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	<title>Arquivos Prosa poética - Revista Trama</title>
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	<description>Arte, Cultura e Criatividade</description>
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		<title>Terra Mar</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 07 May 2023 18:59:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 005, N 162]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[ficção]]></category>
		<category><![CDATA[poema]]></category>
		<category><![CDATA[poesia]]></category>
		<category><![CDATA[Prosa poética]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: Ibriela Bianca Sevilla e Luciana Tiscoski</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>2 de maio.&nbsp;</p>



<p>É sabido que no Oeste não há mar. Fomos geograficamente afastados do oceano por muitos quilômetros, talvez por eras geológicas, por eras históricas, mas hoje escuto o quebrar das ondas em maremoto bem aqui, através da minha janela noturna. Este mar me pertence, ronca igual esse mar aí que faz profundezas.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Invento no gotejar incessante uma praia completa. Alagada. Açude transbordando em ondas. É maremoto que chega. Fúria da ventania. É uma beleza a ruína que nos resta. Estamos ilhadas&#8230;&nbsp;</p>



<p>***&nbsp;</p>



<p>11 de maio&nbsp;</p>



<p>“Invento no gotejar incessante uma praia completa”. fico repetindo esse verso como se gotejasse vontades de ondas e fúrias de ventania. e do mar inventado desde minha ruína, ensaio ganhar outras ilhas, andarilhar outras línguas. sempre será esse meu desejo, amiga terra. sonho antiga e abissal. durmo calmaria de medos, dentes apertando gritos que irrompem das fossas submarinas. corpo todo afundado em águas mortas, quilômetros e quilômetros, por eras arquetípicas, arqueologias sanguíneas. bile amarela colérica correndo nos antebraços causam aquela sensação estranha familiar de um pavor que dói. o corpo afunda arrastado pelo imenso piano amarrado ao tornozelo por uma corda. o piano toca silence no oceano da minha melancolia. do escuro desse abismo os olhos insistem em resgatar navios, noite após noite, o desejo de ir. e fugir da queda do céu.&nbsp;</p>



<p>***&nbsp;</p>



<p>15 de maio&nbsp;</p>



<p>Amiga mar,&nbsp;&nbsp;</p>



<p>aqui ainda chove, no mesmo gotejar incessante. Lá embaixo, desde a parte mais plana do terreno, Catarina me olha e reclama da inundação. De lá ela não pode nem se mover; cativa clama por salvação, quer providências. Mas não faço nada, não farei nada até que a chuva…você me fala de afundar amarrada a esse imenso piano, lembro que Piva, andando pela praça V, me contava que &#8220;Oswald Spengler tem uma porta no seu tornozelo &amp; nuvens através dele&#8221;, penso que afundar deve ser também uma espécie de voar, afundar assim, na velocidade possível para um corpo pequeno tem um peso e uma pressão equivalentes a atravessar grossas nuvens de chuva. Sempre haverá algo, um piano, uma porta, uma estrela, presa ao nosso tornozelo para lembrar-nos que estamos cativas, como a Catarina, inundadas, ou pior.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Uma ironia a senzala se chamar &#8220;Doce Lar&#8221;, um sarcasmo diria até… afinal tudo se trata de uma tentativa apaixonada de fuga.&nbsp;</p>



<p>E então eu tinha que te falar da terra, das laranjas que já estão coloridas e doces, mas a beleza não se presta para o exílio no próprio peito. Sim, somos abissais.&nbsp;</p>



<p>***&nbsp;</p>



<p>18 de junho, 15h44&nbsp;</p>



<p>eu volto pra te falar de ansiedade, de vontade de mar. eu falo falo falo. leio hoje no sol o lacan, o seminário do desejo e sua interpretação. ele me montou uns esquemas de letras e de barras e por fim falou do desejo comme lieu de la parole. e a minha ansiedade é tão determinada que nunca para. a coisa dessas ânsias tem origens incertas e há dores com a cor do fado, dores blues e drogas todas lícitas expostas e drágeas de desgraças e tudo que vem após o nascimento das tragédias&nbsp;</p>



<p>a tristeza é senhora, canta o caetano&nbsp;</p>



<p>e anseio o mar que me engole e me devolve inteira&nbsp;</p>



<p>o i ching bem que me avisou para abrir os portais&nbsp;</p>



<p>amiga terra, no meio do caminho em direção ao mar posso me acovardar e adoecer e deixar de fazer o que deveria, afinal arranjar utilidade remunerada por meus braços fortes, pois são suficientes pra ajudar muita gente, melhor que meu dedo hasteando bandeiras com filtros nas redes </p>



<p>nunca sei se soo convincente&nbsp;</p>



<p>acredite eu sofro de porteiras abertas pelas mortes de uns encantados que estão na guerra enquanto cozinho ansiedades em fogo brando&nbsp;</p>



<p>do mar para o terreiro. porque na próxima bifurcação posso também querer arregaçar essa dor numa gira&nbsp;</p>



<p>a cachaça a dança os tambores e o sagrado que nos carcome&nbsp;</p>



<p>queria te contar dos livros que dedicamos à perda sem contrapartida. falamos há pouco de amada, da tony morrisson, e dos fantasmas de palavras; também da única palavra articulada por uma boca sem língua no torto arado.&nbsp;</p>



<p>leio ansiosamente a montanha mágica do thomas mann e estou quase sendo empesteada sem qualquer nexo sensual, é parte de um sintoma antigo essa ânsia pelos clássicos tijolões. é outro o sentido da montanha mágica, tudo tem voz de pneumotórax. fala de uma morte que habita a preguiça do corpo vivo ainda, uma morte consentida&nbsp;</p>



<p>mas te pergunto&nbsp;</p>



<p>e o que não tem cansaço? aquilo que não dá consentimento pra morte besta em vida? o que me dá e me ultrapassa?&nbsp;</p>



<p>não está na montanha mágica.&nbsp;</p>



<p>há qualquer outro sentido que farejo ansiosa e é bem fácil de achar&nbsp;&nbsp;</p>



<p>nessa conversa de hoje, nas minhas cachorras, no café&nbsp;</p>



<p>estou lendo também a história da loucura e ouvindo uma música que fala de perdição e do que será&nbsp;</p>



<p>depois a gal emprestando a garganta para o luiz melodia é daquelas vesânias que entorpecem e a gente logo pede pra seguir em frente a vida do jeito que durar, ardendo um pouquinho vez ou outra&nbsp;</p>



<p>pérola negra te amo te amo nem sei se te amo&nbsp;</p>



<p>tente esquecer em que ano estamos&nbsp;</p>



<p>***&nbsp;</p>



<p>19 de junho, 19:03&nbsp;</p>



<p>Amiga, quero te ler submersa. Liberta daquele piano imenso que te leva para as profundezas abissais. Quero te ler única sereia-unicórnia reluzente. Não importa se do bem ou do mal, vais para além dessas fronteiras no mundo submarino. Quero te ler com aquele fôlego que só os seres marinhos têm. Sopre forte para que eu possa atravessar o mundo subterrâneo (onde me encontro) até chegar a você. Para que eu possa atravessar em um único fôlego o mar de Lidenbrock que Júlio Verne imaginou e que agora faz morada no meu corpo.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Meu caminho é longo, vou encontrando os túneis cavados pelas minhocas, e os poucos espaços vazios deixados pelas raízes arrancadas. Está muito denso aqui embaixo, sempre lento; confortável se me calo, se me quedo. Exaurida, encontro tão somente a superfície da terra arada, sulcos de versos sem fim.&nbsp;</p>



<p>Arado é a única palavra que uma boca sem língua pode dizer. Arado. Palavra torta, assonante, que pode ser falada sem língua, mas não sem terra.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Se eu cavar essa terra toda que me enche a boca, talvez possa responder sem tanto pensar, sem tanto estudar, que o que te atravessa, e arde, e dura, que o cansaço que nos escurece a sombra, é, e nada mais; para além e aquém de nossas tentativas bestas de sermos mais do que minhoca ou mais do que unicórnia.&nbsp;</p>



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<div class="wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow" style="flex-basis:66.66%">
<p><strong>Ibriela Bianca Sevilla </strong>é doutora em Literatura pela UFSC, professora e pesquisadora independente de literatura brasileira contemporânea. É sócia fundadora do Instituto Cultural Nossa Maloca, de Chapecó-SC. Atua em projetos culturais ligados ao incentivo à leitura, performance poética e leitura dramática. É integrante do Coletivo Abrasabarca com quem tem dois livros publicados, <em>Abrasabarca</em> (Medusa, 2018) e <em>Revoluta</em> (Caiaponte, 2019). Publicou seu livro solo de poemas <em>Mínimo Tratado da Paixão</em> (Urutau) em 2021 tem pós-doutorado em roça e atualmente leciona língua portuguesa e literatura na rede estadual de ensino em Chapecó-SC.&nbsp;</p>



<div style="height:20px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<p><strong>Luciana Tiscoski</strong> é jornalista e escritora. Tem mestrado e doutorado em Literatura pela UFSC, com estágio em doutorado na Université Paris X &#8211; Nanterre, França, e pós-doutorado em Artes Visuais na linha História, Teoria e Crítica, pela UDESC. Com o coletivo de poetas mulheres Abrasabarca, participa dos livros <em>Abrasabarca, </em>lançado em 2018 pela Editora Medusa, e <em>Revoluta</em>, de 2019, pela Caiaponte Edições. No Sesc Santa Catarina, foi técnica de cultura, desenvolvendo projetos e compondo curadorias em diversas linguagens artísticas. Lançou o conto “Uma menina gorda”, pela Editora Butecanis, e “Área de broca”, seu primeiro livro individual de contos, pela Editora Nave, ambos em 2021. Atualmente, é redatora da Una! Criatividade e Impacto Positivo, agência de criação publicitária e cultural.&nbsp;</p>
</div>
</div>



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		<title>A ARTE DO ENCONTRO</title>
		<link>https://revistatrama.artebodoque.com/2021/12/26/a-arte-do-encontro/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 26 Dec 2021 21:22:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 122]]></category>
		<category><![CDATA[Criatividade]]></category>
		<category><![CDATA[crônica]]></category>
		<category><![CDATA[Fernanda Zeloschi]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Prosa poética]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://tramabodoque.com/?p=22139</guid>

					<description><![CDATA[<p>por:  Fernanda Zeloschi</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<pre class="wp-block-verse has-text-align-right"><em>“Se</em>
<em>nem</em>
<em>for</em>
<em>terra</em>
<em>se</em>
<em>trans</em>
<em>for</em>
<em>mar”</em>

<em>Leminski (2013, p.142)</em></pre>



<p>Eu tentava insistentemente abafar os pensamentos que se passavam como nuvens em minha cabeça. Quanto mais eu tentava abafar, as nuvens se tornavam mais escuras e a chuva barulhenta dos meus pensamentos ecoavam no silêncio ensurdecedor do ambiente e do meu ser. Eu me rendo.</p>



<p>Nesse últimos meses eu estava me vendo como essa nuvem escura, que apenas chovia. Chovia muito. E apesar de gostar de chuva, não conseguia enxergar a beleza daquele momento caótico. A ambiguidade dos sentidos não me permitia enxergar a luz por detrás da escuridão. Em meio ao choro e a tristeza, que parecia não ter fim, fui convidada pela vida a levantar, porque a luz estava logo à frente, mas eu me recusava a caminhar.</p>



<p>Comecei a caminhar com a cabeça baixa e os olhos caídos. Fui para um lugar mágico, que nem sempre é tão mágico assim, mas, sem dúvidas, é um lugar de transformações. Nesse lugar, recheado de pessoas, eu diria, iluminadas, fui obrigada a levantar o olhar, fui obrigada a encarar meus medos de frente, fui obrigada a olhar nos olhos.</p>



<p>Que olhos lindos eu encontrei. Sempre gostei desse tipo de pessoa. Sim, essas que olham nos olhos e não tem medo de se despirem para o desconhecido ou compartilhar o que há de mais profundo no âmago da essência e da existência. Essas pessoas que não tem medo do encontro, que buscam aprender a arte do encontro em tempos de tantos desencontros.</p>



<p>Encontrei um par de olhos castanhos que me deixava intrigada, mas que não deixavam os meus olhos caírem. Olhos ímãs? Talvez. Não sei&#8230; Só sei que eles me buscavam. Também não sei o motivo de me buscarem, só sei que eu já não conseguia olhar para o chão. Queria descobrir mais sobre esse universo ainda tão desconhecido.</p>



<p>Para a minha surpresa, quanto mais esses olhos castanhos buscavam o meu olhar, eu buscava, mesmo que desatentamente, a olhar nos olhos de outros universos. Percebi o quanto eram diferentes, únicos e irrepetíveis. Sabemos que somos únicos, mas será que sabemos? Sempre achamos que existem universos melhores, enquanto a verdade é que existem universos. Nem melhores, nem piores. Apenas universos.</p>



<p>Esses olhares que escondiam universos, me mostraram a luz que existia dentro de mim. Ela estava ali o tempo todo tentando aquecer outros corações e o meu próprio coração, mas eu não deixava a luz passar. Hoje meu universo é mais complexo que antes. Sim. Eu sei que existem os dias ensolarados. Assim, como não tento afastar as nuvens escuras. Tem algumas semanas que chove muito, mas descobri a beleza do arco-íris. Como seria chato ser apenas luz, quando podemos ser luz, chuva e arco-íris. Não seria possível enxergar tanta diversidade se eu continuasse agarrada a momentos, que passam tão ligeiros. Dói deixar esses momentos passarem. Acho que o que dói mesmo é a saudade de encontros que se desencontraram.</p>



<p>Bom, esse primeiro olhar que iniciou minha transformação foi de um pequeno menino, que de pequeno não tinha nada. Esse foi o meu primeiro encontro depois de permitir me reencontrar. Esse lugar mágico onde essas mudanças de perspectiva começaram a acontecer é conhecido como escola: um lugar de imaginação, elevação e um convite a voltar a ser criança. Esses universos que me convidavam a ser menos dura e aceitar a complexidade do meu universo foram as crianças, que também me aceitaram e amaram o meu universo particular.</p>



<p>Não acredito que sou um ser humano melhor depois dessas experiências e enfrentamentos, mas, sem dúvidas, sou um ser humano em transformação tentando praticar a autotranscedência e o amor ao próximo. E, não posso esquecer, tentando encontrar outros olhares e perspectivas em cada universo colorido em que me deparo. Tentando procurar mais olhares que buscam se encontrar. Tentando encontrar mais afeto em cada olhar.</p>



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<p>Referência: LEMINSKI, Paulo. <strong>Toda Poesia. </strong>São Paulo: Companhia das Letras, 2013.</p>



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<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:22% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img loading="lazy" decoding="async" width="950" height="950" src="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/rinco.png?resize=950%2C950" alt="" class="wp-image-22158 size-full" srcset="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/rinco.png?w=1080&amp;ssl=1 1080w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/rinco.png?resize=300%2C300&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/rinco.png?resize=1024%2C1024&amp;ssl=1 1024w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/rinco.png?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/rinco.png?resize=768%2C768&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/rinco.png?resize=980%2C980&amp;ssl=1 980w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/rinco.png?resize=96%2C96&amp;ssl=1 96w" sizes="(max-width: 950px) 100vw, 950px" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p> <strong>Lívia Rinco</strong> é amante de uma boa caminhada sob a natureza, estudante de Psicologia, gosta de levar a vida inspirada em notas musicais e poesias.</p>
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		<title>PALAVRAS NO CAMINHO</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 19 Dec 2021 21:21:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 122]]></category>
		<category><![CDATA[Criatividade]]></category>
		<category><![CDATA[crônica]]></category>
		<category><![CDATA[Fernanda Zeloschi]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Prosa poética]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Fernanda Zeloschi</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<pre class="wp-block-verse">A minha criança  
me começa
a menina que eu fui,
aos seis anos,
assistiu ao nascer do mundo
quando aprendeu a ler. 
Estava sempre esfomeada
por biscoitos de polvilho e frases
aprendeu a ler as placas
o nome dos bairros
os outdoors 
os grafites
ler a cidade de dentro de um ônibus
também lido.
Eu comemorava entender
os rótulos de qualquer embalagem
os recados na entrada do prédio
os anúncios na televisão
as mensagens nas camisas das pessoas.
Lembro da animação travessa
em desvendar as estantes do papai
me demorando em suas anotações de rodapé
cabia poesia na literatura da engenharia
em bisbilhotar as agendas da mamãe
nasciam os dois em seus silêncios
com segredos 
talvez nunca revelados
nas conversas de casal
quando eu ia para o quarto
e os gritos rompiam qualquer leitura. 
Quando eu tinha um livro em mãos
me tornava invisível
os adultos ao meu redor
me esqueciam com as palavras
e eu
que até preferia a ficção
experimentei o sabor amargo do real.
Fomos 
eu e as palavras
atravessando os tempos
sonhando juntas
éramos irmãs
destinadas aos desentendimentos 
principalmente quando me aparecia um
exórdio, fenecido, vesânico.
Parei de ler
até os bilhetinhos no banheiro da escola
durante a separação dos meus pais
foram os livros de engenharia para um lado
as agendinhas para o outro
e nas duas casas
eu não lia
eu flutuava no vazio 
me perguntando
será que os segredos 
sabem que agora não dividem a mesma prateleira?
Eu não sei se voltei a ler
ou se precisei escrever
para recuperar o encanto
dos relógios perdendo tração
diante das rimas.
Quando
me ponho a escrever
debruça em mim a menina
ansiosa para nascer
uma miúda invenção
convidando a sonhar.
</pre>



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<p><strong><strong>Fernanda Zeloschi </strong></strong>é estudante de Psicologia, escritora teimosa e acredita nas faíscas do afeto através do @<a href="https://www.instagram.com/fazerafetar/">fazerafetar</a></p>
</div></div>



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		<title>SOBRE A EFEMERIDADE DAS RELAÇÕES</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 05 Dec 2021 21:27:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 120]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[crônica]]></category>
		<category><![CDATA[Fernanda Zeloschi]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Prosa poética]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: Camila Wendling</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>A palavra efêmero, de acordo com o dicionário, significa tudo aquilo que é breve, passageiro, transitório ou temporário. Originário do grego &#8220;ephḗmeros” o termo significa &#8220;o que dura um dia&#8221;. Bom, sabemos que um dia é o equivalente a 24h, o que para alguns pode significar muito tempo e para outros o mesmo que um sopro. Mas, afinal de contas, quanto tempo é tempo o bastante?<br><br>Existe uma antiga lenda da mitologia japonesa que conta a história de Konohana Sakuya Hime, conhecida também como a Deusa do Monte Fuji. Segundo a história, Sakuya era dona de uma beleza inigualável e sua figura é acompanhada por um vasto simbolismo de cura, longevidade e compaixão.</p>



<p>Mas, para além disso, a deusa também representa o efêmero e tem como um de seus principais símbolos a flor de cerejeira, famosa por sua floração que dura apenas uma semana após germinar. Há várias histórias envolvendo a flor de cerejeira e em sua maioria elas falam sobre a importância de se aproveitar as experiências da vida de forma intensa, sempre destacando a efemeridade das relações.<br><br>Desde sempre, os contos de fada e os filmes românticos nos contam histórias que tendem a terminar com o famoso &#8220;e viveram felizes para sempre.&#8221; Nos é vendida uma ideia de que grandes amores duram anos e enfrentam as barreiras do tempo. Eu poderia discorrer sobre a ingênua ideia de felicidade eterna, como se a felicidade significasse uma constante e não um sentimento que vai e volta, e vai novamente. Mas eu gostaria de me atentar para a ideia do &#8220;para sempre&#8221;, o conceito de eternidade que em sua grandeza é tão superestimado, como se um grande período de tempo fosse sinônimo de qualidade.</p>



<p>A volatilidade das situações muitas vezes reforçam a necessidade, que acreditamos ter, de que algo em nossas vidas dure para sempre. Dessa forma, nos apegamos a ideia de eternidade porque em algum âmbito ela pode ser reconfortante.<br><br>Por exemplo, os amores ao meu redor sempre foram transitórios, nunca duraram tempo o suficiente, pelo menos, não pra mim. Mas às vezes eu penso que esse sentimento, de que nada dura tempo suficiente, é fruto de uma construção do eterno que faz parecer que o tempo que temos nunca é o bastante e que sempre precisamos de mais. É engraçado pensar que muitas vezes vivemos a vida buscando por algo eterno, sendo que a própria vida não passa de uma fração.</p>



<p><br>Por outro lado, eu sempre fui fã de grandes histórias, de amores que duram uma vida, de amores que dão significados a vida, mas a noção do efêmero, tão poético em seu dizer, ressignifica o conceito do amor, sendo assim, um tipo de benção amaldiçoada que ao mesmo tempo que encanta dói.</p>



<p>Na maioria das vezes não é fácil se despedir de alguém que durante um tempo foi tanto em nossa vida, não é confortável reaprender uma rotina que não envolve mais esse outro, tampouco é agradável deixar partir.&nbsp; Ao mesmo tempo é incrivelmente bom se permitir ao novo, se abrir para novos toques, novas formas de sentir e quem sabe, até mesmo amar. O efêmero é um dos deuses do tempo e talvez ele seja um dos mais complexos, pois ele permite que sejamos junto com o outro mas que continuemos a ser quando estamos sós, pois nós também somos momentos.<br><br>É um deus que se manifesta entre um encontro e outro, sempre nos ensinando que tudo é passageiro. O efêmero é a única certeza que temos antes da morte e tentar negá-lo, é de certa forma, negar a vida que acontece ao longo dos nossos encontros e desencontros.</p>



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<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:22% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img loading="lazy" decoding="async" width="423" height="423" src="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/72a46-camila-wendling.png?resize=423%2C423" alt="" class="wp-image-19300 size-full" srcset="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/72a46-camila-wendling.png?w=423&amp;ssl=1 423w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/72a46-camila-wendling.png?resize=300%2C300&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/72a46-camila-wendling.png?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/72a46-camila-wendling.png?resize=96%2C96&amp;ssl=1 96w" sizes="(max-width: 423px) 100vw, 423px" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p><strong><strong>Camila Wendling </strong></strong>tem 24 anos, é redatora e graduanda em Jornalismo pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Amante dos romances e das boas histórias.<strong><strong> </strong></strong></p>
</div></div>



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		<title>DIAS DE CÃO</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 05 Dec 2021 21:23:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 120]]></category>
		<category><![CDATA[Criatividade]]></category>
		<category><![CDATA[crônica]]></category>
		<category><![CDATA[Fernanda Zeloschi]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Prosa poética]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Fernanda Zeloschi</p>
<p>O post <a rel="nofollow" href="https://revistatrama.artebodoque.com/2021/12/05/dias-de-cao/">DIAS DE CÃO</a> apareceu primeiro em <a rel="nofollow" href="https://revistatrama.artebodoque.com">Revista Trama</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Enquanto finalizo os preparos do almoço, Zinha cochila ao lado da geladeira. Consigo ouvir suas respirações mesmo com o feijão borbulhando enfurecido no fogão. Não sei bem se o que a desperta é o cheiro de carne recém cozida ou o barulho das tampas das panelas anunciando o meio do dia.</p>



<p>Ela se põe nas quatro patas quase peladas e orienta seu caminhar pela minha voz. Seu pêlo caiu há quase um ano, quando um fungo tornou preta sua pele e a fez usar os caninos para tentar solucionar as coceiras. Numa noite foi impossível dormir porque o som de suas mordiscadas rápidas e ritmadas nas patas martelavam minha cabeça. Seu cobertor parecia feito de espinhos.&nbsp;</p>



<p><em>Venha, cachorrinha, hora de comer.</em> Ela se senta ao meu lado e fareja o ar quente do almoço. Entre uma garfada e outra, atiro a ela um pedaço de gordura. Ela abaixa a cabeça e mira o chão com o focinho, tentando se guiar pelo aroma temperado. O petisco finalmente encontra sua boca, mas é engolido sem deixar rastro de gosto, sem sequer fingir ter sido mastigado.</p>



<p>Quando me levanto para servir a ração de Zinha, sinto seu caminhar desengonçado atrás de mim, girando o corpo enrugado e tentando não me perder em seus desequilíbrios. Ela enfia o focinho no pote antes que toque o chão. Se engasga uma, duas vezes. Eu puxo um banquinho e me sento longe do alcance dos giros de seu rabo. Me preparo para caso precise realizar alguma manobra de socorro, mas não acontece. Seria a terceira vez na semana.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>A louça se acumula na pia para mais tarde. Escovo os dentes e me deito na cama. Zinha tenta se lançar ao colchão, batendo a cabeça na estrutura de madeira e sendo arremessada de volta ao piso. Para pegá-la no colo, preciso colocar as luvas que já ficam penduradas na cabeceira. Espero um pouco até decidir ajudá-la. Quando nos encostamos, sinto seus ossos salientes e ignoro seu rosnado rouco. Os dentes que ainda não desistiram dela tentam cravar em meu polegar por baixo das camadas de tecido, mas se soltam quando suas patinhas tocam a cama. Enquanto ajeito os travesseiros, ela me encara lambendo os beiços.</p>



<p><em>O que foi? Sofia não está mais aqui para tratá-la com regalias</em>. Foi para Londres viver nos pubs. Nos dias em que a chuva se espreme nas telhas e inunda a varanda com goteiras, Zinha cola o corpo na porta de entrada e tenta pegar no sono. Poderia esperar até às dez da noite para ouvir a chave girando na fechadura e comemorar a chegada das canelas finas e coxas nuas de sua dona. Agora, sempre digo a ela que ninguém virá. Desconfio que Zinha esteja começando a acreditar.</p>



<p>Naquela época, eram raras as vezes em que trocávamos olhares. Quando eu tinha algum tempo entre as fornadas de bolo durante o dia e a procurava, ela era um borrão no quintal, cortando o vento na direção de algum pássaro pousado na grama. Tal qual um cão de caça. Trazia para o sofá algum animal morto no entardecer e Sofia escondia a cara de nojo para acariciá-la em agradecimento. As duas entravam para o box e tomavam banho juntas — só faltava usar pijama essa cadela. Depois que ficamos só nós duas, Zinha passou a direcionar a mim os olhos se manchando de branco. Parece que ficou cega de propósito — arrumou um jeito de não me ver.</p>



<p>Não faz nenhuma sala: logo desvia a atenção, enrosca o corpo ao lado do meu tornozelo e dorme. Acordamos por volta das cinco com uma ligação de Sofia. Ela abre a câmera e pergunta da cachorra.</p>



<p>— Cadê minha velhinha preferida?</p>



<p>Zinha ouve sua voz e dá um pulo em direção ao celular na mesma velocidade que eu gostaria que viesse quando preciso saber se ela ainda está viva em algum canto da casa. Enfia o focinho no aparelho: as duas conversam e choram.</p>



<p>— E você, mamãe? Como está? — Sofia segue focada nos bigodes brancos de Zinha. — Vivendo dias de cão, minha filha.</p>



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<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:22% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/73656-fernanda-zeloschi.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-14057 size-full" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p><strong><strong>Fernanda Zeloschi </strong></strong>é estudante de Psicologia, escritora teimosa e acredita nas faíscas do afeto através do @<a href="https://www.instagram.com/fazerafetar/">fazerafetar</a></p>
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		<title>SOBRE MÃES E DOBLÔS VERMELHAS</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 05 Dec 2021 21:21:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 120]]></category>
		<category><![CDATA[Criatividade]]></category>
		<category><![CDATA[crônica]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Prosa poética]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Valentina Prado</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>A minha mãe sempre gostou de Doblôs &#8211; aquelas famosas minivans que a gente vê na estrada ora ou outra. Quando ela avistava uma percorrendo o horizonte trêmulo, dizia: “um dia a gente vai ter uma Doblô, tu vai ver”. Depois dessa frase, seguia-se um monólogo sobre os benefícios que a Doblô poderia trazer para nós, desde viajar em família até esfregar na cara dos vizinhos o fato de termos um carro decente (por que não?). Só havia um detalhe: tinha que ser da cor vermelha. Era isso, ou nada feito. Assim, eu me colocava a sonhar com a promessa de felicidade sobre quatro rodas: um quadradão vermelho ambulante, sete assentos (dois deles reclináveis), faróis maiores polielípticos de dupla parábola e muitos outros artifícios que só amantes de carros poderiam explicar.</p>



<p>Não pude evitar toda essa lenga-lenga saudosista para dizer que há umas duas semanas eu estava andando de carro com a minha mãe, as duas absortas em seus mundinhos imaginários, quando vi uma Doblô passar do nosso lado. Primeiro senti nostalgia, depois decepção: ela estava suja de lama seca, parecia cair aos pedaços, não suscitava encantamento e, por último, mas não menos importante, era verde-musgo; completamente ordinária. Essa percepção poderia ter sido facilmente descartada nos meandros da minha mente se não fosse pela memória da minha mãe falando sobre Doblôs vermelhas.</p>



<p>Nós duas jamais tivemos a maldita minivan, muito pelo contrário, continuamos com um Palio Weekend de 2008 que precisa de reparos todo mês (sem exceções). Nós não viajamos para lugares incríveis; nada mudou. Nada, exceto pelo fato que os anos nos passaram para trás, nossos rostos marcados pelo peso das memórias, e, como a Doblô verde-musgo, nos sujamos e nos machucamos. Nunca foi sobre carros, até porque eu não entendo de carros. Mas sobre a minha mãe eu sei um pouco.</p>



<p>A minha mãe era uma sonhadora um tanto ingênua, que transplantava as suas idealizações para dentro do meu coração, e, assim eu fui crescendo, meio bitolada. Acontece que em dado momento da vida você percebe que a sua mãe não tem mais ambições e a história da Doblô fica no passado, imaculada. Você percebe que sua mãe é um indivíduo como qualquer outro, com falhas e desvios de caráter. Você percebe a distância que lhe separa da sua mãe, embora estejam no mesmo aposento. “Um dia a gente vai ter uma Doblô, tu vai ver”; a frase ecoa no recôndito do seu cérebro. Um dia a minha mãe vai morrer e eu não vou poder compartilhar o silêncio com ela e gritar com ela e odiar ela e querer matar ela e dizer o quanto eu a amo apesar de tudo. Como a porra de um carro ia nos proteger das inevitabilidades da vida?</p>



<p>O motor dos automóveis pifa, o coração das pessoas para de bater e eu tento, inutilmente, segurar tudo e todos com uma barragem invisível. Nós queremos ser a Doblô vermelha, imponente e promissora, mas acaba que somos frágeis e falhos feito a Doblô verde-musgo, que em questão de tempo será descartada nas profundezas abissais dos carros obsoletos. Será que as pessoas sentem falta dos seus carros obsoletos? (Ou seriam os sonhos obsoletos?) Um dia a gente precisa se despedir da mãe, dos velhos amigos e dos carros que cruzam a avenida. Talvez não haja dor maior que a impermanência, com a única constante sendo o “adeus”. A visão da Doblô real contrastando com a Doblô idealizada; adeus. A minha mãe envelhecendo; adeus. A vida nos passa para trás como carros cortando o horizonte; restam as reminiscências idílicas.</p>



<p>Seria bonito encerrar este texto dizendo que no futuro eu vou ter uma Doblô vermelha para levar a minha mãe a passeios durante seus últimos sopros de vida, pois, dessa forma, eu levaria os leitores à loucura e eles pensariam: “isso foi <em>emocionante&#8230;</em>”, mas seria mentira, afinal eu sou escritora e provavelmente não terei um puto para comprar uma minivan, assim, o máximo que posso fazer é criar a imagem da Doblô por meio da grandiosa arte da literatura. Ao longo do texto, eu disse que a única constante era o “adeus” e eu não quero retirar isso, entretanto, acrescento que escrever é uma maneira de perpetuar o efêmero na sua própria redoma de eternidade. É contraditório, se fosse diferente não seria real. Para dar conta do real e do ilusório, surge isto aqui que eu não sei dizer se é uma crônica ou um amálgama de divagações sem sentido, mas sei que fala sobre mães e Doblôs vermelhas.</p>



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<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:22% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img loading="lazy" decoding="async" width="913" height="913" src="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/b1ae9-valentina-prado.png?resize=913%2C913" alt="" class="wp-image-19345 size-full" srcset="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/b1ae9-valentina-prado.png?w=913&amp;ssl=1 913w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/b1ae9-valentina-prado.png?resize=300%2C300&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/b1ae9-valentina-prado.png?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/b1ae9-valentina-prado.png?resize=768%2C768&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/b1ae9-valentina-prado.png?resize=96%2C96&amp;ssl=1 96w" sizes="(max-width: 913px) 100vw, 913px" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p><strong><strong>Valentina Prado </strong></strong>é escritora desde os 12 anos de idade, embora só tenha se assumido como tal em 2021, durante o curso de Escrita Criativa na PUCRS. A autora é paulistana, nascida em 2003, e vive em Porto Alegre desde 2017. Ama livros, filmes, pinturas e tudo o que a arte pode oferecer. Escrever a assusta, mas a necessidade de se expressar fala mais alto.</p>
</div></div>



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		<title>PRIMEIRA ORAÇÃO</title>
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		<pubDate>Sun, 21 Nov 2021 21:23:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 118]]></category>
		<category><![CDATA[Criatividade]]></category>
		<category><![CDATA[crônica]]></category>
		<category><![CDATA[Fernanda Zeloschi]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Fernanda Zeloschi</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Os anjos da guarda me acompanharam por toda a vida. Este é o ritual da minha família: quando uma criança está prestes a nascer, cada mulher a presenteia com uma minúscula estátua de resina de anjinho. Alguns estão ajoelhados rezando, outros louvam os céus com as mãos levantadas e existem os mais raros que tocam harpa.&nbsp;</p>



<p>Nas mais de quinze mudanças de casas que fiz durante os anos, os levei comigo. Alguns perderam pedaços de asa e outros ficaram pela metade, uns sem cabeça, outros sem os pés. Ainda assim, sempre encontrei um lugar para expô-los nos abafados apartamentos onde morei. As visitas chegavam e sempre os descobriam em alguma prateleira. <em>São assustadores</em>, as amigas mais próximas costumavam me alertar e eu concordava — <em>protegem só dos medrosos.</em></p>



<p>Na última semana, quando finalmente me arrumei na moradia nova — que de nova talvez tivesse apenas a minha televisão comprada em 2012 — mamãe veio me visitar com uma amiga. Nos sentamos à mesa para o café sob olhar divino dos anjos ainda disfarçados entre as plantas no canto da sala. Antes de ir embora, Deca foi à janela e descobriu as estátuaszinhas.<em> Não sabia que sua filha era religiosa, Madá, és religiosa, menina?</em></p>



<p>Os quadros não estavam nas paredes ainda, de forma que a pergunta ficou ecoando pelos dois cômodos, batendo no quarto e voltando à sala. A semana inteira. Nunca pensei nos anjos como expressão de minha religião. Até porque eu não tenho nenhuma e se existe um deus (perdão, Deus), ele (ou Ele?) está chateadíssimo com a minha falta de educação de sequer agradecer pela vida e pelo dia de hoje&nbsp; — que, por sinal, foi péssimo, ainda assim a gente precisa agradecer?&nbsp;</p>



<p>Aquelas estátuas de resina me encaram com os olhos perdendo a tinta e brilhando no breu do apartamento escuro. Ainda que não à toa eu esteja viva e elas estejam por perto, como quem procura explicação divina para cotidianos, só consigo olhar para elas e ver mulheres. A maioria já morreu. Sobraram duas tias — das onze — e mamãe, que quebrou o protocolo e também quis me presentear no nascimento.&nbsp;</p>



<p>Eu certamente não sou uma pessoa de fé. Não acredito nos padres ou nos políticos ou nos médicos. Sempre espio eu mesma o meu exame de sangue e causo certo pânico nas clínicas porque levanto da maca de ultrassom durante o procedimento para analisar meu corpo por dentro na tela.&nbsp;</p>



<p>Nos anjos, também não acredito. Quando ando numa rua escura e sinto a aproximação de um homem nas minhas costas, não seguro na mão de anjo da guarda nenhum. Mas penso em mamãe. Ela me ensinou alguns golpes para me defender. <em>Coloque as chaves entre os dedos e esteja pronta para correr, </em>o primeiro ensinamento da vida na cidade<em>.</em>&nbsp; Quando criança, até rezava com vovó, mas abria os olhos para tentar descobrir como ela conseguia mudar a voz e de onde tirava aquelas palavras que eu nunca tinha ouvido. Talvez não sejam os anjos os protetores da história. Eles não fazem nada, são estátuas destruídas pelo tempo e pelo descuido. Mas insistem no convite de botar fé nas sutilezas (como dizem os primos mais novos a quem também presenteio com anjos). E eu aceito sem reparar: boto uma fé teimosa na lembrança das mulheres mais velhas. Elas me aproximaram do mistério e é sob seus olhares que eu permaneço a caminhar.</p>



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<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:22% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/73656-fernanda-zeloschi.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-14057 size-full" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p><strong><strong>Fernanda Zeloschi </strong></strong>é estudante de Psicologia, escritora teimosa e acredita nas faíscas do afeto através do @<a href="https://www.instagram.com/fazerafetar/">fazerafetar</a></p>
</div></div>



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		<title>ARQUITETURA DO AMANHÃ</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 07 Nov 2021 21:23:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, n 116]]></category>
		<category><![CDATA[Criatividade]]></category>
		<category><![CDATA[crônica]]></category>
		<category><![CDATA[Fernanda Zeloschi]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Prosa poética]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Fernanda Zeloschi</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<pre class="wp-block-verse">A cidade se arma 
os prédios escondem o céu
as calçadas cobrem a terra
as sirenes calam os pássaros. 
A noite é mais poste do que estrela
e pelas manhãs
o café, 
industrializado e apressado,
diz que é hora de partir.
À cidade
incomoda a árvore
com raízes rebeldes
que quebram calçadas
e dançam a fiação. 
Logo virão os homens
já tão podados 
destinados a também podar
com suas serras elétricas
e seus mandos de destruição.
Ordem! Ordem! Ordem! 
O capital arquiteta a vida
não convém floresta
ou fluxo natural de água alguma
sequer também convém gente.
Tem obra nas margens 
para o rio não invadir
e tem espinho nos bancos
para o seu Jorge não deitar.
Porém
as árvores brotam
dos troncos que sobram
os pássaros esperam 
p a c i e n t e m e n t e
um respiro das sirenes
o sol se espreme entre os edifícios
e queima a janela de alguém
as chuvas
fazem ponte para o rio 
passar por cima
de tudo. 
O arquiteto não vê
as rachaduras na sua construção
onde espia,
sóbrio e tranquilo,
o vir-a-ser.</pre>



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<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:22% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/73656-fernanda-zeloschi.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-14057 size-full" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p><strong><strong>Fernanda Zeloschi </strong></strong>é estudante de Psicologia, escritora teimosa e acredita nas faíscas do afeto através do @<a href="https://www.instagram.com/fazerafetar/">fazerafetar</a></p>
</div></div>



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		<title>O PÉ DO SEU GONÇALVES</title>
		<link>https://revistatrama.artebodoque.com/2021/10/31/o-pe-do-seu-goncalves/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 31 Oct 2021 21:21:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 115]]></category>
		<category><![CDATA[Criatividade]]></category>
		<category><![CDATA[crônica]]></category>
		<category><![CDATA[Fernanda Zeloschi]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Prosa poética]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: Jhonata Santana</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>O dia já amanhecera frio; o ar cálido dominava a sombria prenunciação do que aconteceria. O ardor divino começou no banho: Seu Gonçalves ligou o chuveiro e esperou uns minutos até que a água esquentasse &#8211; pensara em trocar a resistência do aparelho e sempre adiava o compromisso com a incrédula sensação de inutilidade. Gonçalves era homem fiel, cumpria tudo que prometia, mas sempre se esquecia de si; esquecera até de se alimentar por ter ficado horas ajudando uma amiga. Puxou a esponja enchendo-a com sabão, esfregou toda a parte de cima do corpo quando o susto veio, ficou encarando os dedos dos pés, ali, desaparecendo diante dos seus olhos. Saltou para fora do banheiro tão ligeiramente que nem pensou em desligar o registro. Foi se secando, encarando o sumiço de parte do seu pé.&nbsp;</p>



<p>&#8211; Ué, cadê?&nbsp;</p>



<p>Era vago, lento, mas ia desaparecendo; foi trabalhar. Por precaução, colocou uma calça e um tênis. Não gostava de médico; em sua cabeça, “logo, logo passa”. Foi para a obra.&nbsp;</p>



<p>&#8211; E aí, Seu Gonçalves, tudo bem? Tô tentando montar um guarda-roupa ali em casa&#8230; é enorme, pode me ajudar?&nbsp;</p>



<p>&#8211; Poxa, vai atrasar a entrega dessa aqui, mas vamo lá!</p>



<p>Esse era o seu Gonçalves, cumpria tudo que prometia, mas sempre se esquecia de si. Logo se esqueceu do pé, que ia desaparecendo aos poucos. Fim do dia, foi para casa, tomou o banho, parecia não se abalar com o sumiço do seu pé que ia subindo aos tornozelos. Seria o banho quente? Talvez não, mas decidiu tomar banho gelado para garantir. Houve batidas na porta, correu para o quarto, cobriu os pés.&nbsp;</p>



<p>&#8211; Olá, Gonçalves!&nbsp;&nbsp;</p>



<p>&#8211; Oi Maria, tudo bem? – Ele tinha aquele sorriso sem graça no rosto, não de desespero, mas de preocupação.&nbsp;</p>



<p>&#8211; Tá de toalha e meia? Por quê?&nbsp;</p>



<p>&#8211; Ah&#8230; Humnn&#8230; Nada. &#8211; Pensou. – Vem Entra!&nbsp;</p>



<p>Ela se acomodou na cozinha; já era de casa, a visita que hora ou outra aparecia para pedir favor ou uma noite de amor. Sempre que ela chegava, ele ia preparar um café, pegava o jarro de alumínio e punha a água para ferver. A companhia era boa; os assuntos muitas vezes fluíam com água de torneira, e às vezes não sobrava tempo para palavras, ela o agarrava e arrastava-o para o quarto. Hoje, havia a dúvida. O que ela queria? Sexo, favor ou conversa? Os três? Tudo ao mesmo tempo?</p>



<div class="wp-block-image"><figure class="aligncenter size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/fb886-o-pe-do-seu-goncalves-1.jpg?w=950" alt="" class="wp-image-18836" data-recalc-dims="1" /><figcaption>Ilustração por Jhonata Santana</figcaption></figure></div>



<p>Não demorou muito para que ela o puxasse pelo laço da toalha, trouxe-o para perto do seu corpo, com olhos em desejo revelador.&nbsp;</p>



<p>&#8211; Vem vamos para o quarto?&nbsp;</p>



<p>E ele a seguiu. Obedecendo a todos os comandos que lhe eram dados, ela se jogou na cama e ele parou em sua frente. Deixou a toalha cair.&nbsp;</p>



<p>&#8211; Tira essa meia e pula aqui para gente brincar! &#8211; Esse era o seu Gonçalves, cumpria tudo que prometia, mas sempre se esquecia de si; dessa vez não.&nbsp;</p>



<p>&#8211; bom&#8230; A meia&#8230; Não posso ficar com ela?&nbsp;</p>



<p>&#8211; Mas de jeito nenhum, me dá uma cosquinha danada. Tira essa meia ou nada tem hoje.&nbsp;</p>



<p>&#8211; Mas&#8230; – Foi interrompido.&nbsp;</p>



<p>&#8211; Mas nada! De meia eu não transo! &#8211; Cruzou os braços.&nbsp;</p>



<p>&#8211; E sem meia eu não fico! &#8211; Também cruzou os braços e ergueu a cabeça.&nbsp;</p>



<p>Ela saiu ao esperneio, vestiu sua roupa e foi embora. Gonçalves sentou na cama, nu da cabeça aos joelhos, tirou a meia e vestiu uma samba canção. Deitou e dormiu. Logo de manhã, levantou, abriu a geladeira pegou o leite e pôs para ferver, pegou a margarina, café, e duas frutas para comer. Ainda não olhara seus pés, estava com medo, receoso, a duvida se tomava banho ou não rondava seus pensamentos. O dia estava esquentando, o sol ardia através da janela da sala, ele suava. Ligou o ventilador, mas nada, o vento quente batia em seu corpo e só lhe aborrecia foi até a porta e se assustou: onde estavam suas mãos? Começou a enlouquecer. Entrou correndo no banheiro e se olhou no espelho. Ele não estava lá. Tudo que viu foi o reflexo vazio de sua persona ausente. Logo de manhã, alguém na sua porta o chamava.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>&#8211; Bom dia, Seu Gonçalves! Pode me emprestar o pé de cabra?&nbsp;</p>



<p>&#8211; Claro, Carlos! Tá do lado da porta, só entrar e pegar!&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Esse era o seu Gonçalves: cumpria tudo que prometia, mas sempre se esquecia de si.</p>



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<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:22% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img loading="lazy" decoding="async" width="950" height="950" src="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/f7502-jhonata-santana.png?resize=950%2C950" alt="" class="wp-image-18830 size-full" srcset="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/f7502-jhonata-santana.png?w=1089&amp;ssl=1 1089w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/f7502-jhonata-santana.png?resize=300%2C300&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/f7502-jhonata-santana.png?resize=1024%2C1024&amp;ssl=1 1024w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/f7502-jhonata-santana.png?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/f7502-jhonata-santana.png?resize=768%2C768&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/f7502-jhonata-santana.png?resize=980%2C980&amp;ssl=1 980w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/f7502-jhonata-santana.png?resize=96%2C96&amp;ssl=1 96w" sizes="(max-width: 950px) 100vw, 950px" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p><strong>Jhonata Santana</strong>, nascido na área litorânea de São Paulo (baixada santista).&nbsp;Começou a escrever cedo, por volta dos 14 anos, com pequenos contos de mistérios.&nbsp;Hoje tem publicado uma antologia de contos eróticos e caminhando para a segunda publicação, um romance de mistério e drama policial que trata sobre depressão e suicídio. </p>
</div></div>



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		<title>SUMIÇO DOCUMENTAL</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 24 Oct 2021 21:24:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 114]]></category>
		<category><![CDATA[Criatividade]]></category>
		<category><![CDATA[crônica]]></category>
		<category><![CDATA[Fernanda Zeloschi]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Prosa poética]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Fernanda Zeloschi</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>O Santana ficou estacionado no meio da rua mais íngreme do bairro. A tintura preta foi deixada derretendo a chuva e os pneus debruçados em pedras para garantir que o carro não desceria embalado até a praça. Na casa da frente morava seu Aldenor. Tinha recém falecido, ninguém da redondeza sabia de qual causa. Só notaram sua ausência porque o veículo, sempre um brinco, tinha sido largado a uma tempestade de granizo. Foi dona Helena quem mais se preocupou e, assim que pôde, bateu na casa do dono do Santana atingido. <em>Vovô faleceu e mamãe não está</em>, foi o que disse Miguel com um carrinho nas mãos atrás do portão.&nbsp;</p>



<p>Ana Maria na verdade estava em casa, de forma que pediu ao filho para mentir. Não queria falar do Santana e muito menos do pai. Tinha decidido, duas semanas depois do velório, que venderia o carro sem que nenhum vizinho soubesse. Quando percebessem, o novo proprietário já estaria fazendo o motor roncar para longe dali. Todos na rua seriam contra, era o que ela achava, porque apesar de seu Aldenor não ter sido querido, seu carro era uma relíquia. Algumas mulheres espiavam pelo vidro o painel cheio de funcionalidades, os rapazes discutiam sobre os faróis originais e as visitas se demoravam na calçada admirando a tintura perfeitamente preservada. </p>



<p>À filha do dono, aquilo era entulho. Ela não sabia dirigir e nem queria aprender, muito menos naquele veículo difícil de estacionar. Ana Maria tinha acolhido o pai depois do falecimento da mãe e, sem escolha, deixou vir também o Santana. Seu Aldenor não comia uma boa parte do cardápio dos almoços da casa, não arrumava a própria cama e assistia televisão em um volume ensurdecedor. Nas noites frias, o avô levava Miguel para passear no banco do carona e passou a ensinar a ele o que significava um motor de quatro cilindros e o privilégio de um câmbio manual. Enquanto a filha tentava se fazer ouvida pelo pai, o velho se atentava para cada reclamação do seu carro, dizendo a qualquer rangido no painel um doce <em>o que foi, meu garoto? </em></p>



<p>Quando virou a terceira semana de poeira na lataria, Ana Maria decidiu organizar a venda. Pediu ao filho para ajudar a retirar as folhas do para-brisa e o menino, não contente, aspirou os bancos e lavou os vidros. O vizinho da casa ao fim da rua subia a ladeira quando viu a criança passando pretinho nos pneus do Santana.<em> Vocês não vão vender ele, não, né, menino? </em>Miguel não se deu ao trabalho de levantar-se. <em>Não, senhor. </em>Era o que a mãe tinha instruído a dizer. </p>



<p>Com as fotos para o anúncio já feitas, foram procurar o documento do Santana. Não estava no porta-luvas. Nem na carteira ou dentro de um livro ou nos bolsos das calças do seu Aldenor. Ana Maria passou dias procurando. Chegava do trabalho, prendia os cabelos em um coque e se demorava na missão. Nem São Longuinho deu jeito, ficou devendo o achado e ela, os três pulinhos. No domingo, confidenciou às amigas o que pretendia fazer e também o sumiço do documento. <em>Por que você simplesmente não tira outro? </em>A mais rica perguntou. Ana negou. <em>Não está no meu nome, é caro e eu sei que está aqui,</em> ela repetiu em maiúsculas, <em>só preciso encontrá-lo</em>. </p>



<p>Os meses se arrastaram na procura. Aos poucos, a notícia do sumiço ia se espalhando pela vizinhança. Cada um tinha uma opinião. O pastor da Igreja de cima,<em> valha-me Senhor</em>, se encolhia inteiro para dizer que, <em>quem sabe, não é seu Aldenor escondendo este documento para impedir o que ele mais temia em vida?</em> A velha da mercearia desconfiava ser picuinha de algum vizinho interesseiro. Ela sugeriu que, se aquela casa tivesse alguma câmera, teria filmado o <em>“sumiço documental”, </em>ela dizia ao marido fazendo as aspas com os dedos. Ana começou a levar o incômodo para sua psicóloga e uma nova teoria foi anotada no prontuário da profissional: <em>a paciente está se sabotando e só encontrará o que precisa quando tiver atravessado seu luto.</em></p>



<p>Em algum momento, Ana Maria cedeu e começou a ouvir as sugestões das pessoas. Estava em parte cansada de procurar, mas também começara a acreditar que alguém, <em>por Deus, alguém!</em> estaria certo. Numa noite de domingo, enquanto ela agendava por telefone o culto que fariam para libertar seu Aldenor da casa, Miguel bocejou e disse que ia dormir. Antes de se deitar, esticou o braço embaixo do colchão e foi tateando até encontrar o furo na costura onde estava escondido o documento. Correu até a janela e, mirando as estrelas, cochichou<em> tudo certo aqui embaixo, vovô.&nbsp;</em></p>



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<p><strong><strong>Fernanda Zeloschi </strong></strong>é estudante de Psicologia, escritora teimosa e acredita nas faíscas do afeto através do @<a href="https://www.instagram.com/fazerafetar/">fazerafetar</a></p>
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