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	<title>Arquivos Ano 001, N 023 - Revista Trama</title>
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	<description>Arte, Cultura e Criatividade</description>
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		<title>Sensibilidade: Modos de Olhar para Dentro</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 17 Nov 2019 20:28:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 001, N 023]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[educação]]></category>
		<category><![CDATA[educativo]]></category>
		<category><![CDATA[Frederico Lopes]]></category>
		<category><![CDATA[medicção]]></category>
		<category><![CDATA[museu]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: Frederico Lopes</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="has-drop-cap">No dia a dia do educativo de um Museu, durante a visitação, esperamos que o visitante se sinta estimulado a confrontar suas noções sobre arte, cultura, criatividade, diversão, conhecimento, etc, com outras visões de mundo e possibilidades de entendimento. Entretanto, para que essa tarefa seja realizada, precisamos deslocar o visitante de sua zona de conforto, para um lugar onde a certeza sobre esses conceitos encontra-se em suspensão. Portanto, buscamos despertar sua curiosidade a partir de reflexões que apontam outros caminhos para ler e interpretar as próprias experiências, provocando cada indivíduo que visita o museu a questionar, a partir da experiência museológica, aspectos relacionados à própria vida.</p>



<p>Nesse sentido, precisamos constantemente nos voltar para a atuação dos educadores no momento da mediação, pensando sua formação para além de seu repertório de conhecimento, criando estratégias para aperfeiçoar uma ferramenta extremamente eficaz para o desempenhar suas atividades: a sensibilidade. E esse é um texto sobre sensibilidade.</p>



<p class="has-text-color has-background has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color">Podemos dizer que a sensibilidade é responsável pelo potencial de interpretação e associação de nossa capacidade perceptiva sensorial. É uma característica humana, algo que nos difere como seres vivos em nosso processo cognitivo. </p>



<p>Se considerarmos que a consciência da própria existência é um avanço no que diz respeito à sensibilidade de um ser vivo, o homem pode ser analisado, a partir daí como <em>ser ontológico</em>, um <em>ser sensível</em>.</p>



<p>Não tenho a pretensão de entrar em detalhes acadêmicos ou expor conceitos filosóficos sobre a existência humana para falar de sensibilidade, mas algumas noções vão nos ajudar a entender a importância de ser e estar cada vez mais sensível para encarar um processo como a mediação.</p>



<p>Ao atuar como educador em espaços não formais de educação, encaramos a responsabilidade de exercer práticas  políticas e práticas estéticas. No momento da mediação, é preciso compreender o visitante em sua complexidade, sua realidade intelectual, cotidiana e psicológica, encontrar pistas sobre seu repertório e seus interesses, para que a experiência de se visitar o espaço seja algo que fale também sobre as interseções com sua vida. </p>



<p class="has-text-color has-background has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color">A mediação é um espaço aberto à partilha, passível de se tornar um lugar compartilhado. Conforme avançamos rumo à profundidade dos interesses do indivíduo que se submete à mediação, abrimos as portas de nossa percepção para interpretar os novos dados que se apresentam, assim, criamos um território onde o conhecimento partilhado constrói novas interpretações da realidade. Por isso a sensibilidade é tão importante.</p>



<p>Para Rancière, existe um sistema de evidências sensíveis que revela a existência de um <em>comum</em>, e dos recortes que nele definem lugares e partes respectivas (RANCIÈRE, 2018). </p>



<p>Nas palavras do autor, </p>



<p class="has-text-align-right has-small-font-size">Essa repartição das partes e dos lugares, se funda numa partilha de espaços, tempos e tipos de atividade que determina propriamente a maneira como um <em>comum</em> se presta e como uns e outros toam parte nessa partilha. </p>



<p class="has-text-align-right has-small-font-size">(RANCIÈRE, 2018. pág 15)</p>



<p>Assim, a partilha do sensível faz ver quem pode tomar parte no <em>comum</em> em função daquilo que faz, do tempo e do espaço em que essa atividade se exerce, e, para encontrar o comum e questão, é preciso que as partes se identifiquem.</p>



<p>Por este motivo, fazer provocações que coloquem o visitante em condições de revelar a parte onde habita seu lugar de fala é fundamental para que o relacionamento construído durante a experiência no museu tenha condições de adentrar no contexto pessoal de cada indivíduo.</p>



<p>Sendo assim, é imprescindível que os educadores tenham como objetivo realizar uma arqueologia de si mesmos. Que tenham como hábito a criação de estratégias para voltar seus olhares para dentro, inaugurando novos modos de olhar para si, para o outro e para o mundo. Desse modo, adentrando em camadas cada vez mais profundas de sua existência e subjetividade, cada educador pode desenvolver suas faculdades humanas a ponto de trazer para a superfície formas mais sensíveis de ler e interpretar a realidade, deixando à flor da pele tudo aquilo que o define e que vale a pena a partilha.</p>



<hr class="wp-block-separator" />



<p><strong>Frederico Lopes</strong> é Artista, educador e gostaria de ser Escritor. Trabalha no Memorial da República Presidente Itamar Franco e é fundador da Bodoque Artes e ofícios.</p>



<hr class="wp-block-separator" />



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.artebodoque.com/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/a89c8-publi-bodoque2.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-4736" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<hr class="wp-block-separator" />



<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color">Clique na imagem acima e acesse a loja virtual da Bodoque!</p>



<hr class="wp-block-separator" />



<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-large-font-size has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color">Galeria</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/293f0-julia-sa-3-.jpg?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-3415" data-recalc-dims="1" /></figure>



<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-medium-font-size has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color"><em>Apoie pautas identitárias. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>



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		<title>O Ódio ao Indígena Sangra a América</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 17 Nov 2019 20:27:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 001, N 023]]></category>
		<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Hélio Rocha]]></category>
		<category><![CDATA[indígena]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: Hélio Rocha</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="has-drop-cap">Nas duas últimas semanas, presenciamos dois bárbaros ataques aos povos indígenas latinoamericanos, um eles no Brasil. O líder ambientalista e defensor dos povos indígenas Pedro Guajajara foi morto no Maranhão, por líderes garimpeiros que encontram legitimidade e proteção no atual Governo brasileiro. Uma semana depois, o único nativo a governar um país neste continente de origem indígena, o presidente boliviano Evo Morales, foi deposto do cargo ao qual foi eleito ainda este mês, num golpe de Estado que ganha contornos de barbárie.</p>



<p class="has-text-color has-background has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color">Tais fatos e outros tantos evidenciam o quanto a população colonizadora, ainda que não responsável pela herança das invasões do século XVI, não consegue lidar com a realidade de que os donos desta terra são os povos nativos e, se hoje é impossível restituí-la, ao menos se deve garantir sua segurança social, territorial e cultural, além de efetiva participação nas tomadas de decisão do Poder Público. Quando abrem canais de articulação, estes são obstruídos ou perseguidos, conforme ensina o caso boliviano. E de acordo com o caso brasileiro, a busca da integridade territorial tem por consequência a ameaça à vida.</p>



<p>Entre recuos e massacres vivem os povos indígenas latinoamericanos há 500 anos, desde que as invasões europeias trouxeram os colonizadores, Tomé de Sousa, Francisco Pizarro, Hernán Cortez os mais conhecidos. E seria fácil evocar Eduardo Galeano para evidenciar o quão violada foi a América Latina e, consequentemente, seus povos indígenas. Inclusive, nas páginas de sua obra magna “As veias abertas da América Latina”, Galeano descreve o quanto a Bolívia teve toda sua prata e ouro subtraídos em cidades como Potosí e Cochabamba (de onde vem Evo Morales), para transformarem-se hoje em pobres cidades dependentes do extrativismo vegetal.</p>



<p>Entretanto, como é proposta desta coluna discutir os problemas sociais à luz de antigas lições manifestas em linguagens acessíveis, hoje vamos falar de cinema. A cinebiografia Joaquim, de Marcelo Gomes, conta a história de Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, não do ponto de vista do membro da Conjuração Mineira que foi morto pelos portugueses ao ser o único elemento popular num grupo de fidalgos rebeldes. O filme narra a trajetória do alferes Joaquim, antes de conhecer o movimento de revolta contra a metrópole. Durante a narrativa, ele recebe a ordem de realizar uma expedição no interior de Minas conhecido como “sertão proibido”, cujos perigos indispunham o avanço ou exploração pelos colonos. O objetivo é encontrar minas de esmeraldas.</p>



<p>Joaquim leva consigo, além de outros soldados, um negro, escravo, e um índio, cativo. O escravo é o mais apto ao trabalho pesado, acostumado nas fazendas. O índio, dono das terras, as conhece e sabe seus caminhos e perigos. Entretanto, entre todos no grupo, os dois são aqueles maltratados e postos de lado quando em momento de descanso. Em cena emblemática, que deveria constar nos almanaques do cinema nacional, enquanto o grupo de brancos dorme depois de celebrar e se embriagar após a presunção de descoberta de uma mina, o negro e o índio iniciam, a princípio distantes e cada um a sua maneira, cantos de lamentação pelo sofrimento e a terra perdida. Ao perceberem um ao outro, juntam-se e completam-se numa melancólica e marcante melodia.</p>



<p class="has-text-color has-background has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color">Numa terra de escravos e indígenas, poucas iniciativas reais existiram para que fique no passado a melancolia dos cantos africanos e indígenas, que determinaram o canto triste e as letras repletas de lamento de muitos sambas de raiz e enredo, muitos dos quais honram a cultura e a resistência também dos povos indígenas. Em nossa história, dois momentos de contato respeitoso e conservacionista foram realizados, um no ínicio do século XX com as expedições do marechal Cândido Mariano da Silva Rondon para mapeamento da Amazônia, outro na década de 1960 com as expedições os irmãos Villas Boas para a fundação do Parque Indígena do Xingu (hoje ameaçado).&nbsp;</p>



<p>Lidar de forma cidadã com os nossos indígenas e permitir-lhes participação social, àqueles que desejam integrar-se total ou parcialmente à organização social majoritária, é parte sensível para a quebra dos paradigmas lastreados no ódio às diferenças vistos hoje no continente. Se, no Brasil urbano, onde está concentrada a ampla maioria da população brasileira, o ódio ao indígena não é percebido, no rural ele provoca morte aos índios e aos seus defensores. E, num breve olhar para os nossos vizinhos, percebe-se que a chaga do ódio ao indígena se vê latente e irmanada com o ódio aos pobres, o que ocorre agora na Bolívia.</p>



<hr class="wp-block-separator" />



<p><strong>Hélio de Mendonça Rocha</strong> é jornalista. Atua como repórter de meio ambiente e direitos sociais para a revista Plurale e como analista político para os jornais Brasil 247 e El Siglo de Chile. Foi correspondente internacional na China em 2019.</p>



<hr class="wp-block-separator" />



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.artebodoque.com/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/1976d-publi-bodoque.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-4491" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<hr class="wp-block-separator" />



<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-large-font-size has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color">Galeria</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/1e338-fotos-carol-copy.jpg16-1021x1024.jpg?resize=950%2C953&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-4523" data-recalc-dims="1" /></figure>



<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-medium-font-size has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color"><em>Apoie tradições populares. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>



<hr class="wp-block-separator" />


<div class="wp-block-jetpack-contact-form"><a href="https://revistatrama.artebodoque.com/2019/11/17/o-odio-ao-indigena-sangra-a-america/" target="_blank" rel="noopener noreferrer">Envie um formulário.</a></div><p>O post <a rel="nofollow" href="https://revistatrama.artebodoque.com/2019/11/17/o-odio-ao-indigena-sangra-a-america/">O Ódio ao Indígena Sangra a América</a> apareceu primeiro em <a rel="nofollow" href="https://revistatrama.artebodoque.com">Revista Trama</a>.</p>
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		<title>Democracia Líquida</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 17 Nov 2019 20:26:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 001, N 023]]></category>
		<category><![CDATA[Poésis]]></category>
		<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[democracia]]></category>
		<category><![CDATA[Gabriel Garcia]]></category>
		<category><![CDATA[poesia]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: Gabriel Garcia</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<pre class="wp-block-verse">As mulas circulavam felizes<br>Carregando grandes volumes<br>Sem o menor incômodo<br>Muito pelo contrário<br>Pareciam satisfeitas por demais<br>Quanto mais peso suportavam<br>Comiam ração de péssima qualidade<br>Que lhes estragavam a saúde<br>Os dentes<br>Mas estavam contentes<br>Era um ritual hebdomadário<br>Socialmente valorizado<br>Na comunidade mulesca<br>Programa familiar<br>Quem não há de se encantar<br>Observando a algazarra<br>Com brinquedinhos de plástico retangular<br>Dos devotos empolgados reunidos<br>No shopping?<br>Não penso, logo consumo.</pre>



<hr class="wp-block-separator"/>



<p><strong>Gabriel Lopes Garcia</strong> é poeta. Atua como professor de Física nas horas vagas.</p>



<hr class="wp-block-separator"/>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/a89c8-publi-bodoque2.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-4736" data-recalc-dims="1"/></figure>



<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background">Clique na imagem acima e acesse a loja virtual da Bodoque!</p>



<hr class="wp-block-separator"/>



<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-large-font-size">Galeria</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/3552a-julia-sa-1.jpg?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-3413" data-recalc-dims="1"/></figure>



<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-medium-font-size"><em>Apoie pautas identitárias. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>



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<div class="wp-block-jetpack-contact-form"><a href="https://revistatrama.artebodoque.com/2019/11/17/democracia-liquida/" target="_blank" rel="noopener noreferrer">Envie um formulário.</a></div>


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		<title>Onde Mora o Tempo</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 17 Nov 2019 20:25:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 001, N 023]]></category>
		<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Luci Sallum]]></category>
		<category><![CDATA[onde mora o tempo]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: Luci Sallum</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="has-text-align-center"><em>“Gostosura da vó!” </em></p>



<p class="has-drop-cap">Assim, ela me recebia na roça quando eu chegava para visitá-la. Da cozinha ela vinha arrumando o arquinho que teimava em escorrer pela testa e me dava um abraço forte. O corpo magro, o cabelo incrivelmente branco e liso, o maço de cigarro no sutiã e o isqueiro na cintura da calça. As mãos sempre em movimento, nunca em paz. A voz rouca de fumante, a pele craquelada de agricultora. Eu digo que ela virará um sapo e ela me manda calar a boca. Esmeralda Maria de Jesus, minha avó, no auge dos seus 86 anos, vive o caminho inexorável de uma idosa com demência senil, e ela resgata da restinga da lembrança esse abraço para me dar até hoje.</p>



<p>A necessidade de cuidados a trouxe a Belo Horizonte e pude conviver com ela em uma etapa que não volta mais – o ápice e o fim das histórias do passado. Ela revezava entre a casa de uma ou outra filha, e eu a visitava para ouvir suas últimas prosas. Acho que ela sentia que a memória estava lhe dando adeus, pois começou a repetir casos marcantes em sua vida. O grande amor, as grandes desilusões, uma grande briga com meu avô, os ensinamentos da vida amorosa, as experiências mais felizes, os ditados e a receita de goiabada. Às vezes eu gravava o que ela dizia e depois mostrava para ver sua reação. Ela logo dizia: Tudo mentira! Aprendi que não se deve correr atrás do amor de ninguém, que o corte do cordão umbilical é a distância de três dedos do umbigo, a receita da goiabada perfeita e que o bom da vida é dançar.</p>



<p>Ela morou um tempo sozinha na roça. Dizia que não gostava de ‘serviço de mulher’, gosta é de ‘serviço de homem’. De fato, cozinhar almoço não era seu forte. Sempre autossuficiente, odiava ter que pedir ou depender de qualquer pessoa, pois tinha muita energia e não era qualquer dificuldade que lhe servia de obstáculo. Apesar de admirar, não puxei esse jeito de existir, mas minha mãe, sim. Elas são muito parecidas. Inclusive, na forma de me fazer rir ao contar os casos mais bizarros. Eu gostava quando ela dizia que dormia com machado debaixo da cama, mas “se o tarado que pulasse a janela fosse bonito&#8230;”. Ela chamava homem bonito de “tesouro”, não gostava de gente “mitida” e xingava a gente de “bocuda”.&nbsp;</p>



<p class="has-text-color has-background has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color">Dizem que perto da morte as experiências da vida ressurgem, e é dessa matéria que se fazem as histórias. No caso da ‘Esmerarda’, dito com sotaque caipira, relembrar nem sempre era reviver, já que parecia um passado mítico criado em meio às grandes culpas e dúvidas que alguém poderia carregar pela vida. E quanto mais caso ela contava, mais eu queria ouvir. Por mil vezes ela contava o caso do Zé Amaral, antigo namorado, por mil vezes eu perguntava detalhes. Quanto mais ela dizia, mais eu prestava atenção no que não era dito, de que forma eram repetidos os detalhes e qual emoção parecia mais verdadeira. E ríamos juntas, sempre. Somos feitas com a mesma medida do deboche, farinha do mesmo saco da gargalhada e deixamos todos arregalados, mas não perdemos a graça da piada.</p>



<p>Com o tempo, esta constante desfragmentação da memória e da figura que ela representava foi se misturando a processos que eu estava vivendo, igualmente transformadores, e compreendê-la parecia decifrar parte da minha história. Era nítido que a minha vida era uma continuidade da dela e que essa ancestralidade deveria ser dissecada, memorizada e assimilada para ser transformada no que fosse possível. Por sorte, a fotografia começou a me acompanhar e este se tornou o meu melhor jeito de eternizar esse momento entre nós.&nbsp;</p>



<p>Entre tantas vivências, uma mexeu comigo. Fiz umas tatuagens no braço e ela sempre começava a conversa da mesma forma: “Isso não sai nunca mais?” “Por que fez isso?” “Imagina quando você estiver ganhando neném e o médico te ver gritando, assim, toda rabiscada!” Neste momento, pensei que o corpo nu, para ela, era motivo de muito pudor. O único momento em que ela se imagina ficando nua para alguém estranho era no momento do parto. Comecei a lembrar que ela nunca gostou de ficar sem roupa perto de nós, nem quando tomávamos banho na bica. Junto a este <em>insight</em>, comecei a perceber que seu corpo velho com rugas, cascas, deformações e dificuldades, lhe era um corpo estranho. Foto alguma lhe parecia boa. Todo retrato vinha seguido de negativas, praguejando que um dia eu ficaria ‘caquética’ também. Com o tempo, ela foi se adaptando à presença constante da minha câmera e a postura repreensiva foi se tornando parte de um teatro para manter a graça. Quando ela me negava a foto, eu lhe roubava com uma posterior gargalhada, depois ela encarava a lente, como se pedisse: decifra-me. &nbsp;</p>



<p class="has-text-color has-background has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color">Toda vez que estávamos juntas era como se fosse um encontro, mas era uma despedida. Eu sabia que em breve sobraria somente aquele olhar vago de um corpo ausente e que não haveria mais ponte nos interligando racionalmente. Baseado nesse embate entre vida e morte, iniciei um trabalho fotográfico que, aparentemente, não tem respostas. Como Ida Ferreira diz: “exercício do irreconciliável, de uma tentativa sempre malograda de se aproximar ‘por imagens’ do indizível”. &nbsp;</p>



<p>Entre tantas reflexões advindas pela convivência com a velhice, junto à dificuldade da nossa geração em lidar com a morte, com a finitude dos prazeres e da consciência, com a miserável realidade que nos espera, o trabalho foi ficando denso. Num mundo criado pelo self, cogitei questionar para onde ele iria quando não houvesse mais memória. Para onde irão nossos medos, nossos desejos, todas as experiências vividas, as conquistas exageradamente enaltecidas, todas as manias, os afetos construídos a dedo, os segredos nunca contados, toda uma teia construída por décadas e à duras penas.&nbsp;</p>



<p>Quem se tornaria a minha avó, esposa do Jafé, mãe da Beth, neta do Paiôto, irmã da Fia? Minha avó ainda anda, mas conta menos histórias. Não lembra o nome das pessoas, nem seus rostos lhe são mais comuns; o nome dos netos nunca soube, mas a existência de alguns ainda é sabida. Não sabe em qual cidade está, não lembra o que fez no dia anterior, não xinga mais ninguém, não vai pra estrada pegar carona com ônibus escolar para visitar a Maria José e receber pagamento no banco. Não relembra mais as grandes histórias, não faz mais nenhum doce e, agora, tem uma cuidadora. É a primeira vez que ela aceita ajuda de alguém.&nbsp; &nbsp;</p>



<p>De certa forma, essa convivência tem me ajudado a reformular os meus processos – não só comigo, mas com minha mãe, e a viver de forma mais leve, com menos medos. Minha prima Isabela teve uma conclusão parecida em um texto: “A gente não precisa virar outra pessoa pra conseguir resolver nossos problemas, mas também não somos escravos do nosso passado, e nosso futuro não é tão determinístico assim. Existe espaço pra mudança (&#8230;) A gente às vezes só precisa se esforçar um pouco mais pra acharmos a nossa forma mais humana.”</p>



<p>Sendo assim, termino com um fragmento do livro Leite Derramado do Chico:</p>



<p>“Não era novidade, já de um tempo havia por toda parte esses diletantes ou profissionais da fotografia, captando instantâneos para a posteridade, como se dizia. Então presumi, não sem vaidade, que ao se revelar aquele instantâneo, eu seria o único a figurar para a posteridade frente a frente. E passados muitos e muitos anos, uma vez consumada a fuzilaria do tempo, ainda assim de alguma forma eu seria um rosto sobrevivente, porque tive o instinto de me voltar para a câmera naquele instante. (Leite derramado, 2009, p. 25)</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i2.wp.com/blog.artebodoque.com/wp-content/uploads/2019/11/LSP_7768.jpg?fit=970%2C648&amp;ssl=1" alt="" class="wp-image-4791" /></figure>



<figure class="wp-block-gallery columns-2 is-cropped wp-block-gallery-1 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex"><ul class="blocks-gallery-grid"><li class="blocks-gallery-item"><figure><img decoding="async" src="https://i2.wp.com/blog.artebodoque.com/wp-content/uploads/2019/11/LSP_9164.jpg?fit=684%2C1024&amp;ssl=1" alt="" data-id="4792" data-link="https://atomic-temporary-162935141.wpcomstaging.com/?attachment_id=4792" class="wp-image-4792" /></figure></li><li class="blocks-gallery-item"><figure><img decoding="async" src="https://i1.wp.com/blog.artebodoque.com/wp-content/uploads/2019/11/LSP_7236.jpg?fit=684%2C1024&amp;ssl=1" alt="" data-id="4793" data-link="https://atomic-temporary-162935141.wpcomstaging.com/?attachment_id=4793" class="wp-image-4793" /></figure></li></ul></figure>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i2.wp.com/blog.artebodoque.com/wp-content/uploads/2019/11/LSP_7804.jpg?fit=970%2C648&amp;ssl=1" alt="" class="wp-image-4794" /></figure>



<figure class="wp-block-gallery columns-2 is-cropped wp-block-gallery-2 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex"><ul class="blocks-gallery-grid"><li class="blocks-gallery-item"><figure><img decoding="async" src="https://i2.wp.com/blog.artebodoque.com/wp-content/uploads/2019/11/LSP_7110.jpg?fit=684%2C1024&amp;ssl=1" alt="" data-id="4795" data-link="https://atomic-temporary-162935141.wpcomstaging.com/?attachment_id=4795" class="wp-image-4795" /></figure></li><li class="blocks-gallery-item"><figure><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/blog.artebodoque.com/wp-content/uploads/2019/11/LSP_7128.jpg?fit=684%2C1024&amp;ssl=1" alt="" data-id="4796" data-link="https://atomic-temporary-162935141.wpcomstaging.com/?attachment_id=4796" class="wp-image-4796" /></figure></li></ul></figure>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/blog.artebodoque.com/wp-content/uploads/2019/11/LSP_7036.jpg?fit=970%2C648&amp;ssl=1" alt="" class="wp-image-4797" /></figure>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i2.wp.com/blog.artebodoque.com/wp-content/uploads/2019/11/LSP_1852.jpg?fit=970%2C648&amp;ssl=1" alt="" class="wp-image-4798" /></figure>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i2.wp.com/blog.artebodoque.com/wp-content/uploads/2019/11/LSP_1843.jpg?fit=970%2C648&amp;ssl=1" alt="" class="wp-image-4799" /></figure>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i2.wp.com/blog.artebodoque.com/wp-content/uploads/2019/11/LSP_1787.jpg?fit=970%2C648&amp;ssl=1" alt="" class="wp-image-4800" /></figure>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/blog.artebodoque.com/wp-content/uploads/2019/11/LSP_1706.jpg?fit=970%2C648&amp;ssl=1" alt="" class="wp-image-4801" /></figure>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/blog.artebodoque.com/wp-content/uploads/2019/11/LSP_1680.jpg?fit=684%2C1024&amp;ssl=1" alt="" class="wp-image-4802" /></figure>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/blog.artebodoque.com/wp-content/uploads/2019/11/LSP_1636.jpg?fit=970%2C648&amp;ssl=1" alt="" class="wp-image-4803" /></figure>



<hr class="wp-block-separator" />



<p><strong>Luci Sallum</strong> é mineira, tem 39 anos e fotografa tudo que lhe emociona. Por pura vaidade acha que seu jeito de contar histórias toca as pessoas e, se misturado a café e queijo mineiro, podem salvar o mundo.</p>



<hr class="wp-block-separator" />



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.artebodoque.com/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/a89c8-publi-bodoque2.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-4736" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<hr class="wp-block-separator" />



<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-large-font-size has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color">Galeria</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/1e338-fotos-carol-copy.jpg14-1021x1024.jpg?resize=950%2C953&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-4522" data-recalc-dims="1" /></figure>



<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-medium-font-size has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color"><em>Apoie tradições populares. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>



<hr class="wp-block-separator" />


<div class="wp-block-jetpack-contact-form"><a href="https://revistatrama.artebodoque.com/2019/11/17/onde-mora-o-tempo/" target="_blank" rel="noopener noreferrer">Envie um formulário.</a></div><p>O post <a rel="nofollow" href="https://revistatrama.artebodoque.com/2019/11/17/onde-mora-o-tempo/">Onde Mora o Tempo</a> apareceu primeiro em <a rel="nofollow" href="https://revistatrama.artebodoque.com">Revista Trama</a>.</p>
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		<title>Silêncio, por favor.</title>
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		<pubDate>Sun, 17 Nov 2019 20:24:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 001, N 023]]></category>
		<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Hélio Rocha]]></category>
		<category><![CDATA[indígena]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: Viviane Brito Guimarães</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="has-drop-cap">Carros, buzinas, WhatsApp, notificações de e-mail, Instagram, Facebook, alguns
passarinhos, pensamentos sobre a situação do país, do mundo&#8230; a pobreza, injustiça,
a poluição, o consumismo, as discordâncias e poucas concordâncias.
</p>



<p>Em um contexto violento para o nosso cérebro, o pensamento pode equiparar- se a um computador, no qual há um fundo de tela, geralmente com a pior preocupação, e ali estão dispostos de maneira desorganizada, inúmeras pastas que dizem respeito aos muitos assuntos a serem resolvidos, sem mencionar as múltiplas abas em aberto. Na cabeça de um ansioso, existe muita preocupação e poucas certezas. Praticamente uma foto do mundo, uma foto do caos. </p>



<p class="has-text-color has-background has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color">Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), apontam que a prevalência
mundial do transtorno de ansiedade (TA) é de 3,6%. No continente americano esse
transtorno mental alcança maiores proporções e atinge 5,6% da população, com
destaque para o Brasil, onde o TA está presente em 9,3% da população, possuindo o
maior número de casos de ansiedade entre todos os países do mundo (WHO, 2017).
</p>



<p>Isso mesmo, meu país, o suposto país da alegria, da natureza, da diversidade
cultural, é o campeão em acumular pessoas que vivem amedrontadas pela realidade
líquida, pelas incertezas. E isso a ponto de prejudicar fortemente o estado de saúde do
indivíduo. Quanto barulho&#8230;
</p>



<p>Barulho que a própria mente cria, barulho que vem de fora, barulho que vem de
dentro. Barulho&#8230; Seria possível um pouco de silêncio? Pode ser, vamos ver:
inspirações longas e expirações tão longas quanto. Alguns minutos de calma, mas o
celular toca por qualquer motivo que seja. Se não fosse isso, outro barulho interromperia
o tão necessário silêncio.
</p>



<p class="has-text-color has-background has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color">Lutar tanto contra tantos estímulos gera um cansaço violento. Somam-se a isso
a bagagem emocional, os traumas, os medos, os remorsos, a genética, o estresse, as
disfunções neuroquímicas, tão “naturais” quanto a resistência insulínica em um portador
de diabetes tipo 2. Medo do futuro, peso do passado, cansaço.
</p>



<p>De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), o aumento progressivo
de casos de depressão no mundo deve ser motivo de alerta. Entre 2005 e 2015, o
número de casos da doença cresceu 18%. E o número de pessoas afetadas pela
depressão já chega a 322 milhões em todo o mundo. Destacam-se ainda os casos de
suicídio, que já ultrapassam a marca de 800 mil casos registrados anualmente (WHO,
2017).
</p>



<p>Dados e números, por mais alarmantes que sejam, não afetam tanto quanto
sentir na pele o monstro que rouba a paz. Para cada pessoa ele tem um nome, para
alguns, ele se chama depressão, para outros, transtorno de ansiedade, para outros,
Burnout, para outros, transtorno de estresse pós-traumático. E para outros, ele se
chama o que quer que seja que paralisa.
</p>



<p>Por favor, faça silêncio. Silenciemos um pouco. Como um liquidificador que não
pode ficar ligado batendo um suco na tomada o dia inteiro, a nossa mente, o nosso
corpo, requer limite (singular proposital, afinal, estamos falando da mesma coisa). Um
pouco menos de estímulos, quem sabe, um pouco menos da necessidade irrisória de
aparentar, um pouco mais de momentos de tomar chá, sem pressa, um pouco mais de
</p>



<p>Abraços prolongados, de beijos, de escancarar (para quem merece) quem de fato está falando, vulnerável como é. Ser e aparentar ser um ser humano tão frágil e ao mesmo tempo tão forte. Quem sabe se permitir “perder” um pouco da produtividade, e ganhar mais criatividade, que só é possível com a humanidade, com a arte de ser tão complexo e tão simples. Talvez o barulho poderia se transformar em música, e menos vidas seriam silenciadas, se tão somente admitíssemos ser quem de fato somos, a tempo. </p>



<p>Nota: o texto se refere a uma visão subjetiva da relação entre transtornos
psiquiátricos e a sobrecarga de informações. Procure um médico em caso de sofrimento
psíquico para o tratamento adequado.
</p>



<hr class="wp-block-separator" />



<p><strong>Viviane Brito Guimarães</strong>, frágil e forte, vulnerável, amante de música, eterna aprendiz e médica formada pela Universidade de Ribeirão Preto. </p>



<hr class="wp-block-separator" />



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.artebodoque.com/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/a89c8-publi-bodoque2.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-4736" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<hr class="wp-block-separator" />



<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-large-font-size has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color">Galeria</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/0449c-foto-carol4.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-1522" data-recalc-dims="1" /></figure>



<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-medium-font-size has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color"><em>Apoie causas humanitárias. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>



<hr class="wp-block-separator" />


<div class="wp-block-jetpack-contact-form"><a href="https://revistatrama.artebodoque.com/2019/11/17/silencio-por-favor/" target="_blank" rel="noopener noreferrer">Envie um formulário.</a></div><p>O post <a rel="nofollow" href="https://revistatrama.artebodoque.com/2019/11/17/silencio-por-favor/">Silêncio, por favor.</a> apareceu primeiro em <a rel="nofollow" href="https://revistatrama.artebodoque.com">Revista Trama</a>.</p>
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		<title>8. O Cheiro</title>
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		<pubDate>Sun, 17 Nov 2019 20:23:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 001, N 023]]></category>
		<category><![CDATA[Em Tempos de Estricnina]]></category>
		<category><![CDATA[conto]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Darlan Lula]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[O Cheiro]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: Darlan Lula</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="has-drop-cap">Foi no Bairro Santa Rita, zona leste de Juiz de Fora, ele tinha 4 anos, seu pai estava há muito ali, interagindo, bebendo, por vezes sendo rude, às vezes sendo humilde, num bar próximo a sua casa. O filho brincava na rua, feliz da vida, bermuda rasgada colorida, pés descalços e sem camisa. Uma moto passou, um rapaz a pilotava, estava de capacete, parou a dez metros do bar. Desceu do veículo, com passadas largas em direção ao estabelecimento. Sacou do seu bolso um 38 e o descarregou em seu pai, que caiu ao chão já sem vida. A criança estava em pé na calçada, visão privilegiada, teve tudo ao seu alcance, inclusive o cheiro do sangue que escorria no chão de terra batida do boteco, virando uma lama espessa e escura. Começou a chorar desesperadamente no momento em que a moto sumia no horizonte, no alto do morro.</p>



<p>O tempo passou, o assassino foi pego, solto, julgado, inocentado. A família do morto se revolta, se entristece, paralisada pelo que chamam de injusta vida. E o menino cresce ouvindo histórias, sabendo do que viu, o cheiro do sangue no chão de terra batida, seu pai peneirado por um troglodita. Não! Não pode haver paz assim. Se você quiser paz, prepare-se para a guerra. Ano após ano, o garoto cresce, vítima da sua própria memória, de sua inglória tristeza que o disseca, que o resseca por dentro, sendo só fibra tensa; na parede do seu quarto recorte de um jornal com a matéria da morte do seu pai, uma foto do assassino, um prego espetado em sua cabeça. O garoto tem apenas 17 anos, suas mãos já estão calejadas, manchadas de sangue alheio, o vício da morte o pegou, aquele que alvejou seu pobre pai alojou-lhe no peito a fragrância assassina. Não há mais diferença entre um e outro. Até seu melhor amigo já lhe diz: “fazer isso está na moda, até o cara lá de cima faz, o capitão, o mito; com ele não tem dó, metralha mesmo!” Assim o garoto se fortalece, se enobrece no discurso raso, se torna gigante na solene busca por vingança. Ele acredita nisso, ele confia nessa trajetória no momento em que sentiu o cheiro do seu pai morto.</p>



<p>Com arma na cintura, escondida pela blusa, foi até o mercado onde o assassino de seu pai trabalhava e lá entrou resoluto a ceifar uma vida e transformar em luto a história de uma família. A cada disparo seco que ecoava no ar e cortava a carne daquele cidadão ora trabalhador, o alívio no peito do garoto ressecado aumentava; e o cheiro do sangue o fazia feliz. Saiu tranquilamente até a rua, correu alguns quarteirões, pegou um ônibus e parou na Avenida Brasil, cortada pelo Rio Paraibuna. Tirou a arma da cintura, cheiro de pólvora na mão, e a jogou naquelas águas pardas. Estava feliz, como nunca antes em sua precoce existência. Olhou para o céu, fez o sinal da cruz e foi para casa tomar um banho.</p>



<hr class="wp-block-separator" />



<p><strong>Darlan Lula</strong> é doutor em Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense. Escritor, autor de cinco livros, entre prosa e poesia. <a href="http://www.darlanlula.com.br/">www.darlanlula.com.br</a></p>



<hr class="wp-block-separator" />



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.artebodoque.com/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/1976d-publi-bodoque.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-4491" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<hr class="wp-block-separator" />



<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-large-font-size has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color">Galeria</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/1e338-fotos-carol-copy.jpg9_-1021x1024.jpg?resize=950%2C953&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-4518" data-recalc-dims="1" /></figure>



<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-medium-font-size has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color"><em>Apoie tradições populares. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>



<hr class="wp-block-separator" />


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		<title>ONU Aponta que Crianças Respondem por 26% da mão de obra no início das Cadeias Produtivas na América Latina</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 17 Nov 2019 18:22:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 001, N 023]]></category>
		<category><![CDATA[ONU Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[américa latina]]></category>
		<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[trabalho infantil]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: ONU Brasil</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="has-drop-cap">Um novo relatório da ONU aponta uma contribuição significativa do trabalho infantil e do tráfico de pessoas nos patamares iniciais das cadeias produtivas, em atividades extrativistas e de agricultura, fazendo com que a visibilidade, diligência e identificação de tais atividades seja desafiadora. A América Latina lidera a estimativa de trabalho infantil neste setor, com 26%.</p>



<p>O relatório “Fim do trabalho infantil, trabalho forçado e tráfico humano nas cadeias produtivas” foi produzido pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), Organização Internacional para Migração (OIM) e Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF). O documento fornece, pela primeira vez, estimativas de trabalho infantil associadas ao setor em várias regiões: 26% na América Latina e Caribe; 12% no sul e centro da Ásia e outros 12% na África Subsaariana, além de 9% no Norte da África e Ásia Ocidental.</p>



<p>“Bens e serviços que compramos são compostos de materiais de vários países ao redor do mundo e são processados, montados, embalados, transportados e consumidos através de fronteiras e mercados”, lembrou o diretor-geral da OIT, Guy Ryder. “Este relatório mostra a necessidade urgente de uma ação efetiva para enfrentar as violações dos direitos trabalhistas fundamentais que estão ocorrendo nas cadeias produtivas ”, alertou.</p>



<p class="has-text-color has-background has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color">O relatório mostra diversas áreas onde governos e empresas podem fazer mais. Ele aponta o papel crítico dos estados em enfrentar as lacunas de legislação, cumprimento e acesso à justiça (que cria espaço para violações) e em estabelecer estruturas para uma conduta empresarial responsável. O documento também examina como governos podem dar o exemplo ao integrar as considerações de cuidado necessário nas suas próprias atividades, como compradores de bens e serviços, donos de empreendimentos e provedores de crédito e empréstimos.</p>



<p>Ao falar no Fórum da Paz de Paris, o secretário-geral da OCDE, Angel Gurría, disse que os resultados, baseados na metodologia que a Organização tem aplicado em vários contextos e ambientes econômicos, reforça a necessidade de governos aumentarem e fortalecerem suas iniciativas para garantir que as empresas respeitem os direitos humanos em suas operações e em todas as cadeias produtivas.</p>



<p>O relatório também descreve uma ampla abordagem preventiva focada nas causas do problema, incluindo privação familiar e infantil, particularmente nos segmentos terceirizados das cadeias produtivas que operam na economia informal, onde o risco é maior.</p>



<p>“Estes resultados deixam claro que os esforços contra o tráfico de pessoas no setor serão inadequados se não se estenderem acima dos fornecedores imediatos para incluir atores engajados nas atividades extrativistas e de agricultura, e servindo como insumo para outras indústrias”, afirmou o diretor geral da OIM, António Vitorino.</p>



<p>Para as empresas, o documento reforça a necessidade de um método compreensivo, em toda cadeia produtiva, com o rigor necessário, envolvendo análise, prevenção e mitigação de impactos negativos de direitos humanos, assim como canais legítimos para resolução de casos em que empresas tenham provocado ou contribuído para impactos adversos.</p>



<p>As estimativas foram feitas ao combinar dados do total estimado de crianças em situação de trabalho infantil com informações sobre fluxos de mercado e cadeias de valores entre países e fronteiras. O mesmo exercício foi feito com o tráfico de pessoas.</p>



<p class="has-text-color has-background has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color">“O trabalho infantil é uma séria violação dos direitos humanos, que tem consequências negativas para toda a vida do desenvolvimento físico, mental e social das crianças. O relatório mostra pressões múltiplas, incluindo pobreza, violência e discriminação, que aumentam a vulnerabilidade da criança para o trabalho infantil. Nossos parceiros estão pedindo um enfoque holístico para enfrentar as origens do trabalho infantil, dando acesso a educação de qualidade e fortalecendo os sistemas de proteção às crianças”, afirmou a diretora executiva do UNICEF, Henrietta Fore.</p>



<p>O estudo foi elaborado em resposta a um pedido dos ministros de Trabalho e Emprego do G20 para levantar as violações de direitos trabalhistas nas cadeias produtivas e fornece uma perspectiva interagencial única nas causas destas violações de direitos humanos e prioridades para que governos, empresas e parceiros da sociedade possam combate-los.</p>



<p>O relatório<a href="http://www.alliance87.org/">&nbsp;Alliance 8.7</a>&nbsp;foi lançado como parte dos esforços para acelerar ações para o alcance da meta 8.7 dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, que pede que os governos acabem com o trabalho infantil até 2025 e coloquem em prática medidas efetivas para terminar com o trabalho forçado, a escravidão moderna e o tráfico de pessoas até 2030.</p>



<p>Acesse&nbsp;<a href="https://publications.iom.int/system/files/pdf/ending_child_labour_en.pdf?utm_source=IOM+External+Mailing+List&amp;utm_campaign=e045263687-EMAIL_CAMPAIGN_2019_11_12_01_33_COPY_01&amp;utm_medium=email&amp;utm_term=0_9968056566-e045263687-">aqui</a>&nbsp;o relatório completo, em inglês.</p>



<p><strong>Para mais informações</strong></p>



<p>OIT – Departamento de Comunicação e Informação Pública<br>Telefone +4122/799-7912, Email newsroom@ilo.org</p>



<p>OCDE –Juliet Lawal,<br>Telefone +33 1 45 24 97 40, Email Juliet.LAWAL@oecd.org</p>



<p>OIM – Divisão de Comunicações e mídia<br>Safa Msehli<br>Telefone +41794035526, Email smsehli@iom.int</p>



<p>UNICEF<br>Sohini Roychowdhury<br>Telefones +41 22 909 5439, +41 79 533 5264, Email sroychowdhury@unicef.org<br></p>



<p><em><strong>Matéria originalmente publicada em <a href="https://nacoesunidas.org/onu-aponta-que-criancas-respondem-por-26-da-mao-de-obra-no-inicio-das-cadeias-produtivas-na-america-latina/">Nações Unidas Brasil</a></strong></em> <strong><em>em 14/11/2019 &#8211; Atualizado em 14/11/2019</em></strong></p>



<hr class="wp-block-separator" />



<p><strong>A ONU (Organização das Nações Unidas) </strong>é uma organização internacional formada por países que se reuniram voluntariamente para trabalhar pela paz e o desenvolvimento mundiais.</p>



<hr class="wp-block-separator" />



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.artebodoque.com/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/0e0a3-aajude.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-2693" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<hr class="wp-block-separator" />



<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-large-font-size has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color">Galeria</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/1e338-fotos-carol-copy.jpg11-1021x1024.jpg?resize=950%2C953&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-4520" data-recalc-dims="1" /></figure>



<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-medium-font-size has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color"><em>Apoie tradições populares. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>



<hr class="wp-block-separator" />


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		<title>O Brilho</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 17 Nov 2019 20:22:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 001, N 023]]></category>
		<category><![CDATA[conto]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[vitu Marcs]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: Vitu Marcs</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="has-drop-cap">Se a vida pudesse ser medida em páginas, ele poderia jurar que a sua não passaria de poucas linhas esquecidas pelo tempo. Da infância, lembrava muito pouco. A adolescência, queria esquecer. E velhice não era nem uma opção. Sobrava o agora, mas até quando?</p>



<p>Escutou a correria, pegou a bolsa e pulou do segundo andar. Caiu de mau jeito, saiu mancando alguns passos, mas a adrenalina faz esquecer a dor. Foi descendo pelos caminhos mais escuros. Apesar de saber que aquele beco onde estava não despertava as atenções, sua tensão não baixava por nada nesse mundo. O coração na boca, as orelhas em brasa e a barriga tremendo.</p>



<p>Não demorou a chegar na cortina de capim que margeava o canal. Deitou-se por uns instantes no mato e tentou olhar pro céu, mas aquelas estrelas ofereciam muito pouco, uma vez que estava entre o caos de luzes e sons do morro que descera e o reflexo inquieto das cores da cidade nas águas turvas da madrugada.</p>



<p>Os segundos passavam horas e a confusão parecia cada vez mais próxima. Voltar atrás era assinar a própria sentença e esperar o raiar do dia era contar com uma sorte que nunca deu as caras por ali. Sempre sentiu desprezo pela rotina dos vizinhos e agora dedicava-lhes uma inveja sem precedentes.</p>



<p>Esqueceu propositalmente a bolsa no capim amassado e se atirou no canal. No começo, os pés afundavam na lama e tocavam os pedaços de pedra, pau e planta lá do fundo. Depois o nível d’água foi passando do peito e ele teve que acionar a memória do corpo para bater braços e pernas bem coordenados. Fazendo o mínimo possível de barulho, foi se afastando do canal lamacento e ganhou a vastidão da baía. Mirava na direção dos altos prédios iluminados ao longe e investia quase todas as suas forças. Nadou assim por horas. Os tons escuros foram abandonando a noite e quanto mais clareava, mais gelada a água ia se fazendo sentir.</p>



<p>O céu misturava faixas rosas à escala de azul. Anestesiado de frio e cansaço, o nadador só podia realizar movimentos curtos e demorados, com dificuldade crescente. Por vezes, uma dormência dominava o corpo. A alucinação e a sede eram as únicas companhias. As coisas ficaram distantes e, quando abriu os olhos, sentiu uma pressão arrastar suas costas. Enxergava tudo embaçado ainda e foi sentindo as mãos aos poucos. Virou levemente a cabeça e viu um joelho diante de si. Duas mãos grossas puxaram seu ombro e deitaram-no de bruços. Tossiu forte e arranhado, cuspiu uma água amarga e começou a voltar a si. Estava numa espécie de canoa, diante de um senhor que o olhava em silêncio. Os olhos vermelhos queimavam e os lábios rachados ardiam. O homem o ajudou a sentar-se e levou um gole de água até sua boca. Agradeceu com os olhos e tombou novamente na madeira do barco. Dormiu.</p>



<p>Em alguns minutos, o senhor embicava o barco por entre as estreitas palafitas do mangue. Com a ajuda de dois amigos, levantou o corpo desmaiado e carregou-o até em casa. Acomodou em seu próprio quarto o inconsciente e pediu à mulher que preparasse um caldo. Sentou-se ao lado do corpo estendido no chão e ficou de vigília. As pessoas iam se aproximando do barraco com ares de curiosidade, perguntando o que se passava. Da pequena janela da sala, a filha respondia:</p>



<p>– É nada não. Paínho pescou um homi&#8230;</p>



<p>Inclinaram sua cabeça e meteram-lhe a sopa goela abaixo. Bem devagar, foi sentindo que lhe voltava o controle das extremidades, mas ainda estava fraco para movimentos bruscos. Aquela gente em volta dele só podia ser alguma coisa de deuses. E aquele cômodo algum tipo de santuário. Viu a aflição nos olhos da filha do canoeiro e sorriu pras pessoas, como forma de dizer que estava bem. A moça sorriu de volta, com dentes tímidos, e levantou-se para ir cuidar de seus afazeres. O resgatado olhou para si e já não reconhecia mais quem fora até a véspera. Sua história estava só começando.</p>



<hr class="wp-block-separator" />



<p><strong>Vitu Marcs</strong> deposita suas poucas esperanças na literatura, sobretudo aquela das ruas. Muitas pessoas estão perdidas, mas ainda há tempo (salve Criolo).&#8221;</p>



<hr class="wp-block-separator" />



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.artebodoque.com/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/a89c8-publi-bodoque2.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-4736" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<hr class="wp-block-separator" />



<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-large-font-size has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color">Galeria</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/1e338-fotos-carol-copy.jpg7_-1021x1024.jpg?resize=950%2C953&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-4516" data-recalc-dims="1" /></figure>



<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-medium-font-size has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color"><em>Apoie tradições populares. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>



<hr class="wp-block-separator" />


<div class="wp-block-jetpack-contact-form"><a href="https://revistatrama.artebodoque.com/2019/11/17/o-brilho/" target="_blank" rel="noopener noreferrer">Envie um formulário.</a></div><p>O post <a rel="nofollow" href="https://revistatrama.artebodoque.com/2019/11/17/o-brilho/">O Brilho</a> apareceu primeiro em <a rel="nofollow" href="https://revistatrama.artebodoque.com">Revista Trama</a>.</p>
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		<title>A te ser verso em palavras te (re)crio</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 17 Nov 2019 20:21:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 001, N 023]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[entre nossas linhas]]></category>
		<category><![CDATA[poema]]></category>
		<category><![CDATA[poesia]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: Entre Nossas Linhas</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<pre class="wp-block-verse"> O poeta e sua grande manobra<br /> Em se afogar<br /> Para te desenhar<br /> <br /><br /> Mas se não te escrevesse não seria eu<br /> Confesso que estou a te procurar<br /> Para te tornar poesia<br /> <br /><br /> Te infinito em palavras<br /> Para lhe ter&nbsp;<br /> Te crio em tinta e papel<br /> Em palavras soltas sem rimas<br /> <br /><br /> Estou aqui para te tornar mentira<br /> -M.E. </pre>



<hr class="wp-block-separator" />



<p><strong>Entre Nossas Linhas</strong> é uma página de Instagram criada por duas amigas que encontraram na arte de escrever um refúgio. </p>



<hr class="wp-block-separator" />



<figure class="wp-block-image size-large is-resized"><a href="https://www.artebodoque.com/"><img fetchpriority="high" decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/0e0a3-aajude.png?resize=494%2C494&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-2693" width="494" height="494" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color">Clique na imagem acima e acesse a loja virtual da Bodoque!</p>



<hr class="wp-block-separator" />



<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-large-font-size has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color">Galeria</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/de720-foto-carol8.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-1651" data-recalc-dims="1" /></figure>



<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-medium-font-size has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color"><em>Apoie causas humanitárias. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>



<hr class="wp-block-separator" />


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<hr class="wp-block-separator" />


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		<title>Morreu o Velho Guardião!</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 17 Nov 2019 20:20:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 001, N 023]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Luisa Biondo]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: Luísa Biondo</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="has-drop-cap">O Sol nasceu e o velho guardião morreu. Seu corpo foi ao chão e o tempo não chorou. O estrondo da sua queda ecoou pela rua, mas ninguém notou. Ninguém ouviu. Levaram ele ao chão, sem dó e nem piedade, sem conhecer a sua história e a sua jornada. Levaram ele ao chão no auge da sua vitalidade. Nem mesmo a grossa armadura foi capaz de defende-lo. Não foi capa de jornal, não saiu no rádio. O espaço vazio tomou conta do jardim sem que ninguém percebesse.<br>
<br>
Por anos, o velho sábio já havia avisado que o fim do guardião seria apenas o indício de tempestades muito piores e quedas muito maiores. O velho guardião morreu, a lama chegou, a floresta queimou, o mar caducou. Dizem que quando as brumas tomam conta da terra, é possível perceber viajando pelas árvores o espírito do velho guardião.&nbsp;</p>



<p>É que ele continua entre nós. <br>Uma pena que o mundo esteja ocupado demais correndo contra o tempo.</p>



<hr class="wp-block-separator" />



<p><strong>Luisa Biondo</strong> é redatora, mas ama desenhar e fotografar. Atualmente trabalha em uma agência de marketing e nas horas vagas faz uns rabiscos que ficam guardados na gaveta. </p>



<hr class="wp-block-separator" />



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.artebodoque.com/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/a89c8-publi-bodoque2.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-4736" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<hr class="wp-block-separator" />



<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-large-font-size has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color">Galeria</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/1e338-fotos-carol-copy.jpg6_-1021x1024.jpg?resize=950%2C953&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-4515" data-recalc-dims="1" /></figure>



<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-medium-font-size has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color"><em>Apoie tradições populares. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>



<hr class="wp-block-separator" />


<div class="wp-block-jetpack-contact-form"><a href="https://revistatrama.artebodoque.com/2019/11/17/morreu-o-velho-guardiao/" target="_blank" rel="noopener noreferrer">Envie um formulário.</a></div><p>O post <a rel="nofollow" href="https://revistatrama.artebodoque.com/2019/11/17/morreu-o-velho-guardiao/">Morreu o Velho Guardião!</a> apareceu primeiro em <a rel="nofollow" href="https://revistatrama.artebodoque.com">Revista Trama</a>.</p>
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