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	<title>Arquivos Não Monogamia - Revista Trama</title>
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	<description>Arte, Cultura e Criatividade</description>
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		<title>LIBIDO E PANDEMIA: A PULSÃO DE VIDA EM TEMPOS DE MORTE</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 25 Apr 2021 21:29:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 088]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Luciana Rodrigues]]></category>
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		<category><![CDATA[Não Monogamia]]></category>
		<category><![CDATA[Sexualidade]]></category>
		<category><![CDATA[sociedade monogamica]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Luciana Rodrigues</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>2021. Ano dois da pandemia. Abril. Segunda onda de contaminações do novo coronavírus no Brasil.</p>



<p>E ainda tentamos entender um &#8220;novo normal&#8221;, quando ainda não temos nem um &#8220;normal&#8221; que possa representar algo diferente do que vivenciávamos no período pré-Covid. Entre os parâmetros que compõem o nosso normal costumeiro, temos a busca de padrões, sentimentos e desejos semelhantes aos que eram possíveis em um mundo no qual não lidávamos com uma escalada de mortes cotidiana.</p>



<p>E, muitas vezes, seguimos na cobrança incessante de mantermos a libido sexual ativa. Questionamentos sobre falta de motivação, desejo, tesão são cada vez mais comuns. Em páginas focadas sobre o tema, são numerosos os seguidores perguntando &#8220;o que eu faço para aumentar minha libido? Parece que ela sumiu&#8221;.</p>



<p>Em primeiro lugar, é essencial entender: a libido não é desejo sexual &#8211; ou, pelo menos, não está limitada a isso (em primeiro lugar, honestamente, poderíamos discutir o que é definido como &#8220;o que é sexo? O que é sexual?&#8221;, mas deixemos essa discussão para outro momento). Segundo Freud, libido é a &#8220;energia que surge dos nossos instintos ou das pulsões e que direciona nossos comportamentos&#8221;. Pode advir, assim, da pulsão de vida ou da pulsão de morte. A primeira é a que direciona, por exemplo, sentimentos, emoções e desejos direcionados para o prazer, por exemplo; prazer esse não limitado apenas à concepção de sexo. Uma boa comida, um salto de buggie jump, uma experiência estética fantástica: tudo isso pode nos gerar prazer. Nos gerar gozo. E está tudo bem.</p>



<p>Mas voltemos à libido voltada para sexualidade.</p>



<p>Alguns sentem que a proximidade com o &#8220;medo da morte&#8221; potencializa esses desejos. Afinal, se encaramos a possibilidade da efemeridade da nossa existência tão próxima de nós, batendo a porta a cada noticiário, ou a cada publicação de familiares e amigos que faleceram por complicações da Covid-19, muitos sentem o anseio de viver tudo que precisam antes que o &#8220;mundo acabe&#8221;.</p>



<p>E ainda, dentro desse, há alguns que são movi1dos por uma lógica alimentada pela nossa sociedade neoliberal de que “tudo podemos”. Se há um interdito (como o distanciamento social), soa como se algo tivesse sido roubado da pessoa. Uma castração. E, assim, uma das consequências pode ser a pessoa adotar comportamentos de risco para pandemia &#8211; o que coloca em risco todo o pacto coletivo necessário neste momento.</p>



<p>Já outros sentem uma queda considerável no interesse por práticas sexuais. A mente não consegue fantasiar. Às vezes, há o desejo; mas a exaustão impede o direcionamento de nossas ações. Afinal, sobreviver é mais importante. Garantir subsistência ocupa nossa mente. Associado a isso, está um profundo sentimento de culpa. &#8220;Há algo errado comigo?&#8221;. Não. Há algo errado com o mundo. Há uma doença circulando, de forma descontrolada, por aí.</p>



<p>Contudo, nossa sociedade neoliberal precisa nos manter em nossas máquinas desejantes. O desejo como força motriz do mercado, como processo de produção. Se não desejamos, não adquirimos, não consumimos. Assim, mesmo diante da necessidade de focarmos na sobrevivência, precisamos consumir.</p>



<p>Afinal, consumo é, nessa lógica, intimamente ligado à felicidade. E a busca pela felicidade nos motiva ao consumo. O discurso neoliberal nos empurra para essa autocobrança: se está deixando a sua busca irrestrita pela felicidade de lado, está falhando. Seja feliz, esteja disposto o tempo todo, tudo que desvie disso é uma falha ou desistência.</p>



<p>Entre todos os tipos de desejo, aquele direcionado à sexualidade é, também, motor de consumo. Com isso, temos um constante sentimento de inadequação: se minha libido está baixa, há algum problema comigo. Patológico. Hormonal. Que precisa ser tratado quanto antes.</p>



<p>É claro que há casos e casos, nos quais há, sim, patologias que influenciam na libido. Contudo, é normal e natural que, em momentos de incertezas, nossos esforços estejam todos direcionados a sobreviver. Que nosso adoecimento mental impacte nossa pulsão de vida. O medo de uma doença desconhecida, do desemprego; o cansaço das rotinas de home office, de dupla jornada&#8230;</p>



<p>Estamos exaustos. Profundamente exaustos. Em todos os sentidos. Físico. Mental. Em muitos casos, não vai ter tesão que, de fato, se sustente nesse cenário. E está tudo bem.</p>



<p>Está tudo bem acendermos nosso instinto de autopreservação, ainda que toda nossa estrutura tente nos jogar para o lado oposto. Autocuidado também é revolucionário dentro dessa lógica neoliberal.</p>



<p>Nos rendermos a essa cobrança da máxima eficiência, inclusive, é contraproducente. Adoece corpos e mentes a longo prazo. Não há necessidade de agirmos de forma cruel com cobranças irreais quando o contexto por si só já nos gera angústia e sofrimento. Tome cuidado para não cair, por meio desse discurso, em uma busca que mais pode te afastar de uma libido genuína do que, de fato, “recolocá-lo nos eixos de um desejo sexual perfeito”. Respeite seu momento. Esse é um grande ato de resistência nesses tempos.</p>



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<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:22% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/bde16-luciana-rodrigues.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-13815 size-full" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p><strong><strong>Luciana Rodrigues </strong></strong>é doutoranda em Ciências Humanas e Sociais e defensora de uma educação sexual consistente e responsável. Idealizadora do projeto Hacking Sex (<a href="https://hackingsex.medium.com">Medium</a> e <a href="https://www.instagram.com/hackingsex/">Instagram</a>).</p>
</div></div>



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		<title>Desnaturalização da(s) (a)sexualidade(s): reflexões sobre a “naturalidade” da monogamia nos tempos atuais</title>
		<link>https://revistatrama.artebodoque.com/2021/03/14/desnaturalizacao-das-asexualidades-reflexoes-sobre-a-naturalidade-da-monogamia-nos-tempos-atuais/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 14 Mar 2021 21:27:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 082]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Luciana Rodrigues]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Luciana Rodrigues</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>&#8220;Sexo e (a)sexualidade(s) também são culturais&#8221;</p>



<p>A proposição dessa frase pode causar muito estranhamento para algumas pessoas. Afinal, compreender que isso não é “natural” ou “biológico” pode ter avançado em alguns pontos, mas ainda precisamos caminhar para a desnaturalização de outros.</p>



<p>Exemplo disso é que, atualmente, é muito mais fácil compreender uma questão que, desde sempre, deveria ser óbvia: a homossexualidade, a bissexualidade e a transexualidade não são patologias passíveis de tratamento (ainda que a retirada desses termos dos manuais de saúde mental seja recente). Mas, e as outras letras que compõem o acrônimo LGBTQIAP+? Intersexo, Queer, Assexuais, Pansexuais, entre tantos outros, ainda lutam para que sejam reconhecidos de forma naturalizada e, também, garantam maior visibilidade.</p>



<p>Outros pontos que interferem em nossas visões sobre sexo e (a)sexualidade(s) também são culturais – muito mais do que imaginamos. Por exemplo: ainda estamos começando nos questionamentos da naturalização da monogamia como única forma possível de relacionamento. Isso causou um estranhamento para você? Pois é. A monogamia diz muito mais sobre relações de poder e sobre projetos de sociedade do que, essencialmente, da biologia.</p>



<h4 class="wp-block-heading">O surgimento da monogamia</h4>



<p>As forças que atuam sobre a permanência da monogamia no imaginário social são fortes. Um dos primeiros esforços para &#8220;naturalizá-la&#8221; veio com a sugestão de que nós somos uma espécie &#8220;frágil&#8221;: precisamos de cuidados por muitos anos da vida e, por isso, demandamos cuidados parentais por mais de uma década. O que, ok, faz sentido. Somos uma das poucas espécies animais que precisam acompanhar o “filhote” além do desmame para que possam sobreviver.</p>



<p>Diante disso, vale mencionar que nós, seres humanos, não somos apenas seres biológicos, e sim biopsicossociais; portanto, os elementos culturais também interferem nisso. Por exemplo, por que optamos por um modelo monogâmico parental estrito e não por uma cultura coletiva, na qual a comunidade seria responsável por esse processo de formação dos indivíduos? As estruturas sociais aparecem, aqui, como uma resposta para essa questão.</p>



<p>Fato é: muitos teóricos ao longo da história abordam como a monogamia surgiu junto com o conceito de família e, consequentemente, de propriedade. Etimologicamente, o termo surge do latim, do termo <em>famulus</em>, que significa o &#8220;conjunto de propriedades de alguém&#8221; – incluindo aí escravos, criados, servos e parentes. Segundo Engels, a estrutura familiar, tal como concebemos hoje, nasceria junto com a concepção de “bens privados”, para garantir a sua transmissão para herdeiros legítimos.</p>



<p>Daí temos o surgimento do patriarcado (o homem como cerne da família e no predomínio do poder), do controle sobre os corpos femininos (para que não existissem dúvidas sobre a paternidade, evitando herdeiros ilegítimos e transformando as próprias mulheres em posses nessa estrutura) e, por fim, da monogamia instituída como estrutura que sustentará esse sistema &#8211; sendo corroborada, ainda, pela nossa moralidade ocidental, com bases judaico-cristãs (a qual também legitimará, por meio do puritanismo, uma sociedade heteronormativa).</p>



<h4 class="wp-block-heading">A não-monogamia como alternativa política</h4>



<p>A não-monogamia, assim, ganha fôlego nos últimos anos não só por mostrar, em um contexto micro, que outras formas de se relacionar em nossa sociedade ocidental contemporânea são possíveis, buscando a liberdade de relacionar-se de acordo com o formato que lhe é desejável. Essa discussão é, também, política. E cultural.</p>



<p>Segundo o atlas etnográfico produzido pelo pesquisador George Murdock, temos mais de 800 sociedades diferentes em todo o mundo (para além da ocidental tradicional na qual estamos inseridos), e 80% delas possuem uma estrutura não-monogâmica (sejam elas <a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Poliginia">poligínicas</a> ou <a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Poliandria">poliândricas</a>). Acreditar que a monogamia surge apenas como um fator biológico é, assim, uma ingenuidade; afinal, tantas outras sociedades sobreviveram para além dessa estrutura, garantindo a sobrevivência da prole e daquele grupo social como um todo.</p>



<p>Então, trazer para o debate público que outras formas de relação são possíveis é, também, questionar a hegemonia vigente que baseia tantas outras estruturas nocivas socialmente, como o patriarcado. Não é à toa, por exemplo, que o conceito de “anarquia relacional” é um dos temas discutidos como uma das possibilidades (não a única) de se relacionar na não-monogamia: é a união de relações afetivo-românticas e afetivo-sexuais com um conceito político subversivo em essência, que visa estabelecer horizontalidades em todas as relações; parentes, amigos, colegas, parceiros, então, teriam o mesmo grau de importância, não sendo hierarquizados.</p>



<p>Assim, é importante entendermos: a monogamia não existe porque era a única forma (ou, ainda, como outros colocam, a melhor forma) de sobrevivência da espécie. Era uma das possibilidades e ganhou fôlego por questões culturais, sociais e econômicas que estão na raiz do seu surgimento. A naturalização promovida não é à toa. Ela sustenta uma estrutura social que é tão rígida, que temos dificuldade de subvertê-la completamente ainda.</p>



<p>Neste artigo, a ideia não é criar um antagonismo entre monogamia e não monogamia na esfera micro; o que quero dizer é: cada um que preserve seus interesses e se relacione como for mais confortável em suas vidas pessoais. A ideia é, sim, propor uma reflexão sobre a forma como nos relacionamos e sobre o quão difícil é para quem deseja viver sua liberdade afetivo-romântica e/ou afetivo-sexual de outras formas, quando há forças externas potentes atuando sobre seus modos de se relacionar todo o tempo. E pensarmos, também, no quanto, sexualidade e sexo não são apenas naturais e na influência das forças culturais e sociais agindo sobre isso, todo o tempo. Entendermos que nossas sexualidades são disputadas politicamente todos os dias, pelos mais diferentes motivos.</p>



<p>Desnaturalizar a(s) (a)sexualidade(s) (no sentido de relegarmos esse debate à esfera apenas biológica) é preciso, para podermos ter uma visão mais abrangente de algo tão intrínseco à nossa identidade e com tantas implicações para a existência de tantas pessoas em nossa sociedade.</p>



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<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:22% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/bde16-luciana-rodrigues.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-13815 size-full" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p><strong><strong>Luciana Rodrigues </strong></strong>é doutoranda em Ciências Humanas e Sociais e defensora de uma educação sexual consistente e responsável. Idealizadora do projeto Hacking Sex (<a href="https://hackingsex.medium.com">Medium</a> e <a href="https://www.instagram.com/hackingsex/">Instagram</a>).</p>
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		<title>Sexualidade, sexo e cultura: esses termos podem andar lado a lado?</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 31 Jan 2021 21:27:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 076]]></category>
		<category><![CDATA[Ars Erotica]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Luciana Rodrigues]]></category>
		<category><![CDATA[Não Monogamia]]></category>
		<category><![CDATA[Sciencia Sexualis]]></category>
		<category><![CDATA[Sexualidade]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Luciana Rodrigues</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Nos últimos tempos, falar sobre sexualidade e sexo tem sido um grande desafio. Muitas vezes, parece que ensaiamos um retorno à Era Vitoriana, no qual o ato sexual só não era visto como imoral se fosse para fins reprodutivos. E tudo relacionado a isso que fugisse da heteronormatividade focada para fins biológicos era um problema &#8211; ou, ainda, doença.</p>



<p>Estamos vivenciando uma forte onda de conservadorismo, a qual ganhou muito fôlego nos últimos anos. Isso reforça, justamente, essas questões &#8211; seja em seus discursos, seja por meio de políticas institucionais para este fim (tal como não promover a educação sexual e de sexualidade para jovens). Por isso, dentro deste contexto, pode parecer estranho propor que sexualidade é, também, um traço da cultura; pois bem, a verdade é que a última influencia consideravelmente a primeira.</p>



<p>Afinal, sexo, sexualidade e cultura podem andar lado a lado? A resposta é: sim. </p>



<p>E, se isso é um choque, não é sem razão: são muitos anos pensando que sexo e sexualidade estavam ligados estritamente a questões biológicas. E, pior ainda: associando sexualidade obrigatoriamente aos atos sexuais. Perceber o que poderia ser &#8220;óbvio&#8221; pode realmente nos tirar do lugar comum e nos fazer repensar, até mesmo, nossas próprias convicções sobre esses conceitos.</p>



<p>Se nem mesmo as concepções sobre sexo são idênticas, variando culturalmente, imagine quando falamos sobre vivências de sexualidade (incluindo aqui a assexualidade, ainda é vista em nossa cultura como distúrbio ou patologia).</p>



<p>Esses temas, bem como o erotismo, estão presentes não apenas nas áreas de medicina, psicologia e biologia; mas também nas artes, na cultura e na política. Eles, de fato, perpassam nossa vida em diversos aspectos.</p>



<p>Por isso, a ideia aqui será abordar a sexualidade enquanto traço cultural, com curiosidades, histórias, reflexões e proposições que nem sempre serão confortáveis. Porém, elas são necessárias para que possamos compreender como estamos inseridos nisso e como as questões não são tão &#8220;naturais&#8221; como pensamos. Quer entender a dimensão disso? Veja a seguir alguns pontos.</p>



<h3 class="wp-block-heading">Não-monogamia</h3>



<p>Exceto nas discussões suscitadas no ambiente acadêmico e pelos adeptos da não-monogamia, pouco falamos sobre a monogamia não ser algo “natural”, mas sim uma criação que surgiu há cerca de 20 mil anos. Nesse período, deixamos de ser uma espécie nômade e passamos a nos fixar em propriedades, ado a monogamia como estrutura de relacionamento prioritária – e que vigora até os dias atuais.</p>



<p>Poucas espécies são, de fato, monogâmicas (apenas 5% dos mamíferos). O argumento é de que os primatas (entre eles, nós, humanos) temos proles muito frágeis e que exigem cuidados por muitos anos; assim, seria importante que indivíduos mais velhos zelassem pelo desenvolvimento do filhote. Contudo, para este fim, a poligamia não consistiria em empecilho. Por que, então, migramos para a estrutura monogâmica?</p>



<p>Os elementos culturais, econômicos e políticos têm uma força muito grande aqui. Afinal, os seres humanos são a única espécie que, culturalmente, geram herança de propriedade &#8211; ou seja, os bens dos pais passam para as gerações seguintes. A monogamia, assim, permitia facilitar o processo sucessório da propriedade privada (e reforçou, também, o surgimento da sociedade patriarcal, já que a sucessão era feita em torno dos bens do elemento paterno da família). Com o tempo, isso foi sendo reforçado através da moralidade judaico-cristã e da legislação criada com foco na economia.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><em>Ars Erotica</em> e <em>Sciencia Sexualis</em></h3>



<p>Outro ponto que evidencia a intersecção entre sexualidade e cultura consiste das diferentes perspectivas que perpassam esses temas quando delimitada a separação Ocidente-Oriente. No Ocidente, sexualidade e sexo são fortemente associados &#8211; sendo, este último, composto por atos que envolvam genitálias (já que ele é, &#8220;naturalmente&#8221;, para fins reprodutivos). Por aqui, o conceito é encarado por um viés que dialoga com os conceitos de biologia e perpetuação da espécie (<em>Sciencia Sexualis</em>) &#8211; ou seja, como se o ato sexual fosse apenas para fins reprodutivos. Nesse contexto, o que foge desse objetivo final é “diferente”, “desviante”, “patológico” (vide o fato de que o fetichismo, a homossexualidade, a transsexualidade, entre tantos outros, estiveram presentes no CID-10 e DSM-4 por tantos anos). Sexo e sexualidade soam praticamente como sinônimos, limitando potencialidades libidinosas, além de excluir dessa área aqueles que não tenham desejo por sexo (tal como concebemos tradicionalmente), ou seja, a comunidade assexual (ace).</p>



<p>No Oriente, essa associação entre sexualidade e sexo já não é tão direta. Como Foucault aponta em sua obra &#8220;História da Sexualidade I: A Vontade do Saber&#8221;, nas culturas Orientais, predomina a noção de <em>Ars Erótica </em>(arte erótica), na qual compreende-se o sexo como uma forma de transcendência &#8211; muito mais ligada ao prazer, genuinamente falando, sem um interdito moral sobre o ato. Essa visão torna coerente encontrarmos, no Oriente, elementos como o Kama Sutra (que consiste em literatura religiosa hindu) e o Tantra (tradição do hinduísmo e do budismo, no qual as práticas sexuais possuem funções ritualísticas, como meio de transformação da divindade interior, colocando o sexo como um dos muitos aspectos da vida, indo além da procriação).</p>



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<p>Esses foram dois exemplos simples para introduzir os temas que serão abordados aqui nas próximas edições. Precisamos encarar a sexualidade como um traço cultural &#8211; e, como uma influencia a outra, precisamos também enxergar as construções culturais sobre a sexualidade enquanto o que são, e não enquanto aspectos &#8220;naturais&#8221; da biologia humana.</p>



<p>Por muitas vezes, este é um caminho espinhoso; por outras, é libertador. O peso de não estar “adequado” ao “natural” imposto pela sociedade pode ser um sofrimento constante. E, por isso, estamos aqui para discutir e tentar desconstruir questões dolorosas para nós e para tantos outros. Vamos juntos nisso?</p>



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<p><strong><strong>Luciana Rodrigues </strong></strong>é doutoranda em Ciências Humanas e Sociais e defensora de uma educação sexual consistente e responsável. Idealizadora do projeto Hacking Sex (<a href="https://hackingsex.medium.com">Medium</a> e <a href="https://www.instagram.com/hackingsex/">Instagram</a>).</p>
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