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	<title>Arquivos Talisson Melo - Revista Trama</title>
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	<description>Arte, Cultura e Criatividade</description>
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		<title>PIRAPORA NOSSA&#8230; (NEO)VANGUARDAS MINEIRAS</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 07 Nov 2021 21:24:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 113]]></category>
		<category><![CDATA[arte]]></category>
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		<category><![CDATA[Talisson Melo]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Tálisson Melo</p>
<p>O post <a rel="nofollow" href="https://revistatrama.artebodoque.com/2021/11/07/pirapora-nossa-neovanguardas-mineiras/">PIRAPORA NOSSA… (NEO)VANGUARDAS MINEIRAS</a> apareceu primeiro em <a rel="nofollow" href="https://revistatrama.artebodoque.com">Revista Trama</a>.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<figure class="wp-block-image alignwide size-large"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="789" height="1097" src="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/13528-piraporamaparasgarasga.jpg?resize=789%2C1097" alt="" class="wp-image-18912" srcset="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/13528-piraporamaparasgarasga.jpg?w=789&amp;ssl=1 789w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/13528-piraporamaparasgarasga.jpg?resize=216%2C300&amp;ssl=1 216w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/13528-piraporamaparasgarasga.jpg?resize=736%2C1024&amp;ssl=1 736w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/13528-piraporamaparasgarasga.jpg?resize=768%2C1068&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/13528-piraporamaparasgarasga.jpg?resize=69%2C96&amp;ssl=1 69w" sizes="(max-width: 789px) 100vw, 789px" data-recalc-dims="1" /><figcaption>Tálisson Melo, “Pirapora-Processo Rasga Drummond”, montagem digital com documentos, 2021</figcaption></figure>



<div style="height:20px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<p>“Sou caipira, Pirapora / Nossa Senhora de Aparecida” &#8230; diz o refrão da canção “Romaria”, composta em 1978, num apartamento do bairro Pinheiros, na capital paulista, por Renato Teixeira, cantor e músico originário de Santos, e devoto da Santíssima Virgem. em 1981, a letra foi eternizada e difundida por rádios e televisores na voz de Elis Regina, ganhando mais tarde novas versões marcantes, até uma versão mais recente gravada pela filha de Elis, Maria Rita, em 2013&#8230; mas acho que aos ouvidos de quem, como eu, assistia TV em meados dos 90, a música ressoa a dinâmica televisionada dos cantores sertanejos no Show Amigos de 1996. há ainda a versão de Ivete Sangalo acompanhada do próprio Renato com voz e violão, num encontro de 2009.</p>



<p>só que essa digressão introdutória é mais “[e]feito eu perdido em pensamentos / sobre meu cavalo”&#8230; pois este texto não tem nada, diretamente, relacionado a essa “Romaria” ou ao trajeto peregrino que inspirou a composição, entre a pequena cidade de Pirapora do Bom Jesus, no interior de São Paulo, e a gigantesca basílica do Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida. mas tem sim a ver com procissões e romarias, como toda a história da arte da performance no Brasil, muito graças a Flávio de Carvalho, e toda uma latência ritualística da cultura religiosa entre igrejas, terreiros, escolas, ruas&#8230;</p>



<p>espero deixar minimamente posto que a evocação não é tão aleatória assim. além da relação direta com outra Pirapora, a do norte de Minas Gerais, e aos contextos caipiras dos interiores do sudeste do Brasil, as procissões como manifestações culturais tão pulsantes de vida, e toda uma cultura (artística, poética, audiovisual) que se dissemina de/para/além-e-aquém das megacidades desse pedaço de Brasil que muitas vezes se naturaliza como “o Brasil”, embora loooonge dele, de tantas maneiras&#8230;</p>



<p>falo aqui da nossa Pirapora, do Rio São Francisco. que é também a Pirapora das personagens do romance de estreia de Lúcio Cardoso, “Malateia”, puxadas das memória do pai do escritor – expoente da literatura de cunho intimista e introspectiva que explodiu no Brasil dos 1930, mineiro de Curvelo que se integrou a movimentações experimentais do romance, da poesia e dramaturgia na capital federal.</p>



<p>Este texto é minha primeira contribuição para a TRAMA na qual trago com mais ênfase um desdobramento do que faço enquanto historiador de arte, atuando em pesquisa e curadoria – ainda mantendo um movimento ‘de (di)vagação’.</p>



<p>desde 2019, trabalho junto a Jorge Francisco Soto e Eugenia González (artistas do Uruguai), num projeto em que visamos reconstituir trânsitos e transações no fluxo de certos referenciais estéticos da poesia e das artes visuais na América do Sul, entre meados dos 1960 e 70, período marcado por uma sucessão de destituições golpistas de presidentes das repúblicas da região, então minada de ditaduras militares.</p>



<p>começo a narrativa tomando uma outra ‘romaria’ como fio condutor. o trajeto realizado num fusca amarelo pelo casal de artistas cariocas Álvaro de Sá e Neide Dias de Sá, em 1969, para participar de uma mostra na capital argentina. a <em>Expo/Internacional de Novísima Poesía 69</em>, foi organizada pelo poeta-artista de La Plata, Edgardo Antonio Vigo, e realizada num espaço privilegiado de projeção das linguagens contemporâneas emergentes, o Instituto Torquato Di Tella, então dirigido pelo crítico Jorge Romero Brest.</p>



<p>os detalhes ‘anedóticos’ dessa travessia de fronteiras foram rememorados pelo artista Clemente Padín numa entrevista que concedeu a mim, Soto e o sociólogo Guilherme Marcondes, na sua casa em Montevidéu, numa tarde de agosto de 2018 – publicada na íntegra em espanhol (<a href="https://revista.ecfrasis.com/2019/05/09/poetica-y-politica-alli-donde-esta-la-gente-una-conversacion-con-clemente-padin-sobre-mas-de-cinco-decadas-de-su-arte-vida/">revista <em>Ecfrasis</em>, de Santiago do Chile</a>) e português (<a href="https://www.horizontesaosul.com/single-post/2020/03/02/A-QUEDA-DOS-MUROS-E-FRONTEIRAS-ENTREVISTA-COM-CLEMENTE-PAD%C3%8DN">na revista <em>Horizontes ao Sul</em>, brasileira</a>), sugiro a leitura!</p>



<p>nessa conversa, Padín explicitou a importância do contato com Neide e Álvaro quando, no curso de seu regresso para o Rio de Janeiro, atravessaram o Rio da Prata e passaram alguns dias trocando ideias com artistas e poetas residentes na capital uruguaia. a partir desse momento, as produções experimentais de artistas do Uruguai, da Argentina e do Brasil, designadas por novos termos que nomearam também grupos e movimentos estético-comunicacionais-ideológicos – “poema-processo” e “<em>poesia a y/o realizar</em>” –, passaram a confluir por meio de publicações organizadas de maneira independente por esses artistas, com destaque para <em>Ovum 10</em>, <em>Diagonal Cero </em>e <em>Ponto</em>, cada uma impressa num dos três países, mas contando com intercâmbios diversos entre elas.</p>



<p>os princípios motrizes da atividade criativa e teórica desses/as artistas daqui e <em>de</em> <em>allá </em>foram manifestos entre 1967 e 69 através de manifestos, intervenções em eventos e publicações, colocando em circulação os termos que formaram movimentos artísticos parcialmente absorvidos pelas narrativas canônicas da história da arte nos três países. quem estudou história da arte moderna e contemporânea do Brasil chegou a ver menções ao Poema/Processo? Ao trabalho de Wlademir Dias-Pino, Neide Dias de Sá, Dailor Varela, Falves Silva, Joaquim Branco e José de Arimatéia.</p>



<p>podemos certamente entrar numa discussão sobre como essa precária inclusão tem sido questionada e alterada nos últimos dez anos, o que de fato me interessa aprofundar – exponho alguns resultados desse mergulho crítico-historiográfico em dois eventos acadêmicos deste comecinho de novembro de 2021, o primeiro no dia 4 e o segundo no dia 10: respectivamente organizados pela <a href="http://www.iea.usp.br/eventos/vidas-dos-artistas"><em>École du Louvre </em>de Paris (<em>International Conference The Lives of Artists in the Globalized World</em>)</a> e pela pós-graduação em história da arte da Universidade Estadual de Campinas (<a href="https://econtents.bc.unicamp.br/eventos/index.php/eha/programa?fbclid=IwAR2ITf9LB3o-UEG7CRjSJAwdPLSM623V6iwBK3prZlRMYrXd3synhv93IBI">XV Encontro de História da Arte</a>).</p>



<p>estou ciente da elaboração historiográfica que tenho desenvolvido também como parte da movimentação de calotas que podem ou não vir a acomodar novos elementos de vidas-obras na narrativa mais difundida sobre a criação artística nesses contextos (talvez mesmo apagando ou ofuscando outras), e das relações conflitivas com dinâmicas do mercado e das instituições artísticas – e as entendo como fatores muito importantes, mas apenas uma dimensão do ‘fazer sentido’ dessa história toda. complexificação do olhar sobre artistas e poetas cujas criações tão cadentes ficaram relegadas a nichos de interesse demasiado especializados, é a possibilidade que me anima a pesquisar e curar.</p>



<p>neste momento de disparatadas absurdezes do bolsonarismo que desgoverna essa República, com setores saudosos dos anos de chumbo pós AI-5, decretado em 13 de dezembro de 1968, que intensificou os mecanismos de censura e repressão ideológicas e morais em meio ao estado autoritário já instalado no país, acredito que recuperar a vivacidade das ações do movimento Poema/Processo pode nos trazer alento, para cantar ao sol que segue brilhando enquanto uma nuvem pesada de ódio parece cobrir o território chamado Brasil.</p>



<p>repuxando o fio desse emaranhado de histórias, que é o Poema/Processo, quero falar de suas ações que pululavam por espaços públicos do Rio, de Natal, Recife, Olinda, Florianópolis e ‘cidadezinhas’ mineiras como Cataguases, Muriaé e Pirapora (a nossa, não a de ‘Romaria’). sobre as ações do Poema/Processo no Rio e em Natal, o catálogo organizado por Gustavo Nóbrega pela Galeria Superfície com a editora Martins Fontes, de São Paulo, em 2017, traz riquíssimo material = <a href="http://www.galeriasuperficie.com.br/app/uploads/2017/06/poema-processo-uma-vanguarda-semiologica.pdf">“Poema processo: uma vanguarda semiológica”</a>.</p>



<p>antes de chegar na explosão de tônica vanguardista que aloca Pirapora no mapa das atitudes mais ‘obscenas’ da história da arte brasileira dos 1960, e finalmente justificar o título deste ensaio, acho importante observar dois nós firmes no fio dessa narrativa que conectam o movimento Poema/Processo a uma ação de recepção bastante controversa levada a cabo em plena Cinelândia pelo núcleo carioca dessa rede. uma espécie de <em>happening</em>, que circulou com a nome de “rasga-rasga”, suscitou uma série de notas na imprensa local e nacional, debates entre artistas e crítica de arte e literatura. na praça, entre a Bibliotheca Nacional, o Theatro Municipal do Rio de Janeiro e Museu Nacional de Belas Artes, integrantes do grupo empilharam dezenas de livros de poesia e os rasgaram num gesto tensionado de metáfora disruptiva com relação à poética discursiva – incluindo-se exemplares de autores como Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto e Ferreira Gullar. assim foi a conclusão de uma ação em forma de protesto que partiu de um debate na Escola Nacional de Belas Artes, quando da realização da 2ª EXPO NACIONAL DO POEMA/PROCESSO. Integrantes do movimento caminharam até a Cinelândia com cartazes e gritos de guerra – “comunicados crípticos” como afirma a pesquisadora Fernanda Nogueira – e grafando: “‘Abaixo à ditadura do Canto e do Soneto’, onde as iniciais C e S nas palavras finais aludiam ao nome do ditador Costa e Silva, presidente de facto entre março de 1967 e setembro de 1969. Outras diziam ‘Es USted livre?’, uma pergunta entre português e espanhol onde as letras maiúsculas se referiam diretamente à dominação estadunidense na América Latina no contexto da Guerra Fria”. [<a href="https://www.e-publicacoes.uerj.br/index.php/concinnitas/article/view/25873">o artigo de Nogueira sobre “memórias em disputa e artes obscenas” pode ser acessado pelo site da revista Concinnitas</a>]</p>



<div style="height:20px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<figure class="wp-block-image alignwide size-large"><img decoding="async" width="950" height="633" src="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/dde8f-pp-rasga-rasgaos-inimigos-da-poesia-revista-manchete-1968.jpg?resize=950%2C633" alt="" class="wp-image-18916" srcset="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/dde8f-pp-rasga-rasgaos-inimigos-da-poesia-revista-manchete-1968.jpg?w=1502&amp;ssl=1 1502w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/dde8f-pp-rasga-rasgaos-inimigos-da-poesia-revista-manchete-1968.jpg?resize=300%2C200&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/dde8f-pp-rasga-rasgaos-inimigos-da-poesia-revista-manchete-1968.jpg?resize=1024%2C682&amp;ssl=1 1024w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/dde8f-pp-rasga-rasgaos-inimigos-da-poesia-revista-manchete-1968.jpg?resize=768%2C512&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/dde8f-pp-rasga-rasgaos-inimigos-da-poesia-revista-manchete-1968.jpg?resize=144%2C96&amp;ssl=1 144w" sizes="(max-width: 950px) 100vw, 950px" data-recalc-dims="1" /><figcaption>Reportagem de Ruy Castro com fotos de Esko Murto em duas páginas da Revista Manchete, n.825, 10.02.1968, pp.116-17.</figcaption></figure>



<div style="height:20px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<p>não vou entrar aqui no grosso da pesquisa que tenho feito, pois estou longe de colocar esses fios em carreteis organizados para conseguir ser suscinto sobre o que tenho encontro acerca desse episódio pouco historicizado e difundido. mas quero destacar que esta ação ocorrida em 26 de janeiro de 1968 e a polêmica que se levantou ao redor da decisão do grupo em “espantar pela radicalidade” e serem tachados de “inimigos da poesia”, marca a tomada das ruas por gestos efêmeros de vigor poético que caracteriza o PROCESSUAL do POEMA que não se contém na palavra registrada em objeto.</p>



<p>nas palavras da pesquisadora Fernanda Nogueira, que também se dedica a estudar o Poema/Processo (e há muito mais tempo do que eu, sendo seu trabalho central para relançar luz sobre ele), o que se visava à época era: “criar um corpo social ativo, que respondesse às constantes propostas artísticas e críticas. Defendia a ampliação dos repertórios locais sem apontar de antemão qual seria este, ou seja, estava a favor da pesquisa como princípio para a prática artística, levando a uma espécie de ‘pedagogia da autonomia’ para explorar o que estava disponível em cada contexto: uma maneira de descolonizar o pensamento e produção artística e poética. Ou seja, não havia um repertório estabelecido de antemão que deveria ser seguido. Também não houve qualquer convite para ‘proposições participativas’ porque uma das bases do movimento procurou romper com a ideia de autoria e oferecer os trabalhos como ‘bens comuns’.” [novamente, cito o artigo de Nogueira, 2016]</p>



<p>peço perdão pelo salto de tempo e tantos fatos que proponho agora no enredo para alcançar logo a ação realizada durante o II Festival de Pirapora de arte e literatura, em 1º de junho de 1969 (após a imposição do AI-5, bom lembrar!), considerada pelo movimento como seu segundo poema-processo coletivo da série que teve início com a rasgação de livros. o título desse <em>happening </em>era “Desfile de Autores e Personagens da Literatura Brasileira”. Consistiu de um protesto/procissão movido por artistas do Poema/Processo (no caso de Pirapora, o representante local era o poeta José de Arimethéa Soares Carvalho), e estudantes de um colégio com quem conversas/aulas sobre literatura brasileira foram realizadas por membrxs do movimento. caminharam, então, pela ruas de Pirapora com cartazes alusivos a uma história da literatura, do classicismo dos padres jesuítas na colônia, passando pelo barroco mineiro, os modernistas mineiros, e culminando com o POEMA/PROCESSO (e acho esse ‘detalhe’ no mínimo sarcástico).</p>



<div style="height:20px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" width="950" height="597" src="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/18c34-whatsapp-image-2021-10-30-at-15.08.43-1.jpeg?resize=950%2C597" alt="" class="wp-image-18918" srcset="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/18c34-whatsapp-image-2021-10-30-at-15.08.43-1.jpeg?w=1280&amp;ssl=1 1280w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/18c34-whatsapp-image-2021-10-30-at-15.08.43-1.jpeg?resize=300%2C189&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/18c34-whatsapp-image-2021-10-30-at-15.08.43-1.jpeg?resize=1024%2C644&amp;ssl=1 1024w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/18c34-whatsapp-image-2021-10-30-at-15.08.43-1.jpeg?resize=768%2C483&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/18c34-whatsapp-image-2021-10-30-at-15.08.43-1.jpeg?resize=153%2C96&amp;ssl=1 153w" sizes="(max-width: 950px) 100vw, 950px" data-recalc-dims="1" /><figcaption>Registro fotográfico de Sônia Figueiredo, poeta de Pirapora, conduzindo pelas ruas o grito inicial do movimento Poema/Processo no “Desfile de Autores e Personagens da Literatura Brasileira”, com cartaz escrito “É PRECISO ESPANTAR PELA RADICALIDADE”. Encontrei esta imagem no livro de Wlademir Dias-Pino, “Processo: Imagem e comunicação&#8221;, de 1971.</figcaption></figure>



<div style="height:20px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<div class="wp-block-image"><figure class="aligncenter size-full"><img loading="lazy" decoding="async" width="600" height="394" src="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/ba0e6-pirapora-jornal-69-aberto.jpg?resize=600%2C394" alt="" class="wp-image-18920" srcset="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/ba0e6-pirapora-jornal-69-aberto.jpg?w=600&amp;ssl=1 600w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/ba0e6-pirapora-jornal-69-aberto.jpg?resize=300%2C197&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/ba0e6-pirapora-jornal-69-aberto.jpg?resize=146%2C96&amp;ssl=1 146w" sizes="(max-width: 600px) 100vw, 600px" data-recalc-dims="1" /><figcaption>como se pode ver no texto de apresentação publicado pela prefeitura do município (acima reproduzido):<br>“achamos que a literatura é, antes de tudo, do povo e da comunidade numa perfeita integração em que ambos se completam”.</figcaption></figure></div>



<div style="height:20px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<p>enquanto Marília Andrés Ribeiro e Rodrigo Vivas, historiadora e historiador de arte docentes da EBA-UFMG, <a href="https://periodicos.unb.br/index.php/revistavis/article/view/14486">se empenham em demonstrar como e com que efeitos se desenvolvem na capital de Minas Gerais</a> um parte relevante das neo-vanguardas do país, tenho buscado seguir alguns fios da rede descentralizada do Poema/Processo, que conectou gente dos experimentalismos palavra-imagem-som-gesto-ação em cidades médias, pequenas e zinhas como Pirapora, Muriaé, Oliveira, Divinópolis, Cataguases e Juiz de Fora – por onde ares caipirinhas e provincianos convivem também com flancos de vanguardismos, radicalismos de linguagem, emergências rebeldes das neo-vanguardas cosmopolitas que são [(quase)sempre] <em>mega-trickster</em>s de fluxos &#8212;&#8212;- cujo diagrama chegaria numa fórmula talvez assim:</p>



<p class="has-text-align-right"><strong>globais(?!)-internacionais(/internacionalistas)-latinamericanas(/istas)-nacionais/brasileiras-regionais(mineiras?/mitos-da-mineiridade)-locais(#caipiraporas,mineirocas,mineirixabas,mineirigoias,baianeiras,tocantineiras)</strong><br><strong>=</strong><br><strong>arte brasileira &gt;&gt;&gt;&gt;&gt;&gt;&gt;&gt;&gt;&gt; Rio-SP</strong></p>



<p>e vale pensar outra fórmula em que</p>



<p class="has-text-align-right"><strong>Minas &gt; Belo Horizonte // Minas &gt; Ouro Preto // Minas &gt; barroco /</strong><br><strong>/ Minas &gt; extrativismos selvagens // Minas &gt;&gt;&gt;&gt; INHOTIM&#8230;</strong></p>



<p>e vejo minha atuação enquanto artista-pesquisador-curador deste projeto encontrar consonância na fórmula proposta por pesquisadores como os sociólogos André Botelho, Mariana Chaguri, Maurício Hoelz e um amplo grupo de estudos chamado <a href="https://projetominasmundo.com.br/">Minas-Mundo</a>, onde a questão central da abordagem mora no hífen – <a href="http://suplementopernambuco.com.br/pernambuco/2573-minasmundo-quase-um-manifesto.html">como dizem em seu quase manifesto</a>:</p>



<p>“Mas por que destacar um caso mineiro de um brasileiro? Por certo, a questão é parte dos problemas a que somente as pesquisas da rede poderão responder. Ao distinguir um caso mineiro, porém, não temos em vista produzir um essencialismo, e sim, antes, questionar o paradigma da identidade nacional que domesticou, homogeneizando-a, a própria compreensão da formação da sociedade brasileira. Um questionamento tanto por “dentro”, uma vez que promoverá reconhecimento das diferenças “internas” no Brasil, quanto por “fora”, explorando suas articulações “externas”. Minas, mundo; Minas-mundo. Trazer à tona a questão do cosmopolitismo na cultura permite problematizar a própria ideia de “origem” por meio da afirmação da diferença como reescritura, suplemento, repetição deslocada no espaço e no tempo.”</p>



<div style="height:50px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<hr class="wp-block-separator" />



<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:22% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/c1d2a-talisson-melo.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-13771 size-full" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p><strong>Tálisson Melo</strong> é artista-pesquisador, mineiro de Juiz de Fora, 1991. Morando em São Paulo. Doutor em Sociologia e Antropologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Publicou os livros <strong><em>Mesmo Sol Outro</em></strong> com Carolina Cerqueira (2018: @mesmo_sol_outro ), e <em><strong>A New Road</strong></em> com Taonga Leslie (2021: @newroadpoems ). Trabalha em projetos curatoriais-editoriais e de pesquisa, aranhando artes visuais, poesia, design, arquitetura, cinema, história e ciências sociais. Web: <a rel="noreferrer noopener" href="https://linktr.ee/talissonmelodesouza" target="_blank">https://linktr.ee/talissonmelodesouza</a></p>
</div></div>



<div style="height:50px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-flow wp-block-group-is-layout-flow">
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		<title>JÚPITER: intimidade óbvia</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 17 Oct 2021 21:29:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 113]]></category>
		<category><![CDATA[arte]]></category>
		<category><![CDATA[poesia]]></category>
		<category><![CDATA[Talisson Melo]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Tálisson Melo</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="950" height="633" src="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/34850-jupiter_intimidades-occ81bvias.jpg?resize=950%2C633" alt="" class="wp-image-18565" srcset="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/34850-jupiter_intimidades-occ81bvias.jpg?w=1380&amp;ssl=1 1380w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/34850-jupiter_intimidades-occ81bvias.jpg?resize=300%2C200&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/34850-jupiter_intimidades-occ81bvias.jpg?resize=1024%2C683&amp;ssl=1 1024w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/34850-jupiter_intimidades-occ81bvias.jpg?resize=768%2C512&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/34850-jupiter_intimidades-occ81bvias.jpg?resize=144%2C96&amp;ssl=1 144w" sizes="(max-width: 950px) 100vw, 950px" data-recalc-dims="1" /><figcaption>JUPITER_intimidades óbvias</figcaption></figure>



<pre class="wp-block-verse">meu international style
está mais para interplanetário,
JÚPITER

de criança 
era tudo um grande pátio, 
corredor de atravessar em ziguezagues
piques, bandeiras, corre cutia, labirinto, floresta
tão densa nuvem

sempre há algo a se descobrir que não se buscava
fanfarras dissolvendo focos de um risco
nunca há fim no descobrir das coisas que não se pensava
missões para JUNO

houve, um dia,
seu núcleo original?
há ainda um coração? um caroço? 
ou foi roído, ruindo por correntes de massa quente, 
extra fervente, já candentes no processo tenro de sua formação...?
e nunca teve começo? caroço? uma semente dilatando ao broto...?

hipótese conclusiva indefinida:
é só um amontoado de coisas
foram se prendendo, emaranhando, fundindo e desconformando,
durante colisões randômicas das margens de um disco acelerando-se, 
complexo campo magnético. redemoinho de gravidades...

passei todos anos da vida atravessando essa galeria
seus recortes paralelos em fluidas diagonais
por doze blocos, quase cem unidades habitáveis
sua cor ora rosa, pêssego, margarida, terrosa ora
trazendo nuvens de um doce para o assento brutal
de um monstro gigante horizontal,
com sua garganta sinuosa, angulosa,
geométrica falha da simetria
permanências e mudanças mistas

corrimãos, extintores de incêndio e tubos hidráulicos
orbitando sua superfície dura de estrutura arterial
escondidos em seu interior aberto, 
um rasgo de gás de metal
como dezenas de luas com ilhas, vulcões e tempestades
série de eclipses numa estranha coreografia milenar
superfície sem membrana, faz do toque
um mergulho, 



JÚPITER,
gigante deitado no umbigo
da avenida reta/curva, parábola dum vale de rio coberto
JÚPITER, 
uma enorme verruga – um tumor do sistema fabril
com anel de poeira sutil

da Manchester falida
estrela fracassada? planeta bem sucedido!
‘redondeta’ de tantos conflitos
superaquecidos, convertem-se em líquido
“mas de fato não sabemos, porque é incrivelmente difícil entender a física e química dos materiais trancados naquelas condições de pressão e temperatura”
</pre>



<div style="height:20px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<div class="wp-block-image"><figure class="aligncenter size-full"><img loading="lazy" decoding="async" width="640" height="640" src="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/e7219-jupiter_intimidades-occ81bvias3.jpg?resize=640%2C640" alt="" class="wp-image-18561" srcset="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/e7219-jupiter_intimidades-occ81bvias3.jpg?w=640&amp;ssl=1 640w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/e7219-jupiter_intimidades-occ81bvias3.jpg?resize=300%2C300&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/e7219-jupiter_intimidades-occ81bvias3.jpg?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/e7219-jupiter_intimidades-occ81bvias3.jpg?resize=96%2C96&amp;ssl=1 96w" sizes="(max-width: 640px) 100vw, 640px" data-recalc-dims="1" /><figcaption>JUPITER_intimidades óbvias3.</figcaption></figure></div>



<div style="height:20px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<pre class="wp-block-verse">a paisagem rotinizada de estar quase à porta de casa
de mainha, de voinha, 
ao mesmo tempo num foguete 
intergaláctico,
firmo as chaves para imergir na massa gasosa de JÚPITER,
tão ligeiro que nem se perceba minha intromissão
de longe o corpo denso, estrela amadeirada.
a passos, se torna esfera marmórea.

sentindo seu cheiro
até pousar na superfície hipoteticamente rochosa
de seu núcleo inexistente...

jornada por
intimidades óbvias
nenhuma sonda ousar(i)a</pre>



<div style="height:50px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<hr class="wp-block-separator" />



<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:22% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/c1d2a-talisson-melo.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-13771 size-full" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p><strong>Tálisson Melo</strong> é Artista-pesquisador. Doutorando em Sociologia e Antropologia na UFRJ. Publicou o livro &#8220;Mesmo Sol Outro&#8221; com Carolina Cerqueira (2018). Atualmente trabalha em projetos curatoriais-editoriais e de pesquisa em Montevidéu, Juiz de Fora e Nova York – emaranhando artes visuais, poesia, design, arquitetura, cinema, história e ciências sociais. @talisson.melo @mesmosoloutro</p>
</div></div>



<div style="height:50px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-flow wp-block-group-is-layout-flow">
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		<title>MESMAS COISAS MUITAS OUTRAS</title>
		<link>https://revistatrama.artebodoque.com/2021/08/29/mesmas-coisas-muitas-outras/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 29 Aug 2021 21:29:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 106]]></category>
		<category><![CDATA[arte]]></category>
		<category><![CDATA[Talisson Melo]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Tálisson Melo</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="has-text-align-right"><em>“Qual é o mesmo que me aproxima do outro?”</em></p>



<p>hoje, essa pergunta me parece um tanto ingênua, ou mesmo otimista. tende às aproximações quando há tantos afastamentos, segregações. mas, nos idos de 2015, essa questão motivou uma busca compartilhada entre mim e minha melhor amiga, a artista-pesquisadora Carolina Cerqueira.</p>



<div style="height:20px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="950" height="602" src="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/0a083-mso_introd_olhomagico.png?resize=950%2C602" alt="" class="wp-image-17765" srcset="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/0a083-mso_introd_olhomagico.png?w=1304&amp;ssl=1 1304w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/0a083-mso_introd_olhomagico.png?resize=300%2C190&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/0a083-mso_introd_olhomagico.png?resize=1024%2C649&amp;ssl=1 1024w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/0a083-mso_introd_olhomagico.png?resize=768%2C486&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/0a083-mso_introd_olhomagico.png?resize=152%2C96&amp;ssl=1 152w" sizes="(max-width: 950px) 100vw, 950px" data-recalc-dims="1" /><figcaption>[página do livro Mesmo Sol Outro (2018), de Carolina Cerqueira e Tálisson Melo]</figcaption></figure>



<div style="height:20px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<p>naquele ano, o trabalho que ela vinha desenvolvendo em fotografia e gravura, insistindo em imiscuir seu autorretrato com retratos de tantas outras pessoas negras de África e da diáspora, foi premiado pela mostra JF Foto15. Carol me chamou para pensarmos juntos a expografia que contextualizaria a apresentação de sua série de montagens – <strong>Dessemelhança Construída</strong>, exibida no Centro Cultural Bernardo Mascarenhas e na Galeria Guaçuí, ambos espaços em Juiz de Fora-MG.</p>



<div style="height:20px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="950" height="634" src="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/9f0de-dessemelhanca_carol_jffoto15.jpg?resize=950%2C634" alt="" class="wp-image-17766" srcset="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/9f0de-dessemelhanca_carol_jffoto15.jpg?w=1280&amp;ssl=1 1280w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/9f0de-dessemelhanca_carol_jffoto15.jpg?resize=300%2C200&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/9f0de-dessemelhanca_carol_jffoto15.jpg?resize=1024%2C683&amp;ssl=1 1024w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/9f0de-dessemelhanca_carol_jffoto15.jpg?resize=768%2C512&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/9f0de-dessemelhanca_carol_jffoto15.jpg?resize=144%2C96&amp;ssl=1 144w" sizes="(max-width: 950px) 100vw, 950px" data-recalc-dims="1" /><figcaption>[montagem da exposição Dessemelhança Construída, de Carolina Cerqueira, na mostra JF Foto15, CCBM, Juiz de Fora, 2015. Foto: Tamires Orlando]</figcaption></figure>



<div style="height:20px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<p>uma série de outras perguntas foram se desdobrando ao longo de nossas conversas sobre identidades e relações raciais no Brasil e além. estabelecemos o começo de um contínuo diálogo aberto entre um homem branco e uma mulher negra, ambos de uma classe média urbana, com ensino superior completo. e formulamos isso enquanto um projeto para viabilizar nossos deslocamentos a outras partes, nos aproximar de outros contextos, nos testar, jogar nossos corpos no mundo e observar os efeitos dos encontros. atravessar o atlântico até terras africanas, e encarar os (des)encontros possíveis de nosso retorno a este aqui que segue se transformando, ao passo que também nos transformávamos&#8230; a pergunta se traduziu em projeto artístico que culminaria num livro-digital-de-viagens-de-artistas, partindo de materiais visuais coletados no curso de um trânsito traçado entre Juiz de Fora, Bias Fortes e a comunidade quilombola de Colônia do Paiol (em Minas), as cidades do Rio de Janeiro e Salvador, e capital de Angola, Luanda. o título proposto sintetizava a pergunta motriz inicial: <strong>Mesmo Sol Outro</strong>.</p>



<p>selecionado pelo Rumos Itaú Cultural em 2016, recebemos meios materiais de dar início à execução do projeto, à jornada. incluímos outros pontos de estadia – como as cidades de Cachoeira e São Félix no Recôncavo, que nos atraiu a um mergulho por alguns dias após o corpo pesar pelas ruas da capital baiana; e Johanesburgo, na África do Sul, onde Carolina passava a residir para realizar seu mestrado em artes na <em>Wits University</em>. última parada, onde nos despedimos, ela ficou e eu voltei para o Rio. seguimos trabalhando na concatenação dos materiais coletados, das ideias de narração, montagem, edição, etc. e isso se deu totalmente online, nos fazendo descobrir os caminhos de conversas criativas, afetivas e frutíferas por esse meio de contato em distância.</p>



<div style="height:20px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<figure class="wp-block-image alignwide size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="950" height="1267" src="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/0ac2d-capa.jpg?resize=950%2C1267" alt="" class="wp-image-17768" srcset="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/0ac2d-capa.jpg?w=1350&amp;ssl=1 1350w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/0ac2d-capa.jpg?resize=225%2C300&amp;ssl=1 225w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/0ac2d-capa.jpg?resize=768%2C1024&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/0ac2d-capa.jpg?resize=1152%2C1536&amp;ssl=1 1152w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/0ac2d-capa.jpg?resize=72%2C96&amp;ssl=1 72w" sizes="(max-width: 950px) 100vw, 950px" data-recalc-dims="1" /><figcaption>[imagem de capa do livro Mesmo Sol Outro (2018), de Carolina Cerqueira e Tálisson Melo]</figcaption></figure>



<div style="height:20px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<p>março de 2018 marcou um ponto do processo mais amplo que se tornou Mesmo Sol Outro, pois foi quando o ‘resultado’ de nosso trabalho pela primeira vez foi a público – na forma de um pdf que <a href="https://www.itaucultural.org.br/livro-digital-mesmo-sol-outro-e-disponibilizado-na-internet">pode ser baixado gratuitamente</a>. </p>



<p>de lá para cá, exibimos alguns experimentos de ensaio para uma versão impressa do projeto, que ainda se encontra em vias de formulação, maturando um pouco as ideias e aguardando um retorno dos encontros mais táteis com as coisas e as outras pessoas, rodas de conversa e aulas em rodas&#8230; também apresentamos o livro na Cidade do México e em Nova York, e participamos de uma maratona com editores de livros de artista no Fórum Latino-Americano de Fotografia, em São Paulo, meados de 2019, e fomos sedimentando o projeto através de conversações.</p>



<div style="height:20px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<figure class="wp-block-image alignwide size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/7878f-a-beira-do-tempo-visualizacao.jpg?w=950" alt="" class="wp-image-17770" data-recalc-dims="1" /><figcaption>[cartaz de divulgação da exposição “à beira do tempo”, Galeria Guaçuí (2019), com curadoria de Matheus de Simone, na qual foi exposta uma versão impressa do “apêndice” de Mesmo Sol Outro (2018), de Carolina Cerqueira e Tálisson Melo]</figcaption></figure>



<div style="height:20px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<figure class="wp-block-image alignwide size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/9df9c-apendicea5.jpg?w=950" alt="" class="wp-image-17771" data-recalc-dims="1" /><figcaption>[folha de rosto do apêndice do livro Mesmo Sol Outro, de Carolina Cerqueira e Tálisson Melo, exposto em “à beira do tempo”]</figcaption></figure>



<div style="height:20px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<p>diante da pandemia, decidimos desdobrar nossas conversas sobre os temas que acabamos circunscrevendo ao longo do Mesmo Sol Outro: identidade e relações raciais no Brasil, memória-patrimônio cultural e artístico africano-brasileiro, racismo, branquitude, desigualdades e segregação. passamos então a convidar pessoas para <a href="https://www.youtube.com/channel/UCmle5eFgvnE0td71LRnYhuw"><strong>“uma conversa sobre coisas que são muitas”</strong></a> – série de lives iniciada no fim de 2020 e programadas em ritmo quase-quinzenal ao longo de 2021, que podem ser assistidas, inclusive em retrospecto, através de nosso canal no Youtube, <strong>Mesmo Sol Outro redes</strong>.</p>



<p>até o último ‘episódio’, 14º da série – no qual recebemos as professoras-pesquisadoras Carolina Bezerra e Eliane Bettocchi para ampliar o entendimento acerca de <strong>pedagogias decoloniais</strong> –, colocamos de isca para as conversas os seguintes temas, partindo das falas de convidades que se dispuseram a contribuir com nosso processo/projeto:</p>



<p>1 – <strong>fotolivros? livrobjetos? livros-de-artista?</strong> ǀ c/ Ana Paula Vitório (jornalista, roteirista e pesquisadora, doutora em literatura pela PUC-Rio) e Leila de Souza Teixeira (escritora, mestre em artes pela UnB);</p>



<p>2 – <strong>curadoria de exposições: processo criativo, montagem fílmica, escrita da história da arte</strong> ǀ c/ Igor Simões (curador, historiador de arte e professor na UERGS) e Matheus de Simone (artista visual e curador, mestre em artes pela UFJF);</p>



<p>3 – <strong>contextos do livro</strong> ǀ c/ Larissa Andrioli (revisora e pesquisadora, mestre em literatura pela PUC-Rio) e Nathanael Araújo (antropólogo com doutorado pela Unicamp);</p>



<p>4 – <strong>movimento negro, luta, história da arte e direito</strong> ǀ c/ Lorraine Mendes (historiadora de arte, curadora, professora-pesquisadora, doutoranda na EBA/UFRJ) e Waleska Batista (advogada e pesquisadora, doutoranda na U.P. Mackenzie);</p>



<p>5 – <strong>sons em fluxos</strong> ǀ c/ Rosa Couto (cantora, compositora e historiadora, doutora pela UNESP) e Matheus de Oliveira (antropólogo, doutorando no Museu Nacional/UFRJ);</p>



<p>6 – <strong>arte, educação e questão indígena</strong> ǀ c/ Andrya Kiga (ativista trans e indígena da etnia Boe-Bororo, graduanda em pedagogia na UCDB) e Way Puri (ator, educador e pesquisador mestre em artes cênicas pela UNIRIO);</p>



<p>7 – <strong>linguagens artísticas contemporâneas</strong> ǀ c/ Luanda (artista visual, doutora pela EBA/UFRJ) e Paula Duarte (artista visual e jornalista, graduanda no IAD/UFJF);</p>



<p>8 – <strong>cinema: narrativas, representações e projeções</strong> ǀ c/ Kariny Martins (diretora, roteirista, curadora, doutoranda em cinema na UFF) e Michel Carvalho (roteirista, professor e antropólogo, doutorando no IFCS/UFRJ);</p>



<p>9 – <strong>coleções e curadorias em transcontinentes</strong> ǀ c/ Danilo Lovisi (historiador de arte e curador no Espace Culturel Gacha de Paris) e Nina Vincent (antropóloga do IPHAN/PB);</p>



<p>10 – <strong>lugares que insistem em não desaparecer</strong> ǀ c/ Analu Pita (diretora e jornalista, mestre em artes pela UFJF) e Paulo Stuart (poeta e arquiteto, mestre em arquitetura pela UFMG);</p>



<p>11 – <strong>contextos do corpo</strong> ǀ c/ Washington da Selva (artista visual, doutorando em artes no IAD/UFJF) e Vermelho (criatura poética, mestre em artes pela UFJF);</p>



<p>12 – <strong>arte contemporânea preta</strong> ǀ c/ Carolina Gracindo (artista, mestranda em estética no MAC/USP) e Karina Pereira (artista e educadora, licenciada em artes pela UFJF);</p>



<p>13 – <strong>performance e corporeidades</strong> ǀ c/ leo (artista, mestra pela Universidade de Artes de Berlim) e Matheusa Moreira (artista, graduanda na licenciatura em artes visuais da UFES).</p>



<p>a programação de conversas continua ainda neste ano e pode ser acompanhada através de nossas páginas no Instagram ( <a href="https://www.instagram.com/mesmo_sol_outro/">@mesmo_sol_outro</a> ) e no Facebook (<a href="https://www.facebook.com/mesmosoloutro">mesmosoloutro</a>). além disso, Mesmo Sol Outro integra outros eventos no Brasil e no exterior ainda em 2021: com a primeira exibição de uma versão em vídeo no 30º encontro online da Associação Nacional de Pesquisa em Artes Plásticas (ANPAP), e como mote para uma mesa redonda na conferência do SECAC sediada na School of Art and Visual Studies da University of Kentucky, em Lexington, EUA.</p>



<p>mais informações sobre Mesmo Sol Outro, acesse: <a href="https://linktr.ee/mesmosoloutro">https://linktr.ee/mesmosoloutro</a></p>



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<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:22% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/c1d2a-talisson-melo.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-13771 size-full" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p><strong>Tálisson Melo</strong> é Artista-pesquisador. Doutorando em Sociologia e Antropologia na UFRJ. Publicou o livro &#8220;Mesmo Sol Outro&#8221; com Carolina Cerqueira (2018). Atualmente trabalha em projetos curatoriais-editoriais e de pesquisa em Montevidéu, Juiz de Fora e Nova York – emaranhando artes visuais, poesia, design, arquitetura, cinema, história e ciências sociais. @talisson.melo @mesmosoloutro</p>
</div></div>



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		<title>Almar</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 01 Aug 2021 21:27:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 102]]></category>
		<category><![CDATA[Almar]]></category>
		<category><![CDATA[Talisson Melo]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Tálisson Melo</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
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<p>Lá em março do ano passado, dei por mim que a pandemia se alastraria longamente entre nós</p>



<p>&nbsp;– hoje, que tomei a primeira dose de uma vacina contra ela, não consigo ainda ver se materializando o ponto de virada marcando um quadrado do calendário deste ano pendurado ali atrás da porta da cozinha –</p>



<p>pensei logo na distância entre mim e o mar. especulei estradas possíveis pra correr e vagar na sorte de encontrar, daqui das montanhas serradas, algumas vistas de vales e alguns banhos de cachoeiras.&nbsp;</p>



<p>mas o mar&#8230; o mar tem essa coisa da imensidão salgada, de lágrimas de choros e risos de tantos mil’anos, ressoando profundas colisões das interações cósmicas que nos fazem grão de areia. vale ver como essas ondas vibram pulsam propagam vidas na viagem submarina de Corina escrita lindamente por Aline Valek em seu <a href="https://www.rocco.com.br/livro/as-aguas-vivas-nao-sabem-de-si/"><em>As águas-vivas não sabem de si</em></a>. leitura que me levou pro fundinho da ignorância que vivo de mim.&nbsp;</p>



<p>mas o mar foi fazendo falta. a falta, morada. abissal.&nbsp;</p>



<p>até que finalmente, na semana passada, coloquei este corpinho a caminho do mar. uma busca por uns poucos dias privilegiados sem fazer nada. aprendendo a fazer nada. e tentando aprender isso com certa pressa gostosa como as que eu tinha na infância ao ver aquela linha azul-água tocar a linha azul-céu. a vontade de me molhar, imergir, gelar os pés, não dar mais pé, boiar.</p>



<p>trago então um escrito que fui concatenando da memória literária. e que me lançaram imagens boas pra lidar com esse aprendizado indolente de deixar minha alma vazar no mar, ser mar, maior.&nbsp;</p>



<p>curioso como esse imaginário se conecta com poetas que escreviam de Portugal, e são até uns versos que se veem por aí em paredes destacados do resto do corpo de palavras que fazem poemas.</p>



<p>mas faz tempo que um poema inteiro, por só dois versos, está marcado na minha relação com o mar. é da bruxa marinha Sophia de Mello Breyner Andresen, em seu <em>Livro Sexto</em>, de 1962. o título na página é <em>Inscrição</em>, ao que seguem:</p>



<pre class="wp-block-verse">Quando eu morrer voltarei para buscar
Os instantes que não vivi junto do mar.</pre>



<p>apenas. e pra mim foi suficiente pra reverberar muito, até hoje. mas não é sobre o mar, diretamente, o outro poema dela que quero evocar aqui nessa lição de manutenção da alma grande, náufraga, profunda, abundante – diretamente como o mar. é um poema de tempos salazaristas, que conecto com estes tempos de bolsonarismo e pirotecnias da memória do lado de cá do mar atlântico. numa outra página de seu <em>Livro Sexto</em>, Sophia corta o papel assim:</p>



<pre class="wp-block-verse"><strong>O VELHO ABUTRE</strong>

O velho abutre é sábio e alisa as suas penas
A podridão lhe agrada e seus discursos
Têm o dom de tornar as almas mais pequenas</pre>



<p>como não pensar em mar, almas pequenas e poesia portuguesa sem escorregar direto no saudoso <em>Mar Português</em> de Fernando Pessoa, que fala de um nós que não pertenço e até me incomoda, mas finca um sentido de lembrete que busco ler sempre pausadamente buscando dessaturações:</p>



<pre class="wp-block-verse">
Valeu a pena? 
Tudo vale a penaSe a alma não é pequena.</pre>



<p>sorte nossa também contar com a voz profunda do lado de cá desse mar, a de Conceição Evaristo, sua escrevivência. nela encontro indicações para um caminho marítmo que também é montanha, de fazer agrandar a alma, avivá-la diante das ameaças que a querem apequenar. abrindo sua coletânea <em>Poemas de recordação e outros movimentos</em>:</p>



<pre class="wp-block-verse"><strong>Recordar é preciso</strong>
 
O mar vagueia onduloso sob os meus pensamentos
A memória bravia lança o leme:
Recordar é preciso.

O movimento vaivém nas águas-lembranças
dos meus marejados olhos transborda-me a vida,
salgando-me o rosto e o gosto. 
Sou eternamente náufraga,
mas os fundos oceanos não me amedrontam
e nem me imobilizam. 

Uma paixão profunda é a bóia que me emerge. 
Sei que o mistério subsiste além das águas.</pre>



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<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:22% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/c1d2a-talisson-melo.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-13771 size-full" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p><strong>Tálisson Melo</strong> é artista visual e pesquisador da cultura. Doutor em sociologia e antropologia pelo IFCS/UFRJ, mestre e bacharel interdisciplinar pelo IAD/UFJF. Atualmente trabalha com curadoria-pesquisa-edição para um livro sobre poesia visual e poema/processo em trânsitos sul-americanos (financiado pelo Fondo Nacional de Cultura do Uruguai). Publicou com Carolina Cerqueira o livro Mesmo Sol Outro (selecionado pelo Rumos Itaú Cultural, 2018), e com Taonga Leslie a coletânia de poemas A New Road (Nova York, 2021). <a rel="noreferrer noopener" href="https://linktr.ee/talissonmelodesouza" target="_blank">https://linktr.ee/talissonmelodesouza</a></p>
</div></div>



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		<title>MICRO CRATERAS, SEU MEDINHO</title>
		<link>https://revistatrama.artebodoque.com/2021/06/27/micro-crateras-seu-medinho/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 27 Jun 2021 21:29:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 097]]></category>
		<category><![CDATA[saudade em fotografia]]></category>
		<category><![CDATA[Talisson Melo]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Tálisson Melo</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Minha missão junto à TRAMA é, de alguma forma, um pacto comigo mesmo, de que vou encontrar tempo, espaço e meios de concentração para traduzir em palavras algo que me fisgue ao longo do mês, geralmente em associação com outras produções artísticas. Dessa vez, me perdi mais do que de costume; foram tantas coisas que não pude parar, muitas fisgadas, e a mente centrífuga. Então trago algo de uma fisgada bem grande, que acaba absorvendo muitas outras, como um buraco negro.</p>



<div style="height:20px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/87ff7-n12-media.jpg?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-16674" data-recalc-dims="1" /><figcaption>N.12 da série “micro crateras, seu medinho” – Tálisson Melo, 2021</figcaption></figure>



<div style="height:20px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<p>Acontece que escrevo vivendo dentro dum cenário real que exala desespero, desamparo, e desvela toda uma máquina de moer carne que já conhecíamos, pois nenhum corte foi de fato tão silencioso que não fosse gerando, mesmo que numa ressonância acumulativa, uma série de traumas – chamamos Brasil. Agora tudo tomou proporções gigantescas que marcam frações de segundo do cotidiano, no mais íntimo e mínimo de tudo – imagens e dinâmicas de escalas globais e microscópicas colidindo com as desigualdades entre continentes, países, regiões, cidades, bairros&#8230; as maneiras como seres humanos vão se juntando, separando, agrupando&#8230; para viver e morrer.&nbsp;</p>



<p>A pandemia embrulha o planeta com a dispersão de um vírus através das conexões sociais de seres humanos no espaço e acaba por fornecer uma série de armas simbólicas para a visão dessa espécie atingida de seres vivos, a humana, criando um outro, um inimigo, que talvez nem seja vivo, mas “intruso” entre nós e “astuto” para “se aproveitar” dessa necessidade vital que temos de respirar, expirar e inspirar. Para existir, temos de borrar todas as fronteiras entre dentro e fora do corpo de cada um, tão constante que se torna algo involuntário, impensado, e acreditamos nesse universo separado do resto que é embrulhado pela pele e forma um corpo que é alguém.</p>



<p>Agora. Cobrindo narinas e a boca. A ideia é não expor as vias aéreas ao que vem de fora. Tapar esse buraco, filtrar o ar, evitar a contaminação por esse ser “infiltrado” entre nós. Isso já é muito pra cabeça. Soma aí um recorte territorial, um Estado, um governo, uma série de ações que estão para além do eu. Do que habita esse corpo a se fechar, num isolamento.</p>



<div style="height:20px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/fdba2-n2-media.jpg?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-16673" data-recalc-dims="1" /><figcaption>N.2 da série “micro crateras, seu medinho” – Tálisson Melo, 2021</figcaption></figure>



<div style="height:20px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<p>Se mesmo antes da pandemia eu já vinha dirigindo muita atenção para as frestas, brechas, fissuras, rachaduras, rugas, fendas, buracos, sulcos, poros, micro-crateras que fazem da pele esse órgão de contato e atrito, que nos isola, impermeabiliza e ao mesmo tempo permite tantas trocas entre dentro e fora, protege e impele, tensão e tesão, exalando odores, com texturas e cores, tantos elementos a carregar dimensões simbólicas, camadas de sentido, índices contraditórios de origens transcendentais e valores arbitrários&#8230;</p>



<p>Com a pandemia, ficou difícil – e acho que não só pra mim, muito pelo contrário – deparar com a latência das aberturas, dos vazios gigantescos que contemos em nós. A sensação de conviver com esses seres tão mínimos que circulam no ar entre corpos e escapam das ondas de luz com seus nano-corpinhos, parece colocar em xeque nossas membranas fronteiriças. Cada 0,1 milímetro de abertura – cerca do tamanho de uma única célula humana – já é suficiente para a passar, de uma só vez, um turbilhão desses vírus de ínfima estatura, seus 0,00015 milímetros munidos de um poder destrutivo para nós que respiramos.</p>



<div style="height:20px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/ad78a-n5-media.jpg?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-16671" data-recalc-dims="1" /><figcaption>N.5 da série “micro crateras, seu medinho” – Tálisson Melo, 2021</figcaption></figure>



<div style="height:20px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<p>O que fazer com esses enormes buracos tão diminutos? Com tanto vazio!&#8230; Há algo de medo. Não um medo banal, das coisas que são notícias, mas um medo que parece brotar no fígado e apertar os músculos quando menos posso esperar. E venho num exercício contínuo de revisar, encarar o vazio, fazer dele morada, condição criativa. Dessa dúvida aguda veio meu encontro psicanalítico com Seu Medinho.</p>



<p>O Senhor Arquimedes Tomas de Braga Velho é (porque sempre será) um oleiro do Vale do Jequitinhonha, tido como um mestre por seu trabalho com o barro. Algumas de suas falas foram registradas e renarradas pelo jornalista gaúcho Mauro Santanaya a partir de sua vivência no nordeste de Minas em vivo contato com Seu Medinho e seu saber-fazer. Fui tomar conhecimento da existência sábia de Seu Medinho por um texto de Mauro publicado na Ilustrada da Folha de S. Paulo, em 30 de Setembro de 1982, intitulado “A razão do oleiro”. Da fala de Seu Medinho me vieram imagens, busquei trabalha-las num processo poético e de autoanálise que também grita pra ser posto pra fora de mim. Usei imagens capturadas da internet, ilustrações de pretensão científica do espaço além do planeta Terra, de seu satélite, a lua, e do que a física chama de buraco negro – também o vazio-cheio que justifica tantas buscas. Misturei numa sequência de fotografias que tirei dum conjunto de impressões feitas com Carolina Cerqueira (durante residência artística na Casa de Cultura/UFJF, em 2012), quando decidimos escanear nossas próprias mãos fazendo diferentes gestos. Em 2021, juntei tudo isso num videopoema: “seu medinho”.</p>



<div style="height:20px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe loading="lazy" title="seu medinho                    /// videopoema de Tálisson Melo, 2021" width="950" height="534" src="https://www.youtube.com/embed/FfipRnLtL7U?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<div style="height:20px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<p>Segue o trecho de “A razão do oleiro”, escrito por Santayana, que tratei de ler em voz alta e gravando para o vídeo:</p>



<pre class="wp-block-verse">Observei-lhe&nbsp;que,&nbsp;
sem gente, para que as coisas?

Medinho disse que Deus podia ter feito coisas para admirá-las,&nbsp;
em lugar de modelar o homem,

que deu no que deu.

- Você sabe que, na verdade, o que o oleiro faz é cobrir o vento, o nada,&nbsp;
porque uma peça de barro é isso: uma separação no vazio.

Eu&nbsp;
quando estou trabalhando,&nbsp;
não penso no vaso, na vasilha:&nbsp;
penso no espaço que eu estou tapando.

Não foi o que Deus fez?
O que ele fez foi isso,&nbsp;
mudar a forma do vazio.&nbsp;
Ou não foi mesmo?

Aí eu não penso no barro, mas&nbsp;
como vai ficar o canto do lugar que eu vou cobrir.</pre>



<p>(a quebra das frases em versos é minha culpa)</p>



<div style="height:50px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



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<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:22% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/c1d2a-talisson-melo.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-13771 size-full" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p><strong>Tálisson Melo</strong> é Artista-pesquisador. Doutorando em Sociologia e Antropologia na UFRJ. Publicou o livro &#8220;Mesmo Sol Outro&#8221; com Carolina Cerqueira (2018). Atualmente trabalha em projetos curatoriais-editoriais e de pesquisa em Montevidéu, Juiz de Fora e Nova York – emaranhando artes visuais, poesia, design, arquitetura, cinema, história e ciências sociais. @talisson.melo @mesmosoloutro</p>
</div></div>



<div style="height:50px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



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		<title>CONVERTER SAUDADES</title>
		<link>https://revistatrama.artebodoque.com/2021/05/16/converter-saudades/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 16 May 2021 21:29:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 091]]></category>
		<category><![CDATA[saudade em fotografia]]></category>
		<category><![CDATA[Talisson Melo]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Tálisson Melo</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>A saudade é um mundaréu de sensações e sentimentos.</p>



<p>E a palavra saudade é tão polissêmica, ao mesmo tempo vaga e precisa, abarca essa ampla toada que se desdobra em tantas metáforas – ensejo pra muitas letras em português, em poemas de nomes grandes como Clarice, Vinicius, Drummond, Quintana, Conceição Evaristo, Pessoa, Leminski, Paulina Chiziane, Sophia de Mello Breyner Andersen até Camões&#8230; e em canções, tantas que se confundem, como Candeia completado por Zeca Baleiro e Vital Farias e McTha e Jobim e Conká e Marília Mendonça – <a href="https://open.spotify.com/playlist/5EreBCIaLczgDAr8i5akTo?si=2c0007100e994d14">uma longa playlist</a> (bora ouvir num faxinão!).</p>



<p>É!&#8230; saudade evoca e mobiliza muitas vibrações de corpalma – dói, alegra, preenche, rasga, embriaga, é urgente&#8230;</p>



<p>também tantas escalas de distâncias – nos liga e separa do mundo de além morte, do útero, do tempo irremediavelmente passado, de poucos metros e milhares de quilômetros que espalham famílias, amores, amizades&#8230; de profundidades – a saudade que pode emergir tão do nada e igualmente sumir num estalido de qualquer coisa que puxa a atenção pra outra zona, ou ela pode fazer morada por uns dias em corpalma até ir se esvaindo como fio de fumaça do incenso, como nuvem pesada de fuligens de um incêndio em catedral e museu e aldeia e floresta, ou ela pode passar a envolver tudo e a gente que passa a habitar nela, vira casa, a paisagem dos dias&#8230;</p>



<div style="height:20px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<figure class="wp-block-image alignwide size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/f1f79-img1.jpg?w=950&#038;ssl=1" alt="Uma nuvem " class="wp-image-15840" data-recalc-dims="1" /></figure>



<div style="height:20px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<p>e materialidades-sensorialidades – de coisas, bichos, pessoas, lugares, momentos, condições; por cheiros, temperatura, texturas, sabores, formas, cores, agitações, presença, irradiações, projeções, representações, ilusões&#8230;</p>



<p>Longe de mim querer aqui definir a(s) saudade(s). Até porque prefiro manter as minhas um tanto resguardadas de bombardeios da intelectualização – <a href="https://www.youtube.com/watch?v=vCEYrxtlq4s&amp;ab_channel=AtmosferaBrasil"><em>a saudade engole a gente, menina</em></a> (o Chico de novo, oh). Das materializações da saudade, uma frequentíssima é a fotografia. Essa outra coisa que se desdobra em tantas tentativas de definições, mas sempre escorregadia, múltipla, entre presença e ausência indiciais para algo além da superfície matéria que a constitui em imagem. Viajei! Susan Sontag soprou no meu ouvido. Mas é que a imagem acaba passando mesmo por elocubrações mais sistemáticas, ainda mais quando noto nelas umas mil camadas de intenções, interesses, desejos de apreensão, filtrações&#8230;</p>



<div style="height:20px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<figure class="wp-block-image alignwide size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/d5ffe-img2.jpg?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-15844" data-recalc-dims="1" /></figure>



<div style="height:20px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<p>Com os distanciamentos impostos pela pandemia que já se arrasta por mais de um ano inteiro, a variedade de intensidades-escalas-profundidades-materialidades-sensorialidades das saudades parece se potencializar sobremaneira, em expansões e contrações que vem deixado a saudade louca. E no bojo de tanta distância &gt; saudade &gt; fotografia&#8230; fotos-relicário, fotos-recordação&#8230; não precisaram da pandemia nem das estratégias virtuais de sobrevivência artística para se tornarem conceitos.</p>



<div style="height:20px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<figure class="wp-block-image alignwide size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/30e09-img3.jpg?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-15847" data-recalc-dims="1" /></figure>



<div style="height:20px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<p>Na torrente de tanta arte entre sites, lives, meets, rooms&#8230;, me deparei com um conjunto que mexeu com uma saudade minha dum jeito bom que nem sei ainda explicar &#8211; só digo que foi criativo, e por isso é que escrevo disso aqui. O conjunto de cerca de 30 fotografias reunidas na exposição virtual <a href="https://www.asobrasprimas.com/exposi%C3%A7%C3%A3o">Obras primas: onde as saudades se encontram</a>, das artistas <a href="https://www.instagram.com/_barbaravie/">Bárbara Vieira</a> e <a href="https://www.laralima.com.br/">Lara Lima</a>. Pela simplicidade disso que é um afeto íntimo e tece fios ligando corpalmas&#8230;</p>



<div style="height:20px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<figure class="wp-block-image alignwide size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/e7bce-img4.jpg?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-15848" data-recalc-dims="1" /><figcaption>Obras Primas &#8211; 2021 &#8211; Lara Lima e Barbara Vieira</figcaption></figure>



<div style="height:20px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<p>Viu?! Duas primas morando longe uma da outra resolveram “conversar na saudade” através de imagens. E compartilham isso com o mundo, aguçam outras saudades&#8230;</p>



<p>A saudade inundando paisagens d’água, de folhas, do chão, da luz, do escuro, do céu, da parede, da pele, tudo mais que é banal e embala a vida. morada&gt;saudade&gt;encontro. mandei o link da expo pra minha irmã, <a href="https://www.instagram.com/thaismeloo/">Thaís Melo</a>, de quem mais sinto saudade atualmente, porque já fazem três anos que rumamos para cidades-países diferentes e usamos fusos-horários como álibis pra radicalizar o desencontro, com isso a saudade transborda silenciosa. No meio de 2018, fui do Rio para Montevidéu e emendei pra Nova York, ela foi de Juiz de Fora para Lisboa e por lá ficou, eu pra cá voltei. Na atual conjuntura, não tem sido possível nem manter videochamadas frequentes, menos ainda um encontro transatlântico para o <a href="https://vimeo.com/525627411">“fado tropical”</a>. Mas das minguadas interações nossas por whatsapp, ela também foi capturada pelos fios de saudade de Bárbara e Lara, e de algum jeito ficou claro pra mim que tricotamos algo quentinho e aconchegante embaralhando os fios delas com os nossos. Então, maninha me respondeu com essas palavras:</p>



<div style="height:20px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<div class="wp-block-image"><figure class="aligncenter size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/3c022-print-thais.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-15849" data-recalc-dims="1" /></figure></div>



<div style="height:20px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<p>Acho que foi o antropólogo Daniel Miller quem teorizou forte sobre a relação de interdependência ontológica entre pessoas e coisas, chamando atenção para a noção de que <strong>precisamos de coisas para sermos pessoas, assim como as coisas precisam de nós, pessoas, para serem coisas</strong>. Nesse jogo, as imagens, relicários e sensações (coisas?) nos modelam pessoas saudosas, viram pedaços de outras pessoas, um certa-presença, materialidade das relações.</p>



<div style="height:20px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/a1319-img6.jpg?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-15850" data-recalc-dims="1" /></figure>



<div style="height:20px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<p>Pra terminar o texto de um jeito menos cabeçudo e mais perdido em emoção poética, tentando de algum jeito responder minha irmã, que deixei no vácuo, trago um pedacinho já até batido de <em>Nenhum, nenhuma</em> do Guimarães Rosa em seu <em>Primeiras Estórias</em>, que dividi em versos:</p>



<p class="has-text-align-right"><em>“Então o fato se dissolve.<br>As lembranças são outras distâncias.<br>Eram coisas que paravam já à beira de um grande sono. <br>A gente cresce sempre, sem saber para onde.”</em></p>



<div style="height:20px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/af0b2-img5.jpg?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-15851" data-recalc-dims="1" /></figure>



<div style="height:50px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<hr class="wp-block-separator" />



<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:22% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/c1d2a-talisson-melo.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-13771 size-full" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p><strong>Tálisson Melo</strong> é Artista-pesquisador. Doutorando em Sociologia e Antropologia na UFRJ. Publicou o livro &#8220;Mesmo Sol Outro&#8221; com Carolina Cerqueira (2018). Atualmente trabalha em projetos curatoriais-editoriais e de pesquisa em Montevidéu, Juiz de Fora e Nova York – emaranhando artes visuais, poesia, design, arquitetura, cinema, história e ciências sociais. @talisson.melo @mesmosoloutro</p>
</div></div>



<div style="height:50px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-flow wp-block-group-is-layout-flow">
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<p></p>
</div></div>



<p></p>
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		<title>DA SUPREMACIA DAS COISAS VIVAS</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 18 Apr 2021 21:28:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 087]]></category>
		<category><![CDATA[A New Road]]></category>
		<category><![CDATA[Livro de Poemas]]></category>
		<category><![CDATA[Poesia Queer]]></category>
		<category><![CDATA[Talisson Melo]]></category>
		<category><![CDATA[Taonga Leslie]]></category>
		<category><![CDATA[Tradução]]></category>
		<category><![CDATA[Tradução de Poesia]]></category>
		<category><![CDATA[Tradução-Afetação]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Tálisson Melo</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<pre class="wp-block-verse"> Honestamente, fiquei constrangido quando a professora disse que você
       não estava vivo/a
 Tão brutalmente inadequado&nbsp;
 Quão desesperançosamente inerte você parecia
 Justaposto contra a célula com todas iniciativas vigorosas dela
 &nbsp;
 e você sem nada além de um casaquinho de lipídios no seu nome
 e você mantendo vigília no vazio
 e você escondendo um estilete como um covarde
 e você pensando ideias transparentes
 &nbsp;
 e não é só seu jeito de se meter onde você não é bem-vindo?
 &nbsp;
         “você não vai chegar tão longe assim na vida”
         minha mãe falava.
 &nbsp;
 Honestamente, fiquei irado com a professora quando ela disse isso
 Tão fácil ela partiu o mundo em reinos, ordem, filos
 Quão fácil ela escrevia você para fora do círculo
 No monte de poeira
 Com os príons 
 E outros pedaços mal resolvidos de vida
 &nbsp;
 e eu só com um amigo em meu nome
 e eu mantendo vigília no pátio da escola
 e eu escondendo minha paixão como um covarde
 e eu pensando ideias transparentes
 &nbsp;
 e não era só meu jeito de ficar na beira do círculo
 e rir com quem ria mesmo que me ferisse?
 &nbsp;
         “você não vai chegar tão longe assim na vida”
         minha mãe falava.
 &nbsp;
 Honestamente, aos quinze, o que eu sabia da fronteira onde vida
       verte numa outra coisa?
 Mas eu pude ver os pensamentos do fundo de seu coração
        codificados numa cadeia de ácidos:
        os segredos que você quis contar às minhas células
 &nbsp;
 Não achava que algo tão determinado poderia estar morto
 —A professora esclareceu que você estava no limiar da vida.
 &nbsp;
                                                 *&nbsp;&nbsp;  *&nbsp;&nbsp;&nbsp; *&nbsp;&nbsp;&nbsp; 
 &nbsp;
 E agora, não tem uma única parte de mim 
        que não sabe seu nome
 Para algo quase morto, você tem feito isso bem demais
 &nbsp;
 Mas é o que você queria?
 Você e seus clones irrompendo
 &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;rasgando pelas paredes de seus containers?
 Ou você estava
 Como eu
 Só tentando se expressar?

 
 [Por <strong>Taonga Leslie</strong>]
 &nbsp;
 [Tradução-afetação de Tálisson Melo / Título do original: <strong><em>On the Supremacy of Living Things</em></strong>. Do livro <strong><em>A New Road</em></strong>. Cê pode ler o original em Inglês logo abaixo] </pre>



<div style="height:50px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<figure class="wp-block-image alignwide size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/9b36b-talisson_illustration_boatpoem_anewroad-capa-talisson.jpg?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-15231" data-recalc-dims="1" /></figure>



<div style="height:20px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<p>Desta vez, tomo meu cantinho mensal nessa Trama para divulgar um filhote: <a href="https://www.blurb.com/bookstore/invited/9145378/67c8cf20cf391ddefeb82acb8c07f686e1bc3eba"><em>A New Road</em></a>, um livro recém lançado em Nova York (16/04/21), com poemas de Taonga Leslie e ilustrações minhas (também diagramei e criei a capa que o embala). Como o objeto-livro se encontra a venda somente nos EUA e em dólares – <em>oh my f#ck%ng go$h!</em> –, dificultando muito sua chegada por nossas bandas, dediquei um tempo a traduzir um dos meus poemas favoritos e compartilho aqui algumas das páginas ilustradas. Também trago um vídeo que fizemos com a voz do Taonga lendo outro poema muito forte dessa série, intitulado <a href="https://www.instagram.com/p/CNhz4gcnZUR/"><em>boat poem</em></a>.</p>



<div style="height:20px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<div class="wp-block-jetpack-tiled-gallery aligncenter is-style-rectangular"><div class="tiled-gallery__gallery"><div class="tiled-gallery__row"><div class="tiled-gallery__col" style="flex-basis:66.73626%"><figure class="tiled-gallery__item"><img decoding="async" srcset="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/04/3b457-anrcapafoto.jpg?w=950?strip=info&#038;w=425 425w" alt="" data-height="425" data-id="15232" data-link="https://atomic-temporary-162935141.wpcomstaging.com/?attachment_id=15232" data-url="https://tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/97a19-anrcapafoto.jpg" data-width="425" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/04/3b457-anrcapafoto.jpg?w=950" data-amp-layout="responsive" data-recalc-dims="1" /></figure></div><div class="tiled-gallery__col" style="flex-basis:33.26374%"><figure class="tiled-gallery__item"><img decoding="async" srcset="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/04/3de0b-anrfoto.jpg?w=950?strip=info&#038;w=425 425w" alt="" data-height="425" data-id="15233" data-link="https://atomic-temporary-162935141.wpcomstaging.com/?attachment_id=15233" data-url="https://tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/55fce-anrfoto.jpg" data-width="425" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/04/3de0b-anrfoto.jpg?w=950" data-amp-layout="responsive" data-recalc-dims="1" /></figure><figure class="tiled-gallery__item"><img decoding="async" srcset="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/04/523a7-anrpoemfoto.jpg?w=950?strip=info&#038;w=425 425w" alt="" data-height="425" data-id="15234" data-link="https://atomic-temporary-162935141.wpcomstaging.com/?attachment_id=15234" data-url="https://tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/d3b12-anrpoemfoto.jpg" data-width="425" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/04/523a7-anrpoemfoto.jpg?w=950" data-amp-layout="responsive" data-recalc-dims="1" /></figure></div></div></div></div>



<div style="height:20px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<p>Desde setembro de 2020 (sim, em plena pandemia!), venho trabalhando nessa parceria criativa-afetiva com Taonga Leslie (<a href="https://www.instagram.com/ongasinsta/">@ongasnista</a>) para trazer ao mundo o livro <em>A New Road</em> (<a href="https://www.instagram.com/newroadpoems/">@newroadpoems</a>). Ele é estadunidense, da Flórida, e mora no Brooklyn; atua como advogado, mas o que aguça mesmo seus sentidos é a poesia e a música. A gente se conheceu quando morávamos em New Haven, meados de 2018, e desde lá trocamos muitas ideias em forma de desenhos, comida, dancinhas, áudios longuíssimos de WhatsApp e algumas viagens mais para o norte e mais para o sul – dos ventos cortantes de Boston, chegamos a desbravar juntos alguns caminhos entre as ondas de asfalto de Bogotá e aquelas de água e sal que quebram entre <em>las Islas del Rosario </em>do Caribe.</p>



<p>Sem nenhuma solenidade, tudo foi se tornando criação com palavras e imagens. Com Taonga se mudando para Nova York a dar início a sua atuação na advocacia, e eu voltando ao Rio de Janeiro para terminar o doutorado, esses processos criativo-afetivos se expandiram – <a href="https://www.youtube.com/watch?v=a2u1D4i-C48&amp;ab_channel=RafaelSoaresdeAraujo">como mercúrio fora do termômetro</a> –, foram se dividindo e voltando a se juntar a cada passo, como tudo o mais que tem a ver com o amor. Para reforçar a liga, decidimos juntar os últimos poemas dele numa série para <em>chapbook</em>; enquanto isso, eu ia lendo cada um e arriscando traduções gestuais-visuais com tinta no papel, cores e texturas. Isso acabou virando um livro nosso, com poemas dele e ilustrações minhas.</p>



<p>O poema do Taonga que apresento aqui em português, <em>On the Supremacy of Living Things</em>, foi vencedor do prêmio Brooklyn Poets em abril de 2020, e foi o que deu início à nossa empolgação por encaminhar o livro. A versão em português é uma tradução afetada minha a partir das palavras dele, que admito soarem mais cortantes no inglês dele de vogais e consoantes dentadas do que no meu português um tanto melancólico de nasais e remendos vocálicos:</p>



<div style="height:20px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<pre class="wp-block-verse"><strong>On the Supremacy of Living Things</strong>
 &nbsp;
 Honestly, I was embarrassed for you when Teacher said you 
        weren’t alive
 How brutally inadequate&nbsp;
 How hopelessly inert you seemed&nbsp;
 Juxtaposed against the cell with all her lusty enterprises&nbsp;
 &nbsp;
 and you with nothing but a thin coat of lipids to your name
 and you keeping vigil in the void
 and you hiding your dagger like a coward 
 and you thinking transparent thoughts
 &nbsp;
 and isn’t it just like you to insert yourself where you’re unwelcome?
 &nbsp;
        “you won’t get very far like that in life”
        my mother said.
 &nbsp;
 Honestly, I was angry at Teacher when she said it
 How easily she sliced the world up into kingdoms, orders, phyla
 How easily she wrote you outside the circle
 In the dust pile 
 With the prions 
 And other misfolded bits of life
 &nbsp;
 and me with only one friend to my name
 and me standing vigil in the schoolyard
 and me hiding my passion like a coward
 and me thinking transparent thoughts
 &nbsp;
 &nbsp;
 and wasn’t it just like me to stand at the circle’s edge 
 and laugh with the laughers even though I was in pain?
 &nbsp;
        “you won’t get very far in life like that” 
        my mother said.
 &nbsp;
 Honestly, at fifteen, what did I know of the frontier where life
         verges into something else?
 But I could see your heartmost thoughts&nbsp;
         encoded in a chain of acids:
         the secrets you wanted to tell my cells
 &nbsp;
 I didn’t think that something so determined could be dead
 —Teacher clarified that you were on the brink of living.
 &nbsp;
                                               *&nbsp;  *&nbsp;&nbsp;&nbsp; *&nbsp;&nbsp;&nbsp; 
 &nbsp;
 And now, there’s not a single part of me 
       that doesn’t know your name
 For something almost dead, you’ve done quite well
 &nbsp;
 But is this what you wanted?
 You and your clones bursting forth and
        tearing through the walls of your containers?
 Or were you
 Like me
 Just trying to express yourself?

[by Taonga Leslie]</pre>



<div style="height:50px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<hr class="wp-block-separator" />



<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:22% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/c1d2a-talisson-melo.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-13771 size-full" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p><strong>Tálisson Melo</strong> é Artista-pesquisador. Doutorando em Sociologia e Antropologia na UFRJ. Publicou o livro &#8220;Mesmo Sol Outro&#8221; com Carolina Cerqueira (2018). Atualmente trabalha em projetos curatoriais-editoriais e de pesquisa em Montevidéu, Juiz de Fora e Nova York – emaranhando artes visuais, poesia, design, arquitetura, cinema, história e ciências sociais. @talisson.melo @mesmosoloutro</p>
</div></div>



<div style="height:50px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-flow wp-block-group-is-layout-flow">
<hr class="wp-block-separator aligncenter is-style-wide" />



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		<title>CAIR UM TUDO</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 28 Mar 2021 21:23:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 084]]></category>
		<category><![CDATA[Abacateiro]]></category>
		<category><![CDATA[Cair um Tudo]]></category>
		<category><![CDATA[poema]]></category>
		<category><![CDATA[Talisson Melo]]></category>
		<category><![CDATA[Victor Adams Mantelli]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Tálisson Melo</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<pre class="wp-block-verse"> <strong>CAIR
 UM
 TUDO</strong>

 ela entornou tudo
 de mágica
 de mágica
 no entorno dela
 &nbsp;
 era uma coisa tudo
 tudo aquilo era ela
 &nbsp;
 a raiz de tudo era fruto
 cada abacate
 cada um
 caía
 constante ameaça sobretudo
 sobre tudo o que havia
 &nbsp;
 ela controlava tudo
 com sua magia
 de atos
 sem palavras
 nem gingas
 &nbsp;
 ela sentar naquele banco
 sob o abacateiro cheio de frutos
 era inverter o tempo dos galhos
 as folhas subiam por ventos
 retendo flutuantes
 os frutos
 &nbsp;
 então eu podia deitar
 sob aquele abacateiro
 cuidadoso de ter minha cabeça
 sobre aquele colo
 protegido de um tudo
 &nbsp;
 olhos nas nuvens sobretudo
 através dos galhos
 reparava cada fruto
 cada um na sua parte
 das raízes fincadas no céu
 &nbsp;
 do sol até as pontas dos dedos dela
 que vinham e iam entre
 os fios dos cabelos
 agora mágicos na minha cabeça
 &nbsp;
 pude então deixar os músculos
 se soltarem um a um
 fechar os olhos
 abrir os poros
 no balanço parado
 sustenido no tempo
 verde terra azul ouro
 &nbsp;
 nessa roça mágica
 minha avó criou o mundo
 um terreiro
 um quintal
 um universo
 de mim e dela
 varia das versões de tudo
 &nbsp;
 hoje procuro&nbsp;
 &nbsp;
 esse lugar
 suspendido
 na iminência
 de que os abacates
 cairiam tudo</pre>



<div style="height:100px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<figure class="wp-block-image alignwide size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/22a7b-pauloabacate.jpg?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-14871" data-recalc-dims="1" /></figure>



<p>Oi, você que me lê. Trago mais um poema para essa série de contribuições mensais à Trama. A ideia é colocar, para rodar no mundo, algumas imagens muito íntimas minhas, que também (vai que&#8230;) podem ser íntimas suas, mesmo que com outras cores e ruídos diferentes. Às vezes, a coisa vem num poema ou num ensaio curto sobre algum trabalho artístico que me arrebate. Este poema, <em>CAIR UM TUDO</em>, já estava escrito faz tempo, num caderninho meu da infância; o que fiz foi trocar algumas palavras e rearranjas as quebras, além de enfiar mais uns versos aqui e ali, coisas que já são da vida de quem paga boletos e se pega muitas vezes preocupado com tudo, beirando um nada, e sente muita falta de fazer nada podendo ver tudo. A imagem que associei ao poema foi sugerida pelo amigo Paulo Stuart, figurando sua mãozinha. O recorte é da foto feita pelo Victor Adams Mantelli, fotógrafo, videomaker e cientista social [confiram o trampo dele: @<a href="http://instagram.com/olhovixx">olhovixx</a> ]. Assim, vou seguir com essa ‘curadoria’ curandeira de afetações.</p>



<figure class="wp-block-image alignwide size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/a1c65-abacate.jpg?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-14872" data-recalc-dims="1" /></figure>



<div style="height:100px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<hr class="wp-block-separator" />



<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:22% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/c1d2a-talisson-melo.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-13771 size-full" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p><strong>Tálisson Melo</strong> é Artista-pesquisador. Doutorando em Sociologia e Antropologia na UFRJ. Publicou o livro &#8220;Mesmo Sol Outro&#8221; com Carolina Cerqueira (2018). Atualmente trabalha em projetos curatoriais-editoriais e de pesquisa em Montevidéu, Juiz de Fora e Nova York – emaranhando artes visuais, poesia, design, arquitetura, cinema, história e ciências sociais. @talisson.melo @mesmosoloutro</p>
</div></div>



<div style="height:100px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



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<p></p>
</div></div>



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		<title>24 DE MAIO</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 28 Feb 2021 21:24:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 080]]></category>
		<category><![CDATA[Juan Manuel Blanes]]></category>
		<category><![CDATA[La Paraguaya]]></category>
		<category><![CDATA[LGBT]]></category>
		<category><![CDATA[poema]]></category>
		<category><![CDATA[Talisson Melo]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Tálisson Melo</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<pre class="wp-block-verse"> estavam três horas e quatro minutos
 no relógio de um nokia cinza
 madrugada
 tela azul
 &nbsp;
 não tava na mesinha ou
 não tava como eu deixava
 seu rastro nítido ali
 sua desconfiança ativa
 &nbsp;
 vi isso depois de cruzar a sala
 os quadros que te dei
 e um penduricalho de fitas
 tudo jogado no chão ou
 disposto no meio exato da sala
 &nbsp;
 essa fogueira que cê preparou
 mas não acendeu,
 não queimou
 ardeu só de ser pensada
 &nbsp;
 e foi montada
 todo gesto de afeto que tentei fazer
 te envolvendo
 as paredes da sua casa
 &nbsp;
 cê fez um totem da iminência
 do fim, mas não acabamos
 &nbsp;
 as datas estavam atropeladas
 pelo seu tempo
 &nbsp;
 que estava espezinhado
 pela sua confusão
 &nbsp;
 assim atormentada
 pelos vinte e quatro ou&nbsp;
 nove anos seus ou
 um ano e oito meses da gente
 sem descontar outro tempo
 &nbsp;
 que estava espezinhado
 pela sua confusão
 também
 &nbsp;
 e quase sete meses da gente
 descontando uns três meses
 de uma paixão construída por sms
 duas refeições, meio pote de sorvete
 e um abraço
 de corpo inteiro
 de nucas e barrigas
 coxas e braguilhas
 até que cê gozou na calça
 sem nem ter tirado a minha
 e daí? foi muito bom
 um começo
 &nbsp;
 e você sempre voltou
 até que fui
 &nbsp;
 iam fazer dez anos, mas chovia tanto
 a crepioca estava insossa,
 só o tempero da dúvida ou
 de um jogo estranho na sua voz
 acho que na minha, e nos olhos
 &nbsp;
 foi ficando abafado, cê me quis sem roupa
 escrutinou todo meu corpo,&nbsp;
 que mudou tanto
 até que nos tocamos
 &nbsp;
 úmidos de chuva e suor,
 seu cheiro, de corpo, o sal
 do pescoço, algo fermentando
 perto das virílias,
 e metálico seco nos sovacos,
 e seus pelos me roçando toda superfície
 &nbsp;
 da pele
 da lembrança
 nada disso mudou
 &nbsp;
 fomos juntos pra ilha de uma memória
 isso durou todo um fim de tarde,
 noite e manhã
 &nbsp;
 depois fiquei eu com meus óculos empenados
 e tudo, de novo, pareceu
 tão tolo, fogo-fátuo
 &nbsp;
 como a guerra contra o Paraguai -
 por que fizemos aquilo? </pre>



<div style="height:50px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/41c4e-capatalisson.jpg?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-14277" data-recalc-dims="1" /></figure>



<div style="height:20px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<p>&#8217;24 de Maio&#8217; é o primeiro poema que trago a público. A imagem de capa que escolhi para ele é uma fotografia que fiz (com meu celular) em 2018 quando visitava o <em>Museo Nacional de Artes Visuales </em>do Uruguai, em Montevidéu. Enquadrei um canto do quadro “<em>La Paraguaya</em>” pintado à óleo sobre tela pelo artista uruguaio Juan Manuel Blanes, em 1879. A referência se faz óbvia diante do fato histórico que representa e da referência direta a ele no meu poema, mas é uma obviedade íntima; talvez se agregue o valor de trazer para o imaginário ‘brasileiro’ um outro ponto de vista sobre o mesmo fato trágico, e por trazer uma figuração de dor íntima, que diz da dor de todo um país, seu povo, sua memória. Segue uma boa reprodução da pintura na íntegra (disponibilizada por <em>Wikimedia Commons</em>).</p>



<div style="height:20px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<div class="wp-block-image"><figure class="aligncenter size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/255f9-juan_manuel_blanes_-_la_paraguaya.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-14278" data-recalc-dims="1" /></figure></div>



<div style="height:50px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<hr class="wp-block-separator" />



<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:22% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/c1d2a-talisson-melo.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-13771 size-full" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p><strong>Tálisson Melo</strong> é Artista-pesquisador. Doutorando em Sociologia e Antropologia na UFRJ. Publicou o livro &#8220;Mesmo Sol Outro&#8221; com Carolina Cerqueira (2018). Atualmente trabalha em projetos curatoriais-editoriais e de pesquisa em Montevidéu, Juiz de Fora e Nova York – emaranhando artes visuais, poesia, design, arquitetura, cinema, história e ciências sociais. @talisson.melo @mesmosoloutro</p>
</div></div>



<div style="height:50px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-flow wp-block-group-is-layout-flow">
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<p></p>
</div></div>



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		<title>CHUVA</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 28 Feb 2021 21:20:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 080]]></category>
		<category><![CDATA[Juan Manuel Blanes]]></category>
		<category><![CDATA[La Paraguaya]]></category>
		<category><![CDATA[LGBT]]></category>
		<category><![CDATA[poema]]></category>
		<category><![CDATA[Talisson Melo]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Murilo Alves</p>
<p>O post <a rel="nofollow" href="https://revistatrama.artebodoque.com/2021/02/28/chuva/">CHUVA</a> apareceu primeiro em <a rel="nofollow" href="https://revistatrama.artebodoque.com">Revista Trama</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<pre class="wp-block-verse">Você é como a chuva
chegando às vezes sem avisar. 
Chegando depois de horas de um sol escaldante,
depois de dias de calor.

Você é como a chuva
que molha
gota
por
gota
a planta seca.

Que escorre pelo telhado e cai na grama. 

Você é como a chuva
que vem de fininho,
leve
suave
imprevisível.

Como aquela que vem pra abafar mais o calor, 
ou como aquela que refresca ao fim de tarde. 

Ah, cheiro de terra molhada!

Você é como a chuva 
que quanto mais eu corro pra sair
mais me molha.

A chuva que molha o meu cabelo,
que escorre pelo meu rosto,
que toca a minha boca
sem a pretensão de ficar. 

Você é como a chuva temporária,
vem pra fazer estrago
e vai embora sem se despedir.</pre>



<div style="height:50px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<hr class="wp-block-separator" />



<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:22% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/9684f-murilo-alves.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-14296 size-full" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p><strong><strong><strong>Murilo Alves&nbsp;</strong></strong></strong>é estudante de gastronomia, ativista dos direitos trans, youtuber e criador de conteúdo. No instagram:&nbsp;<a href="https://www.instagram.com/otransmissao/">@otransmissao</a>; no youtube:&nbsp;<a href="http://www.youtube.com/HeyMu">Hey, Mu!</a></p>
</div></div>



<div style="height:50px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-flow wp-block-group-is-layout-flow">
<hr class="wp-block-separator aligncenter is-style-wide" />



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<p></p>
</div></div>



<p></p>
<p>O post <a rel="nofollow" href="https://revistatrama.artebodoque.com/2021/02/28/chuva/">CHUVA</a> apareceu primeiro em <a rel="nofollow" href="https://revistatrama.artebodoque.com">Revista Trama</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
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