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	<title>Arquivos História e Política - Revista Trama</title>
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	<description>Arte, Cultura e Criatividade</description>
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		<title>SOBRE BRUNZUNDANGAS E MITOS</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 02 May 2021 21:29:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 089]]></category>
		<category><![CDATA[Crônica Crítica]]></category>
		<category><![CDATA[História do Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[História e Política]]></category>
		<category><![CDATA[Sérgio Augusto Vicente]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: Sérgio Augusto Vicente</p>
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<p>Quem nunca ouviu falar de <em>Os Bruzundangas</em>? Pois então: confesso que sempre desejei profundamente possuí-lo. Num fatídico final de tarde de 2017, retornando a pé do trabalho para casa, entro na primeira livraria que encontro no centro de Juiz de Fora.</p>



<p>Com a cara sisuda, de estudioso da história social da literatura brasileira, dirijo-me à vendedora:</p>



<p>&#8211; Por acaso você teria <em>Os Bruzundangas </em>aí?</p>



<p>&#8211; Bruzu&#8230; o quê, moço? &#8211; Risos da vendedora.</p>



<p>Sigo aguerrido na jornada, dirigindo-me ao sebo ao lado: “Por favor, você tem <em>Os</em> <em>Bruzundangas</em> para vender?” Ao que o balconista me responde: “Tem isso aqui não, rapaz!”. Como brasileiro não desiste nunca, perseverei em outra freguesia: “Estou à procura de <em>Os</em> <em>Bruzundangas</em>, senhor! Tem aí?” Mais uma vez, perguntei como se o mundo inteiro tivesse obrigação de conhecer a sátira política que Lima Barreto escreveu sobre o Brasil, lá na Primeira República.</p>



<p>Mais difícil do que encontrar o livro é manter a seriedade ao pronunciar seu título para alguém – sobretudo quando esse alguém desconhece sua existência. Definitivamente, como é difícil ser caçador de bruzundangas nessa vida!</p>



<p>&#8211; <em>Os</em> <em>Bruzundangas</em>, por favor!</p>



<p>Finalmente acho o que tanto procuro, depois de inúmeras visitas às livrarias e sebos da Manchester Mineira. Efetuo o pagamento. Olho para a estante ao lado e me deparo com o clássico <em>O Grande Mentecapto</em>, de Fernando Sabino, livro que jamais sairá das minhas memórias literárias. Aliás, outra paródia muito pertinente do Brasil.</p>



<p>Contive-me, falando comigo mesmo: “Para com isso! Você precisa economizar! Você já leu este livro! Para que comprá-lo?!” Em poucos segundos, veio-me a ideia de oferecer em troca um exemplar de autoajuda, com que fui presenteado no amigo oculto da família, no Natal passado, que pesava minha mochila.</p>



<p> &#8211; Por esse daí não dá para trocar, rapaz, infelizmente. – Respondeu-me o vendedor, interrompendo a conversa empolgada e “gesticulante” que estabelecia com um amigo, sobre os rumos políticos do Brasil.</p>



<p>Desviei o olhar para a estante ao lado do caixa. Percorri os exemplares ali disponíveis, enquanto o vendedor voltava a revelar seus planos para o Brasil: &#8220;Mas esse Sérgio Moro é foda mesmo. Está colocando todos os corruptos no paredão. Candidatando-se à presidência, terá meu voto garantido.&#8221;</p>



<p>Eis que, de repente, um livro de lombada amarela me chama atenção. Era uma biografia. Não uma biografia qualquer. Tratava-se da biografia de Lula, de autoria de Denise Paraná. Não perdi tempo. Como quem não desiste do jogo até os últimos milésimos do segundo tempo, lancei minha cartada final:</p>



<p> &#8211; E por este aqui, amigão, você troca? &#8211; Afinal, perguntar não magoa e não custa nada.</p>



<p>&#8211; Deixe-me ver&#8230; Ah, sim! Claro! &#8211; Respondeu resolutamente o vendedor.</p>



<p>Nunca tive vocação e talento para o mundo dos negócios. Afinal de contas, se nós, historiadores, tivéssemos para negociar o mesmo dom que temos para problematizar o mundo, estaríamos todos bilionários. Mas o fato é que, naquele momento, fiquei orgulhoso da minha perspicácia. Por um instante, um lapso de vaidade me fez acreditar cegamente na meritocracia. O vendedor, por sua vez, estampava um suave sorriso no rosto, num misto de satisfação e ironia.</p>



<p>&#8211; Valeu, companheiro! Volte sempre!</p>



<p>Tomei o rumo da rua. Senti que, dentro da loja, a prosa voltava animada entre o vendedor e seu fiel interlocutor. Agora, contudo, de forma um pouco mais contida, polida, em tom de voz moderado, como um cochicho ao pé do ouvido. Eu, enquanto isso, concentrava-me em seguir o sentido esquerdo da calçada, em direção à rua Halfeld&#8230;</p>



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<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:22% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="599" height="601" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/ed01b-sergio.png?resize=599%2C601&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-13196 size-full" srcset="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/ed01b-sergio.png?w=599&amp;ssl=1 599w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/ed01b-sergio.png?resize=300%2C300&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/ed01b-sergio.png?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w" sizes="(max-width: 599px) 100vw, 599px" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p><strong><strong><strong><strong>Sérgio Augusto Vicente</strong></strong></strong></strong> é Professor de História e historiador. Graduado, mestre e doutorando em História pelo PPGHIS/UFJF. Atualmente, trabalha no Museu Mariano Procópio – Juiz de Fora – MG. Dedica-se a pesquisas relativas ao campo da história social da cultura/literatura, sociabilidades, trajetórias e memórias.</p>
</div></div>



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		<title>PARA QUE DISCUTIR COM MADAME?</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 18 Apr 2021 21:24:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 087]]></category>
		<category><![CDATA[Crônica Crítica]]></category>
		<category><![CDATA[História do Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[História e Política]]></category>
		<category><![CDATA[Sérgio Augusto Vicente]]></category>
		<category><![CDATA[Voto consciente]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: Sérgio Augusto Vicente</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Andando pelo shopping no sábado de manhã, uma elegante Senhora passa em frente à livraria e resolve adentrar o espaço. Exausta da árdua missão de escolher um vestido para a festa da amiga, permitiu-se relaxar por um instante.&nbsp; Mais do que depressa, pediu ao vendedor que lhe sugerisse um livro de História do Brasil; afinal, é tempo de eleição, de fazer escolhas certas. Para isso, nada melhor do que conhecer um pouco mais a trajetória do próprio país. Sem titubear, o rapaz responde:</p>



<p>&#8211; Naquela estante ali, à esquerda, tem vários exemplares.</p>



<p>&#8211; Não teria um mais resumido, mais didático? – Perguntou a Senhora.</p>



<p>&#8211; Se é esse o caso, indico aqueles outros ali, à direita. Podem ser do seu agrado.</p>



<p>Depois de uma hora, perdida em meio a tantos livros, a Senhora ainda não se decidira sobre qual deles levar para casa:</p>



<p>&#8211; É impressionante como não se fazem empregados como antigamente! – Resmungou a mulher com o cliente ao lado.</p>



<p>&#8211; O que a Senhora disse? – Perguntou o vendedor.</p>



<p>&#8211; Nunca vi tanta incompetência numa só pessoa! Estou aqui há uma hora e a única coisa que você conseguiu fazer até agora foi me deixar confusa, completamente perdida! O que você está fazendo aqui, meu filho, se não é útil à função que lhe pagam para executar?! É por isso que esse país não vai pra frente!</p>



<p>&#8211; Desculpe-me, Senhora! Não foi esse o meu propósito! &#8211; o rapaz se apressa e pega um volume na prateleira &#8211; Tenho este aqui: “Raízes do Brasil”, de Sérgio Buarque de Holanda.</p>



<p>&#8211; Chega! Não quero saber de ervas típicas do Brasil, meu querido!</p>



<p>&#8211; Acalme-se, Senhora! Temos este outro aqui: “Formação das Almas”, de José Murilo de Carvalho.</p>



<p>&#8211; Ah! Era só essa que me faltava! Se você ainda não entendeu, estou à procura de livro de História do Brasil, e não de espiritismo! Exijo respeito aos meus princípios! Sou Católica Apostólica Romana! &#8211; ela olha ao redor &#8211; Cadê o gerente?! Traga-me seu superior aqui, agora!</p>



<p>Imediatamente, chega o gerente, todo disposto a ouví-la:</p>



<p>&#8211; Pois não, minha Senhora! No que posso servi-la?</p>



<p>&#8211; É esse rapaz aqui, que conseguiu me tirar do sério! – Indignou-se a mulher, relatando os pormenores da situação.</p>



<p>&#8211; Não precisa se aborrecer, minha Senhora! Se nenhuma dessas opções lhe agradou, tenho esta aqui, que pode ser um bom começo: &#8220;História do Brasil pelo método confuso&#8221;, de Mendes Fradique. Leia-o e volte para nos contar o que achou. Tenho certeza de que será uma leitura surpreendente!</p>



<p>Dando-se por satisfeita, a cliente adotou a sugestão. Pagou a mercadoria e, carinhosamente, depositou-a na bolsa <em>Louis Vuitton</em> que segurava às mãos. Os reais motivos, ninguém descobriu; mas o fato é que, até hoje, vendedor e gerente continuam sem saber a opinião da elegante Senhora&#8230;</p>



<p></p>



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<p><strong><strong><strong><strong>Sérgio Augusto Vicente</strong></strong></strong></strong> é Professor de História e historiador. Graduado, mestre e doutorando em História pelo PPGHIS/UFJF. Atualmente, trabalha no Museu Mariano Procópio – Juiz de Fora – MG. Dedica-se a pesquisas relativas ao campo da história social da cultura/literatura, sociabilidades, trajetórias e memórias.</p>
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