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	<title>Arquivos klimt - Revista Trama</title>
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	<description>Arte, Cultura e Criatividade</description>
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		<title>O Beijo, um Universo</title>
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		<pubDate>Fri, 14 Jun 2019 17:45:11 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 001, N 001]]></category>
		<category><![CDATA[arte]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: Marcus Cardoso O beijo. Nada tão íntimo quanto essa troca: mucosa que se entranha em mucosa que acaricia mucosa que devora fundo mucosa. Sem mais nada ao redor: só línguas em abraços, como âncoras precisas, como bolhas navegantes. E a representação disso, desse inominável, desse foge-palavras, dessa imprecisão, é sempre difícil: como transmutar o … </p>
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<p><em>por: Marcus Cardoso</em></p>



<p class="has-drop-cap">O beijo. Nada tão íntimo quanto essa troca: mucosa que se entranha em mucosa que acaricia mucosa que devora fundo mucosa. Sem mais nada ao redor: só línguas em abraços, como âncoras precisas, como bolhas navegantes. E a representação disso, desse inominável, desse foge-palavras, dessa imprecisão, é sempre difícil: como transmutar o físico em signo?</p>



<p>	Tolusse-Lautrec, tenta. Chega numa cena toda sublime: consegue fazer emergir calor do azul: como se confirmasse Camões no seu “amor é fogo que arde sem se ver”. No contrato pelo contato, no olho fechado durante o ato, forçando o afloramento dos outros sentidos, forçando o desligamento visual do mundo: como se nada mais importasse, a não ser aquilo: o beijo. As duas prostitutas de Lautrec pintam suave a relação. Nunca saberemos se é um beijo de boa noite ou uma preliminar. Talvez porque o sentido de tudo não importa: só a ligação é que interessa.</p>



<figure class="wp-block-image is-resized"><img fetchpriority="high" decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/76c90-henri-de-toulouse-lautrec.jpg?resize=749%2C498&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-191" width="749" height="498" srcset="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/76c90-henri-de-toulouse-lautrec.jpg?w=610&amp;ssl=1 610w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/76c90-henri-de-toulouse-lautrec.jpg?resize=300%2C200&amp;ssl=1 300w" sizes="(max-width: 749px) 100vw, 749px" data-recalc-dims="1" /><figcaption><em>“Na cama, o beijo”, de Toulouse-Lautrec.</em></figcaption></figure>



<p>Roland Barthes diz que, na fotografia, além da composição, é necessário<br> reparar no que nos punge. E isso não se difere muito do Berger, perguntando o que nos faz entrar num quadro: por que detalhe se inicia o furacão ou, quem sabe, a epifania? No beijo do Klimt, aquilo que punge são as mãos da personagem masculina, se apoiando no rosto que é beijado como se fosse um presente valioso, que a qualquer momento pode se partir. Tocar com os lábios, acariciar com a saliva, transpor amor pelo palato. Teu beijo tem o gosto do infinito. E as mãos da personagem beijada, que seguram a mão segura do beijo, é o que nos chama logo em sequência: deve ser possível sentir o cheiro somente através do toque. Não duvidaria nada que o tempo está parado para os personagens desta tela desde sua feitura: e eles não pretender sair desse átimo tão cedo.</p>



<figure class="wp-block-image is-resized"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/6233e-gustav_klimt.jpg?resize=764%2C766&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-192" width="764" height="766" srcset="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/6233e-gustav_klimt.jpg?w=610&amp;ssl=1 610w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/6233e-gustav_klimt.jpg?resize=300%2C300&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/6233e-gustav_klimt.jpg?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w" sizes="(max-width: 764px) 100vw, 764px" data-recalc-dims="1" /><figcaption><em>“O beijo”, de Gustav Klimt.</em></figcaption></figure>



<p>É como se, durante o beijo, se instaurasse sempre uma disputa entre a<br> contagem do tempo e o resto da existência. É preciso viver, voltar às<br> burocracias da vida, ao trabalho, a você mesmo. Mas o tempo da existência é um só: o tempo do beijo: a única solução seria conseguir capturar o tempo e desfiá-lo até minuto virar imensidão. Essa é, talvez, a falha maior do ser<br> humano: sua impossibilidade de controlar o tempo. A tônica da inventividade humana, da sua criação de tecnologia, se tangencia por aí. Como diz Maurício Pereira, através do duo Os Mulheres Negras, “Microondas, avião, cumpram a sua função e acalmem um coração que sangra”. (Podemos simples juntar ao microondas e ao avião, o Facebook, o Instagram, a TV a cabo e a AirFryer da Polishop). Tudo isso é resposta à luta do homem contra o tempo. Chagall em seu beijo, nos deixa claro: beijar é flutuar e não querer ir embora. É tentar acertar o ar, errar, e então respirar alguém sem saber parar. Enfim, Chagall encontra significado no disforme, afinal o corpo pede. Se fosse possível, nos desentranharíamos do corpo, deixaríamos os ossos de lado e nos constituiríamos apenas de lábios e calores, assim como esse quadro-quartzo.</p>



<figure class="wp-block-image"><img decoding="async" src="https://i2.wp.com/blog.artebodoque.com/wp-content/uploads/2019/06/o-flutuar-de-chagall.html.jpg?fit=606%2C456&amp;ssl=1" alt="" class="wp-image-193" /><figcaption><em>“O aniversário”, de Marc Chagall.</em></figcaption></figure>



<p>E em Magritte, temos a despersonalização: os panos entre os lábios, a<br> princípio, são assustadores. Porém, atravessando a barreira do impacto<br> primeiro, temos a ideia de que eles não sufocam, mas se beijam. É, enfim, o<br> beijo derradeiro antes da chegada do carrasco. É o amor sentado à beira da<br> queda, chacoalhando os pés enquanto contempla a vida vivida até o fim. O<br> limite após o limite. E não há barreira que impeça o beijo: como Legos de pele, uma boca encaixa outra. Como ímãs de carne, uma língua chama a outra. Não existe mais eu, você, ele, a cama, o vaso, o terno, a máquina: tudo é beijo, tudo é troca, tudo é um: a sensação contínua de laço.</p>



<figure class="wp-block-image"><img decoding="async" width="610" height="458" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/0d42d-magritte.jpg?resize=610%2C458&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-194" srcset="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/0d42d-magritte.jpg?w=610&amp;ssl=1 610w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/0d42d-magritte.jpg?resize=300%2C225&amp;ssl=1 300w" sizes="(max-width: 610px) 100vw, 610px" data-recalc-dims="1" /><figcaption><em>“Os Amantes”, de Rene Magritte.</em></figcaption></figure>



<p>Enfim, Regards Coupables, com suas obras que focam e desconsideram<br> o que não é detalhe, apagam o que devemos preencher: o que, no corpo, não é lábio, não merece ser desenhado. A representação direta do baluarte de  tudo. O lábio faminto, que devora os vasos dilatados da boca, enquanto iniciam seu processo de quentura. O odor do beijo emana. E fica. A lentidão devastadora desse beijo salta à imagem. Um universo complexo numa casca<br> de nós.</p>



<figure class="wp-block-image is-resized"><img loading="lazy" decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/4344b-regards_coupables.jpg?resize=698%2C444&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-195" width="698" height="444" srcset="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/4344b-regards_coupables.jpg?w=500&amp;ssl=1 500w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/4344b-regards_coupables.jpg?resize=300%2C191&amp;ssl=1 300w" sizes="(max-width: 698px) 100vw, 698px" data-recalc-dims="1" /><figcaption><em>”Beijo”, de Regards Coupables</em></figcaption></figure>



<p></p>



<p></p>



<p><strong>REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS E DE IMAGENS</strong><br> BARTHES, Roland. A câmara clara: nota sobre a fotografia. Rio de Janeiro:<br> Nova Fronteira, 2017.<br> BERGER, John. Ways of seeing. United Kingdom: Penguim Books, 2008.<br> CHAGALL, Marc. Birth (O Aniversário). 1915, óleo sobre cartão.<br> KLIMT, Gustav. Der Kuss (O Beijo). 1907-1908, óleo e folha de ouro sobre<br> tela.<br> MAGRITTE, Rene. Les Amants (Os Amantes). 1928, óleo sobre cartão.<br> Os Mulheres Negras. Música serve pra isso. São Paulo: WEA, 1990<br> Regards Coupables. Kiss. 2018, instagram. Disponível em:<br> https://www.instagram.com/regards_coupables/?hl=pt-br</p>
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