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	<title>Arquivos Ano 002, N 054 - Revista Trama</title>
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	<description>Arte, Cultura e Criatividade</description>
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		<title>Edital &#8211; Fundo Cultural Bodoque</title>
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		<pubDate>Sun, 19 Jul 2020 21:30:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 054]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Edital]]></category>
		<category><![CDATA[Fundo Cultural]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Bodoque Artes e ofícios </p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="has-text-align-right has-small-font-size"><em>Arte da capa por: <a href="https://goyalopes.com.br/collections/africa-africana">Goya Lopes</a></em></p>



<div role="main" id="edital-fundo-cultural-0001-35cd6453bd1a1a07325f"></div>
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<hr class="wp-block-separator" />



<p><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong>Bodoque Artes e ofícios </strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong>é uma Instituição Cultural que luta pela valorização da Cultura e da Arte como campos do conhecimento. A Bodoque atua através de um atelier de encadernação e Restauro de papel, estamparia, estúdio de design, Escola de Artes e ofícios, Fundo Cultural, editora, Museu de artes e ofícios Bodoque, além de ser fundadora e responsável pela revista Trama.</p>



<hr class="wp-block-separator" />



<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-large-font-size has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color">Galeria: artistas para seguir na quarentena</p>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-flow wp-block-group-is-layout-flow">
<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/4473c-fotos-carol-copy-1.jpg7_-1-1021x1024.jpg?resize=950%2C953&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-4982" data-recalc-dims="1" /></figure>



<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-medium-font-size has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color"><em>Apoie pautas identitárias. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>
</div></div>



<hr class="wp-block-separator" />



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.artebodoque.com/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/a89c8-publi-bodoque2.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-4736" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color">Clique na imagem para acessar a loja virtual da Bodoque!</p>
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		<title>Vou aprender a ler para ensinar meus camaradas.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 19 Jul 2020 21:29:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 054]]></category>
		<category><![CDATA[conhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Gilberto Gil]]></category>
		<category><![CDATA[Lorraine]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: Lorraine Mendes</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="has-drop-cap">A vida acadêmica pode ser uma vida muito solitária e árida. Lattes, eventos, taxas, leituras, fichamentos, leituras, escrita. Crítica. Apagar, reescrever, reelaborar, reler, revisar, repensar, reestruturar. Envia. Crítica. Passa. Começa tudo de novo.</p>



<p>O refazer nem sempre se encontra com a refazenda. Gil, o orixá vivo, tem em Refazenda um abacateiro como interlocutor:</p>



<pre class="wp-block-verse has-text-align-right"><em>Abacateiro teu recolhimento é justamente
O significado da palavra temporão
Enquanto o tempo não trouxer teu abacate
Amanhecerá tomate e anoitecerá mamão</em></pre>



<p>O tempo.&nbsp;</p>



<p>Conhecimento se elabora e produz a todo tempo, em todo espaço. Principalmente se entendemos que o aprender, pensar e ensinar também acontecem nos nossos corpos e relações. É um jogo que nos encontra por inteiro, sabe? E esse jogo tem um tempo. O jogo bem jogado, tem como regra a consideração e observância desse tempo.&nbsp;</p>



<p>Entre uma etapa e outra do processo, há de se respirar e viver.</p>



<p>Eventos, taxas, faça leituras e fichamentos, respira um pouco, vai devagar, se cuida, faça as leituras, cuida da escrita. Confia. Recebe a crítica como crítica e não definição do que você ou seu conhecimento são. Apaga, se necessário. Reescrever e reelaborar são coisas boas de se fazer. Releia com outra pessoa, revise conversando, repense junto. Vai reestruturando com calma. Envia. Crítica. Passou, que bom! Começa tudo de novo. Lattes é consequência.</p>



<p>Entende que é possível ter vida no meio de tudo? A refazenda é entender e respeitar o tempo do plantio e o tempo da colheita. A espera é o que faz madurar a fruta no pé. É no respiro, na tomada de fôlego que o saber se assenta, para logo ser questionado, arredado, conjugado, amarrado em outras pontas, com outros nós. Ainda bem. Dê o tempo.</p>



<p>O tempo e a mirada.</p>



<p>Atenção ao que acontece fora das margens. Ao que escapa do pretenso controle, planejamento e lógica acadêmicos. Existem outros saberes sementes soltos por aí, sementes prontas para a colheita. Caminhos de pesquisa, conversa, troca, epistemologias e escritas. E existe a vida nisso tudo. Tem que existir.&nbsp;</p>



<pre class="wp-block-verse has-text-align-right"><em>Abacateiro serás meu parceiro solitário
Nesse itinerário da leveza pelo ar
Abacateiro saiba que na refazenda
Tu me ensina a fazer renda que eu te ensino a namorar</em></pre>



<p>Tenho aprendido a ler a sentir essa visão. Essa visão não, esse sentido. Sentido de sentir mesmo, e também de direção. Falando de mim a ti, pessoa que me lê, eu digo que encontrei meu sentido na academia justamente no coletivo. Embora o recolhimento seja parte do percurso, que alegria os olhares e as vozes de companheires de jornada. Que contentamento pensar nos camaradas que virão.</p>



<pre class="wp-block-verse has-text-align-right"><em>Refazendo tudo
Refazenda
Refazenda toda
Guariroba</em></pre>



<div style="height:100px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<hr class="wp-block-separator" />



<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:29% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/fa215-lorrai.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-11020" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p><strong>Lorraine Mendes </strong>é professora substituta da EBA-UFRJ, Doutoranda em Artes, Cultura e Linguagens pelo IAD-UFJF, artista e tatuadora.</p>
</div></div>



<hr class="wp-block-separator" />



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-flow wp-block-group-is-layout-flow">
<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-large-font-size has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color">Galeria: artistas pra seguir na quarentena</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.instagram.com/affnana/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2020/11/e9be3-nana1.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-10139" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-medium-font-size has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color"><em>Apoie artistas nessa quarentena. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>
</div></div>



<hr class="wp-block-separator" />



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/9acee-publi-ediccca7acc83o-impressa-1.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-5668" data-recalc-dims="1" /></figure>





<hr class="wp-block-separator" />



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.artebodoque.com/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/747d3-publi-bodoque3.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-5017" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<p class="has-text-align-center"><p class="has-text-align-center has-text-color has-background" style="background-color:#2b2b2b;color:#ffffff">Clique na imagem para acessar a loja!</p></p>
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		<title>Viver é etcétera</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 19 Jul 2020 21:28:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 054]]></category>
		<category><![CDATA[Dan Bilzerian]]></category>
		<category><![CDATA[Gyovana Machado]]></category>
		<category><![CDATA[liberdade]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Gyovana Machado</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="has-drop-cap">Tradição, a grosso modo, diz respeito a 2 pressupostos antropológicos:&nbsp; 1. Pessoas são mortais; 2. Há uma demanda de nexo geracional passado pelo conhecimento.&nbsp; A&nbsp; raiz etimológica da palavra tradição no grego (<em>paradosis</em>) possui 2 sentidos: 1. Transmissão de práticas e/ou valores espirituais; 2. Conjunto de crenças. Transpondo essas informações iniciais para o ato e/ou forma na própria existência, nos deparamos com manifestações plurais da <em>tradição </em>no ato do viver, ou seja, da vida em movimento, da experiência como ação.&nbsp;</p>



<p>Em 1926, com o livro &#8220;<em>Israel: Its Life and Culture&#8221;, </em>o autor Johs Pedersen diagnosticou que, na cultura Israelita, a memória dentro da liturgia religiosa era um fator de grande relevância dado que, a instrumentalização do termo, teria como significado o <em>pensamento em ação. </em>O <em>lembrar</em>, dessa forma, se encontra num propósito maior da experiência humana, pois diz respeito ao encontro -ou contínua busca- da totalidade que, por sua vez, confere significado a experiência temporal inerente a todo ser humano. Pessoas são mortais.&nbsp;</p>



<p>Somada a essa análise, o autor indica que, em seus estudos sobre a presença do<em> lembrar</em> no Antigo Testamento, existe um vínculo com a expressão <em>pôr no coração/guardar no coração </em>o que, antropologicamente, destaca o coração como centro da atividade intelectual, como repositório da narrativa geracional conferida pelos antepassados; ao passo que é relacionado também ao coração, a característica da sensibilidade. Ou seja, nesse mesmo centro citado, coexistem a força da tradição e a sensibilidade. A olho nu, a sensibilidade pode nos soar como fragilidade, no entanto, a cultura Israelita potencializou a palavra para que ela atravessasse o tempo dentro da própria temporalidade de cada corpo. Nesse sentido, o lembrar é esperança e, o esquecer, destruição.&nbsp;</p>



<p>Seguindo numa reflexão daquilo que confere uma boa experiência com o viver -ou até mesmo o que o possibilita-, lembro me da ideia de <em>felicidade</em>. Para Aristóteles (filósofo grego durante o período clássico/ 385 a.C. &#8211; 323 a.C.) <em>felicidade</em> estaria ligado a diversos outros conceitos -tais como amizade e prazer- pois, segundo o filósofo, o homem direcionava as suas ações visando esse fim. Já Epicuro (filósofo grego do período helenístico/ 341 a.C. &#8211; 270 a.C.) diria que, a <em>felicidade</em>, se alcançaria pela ataraxia, ou seja, uma alma que não se perturba, onde há ausência de dor, inclusive física. Observe que, até o momento, existe um ponto de convergência entre as variáveis apresentadas que é a ideia de plenitude e, a busca por essa dentro do espaço temporal em que exercemos a vida, é rodeado de aspectos que nos desafiam, mas também encorajam. Viver é complexo. Para não só adoçar a experiência, mas também para me reconhecer nela, lanço mão da erudição ambientada pelo sertão de Guimarães Rosa.&nbsp;</p>



<p>&#8220;Sempre sei, realmente. Só o que eu quis, todo o tempo, o que eu pelejei para achar, era uma coisa só &#8211; a inteira &#8211; cujo significado e vislumbrado dela eu vejo que sempre tive. A que era: que existe uma receita, a norma dum caminho certo, estreito, de cada uma pessoa viver &#8211; e essa pauta cada um tem &#8211; mas a gente mesmo, no comum, não sabe encontrar; como é que, sozinho, por si, alguém ia poder encontrar e saber?&#8221;</p>



<p>Guimarães Rosa.</p>



<p>Em &#8220;Sempre sei&#8230;&#8221; o autor falará da busca pela inteireza, o que não anula o fato dele sempre ter o tido ou vislumbrado. A inquietação do querer, procurar e já ter o faz questionar a complexidade do encontro d<em>A</em> <em>coisa</em> que não se acharia deslocado da experiência de grupo. Acredito que este poema é -no texto aqui construído- chave interpretativa de uma noção profunda de tradição. O que cerca a vida não se confunde com ela, mas a adorna. Tradição/memória/lembrar, felicidade, enfim, tudo isso adorna a vida. Não é via de regra para que não sufoque a autonomia de cada indivíduo, mas também não é um vácuo absoluto pois é meio de esperança e, a ausência dessas composições, pode significar uma descaracterização da sensibilidade humana. Concluo: viver é etcétera (Guimarães Rosa).</p>



<p class="has-small-font-size"><em>*imagem: <a href="https://www.behance.net/gallery/51413929/collage-set-4"><strong>collage set #4 in Behance by</strong>&nbsp;</a><a href="http://www.behance.net/klawerzeczy"><strong>Klawe Rzeczy</strong></a></em></p>



<hr class="wp-block-separator" />



<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:31% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2020/04/c748b-biogyo.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-8843" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p><strong><strong>Gyovana Machado </strong></strong>é Cristã, graduanda em História pela UFJF e formada no Seminário Teológico Rhema Brasil.&nbsp;</p>
</div></div>



<hr class="wp-block-separator" />



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-flow wp-block-group-is-layout-flow">
<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-large-font-size has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color">Galeria: Artistas pra seguir nessa quarentena</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.instagram.com/iuryborel/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2020/08/443e6-galeriaiury3-1021x1024-1.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-10527" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-medium-font-size has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color"><em>Apoie artistas nessa quarentena. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>
</div></div>



<hr class="wp-block-separator" />



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/9acee-publi-ediccca7acc83o-impressa-1.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-5668" data-recalc-dims="1" /></figure>





<hr class="wp-block-separator" />



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.artebodoque.com/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/747d3-publi-bodoque3.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-5017" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color">Clique na imagem para acessar a loja virtual da Bodoque!</p>
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		<title>O Brasil e o autoritarismo</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 19 Jul 2020 21:27:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 054]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[História do Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[Intelectuais]]></category>
		<category><![CDATA[Memória]]></category>
		<category><![CDATA[Poliana]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Poliana Vieira Côrtes Lopes</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="has-drop-cap">As relações dos intelectuais com a estrutura de poder do Estado brasileiro, sempre foi algo extremamente imbricado e complexo. Ao longo da história política do Brasil, Esses atores sociais frequentemente se atribuíram a função de &#8220;agentes da consciência e do discurso&#8221;, como afirma Mônica Pimentel Veloso, em seu artigo “Os intelectuais e a política cultural do Estado Novo”, parafraseando Foucault. A autora continua sua análise afirmando que, em consequência da estrutura patriarcal, autoritária, e até a sua condição como país periférico, o Brasil, apesar do grande número de pessoas sem instrução, acaba reforçando esse tipo de prática em representações corriqueiras como falar em nome dos “<em>destituídos de capacidade de discernimento e expressão, foi facilmente absorvido pelo intelecto brasileiro.</em>” (VELLOSO, 1997)</p>



<p>Nos momentos de mudanças históricas intensas ou crises profundas, as elites intelectuais brasileiras marcaram presença no contexto político, defendendo o direito de interferirem no processo de organização nacional. Nesse sentido, é possível perceber esse tipo de ação em vários momentos históricos.</p>



<p>Logo após a Independência do Brasil, quando estava em andamento a construção do projeto da Jovem Nação, os intelectuais agiram como guias sentindo-se inspirados pela ideia nacional. Através de seus capitais culturais e intelectuais, possuíam o objetivo de promover a autovalorização do país. De acordo com Lilia Schwarcz era uma tarefa grandiosa, pois uma nova constituição seria redigida e uma história teria que ser inventada para o “novo” país.</p>



<p>Anos mais tarde, na transição do regime imperial para República, os intelectuais novamente assumem o posto de bastiões do Brasil, com o objetivo de guiar o país à modernização. Munidos do conhecimento científico buscavam remodelar o Estado, lutando contra a incapacidade teórica e administrativa dos políticos.</p>



<p>As consequências do pós-guerra se fazem sentir na década de 1920 brasileira. Dentre seus vários efeitos, destaca-se a decadência do mito cientificista, e o ideal cosmopolita de desenvolvimento cede seu lugar ao credo nacionalista. A busca pelo ideal de brasilidade, resgatado das raízes da pátria estão no foco das preocupações intelectuais. É possível lembrar de como a arte e a literatura influenciaram o país nesse momento.</p>



<p>Com esses três exemplos expostos de maneira geral, fica clara a constituição da identidade dessa classe de indivíduos, que, historicamente, buscaram se distinguir da sociedade.</p>



<p>Já no Estado Novo (1937-1945), a matriz autoritária de pensamento, que confere ao Estado o poder máximo, vai delinear formas mais definidas. A partir daí, as mais distintas elites passam a identificar o Estado como o cerne da nacionalidade brasileira. “Se, historicamente, a construção do nacionalismo vinha se constituindo em uma das preocupações fundamentais dos intelectuais, agora eles passariam a situar a sua tarefa no domínio do Estado”(VELLOSO, 1997)</p>



<p>No período acima citado, podemos analisar a relação entre o Estado e os intelectuais a partir de fontes bastante ricas, pois há uma profunda inserção deste grupo social na organização político-pedagógica do regime. Isso se deve ao fato de que tais membros da classe intelectual, se empenharam em popularizar e disseminar as ideologias do governo. As estratégias de socializar a doutrina política vigente, trazendo-as para o cotidiano da população, foram desenvolvidas e aplicadas, principalmente, pelo Ministério da Educação e Departamento de Imprensa e Propaganda &#8211; DIP.</p>



<p>Por outro lado, antes que o Brasil presenciasse a ascensão do regime autoritário disseminando sua base ideológica com ajuda da classe intelectual, é interessante lembrar que desde o início dessa breve República, vários períodos de exceção interromperam o curso de um Estado Democrático. Foi assim no período da República militar de Deodoro da Fonseca (1889-1891) e Floriano Peixoto (1891-1894) que governaram com parte do período presidencial sob estado de sítio. De igual modo, Artur Bernardes, nos anos 20, teve em quase todo o seu mandato o estado de sítio instalado. Também na ditadura do Estado Novo (1937-1945), quando as estratégias de convencimento da população começaram a ser modificadas, como foram citadas acima. E, amais adiante, de 1964 a 1985, tivemos o fenômeno do golpe militar integrando esse contexto.</p>



<p>Sendo assim, é interessante pensar em algumas características do governo de Getúlio Vargas a partir de uma perspectiva integrada à história política e social do Brasil, bem como do contexto internacional da época para entender que o golpe de Estado foi defendido como uma “reação” às ameaças comunistas que supostamente tomariam o poder. A base do modelo fascista de governo, em geral, ganhou força historicamente em virtude do medo dessa ameaça, tonando necessário o surgimento de um salvador, capaz de  tirar o país do risco iminente. Por esse motivo, mito da nação e do herói nacional, foram plenamente utilizados na implantação de regimes antidemocráticos, não só no Brasil, mas em vários países do mundo.</p>



<p>Um dado relevante para alimentar essa discussão encontra-se em uma citação, fora desse contexto, no plenário da constituinte de 1946.&nbsp; Gilberto Freyre afirma: “o passado não foi, ele continua”. Infelizmente tal afirmação se apresenta como uma incômoda realidade, tendo em vista que o Brasil, em pleno 2020, vive outro capítulo dessa história de exceções, com a constante ameaça ideológica autoritária engendrada no alto escalão da governança brasileira, perpetrada  por uma guinada conservadora e reacionária, como destaca Lilia Swhwatrcz em seu livro: <em>O autoritarismo brasileiro</em>.</p>



<p>Sendo assim, é possível afirmar que é profundamente&nbsp; necessário conhecer esse passado político brasileiro para entender como as classes de intelectuais fizeram parte da história dessa nação. A ação dessa classe, a favor ou contra os governos, se colocando como influencia para a população desprovida de instrução, por muitas vezes é capaz de enraizar ainda mais uma carga de subserviência e inaptidão, que tem o potencial de encaminhar o país para a normalização de ataques à democracia e ascensão de lideres e ideologias autoritárias. Por outro lado, com a educação, a ciência e a cultura sob constante ataque, precisamos entender que a resistência à esses processos políticos e sociais é algo sensivelmente difícil. Como disse Millor Fernandes: “O Brasil tem um enorme passado pela frente”.</p>



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<p><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong>Poliana </strong></strong></strong></strong></strong></strong>Vieira Côrtes Lopes</strong> é formada em artes pela UFJF, é professora, especializada em restauração e mestranda no PPG de Patrimônio da Fiocruz do Rio de Janeiro e sócia da Instituição Cultural Bodoque Artes e Ofícios.</p>



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<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-large-font-size">Galeria: artistas para seguir na quarentena</p>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-flow wp-block-group-is-layout-flow">
<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/4473c-fotos-carol-copy-1.jpg7_-1-1021x1024.jpg?resize=950%2C953&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-4982" data-recalc-dims="1" /></figure>



<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-medium-font-size"><em>Apoie pautas identitárias. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>
</div></div>



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<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.artebodoque.com/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/a89c8-publi-bodoque2.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-4736" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



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		<title>Primeiras Memórias</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 19 Jul 2020 21:26:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 054]]></category>
		<category><![CDATA[24 minutos]]></category>
		<category><![CDATA[LGBT+]]></category>
		<category><![CDATA[PodCast]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  24 minutos</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Hoje a Trama apresenta pra vocês o pessoal do 24 minutos podcast!</p>



<p>Em seu episódio de estréia, 24 minutos pergunta: <strong>qual a sua primeira referência LGBT+?</strong> </p>



<p>De Rogéria à Sailor Moon, as ouvintes contam suas recordações, em um conversa sobre a importância da memória para a comunidade LGBT+. </p>



<p>Livros e obras mencionadas: SEDGWICK, Eve Kosofsky. A epistemologia do armário. Cad. Pagu [online]. 2007, n.28, pp.19-54. ISSN 1809-4449.</p>



<p><a href="http://dx.doi.org/10.1590/S0104-83332007000100003.">http://dx.doi.org/10.1590/S0104-83332007000100003.</a></p>



<p>Acompanhe o 24 minutos no <a href="https://www.instagram.com/24.minutos/?igshid=10gvnixrvp24t">Instagram</a>, e não perca os próximos episódios seguindo eles no <a href="https://open.spotify.com/episode/5D0dEWpzBGGouQ003r3Iub?si=58pgIaYxSnmgfih1Ah7LTw">Spotify</a> também! Boa audição!</p>



<figure class="wp-block-embed-spotify wp-block-embed is-type-rich is-provider-spotify wp-embed-aspect-21-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Spotify Embed: #1 Primeiras Memórias - 24 Minutos" style="border-radius: 12px" width="100%" height="152" frameborder="0" allowfullscreen allow="autoplay; clipboard-write; encrypted-media; fullscreen; picture-in-picture" src="https://open.spotify.com/embed/episode/5D0dEWpzBGGouQ003r3Iub?si=58pgIaYxSnmgfih1Ah7LTw&#038;utm_source=oembed"></iframe>
</div></figure>



<p class="has-small-font-size"><em>Escrito e narrado por Felipe Areda | Produzido e editado por Beatriz Nery | Música de abertura por Mateus Peralta Transições FMA &#8211; Free Music Archive</em></p>



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<p><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong>24 Minutos</strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong>  é um podcast de cultura e memória LGBT+ que traz conversas e reflexões sobre os desejos, afetos e criações da comunidade LGBT+. O podcast é um projeto educativo criado por Felipe Areda e Beatriz Nery, pesquisadoras de cultura LGBT+.</p>



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<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-flow wp-block-group-is-layout-flow">
<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-large-font-size has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color">Galeria</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.instagram.com/iambrendamarques/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2020/07/d64c5-begaleria1-1.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-10809" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-medium-font-size has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color"><em>Apoie pautas identitárias. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>
</div></div>



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<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/9acee-publi-ediccca7acc83o-impressa-1.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-5668" data-recalc-dims="1" /></figure>





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<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.artebodoque.com/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/747d3-publi-bodoque3.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-5017" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



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		<title>Um breve conto de fodas</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 19 Jul 2020 21:26:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 054]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[democracia]]></category>
		<category><![CDATA[Luciano Nascimento]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Luciano Nascimento</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="has-drop-cap">Era uma vez uma senhora de idade incerta e duvidosa chamada <strong>Democracia</strong>. Uns diziam que ela era muito velha; ela, por sua vez, sempre que perguntada sorria ambígua e afirmava ainda nem ter nascido de verdade. Certo é que a Democracia já tinha tido vários casos: Tribos, Impérios… e Repúblicas também, sem problemas com o gênero de sua eventual companhia.</p>



<p>Não tinha se casado com ninguém, não tinha filhos. Cansada de se entregar e ser traída, ela havia resolvido viver de momentos.&nbsp;<em>Carpe diem</em>, dizia.</p>



<p>Mas — como acontece com todo mundo — um dia a Democracia se apaixonou de verdade. Achou que daquela vez seria pra sempre. Era um garotão espadaúdo de nome Mercado Financeiro. Falastrão, ele repetia a toda hora que era “liberal” e esse era seu maior “mérito”.</p>



<p>Chegou de mansinho, acenou, flertou, mandou flores (artificiais), chamou pra jantar, dançar, e, quando a Democracia deu por si, eles já andavam de braços dados, como se fossem amantes desde sempre. De tão feliz, ela não percebeu quando a mesma história de seus amores anteriores começou a se repetir.</p>



<p>Pouco a pouco o Mercado foi abandonando as pequenas gentilezas que pareciam ser-lhe tão naturais: já não deixava a Democracia entrar primeiro nos lugares, tomava-lhe a voz, começou a dizer aos quatro cantos do mundo que era ele quem arrastava aquela “velha decrépita” de um lado para o outro e que, sem ele, ela nada seria. Ela se magoava, mas, mesmo ressentida, assentia: era o jeito dele, impetuoso que só.</p>



<p>Na esperança cega de enfim ser feliz para sempre, a Democracia se deixou engravidar. O Mercado até achou que aquilo pudesse ser vantajoso para os negócios da Família.</p>



<p>Fizeram planos. Ela queria que a cria fosse feliz e dona do próprio nariz; ele exigia que fosse sagaz. Ela sonhava com beijos, abraços e netos; ele, com dividendos. Ela vislumbrava trocas de olhares cúmplices, toques suaves, carinho; ele só aceitaria olhos claros, pele clara e, claro!, que fosse um menino!</p>



<p>Muitos anos se passaram — em gravidez assim isso não estranha — até que os primeiros sinais do parto se mostraram. Tensões, distensões, contrações, verdadeiras revoluções, e todos à volta, à espera do tão esperado filho da Democracia com o Mercado. Até que a criança coroou.</p>



<p>Impulsivo, o pai se precipitou no vão das coxas da mãe e foi o primeiro a ver os cabelos escuros da criatura que vinha à luz. Dissimulou a contrariedade (ele esperava cabelos claros!), deu um passo atrás e ordem para que o Trabalho fizesse seu trabalho. O parto era lento, difícil.</p>



<p>Democracia, que tinha vibrado muito com a visão dos cabelos negros de sua cria, ficou ainda mais radiante quando viu que o bebê tinha a tez morena. Mercado quase não conteve a decepção. Como assim não era uma pele branca?! Quando a criança enfim nasceu de todo, ele explodiu em cólera: uma menina! ME-NI-NA!?!?</p>



<p>Sim, uma linda menina a quem a mãe, entre lágrimas, batizou de pronto: Equidade.</p>



<p>Mercado não se conformava: gerar Equidade não estava nos seus planos! Ainda menos com essa cara tão pouco parecida com a sua, ariana. Deu ordem para que, mais forte, o Trabalho sufocasse a Equidade. A Democracia chorava e implorava que poupassem sua filha. Em vão. Tentou se levantar, mas estava cansada demais de seu esforço de tantos anos tentando mascarar os desmandos e a maldade do Mercado, e agora, depois de um parto tão custoso, não se sentia mais com forças para lutar.</p>



<p>Mercado ficava cada vez mais agressivo; Trabalho estrangulava a recém nascida; diminuíam cada vez mais as chances de Equidade; desfalecida em seu leito, Democracia agonizava.</p>



<p>Um aceno de cabeça do Mercado e entra em cena o derradeiro personagem deste conto de fodas: sentado até então num canto da sala de parto, braços cruzados, chapéu Panamá marfim enterrado na cabeça, charuto cubano enfiado na boca, terno de linho branco e brancos mocassins de couro nos pés, era o Capital.</p>



<p>Sem tirar o chapéu, sem deixar cair o charuto, sem amarrotar o terno nem manchar os mocassins, o Capital de um golpe desequilibrou o Trabalho, que caiu em cheio sobre a pequena Equidade e a sufocou de uma vez por todas. Com a outra mão, calou completamente o choro miúdo da Democracia.</p>



<p>Cuspiu agressivamente o charuto para o lado direito, escarrou para a esquerda e rosnou:</p>



<p>– Está tudo consumado.</p>



<p>E o Mercado Financeiro por fim sorriu satisfeito.</p>



<p>E juntos os três foram felizes para sempre: Mercado, Capital, e seu filhote, que os dois primeiros forjaram a partir da placenta antes arremessada ao lixo, e que com o fogo de dentro da terra cozeram, e que com as próprias mãos moldaram, e que por capricho lapidaram e entregaram ao mundo: <strong>o Fascismo.</strong></p>



<hr class="wp-block-separator" />



<p><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong>Luciano Nascimento</strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong> é mangueirense, filho, marido, pai, professor, flamenguista, psicopedagogo&#8230; mais ou menos nessa ordem. É, também, idealizador do projeto Dê Efiência (<a rel="noreferrer noopener" href="http://www.deeficiencia.com.br/" target="_blank">www.deeficiencia.com.br</a>)</p>



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<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-flow wp-block-group-is-layout-flow">
<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-large-font-size has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color">Galeria</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.instagram.com/iambrendamarques/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2020/07/d64c5-begaleria1-1.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-10809" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-medium-font-size has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color"><em>Apoie pautas identitárias. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>
</div></div>



<hr class="wp-block-separator" />



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/9acee-publi-ediccca7acc83o-impressa-1.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-5668" data-recalc-dims="1" /></figure>





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<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.artebodoque.com/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/747d3-publi-bodoque3.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-5017" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



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		<title>Nelson Mandela foi um gigante moral do século 20 e o seu legado continua a nos guiar</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 19 Jul 2020 21:24:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 054]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Mandela]]></category>
		<category><![CDATA[Nelson Mandela]]></category>
		<category><![CDATA[ONU Brasil]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: Natália Kanem - ONU Brasil</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Na data em que as Nações Unidas marcam o Dia Internacional Nelson Mandela – a cada 18 de julho –, o secretário-geral da organização destacou o papel do sul-africano como “defensor global extraordinário da igualdade, da dignidade e da solidariedade”.</p>



<p>“Madiba foi um gigante moral do século 20 e o seu legado atemporal continua a nos guiar hoje”,&nbsp;<a href="https://news.un.org/pt/audio/2020/07/1720481" target="_blank" rel="noreferrer noopener">disse</a>&nbsp;António Guterres.</p>



<p>O tema do Dia este ano é “Promova uma ação, inspire a mudança” e destaca a importância de trabalhar em conjunto, de governos a cidadãos, para construir um mundo pacífico, sustentável e igualitário.</p>



<p>“Marcamos este dia em um momento em que a ameaça da pandemia da COVID-19 ameaça todas as pessoas, em todos os lugares, especialmente os mais vulneráveis. Perante estes desafios, os líderes mundiais precisam reconhecer a grande importância da unidade e da solidariedade”, disse Guterres.</p>



<p>O secretário-geral da ONU lembrou que a pandemia está expondo profundas desigualdades. “Precisamos combater essa pandemia de desigualdade com um novo contrato social para uma nova era. Apenas unidos podemos afastar a ameaça comum da COVID-19 e reconstruir melhor”, acrescentou.</p>



<p>Enquanto as Nações Unidas marcam o seu 75º aniversário nestes tempos “frágeis”, disse, a organização reflete sobre a vida e o trabalho de Nelson Mandela, que encarnou “os mais altos valores das Nações Unidas, agiu e inspirou a mudança”.</p>



<p>Apesar de muitos anos como prisioneiro de consciência, ‘Madiba’ – como era conhecido – manteve a dignidade e o compromisso com os seus ideais. “O seu exemplo deve levar qualquer governo que mantenha prisioneiros deste tipo a libertá-los.”</p>



<p>“No século 21 não deve haver lugar para prisioneiros de consciência”, disse Guterres.</p>



<p>Citando Nelson Mandela, António Guterres disse: “Enquanto houver injustiça e desigualdades no mundo, nenhum de nós poderá verdadeiramente descansar”.</p>



<p>“Neste Dia de Mandela, devemos lembrar que podemos, e devemos, ser parte de uma busca por um futuro melhor, com dignidade, oportunidade e prosperidade para todas as pessoas num planeta saudável.”</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Prêmio Nelson Mandela 2020 sai para dois defensores dos direitos de mulheres e crianças</strong></h3>



<p>Marianna Vardinoyannis, da Grécia, e Morissana Kouyaté, da Guiné-Conacri, são os vencedores do Prêmio Nelson Rolihlahla Mandela das Nações Unidas em 2020. O anúncio foi feito pelo presidente da Assembleia Geral da ONU, Tijjani Muhammad-Bande.</p>



<p>Em comunicado, ele disse que o trabalho dos dois “tem um impacto na vida de outras pessoas” e que eles se inspiram no exemplo e valores de Mandela. <a rel="noreferrer noopener" href="https://nacoesunidas.org/premio-nelson-mandela-e-concedido-a-ativistas-da-grecia-e-da-guine/" target="_blank">Saiba mais aqui</a>.</p>



<figure class="wp-block-embed-youtube wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="“Nelson Mandela foi um gigante moral do século 20 e o seu legado continua a nos guiar”" width="950" height="534" src="https://www.youtube.com/embed/RrDq4yAhLH0?start=1&#038;feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p><strong><em>Matéria originalmente publicada em <a rel="noreferrer noopener" href="https://nacoesunidas.org/nelson-mandela-foi-um-gigante-moral-do-seculo-20-e-o-seu-legado-continua-a-nos-guiar/" target="_blank">Nações Unidas Brasil</a></em> <em>em 17/07/2020 &#8211; Atualizado em 17/07/2020.</em></strong></p>



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<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:31% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/982c5-onubio.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-8891" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p class="has-normal-font-size"><strong><strong>A ONU (Organização das Nações Unidas) </strong></strong>é uma organização internacional formada por países que se reuniram voluntariamente para trabalhar pela paz e o desenvolvimento mundiais.</p>
</div></div>



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<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-large-font-size has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color">Galeria: artistas para seguir nessa quarentena</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.instagram.com/iambrendamarques/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2020/07/8aa95-begaleria20-1.png?w=950" alt="" class="wp-image-10841" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-medium-font-size has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color"><em>Apoie artistas nessa quarentena. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>



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<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.artebodoque.com/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/747d3-publi-bodoque3.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-5017" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color">Clique na imagem para acessar a loja virtual da Bodoque!</p>



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<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/9acee-publi-ediccca7acc83o-impressa-1.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-5668" data-recalc-dims="1" /></figure>


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		<title>29. Todos os dias</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 19 Jul 2020 21:23:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 054]]></category>
		<category><![CDATA[Em Tempos de Estricnina]]></category>
		<category><![CDATA[conto]]></category>
		<category><![CDATA[Darlan Lula]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Darlan Lula</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<pre class="wp-block-verse has-text-align-right"><em>Os limites do Tempo&nbsp;
não demarcam nossa história&nbsp;
apenas se assentam&nbsp;
em marcas terrenas&nbsp;
Darlan Lula</em></pre>



<p class="has-drop-cap">O telefone está sobre a mesa assim como todos os dias é dia. Marcos debruça o olhar nele. Não sabe ao certo o que fazer. Sente o gosto amargo da bebida que penetra o estômago. Não sabe o que o levou ao desatino do álcool. Não havia bebido antes na vida. No entanto precisava estalar a língua e porejar algo que não fosse saudável. Sua mente em torvelinho inebriava-se com o líquido consolando os nervos, e a azia não o deixa sobreviver ao contato com o aparelho telefônico. A bebida foi um consolo, mas incomoda a inquieta mente.</p>



<p>Ele olha o telefone. Fica eternos minutos vivenciando a matéria sobre a mesa. A vida ali está exposta como um banquete posto aos porcos. Presencia em si o sofrimento voluptuoso de quem perdeu algo e não sabe o que é e tivesse certa convicção de que a qualquer momento alguém ligaria e diria com a doce voz dura: “Ligue agora mesmo, antes que seja tarde, antes que o mundo resolva esconder de vez o que o aflige, antes que você se torne um penitenciado por não saber o que perdeu, e assim sofrer horrorosamente desse mercado de perdas e ganhos”. E, ao atropelar os olhos naquele aparelho, ele passa a visitar constantemente a confusa mente. A tarde aqui fora gotejando raios tênues de luz mortiça e ele em seu apartamento não sabendo o que fazer da vida, ela presente no quarto, toda incógnita. Ele olha o telefone. O embaço da imagem compondo seu corpo o deixa inquieto. Exagerou na bebida, tinha a certeza quase lacônica de que exagerara, já que não consegue mais suportar os pensamentos e organizar as ideias. Os olhos recheados de preguiçosas veias e as pálpebras sustentando com coragem e dedicação as cores do mundo. Arrefece a garganta abrindo a boca e traga um gole seco de ar. Sente sede e ânsia. Os dentes rangem e a cabeça recosta-se no ombro provocando um estado de vigília. Ressona por alguns minutos.</p>



<p>Esses minutos na vigilância do sono trazem a ele, de uma maneira atormentada, a memória da infância. Num misto de sonho aparente e realidade fantasiosa, Marcos se vê uma criança novamente, percorrendo as ruas de sua terra. As ruas, as vielas e os lotes abandonados eram outra casa repleta de vivência lúdica. Nessas perambulações estranhas provocadas pela vigília veio à cabeça a criança de sua infância, cheia de desejos repletos de carinhos, desvelos que nunca vieram à tona. A criança de Marcos em pé no alpendre da porta de casa, bolinhas de gude à mão, sorrindo para a vida e tendo a sua frente a figura paterna. O pai que nunca lhe dissera nada, nem sequer um afago nos cabelos com seus grandes, longos e grossos dedos de comerciante, o anel de formatura inexistente no anelar da mão direita. Nem sequer um “vem cá, meu filho”, expressão esta substituída por olhos que visam à vaguidão de sentimentos. E a mãe incerta na subordinação. E o filho criança ruminando a indiferença patriarcal, única na presença diária da casa. Crescendo a cada passo, sofrendo a cada gesto. O começo de uma vida sem saudades e sem boas recordações.</p>



<p>No ano em que seu único irmão nascera, ele tinha 20, já estava ausente de casa por quatro anos para estudar fora. Recebera a notícia da gestação com satisfação, sendo que logo depois franziu os cenhos e preocupou-se com a sorte do pequeno diante do pai. Mas o pequeno está crescendo e, graças a experiências outrora vivenciadas e sentidas, ele recebe doses homeopáticas de carinho paterno. Com Marcos ficaram o travo e o rancor, as feridas de uma dor sentida dia após dia no convívio com os outros, pois os filhos e os pais conhecidos e amigos e carinhosos entre si abrem as chagas da sua vivência malsucedida com o seu&#8230;</p>



<p>Assim ele vive. Nunca experimentara nenhum tipo de droga lícita ou ilícita até aquele momento. Porém, só lhe bastaram a carteira no bolso e a cara lavada de fios crescidos do dia anterior condenando-lhe responsabilidade para a compra de bebida alcoólica destilada na venda da esquina. Voltara satisfeito, carregando o embrulho num abraço paterno. Entrou a casa e depositou a garrafa sobre a mesa da cozinha. Coçou a sua abestada fisionomia num gesto irrepreensível e deu as costas para o líquido engarrafado. Com passos lentos, marcadamente destinados a um funeral cerimonioso, seguiu para a sala onde se encontrava o aparelho telefônico. Parou a uns cinquenta centímetros dele e, numa atitude hostil, pegou-o como se fosse um bicho feroz pronto para a fuga ou para o ataque, e como se fosse preciso domesticá-lo agarrando-o com força, apertando-o com seguida resolução, para logo depois reanimá-lo com afagos e carícias. Desistiu do intento antes mesmo de ouvir as respostas sintomáticas do aparelho. Era como se não tivesse forças para sustentar a posição. Era aniversário de seu pai e ele queria e tinha de ligar, pois já não via a família há mais de três meses, apesar da curta distância entre uma cidade e outra. Ficou ali, de pé olhando o telefone, espremendo o sumo de uma fruta imaginária entre os dedos, os olhos crispando o excesso líquido e salgado, marejados de intensas sensações. Elevando o antebraço à altura do rosto, Marcos dividiu a angústia de se sentir tão humano com outras regiões do corpo. Novamente com passos vagarosos, porém agora ressentindo-se consigo mesmo, ele retornou à cozinha, avistou a garrafa sobre a mesa, recostou um copo entre os dedos e desatinou a beber no descompasso de ideias.</p>



<p>Agora a garrafa já não é mais a mesma, o líquido está pela metade e Marcos se encontra jogado no sofá feito mosca de asa partida. Já é noite e os móveis e tudo ao redor já não se reconhecem na penumbra. Como que sobressaltado, ele, de um salto, suado e sentindo um gosto acre na boca, acorda. Os olhos, no início incomodados com a situação nova instaurada, perquirem o lugar como fera enjaulada. O gosto acre na boca acentua-se incontrolavelmente e ele se convulsiona tentando lidar com aquilo. A cada investida sua a coisa lhe sobe pela garganta afora, sobrando-lhe um resto de tempo para a chegada no banheiro. A cara enfiada na latrina e a imitação de uma cascata de coisas mal digeridas dão certo alívio a Marcos. A opressão do álcool fora combatida, restituindo-lhe algo. Logo lhe vem um líquido gosmento o qual ele tenta expurgar com sofridas e preguiçosas cusparadas. Seus olhos dorminhosos piscam lenta e intermitentemente ao contato cinzento com a lavagem estomacal, reconhecidamente o almoço e o lanche do dia. Suas mãos abraçam a privada fria que gela o rosto colado a ela. Ele sente que toda a força empenhada para chegar até ali o consumiu ao máximo. E por isso mesmo esmorece ainda mais o corpo ao chão. Como não há mais o que fazer senão esperar o restabelecimento, ele pensa. E pensando chega ao motivo de ter comprado a bebida, e o motivo leva-o ao pai. É aí que lhe vem novamente o gosto na boca, as convulsões e o jorro da água. Sim! água porque já não há mais nada sólido para expurgar. Água e a gosma cuspida, recuspida, lavrada nos dentes e língua. E novamente a paz do corpo e o silêncio em volta, os olhos piscando até chegarem ao sono.</p>



<p class="has-text-align-center"><strong>II</strong></p>



<p>Após algumas horas, Marcos acorda sentindo uma profunda dor. Pouco a pouco ele junta os fragmentos ao redor e recombina o vivido. Levanta-se cercado de estilhaços. O chuveiro aberto e as milhares de gotas tocando em seu corpo nu levam-no para o prazer daquele instante. Suas mãos percorrem o corpo em movimentos voluptuosos, as sensações afloram e o cheiro ressequido do álcool escorre pegajoso pelas pernas e desce pelo ralo dando adeus àqueles momentos de cólera fisiológica interna. Marcos quase está feliz na imersão de lascívias agradáveis, mas a brecha de outro instante, o suficiente para perenizar certos acontecimentos, para surgir no Universo um buraco negro do tamanho de nossas inquietações, suficiente a ponto de nos trazer o conforto inescapável da cova, trouxe a ele a memória do pai. A água quente escorre pelo rosto e o que antes era prazer torna-se incômodo, pois ele não pode se enganar, já que sua vida é fria como a privada fria que suas mãos abraçaram momentos antes. E a água continua a incomodá-lo com suas gotas quentes porque tornam seu olhar também quente e avermelhado. E esse mesmo olhar torna-se denso, suado, líquido e crispado a ponto de não se aguentar em suas órbitas e querer sair de suas margens penetrando surdamente no lado de fora; e, quente, torna-se gota e mistura-se às outras já quentes gotas que o incomodam.</p>



<p>A toalha enrolada em seu corpo no meio da sala. O telefone impassível no mesmo lugar. O começo da madrugada já não o deixa ter dúvidas. A provável sentença do pai já estar dormindo cercado de desesperanças diante da total ausência do filho mais velho é como um som agudo ressoando além dos tímpanos do sossego. Marcos sente a profundidade de sua respiração inquieta e pouco a pouco trabalha para que aquele momento não se torne ainda mais angustiante para pulmões já tão oprimidos. A garrafa com o líquido restante ainda está sobre a mesa. Marcos já nem sabe o que sentir, tamanha é a insensatez de sensações. Procura com os dedos o cheiro entorpecente do álcool. Esta fragrância suscita uma leve dor na região dorsal da cabeça e ele a repele instintivamente como a fruta madura caída do pé. A dor arrefece à medida que se veste para dormir; deitando-se tenta pensar em coisas agradáveis, em momentos prazerosos, em instantes indistintos e sem grande notoriedade, mas ainda assim notáveis pelo conforto e paz de espírito, sem constipações interiores. Contudo, o ser humano, por mais que tente ao agradável, tem sempre que se desfibrar perante a própria imagem refletida no espelho, ainda que seja a mais bela figura já vista pela matéria refletora, ainda que esteja contente minutos atrás por haver escapado das próprias imagens chocantes vindas do pulsante coração. E Marcos se desfibra naquele momento, assim como em outros instantes já vistos, ao pensar em uma melodia, e a melodia sugere tambores militares, e os tambores trazem Geraldo Vandré, e Vandré traz sua música Porta-estandarte. Ele que passara a não ter nenhum estandarte em sua vida, lembra-se dos versos musicados: “Olha que a vida tão linda / Se perde em tristezas assim”. Lembra-se em pequeno ao redor da mesa, seu pai triturando o almoço com dentes ferozes. O seu aniversário, ele teria que ligar, mesmo que fosse tarde. O seu aniversário, mesmo que fosse no dia seguinte ele teria que ligar e dizer “Parabéns”. Só não sabia de onde viria a força, só não sabia por que dizer isso. “Na avenida girando / Estandarte na mão / Pra anunciar.” Mas teria que dizer, mesmo que fosse por um instante, só por um instante apenas, o suficiente para amainar os corações. “Olha que vida / Tão linda, tão linda / Perdida, perdida / Tão linda, perdida.” Recosta-se no travesseiro e ressona ao embalo do som moroso de Porta-estandarte ativado por recordações infantis.</p>



<p class="has-text-align-center"><strong>III</strong></p>



<p>Marcos, já na rua, segue para o trabalho. Ele nem sequer imagina que sua mente tão atarefada e cheia de rotina diária irá pensar no dia anterior. Ele nem imaginaria pensar em seu pai. Porém foi o que lhe ocorreu. No momento exato em que o pensamento começa a se transformar em reflexão, ele, de prontidão, desvencilha-se e entra em uma padaria. O café quente é sorvido com gosto e excita-lhe o corpo, fazendo-o sentir melhor, mas novamente lhe vem a figura do pai e ele sente um rancor tão grande que dá para ouvir a bile amarga porejar no corpo. O trabalho, a partir daquele instante, ocupa os seus momentos e pensamentos, convidando-o, e obtendo sucesso em seu desígnio, a entrar no mundo exaustivo do recalque.</p>



<p>Alguns dias se passam sem grandes novidades até Marcos receber uma carta. Sua mãe. Ao perceber isso, seu coração contrai-se com tanta força que parece querer voltar à condição de feto, o ser inaugural no princípio humano. Não a abre de imediato, prendendo-se a outros afazeres como se os dizeres presos no envelope fossem a representação contemporânea de uma caixa de Pandora. E ele ainda não se sente preparado para ser a causa de tantas desgraças alheias, bastando-lhe somente a sua condição. Ah! mas a curiosidade mata; se não mata, pelo menos ajuda a matar. Após horas de relutância contida, ali está diante da carta. Tesoura à mão abrindo o envelope e oferecendo chagas ao destino. Lê. Inexorável, distante, sem apelos emocionais, olhos grudados na folha de papel que se apresenta num tom saudoso, maternalmente escrita com mãos carinhosas e cheias de cuidados e desvelos. Os ares de confidência são exalados pelas palavras proferidas. Marcos sabe, no entanto, até onde tudo isso irá se mover. Não demora muito para a mãe tocar no assunto. Fala da pequena festa feita para o marido, os poucos parentes presentes, o filho de 10 anos feliz pelo aniversário do pai, porém todos esses motivos não foram suficientes para agradá-lo, que ficou ansioso grudado ao telefone todo o dia. E assim foi ficando tarde, os festejos encerraram-se, Mariano dormiu no sofá, ao lado do aparelho telefônico, sendo preciso o filho mais novo ir acordá-lo e chamá-lo para a cama. Ele acorda meio assustado olhando para o aparelho. Logo em seguida, franze a testa, pigarreia fundo e diz ao menino: “Vem cá, me dê um abraço. Acho que tenho somente um filho, e este está aqui, ao meu lado agora”. Marcos, ao terminar a leitura, sente o fôlego faltar-lhe. Recobra-se com um gole d’água. Olha para a escrivaninha repleta de trabalhos e provas de seus alunos a corrigir. Pega a carta da mãe, dobra-a e enfia-a no envelope para em seguida despejá-la em uma gaveta qualquer. Senta em sua cadeira confortável e recomeça o afazer diário de profissional respeitável que é.</p>



<hr class="wp-block-separator" />



<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:30% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/94898-darlan_png.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-10407 size-full" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p style="font-size:18px"><strong><strong>Darlan Lula </strong></strong>é doutor em Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense. Escritor, autor de cinco livros, entre prosa e poesia.&nbsp;<a href="http://www.darlanlula.com.br/">www.darlanlula.com.br</a></p>
</div></div>



<hr class="wp-block-separator" />



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-flow wp-block-group-is-layout-flow">
<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-large-font-size">Galeria: artistas pra seguir na quarentena</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.instagram.com/luis_vivanco/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2020/08/75260-galerialuis1-1021x1024-1.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-10529" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-medium-font-size"><em><em><em>Apoie os artistas nessa quarentena. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></em></em></p>
</div></div>



<hr class="wp-block-separator" />



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/9acee-publi-ediccca7acc83o-impressa-1.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-5668" data-recalc-dims="1" /></figure>





<hr class="wp-block-separator" />



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.artebodoque.com/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/747d3-publi-bodoque3.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-5017" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background">Clique na imagem para acessar a loja virtual da Bodoque!</p>
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		<title>Eu e tantos outros</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 19 Jul 2020 21:22:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 054]]></category>
		<category><![CDATA[Poésis]]></category>
		<category><![CDATA[Gabriel Garcia]]></category>
		<category><![CDATA[poema]]></category>
		<category><![CDATA[poesia]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://atomic-temporary-162935141.wpcomstaging.com/?p=11002</guid>

					<description><![CDATA[<p>por: Gabriel Garcia</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<pre class="wp-block-verse">Qual a íntima maioral adversidade?
Aceitar e valorizar a... diversidade


Herdeiro do Universo de ordem e beleza
Nossas variedades são a grande riqueza


Aspirante do porvir, milênio glorioso
A diferença é o intercâmbio ditoso


Sem o outro quem sou eu?


Como inundar o peito de superior emoção
Sem a presença afetuosa do amigo no coração?


A diferença humana é a mola do progresso
A essência da vida e a chave do sucesso


Aprendemos a tolerância no lidar
Preciosa lição constante socializar


Sem o outro, quem sou eu?


O respeito mútuo, atitude fundamental
Nova sociedade, crescimento espiritual


É Deus a se expressar na criatura
Em particular retoque, moldura


Bastam os rótulos! Busquemos o cuidado
Acolher a todos, o gesto elevado!


Sem o outro, quem sou eu?</pre>



<hr class="wp-block-separator" />



<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:32% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/9fb03-gabriel_png.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-10484 size-full" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p><strong><strong>Gabriel Garcia </strong></strong>é poeta. Atua como professor de Física nas horas vagas.</p>
</div></div>



<hr class="wp-block-separator" />



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-flow wp-block-group-is-layout-flow">
<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-large-font-size">Galeria: artistas pra seguir na quarentena</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.instagram.com/affnana/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2020/11/e9be3-nana1.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-10139" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-medium-font-size"><em>Apoie artistas nessa quarentena. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>
</div></div>



<hr class="wp-block-separator" />



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/9acee-publi-ediccca7acc83o-impressa-1.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-5668" data-recalc-dims="1" /></figure>





<hr class="wp-block-separator" />



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.artebodoque.com/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/747d3-publi-bodoque3.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-5017" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<p class="has-text-align-center"><p class="has-text-align-center has-text-color has-background" style="background-color:#2b2b2b;color:#ffffff">Clique na imagem para acessar a loja!</p></p>
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		<title>Amizades que florescem</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 19 Jul 2020 21:21:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 054]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[Mediador]]></category>
		<category><![CDATA[Sérgio Augusto Vicente]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Sérgio Augusto Vicente</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="has-drop-cap">Quem as via assim, tão de “cara feia” uma com a outra, não imaginava que, poucos meses atrás, tirávamos altas <em>selfies</em> juntas na hora do recreio, com direito a coraçõezinhos e tudo mais. Porém, como nem tudo o que é bom parece durar para sempre, essas minhas duas melhores amigas brigaram. Rompia-se ali o pacto firmado pelas “três mosqueteiras” &#8211; era assim que nos chamávamos há uns bons anos.</p>



<p>Até hoje não descobri ao certo o motivo dessa briga. No fatídico dia, não fui à aula, coisa rara de acontecer. Segundo me disseram, não chegou a ser uma briga física, daquelas de travarem na unha ou se descabelarem na frente de todo mundo. Discutiram feio, ou, como dizia minha avó, “arengaram”. E deve ter sido uma “arenga” daquelas&#8230;</p>



<p>A partir daí, respirar o mesmo ar passou a ser um verdadeiro desafio para Juliana e Maria. E olha que, naquele tempo, a gente nem ouvia falar desse tal de coronavírus… Pior ficou a minha situação: não estava sendo fácil me equilibrar entre as duas.&nbsp;</p>



<p>Eu era a amiga mais íntima da Maria e, por isso, talvez, tenha me tornado uma espécie de diplomata nas suas confusões com a Juliana. Minha mãe dizia até que eu era a terceira bonequinha daquela estória das três Marias, sabe? A primeira vez em que ouvi falar dessas bonequinhas foi quando as ganhei da minha tia Helena no meu aniversário de sete anos. Estão guardadas, juntas, até hoje, dentro da mesma caixinha, na primeira gaveta do meu guarda-roupa. Lembro-me dela me explicando o sentido da lenda: “As três não podem se separar, ouviu? Porque uma é solidão, duas são confusão e três são a solução.” Levei tudo a sério mesmo: nunca ousei tirar nenhuma delas da caixa.&nbsp;</p>



<p>Num belo dia, semanas após a briga da Juliana e da Maria, o Bruno me chamou num cantinho da quadra da escola e começou com uma conversa de que podíamos organizar uma festa surpresa para comemorar o aniversário da Maria. No começo, fiquei meio assim… Mas, depois, passei a adorar a ideia. Afinal de contas, era nosso último ano de escola. 2016 só Deus sabia como seria…&nbsp;</p>



<p>Organizamos tudo direitinho. Como sempre, elegeram-me a líder do planejamento da festa. Decidi que cada colega levaria uma coisa. E nada de reproduzir aquele velho hábito careta de “meninos levam refrigerante” e “meninas levam doces e salgadinhos!” Meninos e meninas podiam levar o que quisessem, desde que respeitassem a escolha colocada na lista que fizemos. Sendo a “queridinha” da mãe de Maria, logo me incumbi de conversar com ela sobre o local da festa. Também fiz questão de encomendar o bolo para a minha tia, doutora nessa arte que tanto admiro, apesar de não ter herdado nenhum pouco dessa habilidade.</p>



<p>Liguei para a Dona Rose no horário em que Maria estava na aula de natação. “É claro que pode, Roberta! A casa está liberada para vocês todos!” Como sempre, Dona Rose muito gentil, generosa e animada: não hesitou em liberar a casa para o festejo e me prometeu manter segredo. Ela me parecia saudosa de nossas festinhas infantis. Dessa vez, porém, era diferente: permitir que trinta adolescentes se reunissem dentro daquela casa não era para qualquer um. E tinha mais um problema: era a primeira vez em que nosso “trio” se desfizera por conta de alguma briguinha. Seriam as caretices do mundo adulto que nos assombrava ou o ranço de criancice que ainda nos impregnava?</p>



<p>Juliana parecia assistir aos preparativos com indiferença. Se tinha uma coisa que ela sabia fazer muito bem, era mostrar-se por cima da situação, ou como minha mãe sempre diz, “se sentir por cima da carne seca”. Mas, se o orgulho a vencia, nem por isso deixava de transparecer aquela “pontinha” de ciúme disfarçada de pouco caso. Sinceramente, eu não sabia mais o que fazer com aquelas duas. Dessa vez, a coisa parecia mais séria…&nbsp;</p>



<p>Marcamos a festa para um sábado à noite, na casa da Maria. Pedi à Eduarda que a chamasse para tomar um sorvete na pracinha no final da tarde, enquanto arrumávamos a festa. Discreta e habituada a falar pouco, Eduarda era a mais indicada para essa missão. Todos os colegas do terceirão estiveram presentes, com exceção de Juliana, é claro, apesar das minhas insistentes investidas para que ela comparecesse.</p>



<p>Maria voltou da pracinha com a Eduarda por volta das 18:30. Tudo arrumado, combinamos de deixar a luz apagada e a casa em silêncio. Nenhuma ligação pra ela, nenhuma mensagem pelo zap. Gelo total. Nem mesmo uma mensagem sem graça no Facebook. “Eh, Eduarda… Só você mesmo me deu os parabéns… Geral da nossa turma se esqueceu do meu aniversário…”</p>



<p>As duas abrem o portão, sobem a escada e&#8230;&nbsp;</p>



<p>“Parabéns pra você, nessa data querida!” Eis que o silêncio se quebrou rapidamente ao abrir da porta. A tristeza e a solidão se converteram, de repente, em alegria, gritos, abraços e beijos.&nbsp;</p>



<p>“Chegou um presente pra você!” Disse Dona Rose.</p>



<p>“Êeeeee! Abre! Abre! Abre!” Gritou a galera.</p>



<p>“Oba! Vamos ver o que é, então?” Alegre, Maria não conseguia se conter de tanta curiosidade. Caixa grande, embrulho bonito. “O presente só podia ser especial.”</p>



<p>Papel rasgado, caixa aberta. Dentro da caixa, outra caixa menor, igualmente embrulhada. Dentro da caixa menor, um pote plástico tampado.</p>



<p>“Que coisa, não!” Angustiou-se a mãe, enquanto a gente só ficava observando em silêncio. O que podia haver dentro daquele pote? Coisa estranha… Ela certamente pensava.</p>



<p>Abre! Não abre! Abre! Não abre! Maria abriu. Ansiosa e angustiada, mas abriu. E a gente não podia acreditar no que viu.</p>



<p>“Bosta de vaca! Eca! Que nojo!” Exclamou Letícia, a mais nojenta da turma.</p>



<p>Era isso mesmo: bosta de vaca. Tá certo que não era daquela fresca e mole. Já estava bem sequinha, a mesma que meu pai chama de esterco e usa para adubar as plantas do jardim lá de casa. Lembro-me das inúmeras vezes em que íamos ao sítio da minha avó buscar esse tal de esterco. Meu pai ensacava tudo direitinho pra não sujar o porta-mala do carro. Taí uma coisa que herdei do meu pai: esse jeito metódico e organizado de ser, que, apesar de me fazer cobrar demais e me deixar ansiosa nos momentos em que a vida me impõe incertezas, mantém meu foco, minha disciplina, meus planejamentos, etc.</p>



<p>O silêncio era geral. Maria não sabia se ficava pálida ou vermelha, se tremia ou ameaçava gritar, chorar ou correr. Talvez quisesse cavar um buraco pra se esconder.</p>



<p>“Calma, filha!Aposto que deve ser alguma brincadeira dos seus colegas… Quem foi o engraçadinho que fez isso, hein?!”</p>



<p>Todos sem graça, ninguém respondeu.&nbsp;</p>



<p>“Ninguém disse nada, mas eu seria capaz de adivinhar o pensamento de todos naquele momento. Certamente, pensaram em silêncio, cada um com seus botões: “Foi a Juliana!”</p>



<p>Acabava de acabar a festa que mal havia começado. Não havia mais clima. Partimos, deixando Maria aos prantos em seu quarto. Imaginei o quanto seria difícil para ela voltar ao colégio na segunda-feira de manhã. Humilhada: era assim que a minha querida amiga se sentia. Não podia ser diferente, é claro.</p>



<p>O domingo foi pesado para Maria, imagino. Mas a segunda seria pior.&nbsp; Deve ser insuportável perceber que você é o centro das atenções e do deboche, dos cochichos no pátio e no corredor da escola. Deus me livre! Se fosse comigo, ficaria pelo menos um mês sem ir à aula.</p>



<p>Mas Maria era forte. Maria resistiu. Mesmo de cabeça baixa e trancada, sozinha, dentro da sala de aula, na hora do recreio, não desistiu de vencer aquela longa semana. Tentei me aproximar, como das outras vezes, mas não funcionou. Preferiu isolar-se.</p>



<p>Passaram-se dias e meses. A poeira abaixou. Havia chegado o aniversário da Juliana. Resolvemos organizar uma surpresa parecida pra ela. No início, a galera ficou meio receosa, lembrando do que havia acontecido com a Maria. Mas fizemos a festa assim mesmo. Fiz questão de encorajar o pessoal. Vida que segue e, mais do que nunca, não podíamos deixar passar a oportunidade de festejarmos juntos. Afinal, era nosso último ano de escola.</p>



<p>Tudo organizado. Todos presentes, exceto Maria.</p>



<p>Para dar aquela enganada na Juliana e conseguir o efeito surpresa que queríamos, a mesma estratégia: sorvete com a Eduarda na praça, retorno pra casa às 18:30, poucas felicitações enviadas pela internet, casa fechada, silêncio, escuro e… “Parabéns pra você…”&nbsp;</p>



<p>Vaidosa e exibida como só ela, Juliana parecia desconfiar que aquela data não passaria em branco. Do jeito que se produziu para tomar um sorvete na praça, já parecia preparada para fazer as melhores <em>selfies</em> com os amigos.&nbsp;</p>



<p>Antes que a decoração estragasse e perdesse toda a harmonia e vivacidade do início da festa, Juliana logo nos chamou para uma <em>selfie</em> atrás do bolo. Não me conformo de terem postado essa foto no Facebook. Saí com uma cara esquisita que só vendo&#8230; Fui pega literalmente desprevenida, ansiosa para responder à mensagem que havia acabado de receber pelo <em>Whatsapp</em>.</p>



<p>Partimos para os comes e bebes. A campainha toca. Fui ao banheiro retocar a maquiagem enquanto isso. Ouvi o pai de Juliana abrindo a porta e cumprimentando o rapaz que chegava. Era o <em>motoboy</em> entregando uma surpresa.&nbsp;</p>



<p>“Caixa grande, embrulhada e pesada? Ih! Lá vem chumbo grosso!” Pensaram todos. Mas Juliana se empolgou logo. Antes de tudo, nos convidou para outra foto. Dessa vez, todo mundo ao lado do presente. Em tempo de redes sociais, mais importante do que ganhar presente e ter todos presentes, é mostrar para todo mundo o presente que ganhou. Dessa vez, finalmente, saí bem na foto. Relaxada, descansada e respirando mais aliviada, era hora de curtir a festa.</p>



<p>“Vamos abrir!” Disse Juliana, puxando o primeiro durex do embrulho.</p>



<p>“Não vai ler a mensagem?” Chamei atenção para o envelope escondido na dobra do papel de presente. Dentro do envelope, um cartão sem remetente, com a seguinte mensagem escrita em letra palito: “Parabéns! Faça bom proveito!”</p>



<p>Juliana ficou meio pensativa e paralisada. A dúvida parecia martelar sua cabeça.</p>



<p>“Não vai abrir, Juliana?” Tentei apressá-la.</p>



<p>Juliana rasgava o embrulho, enquanto formávamos um círculo ao seu redor. Finalmente, tomou coragem para abrir a caixa. Dentro da caixa, outra caixa. Dentro dessa outra caixa, outra caixa menor. E as expectativas só aumentavam. Um cheiro abafado começava a sair dali de dentro… Expectativa!</p>



<p>“Rosa! Rosa!” Gritava Juliana.</p>



<p>“Oi! Oi! Estou aqui!” Respondeu a tia de Juliana.</p>



<p>“São rosas! Lindas rosas!” Surpreendeu-se Juliana.</p>



<p>Colado no vaso, outro envelope: “Parabéns, Juliana! Que estas rosas possam alegrá-la nesse dia tão especial! Que a vida te seja fértil, como este esterco foi para esse lindo pé de rosa com que te presenteio nessa nova primavera que se inicia em sua vida. Abraço! Deus te ilumine sempre!” Cartão sem remetente, mensagem escrita em letra de forma.&nbsp;</p>



<p>“Lindas rosas enxertadas, Juliana!” Comentei.</p>



<p>“Enxertadas? O que é isso? Desde quando você entende de rosas, Roberta?!” Juliana me zuou.</p>



<p>“Uai! Sei lá! Desde sempre… Mas, mudando de assunto, que lindo este seu vestido!”</p>



<p>Na segunda-feira, rotina novamente. Escola de manhã. Aula de matemática no primeiro horário. Juliana sorria. Maria não parecia alegre nem triste. Carregava um semblante mais leve, talvez. Mas algo parecia ter mudado entre as duas. Um clima diferente. Olhares desarmados. Finalmente, minha impressão se confirmou: na volta do recreio para a sala de aula, deparei-me com uma cena há muito não vista. Juliana e Maria se abraçavam amigavelmente.&nbsp;</p>



<p>Juliana até hoje não se cansa de agradecer Maria pelas lindas rosas que ganhou. Maria, no entanto, continua negando veementemente a autoria daquele nobre ato. E quanto mais Maria nega, mais intermináveis se mostram a gratidão e os pedidos de desculpa de Juliana.</p>



<p>O fato é que não abro mão de rememorar essa linda estória que nos “re-uniu” e até hoje nos une. Estória que sempre associo àquela música, cujo autor não me lembro o nome, mas que minha tia cantava pra mim como uma verdadeira canção de ninar: “Fica um pouco de perfume nas mãos que oferecem rosas, nas mãos que sabem ser generosas…” Ao som dessa melodia, dormia serenamente, enquanto me despertava para os valores e sentidos do meu existir no mundo. Acredito que, na vida, tão importante quanto “fazer o bem sem ver a quem”, é receber o bem, sem saber de quem.</p>



<p>Atualmente, Maria estuda Artes em São Paulo. Juliana faz moda no Rio. E eu, curso o último período de Letras, na UFJF. Desde que nos formamos no Ensino Médio, uns cinco anos atrás, continuamos estabelecendo contato. A vida meio corrida nos afastou um pouco, é verdade. Mas, especialmente nessa quarentena, não cansamos de nos falar pela internet. Estamos nostálgicas que só vendo… Como era boa a vida de adolescente! E como tudo passou tão rápido, em meio a esterco, espinhos e rosas…</p>



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<p><strong>Sérgio Augusto Vicente</strong>: sou professor de História e historiador, com bacharelado, licenciatura e mestrado em História pela UFJF. Atualmente, curso doutorado pelo Programa de Pós-Graduação em História, vinculado a mesma universidade. Dedico-me a estudar a história social da cultura no Brasil, trajetórias individuais e de grupos, história intelectual, patrimônio cultural, memória e educação.</p>



<p>Moro em Juiz de Fora (MG), onde trabalho no Museu Mariano Procópio. Contudo, mantenho-me umbilicalmente ligado às origens rurais de minha família, num sítio em Simão Pereira (MG), uma espécie de refúgio localizado à margem de uma estrada de terra que liga ao município vizinho de Belmiro Braga (MG). Sítio que se tornou memória afetiva de várias gerações de minha família, desde que meus tataravós portugueses o compraram em 1910. Sempre que posso, escrevo crônicas e poesias, abrangendo temáticas diversas, como memórias, cotidiano, política, etc.&nbsp;</p>



<p>No ciclismo amador, conecto a necessidade de cuidar da saúde física/mental com todas as áreas de minha vida, a que me dedico com amor e carinho.&nbsp; Entre um passeio ciclístico e outro, inspiro-me em histórias e memórias do cotidiano e paisagens de Juiz de Fora e região. Na página “Diários de bicicleta”, no Facebook, é possível ter acesso a esses registros.</p>



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<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.artebodoque.com/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/747d3-publi-bodoque3.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-5017" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



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