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	<title>Arquivos Luciano Nascimento - Revista Trama</title>
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	<description>Arte, Cultura e Criatividade</description>
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		<title>IRA</title>
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		<pubDate>Sun, 26 Sep 2021 21:22:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 110]]></category>
		<category><![CDATA[Luciano Nascimento]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Luciano Nascimento</p>
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<p class="has-text-align-right"><em>A transparência nos fará livres?</em></p>



<p>Mais uma vez, nem o embaçamento de seus olhos ofuscou a cristalinidade das vidraças; de novo ela sorriu, discreta, franca. Desde que tinha chegado à Presidência do país, todo alvorecer de catorze de março era desse jeito.</p>



<p>As &#8220;células de supervivência&#8221; &#8211; projetadas para assegurar a qualquer custo a máxima sobrevida de seus ocupantes &#8211; eram cinco: uma para &#8220;O monstro&#8221; (ao centro), e uma para cada um de seus filhos (numeradas de 01 a 04, todas à volta da célula 00, do pai). Toda a estrutura era absolutamente transparente e assim permanecia, vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana, ano após ano.</p>



<p>&#8220;O monstro&#8221; e seus filhos foram levados para lá logo depois de serem declarados culpados por diferentes crimes contra a humanidade durante a pandemia de 2020. Diante do veredicto, o Congresso Popular de 2040 decidiu pela pena máxima: a supervivência exemplar coletiva. Os cinco seriam mantidos vivos a qualquer custo, enquanto fosse possível, e passariam todos os dias do resto de suas vidas nas células contíguas, mas separadas, em total isolamento acústico. E absolutamente transparentes.</p>



<p>Quando chegou a 00, &#8220;O monstro&#8221;, então já bem idoso, havia acabado de se recuperar de seu terceiro AVC. Fora trazido de volta de um coma para alegria geral da nação. Ele apenas vegetava, é verdade, mas não seria justo se ele morresse sem pagar por seus crimes. Foi essa a alegação da então deputada, agora presidenta.</p>



<p>Hoje, cinco anos depois daquela sessão histórica em que também fora aclamada mandatária máxima do país, ela se emocionava diante da perfeita translucidez do cristal das células de supervivência expostas vinte e quatro horas por dia à observação pública. Dentro delas, o ódio mortal (mas agora exemplar e inofensivamente pedagógico) nos olhos dos assassinos de sua avó.</p>



<p>Os dela, da neta sobrevivente presidenta, estavam embaçados.</p>



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<p><em>(Texto finalista do Prêmio OFF FLIP/2021, integrante da antologia publicada pelo Selo</em> <em>OFF FLIP)</em></p>



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<p><strong><strong>Luciano Nascimento</strong></strong>&nbsp;é mangueirense, filho, marido, pai, professor, flamenguista, psicopedagogo… mais ou menos nessa ordem. É, também, idealizador do projeto <a href="http://www.deeficiencia.com.br">Dê Efiência</a>.</p>
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		<title>#ALÔFAMÍLIA &#8211; POLÍTICA</title>
		<link>https://revistatrama.artebodoque.com/2021/05/09/alofamilia-politica/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 09 May 2021 21:24:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[#AlôFamília]]></category>
		<category><![CDATA[Ano 003, N 090]]></category>
		<category><![CDATA[Alô Família]]></category>
		<category><![CDATA[como o machismo afeta os homens]]></category>
		<category><![CDATA[Luciano Nascimento]]></category>
		<category><![CDATA[masculinidade tóxica]]></category>
		<category><![CDATA[relações de gênero]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Luciano Nascimento</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Sabe a trilogia de “O poderoso chefão”, obra-prima de Francis Ford Coppola, estrelada por Marlon Brando e Al Pacino? Então: para falar um pouco sobre “política”, quero usar umas coisas que a gente aprende com aquela maravilha do cinema. E, pra ir direto ao centro da questão, vou expor de uma vez o que importa saber: <strong>política é poder</strong> sobre a vida e sobre a morte das pessoas; logo, fazer política é gerenciar esse poder que é, ao mesmo tempo, vital e mortal. Isso fica muito claro na trilogia de Coppola.</p>



<p>“O poderoso chefão” conta, em três filmes, a história da família Corleone (mafiosos de origem italiana, mas que viviam nos EUA) e de seus principais chefes (os “padrinhos”): o primeiro, Don Vito (interpretado por Marlon Brando), e o segundo, seu filho Michael (o protagonista da série, interpretado por Al Pacino). Os filmes mostram os caminhos que trouxeram o menino Vito da Sicília (na Itália) a Nova Iorque (nos EUA); fizeram com que ele se tornasse o primeiro “padrinho” da família Corleone; depois levaram Michael a assumir o lugar do pai e a estender mundialmente o poder da organização; até, enfim, o declínio de Michael e o fim de seu ciclo de influência mundo afora.</p>



<p>Quem presta atenção nos filmes percebe rápido uma coisa muito, muito importante pra entender o tipo de poder de que eles dispõem: mais do que dinheiro, a moeda de troca dos mafiosos são os favores. Don Vito entende isso ainda muito jovem, e cedo começa a resolver os “problemas” de seus amigos e vizinhos. Quem tem seus “problemas” resolvidos fica em dívida, e, quanto mais gente lhe deve gratidão, maior é a influência de Don Vito. Como todo mundo tem problemas e “de grão em grão a galinha enche o papo”, não demorou muito até que o primeiro Corleone tivesse em suas mãos uma quantidade enorme de gente de todo tipo: pequenos e grandes comerciantes, juízes, políticos, policiais&#8230; e muitos assassinos.</p>



<p>Michael, o segundo chefe da dinastia mafiosa, segue e aprimora a cartilha do pai: compra cassinos e senadores, manipula diretores de cinema e autoridades religiosas, extermina inimigos e dá presentes generosos para aqueles de quem quer se aproximar. Assim, ele consegue espalhar a influência dos Corleone primeiro por todo o território norteamericano, depois até à Europa. E é lá, na Europa, que finalmente o poder e a habilidade de Michael Corleone encontram um inimigo à altura.</p>



<p>Fiz esse pequeno resumo da trilogia de “O poderoso chefão” para mostrar (e deixar à vista de quem quiser olhar com calma e ver) o que é a política e como ela se faz. E é quase simples entender do que estamos falando aqui. Olha só:</p>



<ol type="1"><li>todo mundo tem alguma vontade não satisfeita, algum desejo não realizado, alguma necessidade pessoal que parece maior do que nossas próprias forças, e por isso vira um “problema”;</li><li>existem pessoas (e instituições) que prometem resolver nossos problemas, e às vezes cumprem de fato a promessa, outras vezes só nos dão a sensação de ter cumprido, o que&nbsp; quase sempre já nos alivia;</li><li>nossa tendência “natural” (ou, pelo menos, mais frequente) é ficarmos gratos a quem nos aliviou dos problemas, e, em nome dessa gratidão, damos apoio a essa pessoa (ou instituição) frente a seus próprios problemas;</li><li>quanto mais gente dá apoio a uma pessoa (ou instituição) mais poderosa essa pessoa (ou&nbsp; instituição) é, ou seja, maior sua capacidade de também atender aos interesses dos outros, e, portanto, maior sua influência entre outras pessoas (ou instituições);</li><li>muita influência é muito poder, e fazer política, a gente já viu, é gerenciar poder.</li></ol>



<p>Por isso, afirmo: política é poder. Ela vai muito além da dinâmica das eleições, da existência dos partidos políticos, da disputa entre eles por cargos nos vários governos. Política é muito mais que isso e está à nossa volta o tempo todo!</p>



<p>A relação doméstica entre pai e mãe frente aos filhos é uma relação política: o estabelecimento de quem manda mais, como manda, por que manda, define, de maneira geral, quem é mais bajulado, por quê, por quem, para quê e, principalmente, até quando – sim, porque todo poder um dia esbarra em outro maior. No trabalho é a mesma coisa, na igreja e no clube também: sempre existe um lugar de mando ocupado por alguém a ser seguido, agradado ou combatido; sempre há aliados e opositores, mesmo que nem sempre esses papéis sejam desempenhados de maneira explícita, de forma a todo mundo saber quem é quem, muito menos o que está em disputa. &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Isso acontece porque, no final das contas, onde houver pessoas, o que está em disputa é sempre a mesma coisa: o poder de definir os contornos da vida e da morte dessas pessoas. Quem merece viver bem, quem não merece? Quais vidas devem ser preservadas, quais podem ser sacrificadas? Quem pode ou tem que morrer? É esse, no fim de tudo, o grande poder político. Não querer saber dele é perigoso e absolutamente inútil.</p>



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<p><strong><strong>Luciano Nascimento</strong></strong>&nbsp;é mangueirense, filho, marido, pai, professor, flamenguista, psicopedagogo… mais ou menos nessa ordem. É, também, idealizador do projeto <a href="http://www.deeficiencia.com.br">Dê Efiência</a>.</p>
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		<title>DÊ EFICIÊNCIA</title>
		<link>https://revistatrama.artebodoque.com/2021/04/25/de-eficiencia/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 25 Apr 2021 21:27:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 088]]></category>
		<category><![CDATA[combate ao capacitismo]]></category>
		<category><![CDATA[fortalecimento de minorias sociais]]></category>
		<category><![CDATA[Luciano Nascimento]]></category>
		<category><![CDATA[pedagogia como forma de transformação social]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Luciano Nascimento</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Sabemos que uma das maiores dificuldades da vida adulta é aprender a dar eficiência aos próprios dons às habilidades inatas que temos. Mas e quando precisamos dar eficiência a algo, entre muitas aspas, “deficiente” em nós? Nesse caso, a aprendizagem se torna um caminho ainda menos conhecido. Foi por terem vivido essa experiência na pele, de diversas maneiras, que Luciana Pacheco e Luciano Nascimento criaram o Projeto Dê Eficiência, o qual visa colaborar para que professores – sobretudo os da Educação Básica – apoderem-se de saberes e meios que tornem suas práticas pedagógicas mais eficientes na construção da “libertação conjunta dos homens” (cf. Paulo Freire, em “Pedagogia do oprimido”). Cabe aqui a interpretação para “libertação conjunta” das pessoas – homens e mulheres cis e trans, e os espectros de gênero fluído, não-binaries e etc.</p>



<p>Luciana e Luciano são casados e pais de três filhos &#8211; um dos quais teve paralisia cerebral em idade fetal e tem, mesmo já na vida adulta, algumas dificuldades motoras e um déficit cognitivo leve. Luciana deixou a Medicina Veterinária e também se tornou profissional da Educação, como Luciano.&nbsp; Selando a união entre competências de Saúde, Educação e Psicopedagogia, ambos resolveram voltar aos bancos da pós-graduação para se tornaram psicopedagogos clínicos e institucionais. Estavam, ali, assentados os alicerces do Projeto Dê Eficiência, orientado pela <strong>PSICOPEDAGOGIA DA EMPATIA</strong>.</p>



<p>O Projeto Dê Eficiência se estrutura na psicopedagogia da empatia (perspectiva teórico-metodológica criada por Luciano em pesquisa na UFRJ) para pensar a prática pedagógica inclusiva em seu termo amplo. Num país como o Brasil, o racismo (sobretudo contra negros e indígenas), o machismo, o etarismo, o elitismo, a gordofobia, a LGBTQfobia, etc, podem gerar tantos ou mais danos que o capacitismo.&nbsp;É contra a ameaça de inibir as oportunidades de conhecimento e crescimento jovens em vulnerabilidade sociocultural que o Projeto Dê Eficiência se coloca, buscando promover a Educação, a Eficiência e a Empatia para todos.</p>



<p>Vem com a gente! Siga-nos em nossas redes sociais! <a href="http://instagram.com/deeficienciaprojeto">@deeficienciaprojeto</a></p>



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<p><strong><strong>Luciano Nascimento</strong></strong>&nbsp;é mangueirense, filho, marido, pai, professor, flamenguista, psicopedagogo… mais ou menos nessa ordem. É, também, idealizador do projeto <a href="http://www.deeficiencia.com.br">Dê Efiência</a>.</p>
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		<title>#ALÔFAMÍLIA &#8211; MASCULINIDADE TÓXICA</title>
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		<pubDate>Sun, 11 Apr 2021 21:27:00 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Luciano Nascimento</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="has-text-align-center"><em>“Menino não chora.”; “Seja forte.”; “Você é um homem ou é um rato?”; “Isso é coisa de mulherzinha!”; “Prendam suas cabritas, porque meu bode está solto”.</em></p>



<p>É bem provável que todo brasileiro já tenha ouvido pelo menos uma ou duas dessas frases. Também é bastante provável que boa parte de nós, homens e mulheres, já tenha repetido alguma delas, achando que estava ajudando na educação de alguém ou, pior, que era apenas uma brincadeirinha inofensiva.</p>



<p>Infelizmente, não é bem assim. Para deixar isso claro logo de cara, vou usar um dado estatístico muito triste: no mundo todo, <a href="https://www.acessa.com/saude/arquivo/setembroamarelo/2020/09/02-relacao-entre-suicidio-genero/">o número de homens que tira a própria vida é, em média, três vezes maior do que o de mulheres</a>. Os dados são da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) e do Conselho Federal de Medicina (CFM). </p>



<p>Pois é. Muitos de nós, homens cisgênero, fomos levados a acreditar que precisávamos necessariamente ser, o tempo todo, insensíveis, fortes, corajosos, viris; que era importante não deixar ninguém confundir nosso comportamento com o de uma “mulherzinha” (termo horroroso, diga-se de passagem). Muitos de nós acreditamos de verdade nisso tudo e, por acreditar nessas bobagens, ficamos envergonhados em diversas situações: quando uma tristeza bateu, ou uma força maior se impôs, ou o medo chegou, ou aquela brochada evidente e inesperada aconteceu. Ficamos envergonhados e, como “timidez é coisa de menininha, porque menino não se esconde”, escondemos também nossa vergonha, cumprindo o famoso “engole o choro”.</p>



<p>Acontece que, um dia, essa conta chega &#8211; e, com frequência, nos pega desprevenidos (ou, continuando com a lista de expressões populares sexistas, nos pega “com as calças na mão”). E estamos desprevenidos porque fomos enganados a vida inteira. <strong>Não nos ensinaram o óbvio incontestável: dor, fragilidade, medo e impotência fazem parte da natureza humana</strong>. Esses são atributos de todos os seres humanos, não só das mulheres. É tolice pensar nessas sensações e sentimentos como se estivessem diretamente ligados ao nosso sexo biológico. Homens que ainda não se deram conta disso acabam, muitas vezes, se tornando ainda mais vulneráveis ao adoecimento emocional que pode levar ao estresse, à ansiedade, à pressão alta, à depressão, ao AVC, ao infarto&#8230; à morte, enfim.</p>



<p>A crença equivocada em que existam “coisas de homem” e “coisas de mulher” é “tóxica”, ou seja, envenena, faz mal. Por isso chamamos de “masculinidade tóxica” esse conjunto de ideias tortas, a camisa de força que amarra tantos de nós – sobretudo os homens, claro, mas as mulheres também – numa lógica que, por ser maluca, acaba nos enlouquecendo e, muitas vezes, nos matando. Os números estão aí para provar isso.</p>



<p>Não falo só das estatísticas de suicídio entre homens, mas também das taxas de violência contra as mulheres, por exemplo. A masculinidade tóxica faz mal aos homens até na hora de fazer seguro de automóveis, que são mais caros para nós, porque, como somos “destemidos e arrojados”, nos envolvemos mais frequentemente em acidentes de trânsito. Em suma: masculinidade tóxica é, sob todos os aspectos, só prejuízo. </p>



<p class="has-text-align-center"><em>“E aí? Vai ficar aí parado? Homem que é homem corre atrás do prejuízo”.</em></p>



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<p><strong><strong>Luciano Nascimento</strong></strong>&nbsp;é mangueirense, filho, marido, pai, professor, flamenguista, psicopedagogo… mais ou menos nessa ordem. É, também, idealizador do projeto <a href="http://www.deeficiencia.com.br">Dê Efiência</a>.</p>
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		<title>#AlôFamília &#8211; Racismo Estrutural</title>
		<link>https://revistatrama.artebodoque.com/2021/03/28/alofamilia-racismo-estrutural/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 28 Mar 2021 21:29:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[#AlôFamília]]></category>
		<category><![CDATA[Ano 003, N 084]]></category>
		<category><![CDATA[Alô Família]]></category>
		<category><![CDATA[Luciano Nascimento]]></category>
		<category><![CDATA[Racismo Estrutural]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Luciano Nascimento</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Se engana quem pensa que o racista brasileiro tem carteirinha. Não é assim. Mas, infelizmente, não dá pra dizer que “ninguém no Brasil aceitaria ter uma carteirinha de racista”, porque várias imagens de manifestações mundo afora sugerem que muita gente aqui curtiria uma identificação assim. Aliás, há uma instituição ainda ativa nos EUA que oferecia – e talvez ainda ofereça – carteirinha de racista a seus afiliados. O nome dela é Ku Klux Klan (também chamada de “KKK”, mas isso não tem graça nenhuma), e ela tem muitos fãs no nosso país.</p>



<p>Acho que, em geral, no Brasil, as pessoas assumem comportamentos e falas racistas sem nem se darem conta – mas isso não serve de desculpa, é claro! Estranhou um negro com um carrão novo, lindo? Racismo. Confundiu o médico negro com o motorista da ambulância? Racismo. Achou que a senhora negra na portaria do prédio era faxineira esperando alguém? Racismo. Fechou a janela quando a criança ou o adolescente preto se aproximou do seu carro no semáforo? Racismo. Sim: se você que está lendo esse texto já fez alguma dessas coisas, você já foi racista pelo menos uma vez na vida. “Errou feio, errou rude”.</p>



<p>“Ah, Luciano&#8230; Aí não, né? Vou deixar me roubarem primeiro? Muitos desses moleques ficam esperando no sinal pra roubar a gente”.</p>



<p>Esse é um exemplo clássico do racismo mais frequente e mais duro de combater: aquele que parece sustentado pela lógica, pela estatística, mas que não passa de uma meia verdade, ou, como se fala no Rio de Janeiro, um “caô”.</p>



<p>A metade verdadeira dessa ideia é o fato incontestável de que acontecem, mesmo, muitos assaltos em semáforos, e que, muitas vezes, quem os pratica são crianças e adolescentes pretos. A metade falsa é relacionar o comportamento criminoso de alguns indivíduos à cor da pele da maioria, deixando de fora a condição histórica e econômica que empurrou a todos eles para aquela situação. Além disso, também precisa entrar nessa conta o seguinte: pensando direitinho, se todo mundo lesse os contratos bancários que assina, veria que eles, os bancos, enganam e roubam muito mais gente que os meninos nos faróis, com muito mais frequência, provocando um prejuízo muito maior a longo prazo, e eu não me lembro de nenhum dono de banco que seja preto – se há, é exceção. &nbsp;Logo, fechar a janela com medo de perder dinheiro pro suposto ladrão preto e abrir o bolso pro assumido gatuno branco, é, noves-fora, racismo.</p>



<p>E aí está o motivo de eu dizer que, na minha opinião, a maior parte das pessoas no Brasil é racista sem nem se dar conta – e isso não as desculpa, repito. As mesmas pessoas que dizem, sem nenhum constrangimento, que precisam tomar cuidado com seus pertences nos semáforos porque algum marginal pretinho pode vir lhes roubar, essas mesmas pessoas não se dão conta de que banqueiros pretos, se existem, são absoluta exceção, assim como no Brasil também são exceções engenheiros, dentistas, advogados, arquitetos e médicos pretos. Tudo isso é prova incontestável do chamado “racismo estrutural” brasileiro, que mantém os pretos sempre em desvantagem. Todos, todos os índices sociais brasileiros são desfavoráveis à população negra.</p>



<p>O racismo brasileiro é chamado de “estrutural” justamente porque, por aqui, ele é tão fundido com a maneira como a gente enxerga a gente mesmo e o nosso próximo que a gente sequer se dá conta de que está sendo racista e perpetuando o funcionamento racista do mundo à nossa volta. A gente se acostumou a achar natural ter medo da criança e do adolescente preto no sinal de trânsito, tanto quanto se acostumou a achar natural entrar num hospital e não ver nem um médico ou médica preto/a. O racismo estrutural nos cegou para o fato de que infelizmente, quase 133 anos depois da suposta abolição da escravidão (que “Não veio do céu, nem das mãos de Isabel”, como disse o samba da Mangueira, em 2019), a população nas prisões e nos manicômios brasileiros ainda é negra em sua maior parte, fato que também se repete na maior parte das comunidades carentes de tudo nas nossas cidades médias e grandes.</p>



<p>Entender o mínimo sobre o que é o racismo estrutural brasileiro é indispensável para a gente começar a efetivamente mudar esse estado de coisas horroroso, vergonhoso, perverso e que não faz bem a ninguém. Isso mesmo: <strong>ninguém se beneficia com o racismo</strong>. Quem é vítima dele, se sente injustiçado, humilhado, violentado; quem o pratica, sabendo ou não, vive com medo – ainda que não perceba.</p>



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		<title>#AlôFamília &#8211; Comprovação Científica</title>
		<link>https://revistatrama.artebodoque.com/2021/02/14/alofamilia-comprovacao-cientifica/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 14 Feb 2021 21:28:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[#AlôFamília]]></category>
		<category><![CDATA[Ano 003, N 078]]></category>
		<category><![CDATA[Luciano Nascimento]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Luciano Nascimento</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>O nó político, social e cultural brasileiro só vai se desfazer com melhores <em>Educação</em> <strong><u>E</u></strong> <em>Comunicação</em>. Juntas. Porque há tempos a gente vê, de um lado, que a maioria dos brasileiros não teve nem tem acesso a Educação (escolar) de qualidade; e, de outro lado, que quem teve ou tem essa oportunidade muitas vezes não sabe ou não quer compartilhá-la com os outros. <em>Onde um não quer, dois não vingam</em>.</p>



<p>Esse cenário triste culminou na atual polarização política em que o Brasil se atou, mas não está sozinho. Pra citar só um caso mais famoso: os EUA estão num nó parecido, e quem assistiu ao discurso de posse de Joe Biden pôde testemunhar o quanto o novo presidente da maior potência do planeta se preocupa com a disputa política do país. Em seu pronunciamento, Biden apontou o diálogo como ferramenta essencial para reunificar a nação.</p>



<p>Tanto lá quanto cá, já passou o tempo de investirmos no cultivo do diálogo &#8211; ou seja, investirmos em praticar e melhorar nossa capacidade de trocar ideias, ouvir e buscar compreender o ponto de vista do <em>Outro</em>, e colaborar pra que o Outro compreenda efetivamente o nosso. Temos que recuperar o <em>timing</em> do investimento naquilo que Gustavo Gomes de Matos chama de “<em>cultura do diálogo</em>”.</p>



<p>Por isso, a série de textos <strong><em>#AloFamilia</em></strong>. Com eles, quero falar de maneira clara e rápida sobre algumas coisas que, pro Brasil começar a se desatar, a gente precisa explicar pro maior número possível de pessoas. Vou me esforçar pra fazer esses textos escritos ficarem parecidos com a fala, pra facilitar o compartilhamento deles em grupos de <em>WhatsApp</em>, por exemplo, mesmo se por gravações de áudio. Muita gente não lê textos um pouco mais longos nas redes sociais, e é muito importante achar meios de ocupar esses espaços com informação clara, confiável. Mais: é importante fazer esse tipo de informação chegar às pessoas; o país não tem chance de sair do da cama de gato em que está enquanto as <em>Fake News</em> dominarem os grupos de família no <em>Zap</em>.</p>



<p>Por isso, tentando cultivar o diálogo, coloco pra jogo:</p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong>Afinal de contas, o que é essa tal “comprovação científica”?</strong></h4>



<p>Antes de tudo, duas coisas essenciais: em primeiro lugar, é preciso acreditar na Ciência; em segundo lugar, não existe impasse entre Ciência e Religião. Se você é religioso, creia que foi Deus quem criou a Ciência (ou, pelo menos, que permitiu que ela existisse, e Ele deve ter tido os motivos Dele); se você não é religioso, lembre-se de que foi a Ciência que explicou porque você sozinho não é capaz de voar, nem de parar um trem, nem de impedir determinadas reações ruins de seu próprio organismo ao contato com certas substâncias e/ou organismos microscópicos. Enfim, não existe quem não tenha razões suficientes para confiar na Ciência – com letra inicial maiúscula mesmo, nome próprio.</p>



<p>A Ciência explica os seres, fatos ou processos (chamados “objetos de pesquisa”), transformando a simples experiência humana de contato com esses seres, fatos ou processos em conhecimento acumulado. Sem ela, qualquer experiência da humanidade talvez ficasse pra sempre restrita a pequenos grupos de pessoas; com ela, qualquer um pode vir a aprender e ensinar sobre qualquer experiência, se tiver acesso às ferramentas adequadas.</p>



<p>Chamamos de Ciência, então, o imenso conjunto imaginário onde todos os vários conhecimentos produzidos pela humanidade se reúnem, mas de acordo com regras, relações, finalidades e limites muito específicos. Enxergar a existência e o funcionamento desse conjunto, tomar parte nele e ser reconhecido como parte dele &#8211; tanto por quem chegou antes quanto por quem chegará depois &#8211; são as condições para alguém se dizer “cientista” e, assim, ter autoridade para emitir opiniões “científicas” e falar a sério em “comprovação científica”.</p>



<p>Entender um pouco melhor essa primeira parte – o que é a Ciência – leva a uma conclusão lógica verdadeira: pra ser cientista não basta só ter feito faculdade. Isso inclui os médicos. <strong><u>Nem todo médico é cientista</u></strong>, assim como nem todo químico, nem todo farmacêutico, nem todo físico é. Muito menos militares ou astrólogos lunáticos!</p>



<p>Cientista é o profissional que trabalha com um conhecimento de um jeito bem específico, buscando resultados também muito específicos; é quem se dedica a estudar coisas a fim de conhecê-las cada vez mais e melhor, para depois dividir seu conhecimento com o máximo de pessoas (talvez a humanidade inteira), para depois continuar estudando e compartilhando. O nome desse tipo de estudo é “pesquisa” e, em geral, pesquisas científicas (sobre um mesmo objeto, inclusive) são realizadas ao longo de muito tempo, por várias pessoas, em lugares diferentes do planeta – logo, tendem a não acabar nunca, pois sempre poderão existir coisas novas a serem descobertas sobre aquele objeto. Todo cientista é, portanto, um pesquisador, e a Ciência é o motivo, a forma e o resultado do trabalho acumulado de todos os pesquisadores do mundo, desde sempre.</p>



<p>Por isso não basta ter feito faculdade para ser cientista. A maior parte das pessoas que terminam uma graduação vão logo exercer a profissão que aprenderam – projetar e construir prédios, dar aulas, advogar, cuidar de pessoas ou de animais&#8230; Os cientistas são aqueles que gostaram tanto de aprender que adotaram por profissão exatamente o ofício de: <em>a)</em> aprender cada vez mais sobre tudo relacionado a seu tema de interesse; <em>b)</em> gerar cada vez mais conhecimento sobre esse tema; <em>c)</em> expor suas conclusões à avaliação contínua de outros cientistas; e <em>d)</em> compartilhar o conhecimento gerado por esse trabalho com o máximo de pessoas.</p>



<p>Esse ofício, então, não se parece com a atividade de se debruçar sobre uma prancheta para projetar um edifício, ou sobre uma escrivaninha para escrever uma petição, ou mesmo sobre uma mesa de cirurgia para extrair um apêndice. Essas atividades são importantíssimas e exigem muito estudo por parte dos profissionais que as desenvolvem, é claro! Mas elas não exigem deles, por exemplo, que exponham suas práticas e decisões à contestação contínua (às vezes simultânea) de seus pares, algo indispensável pra quem se dedica a fazer Ciência.</p>



<p>Ainda meio confuso? Vamos a um exemplo: imagine dois cirurgiões dentistas formados juntos, na mesma instituição, mesmo ano, mesmos professores&#8230; Os dois foram ótimos alunos e hoje são profissionais respeitados. Um deles se formou, abriu seu próprio consultório ou clínica, e até hoje trata canais com muita eficiência, exatamente como aprendeu na faculdade. O outro se formou e passou a dividir sua atuação profissional entre as consultas avulsas (em consultórios de colegas) e a assistência a aulas na pós-graduação, onde, ao longo de anos, aprendeu várias alternativas para o tratamento de canais, até que resolveu tentar criar ele mesmo sua própria forma de fazer aquilo. O primeiro profissional é um cirurgião dentista (provavelmente bom, até); o segundo, é um pesquisador (talvez só mediano) habilitado a realizar cirurgias odontológicas. Está clara a diferença?</p>



<p>A “comprovação científica” só pode vir da discussão séria e longa entre vários pesquisadores do planeta. Dos melhores pesquisadores, na verdade. Por isso, quando se fala que a eficácia de um medicamento ou tratamento não tem “comprovação científica”, está se dizendo isso: os melhores cientistas do planeta estão atualizados sobre tudo relativo àquele medicamento ou tratamento (os ingredientes, as técnicas, o resultado dos testes, etc), e a maioria desses cientistas diz que ele não funciona. Simples assim: a frase “não existe comprovação científica da eficácia do tratamento” significa “a parada não serve para o que uns e outros dizem que serve”. Então, quando você ouvir falar em “comprovação científica”, já sabe: acredite sempre na opinião de quem se dedica a estudar de verdade as coisas antes de falar sobre elas. Eles são os cientistas e têm “opiniões” confiáveis. Hoje a maior parte deles diz: “a vacina anti COVID-19 é segura”. Então, vacine-se. Os outros, que indicam medicamentos e tratamentos “sem comprovação científica de eficácia”, no mínimo não estudaram o suficiente. Não acredite neles.</p>



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<p><strong><strong>Luciano Nascimento</strong></strong>&nbsp;é mangueirense, filho, marido, pai, professor, flamenguista, psicopedagogo… mais ou menos nessa ordem. É, também, idealizador do projeto <a href="http://www.deeficiencia.com.br">Dê Efiência</a>.</p>
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		<title>Um Evangelho Seguindo a Arte</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 31 Jan 2021 21:29:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 076]]></category>
		<category><![CDATA[Luciano Nascimento]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Luciano Nascimento</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Antes mesmo de me tornar professor de Literatura e escritor postulante, eu já gostava bastante de ler. Hoje em dia, mais do que uma imposição profissional, a leitura é o meu principal <em>hobby</em>, um dos meus maiores e mais prazerosos prazeres quase solitários.</p>



<p>Sempre li muito mais textos em prosa que em versos; no ambiente da prosa, gosto mais das narrativas curtas (contos e crônicas, por exemplo) que dos romances. Entretanto, vem justamente de um grande romance, o meu predileto, a passagem que quero comentar. O livro é <em>O evangelho segundo Jesus Cristo</em>, do escritor português José Saramago, vencedor do prêmio Nobel de Literatura em 1998 – quando eu ainda estava na graduação. O trecho é o seguinte:</p>



<p class="has-text-align-right"><em>&#8220;O filho de José e Maria nasceu como todos os filhos dos homens, sujo do sangue de sua mãe, viscoso das suas mucosidades e sofrendo em silêncio. Chorou porque o fizeram chorar, e chorará por esse mesmo e único motivo.&#8221;</em></p>



<p>Não quero e nem vou fazer aqui nenhuma análise literária dessa obra fenomenal. Basta dizer: é o melhor livro que li na vida (e olha que eu já li um bocado&#8230;) e, se o Pedro Bial afirmou que o único conselho dele que vale a pena seguir é para não deixarmos de usar filtro solar, o meu conselho mais relevante é esse: não vale a pena morrer antes de ler <em>O evangelho segundo Jesus Cristo</em>. Depois, pode até ser&#8230;</p>



<p>Mas preciso evitar mal entendidos: não existe a menor sombra de proselitismo religioso nessa minha sugestão. Repito: não há proselitismo religioso.</p>



<p>Até porque o Jesus Cristo de Saramago é amável por ser humano sobre todas as coisas. Ele tem medo, dúvidas, desejos&#8230; É um homem. Um grande homem e, por isso mesmo, uma personagem literária imensa, com um valor pedagógico impossível de medir cartesianamente.</p>



<p>Essa personagem é gigante desde seu nascimento vulgar, “como todos os filhos dos homens, sujo do sangue de sua mãe, viscoso das suas mucosidades e sofrendo em silêncio”. Veja só: Jesus Cristo nasceu sujo e sofrendo, igual a mim, a você que me lê, ao Saramago e a todo mundo. Não é só a morte que nos torna iguais, como popularmente se diz! A vulgaridade do nascimento também nos iguala a todos em humanidade. Isso não é lindo?!</p>



<p>Mas ainda, nunca foi isso o que mais me impactou nessa pequena passagem do Nobel português. O que sempre mais me impactou, e me impacta ainda mais hoje (quando vivo lutando com as lágrimas por causa da mistura de maternidade e violência urbana, neoliberalismo e pandemia, transtorno de ansiedade e COVID-19), o que me impacta ainda mais hoje é a ideia de que Cristo “chorou porque o fizeram chorar, e chorará por esse mesmo e único motivo”. Me assusta muito pensar que fizeram um homem igual a mim chorar desde o nascimento até a morte. Uma vida inteira chorando.</p>



<p>De novo, pra não cair no esquecimento, não estou aqui falando do ícone tido como “filho de Deus” pelas vertentes religiosas que tomam por princípios dogmáticos os ensinamentos supostamente Seus. Não é desse “Deus-feito-homem” que estou falando &#8211; mesmo sabendo da dificuldade de separar com rigor as figuras e os fundos, dificuldade que também a mim atinge, afinal, também nasci num país católico apostólico <em>blá-blá-blá</em>&#8230;</p>



<p>Assusta pensar que não só a morte possa igualar todos os homens, e nem só seu nascimento, mas também o intervalo entre os dois eventos, ou seja: sua própria vida. Será que é essa a nossa sina? Viver para chorar ou, no mínimo, para lutar contra o choro? Será esse o preço e o ágio da existência?</p>



<p>Vendo pessoas sufocando no chão dos corredores hospitalares superlotados de Manaus, penso que sim. Desviando de pessoas tornadas zumbis em cracolândias em São Paulo, penso que sim. Assistindo a enterros de crianças mortas por balas perdidas nas comunidades pobres do Rio de Janeiro, penso que sim. Revivendo a Revolta da Vacina em pleno século XXI, penso que sim. Sofrendo em silêncio a cada vez que ouço sobre mais um caso de racismo, ou de feminicídio, ou de homofobia, de transfobia, de escravidão moderna&#8230; penso que sim, sim, sim, sim.</p>



<p>Mas logo depois me lembro de que fui evangelizado pela Arte, e de que confio na boa-nova que, embora velha, ela, a Arte, sempre nos pode trazer.</p>



<p>E assim, mesmo pensando que sim, somos homens e mulheres, choramos porque nos fazem chorar e choraremos sempre por esse mesmo e único motivo, embora pensando assim, digo pra mim mesmo: “Não. Penso, logo re-existo”. O evangelho segundo a Arte ensina: bem-aventurados os que dizem ‘não.’, porque é deles o reino da Terra.</p>



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<p><strong><strong>Luciano Nascimento</strong></strong>&nbsp;é mangueirense, filho, marido, pai, professor, flamenguista, psicopedagogo… mais ou menos nessa ordem. É, também, idealizador do projeto <a href="http://www.deeficiencia.com.br">Dê Efiência</a>.</p>
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		<title>Sim, nós podemos!</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 17 Jan 2021 21:27:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 074]]></category>
		<category><![CDATA[Caos social]]></category>
		<category><![CDATA[Desinformação]]></category>
		<category><![CDATA[Linguagem]]></category>
		<category><![CDATA[Luciano Nascimento]]></category>
		<category><![CDATA[Twitter]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Luciano Nascimento</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>&#8220;Penso, logo, existo.&#8221; (Descartes)</p>



<p>&#8220;Ser ou não ser: eis a questão.&#8221; (Shakespeare)</p>



<p>&#8220;A virtude está no meio termo.&#8221; (Aristóteles)</p>



<p>Cada uma dessas frases caberia com folga num tuíte. Várias outras igualmente solenes também. Conclusão óbvia: escrever é fácil; escrever bem é que é difícil. Pensei nisso no momento em que me desafiei a escrever algo honesto com menos de 2.000 caracteres.</p>



<p>O estrago civilizatório gerado pelos recentes tuítes de alguns líderes mundiais também me inspirou um pouco na tarefa. Eles causam prejuízos colossais com apenas 140 toques (ainda é essa a medida naquela rede? não sou usuário &#8211; atenção: duplo sentido); supus, então, que eu fosse capaz de produzir algo só honesto com o mar de sinais a meu dispor aqui.</p>



<p>Mas escrever bem é realmente difícil. As ideias vêm e demandam um oceano de signos. Sem um mínimo de técnica, a inspiração <em>trupica e as veix cai</em>… Sigo adiante: &#8220;O que não me mata, me torna mais forte.&#8221; (Nietzsche)</p>



<p>Já sei: 1) sentenças na ordem direta; 2) abusar de orações absolutas (vai no Google, leitor!, preciso economizar caracteres);&nbsp; 3) o mínimo de conectivos (de novo, foi mal). Pronto: até aqui, menos de 1.500 toques. (Já? Eu ainda não disse nada!)</p>



<p>É que é essa mesma a minha sensação hoje, sexta, 08/01/21, no momento em que escrevo. Não tenho o que escrever, não há o que dizer. Não há palavras para dizer da dor de ver mais de 200 mil brasileiros mortos, não só nem principalmente pela COVID, mas pela desinformação, pela sociopatia, pelo oportunismo desmedido e inconsequente.&nbsp;</p>



<p>E o pior: emudeço porque temo que ainda demoremos a encontrar uma forma de linguagem apta a, de fato, esclarecer para todos nós os passos largos que temos dado rumo ao mais absoluto caos social. E (profundo desespero) não estamos sozinhos nessa canoa furada, como mostram os fatos da semana nos EUA, por exemplo.</p>



<p>Mas um ano se inicia, e precisamos acreditar em nós e na linguagem. Podemos descobrir juntos uma maneira de nos dizermos e nos ajudarmos! </p>



<p>&#8220;Yes, we can!&#8221; (B. Obama)</p>



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<p><strong><strong>Luciano Nascimento</strong></strong>&nbsp;é mangueirense, filho, marido, pai, professor, flamenguista, psicopedagogo… mais ou menos nessa ordem. É, também, idealizador do projeto <a href="http://www.deeficiencia.com.br">Dê Efiência</a>.</p>
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		<title>2020: a soma de todos os medos? ou um manifesto pela vida?</title>
		<link>https://revistatrama.artebodoque.com/2020/11/29/2020-a-soma-de-todos-os-medos-ou-um-manifesto-pela-vida/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 29 Nov 2020 21:28:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 073]]></category>
		<category><![CDATA[2020]]></category>
		<category><![CDATA[eleições no brasil]]></category>
		<category><![CDATA[equidade social]]></category>
		<category><![CDATA[Luciano Nascimento]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Luciano Nascimento</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Nas eleições presidenciais de 2002, duas personagens antagônicas participaram ativamente da companha peessedebista de José Serra: Regina Duarte, a “namoradinha do Brasil”, e Beatriz Segall, a eterna vilã “Odete Roitman”. Tanto uma como a outra declararam, então, ter um sentimento bem específico a respeito da possível eleição de Lula: medo. Isso mesmo: numa ponta do leque dos afetos novelísticos brasileiros, a frágil “namoradinha”; na outra, oposta, a terrível megera, mulher de negócios, empresária rica e poderosa. Ambas se sentindo amedrontadas diante da suposta ameaça comunista personificada no ex-operário.</p>



<p>Dezoito anos se passaram desde as eleições de 2002, nas quais, por fim, Lula foi eleito – para a posterior alegria de muitos banqueiros, quem diria. O mundo hoje enfrenta a pior pandemia em mais de um século. Beatriz Segall já faleceu, mas, na terra onde <em>Vale Tudo</em>, Odete Roitman está vivíssima – “<em>5 ou 7 mil</em> <em>pessoas vão morrer? Sim. Mas a economia não pode parar só por isso</em>”; “<em>Funcionários públicos são parasitas</em>”; “<em>Indígenas são preguiçosos</em>”; “<em>50 mil pessoas já morreram? E daí? Eu não sou coveiro</em>”; “<em>Não existe racismo no Brasil</em>”&#8230; Regina Duarte ainda está entre nós, mas não é mais a “namoradinha”; se casou e se divorciou. Também foi <em>a-traída</em> pelo grande surfista das ondas do medo que ela própria, Regina, ajudou a formar; agora <em>está sem carinho</em> (fez por merecer a antipatia de muita gente)<em>, sair já não pode</em> (inclusive porque é idosa, grupo de risco para a COVID-19), <em>já não pode cuspir </em>(no prato em que sequer comeu como talvez desejasse)&#8230; <em>a noite esfriou, o dia não veio&#8230; E agora, Regina</em>?</p>



<p>Estamos em 2020 e o medo chegou à maioridade, tomou conta de tudo. <em>E agora, José?</em></p>



<p><strong>Ambidestria</strong></p>



<p>A neurociência ensina: o medo é um necessário regulador de comportamento. Ele é parte importante do conjunto de estímulos que ativam uma série de reações físico-químicas que, por sua vez, afetando o funcionamento do nosso cérebro, ajudaram a garantir a sobrevivência da espécie humana desde a pré-história. O medo foi essencial para a nossa continuidade – ainda quando precisávamos intuir e repelir potenciais ameaças – e é fundamental para a autopreservação de cada indivíduo até agora – num tempo em que tantos de nós evitamos falar em política, por exemplo, com o único motorista de aplicativo que aceitou nosso chamado no meio de uma madrugada chuvosa.</p>



<p>Sendo assim tão onipresente entre nós, humanos, não é exagero supor que o medo não reconheça distinções político-ideológicas e aflija, mais ou menos igualmente, tanto quem se identifica com um pensamento político mais à direita (os reacionários e os conservadores, entre os quais incluo arbitrariamente os liberais) quanto mais à esquerda (os progressistas). E decerto o medo também aflige o pessoal do “Centrão”, mas eles merecem um estudo à parte; afinal, são criaturas que relativizam a afirmação aristotélica: nem sempre “a virtude está no meio termo”.</p>



<p>Por isso voltemos aos pólos – mas deixando de fora os extremos, terreno fértil para os comportamentos doentios, que não nos interessam aqui. À direita e à esquerda, o medo desde sempre atinge a todos; é ambidestro. Isso não quer dizer, é claro, que ele seja o mesmo nos dois casos. Não. É possível ver diferenças claras entre o mais cego instinto de sobrevivência e o legítimo desejo deliberado de evitação da morte.</p>



<p>A necessidade de segurança alimentar explica, em certa medida, o nomadismo e o sedentarismo. A busca por abrigo ante às adversidades climáticas e contra predadores justifica nossa ida para as cavernas e o posterior desenvolvimento constante de tecnologias para a construção de “cavernas” cada vez mais confortáveis. A fuga da escassez de comida e da vulnerabilidade diante de ameaças externas parece ter deixado em nós, homens dos séculos XX e XXI, a herança do desejo de acúmulo de alimento e de teto (algum domínio espacial extracorpóreo, concreto e/ou abstrato, seja ele um apartamento conjugado, uma casinha de veraneio ou um latifúndio improdutivo). Tudo isso se liga, mesmo se de forma difusa, ao instinto de sobrevivência e à sua majoração patológica, e certamente está também na gênese do pensamento (ou do inconsciente, talvez) dito “de direita”. Nada o resume melhor do que a compulsão pelo controle ostensivo de bens – materiais e/ou simbólicos.</p>



<p>Essa é uma hipótese plausível para explicar, por exemplo, a aversão da típica <em>classe média brasileira</em> ao acesso de <em>recém-remediados</em> econômicos aos aeroportos do país. Aquela fatia da população – viúva da colonização e alinhada à direita com a alta burguesia, fato inegável desde as eleições presidenciais de 2014, pelo menos – entendia os terminais aeroviários como território seu (já que os verdadeiros milionários não costumam andar por ali); a presença de <em>ex-ou-quase-ex-pobres</em> naqueles corredores era, na cabeça da <em>classe média</em>, uma invasão. Por analogia, políticas públicas de garantia mínima de subsistência (tais quais o Bolsa Família ou o Fome Zero) ou de compensação por prejuízos históricos (as diversas modalidades de cotas para as minorias sociais) são até hoje apontadas como ameaças à mesa ou aos espaços e bens materiais e/ou simbólicos acumulados pelos autoaclamados únicos meritosos naturais: os cidadãos da <em>classe média</em>. Contrariar essa crença é atacá-los, e, quando eles se sentem acuados, são capazes de qualquer coisa para terem um exército para chamar de seu &#8211; mesmo que isso os leve a ter de trocar New York por Nova Iguaçu.</p>



<p>Na outra ponta da imensa corda do medo que nos enlaça a todos, estão aqueles que, ao longo dos séculos, desenvolveram o legítimo desejo deliberado de evitação da morte: os progressistas. Entenda-se: não se trata de preocupar-se apenas nem principalmente com evitar a própria morte, mas também a de outros seres humanos, ou outros animais quaisquer&#8230; ou até de um bioma inteiro. Sim, porque evitar a devastação do meio ambiente (a de um ou mais biomas, portanto) é uma preocupação progressista, coisa que – 2020 tem nos mostrado – passa ao largo da atenção de quem só quer aumentar os limites do próprio latifúndio, seja ele dedicado ao plantio de <em>commodities</em> ou ao pasto para o gado – atenção à mensagem subliminar, por favor.</p>



<p>Não que o pensamento entendido como progressista tenha algo intrínseco de “bom samaritano”; não é isso. Na verdade, acontece apenas que o princípio mais geral de uma concepção progressista do mundo é a noção de que a promoção do bem estar físico e emocional comum, para todos e todas, é um projeto possível e, mais, necessário no afã de chegarmos à paz para cada indivíduo. Posto de outra forma, no ideário dito de esquerda, a fim de que cada um alcance a sua própria felicidade, é preciso buscar o contínuo progresso na distribuição das riquezas materiais e simbólicas que a humanidade, como um todo, produz. Entre essas tais riquezas contam-se, é claro, além dos bens naturais (tais quais a terra e a água), os culturais (p.e., o mais irrestrito respeito à noção dos direitos humanos, e a sua mais ampla difusão).</p>



<p>Não é difícil entender o choque político entre direita e esquerda. De um lado, está um pensamento que concentra esforços no sentido de acumular coisas (concretas e/ou abstratas), por estar medularmente preocupado com a garantia da sobrevivência do indivíduo e dos grupos com os quais esse mesmo indivíduo se identifique. Do outro lado, um ideário que, visando afastar ao máximo a morte (física ou simbólica) de tudo que é vivo, defende a distribuição equânime (não igualitária, é importante destacar!) daquilo que nós, enquanto espécie animal racional, herdamos, construímos e construiremos. Não é difícil inferir, portanto, porque um grupo se sente ameaçado pelo outro: a distribuição é iconicamente antagônica do acúmulo; a urgência de juntar e guardar o máximo para <em>Si</em> não reconhece os direitos nem as necessidades básicas do <em>Outro</em>.</p>



<p>O resultado dessa tensão milenar é o que vivemos neste momento: o estado da arte dos meios e das tecnologias de comunicação permite que muito mais gente seja capaz de vigiar a vida e as posses alheias; em paralelo, quase qualquer um no planeta pode ser <em>vigiado</em> (e <em>punido</em>, cf. Foucault) a qualquer tempo. <strong>Ao mesmo tempo em que pouca coisa pode ser guardada em segredo absoluto, cresce a indisposição para conhecer a fundo qualquer coisa diferente daquilo que já se conhece.</strong> O avanço das tecnologias de comunicação e informação nos lançou a todos, conservadores e progressistas, num tipo de panóptico radical, microfísico. Vem daí o medo.</p>



<p>O medo que tanta gente sente dos comunistas (de fato ou <em>fake</em>), dos presumidos pedófilos, dos maconheiros (categoria errática em que quase todo cabeludo boa praça periga ser enquadrado), dos homossexuais (assumidos), das travestis e dos transexuais, dos pretos (favelados ou não), dos deficientes, dos indígenas, dos adeptos de religiões de matriz africana&#8230; E também o medo que tantas outras pessoas têm de maridos e pais “homens-de-bem”, de patrões engomadinhos e suas canetas BIC, do fazendeiro e suas <em>aves-bala</em>, do grileiro com suas motosserras e fogueiras, do homem hétero marombado e com a cabeça raspada que anda sempre em grupo, dos religiosos de terno e com a bíblia debaixo do braço&#8230; Cada um desses seres pode assumir, hoje em dia, feições mais ou menos assustadoras, a depender de quem olha e das circunstâncias do olhar.</p>



<p>Hoje, assistimos ao pavor da mãe preta do policial militar quase branco que teme cair nas mãos de algum traficante quase preto. E é ainda por pavor instintivo que esse policial tantas vezes vai atirar primeiro e olhar depois, depois de já ter matado, por acidente, alguma criança inocente bem pretinha, ou alguma jovem engenheira meio loura que voltava da balada em seu carro que, para infelicidade de todos, era mais ou menos parecido com o de algum criminoso procurado justamente; ou não. A mãe branca da jovem talvez nem soubesse, mas decerto também tinha medo de que um dia algo assim acontecesse com algum conhecido seu; nem nas áreas nobres das grandes cidades se está a salvo.</p>



<p>2020 efetuou a soma de todos os medos e coroou-se com o desespero absoluto dos pais, mães, filhos e filhas de profissionais de saúde de todas as cores e orientações sexuais e credos religiosos e perfis socioeconômicos que, por obrigação profissional ou por amor, continuaram enfrentando os perigos cotidianos da vida e se mantiveram presentes e impávidos, cuidando de seus pacientes, fossem eles quem fossem, independentemente de crenças e gostos. Deve ter sido aterrorizante para esses profissionais ter que aprender a sobreviver e a conviver tão, tão proximamente com tanta, tanta morte.</p>



<p>O cruzamento do surreal com a distopia pariu o noticiário deste ano: criança caindo de edifício no Nordeste; adolescente assassinada acidentalmente pela amiga no Sul; médica plantonista linchada por boêmios canalhas no Sudeste; pessoas em situação de rua sem ter a quem pedir comida nas ruas das grandes cidades; idosos confinados com seus agressores por toda parte; o Cerrado, o Pantanal e a Amazônia em chamas; quase duzentos mil mortos, o país refém de uma quadrilha de psicopatas sádicos, e 40% da população sofrendo de Síndrome de Estocolmo.</p>



<p>2020 é uma experiência coletiva de terror. Resta sairmos dela mais fortes e mais sábios.</p>



<p><strong><em>Aos vencedores, razão</em></strong></p>



<p>Porque o mais cego instinto de sobrevivência e o legítimo desejo deliberado de evitação da morte são os dois lados da mesma moeda: o apego à vida! Conversemos!</p>



<p>Porque morrer não parece ser um gesto atraente, mas matar não pode ser a atitude mais sedutora do universo!</p>



<p>Porque, sem misticismo piegas, comer alimenta o corpo, mas ajudar a saciar a fome de alguém alimenta o espírito!</p>



<p>Porque ninguém são goza vendo <em>Malabaristas do sinal vermelho</em>, mulheres espancadas, gays perseguidos, homens pretos mortos a socos e pontapés, indígenas e florestas dizimados!</p>



<p>Porque a liberdade e a dignidade são valores que não têm preço, nem podem ter endereço!</p>



<p>Porque, se antes de 2020, a vida não nos ensinou a respeitá-la, não é possível que, junto dele, a morte não nos ensine!</p>



<p>A “namoradinha do Brasil” e “Odete Roitman” são personagens ficcionais. Nós somos seres humanos reais e capazes de mudar nossa vida e nossa realidade.</p>



<p>Que venha 2021 e, com ele, uma vida de verdade, sadia e <strong>justa para todes</strong>!</p>



<p>Assim façamos ser.</p>



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<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:20% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/1a42c-luciano-19.23.45.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-11365" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p><strong><strong>Luciano Nascimento</strong></strong> é mangueirense, filho, marido, pai, professor, flamenguista, psicopedagogo&#8230; mais ou menos nessa ordem. É, também, idealizador do projeto Dê Efiência.(<a rel="noreferrer noopener" href="http://www.deeficiencia.com.br/" target="_blank">www.deeficiencia.com.br</a>) E-mail: <a href="mailto:prof.lcnascimento@gmail.com">prof.lcnascimento@gmail.com</a></p>
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<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-large-font-size">Galeria: artistas para seguir na quarentena</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.instagram.com/tuncaliozge"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/43ef4-fotos-carol-copy.jpg4_-1021x1024.jpg?resize=950%2C953&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-11385" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-medium-font-size"><em>Apoie pautas identitárias. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>
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		<title>Editorial &#8211; Idiocracia em Brunzundanga</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 15 Nov 2020 21:29:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 071]]></category>
		<category><![CDATA[Idiocrassia]]></category>
		<category><![CDATA[Luciano Nascimento]]></category>
		<category><![CDATA[política]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Luciano Nascimento</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>O prefixo grego “<em>idio-</em>” significa “próprio, individual”, e está na origem da palavra “<em>idiotés</em>”, como eram chamados aqueles que não se preocupavam com a vida da comunidade, da cidade, a “<em>pólis</em>”. Àqueles que, ao contrário, se ocupavam das coisas comuns, do bem estar de todos, dava-se o nome de “<em>politikós</em>” (estou aportuguesando um pouco a grafia das palavras, ok?). Na Antiguidade Clássica, não se importar com o coletivo era algo tão mal visto socialmente que a palavra “idiota” passou a designar todo aquele que se fechava em si e, por consequência, se apequenava, se tornava mesquinho.</p>



<p>Também vem do grego o radical “-<em>cracia</em>”, que significa “poder, mando, governo”, e aparece em palavras como “autocracia” (governo centrado em uma só pessoa), “plutocracia” (governo de e para homens ricos) e em “cleptocracia” (governo exercido por corruptos, ladrões).</p>



<p>“Idiocracia”, então, é a paradoxal situação em que homens pequenos, interessados apenas em vantagens pessoais, assumem o poder. É exatamente isso que vemos acontecer hoje em <em>Bruzundanga</em> (a expressão é de Lima Barreto, que sempre merece nossa pesquisa e nossa leitura).</p>



<p>Os idiotas no comando de <em>Bruzundanga</em> não têm nenhum compromisso com a <em>cidade</em> (a <em>pólis</em>, ou o país, no caso), nem com os <em>cidadãos</em>, que podem até morrer de peste ou de fome, tanto faz (o importante é não serem “<em>maricas</em>”)! Eles só pensam em si mesmos – nunca é demais repetir: é isso que os define, eles são “idiotas”, não há por que esperar mais deles.</p>



<p>Os idiotas no comando de <em>Bruzundanga</em> não têm nenhum compromisso com a verdade: ora eles sequer a vislumbram (talvez porque ela esteja longe demais de seus próprios umbigos), ora eles a negam deslavadamente (quando ela contraria suas míopes convicções pessoais e/ou seus interesses privados).</p>



<p>Os idiotas no comando de <em>Bruzundanga</em> não têm nenhum compromisso com a Ética, nem com qualquer tipo de divindade, nem com o meio ambiente terreno ou com o cosmos. Tudo isso pressupõe a existência e o valor do <em>Outro</em> e, como já sabemos, os idiotas só pensam em si mesmos e nos próprios interesses.</p>



<p>Os idiotas no comando de <em>Bruzundanga</em> estão se reproduzindo descontroladamente, como uma praga, ou pior: um vírus. A vacina contra essa infestação vem da atitude política dos cidadãos, ou seja, da preocupação verdadeira de cada um com o real bem estar de todos; vem da manifestação dessa preocupação por meio do voto consciente e do posterior acompanhamento próximo da atuação dos políticos profissionais na cidade, no país.</p>



<p>É preciso conter a epidemia de idiotice em <em>Bruzundanga</em> enquanto ainda há tempo&#8230;</p>



<hr class="wp-block-separator" />



<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:20% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/1a42c-luciano-19.23.45.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-11365" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p><strong><strong>Luciano Nascimento</strong></strong> é mangueirense, filho, marido, pai, professor, flamenguista, psicopedagogo&#8230; mais ou menos nessa ordem. É, também, idealizador do projeto Dê Efiência.(<a rel="noreferrer noopener" href="http://www.deeficiencia.com.br/" target="_blank">www.deeficiencia.com.br</a>) E-mail: <a href="mailto:prof.lcnascimento@gmail.com">prof.lcnascimento@gmail.com</a></p>
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<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-flow wp-block-group-is-layout-flow">
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<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-large-font-size">Galeria: artistas para seguir na quarentena</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.instagram.com/tuncaliozge"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/43ef4-fotos-carol-copy.jpg4_-1021x1024.jpg?resize=950%2C953&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-11385" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-medium-font-size"><em>Apoie pautas identitárias. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>
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