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	<title>Arquivos História do Brasil - Revista Trama</title>
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	<description>Arte, Cultura e Criatividade</description>
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		<title>O LIVRO QUE O IMPERADOR TRADUZIU</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 09 May 2021 21:27:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 090]]></category>
		<category><![CDATA[Herança]]></category>
		<category><![CDATA[História do Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[Sérgio Augusto Vicente]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: Sérgio Augusto Vicente</p>
<p>O post <a rel="nofollow" href="https://revistatrama.artebodoque.com/2021/05/09/o-livro-que-o-imperador-traduziu/">O LIVRO QUE O IMPERADOR TRADUZIU</a> apareceu primeiro em <a rel="nofollow" href="https://revistatrama.artebodoque.com">Revista Trama</a>.</p>
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<p>Os livros não apenas cumprem a função de meros “depósitos” de conteúdos publicados em determinados momentos da história, mas também carregam as marcas dos usos e abusos dos sujeitos históricos através do tempo. A fim de exemplificar o que estou dizendo, apresentarei a trajetória de um livro pertencente à seção de obras especiais da Biblioteca do Museu Mariano Procópio: <em>El Licenciado Torralba</em>, do escritor espanhol Ramón Campoamor (1817-1901), publicado em Madrid, em 1888, pela <em>Librería de Fernando Fé</em>.</p>



<p>O livro alcançou significativo sucesso no final do século XIX e início do XX, fazendo-se presente em diversas bibliotecas até hoje. Entretanto, optamos por lançar o foco sobre o exemplar da Biblioteca do Museu Mariano Procópio, tendo em vista as marcas de proveniência que o individualizam e contribuem para conectar as trajetórias de vida de vários personagens históricos. A obra em questão apresenta pequenas dimensões, encontra-se encadernada em capa dura e desfalcada em algumas dezenas de folhas. Possui, no verso da capa, uma minúscula etiqueta com o número de arrolamento do Museu, que comprova seu pertencimento à coleção do fundador da instituição, Alfredo Ferreira Lage. Logo em seguida, verificam-se diversas anotações ao longo das páginas. Na primeira folha, um registro a caneta, datado de 3 de novembro de 1917 e assinado por Eduardo de Menezes, informa que as anotações a lápis, por entre as linhas do texto, são traduções feitas, do espanhol para o português, por D. Pedro II. Na ocasião, o segundo monarca brasileiro se encontrava a bordo do navio <em>Alagoas</em>, em viagem de exílio à Europa, após o golpe civil-militar que o destituiu do poder em 15 de novembro de 1889.</p>



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<div class="wp-block-jetpack-tiled-gallery aligncenter is-style-rectangular"><div class="tiled-gallery__gallery"><div class="tiled-gallery__row"><div class="tiled-gallery__col" style="flex-basis:36.03523%"><figure class="tiled-gallery__item"><img decoding="async" srcset="https://i1.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2022/09/3-scaled.jpg?strip=info&#038;w=600&#038;ssl=1 600w,https://i1.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2022/09/3-scaled.jpg?strip=info&#038;w=900&#038;ssl=1 900w,https://i1.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2022/09/3-scaled.jpg?strip=info&#038;w=1200&#038;ssl=1 1200w,https://i1.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2022/09/3-scaled.jpg?strip=info&#038;w=1500&#038;ssl=1 1500w,https://i1.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2022/09/3-scaled.jpg?strip=info&#038;w=1800&#038;ssl=1 1800w,https://i1.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2022/09/3-scaled.jpg?strip=info&#038;w=1920&#038;ssl=1 1920w" alt="" data-height="2560" data-id="26149" data-link="https://revistatrama.artebodoque.com/2021/05/09/o-livro-que-o-imperador-traduziu/3-4/" data-url="https://revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2022/09/3-scaled.jpg" data-width="1920" src="https://i1.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2022/09/3-scaled.jpg?ssl=1" data-amp-layout="responsive"/></figure></div><div class="tiled-gallery__col" style="flex-basis:63.96477%"><figure class="tiled-gallery__item"><img decoding="async" srcset="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2022/09/7-scaled.jpg?strip=info&#038;w=600&#038;ssl=1 600w,https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2022/09/7-scaled.jpg?strip=info&#038;w=900&#038;ssl=1 900w,https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2022/09/7-scaled.jpg?strip=info&#038;w=1200&#038;ssl=1 1200w,https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2022/09/7-scaled.jpg?strip=info&#038;w=1500&#038;ssl=1 1500w,https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2022/09/7-scaled.jpg?strip=info&#038;w=1800&#038;ssl=1 1800w,https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2022/09/7-scaled.jpg?strip=info&#038;w=2000&#038;ssl=1 2000w" alt="" data-height="1920" data-id="26151" data-link="https://revistatrama.artebodoque.com/2021/05/09/o-livro-que-o-imperador-traduziu/7-4/" data-url="https://revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2022/09/7-scaled.jpg" data-width="2560" src="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2022/09/7-scaled.jpg?ssl=1" data-amp-layout="responsive"/></figure></div></div></div></div>



<div style="height:20px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<p class="has-text-align-center has-small-font-size"><em><strong>Imagens 1 e 2</strong> – Declaração de Eduardo de Menezes atestando a autoria da tradução (foto 1) e traduções a lápis, feitas pelo imperador (foto 2).</em></p>



<div style="height:33px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<p>Campoamor não foi o único, mas um dos autores que fizeram parte do repertório de traduções do imperador. Conhecido como “mecenas das artes, das letras e da ciência”, o segundo imperador do Brasil dedicou-se desde cedo à leitura e ao estudo dos idiomas, como grego, latim, inglês, francês, italiano, provençal, alemão, hebraico, sânscrito, além do tupi-­guarani. Como parte de sua rotina diária, traduzia diversas obras clássicas, como <em>As mil e uma noites</em>, <em>Odisseia</em>, <em>Os Lusíadas</em>, trechos bíblicos, dentre outros, para diversas línguas. No decorrer da viagem do exílio, o monarca destronado, já idoso, com o estado de saúde debilitado e sentindo o progressivo comprometimento de sua autonomia na dedicação às letras, não abriu mão de manter sua rotina de leituras e traduções. Em diversos momentos, pedia a familiares e amigos que lhe fizessem leituras em voz alta e o auxiliassem nas transcrições. Em 22 de novembro de 1889, ainda a bordo do Alagoas, mencionava a cópia que fizera de um poema de autoria não mencionada, entregue ao médico Motta Maia, justificando que “sem os seus cuidados não poderia tê-lo feito”.</p>



<p>Os temas filosóficos contemplados por <em>El Licenciado Torralba </em>parecemfamiliares ao interesse do velho imperador, que, na infância, acostumara-se a repetir, em seus exercícios de caligrafia, a máxima aristotélica “A felicidade é um hábito”. Leitor assíduo dos filósofos, parece relevante supor que seu erudito repertório intelectual estivesse permeado de complexos dilemas, como os antigos dualismos entre matéria e espírito, corpo e alma, homem e mulher, céu e inferno, virtude e vício, moral e hipocrisia, etc.</p>



<p>No livro, Campoamor aborda a saga de um homem, Torralba – personagem inspirado num dos condenados pelo Tribunal do Santo Ofício espanhol, no século XVI – e de uma mulher (Catalina). O autor traz à tona alguns conflitos humanos enfrentados na busca da felicidade. A felicidade estaria centrada no prazer da carne ou no espírito? Na pureza ou no pecado? Na verdade ou na mentira/hipocrisia? No conhecimento ou na ignorância? Catalina, após buscar a felicidade no anjo, no homem e no diabo, escolhe o caminho da glória e da salvação. Torralba, por sua vez, após buscar a felicidade no amor puramente espiritual da mulher, sente falta dos prazeres carnais, o que o leva a produzir Muliércula, uma mulher de pura matéria. Logo em seguida, descobre que Muliércula precisava de um espírito que animasse sua matéria, e decide ir ao inferno à sua procura. Porém, também desiste de procurar a felicidade no inferno, para, no final das contas, procurá-la na morte, materializada em sua condenação pela inquisição. Entendida como a metáfora do mais profundo niilismo e vazio, a iminência da morte encorajou Torralba a denunciar as hipocrisias, mentiras, injustiças e manipulações humanas, inclusive as cometidas sob a tutela da moral religiosa. </p>



<p>Concluída a tradução, o monarca teria doado o livro ao Conde de Motta Maia, médico de sua confiança, que o acompanhou durante toda a viagem. Tempos depois, o exemplar chegou às mãos de Eduardo de Menezes. Não é difícil entender o destino do livro, uma vez que Menezes e Motta Maia estavam conectados à mesma rede de relações sociais. Nascido em Niterói (RJ) em 1857 e formado médico pela Escola de Medicina do Rio de Janeiro na década de 1880, Menezes realizou cursos no exterior, esteve em exercício na Casa Imperial, foi professor adjunto da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro e casou-se com a sobrinha de Motta Maia, Maria do Carmo. A proximidade do médico com o círculo de sociabilidade do imperador pode ser verificada, inclusive, nos famosos diários do monarca, em dezembro de 1887: “[&#8230;] falava com o Dr. Eduardo de Menezes parente do Mota Maia – acaba de frequentar cursos na Escola de Medicina de Viena e a mulher dele. [&#8230;] Escrevi cartas para Charcot, Brown Séquard e German See recomendando o Dr. Eduardo de Menezes, casado com a sobrinha do Mota Maia.”</p>



<div style="height:20px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



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<div style="height:20px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<p class="has-text-align-center has-small-font-size"><em><strong>Imagem 3, 4 e 5</strong> &#8211; Imperador D. Pedro II e o médico Conde de Motta Maia. Acervo do Museu Mariano Procópio (MG).</em> &#8211; Eduardo de Menezes e sua esposa, Maria do Carmo, sobrinha do médico do imperador, Conde de Motta Maia. Acervo do Museu Mariano Procópio (MG).</p>



<p>A tradução de D. Pedro II, até onde se sabe, não chegou a ser publicada, não derivando daí a explicação para a ampla difusão da obra de Campoamor por diversos países da América Latina. No Brasil, curiosamente, o escritor se tornou um dos cognomes do poeta Belmiro Braga (1870-1937), natural de Juiz de Fora. Nacionalmente conhecido como “Campoamor Mineiro” nas três primeiras décadas do século XX, Belmiro se confessava leitor do escritor espanhol, além de arriscar algumas “traduções amadoras” ou “bárbaras” (segundo ele mesmo dizia) de seus poemas para o português, conforme escreveu ao amigo poeta Antonio Salles, em 1909. Ironicamente, o poeta explicava que não era “culpado” por assim o denominarem, dizendo que nenhum protesto contra o atrevimento dessa comparação havia acontecido porque, quando ela surgiu, Campoamor já havia falecido. Reservadas as devidas proporções e especificidades, o fato é que as produções literárias do trovador popular mineiro e as do poeta espanhol possuíam características em comum, como a ironia romântica, a poética reflexiva, o olhar atento aos costumes cotidianos, bem como o uso de uma linguagem palatável a um público mais amplo e heterogêneo, favorecendo apropriações de seus versos pela oralidade.</p>



<p>Belmiro Braga, Eduardo de Menezes e Alfredo Lage, além de se conhecerem, eram homens de letras bastante ativos na sociedade juizforana. Os três compartilhavam espaços de sociabilidade muito conhecidos em Minas Gerais, como a Academia Mineira de Letras, fundada em 1909, da qual Eduardo e Belmiro eram membros fundadores, sendo o primeiro presidente até 1915 e o segundo, tesoureiro. No instituto educacional metodista <em>Granbery</em>, Menezes e Belmiro atuaram, respectivamente, como professor da Escola de Farmácia e Odontologia e inspetor de ensino secundário. Menezes também foi membro fundador da <em>Liga Mineira contra a Tuberculose</em>, fundada em Juiz de Fora em 1900, com o objetivo de estudar os tratamentos e os métodos profiláticos da referida doença e oferecer suporte filantrópico aos pacientes. Belmiro e Alfredo eram também sócios e assíduos frequentadores das reuniões da <em>Liga</em>, além de colaborarem no jornal <em>O Pharol</em>.</p>



<p>Vale destacar ainda que, em 1921, Alfredo Lage se notabilizava em seu projeto de inauguração oficial do Museu Mariano Procópio. Oriundo de abastada família do Império, com intensas relações com a família imperial, Alfredo Lage manteve os vínculos com os imperiais durante a Primeira República e arrogava para si o papel de guardião das memórias do pai, Mariano Procópio Ferreira Lage (1821-1872), e da monarquia brasileira, em tempos de transição para o regime republicano. Nesse sentido, amealhou diversos objetos relacionados à monarquia, através de leilões e doações efetuadas por pessoas ligadas à sua rede de sociabilidade. O exemplar <em>El Licenciado Torralba</em> faz parte dessa lista, embora tenha sido doado mais tarde, em 1941, por Eduardo de Menezes Filho, conforme atesta o relatório apresentado pela Prefeitura Municipal de Juiz de Fora ao governo de Minas Gerais: “Dentre as doações recebidas, deve-se destacar a do ilustre conterrâneo Dr. Eduardo de Menezes Filho, cuja doação é uma relíquia de História e Literatura, <em>El Licenciado Torralba</em>, de Campoamor, com tradução, entre linhas do próprio punho de nosso grande Imperador D. Pedro II”. Há de convir, portanto, que a aquisição dessa obra se mostra coerente com o colecionismo do fundador e suas redes de sociabilidade, sendo importante situá-la historicamente nos termos de uma prática colecionista atrelada aos esforços de perpetuação da memória monárquica brasileira.</p>



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<p><strong>REFERÊNCIAS</strong></p>



<p>DAROS, Romeu Porto. Dom Pedro II: o imperador tradutor. <em>Scientia Traductionis</em>, n. 11, 2012. Disponível em: <a href="http://dx.doi.org/10.5007/1980-4237.2012n11p227">http://dx.doi.org/10.5007/1980-­4237.2012n11p227</a>.</p>



<p>MUSEU IMPERIAL DE PETRÓPOLIS. <em>Diários pessoais do Imperador D. Pedro II</em>.</p>



<p>PINHEIRO, Priscila da Costa; VICENTE, Sérgio Augusto Vicente. Aprendiz de Imperador. <em>Revista de História da Biblioteca Nacional</em>, Rio de Janeiro, ano 10, n. 110, novembro de 2014, p. 68-71.</p>



<p>ROMANELLI, Sérgio.&nbsp; O Imperador do Brasil e suas traduções:uma nova leitura (ou a primeira?). <em>Caderno de Letras</em>, n. 23, jul. 2013-jan. 2014.</p>



<p>RUIZ, Ricardo Navas. <em>Campoamor y la ironía romântica:</em>reflexiones sobre <em>El licenciado Torralba. </em>Disponível em:http://www.cervantesvirtual.com/obra-visor/campoamor-y-la-ironia-romantica-reflexiones-sobre-el licenciado-torralba/html/ee04c491-2e03-4e03-9114-11142ff78886_2.html#I_0. Acesso em 19/03/2021. SCHWARCZ, Lilia Moritz. <em>As barbas do Imperador:</em> D. Pedro II, um monarca nos trópicos. São Paulo: Cia. Das Letras, 1998.</p>



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<p><strong><strong><strong><strong>Sérgio Augusto Vicente</strong></strong></strong></strong> é Professor de História e historiador. Graduado, mestre e doutorando em História pelo PPGHIS/UFJF. Atualmente, trabalha no Museu Mariano Procópio – Juiz de Fora – MG. Dedica-se a pesquisas relativas ao campo da história social da cultura/literatura, sociabilidades, trajetórias e memórias.</p>
</div></div>



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		<title>SOBRE BRUNZUNDANGAS E MITOS</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 02 May 2021 21:29:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 089]]></category>
		<category><![CDATA[Crônica Crítica]]></category>
		<category><![CDATA[História do Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[História e Política]]></category>
		<category><![CDATA[Sérgio Augusto Vicente]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: Sérgio Augusto Vicente</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Quem nunca ouviu falar de <em>Os Bruzundangas</em>? Pois então: confesso que sempre desejei profundamente possuí-lo. Num fatídico final de tarde de 2017, retornando a pé do trabalho para casa, entro na primeira livraria que encontro no centro de Juiz de Fora.</p>



<p>Com a cara sisuda, de estudioso da história social da literatura brasileira, dirijo-me à vendedora:</p>



<p>&#8211; Por acaso você teria <em>Os Bruzundangas </em>aí?</p>



<p>&#8211; Bruzu&#8230; o quê, moço? &#8211; Risos da vendedora.</p>



<p>Sigo aguerrido na jornada, dirigindo-me ao sebo ao lado: “Por favor, você tem <em>Os</em> <em>Bruzundangas</em> para vender?” Ao que o balconista me responde: “Tem isso aqui não, rapaz!”. Como brasileiro não desiste nunca, perseverei em outra freguesia: “Estou à procura de <em>Os</em> <em>Bruzundangas</em>, senhor! Tem aí?” Mais uma vez, perguntei como se o mundo inteiro tivesse obrigação de conhecer a sátira política que Lima Barreto escreveu sobre o Brasil, lá na Primeira República.</p>



<p>Mais difícil do que encontrar o livro é manter a seriedade ao pronunciar seu título para alguém – sobretudo quando esse alguém desconhece sua existência. Definitivamente, como é difícil ser caçador de bruzundangas nessa vida!</p>



<p>&#8211; <em>Os</em> <em>Bruzundangas</em>, por favor!</p>



<p>Finalmente acho o que tanto procuro, depois de inúmeras visitas às livrarias e sebos da Manchester Mineira. Efetuo o pagamento. Olho para a estante ao lado e me deparo com o clássico <em>O Grande Mentecapto</em>, de Fernando Sabino, livro que jamais sairá das minhas memórias literárias. Aliás, outra paródia muito pertinente do Brasil.</p>



<p>Contive-me, falando comigo mesmo: “Para com isso! Você precisa economizar! Você já leu este livro! Para que comprá-lo?!” Em poucos segundos, veio-me a ideia de oferecer em troca um exemplar de autoajuda, com que fui presenteado no amigo oculto da família, no Natal passado, que pesava minha mochila.</p>



<p> &#8211; Por esse daí não dá para trocar, rapaz, infelizmente. – Respondeu-me o vendedor, interrompendo a conversa empolgada e “gesticulante” que estabelecia com um amigo, sobre os rumos políticos do Brasil.</p>



<p>Desviei o olhar para a estante ao lado do caixa. Percorri os exemplares ali disponíveis, enquanto o vendedor voltava a revelar seus planos para o Brasil: &#8220;Mas esse Sérgio Moro é foda mesmo. Está colocando todos os corruptos no paredão. Candidatando-se à presidência, terá meu voto garantido.&#8221;</p>



<p>Eis que, de repente, um livro de lombada amarela me chama atenção. Era uma biografia. Não uma biografia qualquer. Tratava-se da biografia de Lula, de autoria de Denise Paraná. Não perdi tempo. Como quem não desiste do jogo até os últimos milésimos do segundo tempo, lancei minha cartada final:</p>



<p> &#8211; E por este aqui, amigão, você troca? &#8211; Afinal, perguntar não magoa e não custa nada.</p>



<p>&#8211; Deixe-me ver&#8230; Ah, sim! Claro! &#8211; Respondeu resolutamente o vendedor.</p>



<p>Nunca tive vocação e talento para o mundo dos negócios. Afinal de contas, se nós, historiadores, tivéssemos para negociar o mesmo dom que temos para problematizar o mundo, estaríamos todos bilionários. Mas o fato é que, naquele momento, fiquei orgulhoso da minha perspicácia. Por um instante, um lapso de vaidade me fez acreditar cegamente na meritocracia. O vendedor, por sua vez, estampava um suave sorriso no rosto, num misto de satisfação e ironia.</p>



<p>&#8211; Valeu, companheiro! Volte sempre!</p>



<p>Tomei o rumo da rua. Senti que, dentro da loja, a prosa voltava animada entre o vendedor e seu fiel interlocutor. Agora, contudo, de forma um pouco mais contida, polida, em tom de voz moderado, como um cochicho ao pé do ouvido. Eu, enquanto isso, concentrava-me em seguir o sentido esquerdo da calçada, em direção à rua Halfeld&#8230;</p>



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<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:22% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img loading="lazy" decoding="async" width="599" height="601" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/ed01b-sergio.png?resize=599%2C601&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-13196 size-full" srcset="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/ed01b-sergio.png?w=599&amp;ssl=1 599w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/ed01b-sergio.png?resize=300%2C300&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/ed01b-sergio.png?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w" sizes="(max-width: 599px) 100vw, 599px" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p><strong><strong><strong><strong>Sérgio Augusto Vicente</strong></strong></strong></strong> é Professor de História e historiador. Graduado, mestre e doutorando em História pelo PPGHIS/UFJF. Atualmente, trabalha no Museu Mariano Procópio – Juiz de Fora – MG. Dedica-se a pesquisas relativas ao campo da história social da cultura/literatura, sociabilidades, trajetórias e memórias.</p>
</div></div>



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		<title>PARA QUE DISCUTIR COM MADAME?</title>
		<link>https://revistatrama.artebodoque.com/2021/04/18/para-que-discutir-com-madame/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 18 Apr 2021 21:24:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 087]]></category>
		<category><![CDATA[Crônica Crítica]]></category>
		<category><![CDATA[História do Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[História e Política]]></category>
		<category><![CDATA[Sérgio Augusto Vicente]]></category>
		<category><![CDATA[Voto consciente]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: Sérgio Augusto Vicente</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Andando pelo shopping no sábado de manhã, uma elegante Senhora passa em frente à livraria e resolve adentrar o espaço. Exausta da árdua missão de escolher um vestido para a festa da amiga, permitiu-se relaxar por um instante.&nbsp; Mais do que depressa, pediu ao vendedor que lhe sugerisse um livro de História do Brasil; afinal, é tempo de eleição, de fazer escolhas certas. Para isso, nada melhor do que conhecer um pouco mais a trajetória do próprio país. Sem titubear, o rapaz responde:</p>



<p>&#8211; Naquela estante ali, à esquerda, tem vários exemplares.</p>



<p>&#8211; Não teria um mais resumido, mais didático? – Perguntou a Senhora.</p>



<p>&#8211; Se é esse o caso, indico aqueles outros ali, à direita. Podem ser do seu agrado.</p>



<p>Depois de uma hora, perdida em meio a tantos livros, a Senhora ainda não se decidira sobre qual deles levar para casa:</p>



<p>&#8211; É impressionante como não se fazem empregados como antigamente! – Resmungou a mulher com o cliente ao lado.</p>



<p>&#8211; O que a Senhora disse? – Perguntou o vendedor.</p>



<p>&#8211; Nunca vi tanta incompetência numa só pessoa! Estou aqui há uma hora e a única coisa que você conseguiu fazer até agora foi me deixar confusa, completamente perdida! O que você está fazendo aqui, meu filho, se não é útil à função que lhe pagam para executar?! É por isso que esse país não vai pra frente!</p>



<p>&#8211; Desculpe-me, Senhora! Não foi esse o meu propósito! &#8211; o rapaz se apressa e pega um volume na prateleira &#8211; Tenho este aqui: “Raízes do Brasil”, de Sérgio Buarque de Holanda.</p>



<p>&#8211; Chega! Não quero saber de ervas típicas do Brasil, meu querido!</p>



<p>&#8211; Acalme-se, Senhora! Temos este outro aqui: “Formação das Almas”, de José Murilo de Carvalho.</p>



<p>&#8211; Ah! Era só essa que me faltava! Se você ainda não entendeu, estou à procura de livro de História do Brasil, e não de espiritismo! Exijo respeito aos meus princípios! Sou Católica Apostólica Romana! &#8211; ela olha ao redor &#8211; Cadê o gerente?! Traga-me seu superior aqui, agora!</p>



<p>Imediatamente, chega o gerente, todo disposto a ouví-la:</p>



<p>&#8211; Pois não, minha Senhora! No que posso servi-la?</p>



<p>&#8211; É esse rapaz aqui, que conseguiu me tirar do sério! – Indignou-se a mulher, relatando os pormenores da situação.</p>



<p>&#8211; Não precisa se aborrecer, minha Senhora! Se nenhuma dessas opções lhe agradou, tenho esta aqui, que pode ser um bom começo: &#8220;História do Brasil pelo método confuso&#8221;, de Mendes Fradique. Leia-o e volte para nos contar o que achou. Tenho certeza de que será uma leitura surpreendente!</p>



<p>Dando-se por satisfeita, a cliente adotou a sugestão. Pagou a mercadoria e, carinhosamente, depositou-a na bolsa <em>Louis Vuitton</em> que segurava às mãos. Os reais motivos, ninguém descobriu; mas o fato é que, até hoje, vendedor e gerente continuam sem saber a opinião da elegante Senhora&#8230;</p>



<p></p>



<div class="wp-block-image"><figure class="aligncenter size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/ecf6b-whatsapp-image-2021-04-18-at-13.19.32.jpeg?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-15317" data-recalc-dims="1" /></figure></div>



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<p><strong><strong><strong><strong>Sérgio Augusto Vicente</strong></strong></strong></strong> é Professor de História e historiador. Graduado, mestre e doutorando em História pelo PPGHIS/UFJF. Atualmente, trabalha no Museu Mariano Procópio – Juiz de Fora – MG. Dedica-se a pesquisas relativas ao campo da história social da cultura/literatura, sociabilidades, trajetórias e memórias.</p>
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		<title>O meteorito de Bendegó: a saga de um símbolo de resistência do Museu Nacional</title>
		<link>https://revistatrama.artebodoque.com/2020/11/01/o-meteorito-de-bendego-a-saga-de-um-simbolo-de-resistencia-do-museu-nacional/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 01 Nov 2020 21:25:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 069]]></category>
		<category><![CDATA[História do Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[Meteorito de Bendegó]]></category>
		<category><![CDATA[Museu Mariano Procópio]]></category>
		<category><![CDATA[Resistência do Museu Nacional]]></category>
		<category><![CDATA[Rosane Carmanini]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Rosane Carmanini</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>A saga do Bendegó, o maior meteorito já encontrado em solo brasileiro, ganhou novos contornos, de epopeia e dramaticidade, após o trágico incêndio do Museu Nacional em setembro de 2018, tornando-se símbolo da resistência dessa renomada instituição.</p>



<p>Se o relatório de transferência da rocha do sertão baiano para o Rio de Janeiro já tinha importância científica e histórico-cultural, o incêndio viria reforçar a relevância deste documento, dando-lhe novos significados e dimensões. De tiragem limitada, um dos exemplares do relatório está preservado no acervo bibliográfico do Museu Mariano Procópio, em Juiz de Fora.</p>



<figure class="wp-block-image"><img decoding="async" src="https://bodoqueonlineart.files.wordpress.com/2021/12/b271c-img-20201030-wa0010.jpg?w=950&#038;h=682" alt="" class="wp-image-12575" data-recalc-dims="1"/></figure>



<p>O Bendegó é o maior meteorito brasileiro conhecido até os dias atuais e o 16º maior meteorito já encontrado no mundo, pesando 5,36 toneladas, medindo 2,20 metros de comprimento. É do tipo siderito, composto basicamente por ferro e níquel.&nbsp; Foi descoberto em 1784, pelo menino Domingos da Motta Botelho, sobre uma elevação próxima ao Rio Vaza Barris, a 48 km da cidade de Monte Santo e a 180 metros do riacho de Bendegó, que daria nome ao meteorito. O termo “bendegó” é de origem indígena e, na língua dos índios Kiriri, significa “pedra do céu” ou “vinda do céu”.</p>



<p>Logo após a localização do meteorito, em 1785, o governador D. Rodrigues Menezes ordenou o transporte da rocha até a capital Salvador, o que resultou na primeira tentativa de retirada da rocha, por uma equipe liderada pelo Capitão-mor de Itapicuru. No entanto, devido às dificuldades para o transporte em decorrência do seu peso, o meteorito caiu no leito rio Bendegó, onde permaneceu por mais de cem anos, e a empreitada foi abandonada. O fato foi comunicado ao Ministro de Estado de Portugal, ocasião em que foram enviados alguns fragmentos do material para a Coroa Portuguesa.</p>



<p>Em 1820, durante a expedição dos naturalistas alemães Spix e Martius, acompanhada de Domingos da Motta, foram extraídos mais alguns fragmentos do meteorito, que foram doados ao Museu de Munique. Em 1886, o Imperador D. Pedro II tomou conhecimento da história do Bendegó durante uma visita à Academia de Ciências de Paris, e se dispôs a providenciar o transporte da rocha para o Rio de Janeiro. A doação financeira que custeou o transporte foi feita pelo Barão de Guahy, Joaquim Elysio Pereira Marinho.</p>



<p>Com a disponibilização dos recursos para a transferência da rocha, a expedição teve início. Puxado por bois e deslizando sobre trilhos durante 126 dias, o meteorito percorreu 113 km até a Estação de Ferro Jacuricy.&nbsp; Do sertão baiano, seguiu de trem para Salvador, onde ficou em exposição durante 5 dias, embarcando na locomotiva a vapor “Arlindo” em 1º de junho, a caminho de Recife e, posteriormente, para o Rio de Janeiro, onde foi recebido pela Princesa Isabel.</p>



<p>No local da &#8220;descoberta&#8221; do meteorito, foi construído o obelisco de D. Pedro II, em forma de pirâmide, com inscrições celebrativas que homenageavam o Imperador, a Princesa Isabel e outros personagens &#8211; incluindo os engenheiros responsáveis pela transferência do meteorito. Outro obelisco foi construído na estação ferroviária de Jacurici, o Obelisco de Bendegó, que celebrava o sucesso da empreitada de transferência da rocha.</p>



<p>Mas a retirada da rocha do seu local original gerou controvérsias, especialmente entre os sertanejos. O marco original de localização do meteorito, denominado D. Pedro II, foi destruído por moradores locais, que após um longo período de seca, interpretaram a estiagem como um castigo divino pela retirada da rocha espacial do seu local original. Mesmo que outro marco tenha sido construído, a transferência do meteorito de Bendegó continuou povoando o imaginário sertanejo, tanto que se tornou tema de literatura de cordel:</p>



<pre class="wp-block-verse has-text-align-right"><em>"A pedra constituída
De Ferro, Níquel e encanto.
Até o dia de hoje
Provoca tristeza e encanto
Queremos nossa pedra de volta
De volta pro nosso canto."

</em>—A Saga da Pedra do Bendegó</pre>



<p>A comissão responsável pela transferência do Meteorito de Bendegó da província da Bahia para o Museu Nacional, no Rio de Janeiro, foi composta por José Carlos de Carvalho – Chefe da Comissão e ex-oficial da Marinha de Guerra Nacional, conforme informado no próprio relatório &#8211; e pelos engenheiros civis Humberto Saraiva Antunes e Vicente José de Carvalho. Desde então, o meteorito permaneceu em exposição no Rio de Janeiro, no Museu Nacional.</p>



<p>Já de posse do Museu Nacional, o Meteorito de Bendegó sofreu um corte de aproximadamente 60 kg, e seus fragmentos foram enviados a 14 museus do mundo, entre eles os Museus de Londres, Berlim e Viena. Ainda foram produzidas quatro réplicas da rocha, em tamanho real. A primeira, em madeira, figurou na Exposição Universal de Paris em 1889, por ocasião das comemorações do centenário da Revolução Francesa, e está atualmente no Museu Nacional de História Natural, em Paris. A segunda réplica, em gesso, feita na década de 1970, está no Museu do Sertão em Monte Santo, próximo ao lugar onde o meteorito foi originalmente localizado. Outras duas se encontram no Museu Geológico da Bahia em Salvador, e no Museu Antares de Ciência e Tecnologia, em Feira de Santana.</p>



<p>Toda a saga de transferência do meteorito culminou na produção do relatório citado anteriormente, apresentado ao Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Públicas, e à Sociedade de Geografia, editado no Rio de Janeiro em 1888, pela Imprensa Nacional, em dois idiomas &#8211; francês e português. Apresenta 19 fotografias originais anexadas ao longo do texto, na versão em português. As imagens do relatório são de autoria do fotógrafo Marc Ferrez – composição com os retratos dos membros da Comissão – e de Humberto Antunes, engenheiro civil que participou da Comissão de transferência do Bendegó.</p>



<figure class="wp-block-image"><img decoding="async" src="https://bodoqueonlineart.files.wordpress.com/2021/12/1666b-img-20201030-wa0021.jpg?w=950&#038;h=746" alt="" class="wp-image-12576" data-recalc-dims="1"/></figure>



<p>O relatório demonstra um dos mais significativos usos e funções da fotografia no século XIX, que se refere ao registro documental. Interessante ressaltar que parte da documentação iconográfica foi feita pelo próprio engenheiro civil que compunha a comissão &#8211; e não tinha, na fotografia, um ofício remunerado.&nbsp;</p>



<p>O sentido do relatório é dado essencialmente pelo texto. As imagens são acompanhadas por legendas identificando o local fotografado e/ou o título da fotografia, apresentando-se emolduradas, e em sua maioria, no formato retangular horizontal.</p>



<p>O documento é composto de uma carta inicial, datada de 20 de agosto de 1888, escrita no Rio de Janeiro, por José Carlos de Carvalho ao Ministro da Agricultura, Comércio e Obras Públicas. Junto ao meteorito, foram transferidos fragmentos de rochas e as fotografias que compõem o relatório, conforme lista de objetos apresentada pelo Chefe da Comissão. Traz ainda uma planta e perfil longitudinal do trecho percorrido pelo meteorito, um histórico do Meteorito de Bendegó e das tentativas realizadas anteriormente para sua remoção, notícias de meteoritos, plantas e mapas da região, além do diário da transferência.</p>



<p>O exemplar do relatório que faz parte do acervo Bibliográfico do Museu Mariano Procópio possui número de arrolamento, fazendo parte, portanto, da Coleção de Alfredo Ferreira Lage à época de seu falecimento. No entanto, como uma réplica do meteorito foi enviada à França para a Exposição Universal de 1889, é possível que o relatório tenha pertencido à Família Cavalcanti, tendo em vista a participação direta dos Viscondes de Cavalcanti no evento. Essa hipótese relaciona o relatório ao contexto da participação brasileira nas exposições universais e, consequentemente, ao acervo relacionado ao tema no Museu Mariano Procópio. De volta ao meteorito, são bastante emblemáticas as imagens veiculadas pela mídia, dos escombros do incêndio à sua volta, no hall de entrada do museu. Mas o Bendegó resistiu. O descaso com o patrimônio museológico brasileiro gerou mais um capítulo na saga e na biografia do Meteorito de Bendegó, transformando-o no símbolo da resistência e sobrevivência do Museu Nacional.</p>



<hr class="wp-block-separator"/>



<p><strong>Referências</strong></p>



<p>BRAGA, Jesulino. A pedra que veio lá do infinito: o meteorito de Bendegó e o Museu Nacional. Concinnitas, ano 19, número 34, dezembro de 2018, p. 147 -164.</p>



<p>CARVALHO, José Carlos de. Météorite de Bendégo – Rapport présenté au Ministère de L’Agriculture, du Commerce et des Travaux Publics et à la Société de Geographie de Rio de Janeiro sur le déplacement et les transport du Météorite de l’intérieur de la province de Bahia au Musée National. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1888.</p>



<p>FERRAZ, Rosane Carmanini. Catálogo de fotografias oitocentistas: O relatório do Meteorito de Bendegó. Fundação Museu Mariano Procópio,</p>



<p>KOSSOY, Boris. Fotografia e história. São Paulo: Editora Ática, 1989.</p>



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<p><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong>Rosane Carmanini Ferraz </strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong>é professora de história e historiadora, atuando no Departamento de Acervo Técnico e Ações Culturais da Fundação Museu Mariano Procópio e na Fundação CAEd (UFJF), em cursos de Especialização e Mestrado em Gestão da Educação Pública. Desenvolveu pesquisa de doutorado em História (UFJF), intitulada “A coleção de fotografias do Museu Mariano Procópio e as sociabilidades no Brasil oitocentista”. Tem como principais áreas de interesse: viagens, cultura, cinema, artes visuais (em especial, a fotografia) e artesanato.</p>



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<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-large-font-size">Galeria: artistas para seguir na quarentena</p>



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		<title>O Livro que o Imperador corrigiu</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 23 Aug 2020 21:28:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 059]]></category>
		<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[História do Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[juiz de fora]]></category>
		<category><![CDATA[Museu Mariano Procópio]]></category>
		<category><![CDATA[Sérgio Augusto Vicente]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Sérgio Augusto Vicente</p>
<p>O post <a rel="nofollow" href="https://revistatrama.artebodoque.com/2020/08/23/o-livro-que-o-imperador-corrigiu/">O Livro que o Imperador corrigiu</a> apareceu primeiro em <a rel="nofollow" href="https://revistatrama.artebodoque.com">Revista Trama</a>.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="has-drop-cap">As pesquisas realizadas com o acervo da Biblioteca e do Arquivo Histórico do Museu Mariano Procópio me colocaram em contato com agradáveis surpresas. A descoberta do livro <em>Império do Brasil na Exposição Universal de 1873 em Viena d’Áustria </em>foi uma delas. Atento às características que tornam as obras únicas, raras e especiais, um dos aspectos que me saltaram aos olhos foi a presença de significativo número de anotações nas margens das páginas e no corpo do texto. Logo de início, deparo-me também com um manuscrito a caneta, datado de 1874, informando que as anotações a lápis são “de próprio punho de S. Majestade O Imperador”. Isso mesmo: de D. Pedro II. Antonio Martins Pinheiro era o autor dessa declaração. Considerando-se admirador do segundo imperador do Brasil, este informa ter recebido o referido exemplar pelas mãos da viúva de um amigo, Marcos Antonio Ribeiro Monteiro de Barros, o “primeiro oficial da Secretaria de Estado dos Negócios da Agricultura, Comércio e Obras Públicas” que teria sido um dos colaboradores dessa publicação: “a viúva fez-me o presente [&#8230;] em sinal de lembrança do amigo e por saber quanto eu apreciava este manuscrito.” </p>



<p>Corroborando a autenticidade das correções feitas pelo imperador, logo abaixo do manuscrito de Antonio Martins consta outra declaração, de próprio punho, redigida por Cândido José de Araújo Viana (1793-1875), o Marquês de Sapucahy: “Atesto que as correções feitas a lápis são do punho de S. Majestade O Imperador, do que tenho pleno conhecimento. Rio de Janeiro, 3 de dezembro de 1874. / Marquês de Sapucahy”.&nbsp;</p>



<p>Marquês de Sapucahy (título de nobreza recebido em 1872) era, sem dúvida, um dos melhores nomes para atestar a autoria e autenticidade daquelas correções. Além de já ter ocupado vários cargos públicos de grande destaque no Império, como o de conselheiro de Estado – cuja função era auxiliar o imperador nas tomadas de decisão –, Sapucahy participou diretamente da formação intelectual do jovem Pedro, sendo seu mestre de literatura quando este ainda se preparava para assumir o trono brasileiro. E, anos mais tarde, também foi mestre de suas futuras filhas, as princesas Isabel e Leopoldina.</p>



<figure class="wp-block-image"><img decoding="async" src="https://bodoqueonlineart.files.wordpress.com/2021/12/6ed87-1-2.jpg?w=950&#038;h=288" alt="" class="wp-image-11684" data-recalc-dims="1"/><figcaption>Declaração de Marquês de Sapucahy sobre a autenticidade das anotações de D. Pedro II. Foto: Sérgio A. Vicente.</figcaption></figure>



<figure class="wp-block-image"><img decoding="async" src="https://bodoqueonlineart.files.wordpress.com/2021/12/cf583-2-1.jpg?w=950&#038;h=1024" alt="" class="wp-image-11685" data-recalc-dims="1"/><figcaption>Manuscrito de autoria de Antonio Martins Pinheiro, datado de 1874, que apresenta as “provas corrigidas” pelo imperador. Foto: Vinicius Ribeiro.</figcaption></figure>



<p>Mas, afinal de contas, que tipos de correções teria feito o segundo imperador do Brasil nessa obra? Por que o fez? Com que propósito? São muitas perguntas&#8230; Primeiramente, é preciso tomar conhecimento do tema contemplado pela publicação: conforme o próprio título já diz, trata-se da Exposição Universal de 1873, realizada em Viena, na Áustria. Como de praxe, esse tipo de publicação tinha a função de apresentar/ representar o Brasil nesse evento internacional. Além disso, propunha-se a estimular e promover a imigração para o Império.</p>



<p>Essa não era a primeira vez em que o Brasil participava de uma exposição universal. Bastante famosas no século XIX, período marcado pelo advento das grandes novidades tecnológicas, as exposições universais eram realizadas periodicamente, sendo concebidas como uma espécie de “vitrines do progresso”. Através delas, o visitante se inteirava do que havia de mais moderno no mundo da ciência. Cada país participante desse evento fazia sua exposição em pavilhões. Apesar de ser um Estado-nação ainda muito jovem, em franco processo de consolidação, o Brasil não deixou de marcar frequência e até mesmo certo espaço nesses eventos, divulgando sua imagem para o mundo, ainda que uma imagem indissociavelmente ligada à natureza e ao exótico.</p>



<p>A cada exposição, formava-se uma delegação “composta de homens ilustrados e científicos” responsáveis por organizar a participação do Brasil no evento. Mariano Procópio Ferreira Lage (1821-1872) chegou, inclusive, a integrar a delegação brasileira na Exposição Universal de 1867, em Paris. Dentre as atribuições dessa delegação, estava a tarefa de reunir dados e informações sobre o Brasil, como suas características geográficas, climáticas, relevo, aspectos da flora, fauna, progressos científicos e tecnológicos, número de escolas, associações científicas, literárias e de instrução, percentual de alfabetizados, aparato militar, organização política, principais periódicos em circulação no território nacional, estatísticas em geral e outras informações julgadas relevantes.</p>



<p>Acontece, porém, que a precisão dessas informações nem sempre era garantida, devido à precariedade das instituições em uma incipiente nação. Antonio Martins Pinheiro lamentava que o amigo ressentisse da falta de vários “dados positivos” no texto, atribuindo a isso o desinteresse de muitos administradores. Segundo ele, se não fossem os esforços pessoais do próprio “Chefe do Estado” [D. Pedro II], o Brasil não teria conseguido figurar “entre as nações civilizadas”, demonstrando “quão rico solo e natureza possui, e que brilhante futuro o espera.”&nbsp;</p>



<p>Exaltando a imagem de D. Pedro II como um monarca ilustrado, Antonio o considerava “infatigável”, admirando-o pela dedicação empregada nesse trabalho de correção do texto. E prosseguia citando as palavras do amigo Marcos Antonio: “[&#8230;] uma vez mandei à S. Cristóvão as provas a corrigir; nessa noite fui ao teatro lírico e lá encontrei S. Majestade que se demorou até perto de uma hora; no dia seguinte chegando à Secretaria, surpreendeu-me saber antes das nove horas da manhã, uma ordenança entregara as ditas provas (são duzentas folhas) corrigidas e anotadas com observações concernentes à história, geografia, estatística&#8230; Basta analisar estas anotações para se ajuizar da variedade dos conhecimentos do Sr. D. Pedro 2º, sua imparcialidade e o minucioso cuidado que empregou para que este trabalho fosse o mais perfeito possível.”</p>



<p>Sabe-se que D. Pedro II, conhecido como “amante das letras, das artes e da ciência”, tinha particular interesse pela chamada inserção do Brasil na modernidade europeia. Não surpreende, portanto, que ele fosse um dos maiores entusiastas da participação do país nas exposições universais. No livro da Exposição de 1873, observamos grande número de correções que abrangem um universo bastante amplo do conhecimento, como a recomendação de “todo cuidado nos nomes científicos e sua ortografia”, unidades de medida, estrutura sintática das frases e até mesmo comentários acerca da diagramação do texto – como o espaçamento entre as linhas, de modo a tornar a leitura mais agradável. Uma característica dos homens eruditos e detentores de conhecimentos enciclopédicos no século XIX.</p>



<figure class="wp-block-image"><img decoding="async" src="https://bodoqueonlineart.files.wordpress.com/2021/12/7b387-6-2.jpg?w=950&#038;h=591" alt="" class="wp-image-11687" data-recalc-dims="1"/></figure>



<figure class="wp-block-image"><img decoding="async" src="https://bodoqueonlineart.files.wordpress.com/2021/12/d3119-5-1.jpg?w=950" alt="" class="wp-image-11688" data-recalc-dims="1"/><figcaption>Anotações feitas por D. Pedro II. Vale destacar que são atribuídas a ele apenas as anotações a lápis. Os trechos a caneta são transcrições possivelmente realizadas pelo antigo proprietário da obra.&nbsp;<br>Fotos: Vinicius Ribeiro.</figcaption></figure>



<p>A comparação do conteúdo desse exemplar (chamado de “provas corrigidas”) com a versão definitiva publicada pela Tipografia Nacional, permite-nos fazer uma espécie de “genealogia” do texto, verificando até que ponto as sugestões de mudanças atribuídas a D. Pedro II foram acatadas ou incorporadas.&nbsp;</p>



<p>A partir da análise do material, verificamos que muitas dessas correções ou sugestões foram adotadas, como podemos verificar, a título de exemplo, em algumas situações apresentadas a seguir. No trecho em que se afirma que o Conselho de Estado era um órgão consultivo no qual se tinha assento “o Príncipe Imperial”, D. Pedro II acrescenta: “ou Princesa Imperial”, destacando o papel de sua filha, Princesa Isabel, como sucessora e regente, incumbida de substituí-lo em suas ausências, como aconteceu em sua primeira viagem à Europa, em 1871, e viria acontecer outras vezes, em um futuro não muito distante.&nbsp;</p>



<p>Quando se descreve o clima da “zona intertropical” do país, caracterizado como muito “suave e modificado pela arborização do terreno”, D. Pedro II solicita que se substitua a palavra “arborização” por “vegetação”, com o receio de que esta pudesse ser confundida com “plantação”, ou seja, fruto da ação humana. Em outros trechos, porém, não se esquece de demonstrar a ação transformadora do homem sobre a natureza, considerada pré-requisito para um movimento “civilizatório”: nesse sentido, não bastava afirmar, por exemplo, que havia enxofre em terras brasileiras, mas acrescentar que este era “[&#8230;] experimentado, com excelente êxito, no fabrico da pólvora”. Da mesma forma, fazia questão de atualizar algumas informações para demonstrar certo avanço do Império no campo tecnológico: “Cumpre falar da estrada de ferro que abriu-se o mês passado para esta exploração”.</p>



<p>Em outra passagem, que apresenta um levantamento dos principais periódicos circulantes no Império, D. Pedro II se dá conta da ausência do jornal <em>República,</em> e logo adverte: “Falta o República”, sugestão prontamente incorporada na publicação final.</p>



<figure class="wp-block-image"><img decoding="async" src="https://bodoqueonlineart.files.wordpress.com/2021/12/28c93-3-2.jpg?w=950&#038;h=229" alt="" class="wp-image-11690" data-recalc-dims="1"/><figcaption>Anotações feitas por D. Pedro II. Vale destacar que são atribuídas a ele apenas as anotações a lápis. Os trechos a caneta são transcrições possivelmente realizadas pelo antigo proprietário da obra.&nbsp;<br>Foto: Vinicius Ribeiro.</figcaption></figure>



<p>O esforço em representar a imagem de um país que caminhava nos “trilhos do progresso e da civilização” não prescindia da preocupação com a idoneidade das informações e com os exageros discursivos que pudessem comprometer a credibilidade do texto. No trecho em que se afirma: “No louvável intento de facilitar e desenvolver as transações comerciais, o Brasil tem ido além dos países mais adiantados, dando um exemplo fecundo e de grande proveito a todos os povos do mundo”, o imperador prontamente ordena a supressão dessas palavras, com base na seguinte justificativa: “porque ainda não concorreram tais riquezas para o progresso do Brasil.&#8221;</p>



<figure class="wp-block-image"><img decoding="async" src="https://bodoqueonlineart.files.wordpress.com/2021/12/f1201-4-1.jpg?w=950&#038;h=293" alt="" class="wp-image-11691" data-recalc-dims="1"/><figcaption>Anotações feitas por D. Pedro II. Vale destacar que são atribuídas a ele apenas as anotações a lápis. Os trechos a caneta são transcrições possivelmente realizadas pelo antigo proprietário da obra.&nbsp;<br>Foto: Vinicius Ribeiro.</figcaption></figure>



<p>Devido à inconsistência de alguns dados ainda não suficientemente apurados para serem publicados com maior segurança, o imperador por vezes recorre à estratégia de modalização do discurso, sugerindo a exclusão de palavras como “constantemente”, “frequentemente”, “todo”, etc.&nbsp; Ou simplesmente dizendo: “Ainda não existe [tal coisa], e portanto cumpre redigir de outra forma”.</p>



<p>É curioso que, na publicação definitiva da obra, foi incluída uma espécie de apresentação prévia ou introdução, denominada “Advertência”, em que se promete ao leitor “obra mais completa nas futuras exposições universais” e se valoriza a colaboração de “informantes particulares”. Ademais, enfatiza-se o objetivo de não manifestar um “falso patriotismo” através de palavras que exageram nas “vantagens” e “ocultam defeitos”, mas sim o de “tornar bem conhecido o Império do Brasil [&#8230;], procurando com todo cuidado dizer somente a verdade”.</p>



<p>De fato, o contato com a escrita oitocentista nos permite perceber que a preocupação com a “verdade” das informações publicadas possuía uma tônica no discurso dos homens de letras e ciência. Eduardo de Faria, autor do <em>Novo Dicionário da Língua Portuguesa</em>, datado de 1859, pode ser um bom exemplo do que se entendia como informação passível de ser publicada naquele contexto. Para o autor, o ato de publicar um conteúdo ou informação “recai sempre sobre uma coisa que realmente existe. Divulgar pode recair sobre uma coisa falsa, que se inventa com algum fim. Um caloteiro, que vive de ostentação, divulga que é rico, e teme que se publique que é pobre.” Portanto, ao menos no âmbito do discurso, os verbos “publicar” e “divulgar” ocupavam campos semânticos distintos, estando o primeiro mais associado ao que se concebia como “verdade”.&nbsp;</p>



<p>Obviamente, é mais do que sabido que o conceito de “verdade” precisa ser constantemente avaliado de maneira crítica. Por esse motivo, entendemos a ideia de “verdade” como representação do real, com as intencionalidades, disputas e lugares de fala presentes no jogo social. Se as “imperiais” correções e/ou sugestões tinham o intuito de conseguir, da melhor maneira possível, transmitir credibilidade nas representações sobre o Estado-nação e os diversos aspectos que o compunham, nem todas elas eram aceitas. É o que acontece, por exemplo, no trecho em que são citados seus filhos com a imperatriz Teresa Cristina. Ressentindo da ausência dos nomes de D. Afonso e D. Pedro Afonso (respectivamente, o primeiro e o quarto filhos do casal), falecidos na primeira infância, o monarca logo interroga: “E meus filhos?” Mesmo com a “imperial advertência”, ambos os nomes não chegaram a figurar no texto final, ao lado das princesas Isabel e Leolpoldina.</p>



<figure class="wp-block-image"><img decoding="async" src="https://bodoqueonlineart.files.wordpress.com/2021/12/4eb2b-7-1.jpg?w=950" alt="" class="wp-image-11692" data-recalc-dims="1"/><figcaption>Questionamento do imperador acerca da ausência dos nomes dos filhos D. Afonso e D. Pedro Afonso, falecidos na primeira infância. Foto: Sérgio A. Vicente.</figcaption></figure>



<p>O mesmo acontece no parágrafo em que se descreve o jornal <em>O Apóstolo</em>.  Apresentado como um periódico que “publica os atos oficiais do bispado, e discute os interesses da religião do Estado”, este trecho aparece riscado a lápis, sugerindo uma possível indicação de supressão do conteúdo, que permaneceu incólume na publicação final. Caberia, aqui, fazermos um duplo questionamento: O que teria motivado o imperador a sugerir tal exclusão? Por que a sugestão não foi acatada? </p>



<figure class="wp-block-image"><img decoding="async" src="https://bodoqueonlineart.files.wordpress.com/2021/12/5e4ae-8-1.jpg?w=950&#038;h=220" alt="" class="wp-image-11693" data-recalc-dims="1"/><figcaption>Trecho rabiscado a lápis. Possível sugestão de supressão. Foto: Vinicius Ribeiro.</figcaption></figure>



<p>Conhecido por sua postura conciliadora nos conflitos envolvendo religião e Estado no século XIX, estaria o imperador tentando evitar as polêmicas que esse tipo de discussão costumava gerar? Afinal, a Constituição de 1824, ainda em vigor nesse período, propugnava a união entre Igreja Católica e o Estado. Nesse contexto (década de 1870), o país vivia o acirramento de embates entre as jurisdições civil e eclesiástica, por conta da chamada Reforma Ultramontana e do processo de romanização da Igreja Católica. Tais embates resultaram em discussões acaloradas, como as relacionadas ao casamento e ao sepultamento de não católicos nos cemitérios públicos, ao fechamento de irmandades religiosas que contavam com a presença de maçons em seu quadro social e às recentes prisões dos bispos de Olinda e Pará.</p>



<p>Poderiam ser citadas aqui diversas outras passagens curiosas, em que as correções, acréscimos, supressões ou mudanças foram ou não incorporadas à publicação definitiva. Especulações a parte, a “verdade” é que não é possível saber exatamente o que teria motivado o imperador em suas várias intervenções textuais. Tais informações, talvez, nem sejam tão relevantes assim. Por enquanto, contento-me em apenas abrir uma “janela” para futuras investigações mais aprofundadas sobre o assunto.&nbsp;</p>



<p>Podemos analisar esse livro de diversas maneiras. Tudo depende das perguntas que lhe forem direcionadas. Afinal de contas, a cada pergunta, uma nova abordagem. E, a cada nova abordagem, uma nova descoberta. Este, ao meu ver, constitui um dos mais cruciais aspectos da pesquisa histórica. O importante é que nos esquivemos das armadilhas das memórias e do mero “fetiche” do objeto, de modo a estimular uma análise crítica do discurso dos atores, tendo por base as questões formuladas no momento presente. Tudo isso sem, é claro, incorrer em julgamentos anacrônicos, considerando que todo personagem histórico é “filho” de seu tempo, inserido numa rede de relações e interlocuções repleta de influências, sentidos e significados em trânsito, com suas confluências e divergências.</p>



<p>Se, até aqui, pudemos constatar que muitas reflexões podem ser feitas a partir dos vestígios humanos presentes na versão preliminar de um livro guardado como objeto simbólico, de memória, é importante destacar que tais reflexões não “nascem” do vazio, mas de uma série de comparações com a versão final da obra, que chegou ao público através da Tipografia Nacional. Seria muito pouco nos atermos ao significado aurático que justificou a preservação de uma peça marcada pelas mãos de um “monarca ilustrado”, quando temos a possibilidade de também sinalizar para as variadas camadas de discurso, intenções, leituras e interpretações pouco sedimentadas sobre o Brasil que se pretendia representar na segunda metade do século XIX. Não é possível ignorar que, entre redator e corretor, havia uma multiplicidade de aspectos que nem mesmo um suposto esforço uniformizador do discurso oficial conseguiria encobrir. &nbsp;</p>



<p>Através dos vários indícios que a primeira versão do texto nos permite ter acesso, uma boa “escavação arqueológica” feita com as palavras é capaz de colocar em prática aquilo que Carlo Ginzburg chama de “leitura em contraponto”. Dessa forma, pode-se trazer à tona as ambiguidades, tensões, disputas, contradições, vicissitudes, silêncios ou silenciamentos implícitos nas representações ou reapresentações da realidade brasileira daquele contexto. Entre riscos e rabiscos, é possível entrever o que foi dito e o que ficou por dizer, o que era e o que deixou de ser, o que se fez e o que ficou por fazer&#8230; E, assim, podemos realizar, ainda por muitos anos, diversas (re)descobertas no “livro que o imperador corrigiu”.</p>



<div style="height:69px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Saiba mais!</strong></h3>



<p>GINZBURG, Carlo. <em>Mitos, emblemas, sinais:</em> morfologia da história. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.</p>



<p>GINZBURG, Carlo. <em>O fio e os rastros:</em>verdadeiro, falso, fictício. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.</p>



<p>PINHEIRO, Priscila da Costa; VICENTE, Sérgio Augusto Vicente. <em>Aprendiz de Imperador.</em> Revista de História da Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro, ano 10, n. 110, novembro de 2014, p. 68-71.</p>



<p>SCHWARCZ, Lilia Moritz. <em>Exposições Universais:</em> festas do trabalho, festas do progresso. In: As barbas do Imperador: D. Pedro II, um monarca nos trópicos. São Paulo: Cia. Das Letras, 1998. p. 385-407.</p>



<p>VICENTE, Sérgio Augusto. <em>Segregação dos mortos.</em> Revista de História da Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro, ano 10, n. 113, fevereiro de 2015, p. 80-83.</p>



<p>VICENTE, Sérgio Augusto. <em>Sociedades científicas, literárias e de instrução: </em>dimensões da prática associativa dos homens de letras e <em>sciencia </em>na Corte (1860-1882). Dissertação de mestrado – Programa de Pós-Graduação em História da UFJF, Juiz de Fora – MG, 2012.</p>



<hr class="wp-block-separator"/>



<p><strong>Sérgio Augusto Vicente</strong> é Bacharel, licenciado, mestre e doutorando em História pela UFJF. Dedica-se ao estudo da história social da cultura no Brasil, abrangendo temas como trajetórias individuais e de grupos, sociabilidades, associativismo, história intelectual, história social da literatura, acervos documental e bibliográfico, patrimônio cultural, memória e educação. É Professor de História e historiador. Atualmente, trabalha no Museu Mariano Procópio (Juiz de Fora – MG).</p>



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</div>
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<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-large-font-size">Galeria: artistas para seguir na quarentena</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/b6aad-fotos-carol.jpg19.jpg?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-6960" data-recalc-dims="1"/></figure>



<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-medium-font-size"><em>Apoie pautas identitárias. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>
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		<title>História do Brasil: um desafio quixotesco entre dois centenários</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 02 Aug 2020 21:28:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 056]]></category>
		<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[História do Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[Sérgio Augusto Vicente]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Sérgio Augusto Vicente</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="has-drop-cap">Em 1917, fundava-se no Rio de Janeiro a revista <em>D. Quixote</em>. Dentre os responsáveis por esse projeto, estava o famoso intelectual humorista e boêmio Bastos Tigre. O nome que batizou o periódico não poderia ser mais sugestivo: <em>D. Quixote</em>, o &#8220;cavaleiro da triste figura&#8221;, o lutador contra moinhos de vento, que tinha ao seu lado o inseparável Sancho Pança. No entanto, essa não era a primeira vez que o clássico romance espanhol de Miguel de Cervantes, publicado no início do século XVII, inspirava a inauguração de uma revista humorística no Brasil. Na década de 1890, o caricaturista Angelo Agostini também fundara um periódico com o mesmo nome.</p>



<p>Segundo a historiadora Monica Veloso, em sua tese de doutorado publicada na década de 1990, a figura de D. Quixote foi amplamente utilizada, tanto na Espanha quanto na América Latina, para representar a figura e o papel do intelectual na modernidade. No contexto carioca, por exemplo, o modernismo teve como uma de suas grandes expressões o humor, a sátira, as caricaturas, etc. Era o esforço de tornar o humor a chave interpretativa da história e da identidade nacional brasileiras.</p>



<p>Poucos anos após a inauguração da segunda revista <em>D. Quixote</em>, o Brasil realizava os famosos festejos do centenário da Independência. Não faltaram motivos e inspiração para os colaboradores da revista, que exploraram em demasia as contradições e paradoxos da &#8220;entrada do Brasil na dita modernidade&#8221;. Nas páginas da revista, os malabarismos feitos pelas autoridades políticas na encenação do espetáculo da modernidade eram apresentados como patéticos ou como verdadeiros simulacros, ante um país de muitas contradições sociais, analfabetismo, doenças, epidemias. Figurões eram caricaturados pela sua postura bajuladora com relação aos &#8220;gringos&#8221;, em detrimento da exposição de um Brasil real. Quanto mais se mostrava sério, o Brasil do centenário mais se expunha ao ridículo e se tornava objeto de humor. A famosa charge de Kalixto, representando um índio sendo impedido de entrar na festa do Centenário, tornou-se uma das representações humorísticas mais expressivas desse momento.</p>



<p>O fato é que os intelectuais humoristas que orbitavam em torno dessa revista tinham um projeto bem claro: o de dessacralizar o panteão cívico-nacional e destruir os pedestais que alçavam a posições de semideuses os ditos &#8220;grandes vultos&#8221; da história nacional, os chamados &#8220;homens a frente de seu tempo&#8221; (que o brasileiro tanto gosta de usar até os dias de hoje). Essa narrativa canônica, de caráter cívico-pedagógico, estava, definitivamente, na mira desses artistas. A &#8220;Ordem e o Progresso&#8221;, lema que, desde a Proclamação da República, era motivo de desavenças entre católicos conservadores, liberais e positivistas, transformava-se em &#8220;Desordem e Regresso&#8221;.</p>



<p>Por que falar da <em>D. Quixote</em> justamente agora? Porque, a pouco menos de dois anos, o Brasil completará 200 anos de sua &#8220;Independência&#8221;. E aí é impossível deixarmos de fazer várias perguntas: haverá o que &#8220;comemorarmos&#8221;, memorarmos juntos? Faz sentido a &#8220;comemoração&#8221;? Refletir ou comemorar? Que lugar o historiador ocupará nesse momento? O desgoverno que aí está no poder, tentando subtrair do país toda a dignidade/ imagem através do caos e da barbárie, ainda estará &#8220;reinando&#8221;, amparado por suas milícias e laranjais?&nbsp;</p>



<p>Creio que a missão dos &#8220;Quixotes&#8221; do primeiro centenário fosse, talvez, menos árdua e deprimente. &#8220;Ordem e Progresso&#8221; continua sendo, assim como na Primeira República, alvo farto de deboches e risos (ainda que de &#8220;nervoso&#8221;). No entanto, a &#8220;cara&#8221; do verde-amarelismo bolsonarista, mais do que patética, é criminosa. É com ele que o &#8220;Brasil oficial&#8221; festejará? Teremos liberdade de imprensa até lá? Continuaremos nos envergonhando diante da exibição dos símbolos nacionais? Afinal, estes foram assenhoreados e vilipendiados por antiintelectualistas, negacionistas da ciência, fanáticos religiosos, defensores de ditadura, de torturadores, de Terra plana e bajuladores dos EUA. Deixaremos que estes continuem arrogando para si o título de verdadeiros representantes da nação? Que danação!&nbsp;</p>



<p>Sem condições de traçar nenhum prognóstico sobre uma data mítica, simbólica, e muito menos ainda sobre o Brasil que existirá a poucos menos de dois anos, alerto para o nível de nossa perda de rumo. Perdemos o bonde da história. Que o bicentenário faça reacender em nós o desejo de propagar, insistentemente (ainda que &#8220;malhando a ferro frio&#8221; ou “lutando contra moinhos de vento”), uma história crítica, reflexiva, pública, amparada na pesquisa, na preservação dos acervos em arquivos, bibliotecas e museus, em diálogo constante com outras áreas do conhecimento. Que a nossa bandeira seja esta, e não a resignação diante de um nacionalismo artificial e hipócrita, segregacionista, negacionista, contrário à diversidade e à pluralidade de narrativas pautadas no comprometimento com os valores democráticos e os direitos humanos.&nbsp;</p>



<p>A despeito das especificidades de cada contexto histórico e dos inegáveis avanços na produção historiográfica, não hesito em afirmar: nossa missão, em pleno século XXI, continua sendo quixotesca! Não se trata de um quixotismo destruidor de tudo aquilo que julgamos &#8220;tradicionais&#8221; e &#8220;elitistas&#8221; em nossa cultura. Trata-se, antes de mais nada, de fomentar olhares problematizadores sobre o passado, analisando toda e qualquer narrativa e modelos explicativos como historicamente datados, como camadas do tempo sobrepostas a outras camadas. A percepção de que o conhecimento histórico é algo inerte, morto, à espera de ser resgatado intacto, tal qual aconteceu no passado, é ainda uma &#8220;grelha&#8221; interpretativa profundamente cristalizada em diversos segmentos da sociedade brasileira. Nesse sentido, se para a academia, a história-problema é banal, para a sociedade, está longe de sê-lo.</p>



<p>A overdose de informações que circulam nas redes sociais coloca muitos indivíduos diante da percepção de que toda e qualquer versão interpretativa sobre a história é &#8220;mais verdadeira&#8221; do que a ensinada pelos professores de história e historiadores.&nbsp;</p>



<p>Como o antídoto para as <em>fake news</em> não corre ainda em nossas veias, ficamos reféns de um mero negacionismo manipulado por ideologias perversas, que se dizem &#8220;neutras&#8221; e dividem a sociedade em trincheiras. Isso nos impõe o desafio de demonstrar, cotidianamente, que o grande potencial formativo da história não está em contrapor verdades x mentiras, mas em tornar possível a compreensão de que a história é &#8220;a ciência do homem no tempo&#8221; (Marc Bloch), e, como tal, precisa ser compreendida como um constante processo de construção. É preciso compreender as diferenças entre relativismo e perspectivismo, as interferências do mundo social sobre o conhecimento histórico, as batalhas narrativas e de memórias, as diferenças entre memórias e história, etc.</p>



<p>Portanto, se os humoristas da revista <em>D. Quixote</em> estavam empenhados na missão quixotesca de fazer uma <em>História do Brasil pelo método confuso</em> (como na paródia construída por José Madeira de Freitas em 1922), contrariando os argumentos de autoridade proferidos por historiadores vinculados a esferas oficiais de produção de saberes e culturas históricas (como IHGB, Museu Histórico Nacional, etc), hoje, a missão quixotesca é nossa. E, quando digo nossa, estou me referindo aos historiadores que lutam pela regulamentação da profissão e tentam ampliar seu espaço no mercado de trabalho. Para isso, no entanto, precisamos ir além do microcosmo acadêmico e buscarmos espaço em revistas de divulgação, redes sociais e canais de difusão voltados para o alcance de um público mais amplo. Só assim podemos ampliar o respeito e o reconhecimento diante da sociedade. Sem, é claro, jamais perder a doce loucura do humor que nos afasta das caretices ufanistas e nos faz ser ouvidos e manter a sanidade mental.</p>



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<p><strong>Sérgio Augusto Vicente:</strong> Sou professor de História e historiador, com bacharelado, licenciatura e mestrado em História pela UFJF. Atualmente, curso doutorado pelo Programa de Pós-Graduação em História, vinculado a mesma universidade. Dedico-me ao estudo da história social da cultura no Brasil, trajetórias individuais e de grupos, história intelectual, patrimônio cultural, memória e educação. Moro em Juiz de Fora (MG), onde trabalho no Museu Mariano Procópio. Sempre que posso, escrevo crônicas e poesias, abrangendo temáticas diversas, como memórias, cotidiano, política, etc.&nbsp;</p>



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<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-large-font-size">Galeria: artistas para seguir na quarentena</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/b6aad-fotos-carol.jpg19.jpg?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-6960" data-recalc-dims="1"/></figure>



<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-medium-font-size"><em>Apoie pautas identitárias. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>



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<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/9acee-publi-ediccca7acc83o-impressa-1.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-5668" data-recalc-dims="1"/></figure>





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		<title>O Brasil e o autoritarismo</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 19 Jul 2020 21:27:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 054]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[História do Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[Intelectuais]]></category>
		<category><![CDATA[Memória]]></category>
		<category><![CDATA[Poliana]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Poliana Vieira Côrtes Lopes</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="has-drop-cap">As relações dos intelectuais com a estrutura de poder do Estado brasileiro, sempre foi algo extremamente imbricado e complexo. Ao longo da história política do Brasil, Esses atores sociais frequentemente se atribuíram a função de &#8220;agentes da consciência e do discurso&#8221;, como afirma Mônica Pimentel Veloso, em seu artigo “Os intelectuais e a política cultural do Estado Novo”, parafraseando Foucault. A autora continua sua análise afirmando que, em consequência da estrutura patriarcal, autoritária, e até a sua condição como país periférico, o Brasil, apesar do grande número de pessoas sem instrução, acaba reforçando esse tipo de prática em representações corriqueiras como falar em nome dos “<em>destituídos de capacidade de discernimento e expressão, foi facilmente absorvido pelo intelecto brasileiro.</em>” (VELLOSO, 1997)</p>



<p>Nos momentos de mudanças históricas intensas ou crises profundas, as elites intelectuais brasileiras marcaram presença no contexto político, defendendo o direito de interferirem no processo de organização nacional. Nesse sentido, é possível perceber esse tipo de ação em vários momentos históricos.</p>



<p>Logo após a Independência do Brasil, quando estava em andamento a construção do projeto da Jovem Nação, os intelectuais agiram como guias sentindo-se inspirados pela ideia nacional. Através de seus capitais culturais e intelectuais, possuíam o objetivo de promover a autovalorização do país. De acordo com Lilia Schwarcz era uma tarefa grandiosa, pois uma nova constituição seria redigida e uma história teria que ser inventada para o “novo” país.</p>



<p>Anos mais tarde, na transição do regime imperial para República, os intelectuais novamente assumem o posto de bastiões do Brasil, com o objetivo de guiar o país à modernização. Munidos do conhecimento científico buscavam remodelar o Estado, lutando contra a incapacidade teórica e administrativa dos políticos.</p>



<p>As consequências do pós-guerra se fazem sentir na década de 1920 brasileira. Dentre seus vários efeitos, destaca-se a decadência do mito cientificista, e o ideal cosmopolita de desenvolvimento cede seu lugar ao credo nacionalista. A busca pelo ideal de brasilidade, resgatado das raízes da pátria estão no foco das preocupações intelectuais. É possível lembrar de como a arte e a literatura influenciaram o país nesse momento.</p>



<p>Com esses três exemplos expostos de maneira geral, fica clara a constituição da identidade dessa classe de indivíduos, que, historicamente, buscaram se distinguir da sociedade.</p>



<p>Já no Estado Novo (1937-1945), a matriz autoritária de pensamento, que confere ao Estado o poder máximo, vai delinear formas mais definidas. A partir daí, as mais distintas elites passam a identificar o Estado como o cerne da nacionalidade brasileira. “Se, historicamente, a construção do nacionalismo vinha se constituindo em uma das preocupações fundamentais dos intelectuais, agora eles passariam a situar a sua tarefa no domínio do Estado”(VELLOSO, 1997)</p>



<p>No período acima citado, podemos analisar a relação entre o Estado e os intelectuais a partir de fontes bastante ricas, pois há uma profunda inserção deste grupo social na organização político-pedagógica do regime. Isso se deve ao fato de que tais membros da classe intelectual, se empenharam em popularizar e disseminar as ideologias do governo. As estratégias de socializar a doutrina política vigente, trazendo-as para o cotidiano da população, foram desenvolvidas e aplicadas, principalmente, pelo Ministério da Educação e Departamento de Imprensa e Propaganda &#8211; DIP.</p>



<p>Por outro lado, antes que o Brasil presenciasse a ascensão do regime autoritário disseminando sua base ideológica com ajuda da classe intelectual, é interessante lembrar que desde o início dessa breve República, vários períodos de exceção interromperam o curso de um Estado Democrático. Foi assim no período da República militar de Deodoro da Fonseca (1889-1891) e Floriano Peixoto (1891-1894) que governaram com parte do período presidencial sob estado de sítio. De igual modo, Artur Bernardes, nos anos 20, teve em quase todo o seu mandato o estado de sítio instalado. Também na ditadura do Estado Novo (1937-1945), quando as estratégias de convencimento da população começaram a ser modificadas, como foram citadas acima. E, amais adiante, de 1964 a 1985, tivemos o fenômeno do golpe militar integrando esse contexto.</p>



<p>Sendo assim, é interessante pensar em algumas características do governo de Getúlio Vargas a partir de uma perspectiva integrada à história política e social do Brasil, bem como do contexto internacional da época para entender que o golpe de Estado foi defendido como uma “reação” às ameaças comunistas que supostamente tomariam o poder. A base do modelo fascista de governo, em geral, ganhou força historicamente em virtude do medo dessa ameaça, tonando necessário o surgimento de um salvador, capaz de  tirar o país do risco iminente. Por esse motivo, mito da nação e do herói nacional, foram plenamente utilizados na implantação de regimes antidemocráticos, não só no Brasil, mas em vários países do mundo.</p>



<p>Um dado relevante para alimentar essa discussão encontra-se em uma citação, fora desse contexto, no plenário da constituinte de 1946.&nbsp; Gilberto Freyre afirma: “o passado não foi, ele continua”. Infelizmente tal afirmação se apresenta como uma incômoda realidade, tendo em vista que o Brasil, em pleno 2020, vive outro capítulo dessa história de exceções, com a constante ameaça ideológica autoritária engendrada no alto escalão da governança brasileira, perpetrada  por uma guinada conservadora e reacionária, como destaca Lilia Swhwatrcz em seu livro: <em>O autoritarismo brasileiro</em>.</p>



<p>Sendo assim, é possível afirmar que é profundamente&nbsp; necessário conhecer esse passado político brasileiro para entender como as classes de intelectuais fizeram parte da história dessa nação. A ação dessa classe, a favor ou contra os governos, se colocando como influencia para a população desprovida de instrução, por muitas vezes é capaz de enraizar ainda mais uma carga de subserviência e inaptidão, que tem o potencial de encaminhar o país para a normalização de ataques à democracia e ascensão de lideres e ideologias autoritárias. Por outro lado, com a educação, a ciência e a cultura sob constante ataque, precisamos entender que a resistência à esses processos políticos e sociais é algo sensivelmente difícil. Como disse Millor Fernandes: “O Brasil tem um enorme passado pela frente”.</p>



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<p><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong>Poliana </strong></strong></strong></strong></strong></strong>Vieira Côrtes Lopes</strong> é formada em artes pela UFJF, é professora, especializada em restauração e mestranda no PPG de Patrimônio da Fiocruz do Rio de Janeiro e sócia da Instituição Cultural Bodoque Artes e Ofícios.</p>



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<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-large-font-size">Galeria: artistas para seguir na quarentena</p>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-flow wp-block-group-is-layout-flow">
<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/4473c-fotos-carol-copy-1.jpg7_-1-1021x1024.jpg?resize=950%2C953&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-4982" data-recalc-dims="1" /></figure>



<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-medium-font-size"><em>Apoie pautas identitárias. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>
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<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.artebodoque.com/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/a89c8-publi-bodoque2.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-4736" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



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