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	<title>Arquivos Lacan - Revista Trama</title>
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	<description>Arte, Cultura e Criatividade</description>
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		<title>A política dos espectros</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 06 Jun 2021 21:28:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 094]]></category>
		<category><![CDATA[filosofia]]></category>
		<category><![CDATA[impeachment Bolsonaro]]></category>
		<category><![CDATA[Lacan]]></category>
		<category><![CDATA[Micael Correia]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Micael Correia</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="has-text-align-right"><em>Não há cosmonautas&#8230;</em></p>



<p class="has-text-align-right"><em>porque não há cosmos.</em></p>



<p class="has-text-align-right"><em><strong> Jacques Lacan</strong></em></p>



<div style="height:46px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<p>No último sábado (29) vimos ascender às ruas em diversos centros urbanos do país multidões de manifestantes que reivindicavam o impeachment do presidente e condições humanitárias para o enfrentamento da pandemia. Foi uma mobilização massiva de pessoas que proclamavam de um certo lugar de urgência na qual a própria regra de não-aglomeração se encontrava suspensa por um caráter de exceção. Aqui cabe uma inversão dialética: quando o estado de <em>exceção</em> vira paradigma de <em>lei</em>, nos termos agambeanos, a exceção ante a lei da <em>exceção</em> precisa ser invocada enquanto levante contra o estado, deslegitimando politicamente o exercício do governo vigente.</p>



<p>Porém, se observarmos de outro ângulo algo de paraláctico começa a aparecer. Comecemos pela observação feita por Judith Butler que diz que quando corpos se aliançam buscando manifestar sua revolta e vulnerabilidade no ambiente das ruas isso não significa somente que as ruas viram palco de um ato performativo tornado, assim, visível. <em>As ruas, na verdade, são </em><strong><em>tomadas, apropriadas e ocupadas</em></strong><em> neste gesto, como num exercício de reconhecimento daquele espaço de luta</em>. Podemos dizer que não vimos e ouvimos apenas gritos contra o fim do genocídio agenciado pelo governo, mas auditamos uma presença redefinidora da lógica daquele espaço, que costumeiramente se vale do silêncio e da normalidade para fazer correr sua mortalidade. O fato de haver uma presença viva tomando posse das ruas poderia indicar que tipo de correlação de forças é produzida quando uma pressão popular se manifesta desta forma. Mas foi por ocasião de um cartaz erguido por um manifestante que me veio outra interrogação, a saber, sobre qual a dimensão ontológica da política que foi às ruas no dia 29. O cartaz dizia mais ou menos assim: <em>“Não estamos todos. Faltam os mortos!”</em>.</p>



<p>A mensagem não era mera retórica. Era um atestado de presença. Mas afinal, sabíamos exatamente que forças presentificavam-se naquelas multidões ou podemos desconfiar que algo de <em>descentrador</em> apareceu enquanto ouvia-se o coro das marchas, o som dos passos trocados e as conclamações em forma de gestos? Deixem-me elucidar melhor a questão. Retomemos a hipótese da questão paraláctica. Me aproprio aqui de uma noção consagrada por Slavoj Zizek, que é um autor que insistirá no conceito de <em>paralaxe</em> como imanente a uma série de registros da teoria contemporânea, fazendo notar aquilo que em Lacan é chamado de Real, isto é, a lacuna que separa o Um de si mesmo¹. À guisa de seus exemplos, é possível notar várias modalidades em que essa lacuna aparece: na neurobiologia (quando o Real puro se distingue do significado na medida em que percebemos que ao olhar um crânio por trás do rosto um vazio é revelado; não há “ninguém” ali); na distância entre desejo e pulsão (essa conversão que acontece quando o alvo da tarefa passa a ser não mais o objeto, pois, através de um desvio, o objetivo da ação é deslocado para a repetição do fracasso da tarefa de alcançá-lo); ou mesmo na própria definição de Real (pois o Real lacaniano é sempre negativo, desprovido de substância, efeito lacunar das diferentes perspectivas a respeito dele). Ainda é possível considerar a negatividade da paralaxe na oposição entre o sujeito e o humano. Atualmente, é um ponto conhecido pautar a exigência de pessoas humanizadas, distantes da perigosa vazão concedida pela <em>subjetividade</em> artificial, incontrolável e agressiva dos sujeitos. Mas cabe pensar que o sujeito, pelo menos em Lacan, não corresponde a nenhum núcleo identificatório. Ele é <em>um lugar vazio</em>, (como se) ocupando o lugar do “lugar” numa função estrutural pura. Aliás, ele só surge nos interstícios da comunidade “humana” substancial entificada em identidades falsamente absolutas, donde geralmente surgem as figuras portadoras do “universal” – que, invariavelmente, correspondem aos esforços violentos em que o particular é tomado como Verdade. Daí que para um bom lacaniano, a dimensão do <em>inumano</em> parecerá mais universal do que a do humano, já que as criaturas tidas como bestiais e bárbaras sofrem justamente em função de “<em>humano em demasia”</em>. A radicalidade desta posição pode ser entendida como uma renúncia à ideia de que existimos enquanto entes passíveis de realização na trama simbólica – o que é, na verdade, uma fantasia. Pelo contrário, se notarmos o paradoxo, a saída é outra: quando percebemos nossa “inexistência”, estamos, enfim, livres da existência, livres da fantasia.</p>



<p>Nesse sentido, voltando à questão posta pelo cartaz, quero arriscar uma formulação aos moldes <em>zizekianos</em>, por assim dizer: a pergunta sobre quais grupos, políticas, movimentos ou indivíduos estavam nas ruas aquele dia pode ser encarada através de uma visão paraláctica no momento em que dizemos que ali não estavam presentes grupos substanciais representando os falecidos, as vítimas ausentes, mas é que, de uma maneira subversiva, “ninguém” estava ali, exceto os fantasmas que atravessavam os poros e formavam uma massa inexistente, isto é, uma política espectral. A possibilidade de mortos e vivos estarem marchando pelas ruas só é realizável mediante essa síntese que “eleva” ambos à categoria de <em>fantasma &#8211;</em> que rondava aquele dia nos centros urbanos. Nisso revela-se a incapacidade de situar identitariamente as figuras presentes, já que elas não poderiam estar individualizadas, porém, paradoxalmente situada nos intervalos da aglomeração.</p>



<p>Essa poderia facilmente ser mais uma “<em>ghost story</em>” em que Phoebe Bridgers lê Lacan pra dizer que atrás de toda capa branca de fantasma está escondida um vazio absoluto cuja voz é um centro não-localizável. Mas aqui a conclusão é menos pretensiosa que parece ser. Talvez seja a hora de confrontarmos o existente com o inexistente, o substancial com o fantasma, a política dos vivos com a política dos espectros. Isso porque creio que seja o momento de nos havermos num nível onde somos mais autênticos &#8211; quando nos antecipamos e desarmamos a bateria de significados que desautorizam nossa existência. Quando cremos no nosso desaparecimento e anunciamos a existência como um impasse.</p>



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<hr class="wp-block-separator" />



<p><strong>NOTA</strong></p>



<p>¹Para ler mais sobre essa relação entre Zizek e Lacan, ver em<em> ZIZEK, S. Interrogando o Real</em> (2017).</p>



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<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:22% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/9d309-micael-correia.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-14286 size-full" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p><strong><strong><strong>Micael Correia&nbsp;</strong></strong></strong>tem 22 anos e é um escritor não-autorizado. Faz graduação em Psicologia e nutre interesse por Psicanálise, Cultura e Religião.</p>
</div></div>



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		<title>SONHANDO ENQUANTO ELES DORMEM</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 28 Mar 2021 21:28:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 084]]></category>
		<category><![CDATA[Freud]]></category>
		<category><![CDATA[Gestão genocida]]></category>
		<category><![CDATA[Lacan]]></category>
		<category><![CDATA[Mia Couto]]></category>
		<category><![CDATA[Micael Correia]]></category>
		<category><![CDATA[pandemia]]></category>
		<category><![CDATA[Psicanálise]]></category>
		<category><![CDATA[Sonho]]></category>
		<category><![CDATA[Sonhos como aprofundamento do presente]]></category>
		<category><![CDATA[Terra Sonâmbula]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Micael Correia</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="has-text-align-right"><em>Nós não somos “sonhadores”.</em><br><em>Somos o despertar de um sonho</em> <br><em>que já se tornou pesadelo.</em><br><br>&#8211; <em>Slavoj Žižek, durante a manifestação</em><br><em>“Ocupem Wall Street” em outubro de 2011.</em></p>



<p>No romance “Terra Sonâmbula”, o escritor moçambicano Mia Couto aborda a consequência devastadora da guerra civil em Moçambique. O romancista narra o estado dos sobreviventes acometidos traumaticamente pela morte de familiares e conhecidos do povoado a partir da metáfora do sonambulismo: aquele povo se encontrava <em>encapsulado</em> numa dimensão <strong>onírica </strong>(sonho), presos a uma espécie de indiferenciação entre estar <em>acordado</em> e estar <em>dormindo</em>, elevando ao grau máximo a solução entre o sonho e a realidade. Tal dimensão de sonambulismo só poderia ter sido aprofundada pela violência insuportável sofrida pelo assalto do passado, o furto do futuro e, consequentemente, da indeterminação do presente, condenando-os à uma experiência de <em>paralisia psíquica</em>.</p>



<p>Lembremos que a teoria da interpretação de sonhos em Sigmund Freud já houvera sido modificada por ocasião da análise de sonhos dos neuróticos de guerra, pois, conquanto a tese inicial de Freud a respeito dos sonhos implicava que eles fossem a realização (alucinatória) dos desejos inconscientes¹, podendo ser “interpretável”, a clínica com os soldados remanescentes da guerra demonstrava que haveria nos sonhos uma repetição das vivências traumáticas &#8211; sendo, portanto, cenas manifestadamente indesejáveis -, relativizando a ideia de que o trabalho de interpretação conduziria à verdade do desejo do sujeito.</p>



<p>Pela primeira vez na teoria freudiana, situada mais especificamente no texto “Além do princípio do prazer”, essa “experiência alucinatória inofensiva” chamada sonho, como dizia Freud, cedia espaço a um outro tipo de qualidade de experiência, uma que remetia a um trabalho de sonho <em>intraduzível</em>, indecifrável, uma falha estrutural na tentativa transmutação do episódio traumático em realização do desejo. Podemos dizer que: se num primeiro momento os sonhos eram tomados como vias régias aos códigos do desejo, nesse segundo momento os sonhos colocavam o sujeito frente à sua angústia, como uma “<em>pulsão aflorante da fixação traumática</em>”².</p>



<p>Não é de hoje a preocupação de pesquisadores com a temática dos sonhos em tempos excessivos como ditaduras e guerras, como também eventos significativos do ponto de vista histórico e social, que inclui o caso da pandemia que estamos vivendo. Desde a pesquisa seminal de Charlotte Beradt sobre os sonhos dos alemães no Terceiro Reich, que mostrava testemunhos sobre a antecipação inconsciente do que viria a ser o estado <em>nazifascista </em>alemão a partir do relato de sonhos, a importância de se registrar o que as pessoas têm sonhado, sobretudo em momentos de crise política e social, confere uma postura outra em relação aos sonhos, dando-lhe a qualidade de uma <em>literatura testemunhal</em>.</p>



<p>O contexto brasileiro de pandemia não nos excluiu dessa tarefa. Paulo Endo, psicanalista e professor universitário (USP) é um desses pesquisadores que têm se interessado por reunir relatos de sonhos no Brasil. Em uma de suas apresentações mais recentes, Endo relata o sonho de uma entrevistada durante o período entre o primeiro e o segundo turno das eleições de 2018, no qual a narrativa de morte, acompanhada pela figura do leiteiro assassinado do poema de Drummond, aparecia escrita com muitos símbolos de cruz (†) entre os espaços das palavras. <em>Mal sabíamos</em> que fotos com milhares de túmulos e a realidade de tantas mortes comporiam o cenário que mais se repetiria durante uma gestão <em>genocida </em>da pandemia. Nesse sentido, podemos falar de um caráter premonitório dos sonhos, para mais além de sua qualidade <em>fixatória</em>.</p>



<p>O risco paralisante dos contextos violentos &#8211; entre os quais o Brasil de 2021 não escapa &#8211; é perene. Pois o objetivo da coação genocida não é simplesmente a neutralização das linguagens da <em>não-liberdade</em>, que nos impediria de enunciar nosso sofrimento e revolta, mas a imposição de um estado de sonambulismo em que permanecemos presos a um sonho, acreditando estarmos acordados. É por isso que, se os sonhos contêm, para além da repetição traumática, uma potência premonitória, é devido ao fato de que ele “esgarça as fronteiras do pensamento até que dali brotem pensamentos inéditos, imagens inéditas e palavras inéditas, fazendo surgir novas nomeações”³. <strong>Não porque prevê o futuro, mas porque aprofunda o presente</strong>. Daí que podemos nos alinhar à postura anti-freudiana de Jacques Lacan. Freud dizia que os sonhos eram os “guardiões do sono”. Em Lacan, essa máxima se subverte: os sonhos, na verdade, fazem despertar. Enquanto alguns querem que durmamos e vivamos num pesadelo, façamos uma inflexão: sonhemos; porém, não para fugirmos, mas sim para despertarmos para o presente &#8211; mesmo que o despertar absoluto signifique a <em>morte</em>.</p>



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<p>REFERÊNCIAS</p>



<p>¹Tese apresentada em <em>A interpretação dos sonhos</em> (FREUD, 1900).</p>



<p>² FREUD, S. (1932-1936) Novas Conferências Introdutórias sobre a Psicanálise e outros trabalhos. Conferência XXIX: <em>Revisão da teoria dos sonhos</em>. In: Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud., v. XXII</p>



<p>³ Paulo Endo em “<em>Aula aberta</em> <em>Sonhar a Democracia com Denise Mamede e Paulo Endo</em>”, disponível no Youtube.</p>



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<p><strong><strong><strong>Micael Correia&nbsp;</strong></strong></strong>tem 22 anos e é um escritor não-autorizado. Faz graduação em Psicologia e nutre interesse por Psicanálise, Cultura e Religião.</p>
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