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	<title>Arquivos i venti - Revista Trama</title>
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	<description>Arte, Cultura e Criatividade</description>
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		<title>i venti</title>
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		<pubDate>Sun, 30 Jun 2019 19:33:52 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 001, N 003]]></category>
		<category><![CDATA[Brazilian poetry]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Respire, apenas respire...Anotou no pedaço de papelA senhora sentada no miranteResolvera subir a montanha novamenteQueria comemorar seu aniversário 70Apreciando a vista que conhecera na infânciaO sol poente desenhava filigranas de luzAs aves cantavam em festaOs olhos marejados, tateou as rugasA memória saudosaUm semblante sereno combinando com suas madeixas grisalhasAs mãos a sentir o macio da … </p>
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<pre class="wp-block-verse">Respire, apenas respire...<br>Anotou no pedaço de papel<br>A senhora sentada no mirante<br>Resolvera subir a montanha novamente<br>Queria comemorar seu aniversário 70<br>Apreciando a vista que conhecera na infância<br>O sol poente desenhava filigranas de luz<br>As aves cantavam em festa<br>Os olhos marejados, tateou as rugas<br>A memória saudosa<br>Um semblante sereno combinando com suas madeixas grisalhas<br>As mãos a sentir o macio da vegetação<br>Flores atapetavam um caminho desconhecido<br>O vento trouxe aromas suaves...<br>Um sorriso brotou<br>Ela teve a ideia<br>Recordou-se dos tempos lecionando mitologia grega<br>- A ti, Éolo, entrego o conselho de meu coração.<br>Disse, em tom solene<br>- Carrega o papel. Sabes o que fazer.<br>Coração palpitante, mão erguida segurando o bilhete<br>Uma lufada de ar passou...<br><br><br>Alta madrugada na fazenda<br>Lua cheia brilhava contra um fundo azul escuro<br>Cigarras improvisavam um coral<br>Os amigos cantavam ao redor da fogueira<br>Dois jovens tocavam violão<br>Gostavam de músicas nacionais antigas<br>Ela estava calada mexendo em seu cabelo de pontas azuis<br>Refletia na letra... vento ventania...<br>Olhou para o jogo de sombras dançantes<br>As chamas crepitando<br>- O que farei da vida?<br>A jovem indagava ansiosa<br>As vozes dos amigos pareciam distantes<br>Um vento gelado a fez tremer<br>Decidiu pegar seu cachecol<br>Chegando na barraca seu olhar estancou<br>Um papelito agitava-se preso ao zíper<br>Ficou curiosa. Pegou. Leu. Respirou profundamente.<br>Sentiu o cheiro do mato e ouviu a coruja piar<br>Então, num ímpeto tipicamente juvenil<br>Coração palpitante, mão erguida segurando o bilhete<br>Uma lufada de ar passou...<br><br><br>Suas pegadas formavam uma curva na areia molhada<br>A água fresca do mar lhe subiu até os joelhos<br>O sol despontava no horizonte<br>As ondas embalavam seus pensamentos<br>Contemplava o oceano vasto e misterioso<br>Embevecida... sem palavras<br>Ela adorava caminhar pela praia de manhã<br>Pensar na vida. Sentir a vida.<br>Os fios ruivos de seu cabelo comprido esvoaçavam<br>Inspirava os odores do ambiente<br>Inspirava-se para as terefas do dia<br>Sentia-se pacificada e serena. Revigorada.<br>No caminho de volta, olhando para baixo<br>Procurava mais conchinhas para levar<br>Viu uma porcelana-dourada e a pegou<br>Estranhamente tinha um papel agarrado<br>Leu uma frase com letras... sim<br>Parecidas com as de sua avó<br>Concordou com a sentença<br>Pronunciou baixinho um agradecimento à Iemanjá<br>Coração palpitante, mão erguida segurando o bilhete<br>Uma lufada de ar passou...<br><br><br>O parquinho do museu ardia ao meio-dia<br>Crianças faziam algazarra<br>Corriam de um lado para o outro<br>Algumas girando velozmente no brinquedo<br>Tudo sob o olhar atento dos pais<br>Falavam sobre a canseira de criar filhos<br>Aquela garota careca irradiava alegria<br>Sobrevivia a um tratamento de câncer<br>Nas costas a mochila com desenho do personagem favorito<br>O padrasto lhe deu água de coco<br>Rogou que ficasse à sombra<br>E brincasse devagar, sem exageros<br>Ela subiu no escorregador<br>Um vento fresco mexeu com as folhas das árvores<br>Acariciou seu rosto e a fez fechar os olhos<br>Sentiu algo roçando a mão<br>Pegou um papel amassado<br>Leu devagar, quase soletrando<br>Lembrou da aula de ioga da tia Penélope<br>Imitou a posição de lótus que vira tantas vezes<br>Coração palpitante, mão erguida segurando o bilhete<br>Uma lufada de ar passou...<br><br><br>Andava apressada em meio à multidão<br>Irritada com a falta de espaço<br>Preocupada com o tempo exíguo<br>Ajeitou os óculos no rosto pela centésima vez<br>Maquinava o roteiro de sua apresentação<br>Batalhou anos por essa chance de negócio<br>Superou preconceitos e provocações. Pensou na esposa.<br>Agarrou a bolsa marrom junto a si<br>Equilibrou no salto, alisou o tailleur, olhou-se no espelhinho<br>Nuvens cinzas ocuparam o céu anunciando tempestade<br>Trovoadas rugiram, gotas caíram. Relâmpagos do final da tarde<br>Ventou forte, arrastando tudo pelos ares<br>Um guarda-chuva rosa passou dando cambalhotas<br>Balões vermelhos rodopiaram caoticamente<br>Grudou-lhe no pescoço um pequeno papel gasto, amarelado<br>Pinçou entre o polegar e o indicador da mão esquerda<br>Colocou diante dos olhos. Leu. Releu. Trileu.<br>Os dedos da mão direita enrolando os cachinhos<br>Olhava estupefata, abstraída da confusão na avenida<br>Coração palpitante, mão erguida segurando o bilhete<br>Dobrou o papel, guardou no bolso<br>Respire, apenas respire...</pre>



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<p><strong>Gabriel Lopes Garcia </strong>é poeta. Atua como professor de Física nas horas vagas.</p>
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