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	<title>Arquivos sensibilidade - Revista Trama</title>
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	<description>Arte, Cultura e Criatividade</description>
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		<title>A flor vista de cima </title>
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		<pubDate>Sun, 28 May 2023 18:56:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 005, N 165]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[arte]]></category>
		<category><![CDATA[conto]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: Marcela Fassy</p>
<p>O post <a rel="nofollow" href="https://revistatrama.artebodoque.com/2023/05/28/a-flor-vista-de-cima/">A flor vista de cima </a> apareceu primeiro em <a rel="nofollow" href="https://revistatrama.artebodoque.com">Revista Trama</a>.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>A flor lhe pareceu esplêndida. Era rosada, tenra; suas pétalas alongadas, cheias de comissuras, a faziam pensar em tentáculos de algum cefalópode ou de outra obscura criatura marinha. Era uma flor selvagem, imprópria para jardins que se pretendem amenos. Era uma flor de carne.&nbsp;</p>



<p>Aproximou-se dela com pudor; a flor sabia fazer-se respeitar. Tinha cheiro de sal, de pântanos; de humores e de canais entrelaçados de limo. Permanecia inerte e vigilante, como um crustáceo suscetível e obstinado. Pensou que não era prudente aproximar-se demais, mas a flor exercia sobre ela um fascínio impossível de dominar.&nbsp;</p>



<p>Repassou brevemente seu repertório ginasial acerca das flores carnívoras: são frequentemente bissexuais, de hábitos furtivos; aproveitam-se de colorações e odores sugestivos para atrair e subjugar suas presas. O gênero <em>Drosera</em> possui tricomas glandulares semelhantes a tentáculos que secretam substâncias pegajosas e aderentes; uma vez capturada, a presa é digerida, devorada e destituída de toda a sua natureza proteica.&nbsp;</p>



<p>Ainda assim, decidiu tocá-la.&nbsp;</p>



<p>Primeiro alcançou de leve a ponta de uma pétala, com a ponta do dedo. A flor pulsou: estava viva. Depois escorregou pétala adentro (agora com a polpa do dedo), escalando de fora para dentro a parede da pétala: a flor a acolheu. Deslizou o dedo sobre a estrutura tentacular e atravessada de ventosas, contrapondo à textura fissurada e úmida a estabilidade lisa de suas digitais. As pétalas se agitaram comprazidas, aprovando o toque; distenderam-se, afrouxaram-se e permitiram que de seus poros vazasse um sumo discreto e viscoso. Supôs ter ouvido um gemido, quase imperceptível porém muito agudo; pareceu-lhe um gemido de aprovação. A flor lhe pareceu menos que ameaçadora; um animal quase doméstico que não repudia carícias.&nbsp;</p>



<p>Viu então o miolo, que antes estivera quase oculto: um bulbo de carne de repente dilatado, olho arregalado no centro da flor. Sentiu um arrepio; percebeu a própria carne agitada, trêmula e inquieta: à flor da pele. Sentiu que um perigo a rondava, e que era imprescindível tocar aquele centro.&nbsp;</p>



<p>Escorregou o dedo, cuidadosamente, rumo ao grelo agigantado no centro da fenda; a ânfora a tragava para seu interior, sedenta. A sede, porém, não se podia dizer de onde provinha: se da carne feita de flor ou se da flor da própria carne.&nbsp;</p>



<p>E, quando finalmente atingiu o miolo, o cerne inchado da flor, cumpriu-se aquilo que não podia ser evitado, o destino último da flor carnal: as pétalas se retesaram, se comprimiram e estalaram como chicotes dentados; a flor contraiu bruscamente as mandíbulas, e ela soube que era muito tarde.&nbsp;</p>



<p>O que veio a sentir não era dor: era um prazer insuportável.&nbsp;</p>



<p>Com o coração ainda acelerado, observou a flor que digeria calmamente o seu dedo decepado. A flor robusta, saciada, em seu estado pleno de flor e de carne.&nbsp;</p>



<p>Com as mãos pegajosas de sangue, segurou a flor pela base, que era coberta de pelos escuros e densos, e encaixou-a novamente no rombo aberto em sua pélvis. A flor se acomodou como um molusco no interior de sua concha e adormeceu, permanecendo imóvel entre as cerdas dos corais hirsutos na superfície negra.&nbsp;</p>



<p>A mulher estancou o sangue e suspirou, resignada. Não se sai impune após tocar a flor.&nbsp;</p>



<p></p>



<p></p>



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<div class="wp-block-column is-vertically-aligned-center is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow" style="flex-basis:66.66%">
<p><strong>Marcela Fassy</strong> nasceu em Belo Horizonte, em 1984, e atualmente mora em Diamantina/MG. É escritora, historiadora (UFMG), especialista em Artes Visuais (SENAC-MG), Mestre em Ciências Humanas (UFVJM) e trabalha como Educadora no Museu do Diamante (Ibram/MinC). É autora de dois livros de contos, Oniros (Urutau, 2022) e Animais Cinzentos (Viseu, 2021). Tem contos publicados em antologias diversas, entre elas a do Selo Off Flip 2023 e a Antologia Zarpadas (Abarca Editorial, 2022).&nbsp;</p>
</div>
</div>



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		<title>[Podcast] Sensibilidade, educação e Museus</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 04 Apr 2021 21:26:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 085]]></category>
		<category><![CDATA[Trama Podcast]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[museu]]></category>
		<category><![CDATA[PodCast]]></category>
		<category><![CDATA[sensibilidade]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Trama Podcast</p>
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<p>Nesse episódio o Fred faz uma reflexão sobre a importância da sensibilidade para o exercício da mediação em espaços museológicos, e como o desenvolvimento dessa faculdade humana é importante para criar uma território de partilha afetivo, respeitoso e repleto de possibilidades.</p>



<p>Então já sabe! Coloque os fones de ouvido e boa audição!</p>



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<p>Ouça no Spotify:</p>



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</div><figcaption><em>Texto, apresentação e edição: Frederico Lopes</em></figcaption></figure>



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<p><strong><strong>O Trama Podcast, </strong></strong>é um canal de aprofundamento das discussões levantas aqui na revista Trama. Nosso objetivo é fomentar o pensamento crítico e a valorização do conhecimento da arte e da cultura como ferramentas capazes de promover mudanças de olhar.</p>
</div></div>



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		<title>Fica, vai ter bolo</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 02 Feb 2020 21:26:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 030]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[sensibilidade]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: Aurora Rodrigues</p>
<p>O post <a rel="nofollow" href="https://revistatrama.artebodoque.com/2020/02/02/fica-vai-ter-bolo/">Fica, vai ter bolo</a> apareceu primeiro em <a rel="nofollow" href="https://revistatrama.artebodoque.com">Revista Trama</a>.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="has-drop-cap">Eu às vezes tenho problema com meu nome. Não que eu não goste dele, considere estranho, ou feio. Quando eu era mais nova, eu não gostava, e o motivo era único: não existia um apelido com ele. Durante o meu crescimento, todo o possível que resulte numa pessoa de 1.60m, gastei grande parte do meu tempo pensando em como os amigos poderiam me chamar de forma mais carinhosa. Do meu nome mesmo se derivaram alguns poucos, quando eu não estava mais ligando para isso, depois da adolescência.&nbsp;</p>



<p>Outro fato que me perturba em nomear alguém, é o tamanho da responsabilidade&nbsp;do significado que uma pessoa carrega desde não saber quem é. Na minha opinião, os nomes deveriam ser dados após algum tempo de convívio, ou melhor, quando a criança já fosse capaz de expressar sua personalidade. No meu caso, o mesmo anjo que mandou o poeta ser &#8220;gauche na vida&#8221; se apresentaria aos meus pais e me daria o nome de &#8220;Preguiça&#8221;, o que para mim, seria ótimo, pois eu não teria necessidade de passar por ⅓ dos sacrifícios que eu passo todo dia para explicar a minha inércia e falta de necessidade de muita interação, e do mesmo lado, vencer meu próprio nome e sair brilhando por aí.&nbsp;</p>



<p>Só que esses dias eu saí de casa, fui visitar minha tia.&nbsp;</p>



<p>Declaração um tanto quanto comum, para qualquer pessoa que se habilite a tal processo devastador, que é sair de casa.&nbsp;</p>



<p>Nessa ocasião, minha mãe foi primeiro. Quando ela chegou, antes de me avisar se tinha vencido o trânsito cruel de qualquer cidade nas férias escolares, ela me falou: &#8220;Vem! Tem bolo&#8221;. Diante essa afirmação, procurei dentro de mim todos os subterfúgios para calar a minha própria consciência e enfrentar a temível&nbsp;odisseia que me aguardava, que seria chegar ao outro lado da cidade.&nbsp;</p>



<p>Eu amo bolo.&nbsp;</p>



<p>E acho incrível a ambiguidade estrutural que o substantivo “bolo” tem na língua portuguesa. “Bolo” pode ser de chocolate, e com isso me refiro aos doces, de carne, me referindo aos salgados. Pode ser bolo de dinheiro, qualquer quantidade amontoada, alguém que descumpre um compromisso, e ainda alguma confusão.&nbsp;</p>



<p>Rapaz, e que bolo&nbsp; , viu!&nbsp;</p>



<p>Eu não sou nenhuma sumidade na cozinha, mas quando me atrevo, sempre faço bolo, doce . Eu acho incrível como que um alimento à base de massa de farinha, com açúcar e ovos ganha uma forma muito grande e legal, porque não é arroz, arroz incha e amolece, bolo não, bolo é &nbsp;farinha, de&nbsp; trigo, de milho, de batata, maisena ou qualquer outra , um&nbsp; adoçante, alguma liga, seja ovos ou glúten ou amido, gordura que pode ser manteiga, margarina ou óleo, purê de fruta e algo líquido, seja leite, água ou suco. Pode até ser que eu devesse admirar assim qualquer massa, mas acho que por bolo ser tão presente na vida, ele é muito mais admirado que qualquer outra coisa que tenha os mesmos passos, mas com o resultado diferente.&nbsp;</p>



<div class="wp-block-image"><figure class="aligncenter size-large is-resized"><img loading="lazy" decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/04dd9-image-1.png?resize=244%2C364&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-7057" width="244" height="364" data-recalc-dims="1" /></figure></div>



<p>Talvez me fascine a mistura, porque todos aqueles ingredientes diferentes que das primeiras vezes que a gente se atreve se pergunta “O quê?” como se fosse aquela pedra que a gente bate sempre a cabeça, mas não machuca a gente.&nbsp;</p>



<p>Isso me fez lembrar uma conversa&nbsp;que eu tive com um grande amigo ano passado, eu estou com todas as minhas conexões mentais ativas tentando fazer isso ficar menos pessoal possível, mas por favor, eu já falei do meu nome, meus gostos e minha tia. Já temos um nível de intimidade que eu ando pensando que nas próximas vezes eu já posso falar em como eu me sinto quando eu lembro da separação do Exaltasamba ou até do impacto que a repentina mudança de nome do Roupa Nova causou na minha memória afetiva. Somente coisas sérias, lógico.</p>



<p>Enfim, a pergunta era “como voltar a confiar”. Ele não me explicou nada que eu não soubesse, mas tudo que eu sempre esqueço, dizia ele que nossas vidas são um emaranhado de ligações, muitas vezes a gente sofre por nossas próprias escolhas, outras por termos essas ligações, sofremos muito mais que gostaríamos, igual naquela brincadeira da cama de gato, onde existia uma forma certa de buscar o barbante com os dedos, para sair o desenho certo na mão da outra pessoa e poder continuar a brincadeira.</p>



<p>Por isso eu acho que somos um constante bolo. Ou melhor, somos uma eterna pâtisserie, onde cada processo é um bolo e todos dotados de capacidade de exposição. Cada passo é um passo da receita, as vezes é uma receita solo que a gente coloca na vitrine para todos que passam e morre de orgulho de tê-lo feito. Outras vezes damos conta de mais de um bolo, e quando numa conversa rápida sai um bolo tão maravilhoso que todos se perguntam a receita e a gente nunca lembra? Existe também a receita que é compartilhada, onde surgem ingredientes novos, e a gente bate até com mais cuidado pois não sabemos a receita.&nbsp; Tem também a possibilidade do bolo solar, e isso é muito difícil de aceitar, porque a gente nunca sabe onde errou, aí a gente questiona a nossa capacidade, mesmo tendo feito tantas coisa maravilhosas, já que os ingredientes estavam todos certinhos, e ele precisava tanto dar certo.</p>



<div class="wp-block-image"><figure class="aligncenter size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/222e9-image-2.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-7059" data-recalc-dims="1" /></figure></div>



<p>A gente só não pensa em como os bolos solados são importantes, eles requerem da gente um recomeço, simplesmente por não existir a possibilidade de não tirar nada de qualquer fase, a gente sempre tira, e olha, nem sempre vem um bolo lindo, e nem um bolo lindo mostra os calos na mão do confeiteiro, só que eles trazem a luz do dia uma nova capacidade, mostram o quanto a gente pode aprender a&nbsp;escrever nossa própria receita e assim como sempre diz um cantor chamado Belo: Recomeçar.&nbsp; Com os bolos aprendemos a jogar com a nossa capacidade de entregar a tempo, aprende a lidar com uma receita tem que ser específica, sem erros, nesse momento lançamos fora toda e qualquer ansiedade e apresentamos em ponto, perfeito.</p>



<p>A gente faz, e faz mais. Tudo isso, e só depois para gente entender quando com um sorriso largo alguém chega e fala: “Fica, vai ter bolo.”&nbsp;&nbsp;</p>



<hr class="wp-block-separator" />



<p><strong>Aurora Rodrigues</strong> é estudante de literatura e anda escolhendo quem quer ser, mas não encontrou saída para a alergia a amendoim, a paixão por jujuba e o ódio por guaraná Antártica. Quanto ao resto, tem usado o próprio nome para tentar refletir o renascer dentro de si</p>



<hr class="wp-block-separator" />



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/9acee-publi-ediccca7acc83o-impressa-1.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-5668" data-recalc-dims="1" /></figure>





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<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.artebodoque.com/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/a89c8-publi-bodoque2.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-4736" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color">Clique na imagem para acessar a loja virtual da Bodoque!</p>



<hr class="wp-block-separator" />



<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-large-font-size has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color">Galeria</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/b537e-fotos-carol-copy.jpg13-1021x1024.jpg?resize=950%2C953&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-6948" data-recalc-dims="1" /></figure>



<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-medium-font-size has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color"><em>Apoie manifestações artísticas de rua. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>
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		<title>É Apenas gente, é apenas mala</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 26 Jan 2020 21:22:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 029]]></category>
		<category><![CDATA[Aurora Rodrigues]]></category>
		<category><![CDATA[Criatividade]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[sensibilidade]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: Aurora Rodrigues</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="has-drop-cap">Cheguei num momento da minha vida que do auge dos meus 25 anos, eu não sei se estou velha e supersticiosa ou esperançosa. Digo isso porque, confrontada com um ano atarefado, mas pouco vitorioso, fui motivada a fazer uma lista de aspirações para esse esperado ano de 20.20. Dentre as comuns que é estudar mais, atividades físicas e emagrecer, está também: ler mais. Pois então, imbuída pelas promessas de ano novo, me deparei com a crônica Auto-retrato de Carlos Drummond de Andrade.</p>



<p>Esse texto trata-se de um monólogo do Espelho, ali transcrito pelo autor</p>



<p>O texto começa assim: &#8220;Diz o espelho.&#8221;</p>



<p>Esse espelho é plenamente digno de estar em algum conto de fadas, ou é descendente daquele da Branca de Neve, pois entrega tudo de quem está diante dele.&nbsp;</p>



<p>Ao longo do texto, se encontram, com um sentimento de terno e amargo, procedente da fama do autor,&nbsp; inúmeras características dele. O texto avança, sem que&nbsp; pessoalmente eu encontrasse algum entrave, até quase no final da crônica. Ali Drummond apresenta uma frase digna de estampar qualquer&nbsp; buteco, e que só nos levam à&nbsp; reflexão depois, quando sóbrios, no texto estamos no auge dos causos da vida escolar do autor, e lemos:&nbsp; &#8220;&#8230; E que não é bacharel em direito,nem médico, nem engenheiro; é gente,apenas.&#8221;</p>



<p>Ser gente.</p>



<p>Ser gente é mais difícil do que ser qualquer outra coisa, porque a gente aprendeu e consegue ser tudo, menos gente.</p>



<div class="wp-block-image"><figure class="aligncenter size-full is-resized"><img loading="lazy" decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/7c9a9-image.png?resize=275%2C184&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-6813" width="275" height="184" data-recalc-dims="1" /><figcaption>Disponível em: <a href="https://franzidraws.com/">https://franzidraws.com/</a>&nbsp;</figcaption></figure></div>



<p class="has-text-color has-background has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color">A gente sabe ser aluno, professor, escritor, leitor, paciente, médico, pai, mãe, filho, irmão. Mas quando a gente não precisa ser nada disso? A gente se vira por ser gente?</p>



<p>Ser gente é algo tão difícil que me faltam palavras originais para descrever tal fenômeno, tanto que nesse momento eu recorro a uma metáfora, talvez igualmente de buteco, já que é o nosso ambiente familiar deste texto.</p>



<p>Eu tenho impressão de que a gente parte para a vida com uma mala.</p>



<p>E me parece que a primeira vista, que nada tem a ver com a música cantada pela Daniela Mercury, lutamos&nbsp; para enchê-la, a cabeça não se incomoda com a pressão de onde mergulha, os braços não doem, a perna tá boa e a coluna 10\10.</p>



<p>O tempo passa. Muitas vezes a gente nem vê. Outras vezes é tão desesperador quanto assistir o Coelho Branco que passa reclamando do atraso e assim como a Alice, a gente insiste em segui-lo, e iniciamos uma sequência de eventos maluca. E com o tempo, os passos já não são mais tão confiantes, a&nbsp; postura fica incorreta, cansaço e excesso de peso carregado são alguns fatores que podem provocar dores nas costas, e começamos a querer deixar partes das coisas pra aliviar a dor, nesse momento me lembro muito de uma passagem do livro “Se um viajante numa noite de inverno” de Ítalo Calvino, que diz:</p>



<p><em>&#8220;Desfazer-se da mala devia ser o primeiro requisito para que se</em></p>



<p><em>restabelecesse a situação anterior — anterior a tudo aquilo que ocorreu em</em></p>



<p><em>seguida. É nisto que penso quando digo que gostaria de recuperar o curso do</em></p>



<p><em>tempo: gostaria de anular as conseqüências de certos acontecimentos e restaurar</em></p>



<p><em>uma condição inicial. Mas todo momento de minha vida traz consigo um</em></p>



<p><em>acúmulo de fatos novos, e estes, por sua vez, acarretam conseqüências, e assim,</em></p>



<p><em>quanto mais busco retornar ao ponto zero do qual parti, mais me distancio dele;</em></p>



<p><em>embora todos os meus atos tendam a anular as conseqüências de atos anteriores,</em></p>



<p><em>e conquanto eu tenha obtido resultados apreciáveis nessa tarefa, a ponto de</em></p>



<p><em>animar-me com a esperança de um alívio próximo, devo considerar que cada</em></p>



<p><em>uma dessas tentativas provoca uma chuva de novos acontecimentos que</em></p>



<p><em>complicam ainda mais a situação original e que, posteriormente, terei de fazer</em></p>



<p><em>desaparecer. Por fim, preciso calcular muito bem todo movimento para apagar o</em></p>



<p><em>máximo com o mínimo de novas complicações.”</em></p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/085bc-image-1.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-6814" data-recalc-dims="1" /><figcaption>Imagem: Travel Jeong Seelgi &#8211; walliapp&nbsp;</figcaption></figure>



<p>Se desfazer a mala não é tomar um paracetamol para melhorar o dor no corpo. É lutar para enchê-la mais, é querendo escolher apagar o ruim, mas pagando uma renúncia&nbsp; pelo bom.&nbsp;</p>



<p>Em 1988, Marcos Valle e Carlos Colla, escreveram e Sandra de Sá registrou no inconsciente mais profundo do brasileiro, tão profundo que até esquecemos, uma música que fala que ninguém sabe a receita de viver feliz. Se partimos de um ponto com mala, é pelo motivo de que tem viagem, caso contrário,&nbsp; seríamos tartarugas, e não gente,apenas.&nbsp;</p>



<p>Existem muitas coisas que pastores, escritores, doutores, vendedores, leitores e espectadores não fazem, mas gente faz. Mala grande é sinônimo de viagem boa, cabe tapete para os pés, cabe caixa de remédios, roupa de frio, travesseiro fofinho, metade espuma e metade sonhos.</p>



<hr class="wp-block-separator" />



<p><strong>Aurora Rodrigues</strong> é estudante de literatura e anda escolhendo quem quer ser, mas não encontrou saída para a alergia a amendoim, a paixão por jujuba e o ódio por guaraná Antártica. Quanto ao resto, tem usado o próprio nome para tentar refletir o renascer dentro de si</p>



<hr class="wp-block-separator" />



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/9acee-publi-ediccca7acc83o-impressa-1.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-5668" data-recalc-dims="1" /></figure>





<hr class="wp-block-separator" />



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.artebodoque.com/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/a89c8-publi-bodoque2.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-4736" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



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<hr class="wp-block-separator" />



<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-large-font-size has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color">Galeria</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/4473c-fotos-carol-copy-1.jpg7_-1-1021x1024.jpg?resize=950%2C953&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-4982" data-recalc-dims="1" /></figure>



<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-medium-font-size has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color"><em>Apoie pautas identitárias. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>
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		<title>Das Crueldades e dos Chocolates</title>
		<link>https://revistatrama.artebodoque.com/2019/12/18/das-crueldades-e-dos-chocolates/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 18 Dec 2019 18:52:02 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Drops]]></category>
		<category><![CDATA[Aurora Rodrigues]]></category>
		<category><![CDATA[Criatividade]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[sensibilidade]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://atomic-temporary-162935141.wpcomstaging.com/?p=6020</guid>

					<description><![CDATA[<p>por: Aurora Rodrigues</p>
<p>O post <a rel="nofollow" href="https://revistatrama.artebodoque.com/2019/12/18/das-crueldades-e-dos-chocolates/">Das Crueldades e dos Chocolates</a> apareceu primeiro em <a rel="nofollow" href="https://revistatrama.artebodoque.com">Revista Trama</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="has-drop-cap">Ninguém tem coragem de falar, mas eu falo. Se você vive amplamente imerso no contexto digital, já leu a nossa frase de início, no geral ela vem acompanhada de uma opinião muito pessoal, impopular ou não, dependendo do que se fala. Eu não vou te abrir um guarda chuvas quanto às minhas opiniões , mas juro que, como sociedade, <strong>deveríamos abrir o inconsciente coletivo e abranger o espaço de discussão sobre aparência</strong>, a sensação de coisa velha e ainda a importância das uvas passas , a capacidade gigante que o halls preto tem de formar novos viciados e o quanto açaí é ruim. Coisas que ninguém tem coragem de falar, mas eu falo.</p>



<p>Outro fato que ninguém tem a coragem de falar, se refere a um dos quadros mais cruéis da vida, <strong>o banho de chocolate.</strong><br>Não. Eu não tô falando de um novo tratamento estético que tem ganhado os salões mais requintados e &#8220;in&#8221; do Brasil. Tô falando do banho de chocolate. Aquele, que faz os bombons, pães de mel. Melhor, tô problematizando o banho de chocolate.</p>



<p><br>Porque? Pra mim, <strong>o banho de chocolate é o típico retrato da falta de responsabilidade humana.</strong> Você tira uma coisa de um estado que aparentemente ela estava bem, a não ser que você tenha a ouvido reclamar, é desavisadamente, da forma mais inesperada possível, você afoga ela num mar de chocolate. Você se torna de um momento pro outro, friamente, um fazedor de tsunami de chocolate. Para o seu próprio deleite.<br>Isso me lembra todo o filme &#8220;A fantástica fábrica de chocolate&#8221;, quando Willy Wonka é chamado pelo Príncipe Pondicherry para construir um palácio de chocolate. E o castelo, Querido Leitor, não era mero delírio fetichista, igual a Anne Hathaway de mulher gato no filme do Batman, era um castelo de cem aposentos, todo construído de chocolate. Também não era o capricho de um chocólatra, o Príncipe planejava morar no castelo. No meio da Índia. É essa cena que eu quero que você imagine, pois é isso que estou problematizando. Você, naquele palácio que derreteu, é o doce no meio do banho de chocolate.</p>



<p class="has-text-color has-background has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color">Eu não tô tentando fazer ninguém ficar com nojo de chocolate, pois nesse momento estou escrevendo acompanhada de um, mas se imagine, no meio daquela água densa, o cheiro do chocolate, aquela açúcar toda grudando no seu corpo. E quando começar a endurecer? É uma experiência perturbadora, tanto pro doce quanto para quem estiver de baixo do Castelo.</p>



<p>Pareço exagerada? Ou você que nunca havia pensado em quão cruel tudo isso pode ser?</p>



<p>E se a gente transportar as situações? Assim como um músico transpõe a partitura pra todos os instrumentos de uma orquestra. Eu quero chegar em algum lugar.</p>



<p>Muitas vezes somos ingredientes separados, bons separados ou um bom e outro não tão bom (para todas aquelas formas de usar bom pra não falar ruim.) As vezes somos um ingrediente e um leite condensado, (menos damasco, damasco fica ruim com leite condensado), que separados são bons, mas juntos, resultam nessas infinidades de brigadeiros surgidos no final dessa década, dados pela geração gourmet. As vezes é só o banho de chocolate.</p>



<p><strong>E se agora você entendeu que por banho de chocolate eu tô falando sentimento, parabéns.</strong> O banho de chocolate real não tem como ser de uma forma diferente. É mergulhar e pronto, esperar que o trabalho esteja feito, <strong>mas pra sentimento a gente precisa de responsabilidade.</strong> Quando envolve outra pessoa, é injusto joga-la numa panela de sentimento líquidos e misturados, que passaram pelo processo de corte e de fogo, que saíram da ebulição e quando você achar que tá bom, tira.</p>



<p>Fazer uma festa no seu palácio de chocolate no meio da Índia, é crueldade quando você sabe que tá calor. Ninguém sai de casa com uma boia ou uma máscara de mergulho</p>



<p>O doce que sai do banho de chocolate, precisa secar, separado e distante. Sofrer a ação do vento, do tempo. Só que o doce que sai do banho de chocolate, não sai mais forte. As vezes, nem do banho de chocolate ele sai direito. Tem doce que desmancha dentro do banho, tem doce que quebra na hora de secar, tem doce forma bolha de ar, tem doce que no primeiro toque, quebra, tem doce que pega chocolate demais e fica impossível de morder.<br>Tudo isso é sair de uma enchente. De chocolate.</p>



<p>É estar perdido, sem entender nada, sem saber como respirar. Sofrer a ação do tempo e endurecer. É quebrar no primeiro toque, desmanchar no meio da vida.</p>



<p>O doce foi feito pra isso.</p>



<p>A gente não.</p>



<hr class="wp-block-separator" />



<p><strong>Aurora Rodrigues</strong> é estudante de literatura e anda escolhendo quem quer ser, mas não encontrou saída para a alergia a amendoim, a paixão por jujuba e o ódio por guaraná Antártica. Quanto ao resto, tem usado o próprio nome para tentar refletir o renascer dentro de si</p>



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<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i1.wp.com/blog.artebodoque.com/wp-content/uploads/2019/12/PUBLI-EDIÇÃO-IMPRESSA.png?fit=970%2C422&amp;ssl=1" alt="" class="wp-image-5651" /></figure>





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<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.artebodoque.com/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/a89c8-publi-bodoque2.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-4736" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color">Clique na imagem para acessar a loja virtual da Bodoque!</p>



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<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-large-font-size has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color">Galeria</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/4473c-fotos-carol-copy-1.jpg7_-1-1021x1024.jpg?resize=950%2C953&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-4982" data-recalc-dims="1" /></figure>



<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-medium-font-size has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color"><em>Apoie pautas identitárias. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>
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		<title>Solidão, Artistas e Pessoas Altamente Sensíveis</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 07 Jul 2019 18:48:58 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 001, N 004]]></category>
		<category><![CDATA[escrita]]></category>
		<category><![CDATA[ghost writer]]></category>
		<category><![CDATA[sensibilidade]]></category>
		<category><![CDATA[solidão]]></category>
		<category><![CDATA[writer]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: Enrique Coimbra</p>
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<p><em>por: Enrique Coimbra</em></p>



<p class="has-drop-cap">Você passa dias trancado, escrevendo ou criando no seu ateliê, a ponto de&nbsp;nem&nbsp;perceber o sol morrendo do lado de fora? Prefere a companhia da arte aos papos efêmeros dos relacionamentos sociais?&nbsp;</p>



<p>Você não tá sozinho – ao menos não dessa vez.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Além de escrever artigos como&nbsp;ghost-writer, escrevo, reviso, produzo&nbsp;<a href="http://www.enriquecoimbra.com.br/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">e lanço livros independentes na internet</a>, e também mantenho&nbsp;<a href="http://youtube.com/enriquesemh" target="_blank" rel="noreferrer noopener">o canal Enrique Sem H</a>&nbsp;com vídeos semanais que vão desde minimalismo e viagens, à depressão, bem-estar e comportamento – o que significa que de segunda a segunda passo entre 6 e 16 horas por dia de frente pro computador, criando arte e conteúdo&nbsp;<em>sozinho</em>.&nbsp;</p>



<p>Apesar de ter bons amigos, nossos encontros não são frequentes porque&nbsp;tô&nbsp;sempre ocupado com um projeto que me inflama de paixão, e por cima disso fica a frustração de não ter dentre esses amigos&nbsp;<em>nenhum</em>&nbsp;que trabalhe com arte, internet ou criação – o que significa que além de me sentir solitário, também me sinto&nbsp;<em>isolado</em>.&nbsp;</p>



<p>Esse assunto é tão alienado que só de comentar da ponta desse iceberg numa conversa de bar, sou abordado imediatamente com a pergunta de um milhão de dólares:&nbsp;</p>



<p><em>“Se a solidão te incomoda, por que você não sai mais?”</em>&nbsp;</p>



<p>E então preciso respirar fundo e explicar rápido, de um jeito resumido, pra não perder a atenção dos meus interlocutores:&nbsp;</p>



<p><em>“A solidão não me incomoda, gosto de estar só. O que me incomoda é ser tão apaixonado pelo que faço, pelos mundos que invento, pelas informações que compartilho, que fico triste por não ter um amigo próximo que esteja tão atolado no vício de criar quanto eu. Fico incomodado por sentar numa mesa de bar pra falar de coisas que vão desaparecer da sua cabeça depois de algumas horas, em vez de estar trocando experiências sobre nossos próximos textos, ou de estarmos inventando alguma coisa mágica juntos.”&nbsp;</em>&nbsp;</p>



<p>É sério, a solidão não me incomoda. O que incomoda é sentir que sou a única pessoa num raio de centenas de quilômetros fazendo o que faço – ou curtindo um tipo de prazer que não é fácil de dividir, que não é um entretenimento popular (nem um “entretenimento” de maneira alguma).&nbsp;&nbsp;</p>



<p><em>“Por que não faz amigos artistas na internet? Por que não procura grupos de escritores online?”</em>&nbsp;</p>



<p>Porque companhia virtual é o que já tenho: bato ótimos papos com meus clientes (pra entender que tipo de texto querem que eu produza), tenho meus personagens e as insanas aventuras que me arrastam pra viver com eles dentro do computador, e falo frequentemente com várias das 200 mil pessoas que seguem meus vídeos.&nbsp;</p>



<p>Pra um artista,&nbsp;<em>pra</em>&nbsp;<em>solidão</em>&nbsp;<em>de um artista</em>, o mundo virtual não é suficiente.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>A fisicalidade; a materialidade de um relacionamento – os olhares, os tons da conversa, as falas do corpo&nbsp;–&nbsp; é&nbsp;insubstituível pra quem se alimenta de (e é dado de alimento para as) experiências humanas.&nbsp;</p>



<p>A solidão do artista é diferente da solidão dos mortais: ela não é ruim, nem boa – mas é constante. E dela nascem não só as frustrações esperadas desse substantivo (assustador pra maioria), mas também grande parte do que torna cada criador único; do que torna cada expressão de arte&nbsp;<em>singular</em>.&nbsp;</p>



<p>Alguns estudiosos vão além e afirmam que a solidão é requisito básico para enorme parte dos líderes bem-sucedidos, dos gênios indomáveis e, indiscutivelmente, dos artistas mais significativos da história. Por quê? Porque o cérebro dessas pessoas funciona num ritmo que não é melhor nem pior que o ritmo dos outros – mas que funciona de um jeito&nbsp;<em>introspectivo</em>.&nbsp;</p>



<p>Posso falar por mim, que além dos dramas de ser o único escritor-criador da minha região carioca – ao menos o único que usa isso como fonte integral de renda e se mantém público na internet – sou o que estão chamando de “pessoa altamente sensível”.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Basicamente a maioria dos artistas que você ama e admira é (ou foi) o que o os norte-americanos chamam de&nbsp;<em>highly&nbsp;sensitive&nbsp;person</em>, ou, na língua dos cientistas, alguém que tem “transtorno de sensibilidade sensorial” – pois é, artistas são mesmo&nbsp;<em>transtornados…</em>&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Quem tem um cérebro “hipersensível” sente as coisas com intensidade tão exclusiva que o mundo interior dessa pessoa acaba sendo muito mais interessante que o mundo exterior que conhecemos.&nbsp;</p>



<p>Gente altamente sensível também é muito mais afetada pelas artes, se sente sobrecarregada por informações com facilidade, tem dificuldade de realizar tarefas quando são observadas, é consciente sobre as sensações do corpo, é capaz de observar as menores mudanças no ambiente em que vive, e é capaz de transformar coisas ordinárias em grandes experiências filosóficas, profundas e existenciais.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Se identificou?&nbsp;</p>



<p>A causa dessas sensações intensificadas tá no sistema nervoso, que é facilmente excitável – não só pelos dramas e belezas no comum, mas também pelo excesso de barulho ou de luz, por exemplo – e também tá na hiperatividade da região insular do cérebro, o que explica a percepção aumentada e a sensibilidade física de maneira geral.&nbsp;</p>



<p>Além de grandes artistas, empatas, e ótimas pessoas pra conversar, quem possui esse traço também tem pré-disposição a depressão e ansiedade descontrolada, o que pode estar ligado à baixa produção de serotonina nesse organismo em constante alerta e questionamento.&nbsp;</p>



<p>Ou seja, a solidão de alguém envolvido com arte pode ser dolorosa não pela solidão em si, mas&nbsp;pela&nbsp; sensação&nbsp;de impotência ou pela falta de compreensão das outras pessoas sobre as coisas que um artista sente diferente – com mais consciência e imersão. Por isso é mais fácil pra alguém assim focar na criação, no trabalho, do que desperdiçar energia alimentando a esperança de encontrar um “igual” pra dividir esse fardo em algum momento.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Sobra pro artista viver nessa dimensão particular sozinho, analisando o que é percebido e sentido, para enfim cuspir numa obra o excesso de informações e diálogos internos, convertendo um elemento emocional num elemento físico de um jeito que permita aos outros verem de relance um pedaço do universo que esse artista decifra em isolamento.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>E até hoje há quem diga que viver de arte é coisa de vagabundo preguiçoso… É&nbsp;mole?!&nbsp;</p>



<p>Se a solidão é parte inerente da sua rotina – e se ela te incomoda – continue fazendo o que você tem feito: crie coisas!&nbsp;</p>



<p>Uma vez pronta, uma obra de arte comunica com assertividade tudo aquilo que até então você nem sabia como falar. Se não for suficiente, dê um passo além e tente identificar e reunir os artistas da sua região. Não é tarefa fácil, mas a companhia de outros artistas sempre pagará o esforço inicial, vai por mim.&nbsp;</p>



<p>O principal é entender que assim como o labor do educador depende do convívio com outras pessoas pra se suceder, o labor do artista depende de um relacionamento intenso consigo. É uma soma básica.&nbsp;</p>



<p>Como supostamente Henri&nbsp;Lacordaire&nbsp;disse:&nbsp;</p>



<p><em>“É a solidão que inspira os poetas, cria os artistas e anima o gênio.”</em>&nbsp;</p>



<p>Apesar de odiá-la quando há muito pra ser dividido, comentado e sentido apenas por mim, é graças à solidão que encontro novos caminhos no labirinto obscuro da mente – e de lá eu volto à superfície com mais de mil novas histórias pra contar.&nbsp;</p>



<p>E você? O que você traz dos mergulhos ao seu abismo?&nbsp;</p>
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		<title>Objetos Nômades II</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 23 Jun 2019 01:01:03 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 001, N 002]]></category>
		<category><![CDATA[arte]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[objetos nômades]]></category>
		<category><![CDATA[sensibilidade]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por.: Henrique Grimaldi Figueredo</p>
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<p><em>por.: Henrique Grimaldi</em> <em>Figueredo</em></p>



<p class="has-small-font-size">&#8220;Uma versão deste ensaio foi inicialmente publicada na Revista Subversa &#8211; Literatura Luso-Brasileira (ISSN 2359-5817) em novembro de 2017, e encontra-se disponível no link: <a href="http://revistasubversa.com/artigo/objetos-nomades-henrique-grimaldi-figueiredo-juiz-de-fora-mg/.">http://revistasubversa.com/artigo/objetos-nomades-henrique-grimaldi-figueiredo-juiz-de-fora-mg/.</a>&#8220;</p>



<div style="height:100px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<p class="has-drop-cap">O homem almeja a facilidade do mundo, tudo que se ensaia, tudo aquilo que se prende – por comodidade – na afabilidade de um conceito pronto. Parece não haver, nessa narrativa antropologizada, um lugar de desvio, de (des)começo das coisas.&nbsp;</p>



<pre style="text-align:right" class="wp-block-verse"> [Não digo um lugar da negativa, porque até mesmo<br> o ‘anti’ apresenta seus riscos; riscos outros, riscos de <br>estanciação por substituição: de A por B, do ‘pro’<br> pelo ‘contra’; e os códigos, meus caros, estão<br>sempre fadados ao engessamento. São igualmente<br>inválidos na dicotomia que os castra. Dóceis porque<br> a-flexivos]</pre>



<p>[Não digo um lugar da negativa, porque até mesmo o ‘anti’ apresenta seus riscos; riscos outros, riscos de estanciação por substituição: de A por B, do ‘pro’ pelo ‘contra’; e os códigos, meus caros, estão sempre fadados ao engessamento. São igualmente inválidos na dicotomia que os castra. Dóceis porque a-flexivos]</p>



<p>Não; o que nos interessa é o ‘entremeios’ de uma existência, aquilo que, por estar em modalidade de viagem, torna-se incompatível com qualquer traço de perenidade. A viagem sacoleja a carga, é gatilho para uma forma outra, o que chega ao final é vorazmente distinto do que o empacotado no início. Eis a beleza da coisa: a mensagem-item é autoeditada num <em>per si</em> que é, por si só, o jogo a-normativo.&nbsp;</p>



<p>O que se insinua não possui nome próprio. Nem há motivo para tê-lo. Chamaremos de objetos nômades esses artefatos do sensível, e na ausência de uma terminologia mais definitiva ou elegante, deixemos assim, nômades, apenas viajantes de um sentir cambiável.&nbsp;</p>



<p>São os objetos nômades da ordem dos inclassificáveis, ordem esta que é essencialmente uma desordem dos conceitos, ou melhor, uma re-ordem das coisas, de uma pulsão operante de recombinações e remodelações, de tudo que agita o que insiste em se assentar harmoniosamente no fundo. A beleza do barro reside no balé de suas multi-partículas em uma água manente, não no piso arenoso e temerário de sua calmaria.&nbsp;</p>



<p>À classe dos objetos nômades pertencem muitas coisas. Tudo está apto a nomadizar. Existe uma vontade, expressa na modalidade da pré-coisa, que acena em ser outro. A coisa é coisificada pelo Outro – o homem –, cuja castidade e o medo ante o incognoscível leva ao fechamento axiomático das verdades. Que poesia há na certeza? Sinceramente, não vejo. Há mais beleza no escapamento do carro que é interpretado como disparo, ou no aroma noturno de flores que lembram a morte; do que na mecânica incontestável dos que querem afirmar o mundo. Confio neste desejo das pré-coisas, essa ânsia quase baudelairiana em ser <em>flâneur</em>, vaguear; compartilho de sua aspiração.&nbsp;</p>



<p>A palavra escrita, por exemplo. Quando escrita, uma vez escrita, inscreve-se como imagem, grupo de signos cuja cadência espera-se gerar uma determinada afetação. Se escrita, é imagética. Migra da zona mental de composição, assumindo uma corporalidade de papel, uma tatealidade expressa na visão.&nbsp; Deleuze, ao refletir sobre a criação, gerenciava o ato criador como ato agenciador: agenciador de palavras, de vozes, de visões. A coisa agencia outra coisa por acúmulo. A criação é nesse sentido cria[cumula]ção! E é nessa polifonia do acúmulo que a <em>poiésis</em> do nomadismo ocorre.&nbsp;</p>



<pre style="text-align:right" class="wp-block-verse"><br><br><em>BLOOD PIECE</em><br><em>Use your blood to paint.</em><br><em>Keep painting until you faint. (a)</em><br><em>Keep painting until you die. (b)</em><br><em>1960 spring</em><br><br><br>Yoko Ono<br><br></pre>



<p>Eis aí um primoroso exemplo de nomadismo objetual. A poesia propositiva de Ono, uma vez escrita é imagética, deixa o domínio da oralidade e se perpetua através e na visualidade. Não pertence a ninguém mas pertence a todos. Há certa indomabilidade da criação e diferentes sentidos de nomadização. Se leio mentalmente &lt;&lt; poesia nomadiza para a visão &gt;&gt; se leio oralmente &lt;&lt; poesia nomadiza para a visão e para a vocalização &gt;&gt; se interpreto a ação &lt;&lt; nomadiza para a visão e da visão para ação &gt;&gt; se interpreto a ação até o fim &lt;&lt; nomadiza da visão para a ação e da ação para a transcendência do sujeito: morte &gt;&gt;&nbsp;</p>



<figure class="wp-block-image is-resized"><img loading="lazy" decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/88c5b-imagem-1.jpg?resize=727%2C691&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-244" width="727" height="691" srcset="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/88c5b-imagem-1.jpg?w=699&amp;ssl=1 699w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/88c5b-imagem-1.jpg?resize=300%2C285&amp;ssl=1 300w" sizes="(max-width: 727px) 100vw, 727px" data-recalc-dims="1" /><figcaption>Autoria desconhecida. Fonte: wehearit.com.&nbsp;</figcaption></figure>



<p>Em seu “Livro sobre nada”, Manoel de Barros opera uma desobrigação do ato relacional de olhar: “O olho vê, a lembrança revê, e a imaginação transvê/ É preciso transver o mundo/ É preciso deformar o mundo”. Essa ação vibrátil do olho, que descredencia o real como imperativo na ação de ver insere, analogamente, o gesto de um “transver” subjetivo, isto é, ser incivilizável ante a um existir sistêmico e conformado. Um traço de desobediência plural que a poesia compartilha com a ação poética. Ao nomadizar do escrito ao vivencial cria-se um curto-circuito no que se entende pela realidade. Para parafrasear Bourriaud, um momento de conversão que desencadeia “mais movimentos dos observadores do que exigido para sua elaboração”. Os objetos nômades são assim pequenos respingos de ativação político-poética, fissuras desejadas no tecido febril e desalentador da sociedade. &nbsp;</p>



<p>Nas viagens impetradas no sensível, os objetos nômades delineiam dois grandes contornos: é uma vez 1. <em>Objeto Nômade</em>: objeto porque mesmo na adimensionalidade catártica das virtualizações há corpo, e nômade porque são intimamente desassossegados, migrantes; da literatura para a arte, do biológico para o poema, do mecânico para o orgânico. Mas também o é outra vez <em>2. Objeto Nômade</em>: no sujeito, porque ao ser/interpreta-lo na menor das instâncias, me torno nômade por agenciamento, deixando minhas coordenadas para adquirir outro lugar; assumindo-me objeto neles e por eles.</p>



<p>E no início era o Verbo, e o Verbo se fez [carne, imagem, oco, eco, palavra, silêncio, sentido, (muitos eteceteras); finalmente NÔMADE] e habitou entre nós. Que a palavra nos brinque-de-ser-poema e que nos nomadize à máxima manoelina: “Perdoai, mas eu preciso ser Outros/ Penso renovar o homem usando borboletas”.&nbsp;</p>
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