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	<title>Arquivos Ano 003, N 102 - Revista Trama</title>
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	<description>Arte, Cultura e Criatividade</description>
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		<title>O FIAR DA MEMÓRIA</title>
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		<pubDate>Sun, 01 Aug 2021 21:30:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 102]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Dryelle Müller</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>As nornas, na mitologia nórdica, são três anciãs fiandeiras que moram nas raízes de Yggdrasil e tecem o tecido do destino e da realidade. As parcas, na mitologia romana, são filhas da noite e controlam o fiar da vida humana, e nem mesmo Zeus consegue controla-las. Na mitologia grega, moiras são as responsáveis por essa mesma função. A arte de tecer a história, na mitologia, é extremamente poderosa e isso não é um mero acaso. Lembrar é um ato de poder. Apenas os seres humanos vivenciam e produzem lembranças de forma tão poderosa. E como uma arte a ser produzida de forma complexa, precisamos de múltiplas ferramentas.</p>



<p>Pense como um bordado a ser construído: inicialmente precisamos do material, da matéria a ser consumida. Um tecido branco ou um tecido previamente colorido. Pela oralidade, é instruído sobre como fazer o desenho, como delinear o bordado de acordo com a experiência prévia de um outro alguém. Assim me lembro do outro mesmo não estando no outro, e lembro de como era antes mesmo de ser, de nascer e de reconhecer a mim e ao mundo. Lembro-me de desejar tudo intensamente: nasci num parto sem anestesia, na sala de espera, mamando – e desejo tudo com intensidade ainda hoje. É o saber do outro inserido em mim.</p>



<p>Depois vem a linha e o ponto. Cada um tem apenas uma linha de apenas uma cor e, com calma, pequenos detalhes são colocados no tecido. Não é possível trocar de cor, contudo o bordado nunca será apenas uno, ou então não será visto: passamos para outros tecidos, nossa cor é inserida em outras cores e uma figura começa a ser traçada. Halbwachs (1968) defende que a experiência é evocada de forma vivida quando observada por diversos pontos de vista. A lembrança é coletiva e inserida no social, se constrói com afinco porque tem-se muitas cores. Minhas cores se misturam, desde criança, com as cores de meus amigos de infância e das pessoas que conheci muito cedo e que ainda mantenho em vida: os detalhes são vívidos porque para eles, também são.</p>



<p>Uma vez que os bordados estão delineados, conectamos os desenhos a outros, desenhamos um plano maior: uma linha vermelha se conecta a uma linha verde e em diversas tonalidades criamos uma rosa. Outra planta será inserida, e outro desenho será ligado a unidade. Construímos um sentido, um objetivo. Uma história. Tenho mais memórias, em determinado ponto da vida, com colegas de trabalho e de escola do que com a família ou quando em solidão. O sentido e o objetivo que marcou a minha vida definiu o desenho que construí com mais afinco, enquanto em outros deixei apenas alguns pontos feitos.</p>



<p>Alguns materiais adicionais fortalecem o desenho a ser definido, como a oralidade e a memória coletiva. Esses materiais complementam o desenho final com mais definição, e uma camada de detalhes rica: diários, fotografias, livros. Um objeto pode contar muitas histórias, pode conectar. São elas as memórias superficiais que se transformam em efemérides, pequenas celebrações datadas.</p>



<p>O bordado pode ser comparado com o fiar em aspectos mais escuros da memória também. Quando fiamos um único caminho é traçado e, apesar de suas conexões e das ligações que faz, cada fio possui seu caminho e sua sequência, podendo ser encerrado apenas quando cortado. Ao fiar ou ao bordar, com ou sem intencionalidade, podemos repetir a mesma coisa duas vezes ou bordar várias vezes a mesma coisa, criando um motivo. Falhando na construção do todo. Desfazendo o bordado anterior. Essas são as memórias que, de acordo com Santayana (1905) nos coloca em um estado infante perpétuo. Que nos fada a repetir o passado. Memórias da história que se repetem pois são contadas por quem venceu, com benefícios em se fazer de tal forma. Nietzsche (2003) em sua segunda consideração intempestiva conclui de que somos históricos e que o homem pode apenas tomar plena consciência de si conhecendo suas raízes, dominando e se apropriando, conhecendo através do antes o agora.&nbsp;</p>



<p>A memória pode ser vista em inúmeras nuances: em pequenos gestos, em pequenas palavras. Em grandes contos e feitos. Nas nuances de outras nuances, passadas em gerações. Elas se debruçam sobre nós, fazendo do agora um ponto, do antes uma linha, do todo um desenho. Evoca emoções, provoca questionamentos e produz mais, sempre mais, para logo depois se apagar em si. São históricas e a-históricas. É mitologia e fato. Cotidiano e conto. É arte por si só. E como toda arte é nova, complexa e vital. É superfície e símbolo. É admirada intensamente.</p>



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<hr class="wp-block-separator" />



<p><strong>REFERENCIAS</strong></p>



<p>DALCASTAHNÈ, Regina. Pela superfície do mundo: objetos e memória na literatura brasileira contemporânea.&nbsp;<strong>Letras de Hoje</strong>, v. 53, n. 4, p. 463-468, 30 dez. 2018.</p>



<p>HALBWACHS, Maurice. <strong>A memória coletiva</strong>. São Paulo: Vértice, 2006.</p>



<p>NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. <strong>Segunda consideração intempestiva</strong>: da utilidade e desvantagem da história para a vida. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2003.</p>



<p>SANTAYAMA, George. <strong>The life of reason</strong>: os the phases of human progress. Londres: Archibald Constable, 1906. Disponível em: <a href="https://archive.org/details/in.ernet.dli.2015.93625/page/n3/mode/2up">https://archive.org/details/in.ernet.dli.2015.93625/page/n3/mode/2up</a>. Acesso em: 08 jul. 2021.</p>



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<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:22% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="950" height="950" src="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/f2b0a-dryelle-muller.png?resize=950%2C950" alt="" class="wp-image-17362 size-full" srcset="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/f2b0a-dryelle-muller.png?w=966&amp;ssl=1 966w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/f2b0a-dryelle-muller.png?resize=300%2C300&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/f2b0a-dryelle-muller.png?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/f2b0a-dryelle-muller.png?resize=768%2C768&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/f2b0a-dryelle-muller.png?resize=96%2C96&amp;ssl=1 96w" sizes="(max-width: 950px) 100vw, 950px" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p><strong><strong><strong>Dryelle Müller </strong></strong></strong>é discente de Licenciatura em Biblioteconomia pela UNIRIO. Estagiária na Coordenadoria de Acesso a Informação (COOAI) no Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro (APERJ), membro do grupo de pesquisa “Estudos sobre práticas inovadoras de ensino-aprendizagem em Biblioteconomia” pelo CNPq/UNIRIO, Monitora de fundamentos teóricos da Representação Descritiva e Bolsista e Projeto de Extensão &#8220;Oficina para o desenvolvimento de colaboradores de sala de leitura e unidades de informação&#8221;. Atuou como membro no Laboratório Multidimensional de Estudos em Preservação de Documentos Arquivísticos e participou da ação &#8220;Documentos Arquivísticos: o que, por que e como preservar?&#8221;.</p>
</div></div>



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		<title>O AMOR PODE DESTITUIR A NOSSA HUMANIDADE</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 01 Aug 2021 21:29:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 102]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
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		<category><![CDATA[Luta Indígena]]></category>
		<category><![CDATA[Micael Correia]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Micael Correia</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Há um século, num texto intitulado “<em>Psicologia das massas e análise do Eu</em>”¹, Freud nos falava sobre um tipo específico de amor. Antes, Freud insiste na ideia de que a ligação amorosa está na base da explicação dos processos anímicos, desde os individuais até os sociais. Ali ele nos fala como quem defende que um corpo social é simplesmente a subsunção, numa escala ampliada, da forma ficcional de um <em>indivíduo</em>, gestor de suas volições e portador de predicados que o identifica. Mas se Freud nos leva a falar de amor nesse caso, é porque mesmo uma massa organizada não se explica através da descrição da conveniência tática firmada em acordos coletivos de sobrevivência. Afinal, isso seria negligenciar um elemento ainda mais primário, que é capaz de fazer deslizar os ideais dos eus para ideais partilhados, numa fraterna socialização de modos de desejar.</p>



<p>Na verdade, Freud irá descrever esse tipo de aliança como estando sustentada por um fechamento narcísico do eu com outros eus que demandam reciprocamente amparo, afirmação e reconhecimento, e que estão dispostos a um mesmo núcleo afetivo. Não por acaso, esse encontro depende muito precisamente de certa instilação egóica, que se expressará no reforço mecânico daqueles predicados que constituem a identidade da massa e do indivíduo, dialeticamente. Assim, Freud falará, a sua maneira, dessa faceta do amor: “a identificação é a forma mais originária de ligação afetiva com um objeto”<a href="#_ftn1">[1]</a>.</p>



<p>Nesse momento, Freud parece encontrar um termo para descrever uma instância do amor característico das sociedades liberais, que teria, por sua vez, a flexibilidade de se expandir para as formas sociais mais gregárias. Se podemos falar da identificação como uma operação elementar do amor, sua precisão teórica repousa no fato histórico de que <em>a modernidade foi capaz de produzir um amor que desconhece relações produtivas fora do âmbito das identidades</em>. Amar seria uma atividade necessariamente dependente de uma noção abstrata de <em>pessoa</em>, concebida enquanto portadora de qualidades que a predicam, que a definem identitariamente dentro de um campo social. Falar de amor, seria falar dos processos de demandas que merecem ser atendidas dentro de uma relação cooperativa, relação cujo cerne narcísico exigiria investimentos recíprocos de libido &#8211; no eu e ao outro.</p>



<p>Vejamos que dizer em termos de “investimento” ainda acabaria por adensar uma “analogia” bastante própria ao amor nas sociedades liberais modernas: a possibilidade do amor se expressa como se vivêssemos num mercado, no qual as pessoas circulam como mercadorias e “escolhem” umas às outras a partir de contratos que forçam relações de reconhecimento daquilo que em mim julgo essencial<a href="#_ftn2">[2]</a>. Estranha concepção em que a própria noção de pessoa se encontra fetichizada. E seu aspecto mercantil reside justamente na ideia de que a única forma possível de sujeito é aquela entificada na forma-pessoa e na forma-indivíduo, derivados do mesmo modelo daquela da propriedade privada. Nesse caso, é mais fácil assumir que não há sujeitos para o capitalismo – só existem sujeitos para os psicanalistas e para mais alguns outros.</p>



<p>Há de se perguntar se existiria uma outra forma de amor possível, que prescindisse das predicações individuais e nos conduzisse a uma experiência contraposta à racionalidade mercantil que apossa nossos corpos. Uma experiência que simplesmente renunciaria nossa própria dependência da noção psicológica de identidade. Caberia aqui o problema de deposição do amor, justamente nos tempos onde ele parece suscitar as mais esperançosas razões de ser – a saber, nos tempos de cólera, muros e sectarismos?</p>



<p>Acredito que se a psicanálise mesma pode nos ajudar a coletar de seu escopo teórico uma fagulha que faça queimar os vazios da identidade, aquiescendo aquilo que não coincide ao eu dentro de uma relação, é justamente porque podemos a partir de sua reflexão apontar a radicalidade de um <em>amor anti-predicativo</em>. Podemos encontrar algo assim no célebre aforismo lacaniano: “<em>amar é dar aquilo que não se tem</em>”<a href="#_ftn3">[3]</a>. É aqui que Lacan, motivado por identificar o caráter de desmesura que coloca um amor que não pode ser delimitado pela posse, qualifica o amor enquanto algo da ordem do <em>dom</em>. Afinal, dar o que não se tem é uma experiência de fazer circular aquilo que aparece como falta. Ponto obscuro este em que lidar com faltas é também reconhecer a impossibilidade de qualquer que seja a reciprocidade; pois no amor, não participamos quando demandamos investimentos e pactuamos acordos de indissolubilidade. No amor, a regra é justamente a não-equivalência daquilo que se dá e do que se recebe. Aliás, aquilo que é recebido, está longe de ser parte reconhecível de mim num outro externo. Aqui prevalece a radicalidade de um outro que é capaz de colapsar minha individualidade e impactar como um objeto que me sujeita sem pedir permissão.</p>



<p>Talvez o poema “Salmo” de Paul Celan &#8211; no qual a própria não-identidade é positivada em um ato de louvor enquanto se ama – também possa indicar esse caminho por onde o amor resiste a pressão de se submeter à identidade. Ali onde o amor é dom, ali também ele há de nos abrir para outra humanidade:</p>



<p class="has-text-align-right"><em>Ninguém molda-nos novamente com terra e barro</em><br><em>Ninguém evoca nosso pó</em><br><em>Ninguém.</em><br><em>Louvado sejas, Ninguém.</em><br><em>Por ti queremos</em><br><em>Nós florescer.</em><br><em>Ao teu</em><br><em>Encontro.</em><br><em>Um nada</em><br><em>Éramos nós, somos nós, permaneceremos</em><br><em>Sendo, florescendo:</em><br><em>A rosa nada, a</em><br><em>Rosa de ninguém.</em><br><br><em>(Paul Celan)</em></p>



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<hr class="wp-block-separator" />



<p><a href="#_ftnref1">[1]</a> FREUD, S. Psicologia das massas e análise do Eu (1921).</p>



<p><a href="#_ftnref2">[2]</a> Ver mais sobre a racionalidade mercantil do amor em SAFATLE, V. (2019) O circuito dos afetos: corpos políticos, desamparo e o fim do indivíduo.</p>



<p><a href="#_ftnref3">[3]</a> LACAN, J. O seminário: livro 8 – A transferência (1960-1961).</p>



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<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:22% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/9d309-micael-correia.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-14286 size-full" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p><strong><strong><strong>Micael Correia&nbsp;</strong></strong></strong>tem 22 anos e é um escritor não-autorizado. Faz graduação em Psicologia e nutre interesse por Psicanálise, Cultura e Religião.</p>
</div></div>



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		<title>Almar</title>
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		<pubDate>Sun, 01 Aug 2021 21:27:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 102]]></category>
		<category><![CDATA[Almar]]></category>
		<category><![CDATA[Talisson Melo]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Tálisson Melo</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<div style="height:50px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<p>Lá em março do ano passado, dei por mim que a pandemia se alastraria longamente entre nós</p>



<p>&nbsp;– hoje, que tomei a primeira dose de uma vacina contra ela, não consigo ainda ver se materializando o ponto de virada marcando um quadrado do calendário deste ano pendurado ali atrás da porta da cozinha –</p>



<p>pensei logo na distância entre mim e o mar. especulei estradas possíveis pra correr e vagar na sorte de encontrar, daqui das montanhas serradas, algumas vistas de vales e alguns banhos de cachoeiras.&nbsp;</p>



<p>mas o mar&#8230; o mar tem essa coisa da imensidão salgada, de lágrimas de choros e risos de tantos mil’anos, ressoando profundas colisões das interações cósmicas que nos fazem grão de areia. vale ver como essas ondas vibram pulsam propagam vidas na viagem submarina de Corina escrita lindamente por Aline Valek em seu <a href="https://www.rocco.com.br/livro/as-aguas-vivas-nao-sabem-de-si/"><em>As águas-vivas não sabem de si</em></a>. leitura que me levou pro fundinho da ignorância que vivo de mim.&nbsp;</p>



<p>mas o mar foi fazendo falta. a falta, morada. abissal.&nbsp;</p>



<p>até que finalmente, na semana passada, coloquei este corpinho a caminho do mar. uma busca por uns poucos dias privilegiados sem fazer nada. aprendendo a fazer nada. e tentando aprender isso com certa pressa gostosa como as que eu tinha na infância ao ver aquela linha azul-água tocar a linha azul-céu. a vontade de me molhar, imergir, gelar os pés, não dar mais pé, boiar.</p>



<p>trago então um escrito que fui concatenando da memória literária. e que me lançaram imagens boas pra lidar com esse aprendizado indolente de deixar minha alma vazar no mar, ser mar, maior.&nbsp;</p>



<p>curioso como esse imaginário se conecta com poetas que escreviam de Portugal, e são até uns versos que se veem por aí em paredes destacados do resto do corpo de palavras que fazem poemas.</p>



<p>mas faz tempo que um poema inteiro, por só dois versos, está marcado na minha relação com o mar. é da bruxa marinha Sophia de Mello Breyner Andresen, em seu <em>Livro Sexto</em>, de 1962. o título na página é <em>Inscrição</em>, ao que seguem:</p>



<pre class="wp-block-verse">Quando eu morrer voltarei para buscar
Os instantes que não vivi junto do mar.</pre>



<p>apenas. e pra mim foi suficiente pra reverberar muito, até hoje. mas não é sobre o mar, diretamente, o outro poema dela que quero evocar aqui nessa lição de manutenção da alma grande, náufraga, profunda, abundante – diretamente como o mar. é um poema de tempos salazaristas, que conecto com estes tempos de bolsonarismo e pirotecnias da memória do lado de cá do mar atlântico. numa outra página de seu <em>Livro Sexto</em>, Sophia corta o papel assim:</p>



<pre class="wp-block-verse"><strong>O VELHO ABUTRE</strong>

O velho abutre é sábio e alisa as suas penas
A podridão lhe agrada e seus discursos
Têm o dom de tornar as almas mais pequenas</pre>



<p>como não pensar em mar, almas pequenas e poesia portuguesa sem escorregar direto no saudoso <em>Mar Português</em> de Fernando Pessoa, que fala de um nós que não pertenço e até me incomoda, mas finca um sentido de lembrete que busco ler sempre pausadamente buscando dessaturações:</p>



<pre class="wp-block-verse">
Valeu a pena? 
Tudo vale a penaSe a alma não é pequena.</pre>



<p>sorte nossa também contar com a voz profunda do lado de cá desse mar, a de Conceição Evaristo, sua escrevivência. nela encontro indicações para um caminho marítmo que também é montanha, de fazer agrandar a alma, avivá-la diante das ameaças que a querem apequenar. abrindo sua coletânea <em>Poemas de recordação e outros movimentos</em>:</p>



<pre class="wp-block-verse"><strong>Recordar é preciso</strong>
 
O mar vagueia onduloso sob os meus pensamentos
A memória bravia lança o leme:
Recordar é preciso.

O movimento vaivém nas águas-lembranças
dos meus marejados olhos transborda-me a vida,
salgando-me o rosto e o gosto. 
Sou eternamente náufraga,
mas os fundos oceanos não me amedrontam
e nem me imobilizam. 

Uma paixão profunda é a bóia que me emerge. 
Sei que o mistério subsiste além das águas.</pre>



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<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:22% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/c1d2a-talisson-melo.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-13771 size-full" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p><strong>Tálisson Melo</strong> é artista visual e pesquisador da cultura. Doutor em sociologia e antropologia pelo IFCS/UFRJ, mestre e bacharel interdisciplinar pelo IAD/UFJF. Atualmente trabalha com curadoria-pesquisa-edição para um livro sobre poesia visual e poema/processo em trânsitos sul-americanos (financiado pelo Fondo Nacional de Cultura do Uruguai). Publicou com Carolina Cerqueira o livro Mesmo Sol Outro (selecionado pelo Rumos Itaú Cultural, 2018), e com Taonga Leslie a coletânia de poemas A New Road (Nova York, 2021). <a rel="noreferrer noopener" href="https://linktr.ee/talissonmelodesouza" target="_blank">https://linktr.ee/talissonmelodesouza</a></p>
</div></div>



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		<title>LÁZARO RAMOS, MC SOFFIA E PRETA RARA DEBATEM ENFRENTAMENTO DA VIOLÊNCIA EM EVENTO DO UNICEF</title>
		<link>https://revistatrama.artebodoque.com/2021/08/01/lazaro-ramos-mc-soffia-e-preta-rara-debatem-enfrentamento-da-violencia-em-evento-do-unicef/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 01 Aug 2021 21:25:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 102]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[combate a discursos de ódio]]></category>
		<category><![CDATA[Fim do Racismo]]></category>
		<category><![CDATA[igualdade racial]]></category>
		<category><![CDATA[ONU Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[respeito a minorias]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: ONU Brasil</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<ul><li>O&nbsp;1º Seminário Paulista para Proteção das Crianças e dos Adolescentes é um evento gratuito e online e destinado a representantes de organizações da sociedade civil, líderes sociais, educadores, gestores públicos, entre outros interessados.</li><li>Promovido pelo UNICEF em parceria com o Ministério Público do Trabalho (MPT), a Agenda Pública e o Instituto Camará Calunga, o&nbsp;evento contará com a participação de lideranças da sociedade civil, governos&nbsp;e empresas.</li><li>Entre os debatedores estão confirmados&nbsp;Lázaro Ramos, ator e embaixador do UNICEF no Brasil; MC Soffia, rapper; e Preta Rara, historiadora e rapper.</li><li>O objetivo&nbsp;é promover o debate sobre medidas de enfrentamento de todas as formas de violência na infância e na adolescência.&nbsp;</li></ul>



<figure class="wp-block-image"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/brasil.un.org/sites/default/files/styles/featured_image/public/2021-07/Captura%20de%20Tela%202021-07-29%20a%CC%80s%2015.07.50.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" data-recalc-dims="1" /><figcaption>O debate será feito por meio de rodas de conversa, oficinas e exposição de experiências exitosasFoto: © UNICEF</figcaption></figure>



<p>Nos próximos dias 9 e 10 de agosto, das 13h às 19h, será realizado o 1º Seminário Paulista para Proteção das Crianças e dos Adolescentes,<strong>&nbsp;</strong>promovido pelo&nbsp;<a href="https://www.unicef.org/brazil/comunicados-de-imprensa/abertas-inscricoes-do-primeiro-seminario-paulista-para-protecao-das-criancas-e-dos-adolescentes">Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF)</a>, em parceria com o Ministério Público do Trabalho (MPT), a Agenda Pública e o Instituto Camará Calunga. O evento é online, gratuito e destinado a representantes de organizações da sociedade civil, líderes sociais, educadores, gestores públicos, entre outros interessados.&nbsp;</p>



<p>As inscrições podem ser feitas&nbsp;<a href="https://www.acaocomprotecao.com.br/pt/">aqui</a>.</p>



<p>O objetivo do Seminário é promover o debate sobre medidas de enfrentamento de todas as formas de violência na infância e na adolescência. O debate será feito por meio de rodas de conversa, oficinas e exposição de experiências exitosas. O evento contará com a participação de lideranças da sociedade civil, governos, Ministério Público do Trabalho e empresas. Entre os debatedores, estarão, ainda, Lázaro Ramos, ator e embaixador do UNICEF no Brasil; MC Soffia, rapper; e Preta Rara, historiadora e rapper.</p>



<p>O evento também reunirá jovens que foram impactados pela iniciativa “<a href="https://www.unicef.org/brazil/iniciativa-crescer-com-protecao">Crescer com Proteção</a>”, do UNICEF, que está presente em oito cidades da Baixada Santista e do Vale do Ribeira: Cananéia, Ilha Comprida, Iguape, Itanhaém, Mongaguá, Peruíbe, Praia Grande e São Vicente. Acesse a programação completa&nbsp;<a href="https://www.acaocomprotecao.com.br/pt/me/programme/">aqui</a>.</p>



<p><strong>Seminário &#8211;&nbsp;</strong>Durante o primeiro dia do Seminário, 9 de agosto, haverá trocas sobre iniciativas promovidas nas Regiões Sudeste, Norte e Nordeste do Brasil e a importância delas para o fortalecimento do Sistema de Garantia de Direitos das crianças e dos adolescentes. Além disso, serão realizadas oficinas e bate-papos sobre alternativas e novas estratégias de proteção no contexto atual.</p>



<p>No dia 10 de agosto, destacam-se as discussões relacionadas ao fortalecimento da Lei 13.431/17, que prevê o Sistema de Garantias de Direitos das crianças e dos adolescentes vítimas de violências. Ao final do evento, Preta Rara, historiadora e rapper, participará de um bate-papo que marcará o lançamento da campanha “Oportunidades que Protegem”, como parte da iniciativa “Crescer com Proteção”.</p>



<p><strong>Serviço</strong></p>



<ul><li>O quê: Seminário Paulista para Proteção das Crianças e dos Adolescentes</li><li>Quando: Dia 9 de agosto, das 13h às 18h30, e dia 10 de agosto, das 13h às 19h</li><li>Inscrições e programação:&nbsp;<a href="https://www.acaocomprotecao.com.br/pt/page/home/">aqui</a></li></ul>



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<p><strong><em>Matéria originalmente publicada em <a href="https://brasil.un.org/pt-br/137918-lazaro-ramos-mc-soffia-e-preta-rara-debatem-enfrentamento-da-violencia-em-evento-do-unicef" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Nações Unidas Brasil</a></em> <em>em 29/07/2021 – Atualizado em 29/07/2021.</em></strong></p>



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<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:22% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img decoding="async" width="768" height="768" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/3a58a-onu-brasil.png?resize=768%2C768&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-13654 size-full" srcset="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/3a58a-onu-brasil.png?w=768&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/3a58a-onu-brasil.png?resize=300%2C300&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/3a58a-onu-brasil.png?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w" sizes="(max-width: 768px) 100vw, 768px" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong>A ONU (Organização das Nações Unidas)</strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong>&nbsp;é uma organização internacional formada por países que se reuniram voluntariamente para trabalhar pela paz e o desenvolvimento mundiais.</p>
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		<title>[EXPOSIÇÃO VIRTUAL] SER FILOGRAFIA</title>
		<link>https://revistatrama.artebodoque.com/2021/08/01/exposicao-virtual-ser-filografia/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 01 Aug 2021 21:24:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 102]]></category>
		<category><![CDATA[arte]]></category>
		<category><![CDATA[fotografia filosófica]]></category>
		<category><![CDATA[fotografia sensível]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: Amanda Morais</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
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<div class="wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow">
<p class="has-text-align-right"><em>“Mesmo quando estamos vazios de pensamento, não desistimos de nossa capacidade de pensar.”<br>&#8211; Martin Heidegger</em></p>



<p>Ser Filografia &#8211; expressão criada pela artista Amanda Morais, com base na fenomenologia existencial, onde o “ser” refere-se ao &#8220;ser-no-mundo&#8221; do filósofo Martin Heidegger. Filografia é a junção de filo &#8211; de filosofia &#8211; e grafia &#8211; escrita por luz e por palavras. Amanda define então “Ser Filografia” por fotografias biográficas com textos filosóficos. Este ser não é passivo, mas estabelece relações em seu espaço e tempo, sendo um “ser em situação”. Como sustentou Heráclito, tudo flui, todas as coisas estão sujeitas à transformação. Assim, o sujeito sofre interferência de suas relações a todo momento, bem como as afeta. A artista fotografa os “seres-no-mundo” com a visão de que ela mesma é fruto dessas interações.</p>



<p>Amanda propõe reflexão e sugere atravessamentos, aberturas e transmutação do ser, com questões subjetivas. Aponta, em suas fotografias, as angústias, inquietações e dores da existência. A natureza está presente no resultado do trabalho e no processo criativo da artista: antes das sessões fotográficas, ela sente a terra, percebe o som do rio, toca as folhas, os galhos, usa dos seus sentidos para se preparar.</p>



<p>Acompanhando o conceito do trabalho de Amanda, não cabe aqui então, guiar o olhar e a vivência do observador. Apenas fica a ideia de se atentar para o que se sente em cada contemplação.</p>



<p></p>



<p><em>clique nas imagens para vê-las em tamanho completo</em></p>
</div>
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<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:23% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img loading="lazy" decoding="async" width="479" height="479" src="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/6f02f-amanda-morais.png?resize=479%2C479" alt="" class="wp-image-17297 size-full" srcset="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/6f02f-amanda-morais.png?w=479&amp;ssl=1 479w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/6f02f-amanda-morais.png?resize=300%2C300&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/6f02f-amanda-morais.png?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/6f02f-amanda-morais.png?resize=96%2C96&amp;ssl=1 96w" sizes="(max-width: 479px) 100vw, 479px" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p><strong><b>A</b>manda Morais</strong> é multiartista, fotógrafa, educadora e quase psicóloga. </p>
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		<title>BARULHO</title>
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		<pubDate>Sun, 01 Aug 2021 21:23:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 102]]></category>
		<category><![CDATA[Criatividade]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Vinícius Lara]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Vinícius Lara</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Ele acordou e o relógio marcava cinco e quarenta e três. O dia estava frio, ainda que sentisse uma certa opressão quentinha sobre as coxas, fruto do gato bem gordo com quem partilhava a cama nos últimos anos. Havia ali uma intenção de levantamento, mas não do corpo, que se enrolava e tornava a cair por debaixo da manta grossa, queria levantar a alma, porém, como era presa da carne, foi a carne que ditou o ritmo. Primeiro esfregar os pés, apertar os olhos, conferir notícias pelo telefone, espreguiçar deitado espantando o gato para depois espreguiçar de pé.</p>



<p>Era quinta-feira, coisa da qual se lembrou apenas porque precisava tomar seu inibidor seletivo de recaptação de serotonina, o polivitamínico e o comprimido de óleo de peixe.  Na caixinha em que guardava os remédios estava escrito QUI, por isso o dia da semana. Há mais de doze anos, não come de manhã a menos que esteja em viagens ou hotéis. Rotineiramente faz um café preto forte, um copo e meio de água, daqueles maiores, e três colheres de sopa bem cheias de pó. É com isso que engole os remédios desde bem novo, desde quando não tomava remédios.</p>



<p>Enquanto bebe uma xícara dupla, confere mais notícias, agora prestando atenção. Outros incêndios no Brasil. Olimpíadas. Um abrigo para moradores de rua. Xuxa postou uma foto sem maquiagem, mostrando o que todos já sabiam: ela está velha. Há uma construção na rua de trás, que até aqui possui seis andares, e faz pensar que no inverno vai tapar o sol de pelo menos oito ou nove casas. Faz frio, e ainda vai fazer mais na medida em que as pessoas preferem morar para cima umas das outras, mesmo que uma ironia qualquer faça com que, mesmo empilhadas, nunca se vejam ou se toquem.</p>



<p>Pela janela, o céu bem azul do inverno e o sol são um convite para ir à rua. Precisava comprar essência para o ambiente, porque a casa e o consultório estavam sem perfume desde março. Uma quinta-feira, feliz, enfim. Feliz, porém, taciturna. Na noite anterior, ele adormeceu lendo José Saramago, mais especificamente &#8220;O ano da morte de Ricardo Reis&#8221;. Entre 1935 e 2021, o mundo foi desconstruído e refeito algumas dezenas de vezes, assim como entre Lisboa e Juiz Fora, ente Ricardo e Ele, moravam distâncias tão grandes que faziam a volta no sentido, tocando suas pontinhas no casaco cor de musgo e na meia grossa enquanto o vento cortava o ar bem rente às orelhas, enrijecendo a mandíbula. Chovia quando Reis desembarcou no Velho Mundo, e em Minas Gerais chove o tempo do relógio, o que igualmente encharca.</p>



<p>Desceu de escadas porque era preciso fazer algum exercício. O porteiro tomava água num copo de geléia. “<em>Bom dia, dr., o boleto do apartamento chegou. Pega agora ou na volta?</em>” Como ele sabia que pagava a prestação do imóvel financiado, não era possível precisar, se bem que há toda uma mística em torno dos porteiros. O prédio tem onze andares, cada um com oito apartamentos. Todos os dias quase oitenta <em>bom dias</em>, <em>boa tardes</em>, <em>boa noites</em>. Fora correios, visitas amorosas, entregadores de delivery, lixo na rua, discussões de casais, brigas de vizinhos. Ele gostava de pensar que os porteiros são deuses pagãos em um edifício cristão. Significantes para quaisquer significados.</p>



<p>Enfim, já na calçada, colocou os fones de ouvido e desceu a Av. Independência &#8211; não há pessoa com mais de trinta anos que tenha aceitado chamá-la de Itamar Franco &#8211; até a altura da Rio Branco. Virou à esquerda porque aproveitou para passar no consultório e recolher também as correspondências, já que não iria atender na quinta. Uma travessia de pistas não compreensível. Ônibus, e ambulâncias, e Kombis de lavanderias, tudo passa por ali, pelo X do mapa do tesouro juizforano. Foi descendo a avenida que ele começou a pensar, o que só fez na ida, no caminho para a Floriano Peixoto, onde compra seus perfumes domésticos.</p>



<p><em>Deus do céu, como a cidade é barulhenta</em>. Chico Buarque cantava no fundo, mas por cima da história da Rita, uma infinidade de ruídos estalando nos ouvidos e cadenciando o fluxo de sangue nas artérias da cidade. Naquele momento o celular estava no bolso e, talvez porque pensasse, olhava pra frente e também para cima, para as fachadas dos prédios. A maioria, porém, parecia dançar no ritmo do ronco de motores e do grito de buzinas. Andar era depressa, atravessar a rua era depressa. Parado um instante o corpo no sinal, os olhos correm à tela refazendo o rito de conferir quem incomoda. Isso durante o percurso inteiro. Desceu a São João, Teatro Central, Marechal, Galeria dos Pobres, Getúlio Vargas &#8211; a quase nacionalmente avenida do esculacho &#8211; até chegar na sua loja.</p>



<p>Estava esbaforido, ansioso, apressado, urbano. Logo ele, que vinha do interior e que nas noites de sábado escutava fado enquanto fumava charutos, bem no estilo novo burguês de resistir. Se lembrou de Sábato que, no final da vida, andava em Buenos Aires com tampões de ouvido para ver melhor. Só que Sábato passava dos setenta e escrevia com as entranhas, ele não tinha nem quarenta e escrevia com os rins. Tampões não cabiam, mas aquele estupro sinestésico também não. “<em>É só não sair de casa”. “É só evitar o centro”. “É só aumentar o volume”. “É só voltar para a roça</em>”. A cidade não era dele? Terceirizar, assim, aquele lugar de memória ao excremento na máquina?</p>



<p>Comprou flor de cerejeira. <em>Ótimo custo benefício</em>! Foi fazendo o caminho de volta até chegar à Halfeld quando teve a ideia de combater uma guerra diferente, e tirou os fones de ouvido. Toda a voracidade daquelas mil vozes arrombaram sua cabeça no lugar da melodia de Zambujo. Pedintes, vendedores, entregadores de panfletos, vendedores de sorte. Todos juntos. Apertou o passo até chegar novamente na Rio Branco, agora subindo. Na volta, pensava, estava ali.</p>



<p>Completamente absorvido no transe da pequena Babel da Zona da Mata, quando passava em frente à Catedral Metropolitana &#8211; dessa vez não se lembrou do medieval bispo da cidade &#8211; um velhinho vinha na contramão. E veja que ironia a das palavras criando vida. O velhinho, que vinha na contramão, fez o sinal da cruz. Silêncio. Não na rua, carnaval do inferno!, no homem.</p>



<p>Nosso personagem não era católico, talvez fosse deísta, definitivamente não acreditava num deus que precisasse ser o tempo inteiro lembrado pelos homens de sua virilidade magnânima, mas aquele gesto sacralizava o velho. O velho era o deus da calçada domando o barulho com um cruzar de mãos na frente do rosto. Pode ser que aquela aparição, na verdade, fosse maior ou igual ao deus cristão, exatamente porque se lembrava de fazer aquele cumprimento secreto, quase esquecido, como se gritasse de cá da rua “<em>Ei, Senhor, tudo bem? Ruim aí na cruz, ruim aqui na rua. Vamos seguir!</em>”. Ele estava taciturno, acho que já disse, saiu para ouvir o vento cantar e comprar um sinal de benzeção legítima. Enquanto os velhos andarem na rua, uma parte preciosa da cidade sobrevive. Aquela cidade que é feita de gente boa, mas tão boa, que consola o próprio Cristo.</p>



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<p><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong>Vinícius Lara&nbsp;</strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong>é psicanalista, historiador, fotógrafo amador e um apaixonado pelo absurdo.</p>
</div></div>



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		<title>ENCANTAMENTO</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 01 Aug 2021 21:22:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 102]]></category>
		<category><![CDATA[Ariane Bertante]]></category>
		<category><![CDATA[texto poético]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Ariane Bertante</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<pre class="wp-block-verse"> Quase um soneto se joga e se quebra no chão
 Busco os pedaços de cada palavra (cacos de emoção)
 Dizem por aí que quem achar o soneto vira rima em canção
 Não li as cláusulas do encantamento
 Desconheço as falas dessa atuação
 &nbsp;
 Me vi varrendo os cacos em distração
 Esqueci como se escreve amor sem coração
 De que linhagem vim e pra que sirvo?
 Se quebro o soneto em várias partículas
 Como ainda não me quebrei por instinto?
 &nbsp;
 Ouço sons estranhos e não identifico
 Presa no sonho da vida 
 Nem lembro se respiro
 Cada pedaço de soneto se balança
 Como partes de um alucinógeno qualquer
 Alucino
 Me penso inteira e me retiro
 &nbsp;
 Enxergo cores e não entendo a sintonia
 Busco rimas vazias que sejam cheias de magia
 &nbsp;
 Que encantamento se quebra quando se quebra a poesia?
 Quem produz essa poção cheia de falas, confusões e energia? </pre>



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<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:22% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/c813a-ariane-bertante.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-15211 size-full" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p><strong><strong><strong>Ariane Bertante</strong></strong></strong> é poetisa. Pensa que escrever é a arte de se expressar, e de outra maneira não sabe ser: Escrever é sua forma de amar (e odiar). Ela bebe um vinho ou um café, sonha com sonetos e canções para o leitor exausto e eufórico se deleitar em devaneios (eternos devaneios).</p>
</div></div>



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		<title>[EXPOSIÇÃO VIRTUAL] PAISAGENS ABSTRATAS</title>
		<link>https://revistatrama.artebodoque.com/2021/08/01/exposicao-virtual-paisagens-abstratas/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 01 Aug 2021 21:21:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 102]]></category>
		<category><![CDATA[arte]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: Marcio França</p>
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<div class="wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow">
<p>“Quando alguns observam a arte abstrata, pensam nela como fruto do acaso ou da intuição. Embora esses dois elementos possam se fazer presentes, criações que não buscam ter o figurativo como referência surgem sempre de algum lugar. Passam pelas referências do artista, seja no estudo formal ou na vivência cotidiana, e por aquilo que ele deseja expressar, mesmo que não seja de maneira consciente. Uma obra artística é, portanto, um depoimento perante si mesmo e o mundo. O suporte do trabalho realizado em óleo sobre papel (31 x 43 cm), são folhas recicladas de um antigo calendário. A partir daí a pintura se concretiza. Isso envolve decisões técnicas e de ocupação do espaço. Assim a arte materializa a sua força criativa, em que a transpiração supera – e muito – a inspiração.” <br>&#8211; Oscar D’Ambrosio</p>



<p> A série Paisagens Abstratas é composta por pinturas, tendo como suporte folhas recicladas de um antigo calendário. Começam sem nenhuma referência e vão tomando forma durante o processo. Para isso, uso várias ferramentas como: Sacolas plástica, plástico bolha, papelão, pincéis e até colher é usada como espátula. A tinta óleo proporciona um resultado satisfatório para a proposta.</p>
</div>
</div>



<div class="wp-block-jetpack-tiled-gallery aligncenter is-style-rectangular"><div class="tiled-gallery__gallery"><div class="tiled-gallery__row"><div class="tiled-gallery__col" style="flex-basis:66.63103%"><figure class="tiled-gallery__item"><img decoding="async" srcset="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/08/5371e-marcio1.jpg?w=950?strip=info&#038;w=600 600w,https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/08/5371e-marcio1.jpg?w=950?strip=info&#038;w=900 900w,https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/08/5371e-marcio1.jpg?w=950?strip=info&#038;w=1200 1200w,https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/08/5371e-marcio1.jpg?w=950?strip=info&#038;w=1500 1500w,https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/08/5371e-marcio1.jpg?w=950?strip=info&#038;w=1800 1800w,https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/08/5371e-marcio1.jpg?w=950?strip=info&#038;w=2000 2000w" alt="" data-height="1672" data-id="17258" data-link="https://atomic-temporary-162935141.wpcomstaging.com/?attachment_id=17258" data-url="http://revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/b748f-marcio1.jpg" data-width="2329" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/08/5371e-marcio1.jpg?w=950" data-amp-layout="responsive" data-recalc-dims="1" /></figure></div><div class="tiled-gallery__col" style="flex-basis:33.36897%"><figure class="tiled-gallery__item"><img decoding="async" srcset="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/08/07dfa-marcio2.jpg?w=950?strip=info&#038;w=600 600w,https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/08/07dfa-marcio2.jpg?w=950?strip=info&#038;w=900 900w,https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/08/07dfa-marcio2.jpg?w=950?strip=info&#038;w=1200 1200w,https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/08/07dfa-marcio2.jpg?w=950?strip=info&#038;w=1500 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<p><strong>Marcio França</strong> nasceu em Belo Horizonte e obteve, ainda garoto, conhecimento das tintas pintando carrocerias de caminhão, logo passando para o trabalho publicitário. Se mudou para Rondonópolis em 1992, quando, animado com a repercussão do movimento artístico mato-grossense, começa a pintar mais intensamente e, desde então, participa de várias exposições.</p>
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