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	<title>Arquivos Ano 003, N 117 - Revista Trama</title>
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	<description>Arte, Cultura e Criatividade</description>
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		<title>O AVESSO DA ESCRITA: UMA ÉTICA DO INDIZÍVEL</title>
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		<pubDate>Mon, 15 Nov 2021 21:30:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 117]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[contextualização da arte]]></category>
		<category><![CDATA[Depredação]]></category>
		<category><![CDATA[Icaro Assini]]></category>
		<category><![CDATA[Militância]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: Luísa Raña</p>
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<p>A música cantada por Maria Bethânia “O que eu não conheço” (VERCILLO, J.; VELLOSO, J., 2021) traz um certo “dar-me conta do avesso que mora em mim”. O bordado é isso que se trança por meio de buracos, “tento situar o escrito &#8211; e ainda vou avançar nisso &#8211; como essa borda do Real, situá-lo sobre essa borda” (LACAN, 1973-1974/2018, P.194). Há uma escrita que inscreve o Real, na medida em que se situa e enlaça algo de um gozo a mais, que toca algo de indizível. É o que me interessa enquanto escritora e psicanalista marcada pelo nome Real (não pelo simples nome, mas por tomá-lo). Escrever, para mim, é tecer. É fazer sentido e desfazê-los, comparado ao que aponta Lacan (1973-1974/2018, p.170) sobre o saber, é efeito de um inventar e construir, não existe anteriormente, o supondo: “o inconsciente poderia ser totalmente distinto de uma suposição, porque o saber &#8211; se é verdade o que disse na vez passada &#8211; não está em absoluto forçado a supô-lo: é um saber em vias de construção”</p>



<p>&nbsp;O importante do bordado é o avesso, diz a música, pois é de fato onde as coisas acontecem. O inconsciente enquanto isso que só se tem notícias &#8211; quando escutado -, mas que é estruturado por toda uma trama, que às vezes se carrega sem saber, sem perceber. “O mais importante em mim é o que eu não conheço. O que de mim aparece” (VERCILLO, J.; VELLOSO, J., 2021), isso que também não-sou, me é. E não que se deva finalmente conhecer, não, mas que se trata de sustentar esse ponto impossível. Advertir-se e experimentar que o amor é sempre um reencontro com um desencontro, pois é onde me falta alguma palavra, onde me desconcerto e desconheço, que eu não pareço eu, que não sou o que pensei, é nesse ponto que abro espaço para refazer, para reescrever e para criar com algum outro, a matéria prima do amor.</p>



<p>Lacan aponta uma dimensão ética da psicanálise em relação à arte, eu apontaria também para uma ética do indizível, onde toca o inexpressivo e o sustenta. Ele diz que Platão nos fez notar que é até preferível o poeta não saber o que faz, e que para os analistas “diante disso, na verdade, não resta senão abaixar a cabeça” (LACAN, 1973-1974/2018, p.192). Afirma que Freud sempre descartou a interpretação da arte, e de que é uma noção delirante o que chamam de psicanálise da arte, esta é descartável. Se há uma homologia entre psicanálise e arte, é a de que os analistas aprendam com ela e alcancem seus resultados para uma outra coisa, e de que a própria psicanálise se coloque como “esse terceiro que ainda não está classificado, essa alguma coisa que se apoia na ciência, por um lado e, por outro, toma a arte como modelo. E iria ainda um pouco mais longe: que não se pode fazê-lo senão na espera de ter que se dar ao final por vencido” (LACAN, 1973-1974/2018, P.192). Ali onde há um certo não sei do poeta, esse dar-se por vencido, é o que possibilita que a análise possa ser uma prática, um ato, “pode haver algo novo e que consiste em certa redistribuição de letras” (LACAN, 1973-1974/2018, P.190).</p>



<p>“Então, se esse saber deve ser inventado para que haja saber, talvez seja para isso que possa servir o discurso psicanalítico” (LACAN, 1973-1974/2018, p.168), o amor é esse criar-se, inventar-se e ele aponta para um saber, ou melhor, uma verdade. “Descubro novos limites, eu perco o endereço”, o encontro com alguém é assim, por vezes bagunça e não sabemos por onde caminhar, pois um encontro que proporciona um certo perder o endereço, possibilita que eu faça novos caminhos. Esses caminhos que são possibilitados também na transferência, que nada mais é do que o amor, o modo que nos relacionamos é repetido na cena do Divã. Lacan no <a>seminário 20 </a><a href="#_msocom_1">[SV1]</a>&nbsp;(1972 &#8211; 1973/2008) aponta que na clínica não se faz outra coisa senão falar de amor. No seminário 21, Lacan afirma: “a transferência é a descoberta: verdade do amor”, e que isto é uma revelação do inconsciente enquanto saber. O testemunho e a validação do inconsciente enquanto um saber é o que permite emergir a verdade do amor.</p>



<p>O importante do bordado é o avesso, como diria o canto de Bethânia. O amor é feito trilhando esse caminho, o caminho da revelação de um certo gozo, daquilo que é expelido, Lacan (1973-1974/2018, p.81) aponta: “ao Simbólico lhe dou o que se nos revela através de seu emprego na palavra, e especificamente na palavra do amor, que é suportar o que em efeito toda a análise nos faz sentir: suportar o gozo”. O amor se dá finalmente ao tocar esse inexpressivo que aponta o gozo, ao resto que é o avesso da coisa bordada, é quase estranho, é quase feio e aversivo. É visceral. É o Real que não cessa de não se inscrever, e por isso mesmo se escreve parcialmente, por bordas, em um gozo que é para além, tendendo ao infinito e ao para sempre nunca dito todo. Se goza por escrever, ao mesmo tempo que amarra um gozo na escrita.</p>



<p>Esse amor que se apresenta na análise enquanto uma verdade, isso que se expele da transferência, Lacan coloca como uma coisa:</p>



<p>“E nunca se soube bem fazê-la voltar a entrar, salvo sob a forma do mal-entendido, da coisa imprevista, da coisa com a qual não se sabe o que fazer, salvo dizer que era preciso reduzi-la, inclusive liquidá-la. (&#8230;) que da experiência analítica, a transferência é o que ela expulsa, o que ela não pode suportar senão padecendo, por sua causa, de fortes dores de estômago.</p>



<p>Se o amor passa por esse estreito desfiladeiro de que é a causa, e com ele revela o caráter de sua verdadeira natureza (&#8230;) Com o amor pagamos, oferecemos um óbolo, tentamos por todos os meios permitir que se afaste, que se dê por satisfeito” (LACAN, 1973-1974/2018, P.179)</p>



<p><br>Esse estreito desfiladeiro se faz no bordado, no rendado, em uma travessia na qual tentei trançar a música de Bethânia e Lacan. Aqui também, por meio de minha escrita de poeta e psicanalista tento fazer o amor. Não sei o que digo ao dizer, mal compreendo, é quase nublado para mim o que escrevo, e como apontado anteriormente, é melhor mesmo que eu não saiba, justamente para apanhar algo disso que é minha própria invenção. Nem mesmo sei se me equivoco – e prefiro mesmo quando tropeço-, mas realizo algo de uma renda minha, com meus afetos. E ao final da música, “O rendado do tempo, como me foi passado o ensinamento” (VERCILLO, J.; VELLOSO, J., 2021), tudo isso não é sem o tempo, e ao mesmo tempo tão atemporal. Os mesmos pontos circulam a todo instante, um ensinamento passado (transmitido e transferido) ainda se faz presente. A repetição (que se apresenta também na transferência) não é um mero “murro em ponta de faca”, “é o segredo do ponto” (VERCILLO, J.; VELLOSO, J., 2021) que vira enredo.</p>



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<p>Referências bibliográficas:</p>



<p>LACAN, J. (1973–1974). <em>Os não-tolos erram / Os nomes do pai: seminário entre 1973-1974. </em>Porto Alegre, RS: Editora Fi, 2018.</p>



<p>_________. (1972-1973). <em>O seminário</em>: <em>livro 20: mais, ainda</em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2008.</p>



<p>VERCILLO, J.; VELLOSO, J. O Que Eu Não Conheço. <em>In</em>: Bethânia, Maria. Disponível em: <a href="https://www.letras.mus.br/maria-bethania/1563907/">https://www.letras.mus.br/maria-bethania/1563907/</a> . Acesso em: 14 de setembro 2021.</p>



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<p><strong>Luísa Monte Real Raña </strong>é escritora, psicanalista e psicóloga formada pela UERJ. É reconhecida também como Cadeado Quebrado, nome de seu primeiro livro escrito na adolescência (não publicado) e, posteriormente, nome dado ao seu blog. Escritora de “Chuvas de Marços”, ebook publicado pela Amazon. Marcada pelo interesse e dedicada pelos estudos dos encontros e desencontros, possíveis e impossíveis da arte com e sem a psicanálise. Suas poesias e histórias são marcadas pela política, pelas angústias de viver, pela morte e tantos outros sentimentos feios. Uma escrita traçada em sua experiência enquanto mulher e em um fazer do amor atravessado por tantas outras.</p>
</div></div>



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		<title>A EMERGÊNCIA CLIMÁTICA E A HISTÓRIA: COMO REPENSAR OS NOSSOS IMPACTOS AO LONGO DO TEMPO?</title>
		<link>https://revistatrama.artebodoque.com/2021/11/15/a-emergencia-climatica-e-a-historia-como-repensar-os-nossos-impactos-ao-longo-do-tempo/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 15 Nov 2021 21:29:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 117]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Icaro Assini]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: Ícaro Assini</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Recentemente, o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente – PNUA publicou o relatório sobre a emissão de gases do efeito estufa para o ano de 2021. O relatório aponta para a ineficácia das promessas realizadas pelas lideranças mundiais no combate à mudança climática. Diante do cenário catastrófico que se aproxima, este ensaio é fruto das minhas reflexões sobre as potencialidades da disciplina histórica no engajamento à luta por uma conscientização sobre a habitabilidade em nosso planeta, através de uma concepção teórica que reconheça, em escala temporal, os impactos ambientais gerados pela nossa espécie.</p>



<p>The Heat Is On: A world of climate promises not yet delivered é o título do documento publicado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente &#8211; PNUA que chama a atenção do mundo para a questão climática. De acordo com o relatório, os atuais esforços realizados pelos principais países emissores de gases do efeito estufa são insuficientes para que terminemos o século XXI com um aquecimento global inferior a 1,5ºC. Caso sigamos no mesmo ritmo de emissões e continuemos com políticas ineficazes, a expectativa é terminarmos o século com um acréscimo de 2,7ºC na temperatura média do mundo. Tal aumento significaria transformações irreversíveis no funcionamento e manutenção do equilíbrio terrestre.</p>



<p>Essa é a primeira vez, na história geológica do nosso planeta, que uma espécie adquire tal poder. O químico Paul Crutzen, vencedor do Nobel em 1995, foi o responsável por difundir a ideia do Antropoceno, a época geológica da humanidade. Até então, o tempo geológico era marcado pelas mudanças naturais ocorridas com o nosso planeta, das eras glaciais até os períodos mais aquecidos. O Antropoceno marca a ascensão do ser humano enquanto força geológica, adquirindo o poder de mudar características físicas e químicas do nosso planeta a ponto de alterar a sua própria biodiversidade.</p>



<p>Trago para a conversa o historiador indiano Dipesh Chakrabarty, que dedica suas pesquisas ao tema dos estudos pós-coloniais e teoria da história. Em 2009, ele publicou quatro teses sobre a relação da disciplina com a emergência da questão climática no debate global, se apropriando do conceito de Antropoceno. O termo deep historty foi calcado para representar uma escala temporal que supere a história humana das sociedades organizadas, mas que alcance a nossa história enquanto espécie.<br>Segundo Chakrabarty, a consolidação das ciências normalizou a divisão entre as Ciências Naturais e as Ciências Humanas, separando a história do homem da história ambiental. No entanto, as Ciências Naturais demonstram que a vida na Terra, incluindo a nossa, é resultante de complexos processos interativos entre os seres vivos e o comportamento geológico do planeta, sendo fundamentais para a nossa própria compreensão de vida. Um exemplo disso é descrito pelo professor e divulgador científico<br>Yuval Harari (2020) descreve a relação entre o surgimento das primeiras grandes civilizações humanas com o fim da última era glacial, que propiciou o desenvolvimento da agricultura e da nossa expansão pelo globo. </p>



<p>A História lapidou a ideia do homo sapiens como sujeito universal, destinado ao progresso através da dominação sobre o seu meio. Coincidentemente, tal concepção amadurece no auge da Revolução Industrial, ao longo do século XIX. Porém, a conta do progresso está chegando para nós. Os últimos anos têm sido a prova dos impactos provocados pela mudança climática. Certamente, grande parte desses impactos foi provocada pela industrialização, e a historiografia guarda importantes críticas à história do sistema capitalista.</p>



<p>No entanto, é preciso ir além. Como o próprio Chakrabarty (2009, p. 18) nos diz: “A crise atual, não obstante, chamou a atenção para outras condições necessárias à existência da vida na forma humana que não guardam qualquer conexão intrínseca com a lógica das identidades capitalistas, nacionalistas ou socialistas. Elas estão conectadas, na verdade, à história da vida no planeta, à forma pela qual diferentes formas de vida se interconectam e à maneira pela qual a extinção em massa de uma espécie poderia significar uma ameaça para outra.”</p>



<p>Seguindo a ideia, ainda que o sistema capitalista tenha contribuído com severos impactos, ele é tributário das concepções mais profundas sobre a maneira que lidamos, e continuamos a lidar, com as outras formas de vida do nosso planeta. A exploração inconsequente da natureza e das outras espécies são atitudes tomadas desde antes da história enquanto escrita. É necessário preparar as lentes do passado para lidar com a chamada deep history, ampliadora do nosso entendimento enquanto uma espécie tributária de um tênue equilíbrio planetário, cujo pêndulo também envolve formas diversas e interligadas de vidas. O astrônomo Carl Sagan realiza uma profunda reflexão para seguirmos repensando a nossa relação com a Terra e o cosmos: “percebemos com relutância que não éramos o<br>centro e a razão de ser do universo, e sim que vivíamos num mundo minúsculo e frágil perdido na imensidão e na eternidade, à deriva num grande oceano cósmico […]”.</p>



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<p>Referências:</p>



<p>HARARI, Yuval Noah. Sapiens: uma breve história da humanidade. Porto Alegre: L&amp;PM Pocket, 2020.</p>



<p>CHAKRABARTY, Dipesh. O clima da história: quatro teses. Sopro, n. 91, p. 4-22, 2013.</p>



<p>UNITED NATIONS ENVIRONMENT PROGRAMME. Emissions Gap Report 2021: The Heat Is On – A World of Climate Promises Not Yet Delivered. Nairobi, 2021. Disponível em: https://www.unep.org/pt-br/resources/emissions-gap-report2021 <strong>cf_chl_managed_tk</strong>=pmd_XaoOyCYteTvsjCFt5U5QCxQgqpwnBTiDeZUC<br>tz59qvg-1635888915-0-gqNtZGzNA2WjcnBszQgl. Acesso em 27 de outubro de 2021.</p>



<p>SAGAN, Carl. Cosmos. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.</p>



<p>*Fotografia da capa por: Michael Kenna (1985)</p>



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<p><strong>Ícaro Assini </strong>é professor de História em formação pela UFJF. Bolsista do Laboratório de História da Arte, gosta de se aventurar pelas profundezas das artes plásticas dos séculos XIX e XX. Também se interessa por teoria da história, historiografia e literatura. É um dos membros do projeto <a href="http://instagram.com/trinca.literaria">@trinca.literaria</a> no Instagram<strong>.</strong></p>
</div></div>



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		<title>CONCEIÇÃO: VESTÍGIOS DE UMA TRAJETÓRIA</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 15 Nov 2021 21:28:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 117]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[crônica]]></category>
		<category><![CDATA[Fora Bolsonaro]]></category>
		<category><![CDATA[Lavou as mãos]]></category>
		<category><![CDATA[política]]></category>
		<category><![CDATA[Sérgio Augusto Vicente]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: Sérgio Augusto Vicente</p>
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<p>Taquara, Rio de Janeiro, manhã de domingo, 5 de maio de 2019. Eu e minha tia, Adélia Vicente, em seu novo apartamento. Habitar é preciso. Habituar-se também. Inevitável não sentir saudade dos tempos de outrora em Botafogo. Não é fácil desprender-se do local em que se viveu durante décadas. Mas outra saudade é mais forte: há praticamente quatro anos, Conceição nos deixara. Sobre a mesa da sala, resquícios materiais de sua existência. Um “montinho” de documentos indiscriminadamente guardados num envelope de papel pardo.</p>



<p>Naquela rápida visita à casa de minha tia, fui surpreendido pela doação daqueles papéis amarelecidos. Papéis que pertenceram àquela que foi a sua mais velha fiel escudeira e amiga em terras cariocas. Nascida em 13 de agosto de 1933, Conceição Costa tornara-se sua amiga na década de 1970, quando dividiram o aluguel de um apartamento na Visconde de Pirajá, em Ipanema, e, posteriormente, em Botafogo, na Rua São Clemente, onde acolheram o amigo Wilson e sua companheira, Zilá, grávida. Entre os anos 1980 e 2015, aquietaram-se naquele aconchegante cantinho da Vila Santa Clara, perto da Casa de Rui Barbosa. Solteiras, abraçaram de corpo e alma os filhos que a vida lhes deu: os filhos de Zilá e Wilson.</p>



<p>Em 2015, Conceição partiu desse plano. Por onde passou, deixou marcas de sua generosidade, sorriso espontâneo, simplicidade e espirituosidade, características que não anulavam a vaidade visível no cuidado com os cabelos, na escolha das roupas, nas bijuterias e na forma caprichosa com que mantinha em sigilo a idade. Católica confessa, mas também com grande afeição pela filosofia de vida <em>Seicho-No-Ie</em>, carregava no comportamento a leveza de espírito, o otimismo e a serenidade de quem passou por inúmeras experiências ao longo dessa longa e tortuosa estrada da vida.</p>



<p>Muito discreta, falava pouco sobre sua própria história. Entretanto, bisbilhotando aqueles papéis amarelecidos que herdei por intermédio de minha tia, fui capaz de descobrir sua faceta de bailarina na juventude, função que exerceu até o ano de 1973, oportunizando-lhe diversas viagens internacionais para Itália, Rússia, Japão, Chile, Argentina, etc. Assinou contrato com a antiga <em>TV Tupi</em>, colaborando com a fase inicial dos programas de auditório no Brasil. Nesse meio tempo, namorou um russo.</p>



<p>A partir de 1974, trabalhou como costureira. Depois, enveredou-se pelas profissões de balconista, ajudante de mesa e, finalmente, doméstica, tarefa que exerceu com afinco, responsabilidade, zelo, amor e dedicação. Não uma dedicação subserviente, mas respeitosa e elegante, de mulher que contornava as dificuldades, opressões e preconceitos com consciência e sabedoria, como um corpo que se equilibra, desafia e supera a materialidade do espaço e as leis da gravidade com a poesia dos movimentos. Talvez tenha sido este um dos grandes legados que a arte da dança lhe deixou&#8230;</p>



<p>Conceição partiu, mas mantendo em nossas mentes aquele sorriso jovial, calmo e generoso de quem sempre abraçou a mim e aos meus irmãos como “sobrinhos do coração”, adotando, inclusive, minha irmã, Aninha, como afilhada. Sua última visita à minha casa na roça, em Simão Pereira (MG), data de 1º de maio de 2015, por ocasião da ordenação sacerdotal de meu irmão, Fernandinho. A solenidade ocorreu no dia de São José e na Igreja de Nossa Senhora da Glória, ambos contemplados em sua singela coleção de santinhos, reunida naquele envelope de papel pardo que estivera sobre a mesa.</p>



<p>Gratidão! Não pode ser outra a palavra para designar o que senti ao ver minha tia confiar a mim aqueles papéis tão carregados de valor simbólico. Ao meu ver, um ato tão grandioso quanto os corações dessas duas aguerridas mulheres que tenho como referência em minha vida. Tratei logo de organizar aqueles documentos e acondicioná-los. Mais do que “objetos velhos”, eles são para mim “objetos biográficos”, um dos especiais “lugares de memória” que ajudei a constituir e conservar. Rememorar a existência de quem passou pela vida terrena, deixando um pouco mais de “alma” em nossas mentes e corações, é um prazer de valor inestimável.</p>



<p>Conceição representa a luta da mulher. Não a de qualquer mulher: a da mulher brasileira, negra, solteira, pobre e trabalhadora multifacetada, com suas qualidades, força, fraquezas, franquezas, contradições e complexidades, que abraçou com bravura a decisão de sair da terra de origem para enfrentar a vida na grande e desigual “Cidade Maravilhosa”. Como “bailarina viajada”, profissão que hoje carrega certo <em>glamour</em>, somos talvez levados a pensar que este tenha sido o momento mais confortável e exitoso de sua vida. Não podemos nos esquecer, porém, do preconceito que recaía sobre essa profissão em tempos de ditadura. Se, até hoje, a mulher brasileira – sobretudo negra – ainda é vista pelas suas “qualidades físicas” ou como o “produto de exportação” mais valioso do Brasil, imagina o quão difícil era, àquela época, para as artistas mulheres (no caso, as bailarinas) conquistar o respeito e o lugar social que tinham por direito. Artistas da “velha guarda”, que viveram na mesma época ou em tempos um pouco mais recuados – algumas delas ainda vivas e consagradas – têm muito a nos contar a esse respeito.</p>



<p>A “herança” que me legou, portanto, deixa-me entrever informações acerca de sua trajetória biográfica, como filiação, data de nascimento, atividades profissionais exercidas e fotos, individuais e em grupo, nas quais estão representados momentos importantes que vivenciou (talvez bons momentos), tanto no Rio de Janeiro como nas diversas viagens internacionais.</p>



<p>É possível observar nos documentos detalhes ricos historicamente, como a passagem de 1ª classe para a Europa, a bordo do navio <em>Itapage</em>; a intimidade com a câmera, revelada pela espontaneidade das fotos; sua preciosa coleção de selos postais, cuja maioria é oriunda da antiga União Soviética (atual Rússia), que fazem alusão a elementos bastante interessantes e emblemáticos em suas representações, como a “corrida espacial”, astronautas e satélite; o passaporte da década de 1970, contendo um carimbo proibindo viagens de cidadãos brasileiros à “Cuba comunista”. Em tempos de Guerra Fria, de polarizações, é sempre bom lembrar que o regime civil-militar e ditatorial brasileiro situava-se ao lado dos Estados Unidos, cujo capital financiou a ditadura que nos mergulhou em tempos sombrios e tenebrosos.</p>



<p>Conceição, portanto, tem arraigada à sua história de vida um pouco da luta de muitas mulheres negras e pobres nesse país. Nesse mês de novembro, em que se comemora o <em>Dia da Consciência Negra</em>, minha homenagem lhe é destinada, mas é extensiva a todas as “Conceições” desse país, em que as flores ainda precisam lutar pela sobrevivência e exalar sua beleza e perfume por entre as trincas de um concreto armado. Que sua força e energia venham a se somar à força e energia de vários “viveres” e “existires” que lutam pela sobrevivência numa sociedade recalcitrante na preservação de seu patriarcalismo, machismo, ideologia senhorial, racismo e exclusão.</p>



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<p><strong><strong><strong><strong>Sérgio Augusto Vicente</strong></strong></strong></strong> é Professor de História e historiador. Graduado, mestre e doutorando em História pelo PPGHIS/UFJF. Atualmente, trabalha no Museu Mariano Procópio – Juiz de Fora – MG. Dedica-se a pesquisas relativas ao campo da história social da cultura/literatura, sociabilidades, trajetórias e memórias.</p>
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		<title>PARA ABRIR OS SENTIDOS E A ESCRITA EM CIMA E EMBAIXO: PRÁTICA DE OBSERVAÇÃO FLUTUANTE PELO MINHOCÃO</title>
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		<pubDate>Mon, 15 Nov 2021 21:27:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 117]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: Chai Rodrigues</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Há cinco anos moro na região do entorno da via Elevado Presidente João Goulart, o Minhocão, região da<br>central de São Paulo/SP. O espaço, sempre frequentado por mim para uma corrida aos domingos,<br>fotografando mensalmente, pesquisando ou realizando alguma intervenção urbana, passeando ou<br>cruzando vinda de algum outro lugar da cidade, nunca havia sido abordado apenas pelo local em si. Ele<br>sempre foi um cenário, uma passagem, um instrumento ou um ponto de referência. Pela primeira vez me coloquei no lugar de caminhar e observar. Este reconhecimento se deu apenas quando subia o Minhocão pela rua Helvétia, sábado, dia 09 de junho de 2018, às 15h. Eu não tinha que fazer diretamente nada… só andar, abrir os olhos, as narinas e os ouvidos. A base deste relato se dá partir de duas caminhadas, a primeira citada acima e a segunda realizada dia 24 de junho, domingo, entre 13h30 e 16h30.</p>



<p>Identificar o lugar de onde se conta e qual história contar transpassa o caminho específico desta pretensa pesquisadora. Não é possível manter uma postura neutra diante de uma paisagem frequentada<br>cotidianamente e que é tema de muitas imagens, histórias e emoções. Trata-se de um exercício, um pacto agora firmado com o ambiente de se posicionar de outra maneira, sem buscas e se deixar permear, &#8220;é ir a lugares, voltar de lá com informações sobre como as pessoas vivem e tornar essas informações disponíveis à comunidade especializada, de uma forma prática, em vez de ficar vadiando por bibliotecas, refletindo sobre questões literárias” (Geertz, 1998, p. 11). Entrar e sair do espaço captando apenas o que ele oferece, não o que gostaria dele. A edição é uma condição natural da narrativa, devido à quantidade de informações, e a partir desta necessidade se configura o conceito de obra ficcional, defendido por Clifford Geertz.</p>



<p>Assim como a crítica da ficção e da poesia brota melhor do compromisso imaginativo com a própria ficção e com a poesia do que de ideias importadas sobre como estas palavras devem ser, a crítica dos escritos antropológicos (que, num sentido estrito, não são nem uma coisa nem outra, e, num sentido lato, são ambas as coisas) deve brotar de um engajamento semelhante a eles, e não de concepções sobre como deve ser a antropologia para se qualificar como ciência. (Geertz, 1998: pag. 17-18).</p>



<p>Uma tentativa de manter a escrita o mais simples e fiel aos acontecimentos destas duas tardes de junho de 2018. Dois dias bem diferentes de fluxo de pessoas regido por dois fatores principais: sábado à tarde &#8211;<br>ainda um dia de trabalho &#8211; e outro domingo à tarde; e o tempo. O primeiro dia precedia à chegada do<br>inverno e estava frio, já o segundo dia apresentava sol e calor. O comportamento em torno dos quase 3km de extensão foi semelhante em alguns aspectos e paradoxal em outros.</p>



<p>O percurso escolhido são as duas superfícies dessa estrutura de concreto e ferro: o Minhocão em cima e o Minhocão embaixo. Duas plataformas de trânsito de pessoas, coisas e seres que funcionam de maneira<br>bem diferente. No primeiro trecho, subi pela Helvétia, seguindo em direção à estação Marechal e ao Parque da Água Branca, desci o Minhocão até a outra extremidade deste na chegada da Rua Consolação,<br>subi novamente encerrando pelo mesmo ponto onde havia começado. O segundo percurso foi invertido: começou por baixo em direção à estação Marechal e o Parque da Água Branca, depois subi e fiz o percurso ao longo de toda a parte superior e desci novamente para a Rua Amaral Gurgel onde encerrei no mesmo local, a entrada da rua Helvétia. Vários pontos de observação ganharam destaque: os cheiros, as posturas das pessoas e suas velocidades influenciadas pelo motivo de estarem naquele espaço, a função do Minhocão, as grafias no concreto.</p>



<p>Neste caminho, o primeiro foco de atenção foram as pessoas que usavam o espaço em cima. No primeiro<br>dia, havia poucas pessoas, em sua maioria praticantes de atividade física, correndo sozinhas ou em duplas, caminhando e conversando. Era uma tarde fria. Nenhum corpo efetivamente atlético e nenhuma alta performance. Em menor número, alguns patinadores e skatistas &#8211; o asfalto se tornou mais propício a esta prática depois da reforma a partir de 2014. Ao final do trecho, um grupo de meninos brincando de jogar bola utilizando o portão de subida como trave. A segunda caminhada ofereceu a visão mais parecida com a ideia de parque tão defendida por muitos que usufruem dele. A tarde estava quente e ensolarada &#8211; contrapondo ao inverno que havia acabado de chegar -, portanto, havia muitas pessoas correndo, passeando com cachorros, passeando com os filhos, algumas crianças aprendendo a andar de bicicleta, patins ou skate. Um grupo grande de dezenas de ciclistas passou em comboio, provavelmente fazendo um trajeto longo pela cidade juntos onde o Minhocão era um dos locais de trajeto.</p>



<p>As muretas que dividem os sentidos do asfalto servem de bancos para conversas e entretenimento. Nas<br>grades que delimitam o Minhocão, sentido Parque da Água Branca, vestígios da manifestação promovida<br>pelo grupo Diálogo e Ação Petista a favor do ex-presidente do Brasil, Lula, que se encontra ainda preso,<br>acusado de atos de corrupção. O movimento colou diversos cartazes tamanho A4 com os dizeres &#8220;De novo com a força do povo&#8221; e uma foto do ex-presidente. Os cartazes colocados apenas no início desta subida, dia 24/06/18, foram quase todos arrancados, rasgados e deixados no mesmo local, formando pequenos emaranhados de papel e fitas adesivas.</p>



<p>A via de acesso ao Minhocão pela rua das Palmeiras, próxima da estação Marechal Deodoro recebia o<br>serviço de poda de árvores da Prefeitura de São Paulo. O caminhão posicionado continha árvores inteiras cortadas pelo serviço, retirando uma porção considerável de sombra num ponto do Minhocão onde geralmente se concentram pessoas apenas sentadas e comerciantes. Era como se o sol daquela tarde tivesse empurrado todas as pessoas para fora de suas casas e apartamentos. Fotógrafos caminhavam individualmente ou em grupo captando imagens (cheguei a contar um grupo de quase 10 jovens, provavelmente estudantes), testando possibilidades de fotografia deste trecho da cidade já considerado um ponto turístico de São Paulo. Mais adiante, próximo da via de acesso ao Elevado pela rua Helvétia, foi montado um set de filmagem. Não possível identificar se tratava-se de uma ficção ou documentário. </p>



<p>Pareciam os momentos finais do trabalho.</p>



<p>O som predominando naquela tarde foi o dos skates que transitavam praticamente toda a via elevada. Um número superior do que o de costume. Grupos de diversos tamanhos e os individuais, mas em grande parte em grupo. Testavam manobras, muitos aproveitavam o espaço para fazer gravações em vídeos de sua performance sobre o skate, tanto com seus telefones celulares e câmeras de vídeo. Este número crescia à medida que a caminhada se aproximava da Praça Roosevelt, ponto tradicional de encontro de skatistas. A imagem deles no Minhocão e, de longe ao fundo, preenchendo as calçadas da Praça Roosevelt lembrava um enxame e essa junção promoveu um som constante das rodas deslizando pelo asfalto. Foi um momento revelador ao observar a diferença que esta imagem imprimia no ambiente. Eles saltavam, deslizavam, alguns caíam, paravam para não atropelar um passante, outros deitados, sentados no asfalto mesmo e o som constante das rodas. Parecia caótico, mas olhando e ouvindo com atenção, havia uma organização e sincronia lá.</p>



<p>A estrutura superior vem se estabilizando como um ambiente promissor de beleza, verde, economia,<br>valorização do centro com semiatletas correndo, outros grupos curtindo seu baseado, cachorros passeando e gatos nas janelas dos prédios envolta. Em cima é possível sentir o cheiro da maconha sendo consumida por pessoas sentadas enquanto conversam e apreciam a paisagem urbana, embaixo o cheiro recorrente é uma mistura de fezes e urina fermentadas e restos de comida promovidos em parte pelas pessoas em situação de rua que vivem lá.</p>



<p>Embaixo, o percurso é mais complicado, é preciso lidar com a ciclovia e os ciclistas: se o pedestre escolhe caminhar pelo lado direito da ciclovia, o corpo fica mais exposto aos carros, se ele opta pelo lado esquerdo, é preciso ultrapassar as aglomerações de pessoas nos pontos de ônibus &#8211; alguns lotados, nenhum deles vazio &#8211; os abrigos das pessoas, os carrinhos de coleta de material reciclável, as goteiras que vêm de cima do Minhocão depois de qualquer chuva, o trânsito e o barulho dos carros.</p>



<p>Existem determinados vãos embaixo do Minhocão que se apresentaram ocupados por grupos de pessoas<br>em situação de rua: a cobertura e a Praça Marechal Teodoro, formando um espaço de convivência grande com mais estrutura de limitações; os que ficam entre as colunas 54 e 57 localizadas na quadra entre as ruas Albuquerque Lins e Lopes de Oliveira. Alguns são casais, outros grupos mistos e cada um tem seu espaço com um colchão improvisado, algumas roupas, pedaços de madeira e objetos diversos coletados no entorno. Estes possuem delimitações espaciais internas para organização utilizando as colunas do Minhocão como pontos de referência: a extremidade de uma coluna indica qual é o lugar do banheiro e a outra extremidade indica o local para despejo de lixos diversos, como embalagens de marmitas e restos de comida. Passando no final desta quadra, pude perceber mais afastada uma senhora que varria seu espaço com uma vassoura entre as colunas 56 e 57. Ela recolhia o lixo, colocando-o em um saco plástico e este saco foi depositado no lado B da coluna 57, bem como se fazem em residências onde se deve colocar o lixo pra fora de casa. Uma relação percebida não como um cuidado com o espaço público e a cidade, mas um cuidado com a própria casa e o pouco que se tem. Esta observação gerou em mim um certo constrangimento de estar bisbilhotando a intimidade do outro, num ambiente sem paredes, mas que possui seu espaço delimitado, conforme afirma Arantes Cacos, e restos delimitam domicílios onde a intimidade dos gestos e das ações levantam paredes invisíveis, mas presentes e que, ao serem atravessados pelo olhar do pesquisador, fazem-no sentir-se intruso, indiscreto, e perceber a força dos limites simbólicos desses casulos no espaço público. (Arantes, 2000, p.196)</p>



<p>Caminhando em direção ao final, outros dois grupos de pessoas morando embaixo do Minhocão se<br>localizam entre as colunas 62 e 63, localizadas entre as ruas Conselheiro Brotero e Tupi. Um grupo<br>pequeno, mas que consegue marcar bem seu espaço devido as duas carroças de coleta de material<br>reciclável e seus vários cachorros. Adiante, outro grupo ocupava as colunas 67 e 68 entre as ruas Tupi e<br>Pacaembu. O local forma uma espécie de acampamento fixo no local com barracas, espaço para cozinhar e dois homens jogando baralho em seus banquinhos, como uma varanda.</p>



<p>O espaço logo no início na coluna 01 estava ocupado novamente por um grupo de moradores, o local deste lado &#8211; após o Terminal Amaral Gurgel &#8211; estava mais limpo e menos frequentado, mas um grupo novo grande começava a ser formar entre algumas colunas próximas ao Terminal, podendo indicar a formação de grupos de pessoas em situação de rua se formando próximos a terminais de transporte público.</p>



<p>O foco de atenção sobre o Minhocão geralmente é concentrado na parte de cima, ainda cinza e concreta,<br>mas a ele é atribuído um certo charme de uma população cada vez mais jovem que utiliza o ambiente. As pessoas em situação de rua ocupam até as rampas de subida. A que dá acesso pela rua Helvétia, por<br>exemplo, se parece mais com a parte de baixo: alguns abrigos, algumas pessoas morando nessa subida<br>discreta e longe de muitos olhares &#8211; se essa entrada não é muito utilizada devido ao medo da presença dessas pessoas, ou se ela é ocupada porque não é muito utilizada pelos passantes de cima, é uma<br>incógnita. No final de um desses dias de caminhada desci por este caminho, o mais próximo da minha casa na própria rua Helvétia. Duas adolescentes desciam na minha frente e só desistiram de voltar quando viram que eu estava descendo também, mas aceleraram as passadas para descerem rapidamente. É possível que por morar próximo, esta imagem de pessoas na rua já não provoque tanto receio como os que cruzam esse local como passeio e turismo apenas. Mas estas foram impressões percebidas a partir do objetivo me colocar em alerta para as relações, a visibilidade e invisibilidade de algumas questões que moldam este trecho da cidade e seus citadinos, de receber e gravar na memória o que os seres deste trecho da cidade têm a oferecer, colocando as pernas para caminhar.</p>



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<p>Referências bibliográficas</p>



<p>AGIER, Michel. Encontros etnográficos: interação, contexto, comparação. São Paulo/Maceió: Ed.<br>Unesp/Edufal, 2015.</p>



<p>ARANTES, Antonio A. “A guerra dos lugares”. In: <strong><em><strong><em>. Paisagens paulistanas: transformações do espaço público. Campinas: Ed. da Unicamp, 2000, p. 105-129. CERTEAU, Michel de. &#8220;Caminhadas pela cidade&#8221;. In: ____</em></strong></em></strong>. A invenção do cotidiano: artes de fazer. Petrópolis, Editora Vozes, 1998.</p>



<p>FRÚGOLI Jr., H. “A cidade no diálogo entre disciplinas” in Fortuna, Carlos e Leite, Rogério P. (orgs.). Plural de cidade: novos léxicos urbanos. Coimbra, Almedina, 2009, p. 53-67.</p>



<p>GEETTZ, Clifford. &#8220;Estar lá: a antropologia e o cenário da escrita&#8221;. In: <strong><em>_</em></strong>. Obras e vidas: o antropólogo como autor. Rio de Janeiro: Ed. UFRJ, 2002 [1988], p. 11-39.</p>



<p>PÉTONNET, Colette. “Observação flutuante: o exemplo de um cemitério parisiense”. Antropolítica n. 25,<br>2º sem./2008 [1982], p. 99-111.</p>



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<p><strong><strong><strong><strong>Chai Rodrigues </strong></strong></strong></strong>é artista atuando nas artes visuais – fotografia, intervenção urbana e performance arte &#8211; e cênicas – teatro e circo, visando ampliar e integrar as artes e culturas, artistas e cidadãos, para além dos segmentos ditos tradicionais. Principais áreas de conhecimento: Produção de Bens Culturais; Análise de projetos culturais e artísticos; Artes cênicas – teatro e circo; Performance Arte; Audiovisual; Arte Urbana; Arte de Rua; Intervenção Urbana e Fotografia. website: https://www.chairodrigues.com</p>
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		<title>TAYLOR SWIFT: FOLKLORE, ANALOGIAS E MULHERES FATAIS</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 15 Nov 2021 21:26:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 117]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[contextualização da arte]]></category>
		<category><![CDATA[Depredação]]></category>
		<category><![CDATA[Icaro Assini]]></category>
		<category><![CDATA[Militância]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: Rebecca Mello</p>
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<p>O oitavo álbum de estúdio da cantora americana é repleto de nuances e retratos cinematográficos que entregam a habilidade inigualável de Taylor em composições.</p>



<p>É a terceira vez que Taylor escapa do pop convencional. Os álbuns Red (2012) e 1989 (2014) são exemplos explícitos da variedade de gêneros explorados. Mas seja dentro do pop, alternativo ou folk, Taylor se destaca pela narrativa indireta e lírica.</p>



<p>Folklore (2020) é um álbum intimista. Embora seja ambientado em um triângulo amoroso, sendo contado da perspectiva das três pessoas envolvidas e um cenário preto e branco. A escolha de não usar cores, dessa vez, deu à Taylor uma gama infinita de cenários que podem ser explorados de diversas formas, tanto por ela, quanto por quem ouve. <em>Quando vemos algo em preto e branco, não imaginamos só as cores que poderiam estar ali, mas imaginamos também o que as pessoas por dentro de tudo isso estão pensando sobre as cores inexistentes</em>.</p>



<p>Nos lyric vídeos das músicas em seu canal no Youtube, as imagens ultrapassam as sensações e transformam os ambientes nas letras. Todos os vídeos contém cenas de mares violentos, cachoeiras, florestas e luzes.</p>



<p>A música 𝐭𝐡𝐞 𝟏, é a primeira do álbum. Seu vídeo acompanha a imagem de águas cristalinas, refletidas na luz do sol e levemente escurecidas pela paisagem ao redor. A melodia é suave, com elementos folk e pop alternativo. O uso de elementos como palmas, cordas de violão, teclas de piano, dão à música uma atmosfera segura.</p>



<p><strong><em>If my wishes came true, it would’ve been you. / You know the greatest loves of all time are over now.</em></strong></p>



<p>A segunda música do álbum é <strong><em>cardigan</em></strong>. É a terceira música da narrativa do triângulo amoroso citado por Taylor. O mesmo é composto por Betty, Inez e James. Em cardigan, é Betty quem narra os acontecimentos em relação à seu namoro com James, e por fim, acaba o aceitando de volta. No clipe, Taylor adiciona uma certa magia à letra, as imagens variam dela tocando piano em um quarto subterrâneo, em uma floresta, uma avalanche e por fim, o quarto novamente. Esse leva e traz de elementos é perfeito para descrever a intenção de Taylor ao adquirir a persona de Betty na música.</p>



<p><strong><em>When you are young they assume you know nothing. / I knew you’d come back to me.</em></strong></p>



<p>Essas duas frases acontecem exatamente nos momentos cruciais do clipe, respectivamente. A primeira e última vez que Taylor cita essas palavras, ela está no meio de águas violentas, enquanto tenta se segurar no piano, a segunda é ambientada no momento em que Taylor reaparece no quarto, depois do quase afogamento, e veste seu cardigã. Quais as ligações? Quando se é jovem, as pessoas realmente assumem que você não sabe nada, no contexto da música, o 𝑛𝑎𝑑𝑎, quer dizer sobre relacionamentos e sobre si mesmo. Mas Betty sabia de tudo, e sabia exatamente como a história entre ela e James terminaria, tanto, que “eu sabia que você iria voltar para mim”, quer dizer que ela nunca deixou de saber quais seriam os passos de James.</p>



<p>𝒕𝒉𝒆 𝒍𝒂𝒔𝒕 𝒈𝒓𝒆𝒂𝒕 𝒂𝒎𝒆𝒓𝒊𝒄𝒂𝒏 𝒅𝒚𝒏𝒂𝒔𝒕𝒚, é sobre a mansão Rhode Island, e é um comparativo entre a antiga dona da mansão, Rebekah West Harkness e a atual dona, a própria Taylor. O início da narrativa passa pela história de Rebekah e como a imagem dela era deturpada entre os vizinhos, já que ela era uma grande amante de festas de elite. Taylor segue com “ela teve um tempo malévolo arruinando tudo”, em relação à casa e a sua própria imagem na mídia. Existe uma ligação entre as duas, principalmente pelo fato de suposições e histórias distorcidas que viralizaram, tanto em relação à Taylor quanto em relação à Rebekah. A narração segue com Taylor dizendo que a Holiday House (como era nomeada por Rebekah) ficou livre de mulheres loucas, seus maridos e péssimos hábitos por um tempo, até ser comprada por ela. Então Taylor faz um comparativo às duas e se nomeia “a mulher mais barulhenta que a cidade já viu” se referindo ao fato de que ela não é tão normal quanto todos realmente pensam, e ainda adiciona “quem sabe o que poderia ter acontecido se eu não tivesse aparecido” e “eu tive um tempo malévolo arruinando tudo”, em relação à todos os acontecimentos em sua vida pessoal e profissional, já que a Rhode Island é uma mansão usada por Taylor para as festas de 4 de Julho.</p>



<p>Taylor utiliza a música para desligar as pessoas do estereótipo de “mulher louca” só porque ela é livre e independente.</p>



<p>No lyric vídeo, a imagem que temos é a de uma praia, provavelmente perto do nascer ou pôr do sol, enquanto a câmera se move minimamente para os lados, nos dando uma noção de como é a vista da mansão, de quem está dentro dela.</p>



<p>𝒆𝒙𝒊𝒍𝒆 é a quarta música do álbum, em parceria com Justin Vernon (Bon Iver) que também produziu a música. A letra retrata duas pessoas que se esbarraram novamente após a separação. O vídeo no Youtube é representado por uma floresta escura, com uma pessoa caminhando por ela. A atmosfera da música é dolorosa e suas nuances encontram o preto e branco da imagem, principalmente quando a música é cantada por Taylor, que traz uma intensidade maior à música.</p>



<p><strong><em>I think I’ve seen this film before, and I didn’t like the ending.</em></strong></p>



<p>Essa frase, em especial, nos remete muito à todo a estética visual do álbum. Nessa parte da música, o refrão, é possível ouvir a voz de Justin e Taylor, assumindo os papéis citados anteriormente. O “eu acho que já vi esse filme antes” quer dizer que os dois já passaram por um término, e estão revivendo isso de novo, na intenção de tentar melhorar ou consertar as coisas. Tanto que, ao longo da música é possível ver um indício de que os dois tentaram mas acabaram empurrando demais sobre os ombros um do outro, e no fim, desistiram.</p>



<p>A quinta música, 𝒎𝒚 𝒕𝒆𝒂𝒓𝒔 𝒓𝒊𝒄𝒐𝒄𝒉𝒆𝒕, segundo Taylor é sobre uma pessoa que está no funeral de seu antigo objeto de obsessão. Nos aspectos mais profundos da música, ela é um desabafo sobre a vida pessoal de Taylor e também uma metáfora sobre a traição de Scott Borchetta (fundador da Big Machine Records, ex gravadora de Taylor). Borchetta tomou os direitos de músicas antigas da Taylor que mais deram lucro à gravadora, na época em que ela assinou um contrato com a Republic Records. A letra utiliza elementos fotográficos para nos inserir no real sentimento de Taylor. Quando ela canta “se eu me queimar, você vai ser feito de cinzas também” e “e mesmo nos meus piores dias, eu mereci, todo o inferno que você me fez passar?”, em relação à como ela se sentiu quando a história sobre suas músicas veio à tona, já que uma grande negatividade e falsas acusações caíram sobre ela, principalmente por parte de Scott e Scooter Braun. Quando ela se refere à queimar, ela quer dizer que está se machucando sozinha, mas que em algum momento, essa dor vai se alastrar e consumir todos que estão à sua volta.</p>



<p><strong><em>And If I’m dead to you, why are you at the wake? / You had to kill me, but it kills you just the same.</em></strong></p>



<p>Esse trecho nos dá uma completa noção do ponto de vista de Taylor na história. “Por que você está no velório?”, é uma metáfora à Scott fazer parecer que ela está completamente apagada de qualquer imagem relacionada à Big Machine e ele, mas continua insistindo em tentar desmoroná-la. <em>Se você não se importa, por que ainda faz questão de&nbsp; me ver quebrar?</em></p>



<p>A segunda frase descreve perfeitamente o comportamento persuasivo de Scott. “Você precisou me matar, mas isso te mata do mesmo jeito” quer dizer que ele colocou a mão no fogo por algo que não dizia respeito à ele, matando assim, a imagem antiga de Taylor, que costumava ser submissa em relação à sua carreira na época. Mas mesmo que ele tenha arruinado tudo para ela, acabou se arruinando também. Uma comparação com Look What You Made Me Do (2017), é que Taylor diz “a antiga Taylor não pode atender ao telefone agora porque ela está morta”, provavelmente nesse trecho Taylor se referia à constantes ligações que recebia de Scott e Scooter.</p>



<p>O lyric vídeo é composto pela imagem de um mar, à noite, e não existem cores, é apenas a escuridão e a calmaria da água. É como um espelho para os sentimentos de Taylor, mesmo que tudo seja sem vida, ela ainda está segura.</p>



<p>𝒎𝒊𝒓𝒓𝒐𝒓𝒃𝒂𝒍𝒍, é uma música sobre Taylor e como ela acaba refletindo a personalidade de todos à sua volta. Como um espelho refletido em uma forte luz, iluminando todos os cantos existentes em um espaço, esse é o globo de discoteca.</p>



<p><strong><em>And when I break, it’s in a million pieces.</em></strong></p>



<p>Taylor reflete à sua personalidade e o quão frágil ela é em alguns aspectos, a metáfora de “quebrar em milhões de pecados” significa que, assim como um vidro se espatifa no chão em infinitos cacos, ela também se parte em muitos pedaços que às vezes são extremamente difíceis de serem colocados de volta. A música segue com Taylor dizendo “eu posso mudar tudo de mim para me encaixar” em relação à ela costumar se moldar nas críticas e suposições de outras pessoas para continuar sendo admirada, como um espelho que reflete exatamente o que as pessoas querem ver, e não o que elas realmente são.</p>



<p>Taylor também faz uma analogia ao circo, comparando a sua vida com todos os elementos dispostos em um. Como o “eles cancelaram o circo, queimaram a discoteca” se referindo à como a mídia consegue transformar a sua vida pessoal em um entretenimento sem fim, onde eles moldam sua imagem da maneira que entendem e quem o assiste aplaude, aceitando a imagem distorcida que é oferecida. “Eu ainda estou na corda bamba, tentando de tudo para que você ria de mim”, como uma tentativa de mostrar que essa personalidade é midiática e feita para que as pessoas ainda a admirem, uma forma de mostrar que ela pode fazer de tudo para receber a atenção das pessoas. “Eu ainda estou no trapézio, tentando de tudo para que você continue olhando para mim”, essa parte, se refere à sua vida como artista, estar no trapézio é o maior centro de atenção em um circo, onde todos os olhares, quietos e ansiosos, estão presos em um ponto fixo, esperando (ou não) um pequeno deslize.</p>



<p>E é como a vida de Taylor é refletida. Nessa última frase, ela destaca sua própria personalidade, e faz uma referência também à uma de suas falas em seu documentário Miss Americana (2020), onde ela diz que as mulheres na indústria precisam se desdobrar e se reinventar todos os anos, a cada novo projeto, enquanto homens podem continuar na mesma linha de pensamento e nicho artístico, e ainda serão admirados. Ela também diz que chegar aos 30 sendo artista e mulher, é um grande desafio, já que essa é a idade em que muitas perdem a força diante dos olhos do público e da mídia, e de repente tudo que sobra é apenas a vida pessoal em manchetes fantasiosas. O que Taylor quer dizer em mirrorball é que <em>ela ainda vai continuar sendo o centro das atenções, enquanto esse palco estiver aberto para ela</em>.&nbsp;</p>



<p>𝒔𝒆𝒗𝒆𝒏, é sobre a infância de Taylor e possivelmente um amigo que ela costumava ter nessa idade. Taylor narra os problemas que aconteciam na vida dessa pessoa, enquanto ela estava sempre ao seu lado, disposta a ajudar.</p>



<p><strong><em>Your dad is always mad and that must be why / And then you won’t have to cry, or hide in the closet.</em></strong></p>



<p>O “se esconder no armário” é uma referência à, provavelmente, o fato de que essa pessoa estava passando pela descoberta da sexualidade. “Eu acho que você deveria morar comigo” e “assim como uma canção folk, nosso amor será passado adiante”, é demonstração de afeto de Taylor na história, ela também acrescenta “e mesmo que eu não consiga lembrar o seu rosto, eu ainda tenho amor por você” e como essa música é quase como uma lembrança, Taylor se refere ao fato de que não lembra muita coisa sobre essa época de sua vida, mas ainda sim, o amor está vivo e vai durar para sempre.</p>



<p>Essa música também pode ser a Taylor do Folklore tendo uma conversa com a Taylor de sete anos de idade. Onde ela assume os riscos, relembra as complicações e relata um acolhimento que ela mesma não teve na época, consigo mesma, como uma forma de dizer que ela ainda está ali, para todas as suas versões e personalidades.</p>



<p>O lyric vídeo contém a imagem de uma floresta, dessa vez, o sol bate forte e as folhas voam, a calmaria de uma tarde de verão, como a vida de uma criança.</p>



<p>A música 𝒂𝒖𝒈𝒖𝒔𝒕, é a visão de Inez sobre a relação com James. Voltando ao triângulo amoroso citado por Taylor. Nessa música, a persona de Taylor é voltada para Inez, a garota que conheceu e se apaixonou por James, em um verão norte americano, em agosto.</p>



<p><strong><em>August slipped away in a moment in time, cause it was never mine. / You were never mine.</em></strong></p>



<p>Nessa música, a relação de Inez e James é sobre o ponto de vista da garota e como a história deles era na época do colegial. A alusão a um amor de verão eterno e o fato de que ele nunca foi realmente dela, dão à música um ar relativamente melancólico. Ela retrata o quanto o amava e abdicou de muitas pessoas e coisas só para ter ele, mesmo sabendo que no final, ela não o tinha. O vídeo no Youtube conta com uma imagem desfocada de um mar, as cores pastéis e plantas em frente à câmera, tornando a atmosfera um verdadeiro amor de verão que escapou e se perdeu na memória.</p>



<p>𝒕𝒉𝒊𝒔 𝒊𝒔 𝒎𝒆 𝒕𝒓𝒚𝒊𝒏𝒈, é a tentativa de Taylor de reparar uma relação cheia de problemas. Com produção de Jack Antonoff, na música, Taylor lida com diversos fatores pessoais que desencadeiam arrependimentos e acontecimentos inesperados.</p>



<p><strong><em>I didn’t know if you’d care if I came back. I had a lot of regrets about it.</em></strong></p>



<p>Em 2016, durante o tempo em que Taylor se distanciou das redes sociais e permaneceu isolada durante um ano, ela relatou que tinha medo que as pessoas, e até os fãs, não a quisessem de volta, já que uma avalanche de sentimentos foram colocados à flor da pele. “Eles me disseram que todas as minhas gaiolas são mentais” e “minhas palavras atiram para matar quando estou brava”, se referindo à ouvir de muitas pessoas que estava se auto-sabotando e se preparando para o fracasso. Suas palavras machucam quando ela está irritada, porque tudo aquilo se tornou demais para ela, e o que restou foram as decepções e coisas jogadas no ventilador.</p>



<p>“É difícil estar em uma festa quando me sinto como uma ferida aberta, é difícil estar em qualquer lugar quando tudo que eu quero é você”. Nesse trecho, a festa, em questão, é uma referência a eventos onde Taylor precisava comparecer mesmo estando quebrada, porém ela não deixava transparecer.</p>



<p>O “tudo que eu quero é você” é sobre seu antigo eu, antes de tudo simplesmente desmoronar. Taylor nos remete ao sentimento de perda da identidade e está completamente perdida entre o certo e o errado, além de estar nas mãos da mídia, como um todo. “Eu só quero que saiba que isso sou eu tentando”, um desabafo sobre como ela está lidando com a situação, e que isso pode soar estranho, mas é a forma que ela encontrou de se refazer.</p>



<p>No lyric vídeo, um outdoor com o nome da música em um campo aberto. Uma comparação à como Taylor se sentiu sendo exposta e jogada dentro de uma narrativa distorcida, diante dos olhos de todo o mundo.</p>



<p>𝒊𝒍𝒍𝒊𝒄𝒊𝒕 𝒂𝒇𝒇𝒂𝒊𝒓𝒔, é a narrativa sobre um amor proibido e secreto. A narrativa de Taylor se estende desde encontros escondidos à uma intensidade em relação a como esse amor pode se tornar auto-destrutivo.</p>



<p><strong><em>And that’s the thing about illicit affairs. / And clandestine meetings and long stares.</em></strong></p>



<p>Taylor reúne os três pilares de uma relação às escondidas. O ilícito, o encontro confidencial e os olhares que duram mais do que míseros segundos. O que Taylor diz, na verdade, é que todos os amores proibidos são condensados com momentos que duram uma eternidade, porque você nunca sabe quanto tempo isso vai durar até que venha à tona. Em “Você me mostrou cores que sabe que eu não consigo ver com mais ninguém”, significa que, quem quer que seja, ensinou muitas coisas que ela jamais aprendeu antes, 𝑝𝑜𝑟𝑞𝑢𝑒 𝑎𝑚𝑜𝑟𝑒𝑠 𝑠𝑎̃𝑜 𝑑𝑒𝑠𝑐𝑜𝑏𝑒𝑟𝑡𝑎𝑠. “Você me ensinou uma linguagem secreta que sabe que eu não usarei com mais ninguém”, é uma metáfora ao fato de que Taylor e essa pessoa inventaram inúmeras formas de comunicação e entendimento, para que apenas elas soubessem o que estavam sentindo sem que precisassem falar, e 𝑎𝑚𝑜𝑟𝑒𝑠 𝑠𝑎̃𝑜 𝑐𝑜𝑚𝑢𝑛𝑖𝑐𝑎𝑐̧𝑜̃𝑒𝑠 𝑠𝑒𝑚 𝑝𝑎𝑙𝑎𝑣𝑟𝑎𝑠.</p>



<p>A imagem do lyric vídeo é como por um caminho de terra, envolto por árvores e cores neutras. O que faz uma conexão direta com “clandestine meetings”.</p>



<p>A música 𝒊𝒏𝒗𝒊𝒔𝒊𝒃𝒍𝒆 𝒔𝒕𝒓𝒊𝒏𝒈, é uma referência à lenda do fio vermelho, que liga duas almas gêmeas. No primeiro trecho da música, Taylor se refere a um dia comum, a cor verde e como ela não pretendia encontrar alguém. A cor verde, geralmente é associada a novos começos e é também a cor que remete à vida, sendo assim, quanto Taylor diz “Verde era a cor da grama”, ela quer evidenciar que isso era um recomeço.</p>



<p><strong><em>And isn’t it just so pretty to think. All along there was some invisible string, tying you to me?</em></strong></p>



<p>Uma referência ao fato de que nós nunca realmente sabemos quando encontramos nossa alma gêmea, porque, de alguma forma, ela nos encontra. A corda invisível é o elo de ligação etéreo, e ele jamais pode ser quebrado. “Tempo, místico tempo, me cortando e me curando”, Taylor se refere à como o tempo tende a quebrar e consertar, machucar e cuidar, fechar e abrir. E nesse caso, ele a deixou sofrer, apenas para que ela pudesse encontrar motivo para continuar depois. Porque o tempo nunca erra, <em>se você dá a ele confiança, ele te devolve liberdade.</em>&nbsp;</p>



<p>“Uma corda que me puxou de todos os braços errados”, aqui, Taylor nos mostra como essa ligação a libertou de muitos erros do passado e relacionamentos conturbados. Estar nas mãos erradas, para ela, significava não saber exatamente o que era o amor. O lyric vídeo é uma imagem acima das nuvens, como uma linha invisível que separa o céu da terra, são duas distinções sendo ligadas por uma força maior.</p>



<p>𝒎𝒂𝒅 𝒘𝒐𝒎𝒂𝒏, é uma música, assim como the last great american dynasty, sobre a vida pessoal de Taylor. A letra é uma conexão entre o conceito de uma mulher “delirante” e a personalidade de Swift.</p>



<p><strong><em>Every time you call me crazy, I get more crazy. What about that?</em></strong></p>



<p>Taylor se refere à como as pessoas a enxergam e como ela mesma se vê diante das críticas. Ela retrata que, se alguém não gosta de como ela é ou está sendo apresentada em sua música, ela vai continuar com isso, porque é isso que ela é. “Ninguém gosta de uma mulher louca”, assim como citado anteriormente, Taylor se refere à ela mesma como uma pessoa de espírito livre e independente, então, é isso que ela quer dizer, as pessoas não gostam de mulheres loucas sendo o centro das atenções, muito menos sendo libertas das amarras de um estereótipo feminino submisso. Em Don’t Blame Me (2017) ela canta “Eles estão queimando todas as bruxas, mesmo que você não seja uma” e “As mulheres gostam de caçar bruxas também” em 𝑚𝑎𝑑 𝑤𝑜𝑚𝑎𝑛, uma forte ligação à misoginia escancarada na indústria musical e como as feministas se tornaram bruxas na dentro da sociedade. Mas, Swift aqui, nos traz isso como uma maneira de mostrar que mulheres são poderosas. Queimar bruxas é uma maneira de silenciá-las. O “mulheres gostam de caçar bruxas” é uma metáfora ao fato de que a indústria musical, no geral, é comandada por homens e acaba transformando mulheres em rivais.</p>



<p>A música tem uma forte ligação à my tears ricochet e as inúmeras artimanhas de Bortchetta e Braun para tentar desestabilizar Taylor. “É óbvio que me querer morta trouxe vocês dois juntos”, uma maneira de Taylor dizer que, a perseguição contra ela uniu os interesses dos dois em relação aos seus seis primeiros álbuns de estúdio na Big Machine. “Você tomou tudo de mim, estou assistindo você escalar sobre pessoas como eu”, se referindo à como Scott e Scooter pretendiam vender as músicas de Taylor para gerar lucro à antiga gravadora e como eles usaram a fama e facilidade de Taylor em sempre estar e permanecer no topo para conseguir algum triunfo. “Que pena ela ficar brava, você a fez assim”, logo após o incidente com Borchetta e Braun, Taylor relatou a história em suas redes sociais e recebeu apoio imediato de muitas pessoas, o “ficar brava” significa que ela cansou de ficar calada e se manter neutra em relação à sua própria carreira.</p>



<p>O lyric vídeo é uma imagem de um fogo ardente. E isso simboliza as bruxas e as mulheres loucas, <em>porque as mulheres loucas queimam, as mulheres loucas renascem e as mulheres loucas são eternas</em>.</p>



<p>𝒆𝒑𝒊𝒑𝒉𝒂𝒏𝒚, é uma música sobre querer viver em um sonho para despistar a realidade. Isso tem uma conexão com todos os acontecimentos trágicos na vida de Taylor e como, tanto no hiatus, quanto na atual situação em que o 𝑓𝑜𝑙𝑘𝑙𝑜𝑟𝑒 foi produzido, a realidade não parecia a melhor escolha.</p>



<p><strong><em>With you I serve, with you I fall down. Watch breath in, watching you breathing out.</em></strong></p>



<p>O álbum foi uma válvula de escape para tudo o que estava acontecendo no momento. A pandemia do Covid-19 isolou o mundo inteiro. Quando ela diz “Com você eu sirvo, com você eu caio” ela quer representar todas as pessoas que estão na linha de frente, assim como ela também quer dizer que está com todos eles. “Observo você inspirar e expirar”, é como se ela estivesse reproduzindo a imagem de alguém ressonando enquanto outra pessoa a assiste, em uma forma de cuidado. Taylor também cita inúmeros elementos que nos remetem às milhares de pessoas atingidas pela pandemia e pela doença.</p>



<p>“Apenas um vislumbre de alívio, para você ter noção do que acabou de ver” em relação aos médicos que estão à todo tempo, se desdobrando em mil e um para ajudar a todos. O lyric vídeo contém a imagem de um céu, com algumas nuvens acinzentadas, como uma metáfora sobre o tempo se fechando e acabando diante dos nossos olhos.</p>



<p>A música 𝒃𝒆𝒕𝒕𝒚, é a visão de James e fecha o ciclo do triângulo amoroso no álbum. Na música, Taylor adquire a persona de James.</p>



<p><strong><em>The worst thing I ever did. Was what I did to you.</em></strong></p>



<p>Nesse trecho, a visão sobre a traição se torna um arrependimento. Durante a música, é possível ver uma tentativa de reconciliação e inúmeros cenários construídos para narrar o quanto James quer Betty de volta. “Você vai me guiar até a jardim, no jardim, você acreditaria em mim se eu dissesse que foi uma coisa de verão?” Taylor, aqui, tenta explicar como um deslize não pode acabar com algo sólido. “Eu tenho apenas dezessete anos, eu não sei de nada”, um paralelo ao “Quando você é jovem as pessoas assumem que você não sabe nada” em 𝑐𝑎𝑟𝑑𝑖𝑔𝑎𝑛. James está receoso e perdido, enquanto Betty sabe exatamente quais os próximos passos do garoto. “Parado com o seu cardigã, beijando em meu carro de novo” e “Você sabe que eu sinto a sua falta” são os elos de ligação entre Betty e James. Quando em 𝑐𝑎𝑟𝑑𝑖𝑔𝑎𝑛, Taylor canta “E eu me senti como um cardigã velho” ela quer dizer que o amor não é mais o mesmo, está desgastado, e James relembra isso e o reutiliza para mostrar à ela que ainda não a esqueceu. No lyric vídeo, a imagem de grades e o início de uma floresta, dão indícios de um amor jovem que aconteceu no colegial.</p>



<p>Em 𝒑𝒆𝒂𝒄𝒆, Taylor nos insere em sua visão madura sobre romances. Ela descreve como um relacionamento pode ser quente e apaixonante, mas isso não o torna aberto para um sentimento de paz.</p>



<p><strong><em>Give you my sunshine, give you my best. But the rain is always gonna come if you’re standing with me.</em></strong></p>



<p>Taylor cria uma metáfora para se referir à inconstância em relação à sua personalidade e estabilidade emocional. Ela também canta “Te dei o silêncio que só vem quando duas pessoas se entendem”, se referindo à como duas pessoas podem simplesmente entender uma a outra sem a necessidade de palavras. “Eu morreria por você em segredo” essa frase, nos remete à como Taylor costuma manter algumas coisas guardadas e longe do público, quando ela diz que “morreria em segredo” ela demonstra certa devoção por essa pessoa, e mesmo que viver com ela seja perigoso e não traga paz, ela ainda enfrentaria céu e inferno para manter a pessoa por perto. No vídeo, uma imagem de um céu com nuvens cinzas e escuras escondendo os poucos vestígios do sol, isso faz conexão com a música e mostra o quanto a paz e o perigo estão se sobressaindo, assim como na imagem, as nuvens nos remetem ao perigo, cobrindo os últimos resquícios de claridade e paz existentes.</p>



<p>A última música da jornada melancólica do 𝑓𝑜𝑙𝑘𝑙𝑜𝑟𝑒, é 𝒉𝒐𝒂𝒙. Aqui, Taylor narra a luta interna entre querer continuar em um relacionamento, mesmo recebendo muitos impasses nesse processo.</p>



<p><strong><em>Don’t want no other shade of blue but you.</em></strong></p>



<p>A cor azul é muito comum nas composições de Taylor. Em Cruel Summer (2019) ela canta “a forma do seu corpo é azul” e “eu estou com você mesmo que isso me deixe azul” em Paper Rings (2019). O azul remete à melancolia e a tristeza. Quando Taylor diz “não quero nenhum outro tom de azul além de você” ela quer dizer que está acostumada com tudo que conhece e entende dessa pessoa, e que nenhuma outra vai ser tão avassaladora quanto essa. E o fato de que Taylor percebe que essa relação tem muitas falhas e admite mesmo assim que quer continuar com isso, transforma a música em uma metáfora sobre “se refazer para manter o outro”.</p>



<p>O lyric vídeo mostra a imagem de águas turbulentas se chocando contra as rochas, em um cenário azul. Isso remete ao fato de que Taylor é como a água, inconstante, e o relacionamento é como a rocha, que aguenta tudo e todas as mudanças.</p>



<p>Por fim, Taylor Swift é uma mulher fatal dentro da música. Seja em qualquer gênero que ela tente ingressar, o sucesso é certeiro, mas lembre-se, não se pode aprisionar uma mulher pensando que ela não vai conhecer a liberdade, a liberdade feminina é a dádiva da indústria musical.</p>



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<p><strong>Rebecca Mello</strong> é futura estudante de Jornalismo, apaixonada por escrever resenhas sobre música e cinema, com projetos de poesia e design em inglês no Instagram. Já escreveu para alguns sites e tem o seu próprio blog pessoal para publicação de portfólio, também sobre a quarta e a sétima arte.</p>
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		<title>UM DIA, ELE VOLTA</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 15 Nov 2021 21:23:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 117]]></category>
		<category><![CDATA[Criatividade]]></category>
		<category><![CDATA[Vinícius Lara]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Vinícius Lara</p>
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<p>Desde bem pequeno ele precisava lidar com uma maldição estranha. As pessoas diziam sempre, “<em>Vai Sebastião, você consegue”</em>, ou então, “<em>Meu filho, como você é abençoado! Nada nessa vida há de faltar”.</em> E ele ia, conseguia até, mas o fim era sempre muito parecido. Com a faca e o queijo na mão, faltava fome ao Sebastião. Não pensem que isso fazia com fosse triste, não. De modo semelhante, ele também não era feliz. Sebastião era normal, absolutamente mediano e concretamente vulgar. Mesmo tendo feito anos de terapia, nunca foi capaz de se curar de si, da mesma forma que não o curaram. Sempre me pareceu mais uma coisa de astrologia que de genética. Vocês vão concordar comigo.</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Para começar, nasceu em agosto, no dia dezessete. Meio do ano? Não, mas também não é início nem final. Que é que se deu em dias dezessete e que valha a pena? O Combate da Roliça? A primeira reunião dos narcóticos anônimos? O nascimento de Elba Ramalho, de Zezé de Camargo, de Diogo Antônio Feijó? Pessoas de alguma forma até importantes, mas não importantes demais. Veja só, ninguém questiona o padre Feijó ou a Roliça, mas o mundo poderia ter passado sem eles, o Brasil poderia. Sebastião estava no limite.</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Se era bonito eu também não sei, e digo isso menos por pudores masculinos do que por desajeito de visão. Ele tinha o rosto assim meio gordo, mas com ossos aparecendo nas bochechas. A pele era clara, mas aqui e ali apareciam olheiras e outras marcas de tempo e de sol. Quando sorria, podíamos ver que tinha todos os dentes na boca, só que eram amarelados. Ria um riso nem muito alto, nem muito baixo, e o que mais chamava a atenção era como um lado do rosto &#8211; o direito &#8211; ria mais do que o outro. Sebastião tinha um riso torto, uma boca torta, mas acredita que eram harmoniosamente tortos?</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Gordo ele não era também. Olhando de fora eu daria uns setenta quilos, mas o Sérvulo, do açougue, tinha certeza de que seriam uns oitenta e sete. Pois é, como todos no bairro conheciam o Sebastião, mas não o suficiente, era comum quando ele passava, que nós ficássemos apostando e tentando adivinhar alguma coisa sobre sua vida, o período que serviu o exército, seu casamento &#8211; se é que foi casado. As principais discussões eram sobre banalidades como o peso, o tamanho da pica, o número de calçado &#8211; todos sabem o quanto estes dois itens se relacionam -, se ele namorou ou não aquela morena que mora na rua da esquina com o colégio. O mais interessante, pensando aqui, é que mesmo nesses momentos jamais alguém dizia coisas exageradas sobre ele. Nunca uma suspeita de morte, de crime, de fuga espetacular. Ele estava ali, morava por ali, passava por ali.</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A impressão que me dava era de que Sebastião era todo contado. Cada pedaço seu era o suficiente para que não faltasse, e também para que jamais sobrasse. No tempo em que os deuses eram muitos e outros, em que eram mulheres também, tenho a sensação de que ele seria um sacerdote de Nêmesis. Amor demais? Melhor cortar. Dor demais? É justo que se acalme. A medida é a salvação do gozo, e só sofre quem quer demais, por isso, como uma espécie de procurador da justiça distributiva, qualquer desmesura estaria fora. Comer demais constrange os famintos, namorar demais incomoda os feios, dormir demais ralha com os operários. É muito mais seguro estar ali no meio, balançando os quadris de um lado para o outro como quem segura um bebê que precisa cochilar no colo &#8211; se for em duas dimensões &#8211; ou como quem mete com ritmo &#8211; se for em três. Importante é deixar uma pontinha de cada lado a cada vez. Esse é o homem.</p>



<p>Aconteceu, no entanto, que um dia ele deixou de passar na rua, como era o costume. Pouco foi preciso para que o desregulamento do Sebastião bagunçasse todo o Sagrado. Em cada rua alguém esperava que iriam encontrá-lo saindo da banca, da quitanda, da farmácia… Provavelmente teria um resfriado, nada demais, ou naquele dia resolveu cuidar das plantas que ficavam no corredor lateral da casa. Ele deveria estar por ali sim, era uma questão de olhar com jeito. Um homem que fazia o mesmo caminho há mais de trinta anos, um herói da mesura e do recalque, Sebastião era um exemplo na comunidade. Em algum momento ele iria aparecer com um guarda-chuva nas mãos dizendo que não tinha saído ainda porque estava em dúvida se iria ou não chover. Todos ririam daquele homem de meia idade com um capote nas mãos enquanto o dia era claro e quente.</p>



<p>Mas ele não apareceu, nem no primeiro dia, nem no segundo, nem no terceiro. Como sabíamos de cor a rotina daquele sacerdote da temperança, a polícia foi avisada, colocaram um punhado de cartazes lambe-lambe nos muros e postes: “<em>Procuram-se Sebastião Ribeiro. Sujeito comum e de boa praça</em>”. O texto foi escrito assim mesmo, com essa imprecisão do vernáculo, afinal, quem tomou as tintas imaginava que Sebastião nunca iria discordar de seus conterrâneos e por isso, procurar deveria concordar com o número dos que estavam atrás dele, e não do sumido. Um erro de concordância formal, mas questionável, afinal, todos concordavam que era fundamental encontrar o sujeito.</p>



<p>O primeiro lugar onde deveríamos ter olhado, é óbvio, seria a casa do Sebastião, mas por ser tão óbvio assim, foi o último. Olhamos nas igrejas católica e protestante, em um centro espírita que guardava as pessoas em uns quartinhos nos fundos, para que dessem santo &#8211; vai que Sebastião dava Oxóssi? Fomos também na beirada do rio do peixe, e nalgumas casas de facilidade ali da região, onde sabíamos que viviam mulheres nem tão bonitas nem tão feias, daquelas mesmas que sabíamos que ele gostava. Mas nada, em nenhum desses lugares havia sequer rastro do homem. Foi aí que decidimos arrombar a casinha dele.</p>



<p>Imaginem vocês uma casa bem pequena, nem dois quartos tinha. Janela de madeira, bem cuidada, ainda que descascada pelo tempo. Contornando as janelas da frente e a porta, uma moldura pintada em azul celeste. No corredor ao lado da residência, que dava para os fundos, algumas plantas bem cuidadas, mas sem flores. Dava para se ver no quintal dois varais, um com um lençol e outro com algumas cuecas. Tudo esticado, bem lavado, seguro. A multidão de fronte à casa do Sebastião estava agitada. E se ele estivesse morto ali dentro? Não estaria, porque o cheiro teria denunciado. Então ele foi sequestrado. Talvez tivesse sido, mas como saber? Será que um bandido experiente teria levado o homem sem família exatamente porque sabia que a cidade toda tinha o adotado? O resgate seria altíssimo, o que com certeza não se faria problema para nós.</p>



<p>Ali, diante da casinha hermeticamente fechada, a tensão no ambiente poderia ser segurada com as mãos. Sherlock Holmes não encontraria as pistas. Não existiam pistas. O Nicolau, filho do outro Sebastião, que foi o primeiro chaveiro da cidade, acompanhado pelo guarda e pelo vice-prefeito, primeiro abriu o portão de fora, com cuidado. A multidão se espremeu um pouco mais, enquanto ia sendo contida pelos gritos de alguém que falava “<em>Devagar, devagar, primeiro as autoridades</em>”. Ninguém ouvia, é verdade, mas se não falassem dariam falta. Enfim a porta estava aberta.</p>



<p>No interior da sala tudo bem arrumadinho. Sofá, rádio, uma samambaia presa no teto. Sobre o portal que dava acesso ao quarto uma bandeira do sagrado coração de jesus. Nenhum sinal de luta, de violência, de crime. O guarda foi quem viu que no quarto, ao lado da cama perfeitamente arrumada estava um pedaço de papel rasgado com vários rabiscos, como se o Sebastião estivesse brincando de riscar paredes. No verso, porém, quem estava lá dentro podia ler “<em>Cansei</em>”. É verdade que estava escrito “<em>Cansei dessa merda</em>”, mas a memória não saberia guardar um santo boca suja. Sebastião evaporou.</p>



<p>Chegou-se à conclusão de que não se matou, afinal, quando foram examinar seu guarda-roupa, a gaveta das cuecas estava vazia. As do varal eram poucas demais. Sebastião se desmaterializou com suas cuecas e meias.</p>



<p>Mesmo vivo a cidade fez luto. Bandeira semi hasteada por três dias, por ordem do prefeito. Sem família, o espólio da casa ficou para a municipalidade, que depois de alguns anos transformou o lugar em uma biblioteca infantil. Biblioteca Municipal Irmão Sebastião Vivente. Não era esse o sobrenome dele, é claro, mas era um desejo honesto. Aos poucos a lenda deu lugar às efemérides. A merda sumiu do bilhete, ficando só o cansaço. Uma dinâmica altamente seletiva, como deve ser. Desde então todos esperam que Sebastião volte, e isso já faz mais de quinze anos.</p>



<p>Um dia, conversando com um vendedor de bíblias que tinha vindo do Rio de Janeiro, ele me disse que em Portugal também esperavam a volta de um Dom Sebastião, e isso há mais de quinhentos anos. Se esperavam a volta de um Sebastião desconhecido por tanto tempo, que será do nosso? Foi quando me acomodei ao tempo desregulado&#8230;</p>



<p>Nosso sebastianismo é vivo até hoje. Um homem medíocre faz tanta falta. Olhar para quem anda sempre no meio, faz os dois lados parecerem menos piores.</p>



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<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:22% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img loading="lazy" decoding="async" width="853" height="853" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/45587-vinicius-lara.png?resize=853%2C853&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-13649 size-full" srcset="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/45587-vinicius-lara.png?w=853&amp;ssl=1 853w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/45587-vinicius-lara.png?resize=300%2C300&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/45587-vinicius-lara.png?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/45587-vinicius-lara.png?resize=768%2C768&amp;ssl=1 768w" sizes="(max-width: 853px) 100vw, 853px" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong>Vinícius Lara&nbsp;</strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong>é psicanalista, historiador, fotógrafo amador e um apaixonado pelo absurdo.</p>
</div></div>



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		<title>PROMETEU</title>
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		<pubDate>Mon, 15 Nov 2021 21:21:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 117]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Marina Alexiou</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<pre class="wp-block-verse"><em>&lt; a primeira coroa foi uma homenagem de Zeus a Prometeu
...como dádiva para o homem mais ambíguo em relação aos deuses, ameaça e salvação. &gt;</em> *

Rosto duro e impenetrável
como a rocha que o ata em suas correntes eternas.
Desta vez não se trata do caminho de ascensão da alma 
mas do Amor pela humanidade.
A infinidade dos dias não esmorece aquele que uma vez foi ditoso.
As nuvens comparecem para a reunião deliberativa dos céus
que cairão sobre seus ombros mais uma vez.
E o caminho das ondas se faz ouvir, 
misto de lúgubre augúrio e profundidade certeira.
O ser indômito que jaz sobre correntes, não quer falar
apenas chora o seu desígnio tão brutalmente recebido, 
embora impossível fosse um outro apelo.
Titã que sofre com toda a sua alma
por um destino exercido a partir do seu remoto ponto de origem 
e que o faz uno com a adversidade, 
É o criador da esperança da vida eterna
para as sementes assim regadas pelo fogo divino do espírito.

* Roberto Calasso

</pre>



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<p><strong>Marina Alexiou</strong> é mestre em Filosofia pela PUC/SP e estudiosa das Artes. Escritora de prosas poéticas desde 2009, participou do livro “Coimbra em Palavras&#8221;, &nbsp;lançado em Portugal em 2018. Gosta de colecionar belas imagens, pois elas a levam para o seu mundo simbólico inspirando a sua escrita.</p>
</div></div>



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