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	<title>Arquivos Carol Cadinelli - Revista Trama</title>
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	<description>Arte, Cultura e Criatividade</description>
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		<title>CONSTRUINDO OS DIAS DE GLÓRIA</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 26 Dec 2021 21:30:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 122]]></category>
		<category><![CDATA[Carol Cadinelli]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Carol Cadinelli</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>2021 foi um ano permeado por dias de luta em excesso e dias de glória em escassez; até onde percebo, essa foi a realidade de todas as pessoas. Se essa não foi a sua realidade, olha&#8230; deixo aqui o meu inofensivo sentimento de inveja, e o desejo honesto de que seu próximo ano seja tão bom quanto este.</p>



<p>Acho que nada neste país aconteceu como esperávamos; a pandemia não acabou, 13 milhões e meio de brasileires seguem desempregades [1], 19,1 milhões de nós passam por situação de fome [2]. No âmbito público, não bastasse o desapontamento com a política ineficaz contra a crise, também temos a indignação com os crimes cometidos pelo governo e seus associados, com o descaso frente às necessidades da população, com a priorização de um lucro e de um moralismo criminoso em cima de políticas elaboradas em nome da preservação de vidas e de recursos. No âmbito pessoal, continuamos perdendo pessoas que amamos para a COVID-19, nossas rendas foram reduzidas; boa parte dos nossos empregos foi embora e nunca mais voltou. Não tenho provas, mas tenho convicção de que somos, hoje, uma população mais doente do que éramos antes de 2020, devido a toda essa situação&#8230; Se serviu de algo, porém, é bom pensar que tanta gente que já precisava bem antes começou a fazer terapia diante de toda essa avalanche.</p>



<p>Apesar de pensar que tudo de pesado do ano pode servir de aprendizado (não só para cada um de nós no âmbito pessoal, mas também para nós no cenário social e para os governantes que forem eleitos em 2022), confesso que, muitas vezes, penso que eu preferiria ter permanecido burra (rs). Termos sobrevivido é um milagre, e aqueles que têm alguma perspectiva para o próximo ano são raros. É claro que isso também é uma realidade para a Trama.</p>



<p>Nosso terceiro ano de publicação foi complexo, para dizer o mínimo sem entrar em detalhes. Você, que  nos lê e acompanha, esteve em contato com as nossas conquistas: o registro do ISSN, a renovação da identidade visual, a criação de novas colunas, a remodelação do podcast, o trato com temas essenciais da nossa cultura e da nossa arte; tudo isso nos enche de orgulho, sim! Mas é que você nem imagina todo o trabalho e tentativas frustradas por trás de tudo isso. Novamente, aquela questão do aprendizado; mas se formos bem honestos, esperamos de verdade que o ano que vem seja melhor. E há de ser. A Trama é feita de pessoas; além de nós, editores, cada autor e cada artista que submete seus trabalhos à nossa curadoria é parte essencial do que idealizamos: um espaço democrático para que pessoas de diversos níveis de formação, de diferentes espaços da cultura, de prismas múltiplos em seu olhar sobre o mundo, possam trazer sua arte, possam falar de suas percepções sobre a arte e a cultura, possam trabalhar sua criatividade de conteúdo e forma, possam dialogar e construir. E quanto melhor estão as pessoas, melhor fica aquilo a que elas se dedicam.</p>



<p>A Trama não para, e frente a essa perspectiva de 2022 ser um ano menos difícil, temos novos planos para a nossa publicação. Ainda são segredo! Vamos contando para vocês aos poucos. Conforme a vida de cada um de nós vai se ajeitando, a Trama também se fortalece na retomada de antigos projetos, na criação de novos, na disseminação da arte e da cultura para cada vez mais pessoas.</p>



<p>Os dias de luta parecem que nunca vão acabar, e enquanto humilhados, esperamos a exaltação nos dias de glória. Nós, as carinhas por trás da Trama, porém, estamos nos organizando para criar esses dias de glória, com a ajuda de cada pessoa que nos lê. Estamos abertos a receber e a dialogar com quem quer que deseje ser exaltade conosco. Precisamos e desejamos cada um de vocês nesse espaço.</p>



<p>O ano foi difícil, mas graças a vocês, leitores e autores, passamos por ele firmes, e ainda nos resta ânimo e esperança para continuar. Pessoalmente, a Trama é um dos maiores orgulhos da minha vida, e eu não tenho palavras o suficiente para expressar a gratidão que sinto por cada um que vem a nós com suas criações, suas reflexões, sua atenção e seu tempo.</p>



<p>E que 2022 possa vir nos exaltar em seus dias de glória!</p>



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<p>[1] Dado da <a href="https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2021/11/desemprego-recua-para-126-e-ainda-atinge-135-milhoes.shtml#:~:text=Os%20dados%20foram%20divulgados%20nesta,por%20Amostra%20de%20Domic%C3%ADlios%20Cont%C3%ADnua).">Folha de São Paulo</a>, de novembro de 2021.</p>



<p>[2] Dado da <a href="https://www.redebrasilatual.com.br/cidadania/2021/10/fome-brasil-19-milhoes-inseguranca-alimentar/">Rede Brasil Atual,</a> de outubro de 2021</p>



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<p><strong><strong><strong><strong><strong>Carol Cadinelli</strong> </strong></strong></strong></strong>é jornalista, apaixonada por palavras. Escreve, edita, revisa, traduz e, vez ou outra, fotografa. Atualmente, é editora na Trama.</p>
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		<title>SUBLIMAÇÃO</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 07 Nov 2021 21:30:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, n 116]]></category>
		<category><![CDATA[Carol Cadinelli]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Carol Cadinelli</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Sento para escrever este texto. A vizinha, que não conheço, coloca para tocar:</p>



<p class="has-text-align-right"><em>Bem pior que eu, você<br>Que não deixa ela e nem deixa de viver<br>Bem pior que eu, você<br>Desconta sua raiva em duas horas de prazer<br>Eu venho porque eu não tenho nada a perder&#8230;<br>Já você&#8230;</em><br></p>



<p>Eu paro tudo pra cantar e rodar na sala, e depois me sento de novo. Se o momento fosse outro, a minha reação seria a mesma. Mas hoje, é diferente.</p>



<p class="has-text-align-right"><em>Você virou saudade aqui dentro de casa&#8230;</em></p>



<p>Nunca fui muito de sertanejo; mas ela me conquistou. Só no meu círculo de amigas, conto múltiplas que passaram pelo mesmo, e nem consigo imaginar mais quantas pessoas tiveram suas vidas tocadas pelo contralto inconfundível de Marília Mendonça.</p>



<p>Marília conquistou o Brasil inteiro, virou Patroa e foi coroada Rainha da Sofrência. Seu primeiro hit, &#8216;Infiel&#8217;, foi a primeira música sertaneja da qual me lembro que trazia uma voz feminina não apenas na interpretação, mas também na narrativa &#8211; e a artista tornou isso um padrão para a sua carreira, em um estilo musical tão permeado por homens cisgêneros heterossexuais, os quais não tinham (e imagino que continuem não tendo) qualquer pudor ao expressar suas ideias machistas em letras que as mulheres fãs do sertanejo buscavam não prestar atenção pra não passar raiva.</p>



<p class="has-text-align-right"><em>Se ele não te quer, supera!<br>De mulher pra mulher, supera!</em></p>



<p>Marília chegou chutando a porta e, junto com artistas como Simone e Simaria, Nayara Azevedo, Maiara e Maraísa, entre outras, consolidou o &#8220;feminejo&#8221;, que é muito mais que simplesmente a música sertaneja cantada por mulheres. O feminejo é o empoderamento da mulher sobre suas narrativas românticas. Ele desconstroi cada estereótipo de mulher já pensado pela monogamia machista: a amante, a esposa, a corna, a piranha, a apaixonada, a ex louca vingativa, entre tantas outras. Cada uma delas encontra, nas canções dessas artistas &#8211; em especial, nas de Marília -, uma voz, um espaço para sentir, para ser mais que estereótipo. A meu ver, esta é uma realização extraordinária.</p>



<p class="has-text-align-right"><em>(a vizinha desligou a playlist, estou ligando aqui de novo)</em></p>



<p>Como tudo no mundo, é claro que o feminejo (e, consequentemente, o trabalho de Marília Mendonça) dá margem para críticas e questionamentos morais, especialmente quando consideramos o alcance massivo das músicas sertanejas e o reforço de valores heterossexuais e monogâmicos. Mas isso é papo pra outra hora. O feminismo sempre foi sobre direitos iguais, e Marília foi pioneira em tomar para si o direito de fazer o que os homens do sertanejo já vinham fazendo há décadas &#8211; e fazer ainda melhor que eles. Eu, não-monogâmica e definitivamente não-heterossexual, por muitas vezes, encontrei em Marília a representatividade da qual eu precisava; e sei que não sou a única.</p>



<p class="has-text-align-right"><em>Se quem tava comigo era ele, a culpa é dele<br>Quem fez essa bagunça na nossa amizade é ele<br>Eu não vou deixar de ser sua amiga por causa de um qualquer<br>Que não respeita uma mulher</em></p>



<p>Não bastando ter revolucionado seu nicho artístico, Marília se mostrou extremamente humana e extremamente forte durante toda sua carreira. Frente à gordofobia que sofreu durante boa parte de sua vida pública, frente à transfobia que cometeu e à qual se endereçou da forma mais digna e humilde possível, frente ao seu emagrecimento e aos comentários maldosos que vieram disso, a artista foi exemplo para toda uma geração. Carregando noções de sororidade e de fortalecimento em seu trabalho e em sua vida, Marília tocou ainda mais cada um que a ouviu.</p>



<p>Só por ser uma mulher jovem &#8211; ora, tínhamos quase a mesma idade -, com um filho pequeno para criar, com toda uma vida pela frente, a perda de Marília já seria uma dor profunda; mas a beleza que habitava a artista era muito maior que apenas sua jovialidade ou seu sucesso e reconhecimento a nível nacional.</p>



<p>Ao receber a notícia do acidente, eu soltei um berro. Literalmente. E entrei em estado de choque. E acho que, na verdade, eu ainda não consegui processar o fim dessa carreira e dessa vida. Marília já era estrela brilhante em vida, e vai permanecer sendo inspiração para sempre. Tornou nossas vidas um pouco mais sublimes, e permanece em sublimação mesmo após partir.</p>



<p>A nossa saudade vai ter que aprender a tomar um rumo na vida, infelizmente.  Descanse em paz e em glória, querida.</p>



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<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:22% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/8a636-carolcad-bio-2-1.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12212 size-full" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p><strong><strong><strong><strong><strong>Carol Cadinelli</strong>&nbsp;</strong></strong></strong></strong>é jornalista, apaixonada por palavras. Escreve, edita, revisa, traduz e, vez ou outra, fotografa. Atualmente, é editora na Trama. </p>
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		<title>EQUINÓCIO</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 26 Sep 2021 21:30:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 110]]></category>
		<category><![CDATA[Carol Cadinelli]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Carol Cadinelli</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Menos famosos que os tão celebrados solstícios, os equinócios são os únicos dois dias do ano em que o dia e a noite têm exatamente a mesma duração; o eixo de rotação da Terra fica paralelo ao do Sol, o que faz com que os dois hemisférios do planeta sejam iluminados igualmente. Essa supravalorização dos equinócios pode ser abordada enquanto metáfora para se discutir muita coisa: a política, as relações sociais, a estrutura capitalista&#8230; mas, como sou eu, e como o dia é hoje, quero falar sobre bissexualidades, mesmo.  </p>



<p>O dia 23 de setembro marca, anualmente, o Equinócio de Primavera para os territórios do Sul &#8211; e apesar de esse não ser o motivo da escolha da data (Freud explica), há de se convir que é um tanto poético que a Celebração Bissexual caia bem neste dia, em que celebramos o florescer pós inverno; em que noite e dia, Norte e Sul, ficam em pé de igualdade, em todos os 180 graus de latitude do planeta. Celebramos a nossa fluidez, a nossa completude, a nossa compreensão da diversidade e da multiplicidade justo no dia em que a natureza provê luz e calor em equilíbrio a todos os territórios e pessoas sem distinção.  </p>



<p>A noção real do que é a bissexualidade dialoga muito com isso. Ainda que leigos argumentem (até hoje!), com base numa etimologia rasa, que a bissexualidade é binária, transfóbica, excludente de identidades fluidas ou não binárias de gênero&#8230;  a verdade é que, assim como a luz solar, que toca os 180 graus de latitude por exatas doze horas no equinócio, a bissexualidade também toca todos os graus do espectro de gênero, se dando ao direito de primaverar, veranizar, outonar e invernar a cada vivência.  Ora; o Sol não precisa (nem deve) escolher iluminar apenas Norte, ou apenas Sul, ou apenas alguns graus entre os polos. Bem. Nós também não. </p>



<p>A noção real do que é a bissexualidade também dialoga muito com essas mudanças de estações, que variam de acordo com o deslocamento natural do corpo celeste nos eixos de movimento. A Terra, em sua rotação, não está indecisa nem passando por uma fase. Bem. Nós também não.</p>



<p>Bissexualidade é luta, é enfrentamento, é transgressão, é rompimento com tudo o que é compulsório na nossa vivência social. Ser bissexual é ser capaz de negar as imposições sociais limitantes no que diz respeito a quem e como devemos amar, considerando os constructos sociais de gênero e sexualidade em sua qualidade de construção &#8211; e, consequentemente, em sua possibilidade de desconstrução e mudança; não enquanto atributo fixo restritivo das identidades.</p>



<p> Cito, aqui, o recém publicado <a href="https://www.frentebissexualbrasileira.org/manifesto-bissexual-brasileiro">Manifesto Bissexual Brasileiro</a>: &#8220;E por isso lutamos. Contra a vergonha que nos impõem, contra o ódio que nos separa, contra o apagamento que nos fere. Lutamos por orgulho, respeito e visibilidade. Lutamos pelas nossas vidas. E continuaremos vencendo, pois a luta bissexual, assim como nós, não tem fronteiras nem conhece limites.&#8221;</p>



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<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:22% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/8a636-carolcad-bio-2-1.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12212 size-full" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p><strong><strong><strong><strong><strong>Carol Cadinelli</strong>&nbsp;</strong></strong></strong></strong>é jornalista, apaixonada por palavras. Escreve, edita, revisa, traduz e, vez ou outra, fotografa. Atualmente, é editora na Trama. </p>
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		<title>DIA SEM PAIS</title>
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		<pubDate>Sun, 08 Aug 2021 21:28:00 +0000</pubDate>
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		<category><![CDATA[Carol Cadinelli]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Carol Cadinelli</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>A minha perspectiva sobre o dia dos pais sempre foi, de certa forma, uma perspectiva de ausência. De falta, não; figuras masculinas não me faltavam, nem eventos para celebrar o &#8220;dia dos pais&#8221;, e é um tanto difícil alguém sentir falta de algo que nunca teve. Mas a ausência, essa estava ali &#8211; e o dia dos pais era só um lembrete a nível nacional de que ela existia.</p>



<p>Essa realidade está longe de ser exclusiva minha. Em um país em que existem mais de 11 milhões de mães solo (IBGE), a paternidade é assunto que ainda carece de muita reflexão. Sob a égide da ideologia patriarcal e compulsoriamente heterossexual que permeia as nossas estruturas sociais atuais, ter (ou ter tido, em algum momento) um pai não é condição <em>sine-qua-non</em> de ser filha. Perceba: não estou dizendo aqui de ser órfão, não; estou dizendo de progenitores que optam por não viver a paternidade. Confesso que isso me faz questionar mesmo se justifica a existência de um DIA DOS PAIS, já que a data é um lembrete tão desconfortável pra tanta gente&#8230; ou talvez isso contribua para que o dia dos pais seja ainda mais justificado, uma vez que, já que tantos abrem mão da função, os bravos heróis que assumem seu posto precisam ser celebrados.</p>



<p>Pessoalmente, eu fico com a primeira opção, especialmente quando o contexto é composto por uma maioria de progenitores heterossexuais em cujos relacionamentos, na maioria das vezes, a ausência de um pai é o fardo de uma mãe. Mais do que os desafios que o processo de criar um novo ser impõe em si mesmo, o fardo social não demora a dar as caras. Os sintomas de uma sociedade machista chegam em forma de ataque a essas mães, através do cerceamento de seu corpo, de seu tempo, de sua atenção, de suas prioridades, de suas vontades. A mãe que tem um pai presente já não pode mais ser outra coisa que não mãe; a mãe que não o tem, menos ainda. Nesse aspecto, felizes mesmo são as mães sáficas.</p>



<p>O fardo social do título de mãe não dá descanso nem quando o dia é dos pais. Me lembro bem de dias dos pais da minha infância, e que só posso imaginar o que minha mãe sentia ao me ouvir, aos cinco anos, dizer da ausência do meu pai com tanta naturalidade. Pois bem, era natural pra mim dizer &#8220;ah, o meu pai não vem, mas a minha mãe vem&#8221; quando me perguntavam quem vinha na celebração da data; mas sempre foi chato. E eventualmente, eu comecei a perceber o quanto esse e tantos outros aspectos decorrentes da ausência do meu pai eram socialmente chatos. Me tornei uma filha provida de amplo cansaço e profunda indiferença frente a qualquer questão paterna (ainda que me esforçasse contra isso).</p>



<p>Existe um provérbio africano, acho, que diz que &#8220;é necessária uma vila inteira para se criar uma criança&#8221;. Na minha vila, como na de inúmera crianças, não tinha um pai. E por mais que me alegre ver a relação de pessoas cujos pais estiveram em suas vilas, sinto que esse lance de &#8216;dia dos pais&#8217; é só mais um jeito de exaltar quem não faz mais que sua obrigação, de transformar o que seria o mínimo em algo extraordinário. </p>



<p>Hoje, pela primeira vez em anos, um dia dos pais foi leve pra mim; quando se é orfã, o peso da obrigação social de celebrar alguém que não fez questão de fazer parte da sua vila some. Sempre me entristeceu, em algum nível, que eu sentisse tão pouco pelo meu pai; mas faz todo sentido: orfã ou não, a minha família permanece a mesma. Desenvolver sentimentos como os que eu gostaria de sentir por ele, como os que eu sinto pela minha &#8216;pãe&#8217;, demandaria que ele tivesse se proposto a ser família para mim. </p>



<p>No mais, penso que celebrar as pessoas que nos dão apoio e suporte e carinho é essencial. Se o seu pai é uma dessas pessoas, celebrá-lo não demanda uma data; todo e qualquer dia é uma oportunidade.</p>



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<p><strong><strong><strong><strong><strong>Carol Cadinelli</strong>&nbsp;</strong></strong></strong></strong>é jornalista, apaixonada por palavras. Escreve, edita, revisa, traduz e, vez ou outra, fotografa. Atualmente, é editora na Trama. </p>
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		<title>INVISIBILIDADE PRESENTE</title>
		<link>https://revistatrama.artebodoque.com/2021/07/18/invisibilidade-presente/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 18 Jul 2021 21:28:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 100]]></category>
		<category><![CDATA[Carol Cadinelli]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Carol Cadinelli</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>A palavra &#8216;humano&#8217; não apenas designa a nossa espécie na linguagem cotidiana, como também carrega um outro sentido: o de empatia, de compreensão, de respeito. Todas essas coisas partem do princípio de receber o outro &#8211; por falta de uma palavra melhor, &#8220;ver&#8221;. </p>



<p>Respeito, empatia e compreensão não são regras universais na sociedade em que vivemos; ao contrário, frequentemente são recebidos com surpresa. Por uns mais do que por outros, porque, afinal, ainda que nos esforcemos para isso, não somos todos iguais. Muitos de nós ainda somos invisíveis &#8211;  e uns mais do que outros, a ponto de sermos privados de nossos direitos.</p>



<p>Nós, invisíveis, talvez sejamos maioria. Estamos em todos os lugares, mas só somos percebidos por quem realmente se interessa. Somos LGBTs, são pessoas com deficiência, são pessoas em situação de rua, são trabalhadores do seu cotidiano. Somos pessoas que, até outro dia, só serviam para o núcleo de alívio cômico da novela. Somos pessoas cujas histórias só agora começam a ter algum protagonismo. Somos pessoas que ainda se preocupam em tentar não incomodar, tentando assegurar sua própria condição humana: o reconhecimento de sua existência, sua visibilidade.</p>



<p>Para além das questões minoritárias, há também aqueles que não destinam um olhar nem àqueles que dizem amar. Que olham sem ver, olham através das pessoas, olham e veem o que desejam ver. Crianças têm sua humanidade negada por seus pais, preocupados com o trabalho e com todas as coisas; avós que têm sua humanidade negada por seus filhos e netos, que só têm olhos para seus celulares e computadores; amigos, que estão sempre apoiando, mas nunca têm suas necessidades vistas. </p>



<p>Ser humano e viver em sociedade de forma plena implica a necessidade de reconhecimento do outro. Numa conjuntura como a nossa, é inquestionável que o homem, enquanto humano pleno, é um ser futuro. Uma cultura que incentiva comportamentos autocentrados e que designa o olhar humano para o outro enquanto coisa de gente &#8220;da igreja&#8221; (o que já seria, em si, o início de uma outra discussão bem mais profunda), com certeza, contribui para que esse futuro seja bem mais distante do que gostaríamos.</p>



<p>Ainda que cada um de nós tenha suas questões individuais e que seja extremamente necessário escolher suas próprias lutas, se abrir para pensamentos, dores e experiências de outrem é parte importante de tornar a nossa sociedade mais humana e mais justa.</p>



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<p><strong><strong><strong><strong><strong>Carol Cadinelli</strong>&nbsp;</strong></strong></strong></strong>é jornalista, apaixonada por palavras. Escreve, edita, revisa, traduz e, vez ou outra, fotografa. Atualmente, é editora na Trama. </p>
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		<title>POESIA, PRA QUE TE QUERO</title>
		<link>https://revistatrama.artebodoque.com/2021/06/27/poesia-pra-que-te-quero/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 27 Jun 2021 21:30:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 097]]></category>
		<category><![CDATA[Carol Cadinelli]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Carol Cadinelli</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>A palavra &#8220;poesia&#8221;, sozinha, é capaz de gerar calafrios em muita gente, e gente dos mais diversos tipos. Independentemente de idade ou classe social, o conceito popular de poesia é de um texto pretensioso: rimado; carregado de palavras difíceis; e de cunho sentimentaloide. Mesmo quem não detesta, muitas vezes, tem dificuldade de apreciar &#8211; e quem não conhece, só a partir dessa ideia, já desiste de conhecer.</p>



<p>A palavra &#8220;poesia&#8221; também é muito associada a uma noção de transcendência, de inspiração; escrever algo poético, para muitas, só pode ser fruto de experiências extracorpóreas. Mal sabem elas&#8230; (risos)</p>



<p>Associações são associações por uma razão. Não é mentira que existem, sim, poemas sentimentaloides, de linguagem pretensiosa e cuja qualidade é prejudicada pelo apego à forma. Também não é mentira que muitos poetas ainda batem na tecla da inspiração para justificarem suas obras. Mas ainda que esses elementos, em muitos casos, sejam parte da concepção de poesia, penso que não fazem parte do processo da maioria dos poetas e, assim, entendo que são dispensáveis, todos eles.</p>



<p>Como qualquer tipo de arte, a poesia é um estilo de vida, muito mais do que as técnicas e as temáticas; é uma forma de olhar para o mundo, da qual mesmo o pior rimador é capaz de desfrutar. Que motiva a pessoa que olha a adquirir técnicas para expressar o que viu.</p>



<p>Penso a poesia enquanto a luta entre harmonia e caos que está nos olhos de quem vê &#8211; e, portanto, pode estar qualquer lugar, surgir de qualquer momento, se originar em qualquer pessoa, dizer de qualquer tema. </p>



<p>Como qualquer tipo de arte, porém, a poesia também demanda trabalho. Enquanto criação, a linguagem oral e escrita surgiu para servir à humanidade; porém, não raro, faz sua senhora de refém. A arte da poesia está, porém, justamente na manipulação: o indivíduo contra a palavra. Já dizia Drummond:</p>



<pre class="wp-block-verse has-text-align-right">Palavra, palavra<br>(digo exasperado),<br>se me desafias,<br>aceito o combate.</pre>



<p>Dos poetas mais famosos aos mais desconhecidos; das quadrinhas mais simples aos poemas mais elaborados; o trabalho está presente. Se a palavra nos é comum a todos, por sua vez, a tradução da visão em poesia é exercício, é erro, é experimentação; é busca de intimidade com essa palavra, tão cotidiana, tão acessível, que se opõe em valor capitalístico à matéria prima de tantas outras artes, mas que consegue ser tão ou mais desafiadora do que qualquer tinta sobre tela. Eis o peso artístico da poesia, levado pelo poeta como o mundo sobre os ombros de Atlas, lido pela sociedade como pluma que toca o solo.</p>



<p>Essa semana, dedicamos a Trama à poesia, feita para apresentar novos mundos a olhares disponíveis. E que o peso do mundo sobre as costas dos poetas possa ser compartilhado com aqueles que se tocam por suas palavras.</p>



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<p><strong><strong><strong><strong><strong>Carol Cadinelli</strong>&nbsp;</strong></strong></strong></strong>é jornalista, apaixonada por palavras. Escreve, edita, revisa, traduz e, vez ou outra, fotografa. Atualmente, é editora na Trama. </p>
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		<title>ASSUMINDO A PRÓPRIA ESCRITA</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 20 Jun 2021 21:28:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 096]]></category>
		<category><![CDATA[Carol Cadinelli]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Carol Cadinelli</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Todo mundo tem um amigo, um colega, um parente que escreve; ou talvez você, que está lendo isso, seja a &#8220;pessoa que escreve&#8221; dos seus amigos. Poemas, contos, crônicas, até mesmo romances, são escritos diariamente por pessoas ao nosso redor. Muitas delas publicam seus escritos na internet, por meio de revistas como a Trama ou de blogs pessoais; outras apresentam em saraus ou leituras ao público; outras, ainda, chegam a publicá-los como e-books ou livretos de impressão mais simples. Cada uma dessas pessoas que escreve possui inúmeras maneiras de escrever e inúmeras possibilidades de publicar o que escrevem; porém, uma coisa é comum à maioria delas: não são capazes de se chamarem escritoras. Quando questionados se são escritoras, essas pessoas costumam responder: &#8220;ah, eu só escrevo uns poemas/umas histórias&#8221;. Dizem: uma coisa é escrever; outra coisa é ser escritor. Uma coisa é pintar, desenhar; outra, é ser artista. Mas será mesmo? Ora, se a escrita em si não torna alguém um escritor, o que torna?</p>



<p>Por definição, um escritor &#8220;é uma pessoa que utiliza palavras escritas, com várias técnicas e uso de vários estilos, para comunicar ou passar ideias&#8221;. Perceba: essa definição não impõe qualquer limitação. Não é escritor aquele que escreve e publica, por exemplo, ou aquele que escreve e é lido; para ser escritor, basta escrever. Contos, poemas, ensaios, peças, textos jornalísticos, romances, artigos científicos, crônicas&#8230; tudo conta.</p>



<p>O que tenho sentido, cada vez mais, é que esses escritores não se sentem no direito de se chamarem assim, pela carga de status que o termo implica. De certa forma, é como se assumir o título &#8220;escritor&#8221; demandasse alguma comprovação de sucesso perante o outro, que pergunta &#8220;você é escritor mesmo?&#8221;. Pensando com cuidado, porém, definir &#8220;sucesso&#8221; na trajetória de um escritor &#8211; ou de um artista, seja ele de que âmbito for &#8211; é quase impossível. Os medidores desse suposto sucesso são amplamente falhos: quantidade de obras publicadas, número de exemplares vendidos, quantidade e qualidade de críticas sobre o trabalho&#8230; Em muitos casos, essas &#8220;provas&#8221; de sucesso não são passíveis de serem fornecidas nem pelos renomados, agraciados com os serviços editoriais necessários para o registro e publicação de uma obra &#8211; que, façam-se saber: são serviços caros e pouco acessíveis, na maior parte dos casos. Apelo aqui à definição pra reiterar: escritor não é aquele que tem livro publicado; escritor é aquele que escreve. </p>



<p>Me dou a liberdade, aqui, de transpor esse conceito e esses questionamentos para os outros setores da cultura. O que é um pintor senão alguém que utiliza da pintura e de suas técnicas para passar ideias? O que é um desenhista senão alguém que utiliza do desenho e de suas técnicas para passar ideias? O que é um ator senão alguém que utiliza das artes cênicas e de suas técnicas para passar ideias? O que é um músico senão alguém que utiliza da música e de suas técnicas para passar ideias? Ora, nada mais do que isso. É claro: existem escritores e escritores, de todas as modalidades, de todas as técnicas, de todos os temas, de todos os níveis de aprofundamento; mas, dentre eles, não existe um limiar plausível que seja capaz de delimitar a partir de que ponto &#8220;aquele que escreve&#8221; torna-se &#8220;escritor de fato&#8221; &#8211; simplesmente porque aquele que escreve já é, a partir do momento em que escreve, um escritor de fato.</p>



<p>O que é preciso, então, para que cada pessoa se sinta no direito de se chamar de fazedor da própria arte?</p>



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<p><strong><strong><strong><strong><strong>Carol Cadinelli</strong>&nbsp;</strong></strong></strong></strong>é jornalista, apaixonada por palavras. Escreve, edita, revisa, traduz e, vez ou outra, fotografa. Atualmente, é editora na Trama. </p>
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		<title>CONVERSAS COM ELIS REGINA</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 16 May 2021 21:23:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 091]]></category>
		<category><![CDATA[Carol Cadinelli]]></category>
		<category><![CDATA[crônica]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Carol Cadinelli</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Eu não sei vocês, mas a minha cabeça opera de um jeito curioso: nela, vivem o ‘eu’ que faz as coisas e o ‘eu’ que observa o outro ‘eu’ fazendo as coisas. Essa semana, o ‘eu’ observador tem certeza que os vizinhos me acham completamente maluca; me dei conta disso hoje.</p>



<p>Vivendo sozinha, em isolamento social, eu tenho muitas conversas com Elis Regina, minha cachorra. Com ela, falo de mim em terceira pessoa, chamando a mim mesma de ‘mamãe’. Com frequência, pergunto a ela, em alto e bom tom, se ela pegou o carregador do meu celular, ou se ela viu o livro que estou lendo e não consigo encontrar. Falo com voz aguda – o que foi censurado pela treinadora dela; é apenas uma forma de agitar os cães, essa vozinha de bebê. A gente acha que eles estão felizes quando abanam o rabo, mas não é sobre isso, nunca foi; a treinadora me contou isso, também.</p>



<p>Vivendo sozinha, em isolamento social, quis ser uma tutora melhor para minha cachorra, Elis Regina. Fiz um curso de comportamento canino que ajudou muito, e agora Elis Regina dorme na caixa de transporte toda noite. De toda forma, eu ainda dou pedaços de queijo pra ela e deixo a bichinha subir no sofá (ainda cubro a cachorra com o meu cobertor); um pouco de salada, um pouco de droga. Nesse processo, os meus diálogos absurdos com Elis Regina permanecem. Eu explico para ela tudo o que irá acontecer: que ela vai ficar fechada na caixa só um pouquinho e que eu já venho; que ela não pode ficar uivando na varanda porque ela não deve interagir com todo e qualquer estímulo que aparece porque eu não preciso de um cachorro estressado em casa; que pelo amor de Deus, cachorra, você precisa parar de chorar pra eu poder abrir a caixa pra você sair, porque se eu abrir antes de você parar de chorar, você vai entender que chorar funciona pra você conseguir o que quer – e mesmo que funcione, eu não posso deixar você saber disso porque eu PRECISO que você pare com essa coisa de ficar chorando antes que eu enlouqueça de vez.</p>



<p>Os meus vizinhos têm certeza que eu sou doida de pedra. Se eu ouvisse esse tipo de diálogo no apartamento ao lado, acima ou abaixo, também acharia que a pessoa é doida. E talvez eu seja, mesmo, doida. A psicóloga diz que eu sou só Borderline, mas cá entre nós, acho que eu sou doida mesmo. Todo mundo é. E, quem não era, ficou, depois desses 400 dias enfurnados em casa – ou indo à rua, com algum peso na consciência. Mesmo quem sai e encontra outros se sente sozinho. E a solidão não é o motivo primário da loucura? Talvez eu esteja sim, doida. A solidão tem me bagunçado completamente. Mas talvez eu não esteja tão doida assim. E, se estou certa, a culpa é da Elis Regina.</p>



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<p><strong><strong><strong><strong><strong>Carol Cadinelli</strong>&nbsp;</strong></strong></strong></strong>é jornalista, apaixonada por palavras. Escreve, edita, revisa, traduz e, vez ou outra, fotografa. Atualmente, é editora na Trama. </p>
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		<title>Isolamento In&#8217;Verso</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 21 Feb 2021 21:23:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 079]]></category>
		<category><![CDATA[Carol Cadinelli]]></category>
		<category><![CDATA[poema]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Carol Cadinelli</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<pre class="wp-block-verse">Fecham-se as portas da rua,
Abrem-se as janelas da mente.

A gente é obrigada a procurar
Beleza no cotidiano doméstico 
Tentando não surtar
Fora do day-by-day frenético.

Acredite ou não,
Essa beleza não é tão
Difícil de achar.

As janelas são quase o suficiente
Pra instigar a criatividade crua
Aquela tão nua
Que só se vê raramente.

Em vinte dias, eu pensei
Tanta coisa que já nem sei
Mais o que eu queria escrever
Sobre janelas
Sobre vielas
Sobre mazelas;

Mas em vinte dias
Eu descobri vias
Pra perceber
Múltiplas vidas
No meu próprio ser.</pre>



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<p><strong><strong><strong><strong><strong>Carol Cadinelli</strong>&nbsp;</strong></strong></strong></strong>é jornalista, apaixonada por palavras. Escreve, edita, revisa, traduz e, vez ou outra, fotografa. Atualmente, é editora, colunista e repórter na Trama. </p>
</div></div>



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		<title>A Gota D&#8217;água: Um show de Opressões Escancaradas</title>
		<link>https://revistatrama.artebodoque.com/2021/02/07/a-gota-dagua/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 07 Feb 2021 21:30:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 077]]></category>
		<category><![CDATA[BBB 21]]></category>
		<category><![CDATA[Bifobia]]></category>
		<category><![CDATA[Carol Cadinelli]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Opressões]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Carol Cadinelli</p>
<p>O post <a rel="nofollow" href="https://revistatrama.artebodoque.com/2021/02/07/a-gota-dagua/">A Gota D’água: Um show de Opressões Escancaradas</a> apareceu primeiro em <a rel="nofollow" href="https://revistatrama.artebodoque.com">Revista Trama</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Treze dias. Foram necessários apenas treze dias para que a crueldade extrema de um grupo de pessoas fizesse com que um rapaz jovem, preto, bissexual e periférico sucumbisse. </p>



<p>O ambiente de um reality show como o Big Brother, penso, consiste em um microcosmo construído de forma a potencializar os traços que já nos permeiam enquanto sociedade &#8211; as &#8220;tretas&#8221; que dão audiência nada mais são do que os tópicos em voga no momento, exacerbados e pessoalizados ao máximo.</p>



<p>Com um elenco muito mais diverso que os das edições anteriores, fomos inocentes em pensar que a dinâmica interna entre os participantes do programa fosse ser mais &#8220;justa&#8221;, na falta de palavra melhor. Enquanto tivemos a vitória de uma mulher branca racista em 2019, em 2021 temos um elenco composto em quase equilíbrio de brancos e pretos. Participantes assumidamente LGBT+ compunham o chamado &#8220;elenco mais gay&#8221; de toda a história do programa. Treze dias atrás, tudo isso parecia promessa de um ambiente mais consciente; porém, ao mesmo tempo que questões como o racismo, o machismo e a LGBTfobia substituíram as &#8220;tretas&#8221; de cunho narcisístico mais comuns nas edições anteriores, os níveis de crueldade e falta de empatia também chegaram ao seu máximo. O cancelamento e a lacração se tornaram regra em um ambiente de pessoas reais. </p>



<p>Pessoalmente, eu tentei me manter longe das notícias do reality; após uma semana do início da exibição, eu já me sentia saturada. Porém, os ocorridos mais recentes não me deixaram opção senão utilizar do meu espaço de fala &#8211; este texto, nesta revista &#8211; para tentar discutir o show de horrores que vem sendo exibido em rede nacional no horário nobre.</p>



<h4 class="wp-block-heading">O Caso Lucas</h4>



<p>O mote para a existência do presente texto tem nome e sobrenome: Lucas Penteado. Alguém muito diferente de mim; mas, também, muito parecido. Ainda que eu e ele não tivéssemos nada em comum, me indignaria a situação pela qual ele passou no programa; porém, os ataques aos nossos traços em comum (especialmente o da noite passada) tornam o meu silêncio pessoal impossível. Em nossas similaridades, tomo a liberdade de assumir protagonismo; em nossas diferenças, às quais não quero deixar de me endereçar, busco apoio na visão de amigas que as compartilhem com o rapaz (e com outras pessoas presentes no reality) para discorrer.</p>



<p>Lucas é um homem negro e periférico. Isso quer dizer que os quase 24 anos de existência que compartilhamos, em um mesmo território nacional, nos fazem muito pouco próximos. O fato de sermos ambos bissexuais, também, não nos aproxima tanto: homens bis passam por questões diferentes de mulheres bis, e não é como se fosse possível separar a orientação sexual de Lucas de seus outros traços identitários &#8211; sua negritude, sua origem periférica. A bifobia que Lucas sofre acaba por ser, em muitos casos, também racista e também classista, a depender de quem a profere; a análise interseccional, aqui, se faz essencial.</p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong>Bifobia</strong></h4>



<p>Na noite passada, em uma festa, Lucas beijou Gilberto. O primeiro beijo entre dois homens na história do reality; e, talvez, não sabemos, o primeiro beijo de Lucas com um outro homem.</p>



<p>Entender-se enquanto componente da comunidade LGBT+ não é um processo simples para ninguém; e para nós, bissexuais, é ainda menos simples. O principal motivo deve ter ficado bem claro para todes que assistiram à cena prévia à desistência de Lucas, ontem: nem mesmo a própria comunidade LGBT+ nos acolhe no momento de nossa descoberta. O rapaz ouviu de lábios lésbicos que sua expressão de sexualidade era &#8220;estratégia&#8221;.</p>



<p>Se fosse fora do reality, em vez de ser acusado de &#8220;estratégia&#8221;, Lucas provavelmente seria apontado como &#8220;indeciso&#8221;; mas, definitivamente, seria invalidado. Essa é a realidade de todos nós, bissexuais; e enquanto homem preto bissexual, oh Lucas, só lhe cabe o não-lugar.</p>



<p>Em uma outra questão, cabe também mencionar a intolerância com o momento de Lucas. Ora. Quantos de nós, LGBTs, já não tivemos terror das possibilidades, caso nos assumíssemos? Quantos de nós levamos anos e anos para conseguirmos nos compreender desviantes em um sistema de sociedade que impõe a heteronorma como possibilidade única? Qualquer idade é tempo de se descobrir; a sua bissexualidade ser assumida há mais ou menos tempo não interfere no quão válida ela é. Nem diminui a validade da expressão de outro, assumido há menos tempo &#8211; ou mesmo não assumido.</p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong>Violência psicológica</strong></h4>



<p>Enquanto a bifobia foi a gota d&#8217;água final, a violência psicológica já estava ali há bem mais tempo.</p>



<p>Tudo começou assim: Lucas ficou bêbado em uma festa, disse muitas coisas ruins, o que fez com que muita gente dentro da casa se sentisse ofendida. Agiu de forma baixa, ao acusar levianamente outra participante de racismo em situação percebida após como inadequada. Tentou manipular diversos outros participantes a fazerem o jogo dele de forma escancarada, o que irritou muita gente. <em>[talvez o erro dele tenha sido a forma, já que a premissa base do Big Brother é a de que o vencedor é aquele que melhor manipula o clima na casa em favor próprio&#8230; mas isso não vem ao caso, agora.]</em> Pois bem, as pessoas não começaram a desgostar dele de forma gratuita; porém, a partir de erros (nada inocentes, porém erros), instituiu-se um cenário no qual Lucas foi ostracizado. Ele foi impedido de falar; de se sentar à mesa para comer na presença de outras pessoas; de participar de etapas do programa comuns a todos os participantes. Ele foi verbalmente agredido, foi alvo de falas intolerantes ameaçado de agressão física e desrespeitado em sua existência. Ficam os questionamentos: Quantos de nós aguentariam esse tipo de situação, por mais culpa que carregássemos em nós? E, mais ainda: o que toda essa violência sendo veiculada enquanto entretenimento e sendo consumida ostensivamente diz sobre quem nós somos enquanto sociedade? Qual é o valor de uma vida frente aos lucros e ao engajamento? Quando foi que nós começamos a achar esse tipo de coisa aceitável?</p>



<p>A principal agente desse ostracismo foi, talvez, a cantora Karol Conká: mulher, preta e bissexual. Em uma situação clássica de &#8216;seu mestre mandou&#8217;, Conká conseguiu &#8211; ao contrário de Lucas &#8211; fazer com que a maioria dos outros participantes ficassem ao seu lado, apoiando (ou, minimamente, não questionando) seu comportamento abusivo em relação a Lucas. Bem, é decepcionante, para dizer o mínimo, ver que alguém com vivências de opressão tão intensas, com conhecimento de causa sobre a dor de ser oprimida, é capaz de oprimir outra pessoa ao extremo a ponto de chegar a uma situação criminosa; pois, sim, as injúrias que Karol direcionou a Lucas são crimes, sendo transmitidos ao vivo no horário nobre em rede nacional. E frente à permanência da exibição, à falta de ação dos produtores do programa em relação a impedir essas situações, eu me pergunto: onde é que vamos chegar, com tudo isso?<br><br>E me faço essa pergunta novamente, ao pensar em um outro aspecto de tudo isso: se Conká fosse branca&#8230; será que a vida dela fora do programa estaria sofrendo as consequências de suas ações no reality da mesma forma?</p>



<h4 class="wp-block-heading">Racismo</h4>



<p>Bem, o histórico do Big Brother contribui e muito para me fazer acreditar que não. Se Conká fosse branca, muitos de seus contratos cancelados ainda estariam vigorando. Se Lumena fosse branca, suas palavras duras e acusações injustas seriam relevadas com muito mais facilidade. Nenhum de seus erros as perseguiria para além do tempo do programa.</p>



<p>Muitos dos que me leem e que estão indignados com as situações pelas quais Lucas passou irão pensar que Conká, Lumena e aquelas que as apoiaram não são dignas de defesa. E eu concordo; nenhuma agressão ou injustiça se justifica, independente do gênero, da cor, da orientação sexual. Mas penso que cabe a nós, público, percebermos os pesos e medidas diferentes que utilizamos para tratar violências equivalentes, quando cometidas por pessoas pretas ou por pessoas brancas. Em especial se você, como eu, também é branco; porque é bem fácil se justificar nas más ações de pessoas pretas para expressar o racismo que mora em nós, aquele que já não recebe mais esse nome, mas que ainda pesa no julgamento. Se a ideia é não passar pano, é pra não passar pano pra ninguém; inclusive pra nós mesmas, que estamos aqui de fora, cheias de certezas.</p>



<h4 class="wp-block-heading">Outras questões importantes</h4>



<p>O show de horrores que está sendo o Big Brother Brasil 2021 não se resume às questões apontadas até agora, claro. Temos as questões de classe, de território, de educação formal &#8211;  muito bem representadas por Conká (que já direcionou falas problemáticas sobre os trejeitos nordestinos de Juliette, em sendo sulista) e Lumena (que está sempre lá dando carteiradas de que sabe mais que os outros), mas que se estendem a outros participantes como Nego Di, que não perde uma oportunidade de ser ofensivo e já conta com um histórico extenso de falas xenófobas, coloristas e desmoralizadoras.</p>



<p>Todas essas questões precisam ser pensadas e questionadas com urgência. Se o escancaramento de tudo isso em rede nacional serve de algo, é para que a gente tome consciência da sociedade que somos, que estamos construindo através de cada fala e ação individuais. Se estamos todas, todos e todes embasbacadas com o que está acontecendo na TV, é sinal de que não estamos percebendo isso acontecer na vida real &#8211; e acontece, o tempo todo. Mantenho a percepção que apresentei nas minhas considerações iniciais: o Big Brother consiste em um microcosmo construído de forma a potencializar os traços que já nos permeiam enquanto sociedade; e cabe a cada um de nós transformar esses traços.</p>



<p>Pessoalmente, eu prezo para que esse Big Brother sirva de lição a cada um de nós enquanto sujeito social. Cabe a nós, cada um, que o sofrimento público de um jovem preto bissexual periférico em rede nacional não seja em vão. </p>



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<p><em>Meus agradecimentos pessoais às mulheres incríveis que me ajudaram, com suas opiniões e informações, na escrita desse texto: Lorraine Mendes, Lauana Coutinho, Luciana Rodrigues. E à Danielle Rocha, que para além disso, me lembrou da minha obrigação enquanto jornalista e editora em tratar dos acontecidos recentes, ainda que eu estivesse fugindo do Big Brother com o máximo das minhas forças.</em></p>



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<p><strong><strong><strong><strong><strong>Carol Cadinelli</strong>&nbsp;</strong></strong></strong></strong>é jornalista, apaixonada por palavras. Escreve, edita, revisa, traduz e, vez ou outra, fotografa. Atualmente, é editora, colunista e repórter na Trama. </p>
</div></div>



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