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	<title>Arquivos o - Revista Trama</title>
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	<description>Arte, Cultura e Criatividade</description>
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		<title>Três tópicos sobre literatura: ensaio para uma (meta)crítica literária</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 07 Jul 2024 19:00:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 006, N 198]]></category>
		<category><![CDATA[arte]]></category>
		<category><![CDATA[Artigo]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[estudante]]></category>
		<category><![CDATA[estudo]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: Ariel</p>
<p>O post <a rel="nofollow" href="https://revistatrama.artebodoque.com/2024/07/07/tres-topicos-sobre-literatura-ensaio-para-uma-meta-critica-literaria/">Três tópicos sobre literatura: ensaio para uma (meta)crítica literária</a> apareceu primeiro em <a rel="nofollow" href="https://revistatrama.artebodoque.com">Revista Trama</a>.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong>1.INTRODUÇÃO</strong>&nbsp;</p>



<p>Não há dúvidas de que a arte literária é um terreno de disputas, ora mais evidentes no jogo de suas temáticas; ora mais subjacentes, quando postas no campo da estética. A natureza de tais conflitos, do mesmo modo, é plural e diversificada, encontrando diferentes problemas estruturais a depender do contexto em que a (o, e) estudiosa (o, e) procure estabelecer seu raciocínio. Diante disso, nesse ensaio, me proponho a discutir três aspectos do problema central dentro do campo do Valor e Prestígio Literário. Saliento que a emergência das discussões em torno da validação (ou invalidação) de determinadas vertentes da literatura contemporânea reacenderam a chama de semelhante tema, tal que isso serve de justificativa preliminar à necessidade premente de se trazerem à tona discussões que versem sobre: visão de obra enquanto Todo ou Parte, técnica em relação ao conteúdo e valores externos e seu impacto na construção, recepção e crítica do objeto literário. Este texto, destarte, por meio da pesquisa teórica, pretende discutir os referidos temas sem objetivar, necessariamente, esgotá-los, mas, <em>par excelence, </em>problematizá-los de acordo com as urgências da conjuntura hodierna.&nbsp;&nbsp;</p>



<p><strong>2.DESENVOLVIMENTO</strong>&nbsp;</p>



<p>Esta seção está dividida em três tópicos. No primeiro, discuto a dificuldade em torno de se estudar a obra literária pela ótica analítica, considerando seus elementos composicionais ou sua integralidade como um Todo. No segundo momento, ponho em destaque a problemática em torno do valor estético direcionado à forma e/ou ao conteúdo da obra. Enfim, no terceiro tópico, me proponho a refletir sobre o valor estético enquanto uma construção situada histórica, sociológica e subjetivamente. Também nesse ponto, ponho em discussão o problema da “simplicidade” ou da “complexidade” de um trabalho literário, tendo em vista que o viés apolíneo pregado como <em>standard </em>é, num contrassenso, mais simples do que o “simples”.&nbsp;&nbsp;</p>



<p><strong>2.1UNICIDADE E ELEMENTOS COMPOSICIONAIS</strong>&nbsp;</p>



<p>A tríptico bakhtiniano referente aos elementos composicionais do gênero discursivo e, posteriormente, textual-discursivo de Forma Composicional, Conteúdo Temático e Estilo (BAKHTIN, 2006) evidenciam a visão analítica do objeto literário. Isso, inclusive, porque a própria teoria do pesquisador russo parte da literatura. É, entretanto, também relevante destacar que a recepção do texto, enquanto uma materialidade ou não, se baseia não em uma justaposição de características alinhadas, mas de um todo homogêneo e indissociável de informações. Isso quer dizer que a totalidade do texto não é percebida somente através da recepção dos elementos composicionais colocados, mas como um Todo, cujo ordenamento dos elementos segundo uma lógica X ou Y, ainda que mantendo o mesmo conjunto de características, pode implicar distintas interpretações (KOCH, 1995). Em outras palavras: o Todo é maior do que a soma das partes.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Com efeito, a percepção da (aparente ou não) insolubilidade das concepções a partir da parte e do todo nos leva à problemática em torno da análise da obra. É dizer: se a análise de um objeto tem por pressuposto a separação de seus elementos e estudo individual de cada parte, o trato com um objeto cuja divisão implica sua fragmentação não permite análise <em>in partis</em>.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Isso, contudo, não é algo que se verifica dentro dos estudos literários, que se dedicam à observação, muitas vezes, de elementos comuns ou destoantes entre diferentes obras de distintos períodos. Mais especificamente, o campo da Teoria e História Literária se destacam nesse campo, com pessoal relevância para os trabalhos de Bosi (1994), Candido (1964), Reuters (2002) e Eagleton (1983). Na realidade, os dois primeiros citados propõem uma percepção evolucionária dos elementos narrativos ao longo do percurso temporal, ao passo em que os últimos se detêm sobre a temática das estruturas composicionais da literatura -enquanto uma materialidade e uma abstração-.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Talvez um dos críticos mais relevantes e cuja visão mais se lança frente à percepção da literatura como um processo <em>in continuum </em>e emparelhado ao curso da própria humanidade seja Lukács (2004). A visão idiossincrática do crítico, diferente dos anteriormente referidos, pensa a posição do protagonista dentro da triangulação Éthos-Obra-Sujeito. Evidentemente, o autor não emprega esses termos -próprios da análise discursiva de linha francesa-, mas sua percepção do romance burguês através da lente Consciência do Protagonista <em>versus</em> Consciência do Mundo revela um imbricado conhecimento da máquina literária dentro do mundo social burguês.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>A visão de Auerbach (2021) também é bastante interessante, afinal o autor se propõe a analisar a percepção mais além do texto, se aprofundando na nutriz da narrativa: a relação do sujeito e do mundo, algo também proposto -embora a partir de outra perspectiva- por Lukács. A <em>mimesis </em>aristotélica, destarte, pode ser de grande relevância, uma vez que a unidade textual é pressuposta para a ratificação da verossimilhança então visada na concepção da obra literária. Indo pela linha de análise do autor, aproveito para evidenciar que um dos exemplos mais destacados dessa busca pela unidade da obra é, justamente, Miguel de Cervantes (1998), cuja veia aristotélica se alça para além da narrativa e alcançando uma metaliteratura e a filosofia estética em seu <em>magnus opus</em>: o <em>Don Quijote</em>.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Sem embargo, unidade e unicidade são conceitos distintos. Isso, todavia, não quer dizer que não haja relação entre elas. O problema todo <em>versus </em>parte se relaciona com a relação paradoxal do observador, que não pode deter-se satisfatoriamente nos dois ao mesmo tempo. Contudo, a unicidade do material, cuja definição diz respeito à condição singular de cada texto literário (e também não literário). Isto é: tanto o estudo analítico da obra em face à sua integralidade quanto das transformações da literatura o longo do espaço tendo em vista as transformações de seus elementos implica um distanciamento da integralidade do que é, ao fim e ao cabo, a obra <em>per se</em>.&nbsp;&nbsp;</p>



<p><strong>2.2VALOR LITERÁRIO: FORMA E CONTEÚDO</strong>&nbsp;</p>



<p>De uma certa maneira, o dilema Forma <em>versus</em> Conteúdo presente na área da Crítica Literária não deixa de ser um desdobramento da percepção material do texto. É dizer: de que o enunciado concreto possui um determinado valor a partir do nível de complexidade que seu autor é capaz de articular na construção da mensagem. Do mesmo modo, <em>mutatis mutandis, </em>se percebe uma graduação do que seria mais ou menos nobre dentro das mensagens a serem comunicadas na literatura. Sobre essa última perspectiva, a Antiguidade e a Medievalidade foram pródigas em exemplos capazes de ilustrar a dualidade por vezes maniqueísta da noção estética em volta da arte literária (e de outras formas).&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Dentro dessa perspectiva, o problema da estética ocidental se vê, vez mais uma, diante de um viés binário. Na Espanha Medieval, a dualidade entre <em>Mester de Cleresía </em>e <em>Mester de Juglaría </em>deixa clara a cisão, que se estende mais além de Sagrado<em> versus </em>Profano. O que digo com isso é que a díade proposta por semelhante divisão alia, em um mesmo movimento, a apreciação formal, pessoal, ideológica e, sobretudo, estética. Assim, a repercussão do dito problema, embora nem sempre enunciada de forma tão clara no seio dos estudos literários, emerge ante um dos mais seculares sustentáculos desse campo: a escolha do cânon.&nbsp;</p>



<p>Resgatando o trabalhado em seção anterior, evidencio o que aponta Souza (2007, p. 21):&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Não se pense, no entanto, que todas as construções teóricas surgidas correspondem puramente ao tipo normativo ou ao tipo descritivo. Na verdade, as teorias nem sempre se reduzem assim, de modo esquemático, a este ou àquele grupo da distinção que estamos fazendo, sendo freqüente que oscilem entre as extremidades apontadas.&nbsp;</p>



<p>A perspectiva de Souza vem a ratificar que a problemática em torno da questão do valor não é meramente pensada pela perspectiva crítico-científica, que, mesmo entre os expoentes “normativos” -na linguagem do autor-, se fixa em aspectos estéticos da obra literária. É dizer: a perspectiva de estudo da obra, tema da seção anterior, carrega em si uma problemática referente ao <em>modus pensandi </em>ocidental. Contudo, mesmo a escolha da obra “digna de análise” é um ato que impacta sobre a dimensão das discussões ideológicas no campo literário. Dalcastagnè (2017) traz à tona esse tem adentro dos conflitos envolvendo a literatura contemporânea, marcada pela relação conflituosa de vozes em disputa.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Talvez em nenhum outro momento o tópico levantado por Dalcastagnè tenha sido tão evidente quanto na contemporaneidade. É certo que a disputa sempre foi uma característica das sociedades burguesas (MARX, 2015). No entanto, a reinvindicação pela revisão de um determinado <em>status quo, </em>ao qual a estética literária -ao menos no Brasil- esteve historicamente ligada. Basta rememorar o que discutem Castello, Medeiros e Almeida (2020) em seu artigo acerca da negativa à entrada de Conceição Evaristo na Academia Brasileira de Letras.&nbsp;</p>



<p>O que pretendo dizer com isso é que o embate entre <em>técnica </em>e <em>conteúdo </em>se adianta em relação à discussão sobre os parâmetros técnicos e as ideologias presentes no conteúdo. Isto é: a estética literária é algo em transformação (ROSA, 2020). Mais do que algo em transição, as noções que orientam a percepção do que seja <em>belo, grotesco, adorável </em>ou <em>horrendo </em>são atravessadas por estruturas de poder responsáveis por introjetar no sujeito as características que dotam os entes do mundo das citadas adjetivações (BERGER, 2023). Essa característica se estende em diferentes esferas, como a temporal, geográfica e cultural. Portanto, qualquer análise estética encontra-se em um terreno de subjetividades individuais e coletivas, algo que nos coloca em face de outro problema: a figura do estudioso.&nbsp;&nbsp;</p>



<p><strong>2.3COMPLEXIDADE E SIMPLICIDADE</strong>&nbsp;</p>



<p>Seguramente, os termos <em>simples </em>e <em>complexo </em>não devem ocupar, dentro da ciência, um lugar de juízo apreciativo. Afinal, ambas as noções carregam uma carga de subjetividade inadequada ao contexto em questão. Não obstante, com relação ao tópico anterior, deve ser evidente que o contato com o objeto literário não se realiza <em>per se</em>, mas, essencialmente, através de interações individuais. Essas, por sua vez, podem alterar-se a depender do sujeito, do momento em que a interação ocorre <em>etc</em>. Ora, isso implica, por extensão, assumirmos ainda que o <em>simples </em>e o <em>complexo</em>; o <em>belo </em>e o <em>grotesco; </em>o <em>sagrado </em>e o <em>profano </em>são construções que dizem respeito à maneira como indivíduos partícipes de um grupo histórica e sociologicamente localizado reagiram a semelhante objeto.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Minha provocação ao início dessa derradeira seção se baseia justamente nesse tema. Afinal, a simplicidade ou complexidade de uma obra são elementos caros à crítica, sendo adjetivações que transcendem o binômio forma-conteúdo. Assim, tanto a técnica quanto a mensagem estão sujeitas à incursão do que seria “simples” ou “complexo”.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Com efeito, retomo o problema do indivíduo na literatura, enfatizando agora o papel do crítico, ainda que esse -como aponta Queiroz (2019) &#8211; venha cedendo seu lugar de prestígio aos estudos técnico-científicos desenvolvidos nas universidades. Para a corrente mais tradicional da literatura, cuja vertente apolínea se destacou pelo apreço à forma estreita e apego à tradição histórica, é evidente o legado da falida linha estética de tradição greco-latina, sustentada no Brasil por autores como: Cláudio Manuel da Costa, Frei Santa Rita Durão, Olavo Bilac, Raimundo Corrêa <em>etc</em>.&nbsp; Não me detenho sobre a temática dionisíaca, cujo apogeu no Romantismo se caracteriza pela fantasia medievalista nos valores e pelo gosto por uma “liberdade contida” na forma. Digo contida, pois nenhuma obra romântica -mesmo tomando em conta o trabalho de Maria Firmina dos Reis e Maria Peregrina de Souza- teve o ímpeto e a audácia das vanguardas do século XX e das três fases do Modernismo em terras ultramarinas.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Feita essa digressão, destaco que o gosto elitista pelo metro rígido, pela rima bem ornada e pela estrutura “polida” da poesia de tradição clássica possui duas problemáticas inerentes. A primeira é a deformação subjacente do material, uma vez que o ritmo próprio do verso clássico -com especial atenção ao hexâmetro dactílico- tinham dois aspectos essenciais a considerar: a necessidade de criar recursos mnemônicos, dadas as condições de baixa alfabetização popular e a própria possibilidade estrutural do latim. Sobre esse último ponto, esclareço que o latim possuía -diferente do português- distintas durações silábicas, tal que se dividiam as primeiras em longas e breves (RÓNAI, 2000). Essa característica transferida à estrutura de tônicas e átonas da língua lusitana implica uma recepção distinta que não acompanha os propósitos funcionais da lírica clássica. O apuro métrico, também de emprego funcionalista, igualmente assume um <em>status </em>de “superioridade estética”.&nbsp;</p>



<p>Por uma outra perspectiva, no entanto, a análise estritamente material de uma obra regularmente ordenada em termos de rima e métrica se mostra muito mais “simples” e mesmo “fácil” quando posta em comparação à miríade labiríntica de possibilidades discursivo-semióticas da lírica moderna e contemporânea. Isso, inclusive, se visto exclusivamente em termos analíticos, abrange muito mais do que a obra de autores (as, es) já destacados (as, es). A explicação para tanto reside no fato de que a literatura também se relaciona com a conjuntura social, política, econômica <em>etc </em>que coroa o <em>éthos</em> do momento em que o sujeito escritor produz seu texto. Tais elementos, destarte, são, ainda que inconscientemente, insertados na materialidade da obra literária. Dessa forma, regressamos ao ponto inicial: os estudos literários se veem em um contexto de conflito epistemológico.&nbsp;&nbsp;</p>



<p><strong>3.CONSIDERAÇÕES FINAIS</strong>&nbsp;</p>



<p>Há um certo aspecto circular nesse ensaio, algo que, não fosse pela liberdade que o gênero textual me confere, prejudicaria o que almejo dizer e, em alguma medida, concluir. Na realidade, uma das percepções mais claras a serem evocadas nessa seção é justamente que os problemas sobre os quais refleti são insolúveis.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Não obstante, podemos destacar alguns elementos a serem sintetizados. Em primeiro lugar, destaco o fato de que a análise dos elementos literários diante do intento pela compreensão holística do produto implica uma limitação técnica da compreensão do objeto. Em segundo lugar, aponto que o dilema entre forma e conteúdo é também uma limitação inerente, uma vez que o valor estético se encontra submetido a distintos elementos exteriores à obra em si. Finalmente, em último lugar, sublinho que a percepção crítica está relacionada a um construto que influi sobre o indivíduo. Assim, a análise individual se vê atravessada pelos valores sociais, históricos, culturais <em>etc</em>. Portanto, o valor que se atribui a um texto não necessariamente parta de sua complexidade, inovação ou relevância social, mas de sua utilidade ao interesse do <em>status quo </em>predominante.&nbsp;&nbsp;</p>



<p><strong>REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS</strong>&nbsp;</p>



<p>AUERBACH, Erich. <strong>Mimesis: </strong>a representação da realidade na literatura ocidental. Editora Perspectiva S/A, 2021. Disponível em: <a href="https://www.google.com/books?hl=pt-BR&amp;lr=&amp;id=FG8ZEAAAQBAJ&amp;oi=fnd&amp;pg=PT3&amp;dq=Erich+Auerbach&amp;ots=H4eH48CPSG&amp;sig=tnU66yid2321kfGQVLtrfJMM9ic" target="_blank" rel="noreferrer noopener">https://www.google.com/books?hl=pt-BR&amp;lr=&amp;id=FG8ZEAAAQBAJ&amp;oi=fnd&amp;pg=PT3&amp;dq=Erich+Auerbach&amp;ots=H4eH48CPSG&amp;sig=tnU66yid2321kfGQVLtrfJMM9ic</a>. Acesso em: 03 de nov. 2023.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>BAKHTIN, Mikhail Mikhailovitch. Os gêneros do discurso. In: <strong>Estética da criação verbal</strong>. Trad. Paulo Bezerra. 4 ed. São Paulo: Martins Fontes, 2006, p.261-305.&nbsp;</p>



<p>BERGER, John. <strong>Modos de ver</strong>. Fósforo, 2023. Disponível em: <a href="https://www.google.com/books?hl=pt-BR&amp;lr=&amp;id=0YqnEAAAQBAJ&amp;oi=fnd&amp;pg=PT4&amp;dq=os+modos+de+ver&amp;ots=jVk6Lg7Fr5&amp;sig=N8b0K-E6JfhPLDdfjPQhSkHjj4s" target="_blank" rel="noreferrer noopener">https://www.google.com/books?hl=pt-BR&amp;lr=&amp;id=0YqnEAAAQBAJ&amp;oi=fnd&amp;pg=PT4&amp;dq=os+modos+de+ver&amp;ots=jVk6Lg7Fr5&amp;sig=N8b0K-E6JfhPLDdfjPQhSkHjj4s</a>. acesso em: 04 de nov. 2023.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>BOSI, Alfredo. <strong>História concisa da literatura brasileira</strong>. Editora Cultrix, 1994. Disponível em: <a href="https://www.google.com/books?hl=pt-BR&amp;lr=&amp;id=LG944ZsniVcC&amp;oi=fnd&amp;pg=PA5&amp;dq=alfredo+bosi&amp;ots=oYZ69Xd4k-&amp;sig=fC9nhBZgCCu-DJHyrFW8rmDmtyU" target="_blank" rel="noreferrer noopener">https://www.google.com/books?hl=pt-BR&amp;lr=&amp;id=LG944ZsniVcC&amp;oi=fnd&amp;pg=PA5&amp;dq=alfredo+bosi&amp;ots=oYZ69Xd4k-&amp;sig=fC9nhBZgCCu-DJHyrFW8rmDmtyU</a>. Acesso em: 03 de nov. 2023.&nbsp;</p>



<p>CANDIDO, Antonio. <strong>Formação da literatura brasileira</strong>. São Paulo: Martins, 1964. Disponível em: <a href="https://scholar.google.pt/citations?user=AbuJQYMAAAAJ&amp;hl=pt-BR&amp;oi=sra" target="_blank" rel="noreferrer noopener">https://scholar.google.pt/citations?user=AbuJQYMAAAAJ&amp;hl=pt-BR&amp;oi=sra</a>. Acesso em: 03 de nov. 2023.&nbsp;</p>



<p>CASTELLO, João Victor Martins; MEDEIROS, Júlia Oldra; ALMEIDA, Magali Lippert da Silva. Letras, elitismo e chá: a estrutura de poder na Academia Brasileira de Letras. <strong>Miguilim-Revista Eletrônica do Netlli</strong>, v. 8, n. 3, p. 125-136, 2020. Disponível em: <a href="http://periodicos.urca.br/ojs/index.php/MigREN/article/view/2155" target="_blank" rel="noreferrer noopener">http://periodicos.urca.br/ojs/index.php/MigREN/article/view/2155</a>. Acesso em: 04 de nov. 2023.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>CERVANTES, Miguel de. <strong>El Ingenioso Hidalgo Don Quijote de La Mancha</strong>. Ed. Francisco Rico. Barcelona: Instituto Cervantes &amp; Editorial Critica Barcelona, 1998. Disponible en: <a href="https://cvc.cervantes.es/literatura/clasicos/quijote/creditos.htm" target="_blank" rel="noreferrer noopener">CVC. «Don Quijote de la Mancha». Créditos. (cervantes.es)</a>. Accedido en: 09 de ago. 2023.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>DALCASTAGNÈ, Regina. <strong>Literatura brasileira contemporânea: </strong>um território contestado. Rio de Janeiro: Editora da UERJ, 2012. Disponível em: <a href="https://books.google.com.br/books?hl=pt-BR&amp;lr=&amp;id=SjHgDQAAQBAJ&amp;oi=fnd&amp;pg=PT4&amp;dq=regina+dalcastagn%C3%A9&amp;ots=QxANv5sBWZ&amp;sig=njN4oHTuesbUfVFSBsIVXOm4c9U&amp;redir_esc=y#v=onepage&amp;q=regina%20dalcastagn%C3%A9&amp;f=false" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Literatura brasileira contemporânea: um território contestado &#8211; Dalcastagnè,Regina &#8211; Google Livros</a>. Acesso em: 04 de nov. 2023.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>EAGLETON, Terry; DUTRA, Waltensir. <strong>Teoria da literatura: uma introdução</strong>. São Paulo: Martins Fontes, 1983. Disponível em: <a href="https://www.academia.edu/download/56123021/Terry_Eagleton_O_que_eh_literatura.pdf" target="_blank" rel="noreferrer noopener">https://www.academia.edu/download/56123021/Terry_Eagleton_O_que_eh_literatura.pdf</a>. Acesso em: 03 de nov. 2023.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>KOCH, Ingedore. O texto: construção de sentidos. <strong>Revista Organon</strong>, v. 9, n. 23, 1995. Disponível em: <a href="https://www.seer.ufrgs.br/organon/article/download/29382/18069" target="_blank" rel="noreferrer noopener">https://www.seer.ufrgs.br/organon/article/download/29382/18069</a>. Acesso em: 03 de nov. 2023.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>LUKÁCS, György. <strong>Teoria do romance</strong>. Editora 34, 2009. Disponível em: <a href="https://www.google.com/books?hl=pt-BR&amp;lr=&amp;id=1IEzCbknNcAC&amp;oi=fnd&amp;pg=PA7&amp;dq=teoria+do+romance+luk%C3%A1cs&amp;ots=0gE1zCTOxD&amp;sig=vvtQWcBDh4mxKF98Kf0hFXbOpP0" target="_blank" rel="noreferrer noopener">https://www.google.com/books?hl=pt-BR&amp;lr=&amp;id=1IEzCbknNcAC&amp;oi=fnd&amp;pg=PA7&amp;dq=teoria+do+romance+luk%C3%A1cs&amp;ots=0gE1zCTOxD&amp;sig=vvtQWcBDh4mxKF98Kf0hFXbOpP0</a>. Acesso em: 03 de nov. 2023.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>MARX, Karl. <strong>Manuscritos econômico-filosóficos</strong>. Boitempo Editorial, 2015.&nbsp;</p>



<p>QUEIROZ, Rachel de. <strong>Entrevista com Rachel de Queiroz</strong>: Programa Roda Viva. 2019. Disponível em: <a href="https://youtu.be/zzCoEwnI-Ek" target="_blank" rel="noreferrer noopener">https://youtu.be/zzCoEwnI-Ek</a>. Acesso em: 04 de nov. 2023. .&nbsp;&nbsp;</p>



<p>REUTERS, Yves. <strong>A Análise da Narrativa:</strong> o Texto, a Ficção e a Narração. Trad. Mário Pontes. Rio de Janeiro, DIFEL, 2002.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>RÓNAI, Paulo. <strong>Gradus primus curso básico de latim I</strong>. Cultrix, 2000.&nbsp;</p>



<p>ROSA, Hartmut. <strong>Aceleração</strong>: a transformação das estruturas temporais na Modernidade. Editora Unesp, 2020.&nbsp;</p>



<p>SOUZA, Roberto Acízelo Quelha de. <strong>Teoria da literatura</strong>. 10. ed. São Paulo: Ática, 2007.&nbsp;&nbsp;</p>



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<p><strong>Ariel Montes Lima</strong> é pessoa trans non-binary, psicanalista e professore. Em 2022, publicou os livros Poemas de Ariel (TAUP), Sínteses: Entre o Poético e o Filosófico (Worges Ed.) e Ensaios Sobre o Relativismo Linguístico (Arche).</p>
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		<title>Lado B-Lado A &#8211; uma estória de má interpretação</title>
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		<pubDate>Sun, 07 Jul 2024 18:59:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 006, N 198]]></category>
		<category><![CDATA[arte]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Lado A   Na cena musical é meio que praxe sequenciar duas ou três canções potencialmente comerciais para abrirem a audição. Há quem nunca na vida tenha se dado ao trabalho de virar o disco de vinil ou a fita cassete de lado. Existe gente pouco curiosa e gente uma música só – o hit do … </p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong><em>Lado A</em></strong><strong>&nbsp;</strong>&nbsp;</p>



<p>Na cena musical é meio que praxe sequenciar duas ou três canções potencialmente comerciais para abrirem a audição. Há quem nunca na vida tenha se dado ao trabalho de virar o disco de vinil ou a fita cassete de lado. Existe gente pouco curiosa e gente uma música só &#8211; o hit do verão ou dos infernos das outras estações. Já na literatura também é verdade que a primeira frase conta. O primeiro parágrafo idem, mas ela e ele são indicações, não se bastam, empurram a leitora ou o leitor para a frente. Se a primeira frase for ruim, dificilmente haverá engajamento. Outra coisa interessante que os do “contra” (rebeldes sem causa, outra maneira de malhar os que gostam de tensionar ordens) fazem é iniciar a audição pelo lado B. Uma maneira de reconfigurar a narrativa caso seja um disco narrativo. Nem sempre é o caso, aliás, contemporaneamente é pouco comum, uma arte praticada por Luedji Luna, Linniker, Josyara, Anelis Assumpção (das que me gritam agora, dentre outras e outros). Na literatura, basta citar Júlio Cortázar e o seu “Jogo da Amarelinha”, onde não há linha, nem lados, mas composições possíveis que mudam a narrativa. Um livro que produz muitos leitores, talvez alguns do “contra”, como um amigo meu.&nbsp;&nbsp;</p>



<p><em>Rê Rê Rê Rê&nbsp; I</em>&nbsp;</p>



<p>A outra versão desta estória, talvez a primeira, ou segunda, contando algum acontecimento real, começa com a reprodução da voz do Pica-Pau, quando ele fica mais louco no desenho animado, sendo justamente conhecido por Pica-Pau louco. Para ser bem honesta, desta versão, musical, um disco, quase só entendi isso mesmo. E não importa porque a ideia sempre foi usar os lados A e B, com suas respectivas faixas, como títulos e subtítulos de outra estória. Ouvir o disco foi um osso do ofício de quem não passa por cima das referências quando elas estão disponíveis, sem termos que derrubar uma lei ou um governo para acessá-las. A pena do preguiçoso é se achar original, herança romântica.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Rê, rê, rê, rê, quem é você?&nbsp;&nbsp;</p>



<p><em>Escola na Maldade</em>&nbsp;</p>



<p>Até o ano passado, nossa personagem dava bom dia entre dentes, arrotava em público, cantava alto no meio da rua, sentava no balcão para tomar uma cerveja. Neste ano, nenhuma destas coisas mudaram, mas elas são feitas por um monstro. Um monstro moldado por 254 dias de muitas traições, humilhações, enganos, dias de muita guerra e nenhuma glória, dias de solas gastas nas calçadas e nas noites, de sorrisos fáceis, de desconfianças.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Grade do ano letivo&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Segunda-feira &#8211; correr quatro voltas fugindo de falsos e falsas supostas amizades. Despistar antes de cortar cabeças com o facão.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Terça-feira &#8211; identificar trepadores de buceta desinteressados de todo o resto e comedores de cu na mesma pilha.&nbsp;</p>



<p>Quarta-feira &#8211; identificar fascistas e cantar mais alto nem que seja a Tarantella. Importante e objetivo: abafar o que dizem, impedir o que pensam, cortar a língua impugnando a língua através da língua. Fazer calar a boca, resumindo. Por outro lado, pesquisar polícias e milicos.&nbsp;</p>



<p>Quinta-feira &#8211; olhar burgueses como se fossem moscas. Modo de fazer: encare a pessoa de lado e pressione as sombrancelhas e os lábios como se você duvidasse do que está vendo. Depois só expresse desprezo. Você já aprendeu que burgueses não suportam inteligência, então, não finja ser inteligente, estude.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Sexta-feira &#8211; dia reservado para as leituras que não foram completadas durante os outros dias da semana. À noite &#8211; andar pelas ruas para observar, ouvir, falar, dançar, correr, cantar (qualquer outra coisa, incluindo trepar).&nbsp;</p>



<p>Sábado &#8211; morder pessoas desprevenidas ou oferecidas nas feiras da cidade. De sobremesa, um tomate ou laranja ou queijo de colônia com uma garrafa de vinho tinto (não é opcional).&nbsp;</p>



<p>Domingo &#8211; o clássico &#8211; roubar as hóstias da missa da manhã na Catedral antes da homilia (a ação pode se dar no sábado depois de ouvir umas musiquinhas punks na frente de algum culto). Curtir na pracinha fazendo careta para os pais bem limpinhos que não deixam as criancinhas correrem e se atirarem na grama e na areia e na terra e na lama.&nbsp;&nbsp;</p>



<p><em>As Putas</em>&nbsp;</p>



<p>Transamos gente e nem todas são necessariamente profissionais. Quem não gosta e não tem condições financeiras opta pelo mosteiro ou qualquer outra forma de vida longe do sexo (não que sejam todas santas ali). Nosso negócio é rua, alcova, festa, conforto e espelhos. Com isso ninguém disse que não faz um monte de coisa detestável. Na terça-feira, vespertino, nos revezamos nas lições na Escola na Maldade, por isso, decidimos, em assembleia sindical, que nas terças-feiras nenhuma de nós trabalhará com outra coisa que não a teorização das nossas práticas voltadas à ementa do curso. Nosso sindicato é trans-cis-geracional. Mas voltando à Escola, como a nossa disciplina foi introduzida há pouco tempo, graças aos esforços coletivos de nossa classe das putas críticas, vivas como espiãs na Guerra Fria, estamos acertando o tom das aulas. As alunas e os alunos são um público um tanto quanto divergente daquele com quem estamos mais habituadas a interagir, nesse sentido, estamos estudando quem são essas pessoas da tal Escola na Maldade. Nós mesmas andamos trocando uma ideia e decidimos que iremos participar de aulas de outras professoras e professores, interessadíssimas que estamos em modos de caçar fascistas já que não se faz um que não seja, não tenha a marca escarrada do sexismo, problema velho conhecido nosso. Algumas pessoas treinadas nas artes pedagógicas podem considerar pueril nossa preocupação com o programa da disciplina. Contudo, tudo começa já com a noção de disciplina. Na verdade, ninguém nos falou nestes termos. Nos surpreendemos com nossos próprios automatismos e enterramos a cabeça em antigas fórmulas. Armadilhas. Nessa, não ficamos presas. Chega de conversa: o que fazemos, como fazemos, como entendemos, como rearticulamos uma situação violenta? Um exemplo: se você está chupando um pau e a pessoa chupada acredita que pode enterrar a sua cabeça como uma planta na terra, você morde o pau e se afasta em direção a porta da rua. Aliás, primeira lição: evite a sua moradia, ela é esconderijo, não local de trabalho. Tal cuidado é indispensável para iniciar a pesquisa sobre os comedores desinteressados e seus contrários. Precisaremos abordar os aspectos da contratação de nossos serviços por terceiros ou terceiras a fim de que façamos a investigação, pois nestes casos as coisas se complicam um pouco, há que se discutir seriamente os movimentos e tempos da sedução. Pensando alto, anotamos em ata mais de quinze pontos que teríamos que colocar no papel para ensinar. Ainda não sabemos o quanto estamos dispostas a trocar numa primeira modalidade de estudos. Em aberto &#8211; aliás, abertura é um dos temas que não podem faltar &#8211; fisicamente e filosoficamente.&nbsp;&nbsp;</p>



<p><em>Lá Lá Lá</em>&nbsp;</p>



<p>Hora do recreio. Todo mundo louco. Um grupo já está com uma folha A3 estendida sobre uma mesa posicionada no centro do parque. Ali alguém já traçou duas curvas que se encontram num prédio bem conhecido do pessoal não por sua amabilidade. Logo adiante, vêem-se outras pessoas provando meias arrastão, testando maquiagens, trocando solas de botas para que seja mais fácil correr. Umas três pessoas se olham e treinam truques de mágica. Dá para escutar alguém mencionar uma espécie de palavra paralalá [ou será abracadabra?]. Uma bola corre de um pé para outro pé para a coxa e para outra coxa e para o pé de uma guria bem pequena que andava pelos arredores da Escola, com cara de quem tenta olhar pelo buraco da fechadura, mesmo onde não existem mais que passagens com poucas e selecionadas chaves. Algumas outras pessoas trocam receitas de fermento para pão e são chamadas na mesa do mapa. As dispersas também são logo convidadas à távola redonda. Ouvem. Outro momento do recreio se inicia: lá, lá, lá, lá &#8211; cantam todos excitados, esfregando uma mão na outra, se sentindo prontos.&nbsp;&nbsp;</p>



<p><strong><em>Lado B</em></strong>&nbsp;</p>



<p>Adiantamos que não pensaremos em termos de primeiro e segundo, ou seja, nosso sistema de classificação evitará a ordenação hierárquica de todas as formas. Mas lados são lados de um mesmo objeto, sem eles, o objeto existiria de outra forma. Tendo estes dois pontos em mente, sugerimos: evitando hierarquias, nossa capacidade de pensamento se complexifica porque não procura somente as relações opositivas, encontrando muitas relações associativas (incluindo as contraditórias). Sendo assim, nosso B só existe por conta do A. Nosso A só pode ser A com nosso B. São juntos. Não opostos. São inteiros, não metades. São as pausas que escolhemos para apresentar um argumento que na realidade chega de supetão.&nbsp;&nbsp;</p>



<p><em>Agradeça ao Senhor&nbsp;</em>&nbsp;</p>



<p>Ironia não se ensina. Ironia só acontece quando se sabe muito sobre algo. Quando se vive na verve de dobrar as pseudo verdades eternas, pretensamente naturais, bem apresentadas em manuais de aprendizagem rápida e rasteira. Desestabilizar todas as posições de poder que exigem cabeças baixas ou joelhos dobrados ou mãos estendidas diante do peito. Não há senhor no nosso céu e sob o nosso céu existimos todos. Sem senhores para agradecer, portanto. O que não quer dizer que não agradeceremos uma mão que pega firme no objetivo conosco. Sem o mando de um senhor onisciente, a orientação dos outros senhores de chicote, arma ou caneta na mão, perde sua justificativa transcendental. Os senhores ficam nus. Senhores? Quem? Não os reconheceremos. Os combateremos. Quem produz organizará junto com quem produz, sabendo valorizar a capacidade de cada um. Dizer mais o quê? Abaixo todo Senhor até que não reste nem a lembrança do conceito!&nbsp;</p>



<p><em>Só há uma maneira de se viver</em>&nbsp;</p>



<p>MENTIRA. MENTIRA. MENTIRA. MENTIRA.&nbsp;</p>



<p>Uma pessoa pode, sim, viver muitas vidas durante seu tempo sobre a Terra. Pode rodar por muitos lugares. Pode aprender a cosmologia de outros povos sem sair de casa por tudo que já foi registrado. Pode entender que a sabedoria não está num único livro, numa única história. Pode desvendar a si mesma através da troca com outras pessoas. Aliás, concretamente não existe um jeito só, uma maneira só. E não há razão para se imaginar que um jeito suprima outro jeito quando o encontro entre jeitos e a intenção real de mútua compreensão tende a fazer proliferar ainda mais jeitos até que algumas coisas pareçam um pouco semelhantes através dos milênios, séculos, anos, até mesmo dos dias. E não há qualquer razão para restringirmos o jeito ou os jeitos a uma só espécie, já que os jeitos das tantas espécies viventes são tão ricos quanto os outros. Aprender como movimento de nascer todos os dias.&nbsp;&nbsp;</p>



<p><em>O amor&nbsp;</em>&nbsp;</p>



<p>O amor que não foi inventado por homens em gabinetes é aquele que nos interessa. O amor como sentido e ação que não aceita a posse travestida de segurança. Encontros que sabem estar no olho do furacão dos afetos que querem estar ao lado e não acima ou soterrados em palavras repetidas por séculos de adestramento sexual. O amor tomado na caminhada que se deseja junto, na beira da praia, ansiando mergulhos para abraçar molhado depois da onda passar. Uma presença para preparar a comida e ser comida, uma presença que não dá indigestão porque resiste a ser apodrecida por todas as normas que destroem a vitalidade dos corpos reduzindo-os a si mesmos ou mesmo amputando a si mesmos. Um amor mistura e esquecimento na embolação das peles e salivas e gozos. O amor de lembrar de que seria tão melhor fazer isso contigo, com ela, com ele, um amor que pode fazer mais quando o mundo diz: isso é pouco. O pouco do mundo capitalista será o mais dos amantes rebeldes, renegados, curiosos, teimosos, que desenham outro mundo com a ponta dos dedos nas costas de alguém que já é um universo. O amor como declaração de apreço pelo querer que aglomera. O amor verbo amar o real divino de viver junto.&nbsp;&nbsp;</p>



<p><em>Rê Rê Rê Rê II</em>&nbsp;</p>



<p>Aprenda a xingar na hora certa. E vá aproveitar a sua festa preferida. Se o Pica-Pau bancar o engraçadinho nela, pega uma pena e escreve um destratado político.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>[Exercício de desvirtuar o disco “Agradeça ao Senhor” dos Atahualpa y us Panquis, 1993. Se funcionar, podemos fazer mais. Senão, azar. Por hoje acabou porque é a hora do almoço]&nbsp;</p>



<p class="has-text-align-right">Porto Alegre, 21 de fevereiro de 2024.&nbsp;</p>



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<p><strong>Sara Caumo Guerra</strong>. Nasceu no interior do Rio Grande do Sul, Garibaldi, em 1982. Mora em Porto Alegre. Mexe com história, antropologia da ciência e da burocracia, relações de gênero e sexualidade, lê mil coisas que aparentemente não fazem sentido para o seu trabalho. Mil coisas. E aprende (contra também).&nbsp;</p>
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