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	<title>Arquivos mulheres fortes - Revista Trama</title>
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	<description>Arte, Cultura e Criatividade</description>
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		<title>Adélia</title>
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		<pubDate>Sun, 02 Jul 2023 19:00:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 005, N 170]]></category>
		<category><![CDATA[Sérgio Augusto Vicente]]></category>
		<category><![CDATA[arte]]></category>
		<category><![CDATA[Brasil]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: Sérgio Augusto Vicente</p>
<p>O post <a rel="nofollow" href="https://revistatrama.artebodoque.com/2023/07/02/adelia/">Adélia</a> apareceu primeiro em <a rel="nofollow" href="https://revistatrama.artebodoque.com">Revista Trama</a>.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Adélia é o seu nome. Minha tia paterna. Não é fácil dimensionar a força que essa mulher guerreira e batalhadora exerceu e exerce sobre a minha vida e a de toda minha família. Enfermeira, foi a primeira de uma família camponesa e pobre a conquistar um diploma de curso superior, no início dos anos 1980. Saiu da roça para servir aos patrões fazendeiros em Ipanema, no Rio de Janeiro, em plenos anos 1960. Teve a coragem e a dignidade de romper relações com a &#8220;sinhá&#8221; que a humilhou para buscar, sem rumo, outro emprego que pudesse mantê-la na desigual &#8220;Cidade Maravilhosa&#8221;. Continuou trabalhando como doméstica, durante anos, em outra &#8220;casa de família&#8221;, para depois garantir o sustento como camareira num hotel internacional. Tudo isso sem largar o objetivo de estudar. Terminou o antigo ginásio, fez exame admissional para o 2o. Grau e conseguiu bolsa para cursar enfermagem numa faculdade particular. Formada, prestou concurso público federal, sendo logo convocada para assumir o cargo no Hospital da Lagoa e no HCE. Naquela época, o mais difícil era concluir uma faculdade.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>&nbsp;<br>Tão logo alcançando a sua estabilidade financeira, tornou-se &#8220;muro de arrimo&#8221; de toda família. O salário que recebia poderia lhe garantir uma vida com muito mais conforto do que tinha, mas a sua generosidade transbordante sempre fez com que uma boa fatia de seus rendimentos fosse gasta com a família. Solteira, dedicou-se aos sobrinhos, à irmã (Irene), que lutou com sérios e dispendiosos tratamentos cardíacos, e aos filhos de uma amiga que morava com ela em Botafogo, e que foram acolhidos como os filhos que a vida lhe deu. Mãe de todas e todos, viveu e vive a vida para cuidar do outro no sentido mais fraterno que essa palavra pode ter: foi babá, doméstica, camareira e enfermeira, profissões que exigem o dom do amor e da dedicação constante ao outro. &nbsp;<br>&nbsp;<br>Minhas memórias de Natal na roça não existem sem ela. Em dezembro, chegava de malas prontas, repleta de presentes, brinquedos, balas, biscoitos de muitas variedades e enfeites de Natal. Fartura pouca, bobagem! Meu 4o. bimestre na escola já insinuava sua presença. Já podia sentir a boa ansiedade me invadir nos últimos meses do ano. Por volta da segunda semana de dezembro, eu e meus irmãos subíamos no alto do morro e aguardávamos o ônibus <em>Belvedere</em> dobrar a curva da estrada, na expectativa de vê-lo parar na encruzilhada logo em frente. A certeza da parada nunca tínhamos, já que não podíamos contar com a informação instantânea que a tecnologia hoje nos traz. No início dos anos 1990, a comunicação na roça era precaríssima: não tínhamos telefone fixo, não tínhamos energia elétrica, muito menos sonhávamos com um &#8220;trem&#8221; esquisito e alienígena chamado celular. Coração saindo pela boca, sentíamos pelo ronco do motor do ônibus que ele, infelizmente, não ia parar. Decepção arrebatadora. Fazer o quê?! Mas a espera continuava&#8230; Até que, na semana seguinte, o &#8220;busão&#8221; finalmente parava&#8230; À parada do motor respondíamos com a descida disparada pelo morro, rumo ao seu encontro. Abraços, beijos, malas e sacolas se misturavam. Cheirinho de tia Adélia no ar, estávamos certos de que o clima natalino havia começado.&nbsp;</p>



<p>Tia Adélia passava Natal e Ano Novo lá no sítio. Sua presença significava mudança de rotina: trabalhava ao ritmo das músicas de seu ídolo, o rei Roberto Carlos, introduziu o hábito de montarmos árvore de Natal com galho de goiabeira, limpava e enfeitava com flores a nossa capelinha de Nossa Senhora Aparecida, e realizava as famosas caminhadas matinais pelas estradas de terra esburacadas. Depois dos quarenta, tornou-se amante da atividade física: aprendeu a nadar, nadou na Argentina, começou a correr, etc. Também gostava de visitar os amigos da redondeza. Era uma forma de manter vivo o passado e relembrar as origens mineiras, que nunca se perderam em meio às “carioquices”. Do bom e velho costume mineiro, manteve o herdado de seu avô: rezar o terço. Nas noites de Natal e Ano Novo, sempre fez questão de rezá-lo conosco, com a família reunida na sala. E ainda mantemos essa tradição viva, mesmo nas ocasiões em que não podemos contar com a sua presença.&nbsp;</p>



<p>&nbsp;<br>Por mais de três décadas, morou numa casa localizada na Vila Santa Clara, na rua São Clemente, em Botafogo (RJ). Há poucos metros da Casa de Rui Barbosa e repleto de casarões antigos, o endereço me fascinava pela inigualável combinação do antigo com o moderno. Como não me lembrar das férias escolares no janeiro carioca? Da minha primeira ida a uma praia, na Praia Vermelha, do bondinho, do pão-de-açúcar, daquele exuberante céu azul, que se confunde com a cor de seus olhos?&nbsp;&nbsp;</p>



<p>&nbsp;<br>Sempre entusiasta dos meus estudos, guardo carinhosamente as fotos que tirou das minhas formaturas (desde o ensino fundamental). Fotos estas acompanhadas das carinhosas e elogiosas dedicatórias de incentivo, escritas com aquela letra linda e estilosa, que inspirou minha irmã e, depois, a mim. Por ela e por todas as mulheres guerreiras da minha família, eu insisto, persisto e resisto nessa prazerosa e árdua caminhada. Com ela, aprendi que os estudos nos emancipam e nos dão um pouco de dignidade nesse país dominado por uma &#8220;elite do atraso&#8221;, que, diuturnamente, impõe barreiras infinitas para que o pobre não tenha voz e vez. Continuo pobre, mas orgulhoso de minhas origens e das grandiosas pequenas coisas que conquistei com meus estudos. Com ela também aprendi a respeitar, valorizar e exercer com responsabilidade a missão de um funcionário público. Aposentada na compulsória (ou &#8220;expulsória&#8221;, como ela ironicamente diz), dedicou-se com louvor, afinco e amor a essa missão.&nbsp;</p>



<p>A vida lhe foi subtraindo amizades antigas. A aposentadoria lhe tirou a rotina do trabalho diário, que exerceu durante anos e anos, restando-lhe os cuidados com o lar. Lar, novo lar. Não mais em Botafogo, mas na Taquara, onde comprou seu primeiro imóvel. Um apartamento onde vive a sétima década de sua vida, repleta de novos desafios, dilemas e incertezas. Fase de ressignificações, redimensionamentos, nostalgias e mergulhos profundos em um passado remoto, cada vez mais presente em sua mente. Passado vivido e revivido em suas imaginações e reimaginações. Memórias fugidias, passarão, mas vivenciadas com sede de liberdade, passarinhos. Voos livres, mas de rumos incertos, como a vida é. Reflexão que ela soube tão bem expressar numa simples tampa de caixa de remédio – talvez acessando recônditos lugares de sua consciência/inconsciência: “Pássaros lindos, para onde vão?”</p>



<div style="height:100px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<h3 class="wp-block-heading has-text-align-center">Envie sua proposta para nossas chamadas para publicação e para exposições!</h3>



<figure class="wp-block-image alignfull size-large"><a href="https://institucional.artebodoque.com/2023/06/30/chamada-de-inverno-para-publicacao-revista-trama-bodoque/"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="950" height="239" src="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/chamada-trama.png?resize=950%2C239&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-31756" srcset="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/chamada-trama.png?resize=1024%2C258&amp;ssl=1 1024w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/chamada-trama.png?resize=300%2C76&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/chamada-trama.png?resize=768%2C194&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/chamada-trama.png?resize=205%2C52&amp;ssl=1 205w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/chamada-trama.png?resize=480%2C121&amp;ssl=1 480w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/chamada-trama.png?resize=600%2C151&amp;ssl=1 600w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/chamada-trama.png?resize=1200%2C302&amp;ssl=1 1200w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/chamada-trama.png?w=1401&amp;ssl=1 1401w" sizes="(max-width: 950px) 100vw, 950px" data-recalc-dims="1" /></a><figcaption class="wp-element-caption"><em>Clique na imagem para mais informações.</em></figcaption></figure>



<figure class="wp-block-image alignfull size-large"><a href="https://institucional.artebodoque.com/2023/06/30/chamada-de-inverno-para-publicacao-revista-trama-bodoque/"><img decoding="async" width="950" height="239" src="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/chamada-expo-1024x258.png?resize=950%2C239&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-31754" srcset="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/chamada-expo.png?resize=1024%2C258&amp;ssl=1 1024w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/chamada-expo.png?resize=300%2C76&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/chamada-expo.png?resize=768%2C194&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/chamada-expo.png?resize=205%2C52&amp;ssl=1 205w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/chamada-expo.png?resize=480%2C121&amp;ssl=1 480w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/chamada-expo.png?resize=600%2C151&amp;ssl=1 600w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/chamada-expo.png?resize=1200%2C302&amp;ssl=1 1200w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/chamada-expo.png?w=1401&amp;ssl=1 1401w" sizes="(max-width: 950px) 100vw, 950px" data-recalc-dims="1" /></a><figcaption class="wp-element-caption"><em>Clique na imagem para mais informações.</em></figcaption></figure>



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<p><strong>Sérgio Augusto Vicente</strong></p>



<p>Doutorando e mestre em História, Cultura e Poder pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Bacharel e licenciado em História pela mesma universidade. Dedica-se a estudos na área de história social da cultura no período correspondente à segunda metade do século XIX e às décadas iniciais do século XX, com ênfase nos seguintes temas: associativismo, sociabilidades, trajetórias, história intelectual, história social da literatura, memória, arquivos e coleções bibliográficas e documentais. Professor efetivo de História da Prefeitura Municipal de Juiz de Fora (MG). Possui experiência em pesquisa histórica, processamento técnico de acervo e difusão cultural em museus &#8211; como curadorias de exposições e mostras, palestras, minicursos e oficinas. Entre os anos 2022 e 2023, integrou a equipe curatorial de três grandes exposições que reabriram o Museu Mariano Procópio integralmente aos públicos, com novas abordagens historiográficas e narrativas expográficas. São elas: 1. <em>Rememorar o Brasil: a Independência e a construção do Estado-Nação</em>; 2. <em>Fios de Memória: a formação das coleções do Museu Mariano Procópio</em>; 3. <em>Villa Ferreira Lage (ambientação da residência de uma família da elite senhorial brasileira do século XIX).</em> Desde 2020, atua como escritor da revista <em>Trama Bodoque: arte, cultura e criatividade </em>(ISSN 2764-0639) e, a partir de 2022, também passou a atuar como membro do conselho editorial do referido periódico semanal.&nbsp;</p>
</div>
</div>



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<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://open.spotify.com/episode/5P6bxSaRg2cK48jDngP6CY?si=0xXOqkk_QzGWuUYT-GgGtg"><img loading="lazy" decoding="async" width="819" height="1024" src="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/06/ARTE-O-ANO-EU-NAO-ME-LEMBRO.png?resize=819%2C1024&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-31307" srcset="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/06/ARTE-O-ANO-EU-NAO-ME-LEMBRO.png?resize=819%2C1024&amp;ssl=1 819w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/06/ARTE-O-ANO-EU-NAO-ME-LEMBRO.png?resize=240%2C300&amp;ssl=1 240w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/06/ARTE-O-ANO-EU-NAO-ME-LEMBRO.png?resize=768%2C960&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/06/ARTE-O-ANO-EU-NAO-ME-LEMBRO.png?resize=600%2C750&amp;ssl=1 600w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/06/ARTE-O-ANO-EU-NAO-ME-LEMBRO.png?w=1080&amp;ssl=1 1080w" sizes="(max-width: 819px) 100vw, 819px" data-recalc-dims="1" /></a><figcaption class="wp-element-caption"><em><strong>Clique na imagem para mais informações!</strong></em></figcaption></figure>



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<h3 class="wp-block-heading has-text-align-center has-white-color has-black-background-color has-text-color has-background">Esse espaço maroto de apoio e fomento à cultura pode mostrar também a sua marca!</h3>



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