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	<title>Arquivos Ano 002, N 065 - Revista Trama</title>
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	<description>Arte, Cultura e Criatividade</description>
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		<title>Editorial &#8211; Ninguém aguenta mais falar de Coronavírus</title>
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		<pubDate>Sun, 04 Oct 2020 21:30:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 065]]></category>
		<category><![CDATA[Artigo]]></category>
		<category><![CDATA[Carol Cadinelli]]></category>
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		<category><![CDATA[Editorial]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: Carol Cadinelli</p>
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<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-flow wp-block-group-is-layout-flow">
<p class="has-text-align-left">Falar ou não falar sobre o Coronavírus: eis a questão.</p>



<p>Bem, a pandemia não é notícia nova. Para mim, já são seis meses e meio de quarentena-na-medida-do-possível &#8211; que, no meu caso, é bem mais que o possível para a maioria da população; para uma galera, já são bem mais.</p>



<p>As notícias sobre vacinas, discussões sobre tratamentos possíveis, informações sobre medidas políticas e individuais para a prevenção de contágio, essas também já não são novidade; mesmo as notícias novas, sobre avanços no desenvolvimento das vacinas, já chegam velhas aos nossos ouvidos. Tudo parece igual, e parece que nunca vai acabar &#8211; ou que já acabou.</p>



<p>Pois bem. Ainda não acabou, não, essa tal de quarentena. A gente ainda deveria estar em casa tanto quanto possível; usando máscara nas poucas vezes que sai; passando álcool gel nas mãos, e higienizando tudo que é superfície; mantendo distância. Mas em vários lugares, é como se tivesse acabado. </p>



<p>Vou contar dos locais em que vivo: </p>



<p>Em Juiz de Fora, os bares já estão abertos; e vocês não imaginam a minha surpresa no sábado passado, ao finalmente levar minha cachorra pra passear na pracinha (depois de muito relutar) &#8211; eu toda cheia de dedos, máscara e distanciamento -, vendo o nível de lotação das mesas do tradicional Bar du Leo. Depois da surpresa, veio a inveja de quem estava ali, tomando uma geladinha, comendo o melhor pastel da cidade, com tranquilidade. Em outros contextos, vejo os amigos falando de tomar uma caip ali no Rise, como costumávamos fazer todas as quintas-feiras. Tudo bem que ninguém aguenta mais ficar presa (eu inclusa) e que os bares estão tomando suas medidas de segurança. Mas queria, eu, me sentir segura pra essas coisas. </p>



<p>Em Guarulhos, o forró no Bar do Vandeko embalava as minhas noites em casa de quarta a domingo. Ir ao supermercado demandava uso de máscara; mas só, também. De resto, todo mundo de cara livre &#8211; o que me faz questionar como a minha sogra anda conseguindo vender as tantas máscaras que produz. As conduções para e de São Paulo, cheias. As tabacarias do Alvorada, cheias também. </p>



<p>A questão é que, independente do que as pessoas andam fazendo, as notícias permanecem as mesmas: &#8216;Brasil chega a 5 milhões de casos do COVID&#8217;; &#8216;Já são quase 150 mil mortes por Coronavírus no Brasil&#8217;; &#8216;Ministério da Saúde permanece sem ministro&#8217;; &#8216;A vacina inglesa continua em fase de testes&#8217;; &#8216;Tratamentos experimentais continuam sendo aplicados em pacientes com Coronavírus&#8217;. Na verdade, existem umas diferenças dessas manchetes que eu tirei de trás da minha orelha para as manchetes reais: elas continuam chamando o COVID de &#8220;Novo Coronavírus&#8221;. Mas novo pra quem, gente? Já estamos em outubro, e embarcadas nessa onda desde fevereiro. Presas em casa desde março. A gente não aguenta mais falar de COVID. </p>



<p>Mas se não falamos, estamos sendo omissas. Se não falamos, é como se tivesse acabado, e todos pudéssemos retomar nossas rotinas pré-pandêmicas &#8211; o que já vem ocorrendo na maioria dos locais, para preocupação daqueles que ainda buscam se proteger, proteger aos seus, e das autoridades de saúde em geral [não vamos entrar aqui nos específicos relacionados às opiniões de vocês-sabem-quem].</p>



<p>Tenho motivos para acreditar que o desejo mais honesto da maioria de nós, jornalistas, nesse momento, é poder não falar nunca mais sobre o Coronavírus. Mas enquanto jornalistas, não podemos nos dar ao luxo de ficarmos omissas diante de uma situação que coloca em risco as vidas de milhões de pessoas &#8211; ainda que ninguém mais aguente falar disso, inclusive nós. </p>



<hr class="wp-block-separator" />



<p><strong>Carol Cadinelli</strong> é jornalista, apaixonada por palavras. Escreve, edita, revisa, traduz, atua e, vez ou outra, fotografa. Atualmente, é editora na Trama e escritora nas horas vagas.</p>
</div></div>



<hr class="wp-block-separator" />



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<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/fdf84-assinatura-4.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-11677" data-recalc-dims="1" /></figure>





<hr class="wp-block-separator is-style-wide" />



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<div class="wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow">
<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.artebodoque.com/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/073d7-loja-1.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-11574" data-recalc-dims="1" /></a></figure>
</div>



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<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.artebodoque.com/revista-trama-edicao-impressa-edicao-001"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/72b80-impressa-3.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-11608" data-recalc-dims="1" /></a></figure>
</div>
</div>



<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-large-font-size">Galeria: artistas pra seguir na quarentena</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.instagram.com/affnana/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/43ef4-fotos-carol-copy.jpg8_-1021x1024.jpg?resize=950%2C953&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-11314" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-medium-font-size"><em>Apoie artistas nessa quarentena. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>
</div></div>
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		<title>[Arredores] O Choro e a Alegria de Caetano Brasil</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 04 Oct 2020 21:29:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 065]]></category>
		<category><![CDATA[Arredores]]></category>
		<category><![CDATA[Caetano Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[Carol Cadinelli]]></category>
		<category><![CDATA[entrevisa]]></category>
		<category><![CDATA[Grammy Latino]]></category>
		<category><![CDATA[juiz de fora]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: Carol Cadinelli</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>O Grammy Latino está entre as premiações musicais de maior prestígio em todo o mundo, já tendo agraciado, em suas vinte edições, grandes nomes da música brasileira, como Chico Buarque, Lenine e Maria Rita, e da música mundial, como Shakira, Jorge Drexler e Laura Pausini. </p>



<p>Entre as indicações para a vigésima primeira edição do prêmio, em 2020, os nomes de sucesso nacional e internacional permanecem: Maria Bethânia, Emicida, Elza Soares; Alejandro Sanz, Ricky Martin, J. Balvin. E, entre eles, Caetano. O Veloso, claro, em duas categorias: melhor álbum de MPB e melhor canção. Mas também, Caetano Brasil. </p>



<p>Se você ainda não ouviu falar de Caetano Brasil, se prepare; além de ter conquistado a indicação ao Grammy, Caê está conquistando o mundo com seu clarinete mágico ao fazer alquimias surpreendentes entre o choro, o jazz e os gêneros ciganos e folclóricos de diversas culturas ao redor do planeta. Em seus dez anos de carreira profissional, o músico vem absorvendo &#8220;a beleza da música do mundo&#8221; em suas peças e levando-as ao público através de um diálogo acessível a todes. </p>



<p>Essa semana, a Trama conversou com ele sobre como é todo esse processo e como está sendo este momento de tanta visibilidade. Rola pra baixo pra conferir a entrevista!</p>



<div class="wp-block-image is-style-default"><figure class="aligncenter size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/53b88-caetano-brasil-03-foto-por-igor-tibirica.jpg?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12254" data-recalc-dims="1" /><figcaption>Caetano Brasil e seu clarinete mágico no centro de Juiz de Fora.<br>Foto: Igor Tibiriçá</figcaption></figure></div>



<p><strong>Trama: Em geral, crianças de 12 anos se interessam por instrumentos como o violão, a guitarra, ou o piano. Porém, você, com essa idade, se interessou pelo clarinete, um instrumento um tanto incomum. Como começou o seu interesse pelo instrumento? E qual foi o momento em que você decidiu que viveria de música?</strong></p>



<p><strong>Caetano:</strong> Bom, na verdade, o meu primeiro interesse foi pelo violão. Eu tive uma criação católica, de frequentar missa todo domingo, e ver as pessoas fazendo música ao vivo, e começar a pensar aquilo como algo muito interessante. Então, quando eu tinha por volta de nove anos, eu pedi um violão pra minha mãe, e ela não pode me dar, naquele Natal, e me deu uma flauta doce.  E eu comecei meio que sozinho, com um caderninho, um livrinho que ela comprou também, &#8216;Vamos Tocar Flauta Doce&#8217;, e fuçando, sempre tive essa coisa do &#8220;all by myself&#8221;, de eu mesmo descobrir. Até que eu fui informado que no meu bairro tinha uma oficina de música, que acontecia aos sábados, numa fundação espírita que super me recebeu lá para aprender música, e eu já estava tocando e lendo algumas coisas&#8230; e foi nesse lugar que, mais tarde, aos 12 anos, eu tive a oportunidade de  ter contato o clarinete &#8211; a gente não tinha professor de clarinete lá, mas a gente estava tocando choro, que eu também fui apresentado ao choro nessa oficina -, e a flauta doce, ela chega num ponto que tem limitações, né, de extensão, de alcance de notas. Então apareceu um clarinete emprestado, nessa mesma vibe, assim de &#8220;vou te entregar um instrumento e você se vira&#8221;, e acho que, aí, ele [o clarinete] me escolhe, sabe? É uma coisa que eu não sei  muito explicar. A partir do momento que eu comecei a ter o contato com aquele instrumento e ver como eu podia fazer música a partir dele foi algo muito maior do que simplesmente &#8220;gosto desse som&#8221;. Foi uma coisa como se nós tivéssemos sido feitos um pro outro. E, já iniciado aí no choro, na música instrumental, através dessa oficina &#8211; na minha casa, sempre se ouviu muita música, mas algo mais pra MPB, assim, não é a toa que eu me chame Caetano, e na casa do meu avô, música clássica, né; então estava nesse ambiente, que não era um ambiente de músicos, mas um ambiente musical.</p>



<p>E como eu decidi viver de música, acho que também foi uma coisa sem escapatória, sabe? As coisas foram evoluindo nesse sentido, de sempre tocar, e depois conhecer o clarinete, e ir me aprofundando naturalmente, eu fui percebendo que a música estava tomando conta da minha vida de uma forma que eu também não sabia explicar, assim, mas que eu estava dividido entre fazer as obrigações da escola &#8211; às quais eu sempre fui muito dedicado, sempre fui bom aluno, com boas notas; mas quando não estava ali, estava fazendo música, ou estava querendo levar o instrumento para a escola, enfim. E eu decidi atender a esse chamado. Acho que eu seria muito infeliz se eu não tivesse ouvido o meu coração. Era uma realidade que estava posta, se deu de uma maneira muito natural, e eu simplesmente me rendi a isso. E foi logo ali, com 13, 14 anos; e com 15, eu comecei minha atividade profissional.</p>



<p><strong>T:  O choro é, talvez, o estilo mais presente nas suas composições, complementado por outros. Como você entende o papel do estilo como agente de preservação da cultura brasileira?&nbsp; E como você percebe o seu trabalho como contribuição para esse estilo tão genuinamente brasileiro?</strong></p>



<p><strong>C:</strong> O choro é a linguagem musical que me formou, né? Eu aprendi a tocar o meu instrumento, eu me desenvolvi e me desenvolvo tecnicamente através do repertório do choro, que é muito exigente. Tocar choro não é uma coisa simples. E quando a gente pensa no chorinho, como é popularmente conhecido, a gente tem uma imagem de algo muito tradicional; logo, a gente vai pensar em pessoas mais velhas tocando e consumindo essa música, mas o choro não é só isso &#8211; é isso, também, mas é muito muito mais. Eu acho que, de uns anos pra cá, o choro tem se espalhado pelo mundo, com clubes em Paris, Clube do Choro em Israel, Sydney, na Austrália&#8230; E as pessoas têm começado a entender, assim como entenderam com o Jazz já há mais tempo, que o choro, na verdade, é uma forma de ver a música, e uma forma que traduz &#8211; acho que a melhor tradução &#8211; o que nós, brasileiros, somos como povo, porque é uma música naturalmente miscigenada, que surge da mistura da herança branca com a herança preta. É uma música que evolui da mistura da Polka, do Scottish, da Valsa, com o Batuque e com o Lundu, africanos, e que foi música criada para ser tocada por pessoas das classes populares na formação do primeiro centro urbano [do Brasil], que foi o Rio de Janeiro. Então, eu acho que por si só, por sua premissa, ela já é esse retrato, e por isso nos conecta com essa nossa herança, essa nossa ancestralidade, e com o nosso íntimo &#8211; nós somos isso. E o que eu observo, na continuidade dessa linguagem através dos mais de 150 anos de história que ela tem, é que ela vem cada vez mais absorvendo outras influências sem perder a sua essência, que continua nos conectando com essa nossa realidade, com quem nós somos como povo; nessa possibilidade de nos reconectarmos com quem somos como povo, temos chance de evoluir como sociedade, como seres humanos, eu acredito.</p>



<p>E onde está a minha contribuição nisso, é que eu acho que, com a raiz fincada nessa tradição, eu tento olhar pra frente. Como eu sou uma pessoa que gosta de ouvir de tudo e de pensar na democratização da música instrumental &#8211; que o choro é, essencialmente -, eu acho que eu penso no caminhar dessa linguagem musical, em como eu posso trazer um olhar impactado por essas coisas todas que eu ouço a partir do choro, ou seja, tendo o choro como uma janela através da qual eu vejo a música, como eu posso absorver essas influências; porque quando eu vou pro jazz, que é uma influência muito forte, ou quando eu fiz essas pesquisas pro <a href="https://open.spotify.com/album/68BfkjgKEro3z1gLg0LjAZ?si=k6ugYyJLQxGL1fJ2xjfP8Q">Cartografias</a>, que envolve a música tradicional e folclórica do mundo inteiro, eu aprendo várias coisas que são muito lindas, e maravilhosas de fazer no meu instrumento! E quando eu vou pra roda de choro, e estou tocando o repertório do <a href="https://open.spotify.com/artist/0pMRwfwerzk1N0cUov351R?si=Wo292-kKQbi3_p2XxERPGQ">Pixinguinha</a>, do <a href="https://open.spotify.com/artist/4OCoLs8l7YxnzBLvJ6rpvE?si=24tRiCn4Q2GxQYoP84cBpA">Benedito Lacerda</a>, do <a href="https://open.spotify.com/artist/1uLk9teQumztDMDlIv4jwS?si=MsbhUFLES-icLQXcAE5wrw">Jacob do Bandolim</a>, eu estou tocando essas outras coisas trazidas dos outros espaços até sem perceber. Uma coisa que eu ouvi muito nas rodas do Brasil afora, principalmente das pessoas que não conhecem o meu trabalho: quando eu ia numa roda de choro, as pessoas falavam &#8220;nossa, parabéns, muito legal o seu som, mas você toca jazz, né?&#8221;, e eu falei, &#8220;toco, também toco&#8221;; e quando ia numa jam session, eles falavam assim &#8220;nossa, legal sua onda, massa o seu trabalho, mas você toca choro, né?&#8221; &#8211; e eu acho que, a partir desse lugar de não estar exatamente numa caixinha, eu fui encontrando o meu lugar, a minha voz.</p>



<p><strong>T: </strong> <strong>Você comentou da influência da música folclórica, cigana e tradicional de várias partes do mundo, além do jazz e do choro, e eu queria saber: quais são as suas referências no que diz respeito a essa tradicionalidade folclórica?</strong></p>



<p><strong>C:</strong>  Boa pergunta. Quando a gente vai buscar informação sobre isso &#8211; que foi o que eu fiz para construir o <a href="https://open.spotify.com/album/68BfkjgKEro3z1gLg0LjAZ?si=NVGpsl1mR7yGtquxsO3vNg">Cartografias</a> -, muita coisa está baseada ainda na tradição oral, já que é folclore, tradição. Então eu assisti a muitos vídeos; algumas coisas, eu achei em teses acadêmicas ou em partituras, mas porque outras pessoas que vieram antes de mim já trouxeram esse trabalho.</p>



<p>Especificamente das culturas que eu pesquisei, eu fui muito para o Leste Europeu, para a música klezmer (que é música judaica, ali do oriente médio), fui um pouco também para a música japonesa, música latina (dos nossos hermanos hispanoablantes)&#8230; e isso começou através de uma grande referência minha que é o <a href="https://open.spotify.com/album/6U4AJQBcwyDEUTjkeoBbPN?si=nUmbTcjyTCO3rTn82kwKDQ">Pedro Paes</a>, um super amigo, que é também clarinetista, saxofonista, compositor de mão cheia e acho que um dos grandes nomes do choro contemporâneo, na minha visão. Ele produziu uma peça que se chama &#8220;Suite &#8211; Impressões do Oriente&#8221;, que trazia já essa mistura [dos folclores orientais] com os gêneros da música popular brasileira &#8211; o choro, o samba, a valsa -, e eu falei: &#8216;gente, isso é demais&#8217;, e então comecei a pesquisar sobre ele, a perguntar pra ele o que ele tinha pesquisado &#8211; ele, inclusive, está fazendo um doutorado agora em cultura cigana -, e fui, através da internet, caçando essas fontes, e comecei por onde o clarinete, que é o meu instrumento principal, tivesse um destaque, pra poder incorporar maneiras de tocar, tudo através de referência auditiva. Então, aí, eu posso falar de alguns clarinetistas, como o <a href="https://open.spotify.com/artist/1H4RsM1SDZVGLVli80d3sd?si=GuTFp915QqyFYHFqnEEHAg">Selim Sesler</a>, que é turco; tem também o <a href="https://open.spotify.com/artist/3rb0KaOJL3sOZ2MChHR6xF?si=uGn_G2TvRrOWVOnhYtzaww">Hüsnü Şenlendirici</a>; tem o <a href="https://www.youtube.com/watch?v=P9sTQgYNqUs">Marem Aliev</a>, também, que é de música balcânica, do Leste Europeu; o <a href="https://open.spotify.com/artist/6YJnewrSxxoK4QIRgHp9oz?si=kgadrQ_XTbeHP3p48vNLdw">Giora Feidman</a>, da música Klezmer; além da <a href="https://open.spotify.com/artist/64uVMGwRMxvNbymPIveiZH?si=KM0WIkAhSgK3SvNRJ48RBA">Anat Cohen</a>, que é minha grande referência como instrumentista, minha amiga, que é uma música de Israel, que mora em Nova York, que adora música brasileira, toca choro como ninguém, fala Português&#8230;</p>



<p>Então acho que, como as minhas influências já têm essa mistura toda, foi um caminho natural querer absorver essa beleza da música do mundo.</p>



<p><strong>T: Você citou muitas artistas instrumentais de alcance internacional e com trabalhos incríveis. Mas, ainda com toda essa galera produzindo, com frequência a música instrumental é considerada um subgênero e desvalorizada em detrimento de artistas musicais com letras e vocais. Diante disso, como você percebe o cenário da música instrumental hoje, enquanto forma de expressão?</strong></p>



<p><strong>C:</strong> De forma geral, eu acho que a música instrumental se tornou elitizada por razões culturais. Acho que, se a gente for fazer um recorte muito amplo sobre acesso tanto à prática, como tocar um instrumento, quanto ao consumo desse tipo de música, os interesses do mercado (que vão mudando, ao longo do tempo), o choro já foi um tipo de música popular do Brasil; já foi a música que todo mundo ouvia, que tocava nas rádios, na virada do séc. XIX para o XX. Mas, por muitos motivos, foi mudando de lugar.</p>



<p>A cena instrumental no Brasil é muito efervescente, só que ela não circula; ela só circula entre as pessoas que já consomem música instrumental (com exceções raríssimas de pessoas que conseguem furar a bolha), por condições impostas, externas, mas eu acredito que até por um comodismo da própria classe. Eu acho que, por parte dos músicos de música instrumental, muitas vezes não existe um compromisso de tornar essa música acessível. E quando eu digo isso, não tem nem a ver com o tipo de música que você está fazendo, mas com a forma como você entrega essa música.</p>



<p>Muitas vezes, os músicos da música instrumental estão preocupados em mostrar serviço, em tocar de uma maneira virtuosa, e que impressione pela inteligência &#8211; ou seja, música para quem faz música; eu estou tocando para que pessoas que entendem tecnicamente, teoricamente, o que eu estou fazendo, gostem. Eu vou gostar porque eu entendo, não porque eu sinto. E eu acho que aí é onde me bate, porque o meu compromisso artístico, a minha missão como artista está em provocar sensações &#8211; e, a partir disso, quem sabe, um entendimento, ou discussões; mas começa nisso <em>[nas sensações]</em>. Eu não estou fazendo música pra que as pessoas fiquem &#8220;nossa, olha que acorde ele fez! Olha como ele toca rápido!&#8221;. Isso, pra mim, são ferramentas, e eu, como técnico, preciso entender para estreitar esse caminho para o que eu sinto, as minhas impressões digeridas sobre o mundo, sejam comunicadas através da minha música para pessoas que estejam abertas a essa comunicação, independente do seu grau de instrução e do quanto elas de fato entendem do que estão ouvindo; mas sentem. O sentimento, ele é instantâneo e genuíno, não depende dessa parte prévia. E, através dos meus canais &#8211; que são a mídia, a música divulgada, em plataforma digital, o disco, os shows, as redes sociais -, eu procuro criar conteúdos que aproximem as pessoas dessa música. Então eu conto um pouco dos meus processos, relato experiências de não músicos sobre a minha música&#8230; e a colheita têm sido bem frutífera, porque começa numa verdade, numa crença absoluta no que eu estou fazendo &#8211; porque eu acho que, de fato, isso pode mudar de alguma forma a realidade das pessoas, ou provocar reflexões que levem a essa transformação -, e todo mundo me interessa. Independente da classe social, da cor, do gênero, da orientação sexual. Inclusive, as pessoas que estão mais negadas ou privadas nesse sentido são as que mais me interessam.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/1bd3b-caetano-brasil-02-foto-por-igor-tibirica-1.jpg?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12261" data-recalc-dims="1" /><figcaption>&#8220;Foi um caminho natural querer absorver essa beleza da música do mundo&#8221; &#8211; Caetano Brasil<br>Foto: Igor Tibiriça</figcaption></figure>



<p><strong>T: Nós somos sempre ensinadas a nos expressar através de palavras, e assim muitos músicos focam em compor letras com temáticas claras para o público. Como é, para você, expressar em sons, e não em palavras? Como se dá o processo de falar a partir do instrumento?</strong></p>



<p><strong>C:</strong> Eu acho que a minha sedução por me expressar através dos sons &#8211; que vai ser um código mais subjetivo do que a palavra cantada, no caso da música &#8211; está justamente em me conectar com essa intimidade, minha, de quem toca comigo, e do ouvinte. Porque, ao mesmo tempo que ela é mais subjetiva, ela também é mais universal &#8211; quem não entende o Português, ou qualquer que seja a língua na qual eu escolha escrever poesia, pode se conectar através dessas sensações despertadas pela minha música.</p>



<p>Para mim, é como uma pintura. Eu conheço, procuro conhecer, as ferramentas para produzir um determinado tom de azul que vai ser específico para aquela imagem; e com o som, é mais ou menos a mesma coisa. Quando eu vou buscando essas técnicas, essas influências, eu quero estreitar esse canal com as pessoas, dar uma forma para essa subjetividade, considerando, dentro disso, as infinitas possibilidades de interpretação de quem entra em contato com ela.</p>



<p>Então, eu acho que é muito por aí. E eu acho que, às vezes, a dificuldade das pessoas em se aproximarem da música instrumental &#8211; para além de toda estrutura que eu citei anteriormente, que é cultural, ou seja, a questão do acesso, que eu acho que é principal &#8211; é que, no fundo, existe um receio de encarar esse &#8216;eu profundo&#8217;, esse contato com a intimidade. <strong>Porque a arte, de forma geral, é a nudez do artista</strong>. A hora que a gente está no palco, que eu estou ali me expressando através do meu som, da minha música, eu estou inteiro. Nada do que eu sou fica guardado numa caixinha. Então, eu estou ali, &#8220;&#8221;&#8221;&#8221;sério&#8221;&#8221;&#8221;, fazendo uma música, um trabalho no qual eu acredito muito, e que é muito profissional, mas ali dentro está o Caetano Brasil que ama memes, que fala um monte na internet, que é um cidadão gay, preto&#8230; isso tudo está dentro de mim. E, mesmo que de uma forma subjetiva, está comunicado em cada nota, em cada frase que eu toco.</p>



<p><strong>T: Você comentou que busca apresentar a sua música de forma diferente ao público. Quais são as possibilidades que você vê e aplica nesse sentido, e quais são os espaços que você sente que ainda precisam ser abertos enquanto canais de apresentação da música instrumental a esse público que te interessa?</strong></p>



<p><strong>C:</strong> Eu acho que, nessa pergunta, tem respostas que são mais diretas, e outras menos. As mais diretas são: nos shows, eu procuro sempre conversar muito com o público, no sentido de contextualizar o que está acontecendo, de falar como aquela música surgiu, para tentar criar naquelas pessoas uma noção de pertencimento. Não contextualização técnica; mas sobre como eu tive a ideia de compor aquela música &#8211; que, muitas vezes, é motivada por processos nada musicais, então o produto final &#8216;composição&#8217; acaba sendo quase que fruto de uma sinestesia. Então, eu procuro compartilhar isso com o público; nas minhas redes sociais, também, fazer esse tipo de coisa, contar dos bastidores, dos processos de composição, de criação, exibir isso, e me tornar <em>touchable</em>. Porque existe uma magia na figura do artista; como assim aquele instrumento está ali, parado, inanimado, e a pessoa consegue pegar aquilo e produzir arte? Fica parecendo uma coisa que não é para todos, que é para os eleitos, ou para quem nasceu com um dom divino. E quando a gente mostra o trabalho que existe por trás disso, e que nós somos pessoas como outras quaisquer, que temos crises, defeitos, angústias, isso conecta as pessoas com o que a gente faz. E aí sim, muito mais com a forma do que necessariamente com o conteúdo, ou seja, muito mais do que o que eu estou apresentando responder a uma expectativa do público sobre o que já é familiar, a forma com a qual eu tenho apresentar isso no que eu acredito, e que é verdadeiro para mim &#8211; e aí, essa conexão com a minha verdade, com as poucas concessões que eu estou disposto a fazer em relação a isso, eu trago o público junto comigo. Assim, eu posso apresentar coisas completamente inéditas, experiências muito específicas, e abrir uma porta para que as pessoas sejam tocadas por isso. </p>



<p><strong>T: Você comenta que muitas composições suas não vêm de processos musicais, mas de outros locais. Nesse sentido, compor é mais inspiração ou transpiração, para você? Você tem uma rotina de composição, ou precisa ter um insight para sair com uma música nova?</strong></p>



<p><strong>C:</strong> Isso é massa. Para mim, é muito mais transpiração do que inspiração. Eu não sou o tipo de pessoa que acredita muito em dom. Eu acho que algumas pessoas talvez tenham inteligências mais específicas ou aptidões maiores para realizar determinadas tarefas com maior facilidade, mas acho que as conquistas são fruto de muito trabalho; e compor uma música pode se dar de muitas maneiras.</p>



<p>O meu processo, em geral, é começar a pensar num conceito, que eu quero dizer com uma composição musical, e que às vezes passa por uma coisa mais técnica, de &#8220;quero combinar esses sons ou essas ideias&#8221;, ou às vezes é inspirado por coisas como essa não fronteira entre a música do mundo &#8211; que foi o que deu origem ao Cartografias. E aí eu começo, pensando nesse conceito, a me munir de material, de bagagem, para chegar naquele resultado. Algumas coisas são processos mais longos, outras mais imediatos, e eu acho que quando rola essa coisa do insight &#8211; que, às vezes, acontece -, é muito porque, num lugar inconsciente nosso, a gente conseguiu processar essas informações todas, essa bagagem emocional e intelectual, e perdeu a noção de onde ela vem diretamente &#8211; então, parece que ela vem do nada, que caiu do céu; mas ela vem de dentro de você. Quando você faz música, você está colocando um pedaço de você para fora, uma ideia, você está acendendo uma fagulha no mundo.</p>



<p>Em relação a rotinas, eu tenho épocas de compor mais e de compor menos;  aí, vai depender de como a minha energia criativa está sendo consumida. Nesse momento pandêmico, que eu estou produzindo muito conteúdo para a internet, escrevendo arranjos, dando aulas e reinventando esse processo na aula online, eu tenho composto pouco. Mas aí vou ter fases. Às vezes, a gente tem um <em>deadline</em> para entregar coisas para projetos específicos, mas no geral, quando é para os meus projetos, eu vou, dentro da minha realidade, encaixando momentos de sentar para pensar nesse trabalho, ou para ouvir coisas que eu acho que serão boas influências para um determinado resultado, ou para experimentar &#8211; acho que tem esse lado muito, que eu começo, às vezes, a tocar coisas, colocar em partitura, ou escrever para ver como soa &#8211; e vou, quase como um escultor, polindo aquela peça, entalhando, até que eu acredite que esteja pronta para apresentar para o mundo. <strong>E aí, no fazer, a música vai se transformando e ganhando vida própria.</strong></p>



<p><strong>T:  Pensando nisso, como é a relação entre você, compositor, e os músicos do Quarteto, no que tange às partes criativa do trabalho?</strong></p>



<p><strong>C:</strong> Acho que começa numa relação pessoal, que a gente se interessa uns pelas pessoas dos outros &#8211; no quarteto, nós somos amigos, pessoas que frequentamos as casas uns dos outros, saímos juntos e amamos fazer música juntos. Então, pensando que a gente tem sete anos nesse trabalho, quase nessa totalidade com a mesma formação, a gente foi conhecendo sobre quem é cada um e como cada um toca e faz música. </p>



<p>No processo geral, eu levo as ideias, as músicas prontas enquanto composição &#8211; eu escrevo as partituras para todo mundo, e às vezes são arranjos mais complexos, então é uma partitura específica para cada músico -, mas como eu tenho essa herança do choro e do jazz, que são estilos que têm muita improvisação, é um campo aberto. É quase como se o que eu levo fosse um mapa, e eles sempre acham o tesouro; porque com toda a experiência que eles têm, com as influências que eles trazem, eles se aproximam desse trabalho e contribuem muito criativamente. Então, enquanto a gente vai tocando o repertório nos ensaios e nos shows, a gente vai experimentando eles de várias formas, até que a gente encontra formas que dão o recado.</p>



<p>Por exemplo, <a href="https://open.spotify.com/track/18fsvh9G1TNtKBakTOdfrS?si=Usd0XdS8Q3Gh41ysa59eZQ">Mareante</a>, que é uma composição que está no Cartografias, inicialmente ela tinha a primeira e segunda partes como harmonia e melodia, e vamos começar a tocar e conhecer. Aí, eu levei a ideia de começar com um solo <em>a capella</em> de clarinete e que as pessoas fossem entrando, e aí o Gladston [baterista] já começou a experimentar algumas coisas diferentes na bateria e a tocar com as mãos direto nas peças, em vez de baquetas, e todo mundo foi chegando&#8230;</p>



<p>No meio da música, queria colocar um solo de piano, inicialmente era improvisado, e depois o Guilherme [pianista] criou uma parte, que é já quase parte da composição, que ele sempre toca e que precede um solo de bateria, por exemplo, que está no meio da música e que não existia inicialmente; mas a primeira vez que o Gladston falou que queria solar, fazer um improviso, a primeira vez que ele fez, a gente descobriu que esse solo sempre tinha feito parte da música &#8211; a gente só não tinha percebido antes. Então, a gente foi fazendo shows, experimentando, e quando a gente chegou em formatos que a gente achou que estavam sintetizando a ideia que a gente queria comunicar como grupo, a gente gravou o disco. </p>



<p>Esse tem sido um processo que a gente tem feito no grupo e que tem funcionado; a gente experimenta o repertório, e em vez de gravar o disco no início do projeto, a gente amadurece o projeto na vida, tocando, e depois grava.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/a714f-caetano-brasil-grupo-foto-por-igor-tibirica.jpg?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12260" data-recalc-dims="1" /><figcaption>Caetano Brasil &amp; Grupo:<br>Gladston Vieira [bateria], Guilherme Veroneze [piano], Caetano Brasil e Adalberto Silva [baixo]<br>Foto: Igor Tibiriçá</figcaption></figure>



<p><strong>T: Você já recebeu vários prêmios pelo seu trabalho e, agora, foi indicado ao Grammy Latino. O que te motiva a permanecer em Juiz de Fora e desenvolver seu trabalho aqui?</strong></p>



<p><strong>C: </strong> Ah, é tão bom falar disso! Porque, ao longo dos meus dez anos de carreira, acho que uma das coisas que eu mais ouvi foi: &#8220;Quando é que você vai sair de Juiz de Fora? Você precisa sair daqui, ir pro Rio, ir pra São Paulo!&#8221;; e, isso, na verdade, nunca foi um plano meu. Por dois motivos básicos: o primeiro, que eu sou de uma geração que se adaptou muito bem ao mundo digital (eu sou de 94) e eu acredito que, através da internet, você está sendo visto pelo mundo inteiro; você lança um disco nas plataformas e o mundo inteiro pode te escutar naquele mesmo momento, pode te acompanhar através das redes, pode consumir o seu trabalho e pode, inclusive, abrir portas no sentido de contratação, como já aconteceu com a gente &#8211; de chamarem a gente para trabalhar porque conhecem o nosso trabalho da internet, sabem como é feito, sabem da qualidade, sem eu precisar estar lá antes, entregar o disco físico, na mão, o cartão de visitas; está aí, o meu site, as minhas redes, a minha música disponível para o mundo, e eu acho que, nesse momento, essa questão do espaço foi rompida.</p>



<p>Segundo, que transformar a realidade das pessoas me interessa em todas as instâncias, inclusive para quem está aqui na minha cidade. Com todo o respeito aos meus pares que vão para outros lugares e desenvolvem seu trabalho em grandes centros, que saíram daqui, eu acho que ficar também é importante. Alguém tem que ficar, porque as pessoas que estão aqui também importam, porque transformar esse espaço, esse lugar, também importa. E eu conquistei muitas coisas em Juiz de Fora. Juiz de Fora me deu muitas oportunidades, acolheu o meu trabalho, e isso não é uma prisão; eu não estou amarrado aqui, como no pé da mesa. Eu pouso aqui. Eu posso voltar para cá, e sou muito feliz por isso. Mas a minha arte voa, ela é do mundo; ela é como um espírito, ela é etérea, ela atravessa paredes, ela não tem essa barreira [de lugar]. E ela independe de mim. <strong>A minha arte tem vida própria.</strong></p>



<p><strong>T: Você esperava receber a indicação ao Grammy? A gente sabe que os artistas se inscrevem para concorrer à indicação, mas você se inscreveu despretensiosamente, ou já tinha algo certo, opiniões dizendo que você devia inscrever porque as chances eram altas? E como é a sensação de ser reconhecido em uma esfera tão global?</strong></p>



<p><strong>C:</strong> É uma alegria sem tamanho, indescritível. A gente se inscreveu para a seletiva do Grammy, a Eliza [produtora] fez um preenchimento de um formulário, que foi facilitado pela <a href="https://www.tratore.com.br/">Tratore</a>, que é o selo que distribui o nosso disco nas plataformas digitais. Então, eles mandaram o formulário pra gente, ela preencheu &#8211; isso deve ter uns três meses &#8211; e a gente jogou pro universo.  A gente se inscreveu mesmo porque a gente se inscreve em coisas nas quais a gente acha que o trabalho pode se enquadrar, e não porque alguém tivesse dito que o trabalho era a cara do Grammy, ou que a indicação fosse muito certa, não. A gente acredita na qualidade do que a gente faz, e como tem a equipe da <a href="https://www.youtube.com/channel/UCQqiO72gHStzYr-ism8Ju3Q">Sinfônica Produções</a>, que tá de olho em tudo que está acontecendo, a gente foi meio na onda de &#8220;tem como inscrever? então vamos nos inscrever&#8221;, pensando em aumentar as chances de levar a palavra do choro e da música instrumental a mais pessoas.</p>



<p>A gente não estava vigiando isso muito de perto, quando ia sair o resultado. Só sinalizamos categoria do álbum e foi isso. Aí, na terça feira (29/09), eu recebi uma mensagem de uma amiga &#8211; <a href="https://open.spotify.com/artist/1hSBgvCbbasnOLHx5KtE0G?si=XVec6V5GS3i0-ag-VL2cPQ">Julie Wein</a>, lá do Rio, cantora, que tinha um tempasso que eu não falava com ela &#8211; me parabenizando pela indicação, e eu falei: &#8220;como assim?!&#8221; (risos). Eu estava acordando, abri o site oficial, e realmente estava lá. Daí a gente compartilhou nas redes sociais, e foi acho que quase um viral, se espalhou muito rápido; eu recebi muitas mensagens de carinho, e com essa noção de pertencimento, que muitos amigos e fãs falaram: &#8220;nossa, eu tô tão feliz que parece até que fui eu a ser indicado!&#8221;. E isso, pra mim, a indicação em si e esse <em>feedback</em>, é o grande prêmio; o que vem depois disso é consequência. Mas pegou a gente de surpresa, mesmo; uma surpresa ótima, porque a gente não estava esperando por isso. E está sendo incrível, abrindo portas com a imprensa, nas redes sociais (que eu ganhei vários seguidores por conta disso), pessoas se aproximando do trabalho&#8230; não que a gente faça música para isso, mas quando a gente recebe um aval público desse nível, confere uma autoridade para o trabalho que ajuda a gente a disseminar o trabalho e expandir a nossa comunidade.</p>



<p><strong>T: Depois esse marco na sua carreira, de ser reconhecido internacionalmente, os seus planos profissionais mudaram? Quais são eles, daqui pra frente?</strong></p>



<p><strong>C: </strong>Acho que não substancialmente. A gente está aguardando os desdobramentos disso [da indicação] e adaptando a nossa realidade a eles, mas os planos seguem firmes. Esse ano, a gente ainda vai lançar um single &#8211; que possivelmente vai ser um pouquinho adiado por conta da indicação, mas vai sair ainda esse ano -, que já vem com o próximo projeto, o qual possivelmente vai virar um álbum, em que a gente vai se debruçar sobre a música do Pixinguinha, um nome do choro que é referência para todos nós e que está num lugar de muito respeito e autoridade para músicos e não músicos. Nesse projeto, a gente vai montar um novo show, um novo repertório de arranjos sobre a música do Pixinguinha, de uma maneira completamente diferente do que as pessoas podem esperar dessa música; e esse é o nosso projeto de 2021. E nós já temos coisas marcadas para o pós pandemia, como o show em Juazeiro do Norte, no SESC, de um outro edital que a gente foi contemplado &#8211; que seria esse ano, mas foi adiado; tem o prêmio Nabor Pires Camargo, que a gente ganhou ano passado e que a gente vai fazer um show na próxima edição &#8211; que também seria esse ano, mas virá no outro; então, acho que só reforça e acelera um caminho que a gente vem trilhando de voltar as atenções, dentro de várias atuações musicais que eu faço e que tenho filtrado com o tempo, para o meu trabalho como <em>band-leader</em>, o meu trabalho autoral, o Caetano Brasil Grupo, e as coisas que são capitaneadas e idealizadas por mim. Então acho que é um potencializador e acelerador desse movimento, no qual as atenções estão voltadas para mim e para o meu trabalho de música instrumental.</p>



<p><strong>T: Qual é a pergunta que você gostaria que eu tivesse feito e eu não fiz? E qual é a resposta a essa pergunta?</strong></p>



<p><strong>C: </strong> (risos) Ah, poxa, as perguntas estão sendo tão ótimas, é tão bom dar entrevista quando as perguntas são boas, e pouco óbvias, e dançam conforme a música &#8211; a partir de uma resposta, puxa outras coisas! (risos) Não sei se é exatamente uma coisa que você não perguntou, mas vou usar esse espaço para falar um pouquinho sobre a representatividade dessa indicação, aí não só para a minha carreira em específico, mas para as comunidades às quais eu pertenço, que é, para mim, muito importante grifar que, apesar de ser zero sorte &#8211; isso é reconhecimento de muito trabalho -, a gente está ocupando um espaço que é nosso e que muitas vezes é silenciado ou é invisibilizado.</p>



<p>Eu estou falando isso do lugar de um músico que mora numa cidade do interior de Minas Gerais, que produz música instrumental de maneira independente &#8211; o Cartografias, que é o título indicado ao Grammy, não teve nenhum tipo de incentivo, de patrocínio; ele contou com a colaboração e os esforços de profissionais e músicos incríveis que puderam fazer preços promocionais ou doar os seus serviços para o álbum, em todas as cadeias produtivas que evolveu -, e ainda mais sendo um homem preto (apesar de pele não-escura, mas me identificando como homem preto, porque pardo é papel) e um cidadão LGBTQIA+, sendo um homem gay nesse contexto. A gente fala de muitas coisas, então acho que essa noção de pertencimento que a gente gera com o trabalho e está gerando com a indicação também vem muito disso. É vitória para muitas comunidades, que muitas vezes são vistas como incapazes de dar passos tão grandes, ou que se precisaria fazer muitas concessões, como sair desse lugar, ou omitir sobre essa realidade LGBTQIA+ &#8211; que eu, inclusive, falo abertamente nas minhas redes e acho muito importante associar isso ao meu trabalho. Mesmo vivendo uma série de privilégios, a gente reconhece que esse espaço muitas vezes é tomado da gente quando é da gente por direito. Então, é sobre reforçar isso, sobre o quanto é importante levantar esse estandarte, especialmente nessa realidade que estamos vivendo hoje.</p>



<p> Ouça o Cartografias, álbum de Caetano Brasil indicado à categoria de Melhor Álbum Instrumental ao XXI Grammy Latino:</p>



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<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-flow wp-block-group-is-layout-flow">
<p class="has-text-align-right has-normal-font-size"><strong>Sobre a Entrevistadora:</strong></p>



<p><strong>Carol Cadinelli</strong> é jornalista, apaixonada por palavras. Escreve, edita, revisa, traduz e, vez ou outra, fotografa. Atualmente, é editora na Trama, Social Media na Peregrina Digital e escritora nas horas vagas.</p>
</div></div>



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<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-flow wp-block-group-is-layout-flow">
<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/fdf84-assinatura-4.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-11677" data-recalc-dims="1" /></figure>





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<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.artebodoque.com/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/073d7-loja-1.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-11574" data-recalc-dims="1" /></a></figure>
</div>



<div class="wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow">
<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.artebodoque.com/revista-trama-edicao-impressa-edicao-001"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/72b80-impressa-3.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-11608" data-recalc-dims="1" /></a></figure>
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<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-large-font-size">Galeria: artistas pra seguir na quarentena</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.instagram.com/affnana/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/43ef4-fotos-carol-copy.jpg8_-1021x1024.jpg?resize=950%2C953&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-11314" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-medium-font-size"><em>Apoie artistas nessa quarentena. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>
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		<title>Entre pães e opiniães, insetos e aviões</title>
		<link>https://revistatrama.artebodoque.com/2020/10/04/entre-paes-e-opiniaes-insetos-e-avioes/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 04 Oct 2020 21:27:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 065]]></category>
		<category><![CDATA[Mulheres Artistas]]></category>
		<category><![CDATA[Nathaly Rocha]]></category>
		<category><![CDATA[Patriarcado]]></category>
		<category><![CDATA[racismo]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Nathaly Rocha</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>As perguntas são a matéria-prima de todo o pensamento filosófico e conhecimento humano – em tese.</p>



<p>Todavia, algumas perguntas não buscam de fato verdades, mas autoafirmação de seus pressupostos.</p>



<p>“Por que não houve grandes mulheres artistas?” é um exemplo deste tipo de pergunta que não acrescenta busca de conhecimento, mas tão somente impõe uma perspectiva. Ela em si já contém uma afirmação: pressupõem uma não existência.</p>



<p>Afirmar que não houve, em pelo menos 3000 anos de história, nenhuma grande mulher artista é, automaticamente, afirmar domínio de um enorme conhecimento a respeito de todos os feitos artísticos produzidos por mulheres nesse imenso período de tempo e, claro, afirmar domínio de uma enorme prepotência também.</p>



<p>Se livrando de prepotências e pressupostos, tal questão pode se esfacelar em diversas outras questões e evidenciar os estilhaços causados pela problemática de uma sociedade patriarcal e racista.</p>



<p>Pois então vamos aos esfacelamentos primordiais:</p>



<ol><li>Quem pode ou não ser considerado artista? Quem faz arte? E quem considera o que é e o que não é arte? Na perspectiva de Hitler, Picasso era um degenerado e as vanguardas também.<br></li><li>O que pode ser considerado grandioso? O que é grande? Para ser grande deve-se ser aos moldes de David de Michelangelo? Etmologicamente a palavra monumento, que vem do latim monumēntum, significa o que traz à memória, o que se é lembrado; algo monumental não está associado necessariamente à escala. Na perspectiva de Manoel de Barros, insetos são mais importantes que aviões, e a importância de uma coisa há de ser medida pelo encantamento que a coisa produza em nós.</li></ol>



<p>Há muita perspectiva e subjetividade envolvida em todos esses conceitos, como diz Guimarães : “Pão ou pães é questão de opiniães”.</p>



<p>No entanto, há evidentemente uma discrepância entre o número de artistas mulheres e artistas homens estudados nas escolas, reconhecidos na história. Mas isso não se aplica somente ao universo artístico, somente ao gênero, mas também à etnia, à cor, à classe. A pergunta então ganha outros contornos: Em vez de “Por que não houve”, Por que não estudamos/conhecemos?</p>



<p>Talvez seja porque esses grupos, por diversos séculos, foram privados de inúmeros direitos, foram silenciados, anulados, ofuscados; estavam exercendo durante toda sua vida tarefas sociais impostas, em uma configuração social de privilégios imposta; Talvez seja porque as bases da sociedade em que vivemos se ergueu na exploração, na escravização e no patriarcalismo. Talvez.</p>



<p>Talvez houve sim, só não houve de acordo com certas perspectivas, de acordo com certas opiniães.</p>



<hr class="wp-block-separator" />



<p><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong>Nathaly Rocha </strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong>é mineira de berço e guarulhense de coração. É artista desde sempre. Atualmente, cursa Artes Visuais na UNESP.</p>



<hr class="wp-block-separator" />



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/fdf84-assinatura-4.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-11677" data-recalc-dims="1" /></figure>





<hr class="wp-block-separator is-style-wide" />



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<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-flow wp-block-group-is-layout-flow">
<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-large-font-size">Galeria: artistas para seguir na quarentena</p>



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<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-medium-font-size"><em>Apoie pautas identitárias. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>
</div></div>



<hr class="wp-block-separator" />



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		<title>As falhas na saúde indígena e por que isso é problema seu</title>
		<link>https://revistatrama.artebodoque.com/2020/10/04/as-falhas-na-saude-indigena-e-por-que-isso-e-problema-seu/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 04 Oct 2020 21:26:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 065]]></category>
		<category><![CDATA[Cultura Indígena]]></category>
		<category><![CDATA[Déborah Silva]]></category>
		<category><![CDATA[Direito]]></category>
		<category><![CDATA[indígena]]></category>
		<category><![CDATA[SUS]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Deborah Silva</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>É como diz a canção de Clara Nunes: <em>“Ninguém ouviu um soluçar de dor no canto do Brasil. Um lamento triste sempre ecoou, desde que o índio guerreiro foi pro cativeiro e de lá cantou”</em>. A luta indígena pela preservação de suas culturas, terras e sobrevivência em geral persiste há séculos. Não são raros os casos da história em que ficaram evidentes atitudes genocidas por parte do Estado, o que levou, em determinado momento, a uma luta intensa dos povos originários por seus direitos fundamentais.</p>



<p>Depois do período ditatorial no qual se promoveu um massacre velado de centenas de vítimas por governantes, militares, madeireiros, fazendeiros e tantos outros, a Constituição de 1988 veio como a renovação da esperança, assegurando aos povos indígenas o direito a suas culturas, organizações próprias e, em resumo, um modelo não mais pautado na visão integracionista e meramente assistencialista, como previa o Estatuto do índio de 1973.</p>



<p>Ao lado da proteção territorial, um dos mais importantes assuntos é o direito à saúde. Este deve ser prestado em atenção às especificidades socioculturais desses povos, por estar ligado à proteção da terra sagrada, além de garantir a perpetuação dos indígenas, o respeito à dignidade e autonomia.</p>



<p>O “Subsistema de Atenção à Saúde Indígena” é diretamente ligado ao SUS – Sistema Único de Saúde – que completou 30 anos no dia 19/09 deste ano. Inicialmente, a adoção da política nacional de saúde indígena, em plena conformidade com a Constituição, tentou abandonar concepções antiquadas a respeito da identidade indígena, além de implementar um ponto de vista diferenciado de atenção às comunidades.</p>



<p>Mas, não obstante a existência de diversas leis, o número de notícias e ações judiciais envolvendo a precariedade na prestação desse serviço essencial é alto, o que torna preocupante o futuro e a dignidade desses povos.</p>



<p>Os problemas são muitos. O que as comunidades vivenciam na prática são: má utilização dos recursos financeiros; altos índices de mortalidade infantil; propagação rápida de epidemias graves; falta de saneamento básico; e muitos casos de desassistência dos poderes públicos.</p>



<p>Tem ocorrido um verdadeiro retrocesso na saúde, principalmente no que diz respeito às ações de prevenção e no acesso a tratamentos mais duradouros e elaborados. As ações de vacinação são frágeis, bem como a capacitação de agentes, o controle de dados, sem mencionar que algumas comunidades vivem sem água potável, recorrendo a casas de saúde sem medicamentos, com infraestrutura totalmente precária. Como se não bastasse, vem ocorrendo a diminuição e até a suspensão no repasse de recursos financeiros para os Distritos Sanitários por parte do governo federal.</p>



<p>Recentemente, <strong>as populações indígenas lidam com a expansão do Coronavírus: até o momento, conforme dados da APIB – Articulação dos Povos Indígenas do Brasil, são 158 povos atingidos, 33.412 indígenas confirmados e 828 indígenas falecidos. </strong>Já se sabe que questões imunológicas, o compartilhamento de utensílios domésticos e a dificuldade geográfica de atendimento em saúde são fatores que contribuem para a expansão da doença, e, ainda assim, não há movimentação do governo para amenizar esse cenário caótico.</p>



<p>Fato é que não há uma política orgânica, que respeite a Constituição e permita que os povos indígenas recebam uma atenção diferenciada, eficaz e respeitosa para com seus modelos e concepções de cura. Existe um cenário de descontinuidade na saúde indigenista extremamente maléfico. A não renovação de convênios, o esvaziamento de unidades gestoras, falta do repasse de verbas, mudanças estruturais, ausência de participação dos povos nas decisões, a insegurança legislativa com alterações constantes de portarias e decretos, tudo isso colabora com a decadência e o desmanche do sistema de direitos fundamentais.</p>



<p>A partir disso, surge a questão: <strong>a Constituição de 1988 foi suficiente em garantir aos povos indígenas a saúde universal que foi estruturada aos demais?</strong> Ora, se saúde enquanto garantia de vida digna não é implantada ou alcançada pelo Estado brasileiro aos povos indígenas, significa que estamos em uma moldura democrática que não compreende a todos: uma cidadania cujo sujeito abstrato não compreende os povos originários.</p>



<p>O Brasil, mesmo com a Constituição Cidadã, não trouxe a ruptura necessária que incluísse todos os grupos na execução prática dos direitos fundamentais, e verificamos isso com a saúde: o país com o único sistema de saúde pública do mundo que atende mais de 190 milhões de pessoas e tem como princípios básicos a integralidade, a igualdade e a universalidade, se mantém praticamente inerte em cuidados mínimos com os indígenas durante a pandemia.</p>



<p>Um dos grandes desafios para a efetivação do direito à saúde no Brasil é justamente o de desenvolver a democracia sanitária no país, a partir de um sistema capaz de garantir a participação da sociedade na tomada das decisões estratégicas em saúde. Para tanto, precisamos criar e consolidar instituições e processos juridicamente regulados que possibilitem a participação efetiva de toda a sociedade nas decisões desse tema. Por isso, para Sérgio Arouca, “democracia é saúde e saúde é democracia”.</p>



<p>Uma democracia e seus valores são colocados à prova em um momento como o que vivemos. Há um desafio entre os princípios de desenvolvimento, dignidade, e a própria preservação da vida. Por isso é relevante que nosso pacto social seja reavaliado, sobretudo como projeto de alcançar as condições básicas de existência e bem-estar também para as minorias.</p>



<p>Por muito tempo, acreditamos que a pauta indígena não era uma questão para o governo e que o cenário era de uma constante omissão, mas erramos. Há em curso um verdadeiro plano anti-indígena, reconhecido por vários mecanismos internacionais como uma agenda genocida. Exemplo disso foram os vários vetos que o Presidente da República fez na Lei 14.021/2020, que dispõe sobre medidas de combate à Covid-19.</p>



<p>Se não lutamos e cobramos a efetivação dos direitos para todas as camadas, incorremos na falsa noção de que vivemos e construímos um Estado Democrático. Por isso, quando acharmos que a saúde indigenista não é um problema nosso, devemos nos lembrar constantemente de que o Brasil todo é terra indígena, e que é um dever coletivo preservarmos a história e a vida dos povos originários.</p>



<p class="has-text-align-right"><em>“Em tempos de pandemia a luta e a solidariedade coletiva que reacendeu no mundo só será completa com os povos indígenas, pois a cura estará não apenas no princípio ativo, mas no ativar de nossos princípios humanos.”</em><br>&#8211;<em> Trecho da Carta Final da Assembleia de Resistência Indígena (09/05/2020).</em></p>



<hr class="wp-block-separator" />



<p><strong>REFERÊNCIAS</strong></p>



<p>AITH, Fernando Mussa Abujamra<strong>. Direito à saúde e democracia sanitária: experiências brasileiras.</strong> R. Dir. sanit., São Paulo v.15 n.3, p. 85-90, nov. 2014/fev. 2015. Disponível em: &lt; <a href="https://www.revistas.usp.br/rdisan/article/download/148138/141745/">https://www.revistas.usp.br/rdisan/article/download/148138/141745/</a>&gt;.</p>



<p>APIB. <strong>A mãe terra enfrenta dias sombrios.</strong> Publicado em: 10/05/2020. Disponível em: &lt;<a href="http://apib.info/2020/05/10/carta-final-da-assembleia-de-resiste%CC%82ncia-indigena/">http://apib.info/2020/05/10/carta-final-da-assembleia-de-resiste%CC%82ncia-indigena/</a>&gt;.</p>



<p>CNN. <strong>Bolsonaro sanciona com vetos plano para combater Covid-19 em áreas indígenas.</strong> Publicado em 08/07/2020. Disponível em: <a href="https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/2020/07/08/bolsonaro-sanciona-com-vetos-plano-para-combater-covid-19-em-areas-indigenas">https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/2020/07/08/bolsonaro-sanciona-com-vetos-plano-para-combater-covid-19-em-areas-indigenas</a>.</p>



<p><strong>DADOS COVID – APIB.</strong> Disponível em: &lt;<a href="http://emergenciaindigena.apib.info/dados_covid19/">http://emergenciaindigena.apib.info/dados_covid19/</a>&gt;.</p>



<p>ECOA. <strong>Por que a covid-19 é perigosa para os povos indígenas?</strong> Por Priscila Tapajó. Publicado em: 15/04/2020. Disponível em: &lt;<a href="https://www.uol.com.br/ecoa/colunas/opiniao/2020/04/15/por-que-a-covid-19-e-perigosa-para-os-povos-indigenas.htm">https://www.uol.com.br/ecoa/colunas/opiniao/2020/04/15/por-que-a-covid-19-e-perigosa-para-os-povos-indigenas.htm</a>&gt;.</p>



<p>USP.<strong> É urgente reafirmar que saúde é democracia.</strong> Por Ergon Cugler. Publicado em: 05/05/2020. Disponível em: &lt;<a href="https://jornal.usp.br/artigos/e-urgente-reafirmar-que-saude-e-democracia/">https://jornal.usp.br/artigos/e-urgente-reafirmar-que-saude-e-democracia/</a>&gt;.</p>



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<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:20% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/17081-debra-1.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-11621" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p><strong><strong><strong><strong>Déborah Silva</strong></strong>&nbsp;</strong></strong>é pós graduanda em Direito Constitucional.&nbsp;</p>
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<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-large-font-size">Galeria: artistas pra seguir na quarentena</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.instagram.com/iuryborel/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2020/10/4079c-sketch-brasil-1.png2_.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-9943" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-medium-font-size"><em>Apoie pautas identitárias. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>



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<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/9acee-publi-ediccca7acc83o-impressa-1.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-5668" data-recalc-dims="1" /></figure>





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		<title>Mais fígado do que cérebro</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 04 Oct 2020 21:25:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 065]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Luciano Nascimento]]></category>
		<category><![CDATA[paternidade]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Luciano Nascimento</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Já pensou quanta coisa poderia ser diferente se Laio não tivesse mandado matar Édipo?</p>



<p>É&#8230; É por aí que a história começa: Laio não aceitou as predições do destino e, por isso, mandou assassinar o próprio filho. Ao que se sabe, o então soberano de Tebas não “deu tempo ao tempo”, não conversou com sua esposa, Jocasta, a rainha-mãe&#8230; muito menos esperou que o filho deles crescesse para que eles pudessem se conhecer, se amar e se entender. Não: Laio apenas chamou um servo de confiança e determinou a execução preventiva de Édipo. A morte do rei, prevista pelo oráculo, podia ser só um enigma, uma metáfora, uma força de expressão; a ordem do tirano a seus servos não: era o comando de um assassinato literal.</p>



<p>Já pensou quanta coisa poderia ser diferente se mais pais (os homens, bem especificamente) aceitássemos, de verdade, que é parte do nosso papel sermos superados por nossos filhos? Sim, simples assim: nascemos antes deles, aprendemos a nos cuidar e a sobreviver antes deles&#8230; tudo isso para cuidar mais e melhor deles que, se tudo der certo, vão ser melhores (num sentido muito limitado de “melhores”, é claro) que nós, vão nos superar. E essa superação não é a morte do pai, pelo contrário! É a sua vida, sua continuidade, sua permanência, sua herança, sua (quase) eternidade genética, histórica e mítica.</p>



<p><strong>A vida de muitos pais e muitos filhos poderia ser outra se tantos de nós não vivêssemos imersos numa dinâmica cultural que sobrevaloriza a subserviência filial e subestima o valor do respeito mútuo entre pais e filhos.</strong> Não é raro esbarrarmos por aí com pais que também sentem a “desobediência” (às vezes, só a discordância) do filho como tentativa de assassinato – simbólico, evidentemente. Muitos de nós, homens, pais, fomos criados sob o jugo de diferentes tiranias, alimentando o desejo inconsciente pelo momento em que, enfim, também nós poderíamos exercê-las – em geral, tendo esposa e filhos como primeiras vítimas. É triste, mas acontece. Por isso, não estranha que quem passou por esse tipo de experiência não se conforme facilmente à frustração da desobediência daquele de que se esperava submissão total; não estranha, mas também não justifica &#8211; ou seja, não confere justiça a essa frustração paterna. Repito: é compreensível, mas não é justo!</p>



<p>Na Literatura, na Mitologia, a morte de Laio pelas mãos de Édipo acabou sendo literal. No dia a dia de nosso mundo cada vez mais louco, interconectado e solitário, é preciso cuidado e sorte para que Laio e Édipo não se matem simbolicamente ainda em vida.</p>



<p>Mas, se o momento agonístico vier, cabe a nós, os pais, pelo menos aprendermos mais com Édipo e menos com Laio. Precisamos saber reconhecer nossa própria cegueira e deixar que nossos filhos nos guiem na velhice.</p>



<hr class="wp-block-separator" />



<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:26% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/1a42c-luciano-19.23.45.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-11365" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p><strong><strong>Luciano Nascimento</strong></strong> é mangueirense, filho, marido, pai, professor, flamenguista, psicopedagogo&#8230; mais ou menos nessa ordem. É, também, idealizador do projeto Dê Efiência.(<a rel="noreferrer noopener" href="http://www.deeficiencia.com.br/" target="_blank">www.deeficiencia.com.br</a>) E-mail: <a href="mailto:prof.lcnascimento@gmail.com">prof.lcnascimento@gmail.com</a></p>
</div></div>



<hr class="wp-block-separator" />



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-flow wp-block-group-is-layout-flow">
<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/fdf84-assinatura-4.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-11677" data-recalc-dims="1" /></figure>





<hr class="wp-block-separator is-style-wide" />



<div class="wp-block-columns is-layout-flex wp-container-core-columns-is-layout-4 wp-block-columns-is-layout-flex">
<div class="wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow">
<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.artebodoque.com/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/0423c-conteudopago.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-11568" data-recalc-dims="1" /></a></figure>
</div>



<div class="wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow">
<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.artebodoque.com/revista-trama-edicao-impressa-edicao-001"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/72b80-impressa-3.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-11608" data-recalc-dims="1" /></a></figure>
</div>
</div>



<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-large-font-size">Galeria: artistas para seguir na quarentena</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.instagram.com/tuncaliozge"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/43ef4-fotos-carol-copy.jpg4_-1021x1024.jpg?resize=950%2C953&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-11385" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-medium-font-size"><em>Apoie pautas identitárias. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>
</div></div>
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		<title>PARTE II &#8211; O Silêncio entre músicas</title>
		<link>https://revistatrama.artebodoque.com/2020/10/04/parte-ii-o-silencio-entre-musicas/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 04 Oct 2020 21:24:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 065]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Gyovana Machado]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[MÚSICA]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Gyovana Machado</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Nos passos e contra passos, o silêncio retorna com alguma voz à medida em que, com ele, vem a expectativa de uma nova proposta, uma nova mensagem, um novo estilo e performance. Como dito na primeira parte desta reflexão: há sempre uma expectativa nos intervalos. Cabe, então, a constante pergunta: o que nos mantém esperando e/ou esperançando?</p>



<p>Acredito que a resposta, longe de se cristalizar no 8 ou 80, pode ser expressa por duas razões gerais: não sabemos o que vem; sabemos o que há de vir. E é sobre esses dois aspectos que finalizaremos essa proposta de escrita e reflexão sobre o instante que não pode ser tipificado, mas que possibilita uma breve narrativa dos sentidos que provoca. Esse texto se contenta em ser uma narrativa.</p>



<p>Saber <em>o que está por vir</em> não se traduz como uma ausência de novidade; afinal, a narrativa estabelecida no silêncio é, inevitavelmente, marcada por expectativas a partir de uma condição específica chamada experiência. A forma com que experimentamos algo &#8211; e cabe destacar que não digo de um tipo de consumo submetido as relações líquidas da contemporaneidade -, raramente se repetirá; parafraseando Heráclito, não se passa duas vezes no mesmo rio. Mesmo sabendo o que está por vir, experimentaremos aquele fragmento de forma diferente a cada vez que escutarmos &#8211; afinal, nada de se apresenta em totalidade e plenitude na primeira vez que temos contato.</p>



<p>Existem benefícios em não saber o que vem. Essa ingenuidade, estabelecida após o fim do que se conhecia, nos ajuda a administrar os esforços para o exercício do esperançar e, nesse sentido, atribuo a palavra à reflexão de Freire sobre ela &#8211; ou seja, o esperançar como uma ação, onde se constroi algo e se aplica um determinado tipo de força. Procuro, com isso, indicar que a condição de ignorância sobre o que vem não deve ser traduzida como um momento de inércia; pelo contrário, é um momento onde, internamente, estamos buscando formas de receber o desconhecido. Se a música finaliza, por ruptura ou não, buscaremos no e com o silêncio, formas inteligíveis de receber o que está por vir e, assim, dançaremos com o mistério &#8211; não por conhecer a sua letra, mas por sermos embalados no seu ritmo. Os pés retornam a balançar.</p>



<p>Saber ou não saber não pode ser o elemento determinante de nossas reações, até porque lidar com o inesperado é uma chamada cada vez mais pertinente no atual século. Lembro quando fiz um exercício reflexivo no primeiro semestre de História: me perguntaram o motivo de ter escolhido o curso, e eu respondi que gostaria de compreender o passado, melhorar minha atuação no presente e ajudar na previsão do futuro, evitando os erros já cometidos. Me desculpo, pois estava crua, em realidade. As breves linhas em que me justifiquei dizem de uma adolescente com a esperança de que o conhecimento controlaria as ações e reações, culminando num mundo melhor. Meses depois, me deparei com o movimento negacionista no passado (e também no presente). <strong>A história não se repete, pois os atores literais não são os mesmos; ela não controla o tempo, pois o seu interesse é o homem dentro desse; ela é imanência sem previsão de fim.</strong> A música e a história dividem o apelo do silêncio como um breve espaço de potência para o ensaio de uma vida melhor.</p>



<pre class="wp-block-verse has-text-align-right"><em>"Outra vírgula na vida
Outro ponto pra reescrever
Tudo igual: repete, muda
Tudo é o que não veio a ser

O fim é o começo
Início, um novo fim
Um velho recomeço
Tudo é o que não veio a ser"

Fim - Legrand/Composição: Diego Neves.</em></pre>



<hr class="wp-block-separator" />



<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:31% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2020/04/c748b-biogyo.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-8843" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p><strong><strong>Gyovana Machado </strong></strong>é Cristã, graduanda em História pela UFJF e formada no Seminário Teológico Rhema Brasil.&nbsp;</p>
</div></div>



<hr class="wp-block-separator" />



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/fdf84-assinatura-4.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-11677" data-recalc-dims="1" /></figure>





<div class="wp-block-columns is-layout-flex wp-container-core-columns-is-layout-5 wp-block-columns-is-layout-flex">
<div class="wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow">
<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.artebodoque.com/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/4d2c9-loja-3.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-11599" data-recalc-dims="1" /></a></figure>
</div>



<div class="wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow">
<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.artebodoque.com/revista-trama-edicao-impressa-edicao-001"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/82f24-impressa-2.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-11600" data-recalc-dims="1" /></a></figure>
</div>
</div>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-flow wp-block-group-is-layout-flow">
<hr class="wp-block-separator is-style-wide" />



<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-large-font-size">Galeria: Artistas pra seguir nessa quarentena</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.instagram.com/iuryborel/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2020/08/443e6-galeriaiury3-1021x1024-1.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-10527" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-medium-font-size"><em>Apoie artistas nessa quarentena. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>
</div></div>
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		<title>Mundo precisa avançar na igualdade de gênero, diz ONU, 25 anos após Conferência de Pequim</title>
		<link>https://revistatrama.artebodoque.com/2020/10/04/mundo-precisa-avancar-na-igualdade-de-genero-diz-onu-25-anos-apos-conferencia-de-pequim/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 04 Oct 2020 21:23:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 065]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[feminicidio]]></category>
		<category><![CDATA[igualdade de gênero]]></category>
		<category><![CDATA[ONU Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[sociedade]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: ONU Brasil</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="has-text-align-center"><em>Este ano, o mundo marca o&nbsp;25º aniversário da&nbsp;4ª&nbsp;Conferência Mundial sobre a Mulher em Pequim,&nbsp;realizada na&nbsp;China,&nbsp;em 1995, quando foi adotada a&nbsp;Declaração e Plataforma de Ação de Pequim. O documento é considerado o mais abrangente sobre os direitos das mulheres.&nbsp; Mesmo assim, um quarto de século depois, somente cerca de 10% dos países do globo são liderados por mulheres, e apesar de avanços em áreas como combate à mortalidade materna, muito ainda precisa ser feito para a igualdade de gênero.&nbsp;</em></p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/11963-protestos_conferencia.jpg?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12292" data-recalc-dims="1" /><figcaption>Protestos durante 4ª Conferência Mundial sobre a Mulher em Pequim, realizada na China, em 1995. Foto: ONU/Milton Grant</figcaption></figure>



<p>Este ano, o mundo marca o&nbsp;25º aniversário da&nbsp;4ª&nbsp;Conferência Mundial sobre a Mulher em Pequim,&nbsp;realizada na&nbsp;China,&nbsp;em 1995, quando foi adotada a&nbsp;Declaração e Plataforma de Ação de Pequim. O documento é considerado o mais abrangente&nbsp;<a href="https://news.un.org/pt/story/2020/10/1728322">sobre os direitos das mulheres</a>.&nbsp;</p>



<p>Mesmo assim, um quarto de século depois, somente cerca de 10% dos países do globo são liderados por mulheres, e apesar de avanços em áreas como combate à mortalidade materna, muito ainda precisa ser feito para a igualdade de gênero.&nbsp;</p>



<p>O alerta foi feito pelo secretário-geral da ONU, António Guterres,&nbsp;e outros participantes de um encontro virtual para marcar a data, realizado na quarta-feira (30), em Nova Iorque. Mais de 150 países se inscreveram para falar, muitos representados por chefes de Estado e de governo.&nbsp;</p>



<p>O tema da reunião foi&nbsp;“Acelerando a realização da igualdade de gênero e o empoderamento de todas as mulheres e meninas”.&nbsp;</p>



<p>Falando na abertura do encontro,&nbsp;o&nbsp;secretário-geral&nbsp;da ONU, António Guterres, disse que a&nbsp;Conferência de Pequim&nbsp;“foi um ponto de virada”, deixando “claro que os direitos das mulheres estão no centro&nbsp;da igualdade e da justiça em todo o mundo.”&nbsp;</p>



<p>Para Guterres,&nbsp;o mundo obteve progressos como a&nbsp;mortalidade materna, que&nbsp;caiu quase 40%,&nbsp;e&nbsp;a matrícula escolar de&nbsp;mais meninas do que&nbsp;em qualquer&nbsp;outro&nbsp;momento da história.&nbsp;</p>



<h3 class="wp-block-heading">Feminicídio&nbsp;</h3>



<p>Apesar disso,&nbsp;a&nbsp;visão ambiciosa da Declaração de Pequim&nbsp;não foi cumprida.&nbsp;</p>



<p>Uma mulher em cada três ainda&nbsp;sofre&nbsp;alguma forma de violência, todos os anos, 12 milhões de meninas, menores de 18 anos,&nbsp;se casam&nbsp;e,&nbsp;em algumas partes do&nbsp;globo, os níveis de feminicídio podem ser comparados a uma zona de guerra.&nbsp;</p>



<p>Em 2017,&nbsp;uma média diária de 137 mulheres foram&nbsp;assassinadas&nbsp;por um membro da própria família.&nbsp;As mulheres ainda são frequentemente excluídas&nbsp;de&nbsp;negociações de paz&nbsp;e&nbsp;outros&nbsp;tipos de&nbsp;decisão.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>A diretora-executiva da ONU Mulheres, Phumzile Mlambo-Ngcuka,&nbsp;falou sobre liderança política.&nbsp;</p>



<p>Em 1945, quando a ONU foi fundada, não havia mulheres chefes de Estado ou de Governo. Em 1995, em Pequim, havia 12 mulheres. Hoje, existem 22 mulheres&nbsp;chefes de Estado ou Governo entre os países-membros da ONU.&nbsp;</p>



<p>Mlambo-Ngcuka&nbsp;diz que&nbsp;“é hora de ações para mudar o curso da história de mulheres e meninas, especialmente mulheres entre 25 e 34 anos, que têm cada vez mais probabilidade de viver na pobreza extrema do que seus colegas homens.”&nbsp;</p>



<p>Também chegou o momento de “acabar com as leis, normas e homofobia discriminatórias, para acabar com a violência dos homens contra mulheres e meninas e fazer um esforço conjunto para colocar as mulheres no centro da justiça climática.”&nbsp;</p>



<h3 class="wp-block-heading">Salários&nbsp;</h3>



<p>Em todo o mundo, em média, as mulheres têm apenas 75% dos direitos legais dos homens.&nbsp;O Banco Mundial estima que pode levar 150 anos para atingir a paridade de gênero&nbsp;em salários.&nbsp;</p>



<p>Além de todos esses desafios,&nbsp;o chefe da ONU&nbsp;afirmou que “a&nbsp;Covid-19 enfatizou e explorou a contínua negação dos direitos das mulheres.”&nbsp;</p>



<p>Segundo&nbsp;ele, sem ação imediata, “a COVID-19 pode eliminar uma geração de progresso.”&nbsp;</p>



<p>Para o secretário-geral, igualdade “é fundamentalmente uma questão de poder.”&nbsp;Enfermeiras e cuidadoras estão na linha de frente da resposta à pandemia, mas os homens ocupam 70%&nbsp;dos papéis de liderança na área da saúde, por exemplo.&nbsp;</p>



<p>Por isso, ele diz que a mudança “começa com a representação igual das mulheres em cargos de liderança, nos governos, salas de reuniões, negociações climáticas e na mesa de paz,&nbsp;em todos os lugares que são tomadas decisões que afetam a vida das pessoas.”&nbsp;</p>



<p>Para alcançar isso,&nbsp;o secretário-geral&nbsp;pede&nbsp;medidas direcionadas, incluindo ações afirmativas e cotas.&nbsp;</p>



<p>As&nbsp;Nações Unidas&nbsp;alcançaram&nbsp;a paridade de gênero em&nbsp;sua&nbsp;liderança no início de 2020, com 90 mulheres e 90 homens como líderes seniores em tempo integral.&nbsp;Agora, a organização está&nbsp;trabalhando pela paridade em todos os níveis.&nbsp;</p>



<p>Saudando o contributo de homens e mulheres há 25 anos, Guterres&nbsp;concluiu&nbsp;dizendo que é agora o momento “de terminar o trabalho que eles começaram.”&nbsp;</p>



<h3 class="wp-block-heading">Direitos&nbsp;</h3>



<p>Outra participante foi a&nbsp;diretora-executiva do Fundo das Nações Unidas para a População (UNFPA), Natalia&nbsp;Kanem.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Ela lembrou que apenas 55%&nbsp;das mulheres em todo o mundo tomam suas próprias decisões sobre relações sexuais e anticoncepcionais.&nbsp;Além disso, em 2019, 280&nbsp;mil&nbsp;adolescentes e jovens foram infectadas pelo HIV.&nbsp;Mais de 800 mulheres ainda morrem todos os dias de complicações evitáveis ​​na gravidez e no parto.&nbsp;</p>



<p>Kanem&nbsp;pediu aos membros da ONU&nbsp;que “apoiem com&nbsp;palavras,&nbsp;ações e&nbsp;financiamento para programas e serviços que transformam a vida das mulheres.”&nbsp;</p>



<p>Segundo&nbsp;ela, “investir em mulheres e meninas não é apenas uma questão de direitos,&nbsp;também é uma&nbsp;escolha&nbsp;econômica&nbsp;inteligente, com benefícios para a sociedade muitas vezes superiores aos custos.”&nbsp;</p>



<h3 class="wp-block-heading">Igualdade&nbsp;</h3>



<p>Na última década, 131 países aprovaram leis para apoiar a igualdade, incluindo para aumentar o acesso aos cuidados de saúde e educação de boa qualidade. Mais países alcançaram a paridade de gênero na matrícula educacional e menos mulheres morrem durante o parto.&nbsp;</p>



<p>Apesar do progresso, nenhum país alcançou a igualdade de gênero.&nbsp;</p>



<p>Agora, devido à pandemia, estima-se que em 2021, 47 milhões de mulheres e meninas serão&nbsp;lançadas&nbsp;na&nbsp;pobreza extrema, elevando o total para 435 milhões.&nbsp;</p>



<p>Em 2021, para cada 100 homens com idades entre 25 e 34 anos vivendo em extrema pobreza, haverá 118 mulheres, uma diferença que deverá aumentar para 121 mulheres por 100 homens até 2030.&nbsp;</p>



<p><strong><em>Matéria originalmente publicada em </em><a href="https://brasil.un.org/pt-br/92686-brasil-fica-em-9o-lugar-entre-11-paises-da-america-latina-em-ranking-de-direitos-politicos"><em>Nações Unidas Brasil</em> </a><em>em 02/10/2020 &#8211; Atualizado em 02/10/2020.</em></strong></p>



<hr class="wp-block-separator" />



<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:23% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/982c5-onubio.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-8891" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p><strong><strong>A ONU (Organização das Nações Unidas) </strong></strong>é uma organização internacional formada por países que se reuniram voluntariamente para trabalhar pela paz e o desenvolvimento mundiais.</p>
</div></div>



<hr class="wp-block-separator" />



<figure class="wp-block-image size-large is-style-default"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/fdf84-assinatura-4.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-11677" data-recalc-dims="1" /></figure>





<hr class="wp-block-separator is-style-wide" />



<div class="wp-block-columns is-layout-flex wp-container-core-columns-is-layout-6 wp-block-columns-is-layout-flex">
<div class="wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow">
<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.artebodoque.com"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/68661-loja-2.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-11586" data-recalc-dims="1" /></a></figure>
</div>



<div class="wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow">
<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.artebodoque.com/revista-trama-edicao-impressa-edicao-001"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/dae20-impressa-1.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-11587" data-recalc-dims="1" /></a></figure>
</div>
</div>



<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-large-font-size">Galeria: artistas para seguir nessa quarentena</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.instagram.com/tuncaliozge"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/43ef4-fotos-carol-copy.jpg9_-1021x1024.jpg?resize=950%2C953&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-11393" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-medium-font-size"><em>Apoie artistas nessa quarentena. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>
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		<title>CAÇADORA DE HISTÓRIAS: A MAGIA ESTÁ AO LADO</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 04 Oct 2020 21:22:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 065]]></category>
		<category><![CDATA[Caçadora de Histórias]]></category>
		<category><![CDATA[Árvore]]></category>
		<category><![CDATA[Fadas]]></category>
		<category><![CDATA[Irmãs]]></category>
		<category><![CDATA[Victória Vieira]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: Victória Vieira</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p><em>O ser humano precisa desesperadamente do amor. Buscamos no abraço fortaleza do pai, no colo da mãe, nos livros, nos filmes, na gota de chuva que beija a pétala de um hibisco.</em></p>



<p><em><strong>Precisamos</strong> nos sentir amados para seguir adiante, e pode ter certeza de que toda criança com escassez de afeto se torna um adulto enfermo.</em></p>



<p><em>Se o dia foi difícil, tu chegas em casa, recebe um abraço e logo fica bem. Se um roteirista escreve uma história que conta somente como a personagem conquistou um sonho, não vende. Mas se acrescenta um par de olhos castanhos, canecas com chocolate quente fresco e uma fogueira crepitando: sucesso de bilheteria.</em></p>



<p><em>Mas isso tudo não é difícil de entender, tu sabes, somos animais. Mamíferos especificamente e temos a necessidade de sentir a ocitocina para sobreviver nesse mundo selvagem, lindo e&#8230; inusitado, vamos dizer.</em></p>



<p><em>A história que irá salpicar punhadinhos de brilho na coluna de hoje é sobre esse amor que salva. Vem comigo, por essa estrada:</em></p>



<p>&#8220;Magia. Quem nunca acreditou, ou pelo menos, chegou perto disso?</p>



<p>Éramos eu e minha irmã. Sou mais velha, então, era a capitã das brincadeiras.</p>



<p>A casa que nos criamos era composta de um lindo jardim verde que chegava a doer os olhos, tão vívido era ele. Entre bambus e flores de jasmim, havia uma árvore pequena com sementes amarelas por toda sua copa.</p>



<p>Na época, ela parecia uma grande fortaleza perante nossos tamanhos e tantas histórias e fantasias criamos ali. Era um mundo novo que se abria cada vez que chegávamos perto da Árvore das Fadas.</p>



<p>Sempre tive esse chamego e encanto com a magia, o brilho, a possibilidade de um portal para outro mundo. Eu tinha certeza que as sementes amarelas tornavam-se fadas fofas e atrapalhadas quando nossas pálpebras pesavam e o sono aterrissava.</p>



<p>Passei isso pra minha irmã caçula e ela embarcava nessa aventura. A gente conversava com as fadas, imaginava a cor dos vestidos e das asas, e também qual era o poder de cada uma delas.</p>



<p>No outono, as sementes todas caíam e a árvore murchava. Minha pequena irmã se entristecia e dizia: &#8220;Mana, elas foram embora!&#8221;. Eu, em meu pouco conhecimento de palavras, tentava explicar pra ela que era necessário, e que, na primavera, elas voltariam mais lindas do que nunca.</p>



<p>Nós crescemos. A casa foi vendida e derrubada. Dela, só sobraram algumas estacas de madeira e a lembrança de uma infância genuína de pés na terra molhada.</p>



<p>Eu e minha irmã seguimos juntas, despejando magia uma na vida da outra. Na mais difícil das estações, lá estava ela. A minha pequena e brava fada. A minha prova de que a magia é real&#8230; ou, o amor entre irmãs, que é o mais próximo que já cheguei.”</p>



<p><em>Histórias, memórias e sensações são os que nos conectam, independente do ponto de partida, classe social e demais lugares de fala. Por isso, tenho um projeto que foi conhecer o mundo virtual esse ano, que se chama Caçadora de Histórias, e ele acontece no Instagram.</em></p>



<p><em>Gostou da leitura? Então vou te contar um segredo: Contar histórias é a medicina da minha vida.</em></p>



<p><em>Uni tudo isso num projeto que floresce de maneira vagarosa e especial que se chama “Caçadora de Histórias”. Tu podes conferir ele lá no Instagram e se quiser participar, escreve para mim através do e-mail <a href="mailto:tuahistoriaaqui@gmail.com">tuahistoriaaqui@gmail.com</a> e me deixa te ajudar a enxergar a heroína/herói que és em tua própria trajetória.</em></p>



<div style="height:50px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<hr class="wp-block-separator" />



<p><strong>Victória Vieira</strong> é escritora e idealizadora do projeto Caçadora de Histórias. Caçando e ouvindo histórias, vou escrevendo a tua com minhas palavras e te ajudando a ter um novo olhar sobre ela. Siga o projeto no <a href="http://instagram.com/cacadora.de.historias">Instagram</a>.</p>



<div style="height:50px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<hr class="wp-block-separator" />



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<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-large-font-size">Galeria: artistas pra seguir na quarentena</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.instagram.com/iuryborel/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2020/10/4079c-sketch-brasil-1.png2_.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-9943" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-medium-font-size"><em>Apoie pautas identitárias. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>
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		<title>Estéreo &#8211; Capítulo 2</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 04 Oct 2020 21:21:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 065]]></category>
		<category><![CDATA[Estéreo]]></category>
		<category><![CDATA[Bárbara Pippa]]></category>
		<category><![CDATA[Bissexual]]></category>
		<category><![CDATA[conto]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Bárbara Pippa</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Seria apenas um beijo, nada demais.</p>



<p>Tal como Ana já havia deixado claro: beijar era igual para todas as situações.</p>



<p>Mas, dentro de mim, a novidade que se aproximava causou insônia e ansiedade, trazendo receio de fazer alguma coisa errada, como se eu nunca tivesse beijado antes.</p>



<p>O primeiro beijo da minha vida acontecera de forma despretensiosa, durante uma brincadeira e, quando dei por mim, estava lá, com a língua do rapaz dentro da minha boca, e me perguntando como ninguém achava aquele momento nojento e repleto de bactérias.</p>



<p>Obviamente, quando entendi o que eu tinha de fazer e como de fato funcionava o beijo, foi uma descoberta agradável e que deu vontade de sair distribuindo ósculos.</p>



<p>Não fiquei nervosa além do considerado normal; não perdi noites de sono por isso. Foi um acontecimento que agregou espaço na vida e se fez rotineiro, no sentido de não ter nenhum “porém” acerca.</p>



<p><img decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211; Então, na hora do intervalo, me espera. Vamo resolver aquele negócio. &#8211; <img decoding="async" width="16" height="23" src=""> Ela virou para trás, pois estava sentada na mesa da frente, falando como se estivéssemos combinando de ir comprar um biscoito na lojinha.</p>



<p>Eu imaginava que demoraria até esse dia chegar e não que uns dias após ao conversado seria o fatídico;<img decoding="async" width="16" height="23" src=""> achava até que ela tinha esquecido.</p>



<p><img decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211; Tá. &#8211;<img decoding="async" width="16" height="23" src=""> Sorri um sorriso nervoso, tentando não demonstrar.</p>



<p>Se ela fazia parecer tão normal, eu também tinha de fingir ser tão normal.</p>



<p>Nos desvencilhamos das meninas com as quais passávamos o recreio <img decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211; comendo sentadas nas escadas, conversando sobre o mundo nos quinze minutos de intervalo que nos era disponibilizado entre as aulas &#8211;<img decoding="async" width="16" height="23" src=""> e fomos.</p>



<p>O colégio se situava na área central da cidade e pertencia a um edifício comercial. Os primeiros andares correspondiam às salas de aula, e os outros eram instituições privadas,<img decoding="async" width="16" height="23" src=""> consultórios e afins.</p>



<p>Naquela época, as câmeras de segurança não eram tão frequentes como hoje em dia; a verificação constante como em um reality show era rara e apenas existia nas áreas comuns, como portas de elevadores e partes de áreas proibidas ao público.</p>



<p>Eu tremia.</p>



<p>Eu estava sem jeito.</p>



<p>Ela explicou para as colegas que iríamos em algum local aleatório fazer algo mais aleatório ainda, do qual não houve questionamento nem interesse em ir juntas.</p>



<p>Ela pegou meu braço, subimos as escadas.</p>



<p>Chegamos ao oitavo andar, onde todas as portas de clínicas se encontravam fechadas e com horários de abertura para além daquele.</p>



<p>Eu não sabia o que fazer.</p>



<p>Ela me conduziu até o final do corredor, distante da escada e do elevador, encostou na parede, e sorriu um sorriso de quem estava se divertindo com a situação.</p>



<p><img decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211; Vem cá.</p>



<p>Ela me puxou para si e o beijo aconteceu.</p>



<p>Nossas bocas se encaixaram perfeitamente em um beijo suave, mas intenso. Devagar, mas com vontade.</p>



<p>Uma mão dela percorreu minha nuca e afagou meus cabelos e a outra foi para minhas costas, me fazendo aproximar ainda mais.</p>



<p>Eu sentia minhas pernas bambas e tinha a sensação de que, se ela me soltasse, eu cairia.</p>



<p>Reproduzi seus gestos, porque estava nervosa demais para raciocinar e fazer o que quer que fosse que eu fizesse normalmente ao beijar alguém.</p>



<p>Nós tínhamos praticamente a mesma altura, então não havia necessidade de ficar na ponta do pé, levantar ou abaixar a cabeça &#8211; e era muito mais confortável assim.</p>



<p>Percebi o seu perfume, que antes nunca tinha notado, e que adentrou pelo meu olfato como uma sinfonia tocada por uma orquestra maravilhosa.</p>



<p>Seus lábios eram macios assim como sua pele <img decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211; que percebi também quando nossos rostos se roçaram.</p>



<p>O beijo não deve ter durado muitos minutos; afinal, tínhamos que retornar. Mas para mim, pareceu a eternidade mais feliz que eu tinha vivenciado em muito tempo.</p>



<p>Voltamos como se nada tivesse acontecido. Em mim, a voz interior de aclamação aquele momento era música.</p>



<p>Eu não conseguia prestar atenção na aula; não conseguia sequer pensar em mais nada. Na mente, apenas as imagens que se repetiam do que eu tinha passado há pouco, trazendo a sensação de êxtase e até uma pitada de delírio, quase incredulidade, de que tinha realmente acontecido.</p>



<p>“E aí? Vc tá bem? ” &#8211; Ela me passou um bilhete em um pedaço de papel amassado.</p>



<p>Eu estava ótima, e, se havia um paraíso, eu tinha estado por lá.</p>



<p>“Sim, tudo bem”. &#8211; respondi. Ela retornou o bilhete: “Vc matou a curiosidade? ”.</p>



<p>Não só tinha matado a curiosidade, mas gostado de tal forma que era impossível explicar. &#8211; “Sim, matei. Eu gostei bastante”, devolvi</p>



<p>Havia um receio em colocar adjetivos demais e fazê-la perceber que o <em>bastante</em> era bem mais do que se dizia. O papel volta para mim: “Então, pra confirmar se vc gosta de menina mesmo, tem que bjar outras meninas agora.”</p>



<p>E voltou o pesadelo da dúvida que corroía meu ser: eu continuava gostando de meninos; como poderia ser lésbica se existia esse detalhe? Como eu poderia gostar de ambos ao mesmo tempo? De volta para ela: “Acho que vai ser difícil beijar outras meninas, mas é verdade”.</p>



<p>O que eu queria era beijá-la novamente.</p>



<p>Como era terrível ter que passar por tanta dor de descobrir o caminho da atração sem ter embasamento que ajudasse no meio de amenizar minhas dúvidas!</p>



<p>Se eu tivesse alguém para explicar, ou se houvessem meios que explicassem que meus desejos não precisavam ser limitados a um gênero apenas, tudo seria tão mais simples!</p>



<p>Se, naquela época, se falasse mais sobre sexualidade, e as pessoas também entendessem que existiam realmente pessoas que gostam dos outros sem se ater a gênero, meu sofrimento teria sido bem menor <img decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211; não somente o meu, mas de todos aqueles que foram invisibilizados na sua sexualidade (e ainda são, devido a estrutura de muitos não acreditar na forma mais ampla de interesses amorosos).</p>



<p>Eu estava tentando me encaixar em um rótulo que não me pertencia, porque era extremamente limitante ter uma definição, principalmente naquele instante de descoberta.</p>



<hr class="wp-block-separator" />



<p><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong>Barbara Pippa </strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong>é nascida em Juiz de Fora, participante em antologias de poemas e contos. Acredita em astrologia e muda o cabelo de acordo com o humor.</p>



<hr class="wp-block-separator" />



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/fdf84-assinatura-4.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-11677" data-recalc-dims="1" /></figure>





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<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-large-font-size">Galeria: artistas para seguir na quarentena</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.instagram.com/iambrendamarques/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2020/10/ef7bc-begaleria8-1.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-10819" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-medium-font-size"><em>Apoie pautas identitárias. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>
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		<title>Sobre as pregas de uma roupa que já não cai bem</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 04 Oct 2020 21:20:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 065]]></category>
		<category><![CDATA[crônica]]></category>
		<category><![CDATA[juiz de fora]]></category>
		<category><![CDATA[Mudanças]]></category>
		<category><![CDATA[Vinícius Lara]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Vinícius Lara</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Fosse porque o dia era quente ou porque a rotina estivesse cheia do que fazer; pode ser também que, naquele dia, só mais uma onda de melancolia habitual tivesse subido à superfície da consciência para apontar como ele dançava fora do ritmo. Carros imprimindo cadência nas vias da cidade, pessoas marcando o fluxo das calçadas, mas ele estava fora. Se movia com os olhos só suficientemente abertos, lembrando de coisas do tempo de criança, na época das brincadeiras, quando ainda era pequeno e as casas eram enormes.</p>



<p>Subiu a Halfeld enquanto escutava música. Parou em uma barraca de ambulantes para comprar caqui e algumas maçãs. Ainda sentia o ciático fisgar desde a última crise, e, mesmo que não mancasse, a perna esquerda parecia um pouco encurtada &#8211; pisava tanto para dentro que o bico do sapato estava desgastado. Tudo isso, no entanto, fazia nenhuma diferença no fim de tarde; como ele, eram centenas de outros e outras pensando e escutando músicas em fones. Era único, autêntico, mas inteiramente desinteressante para os todos, da mesma forma que o mundo era.</p>



<p>Foi até a altura da primeira ou segunda galeria quando virou à esquerda e foi costurando o centro da cidade como se faz em Buenos Aires. Ao mesmo tempo que caminhava, pensava que aquela arquitetura era um tesouro, porque fazia com que no centro todas as coisas parecessem próximas. Tornava muito mais fácil caminhar a pé para resolver as coisas do que usar um carro. Na verdade, usar um carro no centro de Juiz de Fora era algo que se tornava cada vez mais desaconselhado. Um centro cartografado por aquelas passagens secretas e expostas fazem a cidade. Nos tempos em que a capital ainda ficava no Rio de Janeiro, a cidade era imbatível em charm, em público, em artes &#8211; e a impressão que tinha é de que isso acontecia em mezaninos de galerias, quase como naquelas reuniões clandestinas em que Merleau-Ponty, Sartre e Camus escreveram, beberam e brigaram juntos.</p>



<p>Teve fome e decidiu que queria comer. Se lembrou de ter lido uma crônica estúpida sobre alguém que teria comido numa padaria com a boca anestesiada. O conteúdo da peça era péssimo: curta, vulgar, cheia de adjetivos e com pouco assunto &#8211; que significava, a um leitor mais experiente, que na verdade aquele autor não tinha absolutamente ideia nenhuma e apenas vomitou no papel meia dúzia de palavras para cumprir os prazos de uma revista. Como estava amargo, se lembrou com desprezo da anedota, mas com carinho das padarias. Tomaria um bom café e comeria alguma coisa sem glúten.</p>



<p>Na medida em que escurecia, ventava um pouco, esfriava rápido. Não levava casaco, apenas a blusa que usava no corpo. Ainda via movimento de pessoas aqui e ali, mas elas iam deixando de aparecer, e a rua parecia mais vazia. Com exceção dos pontos de ônibus, que ficavam cheios com a sobrecarga populacional que deveria deixar a região comercial e voltar para as bordas, o anoitecer se parecia bastante com o início da manhã. E isso fazia com que ele pensasse que as coisas se parecem além da conta na vida.</p>



<p>Por mais de uma vez, já havia se questionado sobre isso. Foi casado uma vez, amasiado mais uma e, nos últimos meses, vivia entre algumas aventuras. Não tinha filhos ou pets que lhe pediam atenção; a família era de outro estado. Vivia só para trabalhar melhor e estudar melhor: materializar cada um daqueles fatores que se pensa em conquistar quando se tem dezesseis anos para possuir a felicidade plena. Verdade que não era infeliz, mas tampouco era bento. Se sentia majoritariamente sóbrio, eventualmente alegre. As mulheres, os empregos, os gozares, eram muito parecidos ou iguais. Se debateu por algum período pensando que a culpa fosse do marasmo provinciano de Juiz de Fora, a cidade em que nada acontece; mas quando passou uma temporada em Porto Alegre, ele viu que por lá as coisas eram idênticas. As repetições não são dos espaços, são das pessoas. Nosso herói banal e quase rabugento vivia de repetir suas intensidades e sabia disso, mas começava a se incomodar.</p>



<p>Deixar de repetir é, de alguma forma, romper. Com um caso, com um trabalho, com um partido, com memórias, com fantasias. Não existe sujeito sem esses tiques e essas verrugas que formam a máscara do existir. Romper toda vez que alguma ideia abusada ou alguém chega perto demais de incomodar, também é repetição. Alguns nós não são cortáveis; são afrouxáveis e daí se largam sozinhos. São como o laço no tênis que se solta sozinho quando o cadarço é ensebado, ou como o barrinho que suja a bainha da calça, mas que, quando seca, vira pó. A vida é assim. Ele não sabia disso, mas intuía alguma coisa.</p>



<p>Sentou-se na mesa mais afastada do café, onde pediu capuccino e dois folhados de queijo. Comia e mexia no celular, desapercebido da vida. Não gostava de café ou de chá quentes demais, era preciso esfriar um pouco. Bebia devagar para que tudo aquilo parecesse um ritual desses que se transformam em meme sobre liberdade ou solidão. Estava sozinho e se sentia feliz, até que sentiu que uma mão lhe tocava os ombros. Não gostava que lhe encostassem enquanto conversava e não esperava quem fosse. As mãos logo se soltaram dos ombros e deslizaram pela mesa, puxando a cadeira onde se sentou uma mulher. Ele conhecia aquela moça; ou, pelo menos, já havia conhecido, um dia.</p>



<p>Alguns anos antes, teve uma amizade próxima com certa artista local. Não existem muitos aquarelistas no século XXI, e talvez daí tenha nascido o encanto. <strong>Não se ama, seja no coito ou de forma inibida em sua finalidade, alguém que não seja fascinante</strong>, e a amiga era admirável no que fazia. Questões políticas e familiares fizeram com que ela se mudasse de cidade e fosse viver mais no interior. Não tinha ouvido muito dizer por onde andava a ex-companhia de olhares e de leituras. Uma vez, se se lembrava bem, chegou a procurar e descobriu que tinha se casado ou tentava se casar, algo assim. Nunca teve muita estima por si mesma, e a isso ainda, se somava uma espécie de esoterismo new age neurótico. Seria melhor deixar o tempo passar, e os dois talvez se encontrassem numa livraria, na fila do cinema, ou coisas assim. Nada aconteceu como o planejado. Nunca mais se viram até aquele momento, em que a mulher sentava diante dele e dos croissants.</p>



<p>Amenidades banais que perfazem o pacto da civilidade. “Como vai? Que surpresa.”; “Não esperava nunca que te veria aqui!”; “Você continua o mesmo.”; “Viajei para a Bahia.”; “Fulana abriu um pet shop.”; “Me casei.”; “Me separei.”; “Tem feito muito calor em Juiz de Fora.”; “O café está frio, vou pedir uma coca zero.”; “Se importa se eu acender um carlton?”</p>



<p>Estava diante de uma mulher que conheceu, mas não a conhecia. A voz parecia a mesma; a cor do cabelo, a altura, a forma de se vestir e a miopia que sempre teve; mas, ao mesmo tempo, era outra pessoa. Tornar-se outra pessoa pode ser algo bom em alguns contextos, mas não ali. Ela estava oca, acuada; parecia sentir medo. Era o duplo do que já foi. Mesmo nome, idade equivalente, documentos iguais &#8211; mas outra, ao mesmo tempo. Um estampido como um apito soou no ouvido do homem, que ouvia sem escutar. Naquele momento, teve dúvidas se era o mesmo e sobre o quanto poderia ter mudado, por sua vez. É certo que a rotina era um pouco estressante naquele período, mas lia mais, criava mais, fotografava, escrevia críticas. Seria possível que ele também passasse a ela uma imagem tão desconexa de si mesmo? </p>



<p>Sentiu vertigem.</p>



<p>Voltou a si quando ela apoiou os cotovelos na mesa e chorou. Na verdade, não sabia bem se a mulher já estava fazendo isso há muito tempo ou se tinha começado naquele momento. O choro concentrou a atenção e ele ouviu. Estava casada com um traficante, tinha dúvidas se estava grávida, desistiu da aquarela e estava pensando em procurar emprego em alguma papelaria ou no shopping. Tudo dito de uma vez. Depois, o silêncio. Enquanto ela enxugava o canto dos olhos com a ponta dos dedos sem esmalte, ele teve outra vertigem. </p>



<p>Ela acendeu mais um cigarro. Ficaram em silêncio por alguns minutos, e pode ser que, naquele tempo, ela também estivesse medindo como o amigo estava mudado: era mais seco, era mais curto, era mais desarmado.</p>



<p>O relógio marcava quase 20h, e ele precisava ir embora. Trocaram novamente os contatos de celular. A conta ficou em dezessete e setenta e cinco. Saíram juntos e descobriram que estavam indo pela mesma direção, o que fez com que caminhassem um do lado do outro por uma ou duas quadras. Ela precisava atravessar, e ele continuou o mesmo caminho. Se despediram amigavelmente, como sempre faziam, mas depois da distância ele parou pra olhar para trás. Sobre o ombro esquerdo, sentia ver pela fresta de algum tecido do tempo o que tinha ficado perdido. Sofreu pela amiga sofrida, e daí caminhou <em>in memorian</em> mais um pouco pelas ruas do centro.</p>



<p>Era noite. Fazia mais frio do que antes. Quem visse de longe, perceberia um homem cabisbaixo, com a testa franzida e a monocelha contraída. Desajeitadamente, a sacola biodegradável (daquelas verdes e fedidas) se chocava ora com a batata da perna, ora com o joelho, enquanto ele continuava caminhando. Pensava sem pensar em como, às vezes, o tempo veste mal. Não usava a cabeça para fazer isso; o corpo inteiro consentia naquela epifania do existir. Grilheta do mesmo calendário: todo o mundo se movia sem poder andar para trás.</p>



<p>Embora fosse contador de profissão, ele também tinha seus rompantes de poeta. Naquela noite, não conseguiu deixar de pensar sobre as pregas do tempo que devia ostentar também; mas, acima disso, precisava responder para si quem era de verdade e quando. </p>



<p>Sentiu vertigem. </p>



<p>Comeu caqui. </p>



<p>Dormiu bem mal aquela noite.</p>



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<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:27% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2020/04/41684-bio-vin-lara.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-8647" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p><strong><strong>Vinícius Lara </strong></strong>é psicanalista, historiador, fotógrafo amador e um apaixonado pelo absurdo</p>
</div></div>



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<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/fdf84-assinatura-4.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-11677" data-recalc-dims="1" /></figure>





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<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.artebodoque.com/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/68661-loja-2.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-11586" data-recalc-dims="1" /></a></figure>
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<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.artebodoque.com/revista-trama-edicao-impressa-edicao-001"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/72b80-impressa-3.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-11608" data-recalc-dims="1" /></a></figure>
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<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-large-font-size">Galeria: Artistas pra seguir na quarentena</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.instagram.com/viajeronima/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/43ef4-fotos-carol-copy.jpg8_-1021x1024.jpg?resize=950%2C953&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-11314" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-medium-font-size"><em>Apoie os artistas nessa quarentena. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>
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