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	<title>Arquivos Gabi Guarabyra - Revista Trama</title>
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	<description>Arte, Cultura e Criatividade</description>
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		<title>CANECAS</title>
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		<pubDate>Sun, 18 Jul 2021 21:22:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 100]]></category>
		<category><![CDATA[Criatividade]]></category>
		<category><![CDATA[conto]]></category>
		<category><![CDATA[Gabi Guarabyra]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Gabi Guarabyra</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Quantos futuros você já viveu?&nbsp;</p>



<p>Constantemente me pergunto quantas vidas eu poderia ter vivido com uma escolha diferente, um passo, um caminho. O que mais me assusta é tudo que não depende de mim. Se aquele carro estivesse um pouco mais rápido, teria me acertado? Se aquela mensagem não tivesse chegado, eu teria saído de casa? Se eu pudesse dizer tudo o que eu queria dizer, ela ainda estaria aqui?&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Alguns dias são dias invisíveis. Se você ainda não sabe o que é isso, eu vou te explicar. Um dia invisível é aquele em que tudo que fazemos parece sempre a alguns momentos de distância. Em uma conversa de bar, um grande amigo me disse que nós nunca estamos no presente, nosso cérebro demora alguns milissegundos para processar informações, o que significa que vivemos eternamente atrasados. É claro, talvez isso seja só um papo de bêbado e não faça sentido nenhum. Hoje foi um dia invisível. Nas últimas semanas, eles apareceram com mais frequência do que antes. Geralmente já dá pra saber como vai ser o dia assim que abro os meus olhos e não há muito que eu possa fazer para mudar o curso. Nem todo dia invisível é ruim; estou aprendendo a gostar mais deles.&nbsp;</p>



<p>Acordei às 6h37, como de costume. Não tenho alarme, mas meu relógio biológico funciona bem. Recebi uma mensagem de uma velha amiga, ela queria me encontrar para fechar negócios sobre uma caneca que ela está vendendo. Você coleciona alguma coisa? Eu coleciono canecas. No total, possuo oitenta e sete delas. Os mais diversos tamanhos, formas, estampas e materiais. Não sou o tipo de colecionador que fica olhando para o meu acervo, faço questão de usar todas elas, com um rodízio muito bem calculado. Gostaria muito de ser uma pessoa organizada, com estantes dispostas por cor ou tamanho, mas se você entrar em qualquer cômodo do apartamento provavelmente vai se deparar com pelo menos quinze canecas espalhadas, a maioria com um saquinho de chá pendurado. O chão, as paredes, os móveis, tudo tem tons terrosos e cinzas que dão a impressão que o ambiente está sempre ligeiramente sujo e os móveis rasgados. Talvez estejam mesmo, eu não presto muita atenção nisso.&nbsp;</p>



<p>Marcamos um encontro em uma livraria perto da casa dela. Para chegar lá, pego um metrô e ando por mais quinze minutos. Gosto de caminhar pela cidade, olho para as pessoas e me pergunto se elas se sentem visíveis. Seria bom se todo mundo soubesse se sentisse importante. Não importante demais para esquecer de olhar para os lados, mas importante o suficiente para se sentir bem-vindo no mundo.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>De longe, já conseguia avistar a entrada colorida da livraria; só precisava atravessar a rua. Nesse ponto, preciso fazer uma observação. Sim, eu fui desatento, e com certeza, eu dei sorte. O sinal ainda estava aberto para os carros, mas o&nbsp;pálio prata&nbsp;estava consideravelmente longe e a rua era curta. Três passos no asfalto, me desequilibro em uma fresta e caio no chão. Sem querer parecer dramático, mas você já percebeu como o mundo desacelera quando estamos caindo? O sinal fechou. O carro parou com poucos centímetros de sobra entre nós dois, e pude ver com clareza a expressão de descontentamento da motorista. Me desculpei com pensamentos e um balanço de cabeça.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Finalmente, lá estava eu, um pouco atrasado e com as roupas amassadas, mas estava lá. A livraria era espaçosa e tinha um cheiro de papel novo e desinfetante de pinho.&nbsp; Nos fundos, um pequeno espaço com mesas, poltronas e uma bancada que vendia café. Ela estava com um embrulho, um biscoito e uma garrafa de água com gás em cima da mesa. Não sorriu quando me viu; apenas esperou que eu me aproximasse e tomasse o lugar a sua frente. Eu posso ter esquecido de mencionar que nós namoramos por doze anos, e a caneca em questão já era minha, mas desapareceu três dias depois do término. Eu nunca quis acusá-la de nada, e acredito que isso a tenha deixado ainda mais irritada, pois era exatamente a sua intenção.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Olhando para seus cabelos perfeitamente cacheados, tive alguma dificuldade em lembrar o motivo de tê-la deixado. Isso não importa agora, principalmente hoje, um dia invisível. Eu não costumo me lembrar de muitos detalhes desses dias. Fico tranquilo em saber que tivemos uma conversa cheia de lágrimas, sentimentalismos e saudade, e eu vou acordar amanhã lembrando vagamente de algumas frases, talvez da mancha de água sanitária na gola de sua blusa, e do pálio prata. Ela percebeu meu desconforto enquanto eu pegava a minha carteira para pagar o resgate pelo item sequestrado e ri, fazendo sinal para que eu a guarde. “Você leva tudo a sério demais”, ela diz. É difícil parar de imaginar uma vida com alguém que te conhece tão bem.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Eu ainda acredito no futuro. É verdade que pensar sobre o futuro é, essencialmente, pensar no passado. Em alguns dias, eu tenho medo de repetir o passado; em outros, eu o desejo mais do que qualquer coisa na minha vida. Eu preciso entender que nunca mais vou ter dezesseis anos. Preciso entender que estou mais próximo dos quarenta do que dos dezoito. Isso não um problema, é só uma verdade.&nbsp;</p>



<p>Resolvo voltar o caminho inteiro andando, uma caminhada de cinquenta minutos. Talvez as pessoas ainda não estejam preparadas para viver dias visíveis. É melhor esperar pelo amanhã.&nbsp;</p>



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<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:22% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/b2357-gabi-guarabyra.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-14590 size-full" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p><strong><strong><strong><strong><strong><strong>Gabi Guarabyra&nbsp;</strong></strong></strong></strong></strong></strong>é atriz, diretora, dramaturga e professora. É pós-graduanda em Gênero e Sexualidade pela FACED-UFJF e compartilha frentes de trabalho teatral no&nbsp;<a href="https://www.instagram.com/coletivofemininojf/">Coletivo Feminino</a>&nbsp;e no&nbsp;<a href="https://www.instagram.com/nucleoprisma/">Núcleo Prisma</a>.</p>
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		<title>PAPEL</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 04 Jul 2021 21:21:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 098]]></category>
		<category><![CDATA[Criatividade]]></category>
		<category><![CDATA[conto]]></category>
		<category><![CDATA[Gabi Guarabyra]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Gabi Guarabyra</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>O primeiro origami que eu aprendi a fazer foi um barquinho de papel. Eu devia ter os meus cinco anos de idade, e fiquei completamente fascinada pela ideia de fazer papel flutuar. Em qualquer oportunidade que surgia, eu me pegava produzindo mais e mais barcos, principalmente depois de tempestades que deixavam poças nas ruas do centro da cidade. É claro que eu não tinha consciência que aqueles barcos estavam poluindo as ruas ou caindo em bocas de lobo, na minha cabeça eu estava deixando o mundo mais divertido.&nbsp;</p>



<p>Com o tempo, passei a colocar pequenos bonecos de papel dentro dos barcos. Depois, objetos leves. Gostava de testar a resistência, saber quanto peso aquela pequena aventura podia suportar. Comecei a testar diferentes tipos de papel, diferentes cores, até diferentes modelos de dobraduras. Eu aprendi outras coisas também. Um tsuru, um coração, um golfinho, um sapo que pula, uma arara. Nenhuma dessas coisas me fazia sentir tão aventureiro quanto meus barcos. É muito fácil fazer um barco flutuar em água parada, a tarefa só fica complicada quando a água se agita.&nbsp;</p>



<p>Aos 15 anos, eu resolvi começar a fazer diários. Escrevia todos os dias, desde os pensamentos mais bobos às aflições mais sinceras. Preenchia páginas com tinta preta e vermelha, escrevia tão rápido que minhas mãos tinham dificuldade de acompanhar meu raciocínio, o que muitas vezes resultava em letras emboladas e grafias erradas. Em uma manhã de quarta feira, meu caderno escorregou do bolso externo da minha mochila e caiu no meio fio, no meio de uma enorme poça de água suja formada pela chuva da noite anterior. Meu diário não era um barco, ele não flutuou. Observei enquanto meus pensamentos derretiam das páginas, a água com cheiro de asfalto escorrendo tanto quanto a água salgada no meu rosto.</p>



<p>Naquele dia, transformei todas as páginas que sobreviveram em barcos, fiz da piscina da escola um mar aberto, simulei ondas, deixei que todos afundassem. Quase que no mesmo instante, começou a chover. Um barco de papel ainda é de papel, não importa o quanto você queira que ele se torne impermeável.</p>



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<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:22% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/b2357-gabi-guarabyra.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-14590 size-full" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p><strong><strong><strong><strong><strong><strong>Gabi Guarabyra&nbsp;</strong></strong></strong></strong></strong></strong>é atriz, diretora, dramaturga e professora. É pós-graduanda em Gênero e Sexualidade pela FACED-UFJF e compartilha frentes de trabalho teatral no&nbsp;<a href="https://www.instagram.com/coletivofemininojf/">Coletivo Feminino</a>&nbsp;e no&nbsp;<a href="https://www.instagram.com/nucleoprisma/">Núcleo Prisma</a>.</p>
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		<title>CASA</title>
		<link>https://revistatrama.artebodoque.com/2021/06/20/casa/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 20 Jun 2021 21:21:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 096]]></category>
		<category><![CDATA[conto]]></category>
		<category><![CDATA[Gabi Guarabyra]]></category>
		<category><![CDATA[LGBT]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Gabi Guarabyra</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Mês passado, comecei a estudar neurociência. Me lembrava vagamente de alguns conceitos que aprendi no ensino médio como dendritos, bainha de mielina, terminal axônico e sinapses. Me lembrava, também, das partes do encéfalo e de suas respectivas funções básicas, mas meus conhecimentos biológicos não me levaram mais longe do que isso. Entre livros e entrevistas, uma fala do neurocientista Ivan Izquierdo me saltou aos olhos: <strong>Somos aquilo que decidimos esquecer.</strong> Gostaria de dizer que todas as coisas que eu quis esquecer foram, de fato, esquecidas, mas não seria verdade. Talvez querer e decidir sejam coisas diferentes.</p>



<p>Ela foi embora em uma manhã quente de domingo, daquelas em que o céu está todo azul e acordamos levemente desconfortáveis com o clima abafado do quarto fechado. Lavínia sempre acordava depois das onze, mas quando abri os olhos às sete e quarenta e cinco, ela estava sentada do outro lado da cama com o celular na mão e fones de ouvido. Ela não me viu. Por alguns minutos, cogitei voltar a dormir, ou até mesmo fingir que ainda estava dormindo; mas naquele momento, isso parecia errado. Quando ela finalmente olhou pra mim, eu não recebi um sorriso, muito menos um bom dia. Naquela fração de segundo, o encontro de seus olhos verdes nos meus me disseram com clareza que aquele era o nosso ponto final.</p>



<p>Por experiência pessoal, términos são constituídos de alguns momentos chave: &#8220;Precisamos conversar&#8221;; &#8220;as coisas estão difíceis&#8221;; &#8220;não é você, sou eu&#8221;; &#8220;vamos ser amigas&#8221;. Por mais especial que Lavínia seja &#8211; e acredite, ela é -, ela não resistiu ao impulso de reproduzir aquela receita também. Eu ouvi cada palavra, mas não levantei a voz contra nenhuma delas. Eu não concordava com nada que estava sendo dito, mas era claro para mim que de nada valia insistir. Eu não queria ter que convencer ninguém a me amar.&nbsp;</p>



<p>Outra coisa sobre a memória é que ela é dividida em alguns tipos. Entre os principais, estão a memória de curto prazo, longo prazo e sensorial. A memória de curto prazo pode guardar informações por segundos, minutos, ou até horas; essas informações não costumam ser muito úteis, então o nosso cérebro abre espaço para outras coisas. Nesse momento, gostaria de mover todo o meu arquivo interno sobre amor para a memória de curto prazo, e assistir enquanto meu corpo deixa tudo ir embora pelas próximas horas.&nbsp;</p>



<p>A primeira vez que a vi, ela estava de mãos dadas com outra pessoa. As duas pareciam felizes, aquele tipo de casal que se vê em capas de revista de jardinagem e propagandas de sabão em pó; mesmo assim, algumas semanas depois, elas estavam separadas. Acho graça do pensamento de que, possivelmente, quem olhava para nós duas também tinha a mesma sensação de propaganda de sabão em pó.&nbsp;</p>



<p>Quando fiquei sabendo que ela estava solteira, o universo não demorou para nos colocar na mesma sala mais uma vez, agora levemente alcoolizadas. Me lembro do cheiro do perfume que ela usava naquela noite, e de como sua boca encaixava na minha como nenhuma outra. Naquele dia, cheguei em casa e não pensei nela. Na verdade, não pensei nela pelas próximas semanas, até uma notificação no celular de um número desconhecido. Se tem uma coisa toda nessa história que minha memória me fez esquecer foi ter dado meu número de telefone para ela, mas que bom que o fiz.</p>



<p>Revirando meus cadernos, me deparo com uma lista de coisas que prometemos fazer juntas, algumas marcadas, a maioria não. No mesmo caderno, rascunhos dos poemas que escrevi para ela, muitos que ela nem chegou a ler. Em uma conversa casual na mesa da sala, uma amiga minha uma vez me disse que as pessoas dedicam muito do tempo delas para mim. Não posso negar, já ouvi algumas músicas e li alguns textos que pessoas escreveram para mim, cada um com um objetivo diferente. Escrever, pensar, produzir, essas coisas levam tempo, mas principalmente levam sentimento. O que minha amiga não sabia era o quanto eu me dedicava primeiro.</p>



<p>Esperei receber uma mensagem de texto de Lavínia naquela noite, semana, mês. As suas justificativas começaram a fazer cada vez menos sentido na minha cabeça. Eu poderia ter pedido para que ela ficasse. Eu poderia ter argumentado de volta. Eu poderia ter criado mil e uma soluções para toda a lista de desafios que ela trouxe. O problema é que ela não queria uma solução; ela queria sua liberdade. Liberdade essa que sempre fiz questão de dar, deixar as portas e janelas abertas, retirar as cobranças do nosso vocabulário pessoal, e mesmo assim não foi o suficiente. Talvez todas aquelas conversas sobre individualidade e espaço tenham ido para a memória de curto prazo de Lavínia.</p>



<p>Somos responsáveis por armazenar o que julgamos importante, assim não cometemos os mesmos erros mais de uma vez. Enquanto sociedade, percebo que falhamos nessa missão de lembrar de nossos erros passados e construir a partir deles. Algumas pessoas não estão interessadas em construir, muito menos em conjunto. Eu estou parada na frente de uma pilha de tijolos e cacos de vidro onde minha casa costumava estar, mas não esqueço de tudo que fez com que ela ficasse de pé um dia. <strong>Sou feita daquilo que decidi lembrar.</strong></p>



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<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:22% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/b2357-gabi-guarabyra.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-14590 size-full" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p><strong><strong><strong><strong><strong><strong>Gabi Guarabyra&nbsp;</strong></strong></strong></strong></strong></strong>é atriz, diretora, dramaturga e professora. É pós-graduanda em Gênero e Sexualidade pela FACED-UFJF e compartilha frentes de trabalho teatral no&nbsp;<a href="https://www.instagram.com/coletivofemininojf/">Coletivo Feminino</a>&nbsp;e no&nbsp;<a href="https://www.instagram.com/nucleoprisma/">Núcleo Prisma</a>.</p>
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		<title>TETRIS</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 06 Jun 2021 21:22:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 094]]></category>
		<category><![CDATA[conto]]></category>
		<category><![CDATA[Gabi Guarabyra]]></category>
		<category><![CDATA[LGBT]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Gabi Guarabyra</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Nunca fui um grande exemplo de organização. Me lembro de ter 8 anos e ir visitar minhas amigas e perceber que todos os quartos eram sempre mais arrumados que os meus. Os brinquedos sempre impecáveis na estante, os cadernos empilhados em ordem de uso. Na adolescência, meu namorado organizava os livos pela cor da capa, criando um perfeito degradê na estante. Sempre me culpei por minha falta de ordem, tentava me justificar dizendo que podia gastar o meu tempo de formas melhores do que jogando tetris na vida real com todos os meus pertences.</p>



<p>Para que eu pudesse ter o mínimo de ordem nas minhas coisas, desenvolvi uma técnica que me ajudava a manter as coisas relativamente no lugar. Eu comecei a tirar todas as minhas coisas do lugar de uma vez. Jogava pelo chão, colocava em lugares inconvenientes. Assim, me sentia tão incomodada que era impossível adiar a tarefa.</p>



<p>Passei a aplicar a regra para outras situações da minha vida. Quando precisava ter uma conversa que gostaria de evitar com alguém, fazia uma tempestade nos ouvidos do meu receptor até que o assunto se tornasse inevitável. Apagava parágrafos e mais parágrafos de escritos para que minhas mãos finalmente pousassem no teclado movidas pela pressão do prazo de entrega. Dizem que nosso cérebro é moldável. Eu condicionei minha mente a esperar tudo sair do lugar antes de conseguir foco para acertar as pontas soltas. O problema disso é que agora só consigo respirar fundo quando meus pulmões já estão ardendo pela falta de ar.</p>



<p>&nbsp;Estou sentada no chão de madeira olhando para minha velha estante que tenho desde a infância. Ela tem coisas demais, coisas que com certeza não preciso mais. Suas prateleiras estão tortas, como se pudessem ceder a qualquer momento. Dezenas de livros, apostilas e revistas acumulam poeira em cada um de seus seis andares. Ela ainda não está bagunçada o suficiente. Penso em retirar todos os seus itens e jogar no chão, na cama, cadeira, talvez até mesmo pela janela. Talvez assim eu consiga colocar tudo de volta no lugar, de volta para o meu pequeno jogo particular de tetris.&nbsp;</p>



<p>É preciso desabar para reconstruir.</p>



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<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:22% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/b2357-gabi-guarabyra.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-14590 size-full" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p><strong><strong><strong><strong><strong><strong>Gabi Guarabyra&nbsp;</strong></strong></strong></strong></strong></strong>é atriz, diretora, dramaturga e professora. É pós-graduanda em Gênero e Sexualidade pela FACED-UFJF e compartilha frentes de trabalho teatral no&nbsp;<a href="https://www.instagram.com/coletivofemininojf/">Coletivo Feminino</a>&nbsp;e no&nbsp;<a href="https://www.instagram.com/nucleoprisma/">Núcleo Prisma</a>.</p>
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		<title>Lado Vazio</title>
		<link>https://revistatrama.artebodoque.com/2021/03/14/lado-vazio/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 14 Mar 2021 21:23:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 082]]></category>
		<category><![CDATA[conto]]></category>
		<category><![CDATA[Gabi Guarabyra]]></category>
		<category><![CDATA[LGBT]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Gabi Guarabyra</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Qual é a forma mais poética de marcar a passagem do tempo?</p>



<p>Por muito tempo, li livros marcando pelas estações do ano, principalmente primaveras; ultimamente, parece que as flores saíram da tendência principal. Já ouvi também o tempo sendo marcado pelas chuvas ou raios de sol. Nada disso me parece tão bonito assim hoje. Vamos começar pelo começo, onde acredito que seja, de fato, o melhor lugar. Recolho minhas figuras de linguagem, respiro fundo e, assim, estamos finalmente no lugar certo.</p>



<p>Maio. Maio de 2018, para ser mais exato. O quinto mês do nosso calendário, relacionado ao romance, casamentos e belos pôres do sol. Nem sempre nós nos rendemos aos clichês.</p>



<p>Naquele mês, eu estava preparado para mais trinta e um dias de monotonia. Logo no início da segunda quinzena, porém, nossos olhos se encontraram pela primeira vez. Eu sentado em um banco de praça com um saco de pipoca doce na mão, ele passeando com seu cachorro &#8211; uma chow chow, fêmea, branca, com nariz empinado. A estratégia número um de flerte é conversar com o cachorro, certo? Certo.&nbsp;</p>



<p>Respiro fundo, um passo firme de cada vez, caminho até ele. “Oi, meu nome é Sávio, adorei seu cachorro.” Não, isso é um péssimo jeito de começar. “Oi, a cachorrinha tem telefone?” Ainda pior. Passei tanto tempo buscando as palavras certas para iniciar aquela interação que, quando levanto os olhos, ele já não está lá. Suspiro em frustração e volto para o meu universo no banco cinza com pipoca doce.</p>



<p>Por muito tempo, nada mais aconteceu. Gostaria muito que, nesse momento da narrativa, eu pudesse contar um reencontro espetacular e romântico, ou até mesmo um evento em que ele batesse na minha porta do nada com a chow chow na coleira e uma caixa de chocolates na outra. Infelizmente, isso não é um filme adolescente da Netflix (por mais que eu queira que seja).&nbsp;</p>



<p>O nome dele é Cássio, e aquele homem tem os olhos mais bonitos que eu já vi em toda minha vida. Um olhar cheio de determinação, quase como uma dose instantânea de cafeína. Meu reencontro com Cássio só aconteceu quatro meses depois, na mesma praça, onde ele, novamente, passeava com sua companheira. Naquele dia, eu fui até ele sem pensar, esperando que o universo pudesse me presentear com as palavras certas quando o momento chegasse. Hoje eu sei que o universo não é assim tão generoso com ninguém. Olhei fundo naqueles olhos e me senti um adolescente, consegui imaginar uma vida inteira ao lado daquele homem antes mesmo de perguntar seu nome.&nbsp;</p>



<p>Percebendo meu olhar congelado, ele se apresenta sem jeito. Cássio, e sua chow chow branca Maria. Com a voz trêmula também me apresento, preparado para o futuro que teríamos juntos a partir daquele momento. Sorrimos sem graça por um instante, e ele me convida para caminhar ao seu lado enquanto termina o passeio com Maria, que ignora completamente a minha presença e segue cheirando a calçada e procurando folhas para brincar.</p>



<p>Temos muitas coisas em comum. Nós dois praticamos luta: ele, karatê; eu, boxe. Nós dois somos engenheiros: ele, civil; eu, elétrico. Nós dois tocamos instrumentos: ele, bateria; eu, violino. Sempre alguma coisa em comum, nunca o suficiente para que a conversa dure muito tempo. E assim, nossa dança continua, ambos buscando o interesse do outro, mas falhando por pouco. Nossa conexão parecia um pouco jogo de montar, mas empilhávamos peças do jeito errado e algum lado sempre ficava vazio.</p>



<p>Penso muito sobre o Cássio não por paixão, mas por frustração. Sempre desisti muito fácil das coisas, e consequentemente das pessoas da minha vida, também. Sinto que desperdicei tempo demais criando uma história dentro da minha cabeça e não consegui concretizar o que poderia ter sido bonito na nossa relação.</p>



<p>Particularmente, nunca fui o maior fã de fogos de artifício: o barulho alto me incomoda, o cheiro de pólvora e toda a fumaça me causam um certo pânico, mas não posso deixar de pensar em como meu primeiro beijo me trouxe a sensação de fogos de artifício na boca do estômago. Não do tipo barulhento, somente a imagem gloriosa de luz colorida voando pelos céus.&nbsp;</p>



<p>Esse beijo, o de fogos de artifício, aconteceu quando eu estava nos meus 14 anos de idade. Desde então, busco alguém que possa me trazer essa sensação, essa empolgação. Talvez, eu tenha vivido o auge cedo demais. Ou talvez eu tenha me conformado com tão pouco que até hoje não saiba medir a felicidade. Estamos novamente em maio, mas agora já se passaram 5 anos do encontro na pracinha, da pipoca doce, do olhar de cafeína. Eu sei que Cássio gosta da padaria da esquina debaixo, e sei que agora adotou um outro cachorro, três vezes menor do que Maria, que lhes acompanha nas aventuras pela cidade. Nos cumprimentamos com leves acenos de cabeça e meios sorrisos que representam o que poderia ter sido, mas nunca foi.</p>



<p>Nesses últimos anos, aprendi a tocar bateria e experimentei o karatê por alguns meses. Tentativas de preencher o tal lado vazio. Nunca tive coragem de contar nada disso para ele; então, guardo dentro de mim a tentativa fracassada de compreender aquele outro universo. Que triste é perceber que meu próprio universo não me basta para me sentir completo.</p>



<p>Em dois meses, vou me mudar. Fui transferido pela empresa em que trabalho. Não sinto a empolgação que gostaria de sentir; espero que isso mude quando pisar em meu novo fuso horário. Espero que, lá, me encontre com um novo Cássio e sua Maria, mas com um pouco mais de violino.</p>



<p>Até lá, sento na sala, encarando o lado vazio do sofá que logo será doado para uma nova família. Qual a forma mais poética de falar sobre o meu sofá?</p>



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<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:22% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/b2357-gabi-guarabyra.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-14590 size-full" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p><strong><strong><strong><strong><strong><strong>Gabi Guarabyra&nbsp;</strong></strong></strong></strong></strong></strong>é atriz, diretora, dramaturga e professora. É pós-graduanda em Gênero e Sexualidade pela FACED-UFJF e compartilha frentes de trabalho teatral no&nbsp;<a href="https://www.instagram.com/coletivofemininojf/">Coletivo Feminino</a>&nbsp;e no&nbsp;<a href="https://www.instagram.com/nucleoprisma/">Núcleo Prisma</a>.</p>
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		<title>Espera</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 29 Nov 2020 21:23:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 073]]></category>
		<category><![CDATA[amizade]]></category>
		<category><![CDATA[conto]]></category>
		<category><![CDATA[Gabi Guarabyra]]></category>
		<category><![CDATA[Mapa]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Gabi Guarabyra</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Cenário: Estou sentada no chão da varanda do meu apartamento. Não é uma varanda de filme conceitual, é uma daquelas com piso quebrado e que na verdade só cabe uma pessoa e um vaso de plantas; não tem espaço pra redes nem pra compartilhar a melancolia com ninguém. Estou esperando há algumas horas; eu tinha certeza que ela ia aparecer hoje. Acordei cedo, fiz exercício físico, meditação, comi frutas, fui produtiva no trabalho. A situação é completamente favorável para que ela apareça. Só preciso esperar.</p>



<p>Existe toda aquela história que o tempo passa mais rápido se estamos ocupados. Uma amiga minha no jardim de infância uma vez me disse que relógios são como bonecos do Toy Story: só se mexem se você estiver olhando para o outro lado. Olhando pra trás, é uma perspectiva estranhamente poética para uma criança de cinco anos. Possivelmente, não foram essas as palavras que ela usou. Possivelmente, eu inventei isso em algum ponto da minha linha do tempo, e esse acontecimento imaginário virou fato registrado na minha memória.</p>



<p>Já parou pra pensar quantas das suas memórias são realmente memórias?</p>



<p>Da última vez que ela me visitou, eu tive uma sensação estranha de que ela ficaria pra sempre. É normal; acho que todo mundo tem sensações eternas, às vezes. Espera, deixa eu reformular. Eu tenho essa mania de achar que eu penso como todo mundo, e todo mundo pensa como eu &#8211; como se eu pudesse justificar minhas falhas dentro de um plano maior, um esquema mundial de pensamentos em sequência; mas não. Ao mesmo tempo, também não quero assumir que sou única no mundo.</p>



<p>Às vezes, ela vem e fica alguns dias. Às vezes, algumas horas. Ultimamente, ela tem ficado apenas por alguns minutos. Eu peço pra ela ficar. Ela diz que vai, mas que volta em breve &#8211; um dia desses, quando eu menos esperar. Aqui estou eu, sempre esperando. Se eu abrir mão, o que será que acontece?</p>



<p>Vou ler um livro. Três páginas e estou entediada. Lembro de quando tinha 15 anos e conseguia tranquilamente ler 400 páginas em uma única tarde. Ela vinha mais, naquela época. A gente tem brigado muito nos últimos anos; talvez por isso ela esteja um pouco cansada de me visitar. Meus amigos me dizem que eu não gosto de verdade dela, e que preciso ser mais aberta; que meu comportamento afasta ela todas as vezes que estamos quase construindo alguma coisa de verdade. Pode ser. Mesmo assim, ela volta. Um pouco de cada vez. Sem promessas. Mas volta.</p>



<p class="has-text-align-right"><em>Esperando a felicidade</em>.</p>



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<p><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong>Gabi Guarabyra </strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong>é atriz, diretora, dramaturga e professora. É pós-graduanda em Gênero e Sexualidade pela FACED-UFJF e compartilha frentes de trabalho teatral no <a href="https://www.instagram.com/coletivofemininojf/">Coletivo Feminino</a> e no <a href="https://www.instagram.com/nucleoprisma/">Núcleo Prisma</a>. </p>



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<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-large-font-size">Galeria: artistas para seguir na quarentena</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.instagram.com/iambrendamarques/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2020/11/f19bc-begaleria8-1.png?w=950" alt="" class="wp-image-10819" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-medium-font-size"><em>Apoie pautas identitárias. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>
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		<title>Voluntário</title>
		<link>https://revistatrama.artebodoque.com/2020/10/18/voluntario/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 18 Oct 2020 21:22:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 067]]></category>
		<category><![CDATA[amizade]]></category>
		<category><![CDATA[conto]]></category>
		<category><![CDATA[Gabi Guarabyra]]></category>
		<category><![CDATA[Mapa]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://atomic-temporary-162935141.wpcomstaging.com/?p=12429</guid>

					<description><![CDATA[<p>por:  Gabi Guarabyra</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Fábio está sozinho em uma parte afastada da casa com seu frasco de remédios em<br>tons pastéis na mão. Teoricamente aqui deveria ser o jardim, mas nada naquele ambiente frio remete ao esperado de um jardim de verdade. Um verde estranho e luminescente cobre tudo ao redor, deixando a atmosfera um tanto artificial. Ele toma um comprimido. </p>



<p>Apesar disso tudo, ainda era melhor estar aqui do que estar em casa. Aqui, as coisas não faziam muito sentido, mas pelo menos a permanência era uma escolha, e não uma imposição. Aqui ele seria capaz de esquecer, deixar o mundo para trás, se perder para se encontrar novamente. Pelo menos, ele acreditava. Alguma coisa estava estranha ultimamente, a sensação constante e inexplicável de que ele precisava sair dali crescia a cada dia.</p>



<p>&#8211; Ei, você está ouvindo isso? &#8211; a voz de Número 2 subitamente faz com que Fábio<br>volte de seus devaneios. Ela sempre falava com um tom macio e convidativo, como quem está constantemente tentando te convencer de alguma coisa. </p>



<p>Desde que Fábio chegou, teve poucos atritos com Número 2. Ela era jovem, devia ter a mesma idade dele. Fábio nunca perguntou seu nome de verdade; por aqui, ela era apenas um número, como todos os outros. Ele era o único que ainda fazia questão de ser chamado pelo nome de origem.</p>



<p>&#8211; Estou ouvindo. Os passarinhos estão cantando. São 11 horas, eles sempre cantam<br>exatamente às 11 horas. &#8211; respondeu. &#8211; É o único som bonito por aqui. </p>



<p>Com isso, Fábio sente o movimento brusco de Número 2 levantando ao seu lado.</p>



<p>&#8211; Isso não é verdade! Gosto do som dos talheres na hora do almoço. &#8211; Ela diz quase<br>ofendida, como se ele tivesse cometido uma grande ofensa ao não exaltar o som da prata batendo na porcelana todas as tardes.</p>



<p>&#8211; Ora, do jantar não? &#8211; Ele questiona, com um fundo de ironia na fala.</p>



<p>&#8211; Claro que não. O jantar aqui sempre é sopa, eu detesto sopa. &#8211; ela levanta a voz &#8211; Aliás, gosto menos ainda do barulho das pessoas comendo sopa. Sabe do que eu estou<br>falando? Além das colheres serem substancialmente mais irritantes do que os garfos, as<br>pessoas parecem que não conseguem colocar uma porção de sopa na boca sem reproduzir os barulhos mais irritantes captados pelo ouvido humano.</p>



<p>Depois dessa declaração profunda e complexa, os dois caem em silêncio. Ele repara<br>que não se lembra que dia é hoje. Aqui, uma das coisas mais importantes é se manter<br>atento ao tempo. É a única coisa capaz de firmar os moradores na realidade, fazê-los recordar alguma coisa familiar com a vida comum que levavam antes de cruzar estas<br>portas. Domingo? Quarta? Era difícil lembrar. Se perguntou se valeria a pena perguntar<br>para Número 2, mas ela nunca o respondia. Ela dizia que não fazia diferença em que dia<br>estávamos &#8211; o que era um completo absurdo, pois as quartas feiras eram dias sagrados por aqui. Vez ou outra, ele perdia uma quarta; quando isso acontecia passava todos os minutos seguintes até a próxima quarta concentrado no tempo. Toda quarta feira, eles vêm.</p>



<p>Fábio nunca tinha visto de fato a presença dos tais homens de sorriso largo, mas<br>ouviu diversas histórias. Eles, os homens simpáticos e arrumados, inteligentes e gentis,<br>vinham todas as quartas e escolhiam quem poderia sair naquela semana. Alguns até saem para sempre. Fábio tinha sede de mundo, vontade de experimentar o diferente. Já não lembrava mais da sensação de estar no sol, caminhar pelas ruas ou dar um abraço. Não se lembrava muito bem de sua casa, mas sabia que não queria voltar para lá. Se não estava satisfeito antes e está começando a se perder por aqui, para onde mais poderia ir?</p>



<p>&#8211; Que dia é hoje? &#8211; Ele desiste de cerimônias e pergunta, já esperando uma resposta<br>evasiva.</p>



<p>&#8211; Quarta. </p>



<p>Ele se surpreende duplamente. Primeiro, pela resposta direta e honesta.<br>Segundo, era hoje.</p>



<p>&#8211; Preciso me arrumar. </p>



<p>Antes que pudesse se mover, ela puxa seu braço com força.</p>



<p>&#8211; Não. Fica aqui. Você nem sabe de verdade pra que você tá se arrumando. Fica<br>aqui comigo. Você gosta de passar tempo comigo, não gosta? Então. E se você for embora e eu ficar aqui sozinha?</p>



<p>&#8211; Aí você vai ficar feliz por mim, mas triste de me ver ir.</p>



<p>&#8211; Eu quero ficar com você. Se você não se arrumar, se você não for… aí você vai<br>estar escolhendo ficar aqui comigo. &#8211; A voz dela trazia uma angústia. Era quase possível<br>sentir na pele os pedidos de Número 2.</p>



<p>&#8211; Eu vou, com ou sem você. &#8211; Se manteve firme, peito estufado, queixo empinado.</p>



<p>Seu físico não combinava nem um pouco com seus pensamentos naquele momento. Uma insegurança começava a inundar seu corpo e sua mente. O que tem de tão ruim lá fora?</p>



<p>Será que ela ainda se lembra? Não ousaria perguntar. Respira fundo e alcança seu frasco<br>de remédios. Toma mais um.</p>



<p>&#8211; Sabe, Fábio, por vezes me pergunto se o mundo é grande o suficiente para todo<br>mundo ser feliz. </p>



<p>Essas palavras não foram proferidas diretamente para ele, mas para o universo. Ela mantém o olhar vago, tenta não observar Fábio. A cegueira de Fábio é uma<br>grande frustração para ela. Sempre fora fascinada por olhares, dividir percepções sobre<br>formas, cores e luzes, mas ali estava todos os dias ao lado daquele homem que usava uma venda como um amuleto da sorte. Olhos cobertos, coração protegido. </p>



<p>&#8211; Os pássaros pararam de cantar.</p>



<p>&#8211; Pararam. &#8211; responde Fábio &#8211; Talvez alguma coisa tenho assustado eles. Eu vou me arrumar.</p>



<p>&#8211; Espera! &#8211; Número 2 grita, e fica alguns segundos pensando no próximo movimento<br>de seu jogo, qual será a estratégia para mantê-lo com ela. &#8211; Almoça primeiro. É, se você for mesmo embora hoje, quero que pelo menos a gente tenha um último almoço juntos.</p>



<p>Um último almoço? Era esse seu grande trunfo? A decepção de Fábio é visível em<br>sua expressão corporal. É claro que ele esperava um grande depoimento, páginas e<br>páginas de um discurso improvisado bem ali que pudesse fazer sentido o suficiente para<br>que ele ficasse. Um almoço? Não era bem o que queria.</p>



<p>&#8211; A gente podia se despedir sem um evento. Não é a Santa Ceia. ‘O último almoço’<br>soa muito dramático. </p>



<p>Quem não conhece Fábio poderia se convencer de sua falta de apego; mas a verdade é que ele era uma das pessoas mais dramáticas que Número 2 conhecia. É verdade que ela não tinha muitos contatos, mas conhecia cada traço, cada músculo, cada reação de Fábio.</p>



<p>&#8211; Hoje o almoço é lasanha. E mais, não é qualquer lasanha, é quatro queijos, sua<br>preferida! </p>



<p>Então ela ia realmente continuar insistindo na narrativa do almoço. É verdade<br>que lasanha quatro queijos é seu prato favorito, mas, sentado à mesa de refeições, ele<br>sentia que nada tinha gosto de verdade. Era como se alguma coisa tivesse levado seus<br>sentidos. Ele sentia o gosto das coisas, podia tocar e experimentar texturas e temperaturas, mas não era o verdadeiro protagonista da história. Número 2 teria que se esforçar mais se quisesse realmente evitar sua partida.</p>



<p>Quando percebe que sua aposta no almoço não foi bem sucedida, os olhos de Número 2 parecem mudar de foco. A cegueira de Fábio impede que ele perceba essa sutileza, o que talvez seja bom para ele. Os olhos caramelo claro agora parecem queimar, seus pensamentos processando possibilidades e a respiração ficando cada vez mais rápida. O coração dos dois parece acelerar simultaneamente, como uma conexão sobrenatural que é impossível ser quebrada. No fundo, os dois sabiam que dificilmente conseguiriam se separar, não importava o quanto um deles queira. Seria preciso cortar as<br>duas pontas da corda.</p>



<p>&#8211; Você conhece a história do fogo? &#8211; Ela pergunta com o tom de voz quase apático,<br>olhando para longe. Não espera a resposta. &#8211; O fogo era uma criança, abandonada por ser difícil demais, se escondeu em alguns cantos. Tentou não machucar ninguém, mas com o tempo a solidão crescia, tornando o fogo mais perigoso, mais arisco. Não se atrevia a chegar perto por medo, mais medo de machucar o outro do que a si. Um<br>dia, o fogo chegou em uma pequena casa. Lá ele encontrou a água. Ela era muito amada, e parece que ninguém se lembrava da enchente ou da tempestade, só do orvalho e dos<br>banhos de cachoeira. Não era justo. Com ele, sempre se lembravam do incêndio antes do conforto da lareira e do fogão que esquentava a comida. Ele só queria se aproximar da água e perguntar qual era o segredo. Quanto mais perto ele chegava dela, menor ele se sentia. Presença que dói, mas que ama. Presença que controla e não vai embora.</p>



<p>Quando ela acaba de falar a atmosfera inteira do lugar está diferente. O silêncio não é daqueles confortáveis e sem cobrança, é um silêncio de julgamento de ambas as partes. </p>



<p>Ele se sentindo injustiçado, atacado por aquela pequena história aparentemente inocente. </p>



<p>Ela com a defesa armada, esperando os golpes que surgiriam de sua pequena performance literária. </p>



<p>Nem sempre as palavras são nossas melhores armas. Uma coisa interessante sobre aqueles dois é que por vezes pareciam morar dentro da mente um do outro. De pé naquele ambiente branco e verde iluminado e fluorescente, decidem que aquela briga teria que esperar por um outro momento. Fábio estava com pressa, tanta pressa, mas já nem se lembra para que. Coração acelerado, palmas das mãos suadas, a venda em seus olhos coçando como nunca, quase como se tentassem saltar de sua face e fazer com que ele voltasse a enxergar o ambiente como realmente é. Fábio toma um comprimido. O mundo está novamente em paz.</p>



<p>&#8211; Número 2?</p>



<p>&#8211; Hm?</p>



<p>&#8211; Pra onde eu quero ir?</p>



<p>&#8211; Para lugar nenhum &#8211; ela grita. &#8211; Você não quer ir para lugar nenhum. Se te levam<br>para fora, o mundo inteiro vira ao contrário e você vai se lembrar de tudo, eu não quero que você lembre. Eu não quero, e você também não. Se quisesse tanto se lembrar, teria parado de tomar esses comprimidos, parado de vir para o pátio todos os dias, tirado a venda dos olhos. Não. Você quer ficar aqui, mas você não sabe disso.</p>



<p>Ela não disse nada disso de verdade. O impulso e a agressividade ficaram pra trás,<br>dando espaço para um aceno de cabeça sutil com hesitação.</p>



<p>&#8211; Você quer ficar, Fábio. Eu sei que quer. &#8211; Ela diz com a voz mais doce que<br>consegue. &#8211; Eu vi os pássaros. As pessoas. As cores. Eu vi o fogo, eu deitei na cachoeira. É<br>lindo. É lindo, mas não vale a pena.</p>



<p>&#8211; E quando você viu tudo isso? Você sempre esteve aqui! &#8211; Ele retruca com violência.</p>



<p>Algumas coisas não devem ser ditas, e sim descobertas. Infelizmente, o mundo não<br>é feito de respostas, e sim de perguntas. Quanto melhores as perguntas, melhores os<br>lugares aos quais conseguimos chegar. Naquele ponto, não seria justo que Número 2 revelasse a verdade para Fábio. Seria cruel, na verdade. Como poderia expor todos os acontecimentos dos últimos anos como um livro aberto? Como poderia despejar a verdade por cima de tantas crenças? </p>



<p>Não faria isso. Não aqui, não agora.</p>



<p>&#8211; Fábio, com quantos anos é sua primeira lembrança?</p>



<p>Silêncio.</p>



<p>Os pensamentos de Fábio começam a acelerar, ele tentar chegar a uma conclusão. Começa aos poucos, pelo dia de hoje. O que ele almoçou hoje? Eles foram almoçar? Fábio se lembra vagamente de ouvir alguma coisa sobre lasanha, pássaros e quartas feiras. Que dia é hoje?</p>



<p>&#8211; Você lembra de ser criança? &#8211; Ela continua. &#8211; De brincar de pique esconde? Se<br>lembra da sua adolescência, seu primeiro beijo?</p>



<p>&#8211; Claro que lembro, quem esqueceria uma coisa dessas? &#8211; Ele responde na<br>defensiva, mesmo sabendo que, na verdade, não se lembra de nada. </p>



<p>Ela ri da resposta. Não uma risada alta e contagiante; uma risada triste, carregada de pena. Respira fundo e segue com mais uma tentativa, agora um pouco mais incisiva.</p>



<p>&#8211; Sua casa era a última da rua. Isso facilitava as coisas, já que todas eram<br>exatamente iguais, então você sabia que era só andar até o final. Lá dentro, não tinha nada nem ninguém de especial também. O lugar é só um lugar qualquer se ninguém estiver lá.</p>



<p>Alguém estava lá. Seus pais estavam. Os dois sempre sorridentes, congelados e sempre sem tempo. Sua mãe trabalhava na área de cosméticos, passou a vida buscando a fórmula mágica do rejuvenescimento. Seu pai trabalhava com desenvolvimento de softwares para uma grande empresa de celulares e computadores. Resumindo, seus pais estavam ocupados com o que havia de mais importante no mundo: as aparências e a tecnologia. Tudo isso não deixava muito tempo para cuidar de uma criança, que foi crescendo cada vez menos interessada no mundo.</p>



<p>&#8211; Que bom que se lembra dos seus pais. É só isso?</p>



<p>Fábio fica surpreso com a indagação de Número 2. Não se lembra de ter dito nada daquilo em voz alta, eram apenas pensamentos. Será que estava pensando alto esse tempo todo?</p>



<p>&#8211; É só isso. Estranho, as coisas estão um pouco confusas agora.</p>



<p>&#8211; Toma outro remédio. Já tem bastante tempo desde o último.</p>



<p>Pela primeira vez, sentiu seu estômago revirando com a ideia de colocar o comprimido na boca. Ele não tinha gosto de nada, dissolvia quase instantâneamente, uma pequena pílula de ar.</p>



<p>&#8211; Acho que não, posso esperar mais um pouco.</p>



<p>&#8211; Não, não pode. Tá na hora, se não vai ficar tarde.</p>



<p>&#8211; Eu não quero.</p>



<p>&#8211; Vamos almoçar? É lasanha de quatro queijos.</p>



<p>Essa pergunta o pegou de surpresa.</p>



<p>Então ainda não tinha almoçado. Pelo menos uma peça estava de volta no seu quebra cabeça do dia.</p>



<p>&#8211; O que tem na comida? &#8211; Ele pergunta, desconfiado.</p>



<p>&#8211; Queijo &#8211; ela responde, debochada.</p>



<p>&#8211; Você entendeu a pergunta.</p>



<p>&#8211; Entendi, e respondi. Você deve estar com fome pra fazer uma acusação absurda<br>dessas. Se eu quisesse te envenenar não precisaria de uma lasanha, e você sabe bem<br>disso.</p>



<p>&#8211; Antes de ir, você pode me contar outra história? Pra eu sentir que estou aqui. &#8211; A<br>voz de Fábio soa tão ingênua, tão infantil, que é foi impossível para ela negar esse pedido.</p>



<p>&#8211; Onde é aqui, exatamente?</p>



<p>&#8211; Onde você quiser. Só preciso sentir meus pés no chão de novo.</p>



<p>&#8211; 200 anos atrás, em 1932, um homem escreveu um livro. &#8211; Número 2 pausa por um<br>segundo. Tenta escolher as melhores palavras para a próxima parte. &#8211; Se chama ‘Admirável mundo novo’. O livro fala sobre uma sociedade perfeita, dividida em castas. A ordem é o principal componente, todos tomavam um remédio chamado Soma, que preserva a mente e todo mundo vive bem.</p>



<p>&#8211; Só isso? Qual o conflito? Toda boa história tem um conflito.</p>



<p>Aquilo nem parecia uma história de verdade. Mais parecia uma sinopse de revista sobre um livro qualquer. Cadê a jornada, os erros, amores?</p>



<p>&#8211; A sociedade é perfeita, não tem conflitos.</p>



<p>&#8211; Parece uma merda de livro.</p>



<p>Ele não acha isso de verdade. Fábio sempre escolhe o perfeito. Os pratos mais limpos, os talheres mais polidos, as plantas sem nenhum bichinho sequer… Para ele, é impensável querer ver a sujeira das coisas. Mesmo assim, sente falta de um conflito.</p>



<p>Percebeu que está sentindo falta de… sentir. Sentir qualquer coisa, tristeza, desespero,<br>alegria, amor, qualquer coisa mais do que esse enorme vazio. Talvez sentir o vazio já seja<br>um começo. Quanto mais ele pensa, menos respostas encontra. Aquela história de fazer as perguntas certas nem sempre é confortável.</p>



<p>Número 2 sabe que ele está a poucos momentos de decifrar o enigma, principalmente passadas tantas horas sem os remédios. Ela se sente exausta, quanto mais tempo ele passa longe dos comprimidos, mais desgastada ela se sente. Deseja do fundo de seu coração que ele mude de ideia, que pare de tentar buscar o que ficou pra trás, mas<br>sabia que esse momento precisava chegar.</p>



<p>&#8211; Fábio &#8211; ela diz trêmula, com a voz falhando. &#8211; Você sabe onde você está?</p>



<p>&#8211; Não, mas acho que estou começando a lembrar daquela história, a do livro. </p>



<p>&#8211; Admirável mundo novo? </p>



<p>&#8211; Isso. Tinha um conflito sim. A sociedade era dividida em castas, né? Os mais prestigiados e os menos prestigiados. Existia uma reserva. Uma reserva de selvagens, pessoas que rejeitam os costumes civilizados. </p>



<p>&#8211; Quem você acha que é, Fábio? Um selvagem ou um civilizado?</p>



<p>Essa pergunta tocava em um ponto crucial. Um deles era quem Fábio de fato era, o outro era quem Fábio acha que deveria ser. “Deveria” é uma das palavras mais perigosas do nosso vocabulário. A quantidade de pressão e expectativa contidas nessas quatro sílabas chega a ser injusta. Fábio, um homem feito de oportunidades e possibilidades, todas jogadas fora pelo medo de ver o mundo. Tinha tanto medo de se encontrar que se perdeu cada vez mais.</p>



<p>Número 2 entende aquele silêncio. Era o silêncio que dizia que Fábio estava quase entendendo. Agora não tinha mais como voltar atrás, era melhor seguir. </p>



<p>&#8211; Os selvagens sabem que são selvagens. Entendem. Entendem que antes ser um selvagem do que ter a vida controlada, ser um experimento, um teste, uma ilusão. Os<br>civilizados não são nada mais do que selvagens negando a própria essência, não acha? </p>



<p>&#8211; Aquilo que eles tomam no livro… Soma. É isso que tinha no queijo? É isso que eu<br>tomo todos os dias?</p>



<p>Essa pergunta é tão inocente que Número 2 jura que daria um abraço em Fábio se pudesse. </p>



<p>&#8211; Isso é só um livro, Fábio. Sua vida não é interessante o suficiente para virar ficção. </p>



<p>&#8211; A gente bem parece que tá vivendo num livro com esse seu suspense todo e essa maldita história de venda, quartas feiras e selvagens. Eu quero uma história de verdade.<br>Uma história sobre a gente, alguma coisa pra me fazer lembrar.</p>



<p>Ela não tinha certeza se ele estava preparado pra isso, mas como já havia dito, tudo já tinha ido longe demais, e não tinha mais forças para lutar contra. </p>



<p>&#8211; Quando a gente era criança, a gente visitou um lago. A gente foi escondido, não era<br>pra estar ali. Era um segredo. A gente queria ver os peixinhos, só isso. Nos disseram que<br>era um lago lindo, um círculo perfeito rodeado de pedrinhas brancas, como nos filmes de<br>romance. A gente nunca tinha visto peixes de verdade, só no mercado, mortos ou na<br>televisão. Nem um único aquário. Pegamos um caminho por entre os muros de trás da<br>escola, seguimos uma trilha de concreto com algumas plantinhas saindo das rachaduras.<br>Chegamos no lugar que os peixinhos deveriam estar, mas não estavam. &#8211; a voz de Número 2 se embaralha; é perceptível que ela não quer continuar a história, mas continua mesmo assim. &#8211; Encontramos homens. Homens tristes, sujos, com agulhas, pedras e com fome. O lago tinha cheiro de esgoto e sangue. Os homens nos olhavam como os pescadores olham para os peixinhos. Nessa hora a gente só pensou que aquilo tudo tinha sido um erro. Não existe nada tão bonito que valha a pena ver todo o resto. Não existe, Fábio. A gente só queria ver os peixinhos. A nossa perna ardia de tanto correr, caímos em cima de uma garrafa de vidro e rasgamos o joelho direito. Essa cicatriz é um lembrete. Um lembrete pra não sair daqui. </p>



<p>&#8211; Será mesmo que o mundo não tem peixinhos, Número 2?</p>



<p>&#8211; Você pode parar de me chamar assim agora, Fábio.</p>



<p>&#8211; E os homens? Eles não vem mais?</p>



<p>&#8211; Você ainda não entendeu? Os homens estão aqui todos os dias. Trabalham aqui.<br>Todo dia é quarta feira.</p>



<p>O lago, os peixinhos, a fome, a venda. Tudo fazia sentido agora, muito mais do que ele queria admitir. Fábio nunca fora obrigado a nada, estava naquele lugar por escolha, por medo. Como poderia ter se convencido tão fácil que aquela menina, aquela voz realmente chamava Número 2? Nada disso é real.</p>



<p>&#8211; Claro que é real. É tão real quanto estar lá fora. &#8211; ela interrompe seus pensamentos.<br>É claro que ela conseguia ler sua mente, ela estava lá dentro. Esse tempo todo, ele estava em absoluto silêncio, no mesmo cômodo da clínica, sem se mover nenhum centímetro. A voz continua, a raiva cresce. &#8211; Cegueira voluntária. Nem todo mundo aguenta as mazelas do mundo, então prefere se esconder. Esse seu remédio não é soma, mas poderia ser. Você pode parar de tomar. Parar de esquecer e voltar a ver o lago e os homens. As crianças com fome, as guerras, as mortes, mas pra que?</p>



<p>Se Fábio tira a venda, sabe que é o fim. Ele se lembra agora. Tudo está um pouco turvo, mas se lembra. Fábio se voluntariou para um teste, um teste em uma clínica inovadora, que prometia uma nova experiência de vida para todos os voluntários: bastava um comprimido algumas vezes por dia. Se a experiência não fosse do agrado do voluntário, deveria tirar a venda, depositá-la em uma caixa verde próxima à cama, e ir embora.</p>



<p>&#8211; Se você for, eu desapareço. &#8211; a voz de Número 2 parece cada vez mais longe<br>enquanto ela argumenta. &#8211; Você está sozinho. Eu só estou aqui pra te lembrar porque<br>viemos pra cá. Se você ou qualquer outro morador tirar a venda quer dizer que se lembra e se arrepende, e pode ir pra casa. Mas cuidado, uma vez que a gente volta a enxergar, não dá mais pra ignorar. Quem você era vai sempre ser parte de quem você é. Você veio pra cá pra não ver mais a sujeira, e é isso que você tem vivido pelos últimos 654 dias. Tem certeza que quer desistir de tudo agora?</p>



<p>A verdade é que não tinha. </p>



<p>Agora que sabia que sua liberdade dependia apenas dele mesmo, as coisas ficaram menos atrativas. A única luta era contra si mesmo, e isso não soava heroico o suficiente. </p>



<p>As pessoas têm mania de se sentirem donas de algum tipo de desafio, uma jornada feita exclusivamente para elas, uma batalha épica contra o mundo, mas nem sempre é assim. Naquele momento, Fábio não podia ver, mas estava cercado por outros iguais a ele em uma sala branca e verde. Alguns com comprimidos na mão, outros desfazendo lentamente o nó que prende a venda em seus olhos, todos alheios à quantidade de pessoas que realmente estavam ali. </p>



<p>Todos presos em suas próprias mentes, sem interação, sem risadas, sem dor.</p>



<p>Quando Fábio está prestes a se livrar de tudo, os passarinhos começam a cantar. Talvez os dois fiquem por ali mais algum tempo.</p>



<hr class="wp-block-separator" />



<p><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong>Gabi Guarabyra </strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong>é atriz, diretora, dramaturga e professora. É pós-graduanda em Gênero e Sexualidade pela FACED-UFJF e compartilha frentes de trabalho teatral no <a href="https://www.instagram.com/coletivofemininojf/">Coletivo Feminino</a> e no <a href="https://www.instagram.com/nucleoprisma/">Núcleo Prisma</a>. </p>



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		<title>Mapa</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 13 Sep 2020 21:22:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 062]]></category>
		<category><![CDATA[amizade]]></category>
		<category><![CDATA[conto]]></category>
		<category><![CDATA[Gabi Guarabyra]]></category>
		<category><![CDATA[Mapa]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Gabi Guarabyra</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>De acordo com nossos mapas, estamos quase na metade do caminho.</p>



<p>Talvez esse mapa precise de algumas atualizações e novos atalhos, ainda não tenho certeza. Uma vez, eu li em algum lugar que nem todas as cidades estão presentes nos mapas. Alguma coisa a ver com o tamanho ou o número de habitantes, não sei bem.</p>



<p>Reconheço que &#8220;uma vez li em algum lugar&#8221; talvez não seja uma das fontes mais confiáveis que eu poderia citar, mas sinto que não posso fazer melhor do que isso agora.</p>



<p>Aprendi a ler mapas aos 9 anos. Meu avô sempre foi fascinado por cartografia e pensou que eu também acharia divertido. Na época eu não achei, mas aprendi mesmo assim. Crianças solitárias como eu não estão habituadas a recusar companhias, mesmo que nem sempre sejam as mais divertidas. Não quero entrar no clichê de neta ingrata e impaciente; só não via a extrema necessidade de entender mapas se sabia que um celular resolveria prontamente o meu problema.</p>



<p>Algumas coisas se desenvolvem por hábito. Quando viajávamos, minha família toda desligava o waze e seguíamos as finas linhas vermelhas impressas sobre o verde desbotado.</p>



<p>Alguns anos mais tarde, aqui estou eu, argumentando em um carro alugado com meus três melhores amigos sobre o melhor jeito de chegar em Ibitipoca. Estamos quase na metade do caminho. É verdade que minhas leituras de 20 minutos atrás também apontavam &#8220;quase a metade do caminho&#8221;. Os telefones estavam todos em uma caixinha guardada na minha velha mochila azul listrada, como uma fiscal. A música saía de um CD que tocava a partir de um tocador anexo que comprei no dia anterior, sabendo que alguém usaria o Spotify como argumento para permitir celulares.</p>



<p>Eu costumava ser muito boa em fingir que sabia o que estava fazendo e seguir em frente, mas em algum lugar na última rotatória essa habilidade se perdeu e estava claro que eu estava, enfim, perdida. Meus amigos me olham um pouco impacientes, mas também curiosos pra saber como eu pretendia sair dessa encruzilhada.</p>



<p>Eles sabem que eles também só vão chegar até a cachoeira se eu descobrir o caminho. Parece uma metáfora de livro de romance, &#8220;Ninguém chega a lugar nenhum sozinho&#8221;. Todo clichê se torna clichê por um motivo. Paramos o carro no acostamento e desligamos a música por um momento.</p>



<p>Enquanto eu ainda me esforçava para decifrar as rotas por entre as montanhas e pedras, sinto o mapa sendo gentilmente puxado da minha mão &#8211; e lá estavam os três resolvendo a complicada matemática dos caminhos de Minas Gerais. O que eu não sabia era que os três tinham passado a última semana estudando esse trajeto também. Não por falta de confiança, mas para não me deixar sozinha.</p>



<p>Era simples. Meu erro fora 15 km antes, em uma bifurcação. O próximo retorno estava à esquerda, 500 metros adiante. Quanto mais imersos estamos em algumas coisas, mais difícil fica enxergar alguns detalhes. Não faz mal alguns pares extras de olhos. É verdade que ninguém chega a lugar nenhum sozinho, mesmo estudando todos os mapas e atlas do mundo.</p>



<hr class="wp-block-separator" />



<p><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong>Gabi Guarabyra </strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong>é atriz, diretora, dramaturga e professora. É pós-graduanda em Gênero e Sexualidade pela FACED-UFJF e compartilha frentes de trabalho teatral no <a href="https://www.instagram.com/coletivofemininojf/">Coletivo Feminino</a> e no <a href="https://www.instagram.com/nucleoprisma/">Núcleo Prisma</a>. </p>



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<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-large-font-size">Galeria: artistas para seguir na quarentena</p>



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		<title>Memória</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 06 Sep 2020 21:22:23 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 061]]></category>
		<category><![CDATA[conto]]></category>
		<category><![CDATA[Gabi Guarabyra]]></category>
		<category><![CDATA[gay]]></category>
		<category><![CDATA[LGBT]]></category>
		<category><![CDATA[memoria]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Gabi Guarabyra</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>— Então é isso. Você está realmente decidido? — Ele me pergunta com um tom tão firme que me leva de volta para todos os anos que vivemos juntos em apenas alguns segundos. Ele percebe que sua voz saiu um pouco do planejado. </p>



<p>O Vinicius sempre teve o hábito de manter sua postura o mais turva possível para os outros; a transparência de sua verdadeira personalidade só era vista em poucas ocasiões. Quase sempre eu era testemunha ocular de seus desvios, que arranhavam superficialmente a porcelana daquela imagem impecável.</p>



<p>— Desculpa. Não quis falar assim, você sabe. — Silêncio. — Sabe, não sabe? Ei, eu te amo, Caio. Preciso que você pense no que você vai estar fazendo comigo quando tomar sua decisão.</p>



<p>— Com você? Já parou pra pensar no que eu estou fazendo comigo? Melhor, o que você está fazendo comigo. Você mora dentro de mim há tanto tempo que não lembro mais do meu silêncio. Você plantou raiz por aqui, e agora eu preciso do jardim de volta, Vinicius.</p>



<p>— Será que precisa mesmo? Talvez essa grama sintética toda seja espaço o bastante pra nós dois, você não acha?</p>



<p>É muito difícil argumentar quando queremos estar errados. A batalha entre dizer minha verdade ao mesmo tempo em que ela é tudo que eu quero esquecer é uma das mais dolorosas que já enfrentei até então. </p>



<p>Conheci Vinicius faz dez anos. Desde o primeiro momento, ele foi meu porto seguro. Nossa primeira troca de olhares aconteceu na escola. Tínhamos, os dois, 15 anos de idade. Ele me mandou um bilhete no meio da aula de história, dizia que achava meus olhos bonitos. Aquela idade em que tudo é difícil demais, mesmo não sendo de verdade. Desculpe, isso não é justo. Não devíamos minimizar as dores adolescentes só porque somos adultos; afinal, só conseguimos suavizá-las depois que já passamos por elas. A verdade é que nem sei se sou tão adulto assim. Muitas vezes, percebo meus reflexos de adolescência tomando o controle das minhas ações, principalmente na presença do Vinicius.</p>



<p>Começamos a namorar com 16 anos. Nenhum de nós dois era assumido para a família na época, o que foi um grande evento. Um grande evento nas nossas cabeças: pra ser justo, ambas as nossas famílias já sabiam antes de ouvir de fato. Nem tudo precisa de palavras, isso é outra coisa que aprendi com ele. Aos 16 anos, tudo parece que vai durar pra sempre. Todos os bons momentos eram cristalizados em uma moldura imaginária que visitaríamos anos mais tarde, bem como todos os momentos ruins &#8211; que, por vezes, ainda parecem pequenas giletes dentro de um ciclone de sentimentos mal resolvidos.</p>



<p>Que pena que tantas molduras se perderam no meio do caminho. Muitas das giletes se soltaram com o vento e acabaram pousando em terrenos distantes também. Nossa memória não é tão boa quanto gostaríamos que fosse. O ser humano tem uma tendência estúpida de se superestimar em coisas banais. Quantas vezes eu estive em uma conversa e disse para mim mesmo “Eu nunca vou esquecer esse momento” e no dia seguinte já não me lembrava de mais do que seis palavras daquela linda interação. Será mesmo que foi linda? Difícil dizer. Tudo que sobrou foi um ingresso de cinema.</p>



<p>— Não tem mais espaço, Vinicius. Não tem. Olha bem pra esse quarto, as caixas, as paredes. Tá tudo cheio de você, e você me dói. Você não percebe o quanto você me dói, talvez esse tenha sido o problema esse tempo todo.</p>



<p>— Você também me dói, Caio. Você me dilacera, me queima, me arranca pedaço por pedaço e eu estou aqui. Eu estou dentro do quarto, das caixas, pendurado pelas paredes. Mesmo assim, mesmo com tudo isso, eu nunca ameacei ir embora.</p>



<p>Isso não era verdade. Três anos antes, tivemos uma briga daquelas que eu achava eu só podia ver em filmes independentes e conceituais que, de alguma forma, conseguem amenizar e dramatizar romances ao mesmo tempo. </p>



<p>Por muito tempo, minha personalidade sempre foi comparada ao fogo. Explosivo, difícil, incontrolável. Agressivo é o adjetivo que me faz encolher pra dentro de mim mesmo e selar o mundo contra o meu desequilíbrio. Naquele dia de agosto, parecia que Vinicius tinha seu discurso pronto e decorado contra mim. Ele chegou no nosso apartamento com uma lista mental de todas as vezes que eu fui a grande decepção desse relacionamento. Todas as vezes que estar comigo foi difícil demais. Naquela noite, ele disse que ia embora, eu implorei para que ele ficasse. Talvez eu devesse ter ficado quieto. Ele se foi sem dar explicações, deixando apenas um bilhete amarelo que lia: “Eu te amo, mas preciso de tempo”.</p>



<p>Vinicius voltou na manhã seguinte com cheiro de cachaça e perfume de outro homem. Eu o recebi de braços abertos, lágrimas nos olhos e um sorriso no rosto. Nunca mais falamos sobre aquele dia; talvez por isso mesmo ele esteja tentando apagá-lo da nossa história nesse momento. De quem é a culpa se nenhum de nós dois viu a curva no acostamento enquanto dirigíamos há 80km/h? A culpa é de quem dirige ou de quem distrai o motorista?</p>



<p>— Caio, me escuta. As coisas podem ser diferentes. Não precisa queimar tudo que a gente já viveu.</p>



<p>— Precisa. Se não queimar vai ficar guardado, acumular poeira. Pior, se ficar guardado eu vou revisitar e revisitar o tempo inteiro. Tudo sempre igual, imortalizado ali, sem crescer, sem sair do lugar.</p>



<p>— Então a gente cresce. É isso que você quer? Crescer? A gente cresce. A gente cresce até o céu, ultrapassa todas as nuvens, se encontra com gigantes de terras imaginárias e anjos celestiais que tentam se esconder de nós.</p>



<p>— Essa responsabilidade não é só minha, é nossa. Não adianta a gente querer separado. Era tudo muito bonito, só não é mais.</p>



<p>Silêncio.</p>



<p>— Você se lembra de quando eu viajei pra Gramado sozinho? Eu te trouxe algumas folhas daquelas que parecem a bandeira do Canadá. Nunca vi ninguém sorrir tão bonito por causa de folha. Olha como elas estão agora, Caio. Você deixou secar, quebrou tudo.</p>



<p>— Só algumas. As que estão nas caixas quebraram, mas algumas ainda estão presas em alguns cantos.</p>



<p>— Isso é verdade. Vai deixar elas ali, ou vai tirar também?</p>



<p>— Existe uma coisa engraçada sobre presentes. Mesmo que a gente saiba quem foi que deu eles pra gente, nem sempre eles trazem memórias. Essas folhas inteiras são isso, um presente oco, virou só decoração.</p>



<p>— A quebrada não?</p>



<p>— A quebrada me faz lembrar de você. Sei que não deveria resumir 10 anos nesses pequenos estilhaços secos mas é maior do que eu. É tanta folha, Vinicius. Parece que vai me enterrar qualquer dia desses.</p>



<p>Não consigo me lembrar exatamente o momento que comecei a chorar, mas agora meus olhos já estão vermelhos e minha visão duplicada pelo reflexo das lágrimas nos meus óculos. Estão na minha frente todos os ingressos de cinema e teatro. Todas as cartas, recados, bilhetes. Toda a memória de papel. Que frágil é o nosso passado. Separo os ingressos dos melhores filmes e peças. Retiro as entradas de grandes shows e eventos. Essas lembranças não são só nossas, são minhas. Eu vivi todos esse momentos, não preciso de você para sorrir ao relembrá-los.</p>



<p>Todo resto é uma pilha de papel com tinta de caneta. Tantas palavras, tantas promessas, planos, frases bonitas que um dia me fizeram acreditar naquele para sempre adolescente. Continuo ouvindo sua voz falando na minha cabeça; a voz me pede para não desistir. </p>



<p>Você saiu pela porta da frente dois anos atrás e eu ainda tenho diálogos com você dentro de mim. Acendo o fósforo. Vejo a tinta virar cinza, os selos das cartas começarem a derreter. Sua voz começa a ser substituída pelo trepidar do fogo. O fogo não apaga a memória assim, na hora, mas apaga minhas chances de revisitá-las. Logo, logo, só vão sobrar algumas palavras dos últimos 10 anos. Não é mais você quem controla as sementes, eu sou o que sobrou de nós dois. Eu sou o que transborda da nossa separação. </p>



<p>Obrigado, e adeus.</p>



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<p><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong>Gabi Guarabyra </strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong>é atriz, diretora, dramaturga e professora. É pós-graduanda em Gênero e Sexualidade pela FACED-UFJF e compartilha frentes de trabalho teatral no <a href="https://www.instagram.com/coletivofemininojf/">Coletivo Feminino</a> e no <a href="https://www.instagram.com/nucleoprisma/">Núcleo Prisma</a>. </p>



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<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-large-font-size">Galeria: artistas para seguir na quarentena</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.instagram.com/iambrendamarques/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2020/10/ef7bc-begaleria8-1.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-10819" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-medium-font-size"><em>Apoie pautas identitárias. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>
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		<title>[Arredores] Espectros Virtuais, com Gabi Guarabyra</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 26 Aug 2020 21:30:51 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Arredores]]></category>
		<category><![CDATA[Carol Cadinelli]]></category>
		<category><![CDATA[Gabi Guarabyra]]></category>
		<category><![CDATA[prisma]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: Carol Cadinelli</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>&#8220;Um prisma é aquela forma que faz arco-íris&#8221;, já disse, umas vezes, a nossa entrevistada de hoje na Arredores. Refrata a luz, decompondo-a em faixas coloridas de um espectro &#8211; o que, em linguagem poética, pode significar muita coisa. </p>



<p>Na cena cultural de Juiz de Fora, um Prisma é aquela forma que também faz teatro; e, no presente contexto, um raio do espectro do Prisma é o projeto Refração, que reúne 15 artistas do teatro em torno de uma proposta para uma nova linguagem &#8211; ainda batizada pelo falho nome de &#8220;teatro online&#8221;.<br><br>Para entender melhor a proposta do projeto e discutir sobre as questões ligadas à arte virtual, a Trama conversou com a Gabi Guarabyra &#8211; atriz, dramaturga e uma das idealizadoras do Núcleo Prisma de Teatro.</p>



<p>Rola pra baixo para ler!</p>



<div class="wp-block-image"><figure class="aligncenter size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/73f9d-whatsapp-image-2020-08-26-at-15.57.14.jpeg?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-11754" data-recalc-dims="1" /><figcaption>Núcleo Teatral Prisma, em sessão fotográfica para o Coletivo Ozônio. <br>Da esquerda para a direita: Gabriel Bittencourt, Gabi Guarabyra, Nitay Krishna e Pablo Abritta. <br>Foto: Pedro Soares</figcaption></figure></div>



<p><strong>Trama: O teatro em geral &#8211; em especial o do Prisma &#8211; possui um caráter criativo que lida muito com a presença e a interação física. Como tem sido criar em um momento que essas interações estão limitadas?</strong></p>



<p><strong>Gabi:</strong> Nós acreditamos muito no teatro enquanto arte da presença e do contato. Tem sido bastante complicado estabelecer propostas de criação sem o contato entre nós e com o público. Tem sido um momento de muita estruturação e planejamento, muita escrita, dramaturgias novas, planos, enfim… A criatividade em tempos de pandemia é um tanto imprevisível, estamos tentando manter a consistência da companhia e entender nossos limites, mas nem sempre é fácil chegar em um lugar que realmente reflete nossas propostas.</p>



<p><strong>T: Vocês disponibilizaram a cena Band-Aid em versão online. Como foi a recepção do material nesse novo formato? Existe algum plano de estruturar alguma das outras cenas curtas da companhia ou até Algodão online?</strong></p>



<p><strong>G:</strong> A recepção foi ótima! Foi bem no início do período de isolamento, estávamos com muita vontade de colocar um pouco da gente no mundo. Band-Aid é uma cena que temos muito carinho e muito orgulho, foi uma delícia assistir a forma que as pessoas se engajaram com ela, mesmo sendo uma cena de caráter super intimista o Pablo fez um trabalho de aproximação muito bonito através das lentes que funcionou bem demais. Não temos nenhum plano pra outras cenas prontas ou pro Algodão, é mais possível que a gente crie um material inédito do que voltar pra adaptar algum pronto (sem promessas, mas temos planos por aí!)</p>



<p><strong>T: Quando a gente pensa na tríade essencial do teatro (ator-texto-público), muitas pessoas compreendem que o que as companhias vêm fazendo, de trazer o teatro para o virtual, não poderia se configurar enquanto teatro, pois não há a interação presencial ator-público. Como o núcleo de vocês percebe o &#8220;teatro online&#8221;? Ele é teatro?</strong></p>



<p><strong>G:</strong> Entendemos que esse momento online é super importante para a continuidade do nosso trabalho, e também entendemos que, como artistas, precisamos dar continuidade com o nosso ofício apesar das adversidades. É bastante difícil categorizar o que estamos vivendo como “teatro online”; é alguma outra coisa, uma linguagem que ainda não descobrimos completamente como funciona, mas estamos chegando lá. Não dá pra substituir a presença dentro do teatro, é um elemento super essencial. Esse formato chegou pra agregar experiências, mas ainda estamos descobrindo os caminhos.</p>



<p><strong>T: Vocês acham que esse &#8220;teatro online&#8221; vai persistir como um novo formato após a reabertura dos espaços teatrais? Se sim, como vocês pensam que a arte do teatro se adaptaria para atender aos dois âmbitos sem desvalorizar (financeiramente) o presencial?</strong></p>



<p><strong>G:</strong> Talvez sim, mas não com a urgência que está acontecendo agora. Nós artistas estamos em um momento em que sentimos necessidade de produzir, tanto por questões de mercado quanto pra suprir essa falta que o teatro faz, então é um momento um tanto frenético de novas propostas e formatos. Acho que quando a vida voltar a se estabilizar é possível que a gente encontre um modelo bem híbrido, mas talvez peças ao vivo ao mesmo tempo contando com transmissão online, não sei. </p>



<p>A desvalorização financeira é um ponto complexo. Se uma peça que está acontecendo ao vivo é transmita simultaneamente online, é preciso pensar mecanismos de monetização pra essa transmissão. Sabe quando um jogo de futebol não é transmitido na TV local quando o estádio fica naquela cidade? É uma lógica parecida. Antes de começar a preocupação sobre a desvalorização financeira, talvez seja hora de um passo pra trás pra valorizar o que tínhamos, um caminho inverso. Sabemos que já existia uma desvalorização grande do cenário teatral em muitos lugares, então vai ser só mais um capítulo de como engajar o público nesse modelo híbrido.</p>



<p><strong>T: Como surgiu a ideia do Refração? Quem foram as inspirações que mostraram que um projeto como esse seria possível?</strong></p>



<p><strong>G:</strong> A ideia do Refração surgiu de duas vontades: a primeira era a de lançar um projeto pelo Prisma, coisa que até então não tínhamos feito; a segunda era a de conectar pessoas. Como quase todas as ideias que temos, como um grupo que tem como base a colaboração, é sempre difícil traçar qual foi a semente da ideia. E estrutura veio surgindo de muitas conversas e ideias que foram se acumulando. Eu, Gabriel e Pablo formulamos uma “trilogia Prisma”, que acabou sendo o prólogo do Refração, e ela foi toda baseada em trocas entre nós três, então expandir essa ideia fez sentido pra gente. O que fez a gente acreditar que o projeto seria possível foi a vontade de fazer dar certo mesmo, quando a gente tá empenhado em um projeto é bem difícil tirar da nossa cabeça, coletivamente falando.</p>



<p><strong>T: Qual é a principal proposta do Refração, enquanto ferramenta de teatro online? </strong></p>



<p><strong>G:</strong> A principal proposta é criar laços. No final do dia, estamos todos isolados fisicamente, mas não socialmente. Convidar esses artistas de outras regiões, proporcionar trocas, visibilidade, esse é o maior trunfo da internet. O presencial é efêmero e centralizado em um lugar específico, nem todo mundo pode viajar por aí pra conhecer o trabalho de artistas diferentes ou culturas diferentes. Claro, ainda não é teatro, ainda não é a mesma experiência de uma troca presencial, mas existe uma essência bem bonita que transborda na necessidade de se conectar.</p>



<p><strong>T: Os artistas e obras que vêm compondo o Refração, como eles foram selecionados? Existe uma proposta de unidade entre as obras apresentadas?</strong></p>



<p><strong>G:</strong> Tivemos um trabalho de busca por artistas que achamos que poderiam dialogar com a nossa linguagem e ao mesmo tempo trazer uma individualidade. Quando a ideia do projeto surgiu nos deparamos com a realidade que quase todos os artistas que conhecemos e seguimos são da nossa região, do sudeste. Por que? Esse questionamento interno levou a gente a conhecer muita gente e fazer laços que a gente nem imaginou. A única unidade é que todos os artistas receberam a mesma provocação, mas cada um direcionou a partir das suas vivências, experiências e da própria região. A essência talvez tenha algum tipo de unidade subjetiva, mas a proposta é que seja bem plural mesmo, então não nos preocupamos muito com isso.</p>



<p><strong>T: Como vocês entendem a importância de projetos como o Refração em uma situação tanto de pandemia, quanto em um contexto de uma desvalorização das artes (especialmente do teatro) cada vez maior?</strong></p>



<p><strong>G:</strong> Entendemos a importância do Refração como um posicionamento, um chamado de “ei, estamos aqui, continuamos aqui”. O Brasil é cheio de artistas, e não só no teatro, e cada um de nós está ansioso pra poder voltar com as atividades presenciais &#8211; e essa constante reinvenção online é a prova de que resistimos e de que a nossa arte está acima de qualquer fator externo que o mundo possa colocar sobre nós.</p>



<p><strong>T: Existe a possibilidade de uma segunda temporada do Refração, com mais quinze artistas das cinco regiões?</strong></p>



<p><strong>G:</strong> Por enquanto, não. Vamos finalizar o projeto em meados de outubro e pretendemos focar em outras coisas para o Prisma. Ainda estamos estudando os próximos passos, mas o refração é uma jornada única.</p>



<p>Assista ao primeiro episódio do projeto <strong>&#8220;Refração&#8221;</strong>, realizado pelo <a href="http://instagram.com/nucleoprisma">Núcleo Prisma</a>:</p>



<figure class="wp-block-embed-instagram aligncenter wp-block-embed is-type-rich is-provider-incorporar-manipulador"><div class="wp-block-embed__wrapper">
https://www.instagram.com/p/CDudvv1BVW4/
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<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-flow wp-block-group-is-layout-flow">
<p class="has-text-align-right has-normal-font-size"><strong>Sobre a Entrevistadora</strong></p>



<p><strong>Carol Cadinelli</strong> é jornalista, apaixonada por palavras. Escreve, edita, revisa, traduz e, vez ou outra, fotografa. Atua como Social Media na Peregrina Digital, assistente de edição na Trama e escritora nas horas vagas.</p>
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<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/fdf84-assinatura-4.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-11677" data-recalc-dims="1" /></figure>





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<div class="wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow">
<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.artebodoque.com/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/073d7-loja-1.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-11574" data-recalc-dims="1" /></a></figure>
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<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.artebodoque.com/revista-trama-edicao-impressa-edicao-001"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/72b80-impressa-3.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-11608" data-recalc-dims="1" /></a></figure>
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<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-large-font-size">Galeria: artistas pra seguir na quarentena</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.instagram.com/affnana/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/43ef4-fotos-carol-copy.jpg8_-1021x1024.jpg?resize=950%2C953&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-11314" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-medium-font-size"><em>Apoie artistas nessa quarentena. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>
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