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	<title>Arquivos vitu Marcs - Revista Trama</title>
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	<description>Arte, Cultura e Criatividade</description>
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		<title>O Brilho</title>
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		<pubDate>Sun, 17 Nov 2019 20:22:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 001, N 023]]></category>
		<category><![CDATA[conto]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: Vitu Marcs</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="has-drop-cap">Se a vida pudesse ser medida em páginas, ele poderia jurar que a sua não passaria de poucas linhas esquecidas pelo tempo. Da infância, lembrava muito pouco. A adolescência, queria esquecer. E velhice não era nem uma opção. Sobrava o agora, mas até quando?</p>



<p>Escutou a correria, pegou a bolsa e pulou do segundo andar. Caiu de mau jeito, saiu mancando alguns passos, mas a adrenalina faz esquecer a dor. Foi descendo pelos caminhos mais escuros. Apesar de saber que aquele beco onde estava não despertava as atenções, sua tensão não baixava por nada nesse mundo. O coração na boca, as orelhas em brasa e a barriga tremendo.</p>



<p>Não demorou a chegar na cortina de capim que margeava o canal. Deitou-se por uns instantes no mato e tentou olhar pro céu, mas aquelas estrelas ofereciam muito pouco, uma vez que estava entre o caos de luzes e sons do morro que descera e o reflexo inquieto das cores da cidade nas águas turvas da madrugada.</p>



<p>Os segundos passavam horas e a confusão parecia cada vez mais próxima. Voltar atrás era assinar a própria sentença e esperar o raiar do dia era contar com uma sorte que nunca deu as caras por ali. Sempre sentiu desprezo pela rotina dos vizinhos e agora dedicava-lhes uma inveja sem precedentes.</p>



<p>Esqueceu propositalmente a bolsa no capim amassado e se atirou no canal. No começo, os pés afundavam na lama e tocavam os pedaços de pedra, pau e planta lá do fundo. Depois o nível d’água foi passando do peito e ele teve que acionar a memória do corpo para bater braços e pernas bem coordenados. Fazendo o mínimo possível de barulho, foi se afastando do canal lamacento e ganhou a vastidão da baía. Mirava na direção dos altos prédios iluminados ao longe e investia quase todas as suas forças. Nadou assim por horas. Os tons escuros foram abandonando a noite e quanto mais clareava, mais gelada a água ia se fazendo sentir.</p>



<p>O céu misturava faixas rosas à escala de azul. Anestesiado de frio e cansaço, o nadador só podia realizar movimentos curtos e demorados, com dificuldade crescente. Por vezes, uma dormência dominava o corpo. A alucinação e a sede eram as únicas companhias. As coisas ficaram distantes e, quando abriu os olhos, sentiu uma pressão arrastar suas costas. Enxergava tudo embaçado ainda e foi sentindo as mãos aos poucos. Virou levemente a cabeça e viu um joelho diante de si. Duas mãos grossas puxaram seu ombro e deitaram-no de bruços. Tossiu forte e arranhado, cuspiu uma água amarga e começou a voltar a si. Estava numa espécie de canoa, diante de um senhor que o olhava em silêncio. Os olhos vermelhos queimavam e os lábios rachados ardiam. O homem o ajudou a sentar-se e levou um gole de água até sua boca. Agradeceu com os olhos e tombou novamente na madeira do barco. Dormiu.</p>



<p>Em alguns minutos, o senhor embicava o barco por entre as estreitas palafitas do mangue. Com a ajuda de dois amigos, levantou o corpo desmaiado e carregou-o até em casa. Acomodou em seu próprio quarto o inconsciente e pediu à mulher que preparasse um caldo. Sentou-se ao lado do corpo estendido no chão e ficou de vigília. As pessoas iam se aproximando do barraco com ares de curiosidade, perguntando o que se passava. Da pequena janela da sala, a filha respondia:</p>



<p>– É nada não. Paínho pescou um homi&#8230;</p>



<p>Inclinaram sua cabeça e meteram-lhe a sopa goela abaixo. Bem devagar, foi sentindo que lhe voltava o controle das extremidades, mas ainda estava fraco para movimentos bruscos. Aquela gente em volta dele só podia ser alguma coisa de deuses. E aquele cômodo algum tipo de santuário. Viu a aflição nos olhos da filha do canoeiro e sorriu pras pessoas, como forma de dizer que estava bem. A moça sorriu de volta, com dentes tímidos, e levantou-se para ir cuidar de seus afazeres. O resgatado olhou para si e já não reconhecia mais quem fora até a véspera. Sua história estava só começando.</p>



<hr class="wp-block-separator" />



<p><strong>Vitu Marcs</strong> deposita suas poucas esperanças na literatura, sobretudo aquela das ruas. Muitas pessoas estão perdidas, mas ainda há tempo (salve Criolo).&#8221;</p>



<hr class="wp-block-separator" />



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.artebodoque.com/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/a89c8-publi-bodoque2.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-4736" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<hr class="wp-block-separator" />



<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-large-font-size has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color">Galeria</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/1e338-fotos-carol-copy.jpg7_-1021x1024.jpg?resize=950%2C953&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-4516" data-recalc-dims="1" /></figure>



<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-medium-font-size has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color"><em>Apoie tradições populares. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>



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