tão compridas!&#8230; Mas, agora,</em><br><em>a coisa muda de figura.</em><br><em>E um tornozelo, então?!&#8230; Nossa Senhora!</em><br><em>Nenhum homem logrou essa ventura,</em><br><em>pois quando o pé a ponta punha fora,</em><br><em>vinha, logo, em seguida, uma censura&#8230;</em><br><em>Hoje, o decote é como o câmbio &#8211; desce;</em><br><em>e a barra dos vestidos, se acontece</em><br><em>mostrar as ligas, batem palmas os pais&#8230;</em><br><em>Se a Moda a roupa em baixo e em cima poda,</em><br><em>trarão as nossas netas, por ser moda,</em><br><em>uma faixa à cintura e&#8230; nada mais&#8230;</em></p>



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<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:22% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img loading="lazy" decoding="async" width="599" height="601" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/ed01b-sergio.png?resize=599%2C601&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-13196 size-full" srcset="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/ed01b-sergio.png?w=599&amp;ssl=1 599w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/ed01b-sergio.png?resize=300%2C300&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/ed01b-sergio.png?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w" sizes="(max-width: 599px) 100vw, 599px" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p><strong><strong><strong><strong>Sérgio Augusto Vicente</strong></strong></strong></strong> é Professor de História e historiador. Graduado, mestre e doutorando em História pelo PPGHIS/UFJF. Atualmente, trabalha no Museu Mariano Procópio – Juiz de Fora – MG. Dedica-se a pesquisas relativas ao campo da história social da cultura/literatura, sociabilidades, trajetórias e memórias.</p>
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		<title>REPUBLICANOS E MONARQUISTAS: CONFLITOS E CONCILIAÇÕES</title>
		<link>https://revistatrama.artebodoque.com/2021/07/04/entre-tiros-navalhadas-e-cultos-o-mito-de-d-pedro-ii-e-a-reconciliacao-entre-a-monarquia-e-a-republica-nas-primeiras-decadas-do-sec-xx/</link>
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		<pubDate>Sun, 04 Jul 2021 21:27:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 098]]></category>
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		<category><![CDATA[Sérgio Augusto Vicente]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: Sérgio Augusto Vicente</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Muito conhecido por ser um dos principais museus do país que abriga acervo relativo ao Brasil-Império, bem como objetos alusivos à memória monárquica e à família imperial brasileira, o Museu Mariano Procópio também possui relevante acervo referente ao período republicano. Além da importância de se atentar para o papel de Alfredo Lage em amealhar objetos relacionados à memória monárquica, é preciso dar a devida atenção aos impasses, conflitos, querelas, ambiguidades e reconciliações existentes nas relações entre republicanos e monarquistas na Primeira República. Afinal de contas, trata-se de um espaço museal inaugurado nas primeiras décadas do século XX, momento em que as “feridas” do golpe civil-militar que derrubou o regime monárquico passavam por gradual processo de “cicatrização”.</p>



<p>O ataque aos símbolos da monarquia durante a Proclamação e início da Primeira República, como se sabe, não é novidade. O estudo de Juliana Garcia, ex-estagiária do Museu, deixou importante legado para a instituição nesse campo de investigação. A historiadora analisou um retrato de d. Pedro II, de autoria do artista Joaquim da Rocha Fragoso. A biografia cultural do objeto é bastante curiosa, por sinal, tendo em vista o tiro sofrido pela pintura no contexto do “15 de novembro”. Oculta na reserva técnica do Museu Mariano Procópio durante bastante tempo, a pintura ganhou maior evidência nas últimas décadas, depois de ser restaurada. A decisão dos restauradores, porém, foi a de não ocultar por completo as “cicatrizes” dos ataques sofridos, considerando-as vestígios históricos da maior importância para se discutirem as disputas simbólicas travadas por grupos divergentes no final do século XIX. Em outras palavras, foi esta uma forma de respeitar a história do objeto no contexto museal.</p>



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<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="950" height="950" src="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/48644-foto_que-tiro-foi-esse.jpg?resize=950%2C950" alt="" class="wp-image-16764" srcset="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/48644-foto_que-tiro-foi-esse.jpg?w=1000&amp;ssl=1 1000w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/48644-foto_que-tiro-foi-esse.jpg?resize=300%2C300&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/48644-foto_que-tiro-foi-esse.jpg?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/48644-foto_que-tiro-foi-esse.jpg?resize=768%2C768&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/48644-foto_que-tiro-foi-esse.jpg?resize=980%2C980&amp;ssl=1 980w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/48644-foto_que-tiro-foi-esse.jpg?resize=96%2C96&amp;ssl=1 96w" sizes="(max-width: 950px) 100vw, 950px" data-recalc-dims="1" /><figcaption><strong>“Meme” produzido a partir da tela “Retrato de d. Pedro II”, de autoria de Joaquim da Rocha Fragoso. Acervo do Museu Mariano Procópio – MG.</strong></figcaption></figure>



<p>No Museu Histórico Nacional, encontra-se outro retrato do mesmo imperador, retalhado por navalha. Ao contrário do MMP, a equipe do MHN deixou os rasgos plenamente visíveis. Em 2018, uma palestra realizada na instituição conferiu protagonismo à peça. O título escolhido, “Que rasgo foi esse?!”, era uma descontraída paródia do <em>hit</em> de Jojô Todynho, que fizera grande sucesso no carnaval daquele ano. No Museu Mariano Procópio, o quadro “baleado”, como não poderia deixar de ser, inspirou o meme “Que tiro foi esse?”, que alcançou grande circulação nas redes sociais, vindo a inspirar uma questão avaliativa do Programa de Ingresso Seletivo Misto (PISM) da Universidade Federal de Juiz de Fora, juntamente com a citação de trecho da pesquisa de Juliana Garcia.</p>



<p>A ideia não era apelar para o sensacionalismo, com o único e simples objetivo de “assanhar” os olhares do público, mas provocar estranhamentos e reflexões sobre a relação entre republicanos e monarquistas no contexto em que ambas as telas sofreram agressões. Levando em consideração o olhar de encantamento e romantismo que muitos visitantes lançam para o Brasil-Império, caracterizando-o como uma espécie de “era de ouro” da história brasileira, é sempre válido e necessário que reflexões sejam suscitadas, contrapondo essas narrativas e memórias à compreensão crítica dos processos e movimentos político-sociais na história.</p>



<p>Sem se limitar aos violentos embates travados entre republicanos e monarquistas através de vestígios da cultura material encontrados no Museu Mariano Procópio, também é pertinente que se chame atenção para as ambíguas relações entre os grupos políticos. Vale lembrar que a inauguração do Museu Mariano Procópio em 1921 coincide com os preparativos das comemorações do Centenário da Independência do Brasil, momento de conciliação entre monarquia e república, apesar das divergências e conflitos ideológicos que seriam ainda mantidos por longo período. A doação da tela de Pedro Américo, <em>Tiradentes Esquartejado</em> (1893), para o Museu, em 1922, pode ser considerada representativa desse processo conciliatório, haja vista que o espaço museal, assumindo importante função de “depositário” de emblemáticos objetos da memória monárquica brasileira, passava a abrigar um símbolo republicano. Em meio a esse aparente paradoxo, nada mais coerente do que o “herói da Conjuração Mineira”, transformado em mito republicano, hospedar-se definitivamente no primeiro museu de Minas Gerais, colaborando para elevar o protagonismo dos mineiros no âmbito nacional.</p>



<p>O projeto de memória monárquica de Alfredo Lage, para lograr êxito, precisava participar do “acerto de contas” com o passado. Vale lembrar que, em 1920, o então presidente da República, Epitácio Pessoa, assinava a revogação do decreto de banimento da família imperial; e, da mesma forma, em janeiro de 1921, os restos mortais de d. Pedro II e Teresa Cristina eram trasladados da Europa para o Brasil, após longas tratativas e negociações.</p>



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<figure class="wp-block-image alignwide size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="688" height="1011" src="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/329a4-capa-sergio.jpg?resize=688%2C1011" alt="" class="wp-image-16765" srcset="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/329a4-capa-sergio.jpg?w=688&amp;ssl=1 688w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/329a4-capa-sergio.jpg?resize=204%2C300&amp;ssl=1 204w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/329a4-capa-sergio.jpg?resize=65%2C96&amp;ssl=1 65w" sizes="(max-width: 688px) 100vw, 688px" data-recalc-dims="1" /><figcaption><strong>Fonte:</strong> <em>O Malho</em>, RJ, 02/12/1905. Acervo do Museu Mariano Procópio – MG.</figcaption></figure>



<div style="height:20px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<p>Antes mesmo da década de 1920, é possível verificar a expansão de um movimento conciliador e pacificador por parte de diversos segmentos políticos. Uma charge publicada na capa da revista <em>O Malho</em>, em 2 de dezembro de 1905, que integra o acervo da hemeroteca do Museu Mariano Procópio, é um exemplo disso. <em>O Malho </em>compunha o grupo de periódicos humorísticos que circulavam pelo Rio de Janeiro, então capital do país, nos anos iniciais do século XX, apontando contradições, impasses e ambiguidades vivenciados pela jovem República brasileira. O periódico enaltecia aspectos da implantação de projetos modernizadores pelas autoridades republicanas, ao mesmo tempo em que explicitava mazelas políticas e sociais, frustrações com o novo regime e ambíguas relações com os monarquistas.</p>



<p>Não por acaso, a charge saiu publicada em 2 de dezembro, dia em que se comemorava o nascimento do já falecido imperador brasileiro, d. Pedro II, cujo retrato ricamente emoldurado, sustentado por um cavalete, aparece em destaque na representação humorística, ladeado por dois personagens políticos da época: do lado esquerdo, Afonso Pena, e, do lado direito, Afonso Celso, que aponta o braço para o “velho monarca”. A cadeira segurada pelas mãos do futuro presidente da República (1906-1910) simboliza a oferta, ao monarquista, do cargo de representante do Estado na legislatura seguinte, como demonstra o diálogo abaixo da charge: “À vista da calorosa recepção que acabas de ter do povo mineiro, não posso deixar de te oferecer esta cadeira de representante do nosso Estado, na próxima legislatura. Aceitas?”. Logo em seguida, Affonso Celso responde: “Aceito, contanto que a olímpica figura do grande Imperador morto continue a governar cada vez mais os meus atos&#8230;”.</p>



<p>O povo brasileiro, representado pela figura do personagem “Zé Povo”, enquanto observa a teatralidade da cena, pensa: “Aponta para o falecido monarca cujo aniversário natalício é hoje?&#8230; Continua firme nos seus princípios monarquistas&#8230; Ora, sempre quero ver como o nosso velho mineiro descalça esta bota! São dois Affonsos em questão&#8230; Voltaremos ao tempo dos Affonsinhos?!&#8230;” Possivelmente inspirado no personagem “Zé Povinho”, do periódico português <em>O Antonio Maria</em>, “Zé Povo” observa a barganha política entre dois personagens, que buscam firmar um pacto ancorado no culto à figura de d. Pedro II e às tradições políticas do Império. O termo “tempo dos Affonsinhos” parece fazer referência a uma postura “passadista” do futuro presidente, que, buscando se fortalecer politicamente em seu Estado natal, apelava para conquistar o apoio de um monarquista histórico ovacionado pelos mineiros.</p>



<p>Vale ressaltar que Afonso Pena e Afonso Celso eram mineiros nascidos no século XIX: o primeiro, em 1847; e o segundo, em 1860. Ambos, apesar da diferença de idade, trilharam trajetórias políticas no período Imperial. Afonso Pena exerceu cargos de deputado provincial e deputado geral através do partido Liberal, foi ministro da Guerra, da Agricultura, Comércio e Obras Públicas e do Interior e Justiça. Além disso, estabeleceu próxima relação com o pai de Afonso Celso, o Visconde de Ouro Preto. Em 1892, já no período republicano, assumiu a presidência de Minas, após a renúncia de Cesário Alvim. O também mineiro, Afonso Celso, foi deputado geral por Minas Gerais. Com a proclamação da República, abandonou a política e acompanhou o pai (Visconde de Ouro Preto) no exílio para a Europa, tendo, no início do novo regime, se dedicado à defesa do pai na política.&nbsp;</p>



<p>Se, de um lado, o movimento restaurador monárquico ainda era visto, em 1905, como certa ameaça ao regime vigente, implantado através de um golpe civil-militar, por outro, observa-se no “tabuleiro” político uma ambígua e conciliadora postura entre grupos republicanos e monarquistas. Apesar da derrubada do regime monárquico, do exílio do imperador e da construção de uma narrativa política que associava a monarquia ao atraso, a figura de d. Pedro II permanecia bastante ovacionada por amplos segmentos sociais, tornando-se o principal mito político sustentador da crença na existência de uma “era de ouro” na história brasileira.</p>



<p>Essa aparente contradição entre a derrocada da monarquia e o culto ao imperador se tornou objeto de humor da revista <em>Careta</em>, em 11 de fevereiro de 1911, no texto “A opinião de uma estátua”. A publicação coincidia com a inauguração de um monumento em homenagem a d. Pedro II em Petrópolis. Na sátira, a estátua faz o seguinte questionamento: “Diga-me porque me destronaram”. [&#8230;] Desde 15 de novembro de 1889 até o momento da minha inauguração encarnado em bronze, ouço dizer que sou o maior dos brasileiros, que sou um benemérito, que engrandeci o meu país, que fiz a minha pátria. Como a gente é contraditória! Como as suas palavras contrastam com as suas ações.”</p>



<p>Atacadas por diversos grupos republicanos, antes e durante a Proclamação da República, as representações do segundo imperador brasileiro, a essa altura do campeonato, já não mais atraía navalhadas e tiros; pelo contrário, o “mito” era evocado para amalgamar interesses e projetos políticos diversos, sobretudo a partir das comemorações dos cem anos da Independência do Brasil. Segundo a historiadora Luciana Peçanha Fagundes, “o gesto da República de estender a mão” ao passado monárquico, “extraindo a ‘mais valia do morto’”, consagrava d. Pedro II como “o grande unificador da nacionalidade”. Não é por acaso que, mesmo após “tiros” e “navalhadas”, o “mito” monárquico não tenha sido “esquartejado”, sobrevivendo até hoje no imaginário de muitas pessoas que ainda mantém vivas as memórias afetivas relacionadas ao Museu Mariano Procópio.</p>



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<p><strong>REFERÊNCIAS:</strong></p>



<p>FAGUNDES, Luciana Pessanha. <em>De volta à terra pátria:</em> o translado dos restos mortais de D. Pedro II e Thereza Cristina para o Brasil (1921). In: Anais do XXVIII Simpósio Nacional de História – Lugares dos historiadores: velhos e novos desafios, jul. 2015. Disponível em: <a href="http://www.snh2015.anpuh.org/resources/anais/39/1434405974_ARQUIVO_Textocompletoanpuh2015.pdf">http://www.snh2015.anpuh.org/resources/anais/39/1434405974_ARQUIVO_Textocompletoanpuh2015.pdf</a>.</p>



<p>MELLO, Maria Tereza Chaves de. <em>A República Consentida</em>. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2007.</p>



<p>NEVES, Juliana Garcia. <em>Entre a memória da monarquia e a construção da república: </em>a dinâmica&nbsp;simbólica de transformações e resistências presente na trajetória do “Retrato de Pedro II” do&nbsp;Museu Mariano Procópio. Dissertação de mestrado (PPGHIS-UFJF). SCHWARCZ, Lilia. <em>De olho em d. Pedro II e seu reino tropical</em>. São Paulo: Claro Enigma, 2009.</p>



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<p><strong><strong><strong><strong>Sérgio Augusto Vicente</strong></strong></strong></strong> é Professor de História e historiador. Graduado, mestre e doutorando em História pelo PPGHIS/UFJF. Atualmente, trabalha no Museu Mariano Procópio – Juiz de Fora – MG. Dedica-se a pesquisas relativas ao campo da história social da cultura/literatura, sociabilidades, trajetórias e memórias.</p>
</div></div>



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		<title>Pãodemia E Pandemônio</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 06 Jun 2021 21:27:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 094]]></category>
		<category><![CDATA[crônica]]></category>
		<category><![CDATA[Fora Bolsonaro]]></category>
		<category><![CDATA[Lavou as mãos]]></category>
		<category><![CDATA[política]]></category>
		<category><![CDATA[Sérgio Augusto Vicente]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: Sérgio Augusto Vicente</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Hoje, antes de ir para o trabalho, passei na padaria perto de casa para comprar um lanche. De imediato, pedi meu pão preferido. A mulher que me atendeu, a proprietária do estabelecimento, disse que não fazia mais daquele pão, pois mandou o padeiro embora: &#8220;Vivia pedindo atestado! Não dou conta disso! E eles ainda querem ganhar salário de médico!&#8221;</p>



<p>Limitei-me a dizer: &#8220;É uma pena que não tenha daquele pão, pois aqui era um dos poucos lugares onde encontrava dele&#8230;&#8221;</p>



<p>&#8220;O padeiro era bom, moço, mas sabe como é, né?! O outro que encontramos também é bom, mas disse que só vem pra cá se a gente fichar ele! Aí não dá! O jeito é a gente se virar como pode!&#8221;</p>



<p>&#8220;E o movimento aqui caiu muito com a pandemia?&#8221;</p>



<p>&#8220;Muito! 50% ou mais!&#8221;&nbsp;</p>



<p>&#8220;Vixe! O problema é que isso tá longe de acabar&#8230;&#8221;</p>



<p>&#8220;Não tem vacina, né moço!&#8221;</p>



<p>&#8220;Mas com aquele presidente mau caráter e assassino que está lá no poder, né?!&#8221;</p>



<p>&#8220;É&#8230; Ele até que tentou fazer alguma coisa que prestasse, mas ele não é do tipo que paga propina pra safado&#8230; O Lula fez alguma coisa porque pagou os bandidos muito bem, né?!&#8221;</p>



<p>&#8220;Ah! Mas esse aí não tem comparação: tem a morte como projeto, né moça?!&#8221;</p>



<p>&#8220;Que ele é doido isso é mesmo, moço! Cê viu ele falando pro povo não usar máscara?! Não bate bem das ideias! Só pode!&#8221;</p>



<p>&#8220;Sim!&#8221;</p>



<p>“Mas é aquela coisa&#8230; A gente não tinha opção, né?!</p>



<p>De repente, assustei com a buzina do carro na rua&#8230;&nbsp;</p>



<p>&#8220;Pra você ter uma ideia, moço, eu só não peguei esse tal de corona até hoje porque tomo muito cuidado com máscara e higiene das mãos.&#8221;</p>



<p>&#8220;Quem bom!&#8221;</p>



<p>Saí da padaria sem meu pão preferido, mas convicto de que aquela microempreendedora individual, de fato, lavou as suas mãos&#8230;</p>



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